Mais uma “ruína” abandonada pelo governo



Baixar 15.31 Kb.
Encontro20.07.2016
Tamanho15.31 Kb.
Escola Secundária da Polana

Mais uma “ruína” abandonada pelo governo

A contribuição dos pais e encarregados de educação é que garante o decurso das aulas” – afirma o Director da escola, Samuel Buque


Maputo (Canal de Moçambique) – Na ronda que temos vindo a efectuar pelas escolas públicas ao nível das cidades de Maputo e Matola, desta vez fomos escalar a Escola Secundária da Polana, no coração da capital do país, em plena área nobre, às portas da Sommerschild. O que podemos observar e ouvir dos professores e da direcção da escola, leva-nos a concluir que ela está abandonada. E, segundo o director, Samuel Menezes Buque, “não fosse pela contribuição da comissão dos pais e encarregados de educação já não haveria as mínimas condições para o decurso das aulas”.

A escola foi construída poucos anos depois da Independência Nacional, se bem que o projecto da sua construção tenha sido concebido ainda antes de 25 de Junho de 1975.

Como afirmou o director daquela instituição a Escola Superior da Polana “nunca beneficiou de nenhuma reabilitação de fundo desde que foi construída”.

“As únicas reabilitações que já conheceu correspondem à instalação eléctrica, sistema de esgotos e canalizações de águas”, disse ao «Canal de Moçambique» Samuel Buque para depois acrescentar que “estas reabilitações foram custeadas pelo fundo disponibilizado pela comissão de pais e encarregados da educação” e não pelo Estado que seria quem por princípio teria a obrigação de o fazer.



Retracto da Escola

A escola está a ficar com características de ruína. Já não tem pintura e as casas de banho estão entupidas, factor este que até põe em risco a saúde de toda comunidade escolar.

A piscina que lá está, aliás uma cova que foi aberta para ser uma piscina que até hoje está por se construída, transformou-se num depósito de resíduos sólidos e até de fezes.

O pavilhão de desportos é um verdadeiro atentado à segurança de alunos e professores de educação física. A cobertura está completamente destruída. Caem constantemente pedaços de Lusalite da cobertura. É um risco permanente. A segurança dos alunos e professores de educação física está ameaçada a todo o momento. O piso também está esburacado, criando dificuldades à prática da educação física e desportos. Já houve alunos que se feriram a jogar Futsal naquele pavilhão.

Para além de já não se reconhecer a cor das paredes das salas, que estão hoje com ar de comento cru, cobertas de camadas de poeira, teias de aranha, as paredes estão cheias de inscrições em grafit feitas pelos alunos ao longo de dezenas de anos. O aspecto é horrível e nada próprio para uma escola onde é suposto formarem-se pessoas com valores adequados às aspirações de um país que quer ter futuro.

Como enfermidade característica a todas as escolas da cidade, as salas contam com cerca de 70/80 alunos por turma, quando apenas existem entre 20 a 30 carteiras, em média, em cada sala de aulas.

A cantina está alugada a um agente comercial que vende produtos caros, fora do alcance dos alunos.

Nos sanitários, de cerca de 12 que funcionavam, 8 estão entupidos, de tal maneira que já não podem ser usados. Os restantes quatro que ainda vão servindo embora mal, estão muito mal tratados. O cheiro é nauseabundo. Prolifera por todo o recinto escolar. Perturbar até o decurso normal das aulas.

A instalação eléctrica está também cansada. Os quadros eléctricos estão sem tampas de cobertura, deixando à mostra os fusíveis e disjuntores. A segurança dos alunos e demais utentes está permanentemente em risco. Ali até há alguns alunos menores de 12 anos.

Crise de professores

Também para não variar, esta escola enfrenta como outras grande crise de professores. Cerca de 500 alunos distribuídos em oito turmas da 8.ªs, 9.ªs e 10.ªs classes, terminaram o 1º trimestre sem professores para certas disciplinas. Consequentemente não foram sequer submetidos às avaliações finais referentes às cadeiras do 1º trimestre.

No entanto a situação é mais crítica para os alunos da 10.ª classe. No final do ano lectivo serão submetidos ao exame final normalmente com os outros alunos que tiveram professores durante o ano, mas só se conseguirem pagar explicações por fora poderão ter alguma hipótese de passar. Ou por obra “milagrosa”, que é também um critério bastante em voga.

A sala de música que já funcionou naquela escola, ficou para a história. O espaço que lhe estava destinado “foi transformado numa sala de informática”, mas não tem computadores.



10. 000 USD para campo de futebol

A escola ganhou 10.000 USD, cerca de 260.000,00MT na edição de 2004 da «copa Coca-Cola». Porém, segundo afirmou o actual director da escola, a direcção que estava no exercício naquele período, “não soube definir prioridades, e acabou aplicando o valor para a construção de um campo de futebol”.

“É um campo de péssima qualidade e não está a ser utilizado, devido ao seu piso que não reúne condições para tal”, refere a propósito o director da Escola Secundária da Polana.

Questionado sobre o futuro que está reservado à escola, o interlocutor do «Canal de Moçambique» começou por afirmar ser novo no cargo, estando ali como director da instituição “há 3 semanas, em substituição da antiga directora Zaida Mário Malembe”.

Ele diz ter planos para melhorar as condições da escola. Afirma por exemplo que quer garantir a segurança escola que “muitas vezes é colocada em risco pelos próprios guardas e alunos mais velhos”.

Guardas roubam loiça e alunos sob efeito de alcool

“A escola já sofreu roubos de loiça sanitária, perpetrados pelos próprios guardas da escola, casos em que acabaram confessando. Foram até instaurados processos disciplinares contar eles, com o conhecimento da Direcção de Educação da Cidade (DEC)”, afirmou o nosso entrevistado. E disse também que “há alunos que aparecem na escola sob efeitos de álcool para perturbar as aulas”. São estes aspectos que o director prometeu melhorar a curto prazo, deixando para a DEC os aspectos mais relevantes e que estão fora do âmbito das suas capacidades pessoais.

Samuel Menezes Buque disse ainda ao «Canal de Moçambique» que a escola gasta cerca de 33.000,00MT em salários de funcionários contratados ao nível da própria escola para pequenas manutenções, sendo este “valor proveniente da contribuição dos pais e encarregados de educação”. “Do Estado apenas temos o material eléctrico, através de umas lojas com as quais a DEC tem um acordo para a concessão deste material às escolas.”

“O resto dos trabalhos, como reparação da tubagem, esgotos, limpeza, nós é que custeamos”.

Quanto à questão dos sanitários, parece que o cheiro já chegou ao Ministério de Aires Aly. Neste momento há um espaço no interior da escola que está a ser vedado, segundo informou o director, afim de ali serem construídos novos sanitários, para depois de proceder à reabilitação de fundo, nos já existentes e em avançado estado de degradação. É já um bom sinal.

Culpa do governo

Numa opinião pessoal acerca do estágio actual da educação em Moçambique, Samuel Buque afirmou “estar num momento conturbado, muito por culpa do próprio governo que não disponibiliza fundos suficientes para garantir uma educação de qualidade”.

“O Ministério das Finanças, não dá o valor necessário para garantir o funcionamento normal da educação. Se a Direcção de Educação da Cidade pedir 100, eles dão 60, e é obvio que haverá défice”, disse Buque.

Reconhecendo-se que a educação dos cidadãos é uma peça chave para o desenvolvimento de uma nação, por todo lado os cidadãos apelam para que governo leve mais a sério os problemas que infligem este sector.

Dizem que não basta os discursos para melhorar o sector de educação. Recomendam que se faça trabalho tangível. Entendem que tudo o que se faça sem que se empreenda previamente o melhoramento das escolas; sem que haja contratação de professores suficientes para leccionar, entre outros aspectos que dizem melhor saber quem de direito não vai resolver nada. Os cidadãos pedem que quem ocupa postos no governo lá esteja por mérito próprio e não pelo facto de terem estado em Nachingweia a lutar pela Independência.

Em alguns círculos até já se fala que o sector de educação é o mais fraco em Moçambique, como uma estratégia montada propositadamente para formar cidadãos fracos de espírito e fáceis de governar.



É do conhecimento de todos que um povo não instruído é fácil de enganar. E como tal já começa todo o mundo a aceitar que o desleixo nas escolas oficiais é para intencional. Atendendo a que os filhos dos chamados “grandes bosses” – como assim se fala por todo o lado – estudam no estrangeiro e já quem governa não tem de se preocupar com o estado do ensino. Isso até ajuda a perpetuar a hereditariedade do poder. Quem não tem outra alternativa que não sejam as escolas públicas; quem não tem dinheiro para estudar em escolas privadas ou no estrangeiro, é o povo pobre e para esses parece que esta educação sem qualidade é quanto basta.

(Borges Nhamirre) – CANAL DE MOÇAMBIQUE – 13.04.2007


©principo.org 2016
enviar mensagem

    Página principal