Luiz felipe de alencastro



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Alencastro, Luiz Felipe de. “Pensar o Descobrimento do Brasil”. São Paulo: Folha de São Paulo, 22 de abril de 2000.

22-04-00
Pensar o Descobrimento do Brasil

LUIZ FELIPE DE ALENCASTRO

Pensar o Descobrimento do Brasil é situar o contexto em que ocorrem os debates sobre o Quinto Centenário. Geralmente, o capital histórico alegadamente acumulado no passado é mobilizado para levantar as hipotecas que pesam sobre o presente. O postulado é sempre mesmo: tivemos um passado promissor, portanto somos a Terra da Promissão. Hoje, como nas décadas anteriores, o ufanismo comemorativo brasileiro, num processo de retroalimentação, encontra correspondência na historiografia portuguesa.

De fato, no final dos anos 1930, na Lisboa de Salazar e na Madri de Franco, brotou um iberismo fascista que reescrevia o passado para apagar o antagonismo histórico entre portugueses e espanhóis. Contra essa tendência, o republicano Jaime Cortesão, exilado no Brasil, glorificou os bandeirantes, transformando-os nos primeiros combatentes da luta anti-espanhola que desembocou na restauração da independência portuguesa em 1640.

Essa interpretação, que subalternizava a caça de cativos indígenas – objetivo principal e assumido dos bandeirantes-, caiu como uma luva no imaginário paulista. Em fase de baixa auto-estima por causa do revés da Revolução de 1932, a elite paulista aplaudiu a heroicização dos bandeirantes, preadores de índios transvestidos em defensores da liberdade dos povos.

Agora assistimos, por iniciativa de outro historiador português, ao relançamento de uma interpretação feita sob medida para massagear o ego brasileiro: a intencionalidade do Descobrimento. Na sua expressão mais difundida, essa idéia parte de um pressuposto que já contém todo um programa: como é que o Brasil, uma terra tão maravilhosa, pode ter sido descoberto por acaso?

Na realidade, Joaquim Norberto de Sousa e Silva, um dos fundadores do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, foi o autor da tese da intencionalidade, em meados do século 19. Mas seus argumentos tinham tanto a ver com a história quanto com a insegurança de ser brasileiro.

Como muitos de seus pares, Sousa e Silva não se conformava com os modestos Brasil uma civilização pré-colombiana tão avançada como os astecas, os incas e sobretudo como os maias, cujas cidades perdidas haviam sido descobertas pouco tempo antes, nos anos 1840. Sua proposta sobre a intencionalidade destinava-se a reconfortar a idéia da Terra da Promissão: a notícia de que havia uma civilização avançada no Brasil -sinal certo da grandeza de nossas raízes americanas e de nosso porvir- teria levado Cabral a rumar para Porto Seguro.

Gonçalves Dias refutou a tese de Sousa e Silva e Varnhagen nunca a tomou a sério. Alguns historiadores tocavam no assunto de vez em quando, até que a canoa furada da intencionalidade foi de novo posta a navegar.

Com efeito, no seu livro "A Construção do Brasil" (Lisboa, 1995), o historiador português Jorge Couto retoma o argumento da intencionalidade. O retorno dessa idéia no âmbito da historiografia lusitana tem a ver, certamente, com o sumiço da presença portuguesa nas outras partes ultramarinas. Mal ou bem, o Brasil se transformou no principal trunfo cultural externo de que Portugal dispõe para assentar sua inserção na União

Européia.

Em todo o caso, Couto baseia seu argumento da intencionalidade numa frase do geógrafo renascentista Duarte Pacheco Pereira, no seu livro "Esmeraldo de Situ Orbis" (1505-08). A idéia fez sucesso e virou até capa de revista no Brasil. Ora, outros historiadores portugueses de reconhecido saber, como Duarte Leite e Luís Albuquerque, já haviam derrubado essa hipótese. Mais recentemente, Joaquim Romero Magalhães, também especialista na matéria, ironizou sobre o fato de que toda a argumentação de Couto repousa sobre uma frase ambígua.

Tem havido no debate sobre o Descobrimento um ocultamento do óbvio: a expansão do comércio ocidental impulsionou as explorações ultramarinas. Gente realista, os portugueses não iriam atravessar o oceano para balizar matagais só porque mais tarde ali haveria um país chamado Brasil e uma nação de brasileiros.

Como escrevi alhures, os portugueses foram certamente os primeiros a chegar à Austrália, logo no século 16. Mas preferiram ficar a 258 milhas dali, em Timor, onde ganhavam dinheiro com o comércio do sândalo. Duzentos e cinquenta anos mais tarde, os ingleses "descobriram", isto é, ocuparam para valer, a Austrália.

Para todos os efeitos práticos, o Brasil teve um papel bastante secundário durante o apogeu da economia portuguesa na Ásia. Nas 1.102 estrofes de "Os Lusíadas" (1572), Camões só faz duas curtas referências à Terra de Santa de Cruz. Toda essa questão está exposta de maneira magistral na obra de Vitorino Magalhães Godinho, "Os Descobrimentos e a Economia Mundial" (4 volumes, Lisboa, 1983), estranhamente ausente das listas de livros selecionados por importantes historiadores brasileiros, no "Guia de leitura da história brasileira" (Mais!, edição de 2/4).



Por que então esse retorno à idéia da intencionalidade? Talvez porque a hipótese de que o país foi descoberto por acaso apareça como uma negação retrospectiva da brasilidade. Como o desmentido da visão de um território paradisíaco que já prenunciava o nosso vir-a-ser.

O fato é que a busca de certezas no passado reflete as dúvidas sobre o presente. O país enfrenta hoje uma crise de identidade gerada por vários problemas: o impacto da globalização sobre uma comunidade nacional esgarçada pelas diferenças regionais e sociais; décadas de frustrações sobre reformas políticas e econômicas; o desdobramento das migrações regionais em imigrações internacionais: pela primeira vez em nossa história, um número crescente de brasileiros, cansado de viver no "país do futuro", vai viver noutro país para realizar seu futuro. Nesse contexto, apesar de tudo, é preciso pensar também no nosso difícil passado. Um passado que soa como uma advertência quando é assim resumido: a história do mercado brasileiro, amanhado pela pilhagem e o comércio, é longa, mas a história da nação brasileira, fundada na violência e no consentimento, é curta. Ser mercado ou ser nação, eis a questão.
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