Machado de Assis



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Encontro04.08.2016
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Roteiro para análise da obra literária

Dom Casmurro

Depois de ler o romance Dom Casmurro, de Machado de Assis, discuta – consigo próprio e com os colegas da equipe que também o leram - alguns dos elementos essenciais presentes no texto. Leve em conta que, nele, a realidade tem múltiplas faces, inúmeros significados, visões conflitantes.

Portanto, trata-se de uma obra aberta, com várias possibilidades interpretativas. Cabe a você escolher uma entre elas. E é provável que seus amigos optem por outras linhas de análise. Tudo isso porque Dom Casmurro apresenta aquilo que escritor italiano Italo Calvino estabeleceu como princípio de todo o grande clássico: Um clássico é um livro que nunca termina de dizer aquilo que tinha para dizer.

Questão 01

Dom Casmurro é a história de um homem que supõe que sua esposa o traiu com o melhor amigo. Primeiramente, o narrador revira o passado mais remoto (o da juventude) em busca de provas que justifiquem a suposta tendência de Capitu à traição. Depois, no passado mais próximo (o da vida adulta), ele encontra e apresenta as provas, que entende como definitivas, do adultério. E, em função desta certeza, destrói o casamento.

a- Na sua opinião, Bento Santiago é um narrador totalmente insuspeito. Por quê?


Relembre as desconfianças do personagem em relação às ações de Capitu, na primeira parte do romance, que corresponde ao namoro juvenil. Quais as cenas onde isso fica mais visível? Cite e transcreva-as.

b- Aponte as provas principais que Bento julga dispor, já depois de casado, do adultério (hipotético ou real) de Capitu.

Questão 02

Em sua exposição, Bento afirma o adultério, mas a narrativa apresenta tantos paradoxos e contradições que nada se esclarece totalmente para o leitor. Todos os elementos que compõem a acusação possuem aspectos nebulosos e dúbios. Há sempre uma forte relativização em tudo o que o narrador afirma, pois cada registro da traição remete à possibilidade contrária. É como se houvesse dois textos na composição do romance. No primeiro, Bento, o narrador, assegura ao leitor a existência do adultério. No segundo texto – menos explícito, e nem sempre perceptível– ele registra os seus ciúmes doentios e quase paranóicos. No primeiro texto, Capitu traiu. No segundo, provavelmente não.

a- Você concorda com aquilo que Bento declara a respeito do “crime” de Capitu ou com o aquilo ele deixa subentendido, isto é, a possibilidade de inocência da esposa?

b- Identifique no romance passagens que evidenciam esta duplicidade do narrador, ou seja, uma revelação “definitiva” da traição sempre seguida, ou mesmo antecipada, por uma referência que coloca em xeque as suas próprias convicções?

Questão 03

A ambigüidade do romance está centrada também no confronto entre a aparência e a essência da alma humana. O que, em dado momento, é apresentado como verdade pode ser apenas uma ilusão, um engano de ótica. O mundo concreto é movediço e não tem um único sentido, uma única explicação. Por não conseguir perceber a interioridade dos demais, os indivíduos se vêem, muitas vezes, conduzidos por versões equivocadas a respeito das intenções e das ações dos outros.

a- Transcreva algum outro exemplo no romance que confirme este jogo entre aparência e essência.

b- Comente o texto abaixo do crítico Antonio Candido:



Não importa muito se a convicção de Bento seja falsa ou

verdadeira, porque a conseqüência é exatamente a mesma nos dois casos: imaginária ou real, ela destrói a sua casa e a sua vida.

Questão 04

O crítico Flávio Loureiro Chaves afirma que o tema de Dom Casmurro não é o adultério, e sim que este é apenas um pretexto para atingir numa região mais profunda das desgraças humanas, o problema do ciúme, entrevisto como deformação patológica. Segundo o mesmo crítico, Dom Casmurro é o romance da dúvida porque embora o personagem expresse a convicção de ter desvendado um crime, o acúmulo de ambigüidades no texto mantém a incerteza e o caráter nebuloso do acontecido.

a- Releia o capítulo CXXXV, onde Bento Santiago vai assistir a uma representação de Otelo. Influenciado pelo astucioso Iago, o mouro Otelo vive o tormento do ciúme sem qualquer base real, pois sua esposa Desdêmona o ama. Por se considerar vítima de uma traição, Otelo mata a mulher e depois se suicida. Qual é a conclusão que Bento tira da peça?

b- Você acha que o sofrimento do narrador é real, mesmo que a causa do mesmo possa ser imaginária? Exemplifique com alguma passagem do romance.

Questão 05

O texto abaixo é um dos mais importantes capítulos do romance "Dom Casmurro", de Machado de Assis. Leia-o com atenção e responda às perguntas seguintes.

Capítulo 123: "Olhos de ressaca"



Enfim, chegou a hora da encomendação e da partida. Sancha quis despedir-se do marido, e o desespero daquele lance consternou a todos. Muitos homens choravam também, as mulheres todas. Só Capitu, amparando a viúva, parecia vencer-se a si mesma. Consolava a outra, queria arrancá-Ia dali. A confusão era geral. No meio dela, Capitu olhou alguns instantes para o cadáver tão fixa, tão apaixonadamente fixa, que não admira lhe saltassem algumas lágrimas poucas e caladas...
As minhas cessaram logo. Fiquei a ver as dela; Capitu enxugou-as depressa, olhando a furto para a gente que estava na sala. Redobrou de carícias para a amiga, e quis levá-Ia; mas o cadáver parece que a retinha também. Momento houve em que os olhos de Capitu fitaram o defunto, quais os da viúva, sem o pranto nem palavras desta, mas grandes e abertos, como a vaga do mar lá fora, como se quisesse tragar também o nadador da manhã.

a) Como é o comportamento de Capitu no velório de Escobar? O que chama a atenção de Bentinho no comportamento de Capitu?


b) Por que essa passagem é importante no desenvolvimento do romance de Machado de Assis?

Questão 06

Leia a passagem abaixo de Dom Casmurro:




Se eu não olhasse para Ezequiel, é provável que não estivesse aqui escrevendo este livro, porque o meu primeiro ímpeto foi correr ao café e bebê-lo. Cheguei a pegar na xícara, mas o pequeno beijava-me a mão, como de costume, e a vista dele, como o gesto, deu-me outro impulso que me custa dizer aqui; mas vá lá, diga-se tudo. Chamem-me embora assassino; não serei eu que os desdiga ou contradiga; o meu segundo impulso foi criminoso. Inclinei-me e perguntei a Ezequiel se já tomara café.
(Machado de Assis, Dom Casmurro, em Obra Completa. Vol 1. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1979, p.936.)

A) Explique o “primeiro ímpeto” mencionado pelo narrador.


B) Por que o narrador admite que seu “segundo impulso” foi criminoso?

C) O episódio da xícara de café está diretamente relacionado com a redação do livro de memórias de Bento Santiago. Por quê?

Os trechos a seguir devem ser utilizados para elaboração das respostas das questões7,8,9 e 10.



LXXII


UMA REFORMA DRAMÁTICA

 Nem eu, nem tu, nem ela, nem qualquer outra pessoa desta história poderia responder mais, tão certo é que o destino, como todos os dramaturgos, não anuncia as peripécias nem o desfecho. Eles chegam a seu tempo, até que o pano cai, apagam-se as luzes, e os espectadores vão dormir. Nesse gênero há por ventura alguma cousa que reformar, e eu própria, como ensaio, que as peças começassem pelo fim. Otelo mataria a si e a Desdêmona no primeiro ato, os três seguintes seriam dados à ação lenta e decrescente do ciúme, e o último ficaria só com as cenas inicia da ameaça dos turcos, as explicações de Otelo e Desdêmona, e o bom conselho do fino Iago: “Mete dinheiro na bolsa. ”Desta maneira, o espectador, por um lado, acharia no teatro a charada habitual que os periódicos lhe dão, porque os últimos atos explicariam o desfecho do primeiro, espécie de conceito, e, por outro lado, ia para a cama com uma boa impressão de ternura e de amor:

 

CXXXV




OTELO

 Jantei fora. De noite fui ao teatro. Representava-se justamente Otelo, que eu não vira nem lera nunca; sabia apenas o assunto, e estimei a coincidência. Vi as grandes raivas do mouro, por causa de um lenço, — um simples lenço! — e aqui dou matéria à meditação dos psicólogos deste e de outros continentes, pois não me pude furtar à observação de que um lenço bastou a acender os ciúmes de Otelo e compor a mais sublime tragédia deste mundo. Os lenços perderam-se, hoje são precisos os próprios lençóis; alguma vez nem lençóis há, e valem só as camisas. Tais eram as idéias que me iam passando pela cabeça, vagas e turvas, à medida que o mouro rolava convulso, e Iago destilava a sua calúnia. Nos intervalos não me levantava da cadeira; não queria expor-me a encontrar algum conhecido. As senhoras ficavam quase todas nos camarotes, enquanto os homens iam fumar. Então eu perguntava a mim mesmo se alguma daquelas não teria amado alguém que jazesse agora no cemitério, e vinham outras incoerências, até que o pano subia e continuava a peça. O último ato mostrou-me que não eu, mas Capitu devia morrer. Ouvi as súplicas de Desdêmona, as suas palavras amorosas e puras, e a fúria do mouro, e a morte que este lhe deu entre aplausos frenéticos do público. (Machado de Assis, Dom Casmurro).

Questão 07


O narrador afirma, no capítulo CXXXV, que “não vira nem lera nunca Otelo” e que estimou a coincidência, ao chegar ao teatro.

  • a) A que coincidência está se referindo?



  • b) Ele já tornara a peça assunto do capítulo LXXII e, apenas agora, tem ocasião de vê-la. Do ponto de vista da estrutura do romance, isso implicaria alguma contradição?

Justificar, se for o caso.

Questão 08



  • a) “Um lenço bastou a acender os ciúmes de Otelo e compor a mais sublime tragédia deste mundo.” E para fazer de Bentinho o Dom Casmurro o que foi suficiente?



  • b) Os lenços perderam-se, hoje são precisos os próprios lençóis, algumas vezes nem lençóis há , e valem só as camisas.” Por que o narrador contrapõe lençóis e camisas, do seu tempo, a lenços, do tempo da tragédia.?

Questão 09

  • a) Como bom espectador, o narrador sabia que Desdêmona era inocente. Porque ele não se compadece da morte dela?



  • b) “Ouvi as súplicas de Desdêmona, as suas palavras amorosas e puras, e a fúria do mouro, e a morte que este lhe deu entre aplausos frenéticos do público.”

Questão 10

Quando o narrador propõe a reforma dramática no capítulo LXXII, ele compara o destino aos dramaturgos.



  • Na verdade, o que Bentinho buscaria reformar?

Questão 11

No início do capítulo II, o narrador afirma ter reconstruído a antiga casa da família . Com que propósito reconstruiu-a?A reconstrução foi suficiente para atender ao seu propósito? O que ele decidiu fazer para compor o que faltava? Comprove com passagens do texto.

Questão 12

Em Dom Casmurro a caracterização dos personagens é feita de modo indireto, pois o autor, em vez de rotulá-las com adjetivos , relata suas ações para que o leitor identifique por meio delas , os traços de caráter das personagens. A partir desse comentário responda:



►Que personagem era mais dominadora: Capitu ou Bentinho? Confirme sua resposta com frases dos capítulos 37 e 31. O fato de Bentinho definir os olhos de Capitu como “olhos de ressaca” confirma sua resposta? Justifique.


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