Luta armada foi imposta pela história segundo Marcelino dos Santos no Simpósio sobre Obra e Vida de Samora Machel



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Luta armada foi imposta pela história - segundo Marcelino dos Santos no Simpósio sobre Obra e Vida de Samora Machel


O ANTIGO presidente da Assembleia da República, Marcelino dos Santos, afirmou ontem, em Maputo, que a luta armada era a principal forma de luta que a história impunha para o povo moçambicano conseguir a sua liberdade e independência do colonialismo português. Segundo ele, as condições que Portugal mantinha para as suas colónias não davam lugar a outras opções se não a insurreição armada.

Maputo, Sábado, 7 de Outubro de 2006:: Notícias



 

Falando durante o segundo dia dos trabalhos do Simpósio Internacional sobre Vida e Obra de Samora Machel, que decorre em Maputo, Marcelino dos Santos afirmou ainda que, para se desencadear a luta armada, "tínhamos que promover a participação de todos e, essa participação tinha de ser feita de forma consciente".


Dissertando sob o tema "Luta pela Independência na África Austral: o caso de Moçambique 1975-1992" Dos Santos referiu que no seio da FRELIMO, e não só, sempre houve consenso sobre a opção de luta tomada, daí que esta foi, de imediato, tida como uma insurreição popular.
Segundo ele, o movimento desencadeado pela FRELIMO teve logo no início um cariz popular e, por isso, foram tomadas medidas e decisões que procuravam satisfazer as necessidades imediatas do povo. "Foi nessa base que logo após o início da luta decidimos interditar o comércio privado e criar as chamadas lojas do povo. Foi também nessa altura que criámos o destacamento feminino, que visava a participação directa da mulher no movimento de libertação, assim como a criação das aldeias comunais que serviriam para agrupar os nossos cidadãos e assim facilitar o abastecimento de água potável; o fornecimento de energia eléctrica; o acesso à Educação e Saúde, entre outros serviços públicos", afirmou Dos Santos.
Na ocasião, Marcelino dos Santos também falou dos apoios que a FRELIMO teve do exterior, particularmente dos países do leste, liderados pela União Soviética, que, entre outros apoios, forneciam armas, munições e medicamentos. "Os países ocidentais, liderados pelos Estados Unidos, apoiavam Portugal, a quem forneciam armas e a nós, movimentos de libertação, davam-nos medicamentos, medicamentos esses que serviam para curar os ferimentos provocados pelas armas que davam a Portugal", sublinhou.
Durante os cerca de 50 minutos que falou, o antigo presidente da Assembleia da República debruçou-se sobre a política internacionalista da FRELIMO, dos apoios que esta, logo após a independência nacional, concedeu aos países africanos que ainda sofriam a dominação colonial, como foi o caso do Zimbabwe, Namíbia e África do Sul.
Sobre este último país, Marcelino dos Santos realçou a cooperação com o ANC e explicou as razões que levaram o nosso país a assinar, com o regime minoritário do "apartheid", o Acordo de Incomáti.
"O Acordo de Incomáti constituiu um pacto de não agressão com a África do Sul para pôr cobro à onda de agressões militares que os sul-africanos faziam contra o nosso país. Não se tratou de uma traição ao ANC como muita gente veiculou na altura", disse o antigo Presidente da Assembleia da República. Aliás, a filosofia que levou à assinatura do Acordo de Incomáti viria, mais tarde, a ser explicada por Jacinto Veloso, antigo ministro da Segurança e um dos membros do governo de Samora Machel que participou na sua elaboração.
Depois de rebater os argumentos apresentados por Marcelino dos Santos sobre o assunto, Veloso referiu que o nosso país, nessa altura, não teve outra opção, uma vez que os sul-africanos desencadearam uma onda de boicotes contra o nosso país, sob o pretexto de que estavam a lutar contra o comunismo.

A desestabilização provocada pela África do Sul


Maputo, Sábado, 7 de Outubro de 2006:: Notícias

 

"A desestabilização provocada pela África do Sul ao nosso país foi feita em várias frentes. Na área económica, os sul-africanos cancelaram 60 porcento dos salários dos mineiros que canalizavam para Moçambique; reduziram o tráfico do Porto de Maputo e realizaram uma campanha para a Rodésia do Sul e Malawi reduzirem as suas exportações através do Porto da Beira. Em 1981, iniciaram com ataques militares directos e como potência regional ameaçaram realizar intervenções militares em qualquer ponto do sul do Equador", explicou o antigo ministro da Segurança.


De acordo com Jacinto Veloso, a África do Sul substituiu a Rodésia do Sul no apoio logístico e militar à Renamo com o objectivo desestabilizar o país e se possível tomar o poder. "Face a este quadro, o presidente Samora disse basta e iniciou contactos com a África do Sul para se firmar um pacto de não agressão e assim nasce o Acordo de Incomáti. Este acordo não visava nenhum entendimento com a Renamo. Era para um pacto de não agressão, muito embora mais tarde tenha vindo a ideia de boa vizinhança", afirmou.
Jacinto Veloso revelou, na ocasião, que após a assinatura desse acordo, em 1984, Moçambique, de forma secreta, intensificou o apoio ao ANC e, também se sentiu que a África do Sul apoiou de forma intensificada a Renamo para desestabilizar Moçambique.
DEIXEM-NOS COMETER OS NOSSOS ERROS
A segunda parte dos trabalhos do Simpósio sobre a Vida e Obra de Samora Machel foi caracterizado por comunicações apresentadas por académicos e pesquisadores universitários. Esta fase teve como pioneiro Elísio Macamo, sociólogo que, segundo disse, à última hora teve de alterar o conteúdo da sua comunicação inicial, devido ao ambiente que encontrou no encontro.
Assim, em vez de falar sobre "Moçambique pós-independência - um patrimonalismo benevolente", Macamo dissertou sobre a Relação Estado/Sociedade e realçou o facto de o Estado ter, desde o tempo colonial, uma relação de tutela com a sociedade.
Referiu que, logo após a independência nacional, existiu no país um período histórico em que existia "uma espécie de visão, de ideal que orientava os nossos dirigentes. Havia ideia de onde é que se queria ir. Faziam o presente em função de onde querem ir".
Afirmou, ainda, que esse cenário alterou-se completamente nos nossos dias, o que faz com que se deva reflectir sobre o assunto e essa reflexão deve contemplar aquilo que foi o Presidente Samora Machel, pessoa que não tinha medo de cometer erros.
"Nós estamos a perder o direito de cometer os nossos próprios erros e isso o que é que significa para o académico?", questionou.
Mais adianta, falou daquilo que se considera a agenda nacional de momento, que é a luta contra a corrupção e contra a pobreza. "Todos estamos de acordo que devemos combater a corrupção. A mesma análise fez em relação ao combate à pobreza para depois concluir que com tudo isto quer apenas dizer que o período pós-independência havia a preocupação de se reflectir sobre as coisas do ponto de vista estrutural e que actualmente se procura, somente, implementar uma visão trivialista, superficial sobre os problemas existentes.
"Tudo que fazemos é reprodução de patologias de desvio, na procura daquilo que é correcto e, o que é correcto é técnico e o técnico é definido", enfatizou Elísio Macamo, para depois frisar que tudo que se faz agora é contrário ao que se fazia no pós-independência.
António Gonçalves, formado em Pedagogia, encerrou a apresentação das comunicações falando da Educação Revolucionária, numa abordagem meramente académica e sustentada por conceitos rebuscados em livros científicos. O debate que se seguiu foi na esteira de corroborar com os oradores na sua plenitude.


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