Madalena Quaresma uerj a imagem do imperador na fotografia do século XIX



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Lima, Madalena Quaresma - UERJ
A imagem do imperador na fotografia do século XIX
O Brasil da segunda metade do século XIX foi palco de mudanças radicais. A aristocracia monárquica perdia espaço para a burguesia industrial e comercial. O fato da cidade do Rio de Janeiro ser a capital do Império e o centro político-social das principais decisões do país, propiciou o desenvolvimento mais acelerado de diversas manifestações tecnológicas e culturais. Dentre elas a fotografia, que, estimulada pela capacidade de mecenato da família imperial, desenvolveu-se mais rapidamente que em outros centros urbanos importantes do país. Essa novidade técnica causou indiscutivelmente um grande impacto na história das iconografias do século XIX, provocando uma verdadeira revolução na questão da representação. A necessidade da experiência visual foi uma constante nesse tempo de industrialização na Europa, crescimento demográfico e modernidade.1

Fotografia é imagem, mas não apenas isso, ela é o tempo detido, é memória.2Assim, a fotografia e as imagens em geral, produzidas na segunda metade do século XIX constituem fontes importantes para a compreensão do período em suas várias feições, especialmente naquelas que dizem respeito aos aspectos culturais. Dessa forma, a figura do imperador D. Pedro II como estadista (homem público), quando o Império está com a sua estrutura articulada e firme merece uma releitura, tendo como base as novas fontes e metodologias aplicadas à pesquisa em história.

Nesse período, o Rio de Janeiro crescia em conseqüência das atividades comerciais e também em virtude de agasalhar os órgãos políticos governamentais e administrativos mais importantes. O golpe da maioridade, ocorrido em 1840, abriu nova fase na vida política brasileira, e todos os outros aspectos inerentes à sociedade receberiam os reflexos dessas transformações. Se antes os estadistas da época da Regência, as figuras eminentes da vida pública, vinham de distantes áreas açucareiras ou da zona da mineração decadente, nesse momento, com o desenvolvimento cafeeiro e o tráfico negreiro, o predomínio da Corte torna-se absoluto. Começam a aparecer e se destacar as figuras políticas oriundas da província do Rio de Janeiro, e outras, que tinham na própria Corte sua base permanente. Segundo Joaquim Nabuco, entre a democracia e a monarquia no Brasil houve por vezes desinteligências e rupturas, mas nunca verdadeiro antagonismo.3

Os homens de letras faziam imprensa e teatro. Encontravam liberdade relativa para as suas criações literárias, não para os impulsos políticos. Qualquer peça para ser encenada devia passar pela censura do Conservatório e receber visto da polícia. A censura não poupava nem os mais famosos. A peça Asas de um Anjo, de José de Alencar, que estreou em 20 de junho de 1858, foi proibida três dias depois. O autor já era romancista conhecido, redator-chefe do Diário do Rio de Janeiro e protestou pelas colunas do jornal, pois a mesma não desrespeitava a religião, não ofendia a moral pública e baseava-se nos mesmos temas que as peças teatrais estrangeiras aqui representadas. A não ser que “o véu que para certas pessoas encobre a chaga da sociedade estrangeira rompia-se, quando se tratava de mostrar a nossa própria sociedade”.4 Alencar criou a ligação entre imprensa e literatura, que será fundamental na constituição da produção da geração de 1870 e no surgimento de um pensamento brasileiro.5

A era de melhoramentos materiais, que se abre para o Brasil ao aproximar-se a metade do século se traduz numa série de grandes iniciativas no que toca ao desenvolvimento urbano.6 Essas alterações afetaram a sociedade do Segundo Reinado. Contribuiu para isso a formação e educação dos homens, mais apurada e mais amiúde, feita na Europa. Apesar do europocentrismo, a vinda de professores estrangeiros que abriram escolas, renovavam os métodos de ensino e instruíam meninas, a presença de numerosos estrangeiros, comerciantes e fazendeiros, que entre nós se radicaram trazendo hábitos mais liberais e as notícias vindas da Europa nos jornais e revistas lidas com avidez por todos, concorreram para que novo sopro de civilização renovasse os hábitos da Corte.

A europeização afeta a organização da sociedade, os princípios inspiradores da ordem social, as relações entre os grupos.7 A burguesia imitava tanto quanto possível a alta sociedade. Freqüentava teatros, promovia saraus e bailaricos, acompanhava com unção as festas religiosas. Eram oportunidades para exibições de toilettes, jóias e travar conhecimentos.8 O sociólogo Norbert Elias afirma que quando percebemos o indivíduo como pessoa em figurações que ele constitui junto com outras pessoas, isso aprofunda e dá vigor a nossa compreensão da individualidade.9

D. Pedro II criou no Brasil um verdadeiro mecenato, que atingiu todos os ramos da atividade literária, artística e científica. Pintores, músicos e escritores encontravam apoio e auxílio na forma de viagens de estudos, encomendas de obras, enfim, todas as formas de que o imperador podia dispor.10 No ano de 1840, durante as primeiras demonstrações de Louis Compte no Rio de Janeiro, que viajava para propagar as maravilhas da daguerreotipia, um dos mais atentos espectadores era justamente D. Pedro II, que completamente maravilhado adquiriu para si um equipamento, transformando-se no primeiro brasileiro a produzir imagens.11

Os anos cinqüenta anunciaram o auge do poder imperial, que removeu todos os obstáculos e não temia que reaparecessem. Mas, os anos sessenta começam a denunciar mudanças. Surge o conflito militar platino, de sérias conseqüências na vida política do país. A suspensão do tráfico negreiro mostra claramente os seus efeitos e ao fim da década de sessenta a luta política se acirra. A 3 de dezembro de 1870, começa a circular na Corte, A República, órgão do Partido Republicano Brasileiro, que lançara manifesto ao país.

A idéia republicana, assim, retomada de suas fontes históricas, ampliava-se progressivamente. Nas terceira e quarta décadas da segunda metade do século XIX ganhava a consciência da camada culta do país: estudantes, intelectuais, militares, padres. A Corte, reunia os melhores elementos da literatura e da imprensa, mas a economia permanecia monocultora, voltada para o exterior e assentada no braço escravo, enquanto a política conduzia-se pelos acordos de cúpula de uma privilegiada elite política.12

Nos últimos anos de Império, os problemas econômicos decorrentes das lutas abolicionistas vêm transformar em parte o panorama social. Sem a facilidade do trabalho escravo que sustentava a economia agrícola e citadina, muitas grandes senhoras perdem o poderio financeiro com que mantinham suas representações. Reduzem-se as residências e os vastíssimos palacetes. Várias famílias se vêem obrigadas a alterar seu modo de vida retirando-se a uma mais modesta condição social.

Com os últimos acordes das valsas do baile da Ilha Fiscal e ao apagar das gambiarras e lampiões que iluminaram festivamente o mais famoso baile imperial, extinguia-se para sempre, entrando na história, todo um passado que em nossa reflexão merece ser reavaliado e interpretado dentro das indagações e metodologias do presente, contribuindo com subsídios valiosos para que a história converta-se em instrumento poderoso para situar o homem no mundo.13

O exame da documentação oficial, dos acervos iconográfico e literário de acordo com os pressupostos teórico-metodológicos relacionados à análise semiológica textual e da imagem, aplicados à pesquisa histórica, podem contribuir de forma inovadora para a realização de uma proposta de pesquisa que enquadra-se no raio de atuação da História Política e da História Cultural e cujos campos em expansão estão intimamente ligados ao desenvolvimento de outras disciplinas, entre elas a Sociologia e a Antropologia, bem como aos estudos literários. A História Política, atualmente fortalecida com os avanços da História Cultural, permite uma visão do mundo partilhado, uma leitura comum do passado vivido em coletividade, uma maneira pela qual os seres humanos conduzem a sua ação política e encaram o futuro.

A idéia de que a realidade é social ou culturalmente constituída e está sujeita a variações tanto no tempo quanto no espaço, leva à busca de uma nova forma literária, pois as velhas formas já não atendem aos novos propósitos.14 Nessa linha de reflexão, encontra-se também, a ênfase à história da vida cotidiana, hoje encarada por alguns historiadores como o centro a que tudo deve estar relacionado, já que o cotidiano inclui ações, atitudes, rituais etc.

Para desenvolver essa linha de investigação o trabalho com o método histórico, preocupado com a dinâmica da evolução temporal, situando os documentos no tempo e no espaço, criticando-os quanto à autenticidade e credibilidade é fundamental. A aplicação do método comparativo também é básico, já que o próprio contato da história com as ciências sociais revelou como a análise comparativa permite distinguir os traços peculiares e essenciais de uma sociedade.15

Ainda com relação à metodologia, para a análise de fontes como textos e fotografias, a contribuição recente, mas bastante profícua, dos postulados sugeridos pela semiologia, principalmente no aspecto de estudo da imagem vem dar grande contribuição ao trabalho do historiador. O método semiológico aplicado à história prioriza a análise do conteúdo semântico e dos fatores que forçam o sentido histórico e são constitutivos do modo de produção de um texto escrito, de uma canção, de uma imagem etc.16

A importância do trabalho do historiador está em relação direta com a qualidade das perguntas que formula. Pensando dessa forma, a partir da análise das fontes de acordo com a análise dos elementos simbólicos chaves para a compreensão do período, podemos verificar que o projeto político do Império correspondeu a um projeto cultural e estético comprometido com os padrões europeus. As contradições do sistema social vigente afloram nos relatos textuais e na iconografia representativa do período, onde a vida cotidiana paralela dos diferentes grupos que compõem a sociedade dessa época se vê representada. A dinâmica social e política da cidade, à luz das atuais discussões historiográficas, caracteriza a Corte como um local de representação do poder, onde a imagem do imperador, apesar das aparentes contradições, pairava acima dos partidos, em prol da conciliação.

As fontes que podem ser utilizadas para o estudo dos aspectos culturais do Segundo Reinado são amplamente diversificadas: documentação administrativa e privada, memórias de particulares, correspondência oficial e privada, literatura (romances de época), relatos de viajantes estrangeiros e de cronistas, documentos cartográficos e iconográficos (como a fotografia), imprensa periódica do período e revistas ilustradas. A coleção privada da família imperial, em razão das péssimas técnicas de conservação e ao banimento apressado de D. Pedro II, teve muitas peças danificadas e perdidas, sobretudo são raros os documentos de comprovada autoria do imperador.17

Os documentos fotográficos apoiados em outras fontes de documentação, contém preciosas informações e podem assumir um relevante papel na análise e compreensão da história contemporânea. Jacques Le Golf afirmou que a fotografia revoluciona a memória, multiplica-a e democratiza-a, dá-lhe uma precisão e uma verdade visuais nunca antes atingidas, permitindo assim guardar a memória do tempo e da evolução cronológica.18 Inicialmente, o acesso aos daguerreótipos, peças únicas, de difícil produção e preço não muito acessível, era possível apenas para uns poucos, como a Família Imperial ou os abastados senhores da Corte.

Somente a partir de 1850 os daguerreotipistas começaram a ser denominados fotógrafos e a fotografia obteve reconhecimento começando a ganhar mais espaço no mercado de trabalho. A grande maioria dos fotógrafos em atividade no Brasil no século XIX dedicou-se exclusivamente ao retrato. Os retratistas eram os profissionais que melhor ganhavam a vida, devido à constante demanda por parte das famílias a respeito de imagens representativas de seus componentes. Surgem em conseqüência disso, retratos considerados clássicos em termos de pose e composição, e podem ser encarados como um espelho da sociedade do século XIX, que circulava pelos centros urbanos mais importantes da época.19

A família imperial foi o grupo de pessoas mais fotografado do século XIX no Brasil. O Conde D'Eu, casado com a princesa Isabel, fala a respeito da vida cotidiana em família: ... as princesas fazem música, olham-se fotografias e fazem-se jogos de prendas...20 O próprio imperador era fotógrafo amador e patrocinava o trabalho de vários profissionais talentosos em atividade no país. Alguns receberam o título de "Photographo da Casa Imperial", tendo seu trabalho reconhecido e prestigiado. Através desses incentivos, D. Pedro II teve papel importante na difusão dessa técnica no Brasil e em contrapartida, a mesma, construía a imagem do Império. Nas participações brasileiras em exposições internacionais, a fotografia tornou-se um elemento importante como porta de entrada do Brasil aos modernos códigos de representação.

Foi bastante significativa a produção de retratos na Europa durante o século XIX e conseqüentemente no Brasil. Ainda que considerando as dificuldades de deslocamento num país de dimensões continentais, essa prática consolidou-se culturalmente e economicamente no período. O jogo revelado entre passado e presente, entre realidade e imaginação, entre simulação e aparência transmitido pela fotografia garante a existência e a popularidade da mesma e demonstra aquilo que Roland Barthes denominou tão apropriadamente de "princípio de aventura".21

Segundo o autor anteriormente citado, as imagens nada ou quase nada dizem por si mesmas no sentido discursivo, pois elas não se constróem com o sentido fraseológico e com a dimensão verbal, capazes de permitir a geração do sentido. Dessa forma, toda imagem é polissêmica, e essa polissemia vai produzir uma interrogação sobre o sentido, uma corrente de significados onde o espectador pode escolher alguns e ignorar outros.

A imagem transforma-se numa escrita a partir do momento em que é significativa, remontando a significados denotativos e conotativos, sendo ainda, certamente, mais imperativa que esta, já que impõe a significação de uma só vez, sem analisá-la, sem dispersá-la.22 Eis porque o semiólogo deve tratar do mesmo modo a escrita e a imagem: ambas são signos, são dotadas da mesma função significante. Sendo a semiologia uma ferramenta para entender o mundo, a utilização de seus postulados teóricos-metodológicos pelo historiador contribui para a obtenção de um conjunto de significação que poderá ser desvelado a partir da análise semântica de textos ou imagens que narram fatos de uma determinada época. No entanto, a ênfase aos elementos que forçam o sentido histórico, como o conhecimento do modo de produção do texto ou imagem analisada, a finalidade com que foi produzida, a ideologia que permeia em seus diferentes discursos, o conhecimento de uma "história paralela" e a capacidade de exercer variadas articulações intertextuais, demonstram o caminho fortemente denotativo do historiador, redundando numa geração de sentido que só se completa "fora" do texto.23

Os fatos falam apenas quando o historiador os aborda. Esses fatos, mesmo encontrando-se em documentos ou não, ainda têm que ser processados pelo historiador antes que se possa fazer uso deles. Os métodos tradicionais já não dão conta da demanda dos historiadores, pois os objetos históricos atualmente ampliam-se cada vez mais e os historiadores devem demonstrar ao curso de seus trabalhos a capacidade de inovação.



1 Ronaldo Vainfas (organizador). Dicionário do Brasil Imperial. Rio de Janeiro: Objetiva, 2002, p. 283.

2 Rubens Fernandes Júnior & Pedro Corrêa do Lago. O século XIX na fotografia brasileira. Rio de Janeiro: Francisco Alves, s/d, p. 18.

3 Joaquim Nabuco.Um estadista do Império. Rio de Janeiro: Topbooks, 1977, v. 1, p. 98.

4 Apud Nelson Werneck Sodré. A História da Imprensa no Brasil. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1966, p. 221.

5 Antonio Edmilson Martins Rodrigues. José de Alencar: o poeta armado - A letra como arma no Segundo Reinado. In: Antonio Carlos Peixoto (org.). O liberalismo no Brasil Imperial. Rio de Janeiro: Revan UERJ, 2001, p. 135.

6 Sérgio Buarque de Holanda (organizador). História Geral da Civilização Brasileira. O Brasil Monárquico. Tomo II, v. 4. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1995, p. 45.

7 René Remond. O século XIX (1815-1914). São Paulo: Cultrix, 1997, p. 203.

8 Sodré, Op. cit. , p. 226.

9 Norbert Elias.A sociedade de corte. Rio de Janeiro: Jorge Zahar ed. , 2001, p. 218.

10 Lídia Besouchet. D. Pedro II e o século XIX. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1993, p. 89.

11 Rubens Fernandes Junior & Pedro Corrêa do Lago, Op. cit. , p. 17.

12 Lúcia Maria Pereira das Neves & Humberto Fernandes Machado. O Império do Brasil. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999, p. 449.

13 Id. ib. , p. 459.

14 Peter Burke. A história dos acontecimentos e o renascimento da narrativa. In: Peter Burke (org.). A Escrita da História. Novas perspectivas. São Paulo: Editora da Unesp, 1992, p.336.

15 Ciro Flamarion S. Cardoso e Héctor Pérez Brignolli. Os métodos da história. Rio de Janeiro: Graal, 1983, p. 23.

16 Orlando de Barros. A prOp.ósito de um texto que publicamos em ensaio. UERJ, abril de 1996. Texto inédito, exclusivo para uso didático.

17 Lilia Moritz Schwarcz. As barbas do imperador: D. PedroII, um monarca nos trópicos. São Paulo: Companhia das Letras, 1998, p. 351.

18 Apud Rubens Fernandes Junior e & Pedro Corrêa do Lago, Op. cit. , p. 18.

19 Id. , ib. , p. 30.

20 Frédéric Mauro. O Brasil no tempo de Dom Pedro II. São Paulo: Companhia das Letras, 1991, p. 191.

21 Roland Barthes. A câmara clara. Edições 70, Lisboa, 1981, p. 16.

22 Roland Barthes. O mito hoje. In: Mitologias. Rio de Janeiro: Bertrand, 1989, p. 132.

23 Orlando de Barros. A prOp.ósito de um texto que publicamos em ensaio. UERJ, abril de 1996.

X Encontro Regional de História – ANPUH-RJ



História e Biografias - Universidade do Estado do Rio de Janeiro - 2002




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