Luiz de Mattos Por Antonio Cottas



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Luiz de Mattos
Por Antonio Cottas
Seu nome todo era Luiz José de Mattos Chaves Lavrador , mas assinava, apenas, simplesmente, despretensiosamente, Luiz de Mattos.
Nascido na Vila de Chaves, Província de Trás-os-Montes, (Portugal), a 3 de janeiro de 1860, era filho de José Lavrador, natural de Orence, província da Galiza – Espanha – descendente, em linha reta, dos fidalgos Lavradores, e de Dona Casemira Julia de Mattos Chaves, que descendia por sua vez, dos grandes lutadores e fidalgos Mattos Chaves – fundadores da linda, hospitaleira e salubérrima Vila de Chaves.
Aos 13 anos, em 1873, veio para o Brasil, desembarcando no Rio de Janeiro, onde o esperava o seu irmão Victorino de Mattos Lavrador, negociante em Santos, que o internou no Colégio São Luiz, em Botafogo, para seguir os estudos.
O desejo, porém, de Luiz de Mattos era ir para Santos, no Estado de São Paulo, para ficar em companhia de seus irmãos Victorino e João de Mattos Chaves.
Partiu, assim, autorizado por seus tios, para essa cidade, tempos depois, onde se empregou em importante casa de estivas – secos e molhados em grosso – e da qual se passou, mais tarde, para o comércio de café, desenvolvendo aí grande atividade.
Dono de uma inteligência invulgaríssima, tudo assimilou com incrível facilidade, neste novo ramo de comércio, nada havendo que ele não soubesse fazer, com perfeição, inclusive ensacar, empilhar, separar e qualificar o café.
Seus chefes, que muito o estimavam e admiravam, despacharam-no para o interior de São Paulo e Minas Gerais, com a incumbência de comprar e obter consignações de café.
Entregue a essa nova atividade fez ele as mais elevadas relações, com políticos, fazendeiros, negociantes, industriais, literatos, etc., chegando a alcançar as maiores simpatias entre compradores e vendedores de café, sendo, em breve, o mais considerado dentre os seus colegas.
Despedindo-se da casa em que trabalhava, para se estabelecer, iniciou-se aos 23 anos como comissário de café; seu capital era pequeno, mas as suas excelentes relações que tinha no interior, a sua grande simpatia, concorreram para que, ao saberem-no estabelecido, os fazendeiros lhe mandassem a maior parte das suas colheitas, e assim foi ele fazendo uma casa importante, a ponto de tornar-se a maior casa portuguesa em Santos, naquela época, exportadora de café.
Conhecedor profundo da matéria, prestimoso na prestação de contas aos seus comitentes, alastrou-se a propaganda da sua casa de tal forma, que os fazendeiros, mesmo os que não o conheciam, lhe faziam grandes consignações.
Sempre ativo e trabalhador, Luiz de Mattos chegou aos 26 anos já possuindo valiosa fortuna. Foi ele fundador de diversas empresas nesta Capital e em Santos e dentre elas, a Companhia Internacional de Santos, o Banco de Santos, a Companhia Industrial, a Companhia Carris de Ferro, etc.
Convém observar que esta última foi organizada em época de grandes dificuldades financeiras. Só mesmo seu irresistível prestígio poderia conseguir traduzir em realidade uma idéia quer demandava de pronto de avultado capital. Além destas e outras empresas Luiz de Mattos foi igualmente o fundador da Sociedade Humanitária dos Empregados do Comércio, do Real Centro da Colônia Portuguesa, etc.
Entre outros serviços humanitários, destacam-se os que desveladamente fez à Sociedade Portuguesa de Beneficência de Santos. Achava-se em completa decadência essa instituição benemérita, quando Luiz de Mattos, ainda materialista, mas impulsionado pela grande generosidade de sua alma, – que até então desconhecia como partícula da Inteligência Universal –, pôs ombros à espinhosa e árdua tarefa de a levantar da prostração em que se achava, e que a aniquilaria por completo, se à sua frente não se pusesse esse homem admirável, cujo semblante de mata-mouros, se contradizia com a brandura da alma de que era dotado.
Foi tanta a sua dedicação, tão desvelado, tão intenso o ardor com que se atirou a esse empenho, que em pouco tempo conseguia ver coroados do melhor êxito os seus nobilíssimos esforços. A Sociedade Beneficente de Santos ficou em ótimas condições, no mesmo pé de igualdade das mais importantes agremiações, suas congêneres, existentes no Brasil.
O que Luiz de Mattos, como presidente dessa associação, despendeu do seu bolso em auxílio a portugueses enfermos e indigentes, eleva-se a avultada cifra. Nessa sociedade teve ele o título de Benemérito.
Eleito Diretor da Associação Comercial de Santos, por diversas vezes, a ininterrupta recondução ao cargo era a melhor prova da estima que brasileiros e portugueses lhe tributavam.
Benemérito, por índole, de tudo que dava não admitia alarde; os beneficiados, porém, não se podiam conter e de boca em boca passavam o bem que ele fazia.
No Asilo da Infância Desvalida de Santos, desde jovem foi ele incluído no número de seus grandes Benfeitores.
A todas as instituições humanitárias ele comparecia com prazer, auxiliando-as tanto quanto lhe era possível.
Grande abolicionista, amigo dedicado de José do Patrocínio, Julio Ribeiro, Chico Glicério, Campos Sales, Bernardino de Campos, Santos Pereira, Luiz Gama e outros, bateu-se sempre pela abolição. Quando promulgada a lei de 13 de maio, ele, o Dr. M. Homem de Bitencourt e outros brasileiros e portugueses realizaram em Santos esplêndida festa em comemoração do grande acontecimento, que fazia entrar definitivamente o Brasil no convívio das nações civilizadas.
Em 1890 foi incluído seu nome no Boletim Republicano dirigido ao Eleitorado Paulista, por ocasião do golpe de estado de Deodoro. Trata-se, sem dúvida, de um belo documento para provar a alta estima em que o povo paulista e políticos tinham por Luiz de Mattos, que, embora havendo nascido em Portugal, era para eles tão brasileiro, como os aqui nascidos, visto ter, desde criança, acompanhado, com vivo interesse, o progresso e trabalhado pela felicidade do povo brasileiro, com ele e por ele se batendo ao lado dos nacionais honrados daquele tempo, que acima dos interesses do bolso sabiam colocar os da Pátria.
Esquivou-se, embora descontentando muito os amigos, de aceitar o lugar de representante do povo paulista, como Deputado, por não querer deixar o cargo de Vice-Cônsul de Portugal, que vinha exercendo, nobremente, desde 1887, e mesmo por entender que não devia naturalizar-se, pois um ato desses praticado por ele, naquele tempo, reputava indigno. Dizemos naquele tempo, porque, depois que descobriu a Verdade e passou a explanar a Doutrina de Cristo, compreendeu e se convenceu de que Pátria apenas uma existe – O UNIVERSO – e que a seleção de povos e raças era como continua a ser urna consequência da ignorância em que viviam e vivem, ainda, todos os povos do planeta Terra.
Tempo chegará em que as guarnições defensoras das fronteiras de cada nação desaparecerão, visto que, à medida que os povos se forem conhecendo como Força e Matéria, irão desaparecendo os egoísmos, as rivalidades e uma só Constituição existirá, dentro da qual tudo se regerá, imperando, nessa altura, leis adequadas, de acordo com as leis sábias, naturais e imutáveis que regem o Universo.
Como autoridade consular em Santos, deve-se a Luiz de Mattos o fim das cenas desagradáveis, havidas naquela cidade, entre trabalhadores e praças de polícia ali destacadas.
Com o entendimento havido entre ele e o Dr. Bernardino de Campos, então chefe de polícia, em São Paulo, viram-se serenar os ânimos, restabelecer-se a ordem e voltar à calma e ao trabalho a cidade de Santos, sendo Luiz de Mattos, alvo de grande manifestação popular.
Na Capital Federal, tinha ele também casa filial à de Santos para negócios de café, cuja direção estava confiada a um seu irmão.
Em café, por mais de uma vez perdeu e ganhou fortuna.
Era um empreendedor, um criador, um reformador.
No comércio de café, criou o hoje desenvolvido sistema denominado café "a termo" que, executado dentro dos seus moldes é um negócio lícito, inteligente, moderno e de grande vantagem para o lavrador, o intermediário e o comprador.
Entre comerciantes e corretores na praça de Santos, nada era resolvido sem que primeiro fosse ouvido o Luiz, como na intimidade comercial de café o tratavam.
Qualquer negócio de vulto em café, não era resolvido sem o seu conselho. Era voz geral: "Vai consultar o Luiz, primeiro".
Deixou os negócios de café para recolher-se à vida privada, comprando então grandes áreas de terras, em Santos e no Rio de Janeiro. Homem de vistas largas, previdente com relação ao futuro, tinha a certeza do grande valor que iam adquirir os terrenos quer urbanos, quer suburbanos ou rurais.
Mas, estando ainda cheio de vitalidade, sentia-se mal fora da atividade comercial, e daí o ter deixado Santos, para organizar e criar, na Capital, a Empresa do Lixo e o Monopólio das Carnes Verdes, empresas estas as mais importantes daquela época, que produziam rendas colossais. Tinha, porém, esse grande empreendedor o grave defeito de confiar em demasia nos outros, e daí o ser por vezes furtado nos seus haveres e no seu sossego.
Luiz de Mattos era escravo dos seus deveres, quer para com os seus negócios, quer para com a sua família, e mesmo para com os amigos.
Quando fora de seus negócios, vivia exclusivamente para a família. Nessas horas de repouso, entregava-se à leitura de obras de autores recomendáveis e pessoa alguma era capaz de o encontrar sem uma ocupação útil.
Sua biblioteca era rica; e já quando rapaz, era mais fácil vê-lo agarrado a um livro, a devorar-lhe os ensinamentos, dos que vê-lo a palestrar.
Amigo da caça e da pesca, foi, por excelência, um admirador da Natureza.
Fugia da Sociedade, para entregar-se ao campo.
A educação dos filhos foi esmerada; não consentia que lhes pousasse uma mosca. E não era só aos filhos, mas também aos sobrinhos, que lhe eram entregues para, como homem de princípios, velar pela sua educação e instrução.
Acompanhando o desenvolvimento de todos, ia fazendo um estudo psíquico de cada um. O seu enlevo, a sua preocupação era um filho varão, a quem ele queria preparar para o substituir nas suas grandes empresas.
Somente permitia a frequência à sua casa de pessoas portadoras de qualidades e virtudes comprovadas.
Era austero, mas duma bondade sem limites, metódico e disciplinado. Tinha horas para tudo. Com os filhos brincava, fazia ginástica, ensinava-lhes tudo quanto era preciso saber, quer para estar na sociedade, como para defender-se dela e assim dos perversos, ensinando-lhes a manejar desde a arma branca até as armas de fogo.
As filhas vestiam todas por igual. Mandava ensinar-lhes tudo quanto quisessem aprender, e esses ensinos eram ministrados em casa por professores ou professoras, na presença de uma pessoa de respeito, da família. Sós, com professores ou professoras, pessoa alguma era capaz de vê-las.
Tinha a noção exata da moral cristã. Não admitia misturas. Suas filhas ou sobrinhas à rua não saiam sozinhas, nem tão pouco passavam dias em casa de família alguma, por mais íntima que fosse.
Desde o calçado ao penteado tudo ele observava e quando alguma coisa estava fora dos seus princípios, imediatamente mandava modificar. A uma das filhas cujo casamento estava próximo, mandou modificar o penteado com que certa vez se apresentara por outro mais de acordo com seus princípios austeros, mas artísticos.
À sua mesa de refeições, todos tinham que se sentar com compostura e ordem.
Cada filha servia à mesa, uma semana.
Suas filhas sabiam tudo, desde a cozinha à pintura, à música e aos trabalhos de lavor; sabiam manejar instrumentos, não só na cozinha, como na sala de visita.
Em sua casa, nunca se podia estar sem uma ocupação: lendo, bordando, pintando, costurando, etc.
Não tinha religião alguma. Materialista que foi até aos 50 anos, analisou as diversas religiões, através da história, e concluiu que as que não eram filhas da mitologia, eram animalizadas.
Dentre as oito mil que uma estatística de Barcelona relatava, destacava ele a Católica, tendo como seu Chefe o Papa, residente no pomposo Vaticano, dizendo-se representante de Cristo e apresentando-o como um poltrão, que, havendo apanhado uma bofetada numa face, ofereceu a outra ao ofensor para provar sua humildade. Ora, ele, Mattos sendo um homem de ação, um lutador incondicional, não podia aceitar tamanha monstruosidade, e daí o quedar-se livre pensador, materialista honrado, criando para si a religião da família, para a qual vivia.
Acometido de um colapso cardíaco, esteve às portas da sepultura alguns dias e noites, não vendo na sua frente mais que sete palmos de terra gélida, onde iria terminar o corpo.
Teve nojo da vida e do viver, raciocinou e analisou que não era possível, na sepultura, extinguir-se a vida do homem; algo mais importante devia existir, que era a alma; o que ela fosse, porém, não sabia.
Melhorou ele, mas adoeceram seus filhos; o médico assistente, seu velho amigo Dr. Oliveira Botelho, aconselha-o a não lhes dar remédios e sim uma alimentação escolhida, pois era caso perdido, estavam tuberculosos e, se houvesse cuidado na alimentação, ainda poderiam prolongar a existência, mas por pouco tempo.
Entristecendo-se com o que o seu velho camarada lhe disse, retrucou-lhe Oliveira Botelho:
– Luiz, a medicina nada sabe, vive ainda de apalpadelas e suposições; eu, se não fosse diabético e ignorasse que estou para morrer dentro de meses, ia estudar o Espiritismo, pois lá algo de científico existe.
Luiz de Mattos, que abominava o Espiritismo ao ponto de fazer suas filhas copiar obras contra o mesmo, censurou o médico e disse-lhe que parecia ter perdido o juízo, pretendendo ser espírita. Botelho confirmou o que dissera e aconselhou Luiz a estudar o espiritismo. Este, que já não suportava setaristas e muito menos ainda espíritas, pois nessa gente só observava bêbados, amostrengados, doidos varridos, julgou um absurdo o conselho de Botelho.
Andam os tempos. Luiz de Mattos estuda medicina para curar os seus, e chega à conclusão de que o Botelho lhe dissera a verdade com respeito à medicina, pois, analisando o corpo humano pelo estudo anatômico, concluiu não passar este de uma série de engrenagens, tão artisticamente ligadas que à mais pequena molécula afetada, todo o organismo tinha de ressentir-se, e, assim sendo, o ser humano era anormal em maior ou menor grau.
O dentista Fonseca, de quem a família de Luiz de Mattos era cliente, frequentava assiduamente o Espiritismo Racional e Científico, e aconselhou-a a que tirasse lá receitas e que havia de colher resultado satisfatório, pois curas extraordinárias já se tinham constatado.
Acedendo aos seus conselhos, foram as receitas tiradas, sem que disso soubesse Luiz de Mattos; à medida que os enfermos iam usando os remédios, melhoras sensíveis obtinham.
Certo dia, o seu amigo M., negociante laborioso, proprietário de uma torrefação de café, o estava esperando para pedir-lhe que fosse com ele ao Espiritismo praticado por certa gente honesta, adiantando que curas importantes estavam sendo feitas. Disse mais que tendo gasto uma fortuna com o tratamento de sua esposa, sem obter melhoras, estava esperançado de lá encontrar o remédio para curar o mal que avassalava a sua companheira.
Ouvindo-o atentamente, Luiz de Mattos diz-lhe:
– Mas então tu, M., queres perder toda a tua fortuna? Não sabe que os praticantes do espiritismo são uma corja de patifes? Toma juízo, M., e deixa-te disso; eu não te posso acompanhar a tais antros, onde só se encontram bugigangas, bêbedos, exploradores e patifes da pior espécie. Não te metas com semelhante gente que acabas mal.
O amigo ficou muito entristecido, mas não perdeu a esperança em conseguir a sua companhia.
Todos os dias Luiz de Mattos por ali passava e sempre entrava para cumprimentar o amigo M. E assim é que no outro dia volta este a pedir-lhe, com insistência que fosse com ele, não acedendo ainda desta vez Luiz de Mattos, que sustentou o que anteriormente dissera. No terceiro dia, como de costume, entra Luiz de Mattos no estabelecimento do amigo M. ; sentado a ler o jornal encontrava-se Luiz Alves Thomaz, que a esse tempo não mantinha relações íntimas com Luiz de Mattos mas, assistindo à reiteração insistente do pedido que M. fazia a Luiz de Mattos diz-lhe aquele:
– Se o Comendador Mattos for com o M., eu vou também. Mattos, à vista do exposto e da insistência, disse:
– Pois bem, eu vou. Às tantas horas passem lá por casa, para seguirmos.
Felizes pela resposta, despediram-se, e à hora marcada partiram para a casa de Luiz de Mattos; este já preparado, não se tendo esquecido do seu artístico punhal e do seu verdadeiro "Smith and Wesson", saíram a caminho do Espiritismo ainda desconhecido por eles, movidos mais por curiosidade do que pela vontade de praticá-lo.
Ao chegar à porta dum "casebrezinlno", já o estava esperando um homem que lhe diz:
– Sr. Comendador, o nosso presidente Astral, Padre Antonio Vieira, ordenou-nos que, quando o senhor chegasse, lhe déssemos a presidência dos trabalhos.
– Estás maluco, homem, eu não entendo disso, eu fico mesmo aqui da porta a presenciar.
Mas, diante da insistência, quer do homem que o esperava à porta, quer dos seus dois amigos, lá foi ele para a cabeceira da mesa.
Aberta a sessão, feitas as preces (Irradiações), atúa o Guia Médico no médium sentado à direita, e lidos diversos nomes a cada um eram prescritas instruções. Curioso e investigador, Luiz de Mattos, que, atentamente, presenciara tudo, pede após a terminação dos trabalhos, os originais das receitas, levando-os para sua casa em cujo escritório se fecha e dirigindo-se à sua mesa de trabalho, senta-se, procura concentrar-se, fechando os olhos para fazer o mesmo que havia visto; mal sabia ele que estava correndo um grande risco, podendo até desencarnar nesse momento, avassalado pelo astral inferior. Examinando o que havia escrito verificou que o que o médium havia deixado no papel estava escrito em ordem, os tt traçados, os ii ponteados. Procurou fazer o mesmo e não o conseguiu.
Principiou aí o inicio do seu raciocínio sobre a Força fora da Matéria. Ele conhecia medicina, era inteligente e nada pudera fazer, ao passo que o médium, quase analfabeto, tinha produzido trabalho admirável.
No dia seguinte, já não eram os amigos M. e Luiz Thomaz que precisavam pedir o seu comparecimento; era ele que desejoso de estudar, os avisava para, às horas certas, não faltarem. Chegada a hora, de novo partiram para o Espiritismo e, como anteriormente, havia ordem, no Centro, dada pelo presidente Astral, para que assumisse a presidência Luiz de Mattos, logo que chegasse. Assumida por ele a presidência, na hora dos trabalhos, após o receituário e algumas instruções, o presidente Astral pede que se concentrem e é dada, por escrito, uma comunicação em francês, legível, livre de erros, causando sério espanto a Luiz de Mattos, e tanto que este chegou a perguntar, após a sessão, se o médium tinha ilustração, e mandado-o escrever, após os trabalhos, a fim de se certificar se era verdade, ou não. Não fosse estar sendo vítima de alguma mistificação.
Informado das condições morais, materiais e intelectuais do médium, certo ficou de que fenômeno importante se passava.
Conversando com Luiz Thomaz e outro amigo, disse-lhes que o que vinha observando causava-lhe grande espanto forçando-o a meditar sobre a causa dos efeitos que

observava. Novamente, no dia seguinte, para lá foram.


Iniciados os trabalhos, pede ele receita para os seus, e, após receitar, o Guia Médico, Dr. Custódio Duarte, diz-lhe: "Já são meus enfermos, estão melhorando e hão de ficar bons". Admirou-se e só nesse dia ficou sabendo que, de fato, já os seus se estavam tratando lá. Dada também uma comunicação em inglês, ele a analisou e verificou estar claramente legível.
No fim da quarta sessão que Luiz de Mattos, sem interrupção vinha presidindo, atua um espírito num dos médiuns ao lado dele e insulta-o barbaramente. Desconhecendo esse fenômeno e supondo fosse o médium o insultador, leva a mão ao bolso para sacar o revolver, quando rapidamente fica atuado o outro médium e fala-lhe Padre Antonio Vieira:
– Acalma-te! Quando para cá vieres deixa lá isso em casa; pois, então, não vês que o médium é um simples porta-voz dos espíritos? Como querias agir por essa forma, se no espírito não podias atirar, nem matar?
“Tem paciência, estuda, eu te ajudarei; porém, é a ti que compete doutrinar, não só esse, como tantos milhares de outros que te irão aparecer, e assim precisas ajudar-me a limpar a atmosfera da Terra dos jesuítas que nela se tem quedado para a prática, ainda mais desenvolvida, de crimes que também já praticavam quando encarnados. Acordaste tarde; era para aos 26 anos teres iniciado comigo estes trabalhos, mas já que despertaste agora e foi preciso que te sacudisse o ataque cardíaco, para te lembrares que a vida não desce à sepultura e sim ascende ao Espaço, a ligar-se a outras vidas, não podes mais perder tempo Ajuda-me, pois, meu filho, estuda, e outros a ti se juntarão para levar por diante a bela doutrina de Cristo.
"Esse espírito que acabou de manifestar-se é Ignacio de Lovola, teu e meu companheiro em diversas encarnações. Há 400 anos que ele se queda na atmosfera da Terra, como terrível obsessor e chefe de grandes falanges. Cabe a ti doutriná-lo e mostrar-lhe o erro em que vive".
Acalmado tudo e encerrada a Sessão, não mais faltou Luiz de Mattos aos trabalhos nesse Centro, pobre materialmente falando, mas riquíssimo de luz, de inteligência, de saber, enfim.
Nas sessões seguintes novamente se manifesta Loyola e, prevenido que estava Luiz de Mattos pelo Guia Padre Antonio Vieira, deixou Loyola falar à vontade. De súbito, Luiz de Mattos entra numa longa dissertação da Natureza, referindo-se a Deus, não à semelhança do homem, mas como Inteligência Universal a irradiar por toda parte onde existe vida.
Loyola espanta-se do que ouve do seu ex-companheiro jesuíta, quando Frei Bernardo ou S. Bernardo, e pergunta-lhe:
– Mas tu que, como eu, não acreditavas, em Deus, tu que até há pouco eras ateu, eras materialista, como e onde foste aprender coisas tão belas como as que me explicaste?
– Amigo, o grande Padre Antonio Vieira, de nós muito conhecido, disse-me ser preciso acordar, que no Universo apenas existem Força e Matéria e que na Terra os encarnados são instrumentos simplesmente do bem ou do mal. Portanto, se o que eu te disse te espantou, eu nada mais fui que porta-voz das Forças Superiores, que a seu encargo têm a remodelação do planeta e tu a elas precisas pertencer.
Grande foi o diálogo havido, porém o resumimos e damos apenas uma idéia de como se iniciou o chefe do Racionalismo Cristão nesta bela doutrina.
Enquanto Luiz de Mattos dissertava, com sua voz de trovão, de orador, de impulsionador, Loyola, cada vez mais iluminava sua alma e, rompendo do véu de negrura em que estava envolvido, ia vendo, luminoso, radiante, o espírito de Luiz de Mattos, assistido por Antonio Vieira, Camões, S. Pedro, Custódio Duarte e tantas outras almas suas conhecidas. Reconhecendo-se vencido pelas verdades que havia proferido Luiz de Mattos, Loyola pede-lhe que irradie sobre a sua alma, reconhecendo que foi o maior dos desgraçados, que se sentia sem coragem para olhar para o quadro das suas obras, já agora tão nitidamente gravadas na sua aura e que ao rememorar o passado, não via outra coisa senão barbaridades; que o ajudasse, com sua irradiação de valor, pois queria, desejava, precisava, entrar em lutas para o bem geral, onde mais depressa pudesse descontar as suas faltas.
Retirando-se Loyola, esclarecido, havia dado Luiz de Mattos o primeiro passo para a explanação da Verdade, tão desejada por Cristo. Os companheiros e amigos de Luiz de Mattos, presentes àquela Sessão disseram-lhe que estavam apavorados com o que dele ouviram, ao que ele respondeu não mais se recordar do que dissera e que tudo aquilo lhe viera de momento, não sabendo mesmo explicar como se prestara a definir a Inteligência Universal, quando nem em Cristo ele porém acreditava, visto lho terem apresentado como um poltrão. Agora, porém, analisando a sua obra, concluía que ele fora um homem lutador, valoroso e apto a reagir a todos os insultos no terreno da luta.
Além destes fenômenos, muitos outros foram precisos para que a alma investigadora de Luiz de Mattos não vacilasse. E assim levou ele ano e meio em consecutivos estudos, até que um dia o Guia, Pinheiro Chagas, lhe disse: “Meu filho, é necessário que te disponhas a iniciar a Obra, pois estás demorando muito.” Nessa altura já o Centro não era mais no casebre, mas sim numa boa casa, de propriedade de Luiz Thomaz.
Luiz de Mattos, entretanto, ressentia-se ainda da prevenção que tinha com o baixo espiritismo e como via todos que nele se metiam acabar na miséria, pensava na família, pensava no que era preciso dispender com a criação de um Centro à altura de tão bela Doutrina, e receava não poder arcar com tamanha responsabilidade. O Astral Superior, vendo-lhe no aura a preocupação, insiste, por intermédio do Guia Custódio Duarte em que era preciso caminhar; assim assediado, responde Luiz de Mattos:
– Sim... estou pronto para a luta, contanto que aos meus nada venha a faltar.

– Satisfaz-nos a tua resposta, disse Custódio Duarte, e certo podes estar que nada te faltará a ti nem aos teus, e tudo há de aumentar e àqueles que junto de ti viverem nada faltará.


A ti, a parte espiritual, a Luiz Thomaz a parte material. Sois os dois responsáveis por esta Doutrina. Caminhai unidos e por vós velaremos, uma vez que em pensamentos procureis religar-vos a nós.
Assim foi iniciada a Doutrina da Verdade em 1910, na cidade de Santos, construindo-se um edifício para a sua explanação à Avenida Ana Costa no 67, em 1912, outro no Rio à rua Jorge Rudge no 121, para onde, por ordem Superior passou a Chefia da Doutrina, visto ser a Capital do país.
Compreendida a Doutrina por Luiz de Mattos, a ela se entregou de corpo e alma como lutador incansável, sem a menor dúvida ou vacilação.
Iniciou em Santos uma larga campanha de difusão dos Princípios escrevendo uma série de artigos na "Tribuna" em que explicava que a loucura, assim como outras enfermidades julgadas incuráveis pela classe médica, tinha cura, com o tratamento racional e científico. Os médicos de Santos ficaram perplexos e com ele se foram entender a fim de não escrever mais contra a classe médica. Eles reconheciam que o que dizia Luiz de Mattos era verdade, mas não o podiam acompanhar por faltar-lhes coragem para vencer os preconceitos; todavia, estavam prontos a assinar toda receita fornecida pelo Centro presidido por ele, e mais: um dos médicos imediatamente foi ao seu farmacêutico dizer-lhe que aviasse todas as receitas enviadas por Mattos que ele assumia inteira responsabilidade.
Inaugurado no Rio, o Centro Espírita Redentor, iniciou a explanação da Doutrina, no jornal "Tribuna Espírita” e algumas vezes pela imprensa em geral. Quatro anos depois por ordem de um dos Guias, Padre Fonseca, fundado foi o jornal "A Razão" a 19 de dezembro de 1916. Nesse jornal, o mais liberal que já houve, independente e orientador, eram doutrinados Governos, ciência, clero, setaristas, classes armadas e civis, desde o industrial, ao operário, desde o lavrador ao vendedor, consumidor, etc. Nesse órgão oficial do Racionalismo Cristão, gastou ele a sua energia e sua vida. Sustentou as campanhas mais sérias de que até hoje temos notícia. Sendo que a havida com o clero, da qual resultou a criação da obra: Cartas ao Cardeal Arcoverde causou espanto ao mundo. As verdades eram duras, o Cardeal de tão revoltado, ficou maluco, ordenando o Papa providências para a vinda da Bahia de D. Sebastião Leme para coadjutor, visto o Cardeal estar inutilizado do espírito.
Por mais de uma vez tramaram o assassinato de Luiz de Mattos e não o conseguindo nas emboscadas traiçoeiras que lhe armavam, ao passar o seu carro, incumbiram dessa criminosa tarefa um bandido que se dizia seu companheiro na Doutrina. Esse hipócrita e infeliz, todos os dias à noite lhe beijava a face e dele se despedia, como se tocado pelo sentimento de verdadeiro amigo ou de um filho que o sabe ser. Mas, no entanto, a ruminar-lhe a alma trazia o crime e o premeditou com uma covardia vilíssima.
Certo dia, alegando precisar falar-lhe com toda a urgência, às 5 e meia da manhã, desce Luiz de Mattos dos seus aposentos, em pijama, na sua simplicidade de homem

puro, às pressas para atender ao suposto amigo, que lhe dava beijos com a boca, mas fel com a alma, e, supondo que alguma enfermidade, ou coisa grave houvesse em sua casa, pronto para ouvi-lo, ao descer a escada, vê-se inopinadamente alvejado à queima roupa por quatro balas de revólver, tendo a última ainda lhe chamuscado a manga do pijama. Vendo-se frustrado em sua tentativa de eliminar o benfeitor, fugiu, covardemente, supondo que Luiz de Mattos o processaria ou lhe mandaria fazer o mesmo. Enganou-se, porém, visto Luiz de Mattos ser homem para homem, ser sempre temido e respeitado pelas suas nobres ações.


Aos bandidos ele respondia no terreno e na oportunidade da ofensa. Passando daí, vê-los, era o mesmo que ver caninos, e mais: se lhe mandassem pedir alguma coisa, não era capaz de negar. O quanto tinha de enérgico, guerreiro ou lutador, na defesa da família, dos amigos e da pátria, tinha também de bondoso, superior e altruísta.
Na sua alma não se aninhava rancor. Para ele a palavra "não" devia desaparecer. O que mais lhe custava era negar, era deixar de servir a quem o procurava.
A sua bondade era excessiva e por vezes até prejudicial. Era um homem que saia com dinheiro na algibeira e se alguém o não acompanhasse para impedir a aproximação de certa gente que vivia de expediente, de exploração, ele dava tudo que levava, a ponto de algumas vezes regressar à casa sem um real.
Eram palavras dele: "Tomem conta de mim, não deixem aproximar-se certa gente; já sabem que não posso ouvir lamúrias; guardem-me o dinheiro".
Lutador igual ainda não houve.
Sua indômita coragem, seu grande valor se tornaram evidentes quando à frente da "A Razão", no seu artigo a "Nota", diariamente doutrinava, esclarecia, orientava governos, ciência, clero e povo. Foi com sua pena manejada à vontade do Astral Superior, que o Brasil entrou na guerra, e se os seus governantes tivessem sabido seguir o que ele ensinava, hoje o país estaria cheio de ouro, como ficou a América do Norte. Foi com a sua "Nota" que ministros se viram na contingência de se demitir, tendo, todavia, mandado oferecer-lhe grandes somas para não prosseguir em seus escritos.
Foi através de sua "Nota" que Ruy Barbosa ficou ciente e convencido de que nunca seria presidente da República, por ter sido ingrato filho. Tendo levantado a sua candidatura civilista para combater e derrotar a militar, de Hermes da Fonseca, abalou-se para os Estados em propaganda política, recusando-se a representar o país na Liga das

Nações.
Durante a existência do "A Razão", coisas assombrosas se passaram, mas nem assim quiseram despertar.


Os galfarros foram muitos, aves de rapina sem asas, voavam no patrimônio do "A Razão" e daí alguns terem se enchido à custa do jornal, porém é ditado velho: o alheio chora o seu dono. E dessas aves rapineiras, as que ainda andam por este mundo, sofrem, vivem como corvos, a alma talvez mais enegrecida do que as penas do próprio corvo.
Foi, pois, Luiz de Mattos, um lutador incansável.
Sua desencarnação deu-se antes do tempo. Concorreram para a antecipar: a falência de médiuns, a quem ele estimava como filhos, a quem ele esclarecia carinhosamente e amparava espiritualmente, sempre desejoso de vê-los progredir. Vivia para a Doutrina, e consigo, queria ver caminhando os que se diziam ser seus amigos. No "A Razão" quantas noites de tremendas lutas ele passou!
A luta foi grande, porém, a maior que se viu forçado a travar foi para varrer do seu espírito as dores produzidas pelas ingratidões, pela perversidade dos que se diziam seus amigos e se tornavam traidores, vilões.
Desencarnou essa nobre alma para entre nós continuar a lutar, e hoje mais ainda do que quando possuindo corpo físico. Agora ela é livre e está onde é preciso para intuir os que demonstrem querer lutar por causas justas.
A sua obra ainda vagamente é definida, mesmo pelos que se julgam esclarecidos e conhecedores da Doutrina.
Com o tempo, porém, os homens a compreenderão, e terão então, a medida exata do trabalho de autêntico gigante que Luiz de Mattos realizou à custa de todos as sacrifícios para confraternizar e espiritualizar a humanidade.
(Texto extraído do livro Páginas antigas)


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