Lutas aplicadas à educaçÃo física escolar



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Encontro05.08.2016
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LUTAS APLICADAS À EDUCAÇÃO FÍSICA ESCOLAR


Essa oficina pretende tratar das lutas aplicadas na educação física escolar. Na década de 1980, esse conteúdo era chamado de esportes de combate. Seja qual for a nomenclatura, as lutas sempre se mostraram muito ricas e competentes em alcançar alguns objetivos da educação física na escola, como as experiências motoras, o contato corporal, a elaboração de estratégias de combate, e a troca de informações entre os alunos. Durante toda nossa carreira de mais de vinte anos atuando nas escolas, desenvolvemos metodologias que explicaremos mais à frente que propiciaram a participação empolgante de crianças e adolescentes. Quando os PCNs indicaram as lutas como um dos conteúdos a ser trabalhados, verificamos que um item importante não fora esquecido pelos autores.
DIFERENCIANDO LUTAS DE ARTES MARCIAIS
Acreditamos ser de fundamental importância diferenciar lutas de artes marciais. Verificamos que há grande confusão no nosso meio quanto a essa diferença. Mesmo professores com alguma experiência, cometem o engano de achar que luta e arte marcial são a mesma coisa, Na nossa concepção é grande a diferença entre ambas.

Partimos do princípio que toda arte marcial é uma luta, mas nem toda luta é uma arte marcial.

O termo arte marcial se refere a técnicas de combate ligadas à guerra. O termo marcial vem do deus Marte, deus da guerra para os romanos.

As artes marciais mais conhecidas tanto no Brasil como no mundo são o Judô, o Karatê, o Taekondô, o Kung-fú, e o Jui-jistú. A Capoeira tem diversas interpretações. Pode ser vista como dança, folclore, jogo, mas sem dúvida sua maior e mais expressiva representação é a de luta. Seus movimentos são tipicamente de ataque e defesa.

O boxe embora também seja uma luta, atualmente tem uma imagem mais ligada a uma prática desportiva.

Com o grande desenvolvimento das armas de guerra, os combates físicos foram rareando e as Artes Marciais foram “migrando” para o desporto, perdendo inclusive muitas de suas características.

O Judô (que significa caminho da suavidade) não tem praticamente mais nada de suave. O atleta quando golpeado, em vês de utilizar as técnicas de queda e amortecimento que foram criadas para diminuir o impacto da queda, tenta de toda forma apoiar uma mão, o ombro ou outras partes do corpo para descaracterizar o “hipom” que é o nocaute do judô; daí surgem as graves contusões de clavícula, antebraço, punho entre outras.

A grande diferença entre as lutas na escola para as artes marciais seria que não existem técnicas pré-estabelecidas. Conforme o aluno vai lutando vai desenvolvendo sua própria técnica. Para atingirmos esse objetivo da criança ser um ser ativo, descobrindo suas próprias técnicas, se faz necessário que desvincule as lutas escolares das artes marciais, com exceção da capoeira a qual trataremos mais adiante.

Outra grande diferença entre as lutas escolares e as artes marciais é que o resultado do combate não tem grande relevância; a competitividade deve perder importância em relação às vivências corporais que também aprofundaremos nos próximos itens. Seria semelhante a algumas concepções de jogo que diferiam dos esportes, ou seja, um baixo grau de competitividade.

Mais uma característica que difere as duas práticas, é que nas atividades escolares os golpes de percussão devem ser abolidos. Entende-se como golpes de percussão os movimentos de impacto como os socos e pontapés, por exemplo.


AS LUTAS E A NÃO VIOLÊNCIA
Em nossa experiência escolar, nunca verificamos sinal de violência nas aulas de lutas.

Para os alunos estava tão claro que aquele era um momento mais de um jogo de força, habilidades motoras e inteligência onde cabiam até estratégias complexas para vencer, que o lado violência com brigas e xingamentos nunca se fizeram presente.

Refletindo sobre esse fato podemos inclusive imaginar que a violência não está somente em gestos corporais. Ela pode se apresentar verbalmente ou com gastos sutis como um olhar de desprezo ou superioridade. Assim a violência é mais uma intenção, um estado de espírito que pode ou não se apresentar por gestos corporais relacionados com a motricidade grossa como um soco ou pontapé.

Por mais embate que se presenciasse, por mais vontade de vencer, por mais força que um aluno despreendesse para ganhar, nunca verificamos um gesto de violência, desde a educação infantil até o ensino médio.

Outro aspecto interessante foi que nossas atividades de lutas nunca foram contestadas por qualquer diretora ou orientadora. Parece que conseguíamos expressar prazer, disputa saudável, companheirismo e camaradagem nas mais disputadas contendas.

Nessa oficina estaremos oferecendo várias formas de lutas escolares onde os participantes além de apreciarem as “modalidades” oferecidas, serão convidados a sugerir variações daquelas oferecidas, assim como outras diferentes que já conheçam.

O importante nessa metodologia é mostrar que os professores devem “abrir espaço” para que os alunos troquem suas experiências e que percebam que uns podem contribuir para a construção do conhecimento do outro.

O educador que trabalha com atividades físicas escolares deve valorizar o conhecimento, a bagagem cultural que os alunos já trazem de suas vidas extra escolares, mas deve também interferir no processo, como por exemplo na forma de escolher equipes, manter em alta a motivação dos alunos entre outras, seja de luta ou qualquer outra atividade.

A seguir relataremos como condizíamos essas estratégias quando ministrávamos lutas nas escolas.

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Estratégias para escolha dos “combatentes”


Como as lutas duram apenas alguns segundos, elaboramos diversas estratégias para que houvesse uma diversificação de atuação por parte dos alunos.

Cada um deles teria que lutar algumas vezes durante as aulas. Assim adotamos algumas formas de organização afim de manter alta a motivação dos mesmos.

Nas primeiras lutas da aula, nós é que determinávamos quem lutaria com quem. Escolhíamos os adversários de forma que o combate fosse o mais equilibrado possível.

Terminada a série onde todos já haviam lutado, era a vês dos próprios alunos escolherem seus adversários.

Nesse momento verificamos que na maior parte das vezes os alunos escolhiam adversários compatíveis com suas condições de realizar um combate equilibrado. Quando isso não ocorria, o próprio grupo “recriminava” aquele que escolhia um adversário muito fraco. Quando acontecia o contrário, um aluno escolhia um maior e mais forte que si, o grupo o valorizava como uma pessoa corajosa.

Como já dissemos, eram comum combates por equipe.

No sumô, por exemplo, a cada luta vencida por um elemento, somava um ponto para a equipe. Aquela que somasse mais pontos venceria.

As equipes eram escolhidas basicamente de duas maneiras; ou um aluno escolhia e a cada aula era um diferente, geralmente obedecendo a ordem da chamada, ou aquele que escolhia primeiro se sentava e o escolhido escolhia o próximo, que por sua vês escolha o seguinte. Essa estratégia é interessante, pois divide a responsabilidade da escolha por toda a equipe.

Quando na escolha por ordem de chamada acontecia de um ser muito maior que o outro, era “prache” estabelecida pelos alunos que o mais forte não deveria escolher outro muito mais forte. Era interessante perceber como o próprio grupo procurava o equilíbrio.
Conclusão
Concluindo, podemos afirmar que em nossa experiência, as lutas nas aulas de Educação Física, foram muito interessantes, principalmente do ponto de vista educacional.

Conseguimos conquistar um clima de disputa saudável, camarada e alegre.



Percebemos que alunos mais tímidos e retraídos ficaram mais “soltos”. Os mais medrosos e inseguros, mais valentes. Os mais “esquentados”, mais calmos e auto controlados. Os mais competitivos, mais éticos.

Por mais estranho que pareça, atividades de combates, que nos sugerem primeiramente violência e ânimos acirrados, eram realizadas com a alegria de uma brincadeira qualquer, mostrando que não há nada de errado, à princípio com qualquer atividade. Tudo depende do educador, do grupo e de como o processo é conduzido.


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