Manifesto libertário para um fim de século



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Encontro02.08.2016
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MANIFESTO LIBERTÁRIO

PARA UM FIM DE SÉCULO

A IDEIA
A liberdade é a nossa tradição. De todos os movimentos radicais de cariz libertário, e de toda a história do anarquismo mais explicita­mente assumida, a conclusão que extraímos é a de que os seus valores permanecem actuais e o correspondente projecto em aberto. A auto­nomia individual e o auto-governo colectivo poderão suscitar as maio­res incertezas e os debates mais acesos no que se refere às formas e vias da sua instituição e desenvolvimento — mas para nós são valores pri­meiros, pontos de referência insubstituíveis, e pensamos que continuam a conter potencialidades de resposta histórica aos desafios e impasses mortíferos deste fim de século.

Ao mesmo tempo, a liberdade só se efectiva e cresce ao ser igual para todos e nas mais diversas esferas sociais. Sem igualdade, a liber­dade pode ser fictícia, tal como sem liberdade a igualdade conduz à uniformidade e despersonalização. Nós não preferimos a liberdade à igualdade, ainda que a primeira seja o nosso princípio orientador. Que­remos a igualdade como condição da liberdade e do seu desenvolvi­mento, e vice-versa. Neste sentido, a defesa da liberdade de iniciativa, que defendemos, não pode ser entendida como a liberdade de impor aos outros uma condição de menor liberdade. De facto, liberdade e igual­dade implicam-se de modo, por assim dizer, circular. Demonstram-no toda a história do século passado e do presente.

Conhecendo os efeitos resultantes da burocratização e comple­mentar corrupção das relações sociais nos países do «socialismo real», não podemos deixar, hoje, de defender a liberdade de trabalho, de ideo­logia política e crença religiosa, e de iniciativa económica e social, mesmo nos chamados países do Terceiro Mundo e não ignorando que elas também podem permitir formas detestáveis de dominação e explo­ração. O trabalho independente e associado, a participação dos traba­lhadores nas organizações de trabalho e uma dimensão humana ade­quada destas últimas são, contudo, orientações geralmente positivas para a criação de uma verdadeira economia social que, de resto, exigirá igualmente participação, oportunidades de escolha, associativismo e de-mocraticidade do lado do consumo e em todas as esferas da actividade económica.

Os anarquistas levantaram-se no passado reivindicando, antes de mais, o direito a serem eles próprios, mas julgando poderem contribuir para criar uma sociedade perfeita, sem opressões, sem estado, sem vio lências. Um século mais tarde, nós consideramo-nos, em parte, seus her­deiros, sobretudo o seu desejo utópico de libertação. O problema crucial é o de como o homem pode continuar livre nas nossas sociedades massi-fiçadas. A realidade é a desordem e o conflito. A sociedade ideal deve­ria ser capaz de respeitar a desordem e de viver com o conflito, mas diminuindo-lhe as injustiças e os sofrimentos.

A esta luz, o problema do indivíduo e da sociedade — termos irre­dutíveis um ao outro e criadores de um tensão que é um dos mananciais mais fecundos de continuidade da história — coloca-se com uma clareza renovada. Não se trata de escolher entre um e outro. Deixou de haver lugar para urna certa inocência de actuação individual ou localizada, numa época em que tudo repousa sobre frágeis equilíbrio» e interde­pendências. As «boas soluções» para nós, terão também de o ser para todos os outros. Falar de uma sociedade livre só faz verdadeiramente sentido se afirmarmos ao mesmo tempo a autonomia e o direito à dife­rença das singularidades individuais.

O velho anarquismo apostou no operariado e na revolução. A nossa estratégia, hoje, quase a beira do século xxi, já não pode ser essa. Sabemos que não há agente privilegiado, a não ser conjuntural-mente, de transformação radical. O projecto libertário de que somos herdeiros, e cuja invenção devemos ser capazes de continuar por conta e risco próprios, implica a participação activa e empenhada da imensa maioria dos seres humanos, a promoção de uma relação alternativa entre o indivíduo e a sociedade, entre o Homem e a Terra, entre a criação e as regras, entre o particular e o universal.

Por outro lado, repudiamos o terrorismo e os meios de acção coercivos. A nossa escolha é a de nos colocarmos na esfera de acção social e não na imposição institucional do estado, é a de oferecermos as nossas ideias e reflexões aos indivíduos comuns e não a de nos insta­larmos na manipulação mediática, afectiva e irracional. O que está em jogo na acção libertária não é, conforme uma fórmula clássica, chegar à anarquia hoje ou amanhã, mas caminhar hoje, amanhã e sempre em direcção a anarquia — entendida como um meio social onde os indi­víduos pudessem dispor da máxima liberdade.

Pensamos que uma perspectiva emancipadora poderá vir:



  • Da grande força social da juventude e da riqueza proveniente
    da cada vez maior participação das mulheres em todas as
    esferas da vida social;

  • De uma transformação no acesso ao saber e à cultura, e no
    seu uso e desenvolvimento, de forma a que cada indivíduo
    possa beneficiar de uma autêntica liberdade interior e pes­
    soal, e construir uma concepção do mundo que lhe seja
    própria;

— Dos novos populismos que caracterizam os movimentos sociais do pós-industrialis'mo, dinamizados em volta de temas como a defesa da natureza, a extensão da democratização das estru-ras sociais, o direito à existência e à expressão das minorias, o aparecimento de novas formas culturais, etc.;

—• Da emergência de uma nova consciência profissional — de exi­gências de realização, autonomia e responsabilidade no tra­balho — baseada num alicerce de conhecimento científico e tecnológico cada vez mais importante.

A «sociedade perfeita» não existe, felizmente, dado que ela seria provavelmente a da opressão total para os indivíduos. Não acreditamos pois em qualquer tipo de «sociedade anarquista». Interessa-nos, isso sim, que o devir das sociedades actuais seja marcado, sempre mais, pelos valores da liberdade e da solidariedade e, nesse sentido, cada vez mais libertárias. É esse, hoje como ontem, o desafio que continuamos a propor.


Lisboa, Portugal Novembro 1987
A IDEIA

Grupo Editorial





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