Luz entre os homens a cidadania activa de abúndio da silva



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Luz entre os homens

A CIDADANIA ACTIVA DE ABÚNDIO DA SILVA

Os cristãos testemunham a sua fé mediante as causas nobres que abraçam e as boas obras que realizam. Em todos os âmbitos da sociedade, ali são portadores da luz do Evangelho com ideias e iniciativas. Assim se tornam como que a “alma do mundo”, sendo nele como fermento, transformando-o a partir de dentro com a fé, o amor e a sabedoria. Abúndio da Silva (1874-1914) é um exemplo de cristão que soube assumir e corresponder à sua vocação de testemunha de Cristo na sociedade. Não teve medo de defender a secularização do Estado e afirmar-se como católico no exercício da sua cidadania, numa época marcada por crises políticas e religiosas.

Manuel Isaías Abúndio da Silva nasceu em 1874, em Viana do Castelo. Cedo ficou órfão de pai e de mãe. Frequentou a escola e o liceu da sua terra natal. Em seguida, matriculou-se na Universidade de Coimbra onde se formou em Teologia e Direito. A par dos estudos, ainda jovem, empenhou-se na imprensa e na escrita. Estudou também Geografia e História. Deu à estampa trabalhos de poesia e estudos na área do Direito e da História. Foi professor, primeiro em Coimbra e depois em Lisboa. Foi também advogado, jornalista e político. Militou num partido, mas depois distanciou-se dele e tornou-se um defensor da liberdade de consciência dos católicos nas eleições.

Fundou e colaborou em várias publicações de teor católico. Em 1905, impulsionou a realização do congresso de jornalistas católicos. Empenhou-se na difusão da primeira encíclica social católica, a “Rerum Novarum”, publicada pelo Papa Leão XIII em 1890. A partir da encíclica, trabalhou na resolução da questão social mediante um programa reformador da sociedade. Na última fase da sua vida, estabeleceu-se na cidade do Porto, onde se ocupou no desenvolvimento do “movimento católico”, procurando afirmar a presença da inspiração cristã na vida social. Em 1909, foi condecorado pelo Papa Pio IX com a cruz de ouro “Pro Ecclesia et Pontifice”.

As suas obras principais onde explicita as suas ideias sociais e políticas inspiradas na sua consciência cristã e na doutrina social da Igreja foram: “A Igreja e a política” (1911) e “Cartas a um Abade: sobre alguns aspectos da questão político-religiosa em Portugal” (1913). Depois de uma vida intensamente apostólica no âmbito social, morreu em Viana do Castelo, em 1914, aos 40 anos, vítima de tuberculose.

Trabalhou por um catolicismo social, desejando “uma Igreja livre num Estado livre” (Montalembert). Segundo Matos Ferreira, que fez um estudo sobre a vida e obra de Abúndio da Silva, este defendeu “uma constante afirmação do primado da sua condição de católico, acima da sua posição de cidadão”, pugnado pela liberdade de imbuir de espírito cristão a sociedade do seu tempo. Defendeu a liberdade, o parlamentarismo e a democracia. No livro “A Igreja e a Política”, de 1911, escreve: “Não pedimos à República o privilégio, mas o direito comum, a liberdade de consciência, de culto, de imprensa, de proselitismo e de associação. Não queremos para nós, católicos, um único direito que não reclamemos também para os outros; mas não queremos nos outros uma única liberdade que nós não fruamos também. E com a liberdade, estamos certo de que será mais fácil converter uma República que nasceu ímpia, do que cristianizar uma monarquia constitucional que viveu hipócrita”.

Na sua obra “Cartas a um Abade”, exorta: “Católicos, seremos nós a grande reserva de que o país dispõe para o colossal trabalho da sua regeneração; é essa a obra que nos está destinada… se dela nos tornarmos merecedores. […] Não é um regresso ao antigo estado [monárquico], à antiga ordem de coisas, que fará reflorir a Igreja e restaurar o país: a nossa época condiciona uma situação nova, na qual a grande obreira será a liberdade civil e religiosa”.

A inspiração da sua acção buscou-a na fé cristã e bebeu-a na espiritualidade inaciana e franciscana. De igual modo, a devoção mariana marcou de modo significativo a sua vida. Uma peregrinação ao santuário de Lurdes, em 1903, tornou-o, segundo as suas próprias palavras, “mais crente”. Nas “Cartas a um Abade” defende a grande potencialidade da devoção mariana: esta “ainda faz vibrar a alma nacional de um modo estranho e quem souber dirigir e encaminhar essa devoção, que é uma das características da nossa raça, pode recristianizar o país inteiro”.



P. Jorge Guarda

Este artigo pode ser encontrado também no meu blog, no seguinte endereço: http://padrejorgeguarda.cancaonova.pt


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