Maio de 1968 : os silêncios da memória



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MAIO DE 1968 : OS SILÊNCIOS DA MEMÓRIA*

Falando de história e de política, não há como não considerar o fato de que a memória é feita de esquecimentos, de silêncios. De sentidos não ditos, de sentidos a não dizer. Os sentidos se constroem com limites. Mas há também limites construídos com sentidos.

Mais do que ver no acontecimento maio-68 a constatação dessa violência, interessa vê-lo, enquanto acontecimento discursivo, justamente, como fato desencadeador de um processo de produção de sentidos que, reprimido, vai desembocar na absoluta dominância do discurso (neo) liberal. No entanto, no momento em que apareceu, maio-68 abria para uma nova discursividade, produzindo efeitos metafóricos que afetavam a história e a sociedade, de maneira explosiva, em várias direções: politicamente, culturalmente, moralmente.

Essa reflexão pode contribuir para a compreensão da relação entre memória e censura em geral.

É já conhecido, na análise de discurso, que há interpelação do indivíduo em sujeito pela ideologia. O sujeito se constitui em sujeito por ser afetado pelo simbólico. Daí seu assujeitamento, ou seja, para que o sujeito seja sujeito é necessário que ele se submeta à língua. Além disso, é preciso que a língua se inscreva na história para significar. E é isso a materialidade discursiva, isto é, linguístico-histórica, que resulta a forma – sujeito histórica. Em nosso caso, a forma-sujeito histórica capitalista corresponde ao sujeito-jurídico constituído pela ambiguidade que joga entre a autonomia e a responsabilidade sustentada pelo vai-e-vem entre direitos e deveres.

E aí as Instituições e o Poder constituído têm um papel determinante. É nessa instância que se dão as lutas, os confrontos e onde podemos observar os mecanismos de imposição, de exclusão e os de resistência.

E o que aconteceu com os sentidos que constituem o evento maio-68?

Falar é esquecer. Esquecer para que surjam novos sentidos, mas também esquecer apagando os novos sentidos que já foram possíveis, mas foram estancados em um processo histórico-político silenciador. São sentidos que são evitados, de-significados.

No modo como o político se simboliza nos anos 60 há todo um possível dizer da sociedade, da cultura que coloca os sujeitos em medida de uma transformação histórica e social de grande dimensão. Essa possibilidade eclode nos movimentos de 68 tendo a palavra liberdade como carro-chefe. No mundo todo há manifestações de rua em que uma discursividade candente trabalha os muitos sentidos postos na reivindicação das liberdades concretas necessárias à sociedade em suas novas possíveis formas, que pode significar “liberdade”:
“É proibido proibir!”

“Faça amor e não faça guerra!”

“Boulot, Metro, Dodô!” traduzindo para o português: “Trabalho, Condução e Cama!”
Que, em suas diferentes formas de dizer, afirmam a recusa a uma vida reduzida a regras e a um trabalho que, por sua vez, reduz o homem em suas possibilidades de vida.

A autora considera as condições de produção (ditadura militar no Brasil) e enfatiza que era bem diferente dizer”É proibido proibir” aqui em uma rua de São Paulo e em uma rua de Paris....

Então, sentidos possíveis, historicamente viáveis foram politicamente interditados.E tornaram-se inviáveis. Essa impossibilidade, posta pela censura e pela força, se naturaliza e funciona como um pré-construído restritivo a certos sentidos de liberdade, de tal maneira, que eles parecem impossíveis. Ao mesmo tempo, pela outra mão, a da direita, nesse mesmo processo, se estabelecem as bases do discurso neo-liberal em que se individualiza a questão da liberdade, destituindo-a da força concreta histórica que ela tinha na outra formação discursiva – a da esquerda, em que o partido comunista propunha em seu programa a necessidade de construção de uma democracia fundada nas liberdades concretas necessárias para as novas formas sociais – em que haviam se alocado sentidos explosivos de liberdade. E o que é silenciado em uma formação discursiva é acolhido em outra formação discursiva, esta, dominante, que corresponde ao viés pragmático e empresarial da neo-liberal desembaraçada dos sentidos mais corrosivos, transformadores do político. Essa liberdade sem determinações concretas, agora generalizada, pode ser reivindicada, individualizando-se, até pelos neo-nazistas que, em nome dela, exigem o direito de usar a suástica em suas roupas opressivas.
O que é isto companheiro?
Não é nada disso, companheiro, diz uma paráfrase de José Simão que, com seu humor, evoca o jogo discursivo que atravessa esse enunciado em sua memória, agora transformada de romance em filme.

E a questão é, sem dúvida uma questão de memória.

O sujeito é assujeitado, por outro lado, para que suas palavras tenham sentido é preciso que já tenham sentido. Assim é que dizemos que ele é historicamente determinado, pelo interdiscurso, pela memória do dizer: algo fala antes, em outro lugar, independentemente.

Assim como a língua é sujeita a falhas , a memória também é constituída pelo esquecimento; daí decorre que a ideologia, diz M. Pêcheux (1982), é um ritual com falhas, sujeito a equívoco, de tal modo que, do já dito e significado, posso irromper o novo, o irrealizado. No movimento contínuo que constitui os sentidos e os sujeitos em suas identidades na história.

A ideia de memória como um espaço de desdobramentos, réplicas, polêmicas e contra-discursos.

Memória e Censura

O que acontece com maio-68, porém é de outra ordem. A falha é constitutiva da memória, assim como o esquecimento.

No entanto o que acontece com os sentidos de 68 é que eles não falham apenas nessa memória, eles foram silenciados, censurados, excluídos para que não haja um já dito, um já significado constituído nessa memória de tal modo que isso tornasse, a partir daí, outros sentidos possíveis. Há faltas – e não falhas – de tal modo que eles não fazem sentido, colocando fora do discurso o que poderia ser significado a partir deles e do esquecimento produzido por eles para que novos sentidos aí significassem. Há, assim, ”furos”, “buracos” na memória, que são lugares, não em que sentido se “cava”, mas, ao contrário, em que o sentido “falta” por interdição. Desaparece. Isso acontece porque toda uma região de sentidos, uma formação discursiva, é apagada, silenciada.

E isto impede que certos sentidos hoje possam fazer (outros) sentidos.

Como a memória é ela mesma, condição do dizível, esses sentidos não podem ser lidos.

Para observarmos isso basta pensarmos nos sentidos dos nossos “companheiros” de maio-68 trucidados pela tortura e pela repressão militar.

Por onde passam os sentidos do terrorismo? Por onde passam os sentidos da resistência política de 68? Os sentidos de liberdade?

Acontece que estes sentidos – excluídos, silenciados – não puderam e não podem significar, de tal modo que há toda uma nossa história que não corresponde a um dizer possível.

Não foram trabalhados, socialmente, de modo a que pudéssemos nos identificar em nossas posições. Do mesmo modo ficam sem ser politicamente significados os feitos da tortura e do que resultou dela na nossa política. Toda vez que vamos votar, mesmo que nem pensemos nisso, o fato de que o Brasil é um país que tortura os dissidentes políticos faz parte de nossa memória e de nossos gestos políticos. E isso não mereceu ainda sua explicitação política. Está fora da memória, como uma margem que nos aprisiona nos limites desses sentidos.

Em consequência, a discursividade política tem seus pontos de tensão nos indícios desses silenciamentos. Hoje, discursos como os do MST, que são uma ruptura no discurso político neoliberal, têm dificuldade de significar-se nessa margem em que muitos sentidos não podem fazer o sentido político, onde palavras como “movimento” podem significar algo sujeito a repressão porque resvala para o que, hoje, se considera como ilegal, indo na direção do que se considera “mobilização social”, ilegal, e que, em maio-68, estava absolutamente dentro das expectativas do político.



Para terminar de dizer que o real histórico faz pressão, fazendo que algo irrompa nessa objetividade material contraditória (a ideologia), o que foi censurado não desaparece de todo, ficam seus vestígios, de discursos em suspenso, in-significados e que demandam, na relação com o saber discursivo, com a memória do dizer, uma relação equívoca com as margens dos sentidos, suas fronteiras, seus dês-limites.
Referência bibliográfica
ORLANDI, E. Maio de 1968, os silêncios da memória. In: ACHARD, P et al. Papel da Memória. Tradução e introdução de J.H. Nunes. Campinas, Pontes, 1999


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