Machado de Assis



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INTRODUÇÃO
Enquanto o telégrafo nos dava notícias tão graves (...), coisas que entram pelos olhos, eu apertei os meus para ver coisas miúdas, coisas que escapam ao maior número, coisas de míopes. A vantagem dos míopes é enxergar onde as grandes vistas não pegam.

(Machado de Assis. A Semana, 11/11/1900)


O pensamento desse escritor carioca revela bem a preocupação contemporânea para com as "coisas miúdas", pois nelas encontramos as maiores revelações do cotidiano.

Embora tenha havido investidas anteriores de pesquisadores das Ciências Humanas e Sociais, foi com os estudos da Escola dos Annales, de origem francesa, localizados cronologicamente na primeira metade do século XX, que o cotidiano foi encarado como possibilidade de abordagem e reconstituição histórica. Foi no terreno fértil dos Annales que a História do Cotidiano encontrou força para germinar (Le Goff, 1994).

Dentre os estudos sobre o cotidiano, Heller, filósofa húngara, ao tratar das "Estruturas da Vida Cotidiana", afirma que "a vida cotidiana é a vida de todo homem", que dela participa em todos os aspectos de sua individualidade, de sua personalidade, pela liberdade que as normas sociais lhe atribuem (1972, p. 17-41). Outro expoente da Nova História, Le Goff, a respeito do cotidiano, conceitua: "É o domínio privilegiado da história" (1986, p. 73-82). E ainda, encontra-se em Certeau um grande apoio teórico no que diz respeito à problematização do cotidiano. Escrevendo sobre o homem "ordinário", o homem comum, Certeau constrói o conceito de cotidiano a partir das táticas desviacionistas que este desenvolve em seu dia-a-dia, no sentido de fabricar alternativas de uso e consumo, que fujam das regras do consumismo impostas pelas sociedades capitalistas industriais e pós-industriais. Este entende que as ações repetitivas e íntimas do cotidiano e seus praticantes, os homens "ordinários", são passíveis de investigação histórica (1999).

O uso do termo "cotidiano" encontra-se bastante ligado ao termo "vida privada", chegando, ambos, a se confundirem. O entendimento usual da vida privada e familiar está relacionado, segundo Del Priore (1997, p. 259-60), "... às atividades ligadas à manutenção dos laços sociais, ao trabalho doméstico e às práticas de consumo". Um conceito mais contemporâneo, elaborado por essa historiadora a propósito de uma sistematização da História do Cotidiano e da Vida Privada elege a cotidianidade à luz de uma durabilidade da realidade social, que seria partida em duas esferas, a da produção e a da reprodução. Na esfera da produção, conforme o próprio nome sugere, produzem-se bens, havendo, portanto, uma atividade produtiva; é um lugar de acumulação e também de transformação. Em outras palavras, estamos nos referindo à esfera pública, onde os atores sociais que nela vivem tornam-se agentes históricos lembrados nos documentos como heróis, vitoriosos, homens de importância. Com relação à esfera da reprodução, a da vida privada, nela repetem-se os gestos do dia-a-dia e exercem-se "práticas que regeneram formas, sem contudo, modificá-las nem individualizá-las". Nessa esfera privada, os atores sociais encontram-se à margem dos grandes acontecimentos que ficam gravados nas páginas da História, achando-se marginalizados - à exceção dos que participarem, de forma intensa, de movimentos coletivos de revolta.

Essa dicotomia de aptidões que opõe o privado ao público nos abre o sentido para uma reflexão entre os "excluídos" e os "detentores" da História. Ainda segundo Del Priore, o "cotidiano" só foi inventado em meados do século XVIII, quando as relações de produção capitalistas ocasionaram uma "(...) maior autonomia de uma vida privada e familiar, distinta da vida pública". Antes dessa época não existia a vida privada como hoje a conhecemos, tornando-se problemática, assim, a interpolação desse conceito a períodos anteriores (1977, p. 261-2).

Nesse sentido, tendo como temática o cotidiano e a vida privada, e como referência empírica o Sítio Carnaúba de Baixo, município de Carnaúba dos Dantas, interessamo-nos, nesta pesquisa, por viajar pelos caminhos tortuosos e não-lembrados da esfera da reprodução das fazendas Antonio de Azevêdo e Cabrinha de Azevêdo, atentando para as formas de sobrevivência e coexistência dos homens "ordinários" - como dizia Certeau - em seu dia-a-dia. No percurso do trabalho são analisadas as práticas comuns, desfiando-se a teia de relações entre a dimensão econômica e a sócio-cultural dos habitantes do referido lugar, no período de 1870 a 1940.

A escolha do tema e de sua base empírica fundamenta-se no sentimento instigado a realizar uma pesquisa que contemplasse a história vivida em um quadro espacial rural tido como "lugar de memória" (Nora, citado por D'Aléssio, set.92/ago.93, p. 101). Daí procurarmos desvendar, por meio da narrativa histórica, formas de viver no interior sertanejo do Rio Grande do Norte, assim como a pluralidade das vivências entre história, cotidiano e memória coletiva, sendo esta última aqui entendida enquanto "construção social" (Halbwachs, citado por Burke, 2000, p. 71).

Dessa maneira, o presente trabalho objetiva investigar formas de viver e trabalhar no Sítio Carnaúba de Baixo, para desvendar aspectos e significados das dimensões econômica e sócio-cultural, no recorte temporal dos fins do século XIX até a década de 40 do século XX, bem como reconstituir a memória dos descendentes das famílias Azevêdo no que se refere ao cotidiano e aos ritos da vida privada no espaço doméstico das fazendas Antonio de Azevêdo e Cabrinha de Azevêdo.

Uma vez delimitado temporal e espacialmente o objeto de estudo, e propostos os objetivos, emergem os seguintes questionamentos: Como, a partir da memória coletiva, reconstituir a história desses "heróis obscuros" de quem somos devedores e aos quais nos assemelhamos? Qual o nível de vida e forma de passar o tempo nas casas das fazendas dos Azevêdo? Como o tempo era percebido no uso do cotidiano? Que códigos eram estabelecidos nas relações sociais? Como se estruturava a vida econômica? Como se processavam os grandes e pequenos ritos? Assim, entendemos que para buscar respostas para tantas questões, é preciso que estabeleçamos um diálogo entre o presente e o passado, para apreender o sentido das permanências e mudanças dessas vivências no universo cultural.

Para essa investida, elegemos os métodos investigativos presentes na História Cultural e do Cotidiano. Com especial atenção à História Cultural, tentamos encarar o conceito de "circularidade cultural" proposto por Ginzburg: "a cultura popular se define pela sua oposição à cultura letrada ou oficial das classes dominantes e, de outro lado, pelas relações que mantém com a cultura dominante, filtrada pelas classes subalternas de acordo com os seus próprios valores e condições de vida" (citado por Vainfas, 1997, p. 152).

A escolha da documentação obedeceu a uma conduta metodológica em relação ao tipo de análise que pretendemos realizar. Inicialmente, recorremos à leitura e análise de fontes bibliográficas por meio do uso de referencial teórico e da historiografia regional e local. Além disso, utilizamos as fontes cartoriais (inventários pós-morten e carta patente), documentos de família (livros de assentos e álbuns de família) e orais, que constituíram ferramentas fundamentais para diversos aspectos do lugar e de seus sujeitos históricos.

Tomando os referenciais teórico-metodológicos acima citados como suporte, estruturamos o trabalho em três capítulos. No capítulo inicial (O povoamento de Carnaúba dos Dantas no contexto da colonização do Seridó), procuramos entender os processos históricos de ocupação do espaço seridoense, contemplando o período da economia pastoril - fator responsável pelo surgimento das fazendas e das primeiras datas da Carnaúba, bem como outras atividades desenvolvidas nas Fazendas Antonio de Azevêdo e Cabrinha de Azevêdo ligadas à agricultura, ao extrativismo, à indústria e ao comércio.

No segundo capítulo (A casa da fazenda), analisamos a arquitetura das casas-grandes das referidas fazendas, apontando os espaços domésticos das mesmas, definindo as funções desses espaços e tentando estabelecer as diferenças entre as duas residências. Nelas, são registrados os espaços de intimidade, o mobiliário, os hábitos alimentares, as atividades desenvolvidas no seu interior, as formas de convívio e sociabilidade doméstica daquela época.

Por fim, no terceiro capítulo (Ritos da vida privada), tratamos da privacidade a partir de diferentes fontes documentais e orais que, na maioria das vezes, retratam os ritos de passagem da vida: nascimento, casamento e morte, iluminando o curso ordinário das coisas, suas marcas, sua porosidade entre a casa e a rua, ajudando a compreender o conjunto de práticas consagradas pelos usos e normas na vida privada dos espaços domésticos das casas dos Azevêdo, até o período em estudo, dando ênfase às mudanças e permanências.






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