Mano descobre a diferença



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CONSTRUÇÃO DE UMA NARRATIVA: VOZES DO DISCURSO SOBRE A DIVERSIDADE
Carla Silva Machado – UFJF

Pretendemos, neste estudo, fazer uma análise do discurso sobre diversidade e diferença tendo como referencial os pilares da Modernidade e da Atualidade e, como Corpus Discursivo, o livro Mano descobre a diferença.

A Modernidade é o período pós Idade Média que tem uma preocupação com o fazer científico, período em que ciência e verdade científica tornam-se a base de tudo. O ideal do homem Moderno é explicar a vida e suas realizações através da ciência. Ao buscar resolver as questões do homem através da ciência, o próprio homem perde seu espaço para o saber científico. Existe uma grande preocupação do homem moderno em manter a ordem, vale lembrar que este é o período em que se formulam as concepções do positivismo, que tem a ordem como um de seus pilares. Na perspectiva de ordenação, cria-se a noção de normalidade e seu contraponto, a anormalidade, o homem moderno obedece a padrões para ser aceito socialmente, qualquer característica tida como anormal faz com que este homem fique a margem da sociedade.

A Atualidade é o momento de revisão de valores e ruptura com a ciência Moderna, é quando começa-se a pensar numa ciência para o homem e pelo homem. É a época da transição e da mudança, em que os novos e os velhos ideais disputam espaço na sociedade e no discurso desta. Na Atualidade começa-se a pensar numa ciência que trate da pluralidade e que trabalhe com a perspectiva de um homem com pensamentos e valores múltiplos.

Se as idéias defendidas pela Modernidade são questionadas, ou melhor, são idéias que já não fazem tanto sentido para o homem da Atualidade, ou ainda, são idéias que já começam a ser questionadas, vemos que já começam a aparecer autores e obras da literatura infantil, inclusive no Brasil, que tratam da diversidade, usando dos novos paradigmas que defendem uma sociedade sem exclusão, onde é possível (con)viver com o diferente sem querer modificá-lo, mas transformando nosso pensar e trocando velhas idéias por novas ações. Dentre estes está o livro Mano descobre a diferença, da Série Cidadão-Aprendiz.

Tal Série foi escrita pelo escritor e jornalista Gilberto Dimenstein e pela educadora e escritora infantil, Heloisa Prieto. Todos os livros da série têm uma preocupação com questões que envolvem a conquista da cidadania. Anterior a Mano descobre a diferença (2001), foram lançados: Mano descobre o amor (2001), Mano descobre a solidariedade (2001), Mano descobre a liberdade (2001), depois dele foram lançados Mano descobre a ecologia (2002) e Mano descobre a paz (2003) que têm como proposta de tema transversal trabalhar a ética. A opção, neste trabalho, pelo quarto livro da série se deve ao fato de ele, além de tratar, como os outros, de questões ligadas à cidadania e ter como proposta a ética, também nos apresenta como possibilidade de trabalho uma sugestão que vem, inclusive, no catálogo da editora, a pluralidade cultural, um dos pilares da Atualidade.

O complemento pedagógico (2001) que acompanha o livro deixa clara a intenção dos autores de promover, com a participação da literatura e da escola, “uma formação abrangente que possibilite o desempenho pleno da cidadania”(p. 02). Sendo assim, os escritores colocam-se como formadores de opinião, desejando fazer essa formação da maneira mais eficaz possível. Na justificativa para a escolha do tema completam:

As atividades aqui propostas pretendem contribuir para que os alunos das últimas séries do ensino fundamental (5a a 8ª) conversem e aprendam a refletir sobre as diferenças que existem entre os seres humanos – sejam elas raciais, culturais, de sexo, derivadas de crenças religiosas, ou determinadas por deficiências físicas – e sobre os preconceitos que podem ocorrer (p. 06).

O catálogo 2003 de Literatura Juvenil da Editora Ática dedica as páginas 46 e 47 à série Cidadão-Aprendiz. Além de apresentar a série, apresenta seus autores e traz o seguinte resumo para o livro Mano descobre a diferença: “Mano e seu amigo conhecem um internauta especial, com uma vida cheia de mistérios. Para descobrir o que está por trás desses segredos, os dois amigos se deparam com valores universais de todos os tempos.” Para compreendermos a narrativa, é preciso conhecermos melhor a história de Mano. Então vejamos.

Mano é um garoto de treze anos que mora em São Paulo e gosta muito de jogos de computador, principalmente de um jogo chamado Rara Esfera. Ele tem dois amigos que o acompanham em suas aventuras, Carolina, a Cacá, e Oscar, o Micreiro. Durante a história, outros personagens vão sendo apresentados: Aladin, um senhor que tem uma sapataria na Vila Madalena de quem Mano gosta muito. Ele gosta de contar histórias e ouvir Raul Seixas e usa uns sapatos coloridos e de pontas viradas para cima, daí seu apelido, pois seu verdadeiro nome é Arnaldo. Janine é avó de Cacá, uma avó muito engraçada que gosta de literatura francesa e é amiga de Aladin e de Amanda, uma senhora que faz cuecas gigantes e vende para os clubbers. Shirley trabalha na casa de Mano e é sua conselheira e, de vez em quando, o ajuda em suas aventuras, a mãe de Mano é psicóloga. Anísia, uma professora de Artes a quem a turma toda adora e Ari, o professor substituto de Anísia, de quem os alunos não gostaram muito no início, mas depois descobrem que ele é bom professor e até já tinha sido ator de televisão.

Já no início da narrativa, Mano vai até a sapataria de Aladin e conhece o sapateiro, que conta para ele a seguinte história:

_ Esta história – disse Aladin – era muito contada na Europa de antigamente. Começa assim: era uma vez um ovo de águia que foi parar no ninho de uma galinha. A águia cresceu como se fosse uma galinha, alimentava-se como uma galinha.

_ Então? – perguntou Carolina.

_ Um dia a águia que pensava ser galinha viu uma águia no alto. Era maravilhoso observar seu vôo, sua elegância, toda a liberdade do movimento de suas asas.

_ E daí ela saiu voando também... – eu disse.

_ Não. Daí que ela suspirou, sentiu uma infelicidade profunda e pensou assim: “ Aí, que bom seria se eu fosse uma linda águia” (DIMENSTEIN e PRIETO, 2001, p. 6-7).

Durante a narrativa, outras histórias vão sendo contadas, noutro dia, quando os meninos voltam a se encontrar com Aladin, ele conta para os meninos a sua versão de O Patinho Feio, a história preferida de Mano:

_ Era uma vez um pato bem feio. Na verdade, ele era um cisne, só que o ovo dele foi parar no ninho de uma velha pata. Como ele era bem maior que os patinhos, de pescoço comprido e corpo largo, todos o achavam horroroso. Resultado: o cisne que pensava ser pato, também se achava um monstro. Depois de muita confusão e sofrimento, o cisne fugiu pelo mundo afora. Sempre se achando medonho. Aliás, ele se achava tão feio que nem se olhava nas águas do lago. Por isso, quando virou um belo cisne, nem percebeu. Até que um dia, um bando de cisnes o viu. Com cara de bobo. Parado à margem do rio. Os cisnes foram chamá-lo. Ele mergulhou. Percebeu que sabia nadar. Eles voaram. Ele imitou. Deu certo. Só que, quando sobrevoou o galinheiro, sentiu uma raiva de cão, daquele monte de pato chato. Aterrissou com todos os cisnes. Virou guerra. Acabou todo mundo depenado. De repente, os patos olharam para a cara dos cisnes e começaram a rir. Estavam horrendos. Todos. Ninguém era mais bonito que o outro. Ficaram amigos.

Moral da história: fazer guerra é odiar tudo o que é diferente da gente (idem, p. 19).

Mais no meio da narrativa, Mano pede ajuda a Alexandre para fazer seu trabalho de Artes, um teatro sobre a diferença, posto que queria fazer alguma coisa diferente e achava que toda a turma iria pesquisar mitologia grega. Alexandre pesquisa as lendas brasileiras e descobre que os índios brasileiros também conhecem a história do Patinho Feio, porém, seu final é diferente. “No final, o pato feio é aceito na tribo, ele salva a vida de uma galinha e todo mundo começa a respeitá-lo. Ele não precisa ir embora para ser feliz. Legal, né?” (idem, p. 30).

Quando Alexandre conhece Aladin, este já vai logo dizendo: “No fundo do mar há riquezas incomparáveis. Mas, se queres segurança, busca-a na praia” (idem, p.38). E foi logo emendando uma de suas histórias:

_ A história de hoje é especialmente dedicada a você, Alexandre. Eu não a inventei, ela foi escrita por um famoso poeta persa, chamado Rumi. Esse cara tinha um mestre chamado Shams. Desde garotinho, Shams era diferente. E, quando cresceu, Shams virou um grande contador de histórias.

Um dia, contou a história de um ovo de cisne que foi parar no ninho de uma galinha. A galinha chocou o ovo e criou o cisne como se fosse um pintinho. Certa manhã, todos foram até a praia. O pequeno cisne mergulhou na água e saiu nadando, enquanto a galinha ficou na margem. Ele nadava com tanta elegância e felicidade que a galinha não conseguiu dizer nada, embora estivesse com medo e o quisesse de volta.

De repente ele disse bem alto:

_ Mamãe, diga ao papai que encontrei meu lugar. Aprendi a nadar no oceano, mesmo que vocês tenham sempre que ficar na terra (idem, p. 38).

No final da história, Carol, Oscar, Mano e Alexandre preparam uma peça para ser apresentada na escola. Eles pensam e montam a seguinte história:

Título: ASAS DA PAZ

Argumento: Extraterrestres aterrissam no planeta.

Missão: Espalhar-se entre os homens, assumindo identidades secretas, para ensiná-los a conviver em paz.

Problema: Os extraterrestres são criaturas aladas que precisam ocultar as asas, fingindo que têm corcundas ou problemas nas costas. Para melhor cumprir sua missão devem evitar envolver-se muito intimamente com os humanos.

Enredo: Um alado sideral, que trabalha como professor numa escola, apaixona-se por uma colega. Como era ET e nunca havia sentido o amor, fica cego de paixão. Desobedece às regras interespaciais e namora a professora. ela fica grávida. Nasce um bebê mutante. Ele é lindo, parece um anjo.

Porém, devido a essa desobediência, todos os Ets partem do planeta. A mãe do anjo extraterrestre fica com seu bebê. O garoto é criado como se tivesse uma corcunda horrível.

A vida toda se esconde das pessoas, pensando ser uma espécie de monstro. Até que seus poderes começam a desenvolver-se: ele sabe acalmar alguém com raiva, ele sabe projetar a paz quando todos brigam, ele sabe voar.

Com o tempo, ele vira um super-herói, muito amado por toda a humanidade.

Um dia, os Ets voltam para buscá-lo. Em seu mundo, ele teria uma vida normal, seria como todos os outros. Livre para voar em paz, sem precisar de disfarces ou mentiras.

Mas ele prefere ficar. Ser diferente, mas muito querido, mesmo mutante (idem, p. 41).

As histórias que vão sendo contadas durante a narrativa podem ser vistas como intertextos do clássico O Patinho Feio (1844) do dinamarquês Hans Christian Andersen, já que Mano, o personagem principal da narrativa, sente-se próximo e identifica-se com o Patinho Feio e, durante a narrativa, por algumas vezes a história é lembrada.

Intertextualidade é a relação existente entre diferentes textos e entre o texto e o contexto. O termo foi usado pela primeira vez por Júlia Kristeva, integrante da crítica literária francesa, na década de 60. Antes dela, o russo Mikhail Bakhtin cunhou, em 1928, o termo polifonia em seu estudo Problemas da poética de Dostoiévski, ao se referir à multiplicidade de vozes presentes na obra do autor russo. As concepções de polifonia e intertextualidade de Bakhtin e Kristeva são muito próximas, podemos dizer que o processo de criação intertextual/polifônico pressupõe a criação de novos sentidos na reorganização de textos já existentes. Ao partir de um texto alheio e ao aproveitá-lo noutro contexto, o artista está ressemantizando ou ressiginificando tanto o texto existente, como o texto em construção.

Na narrativa de Mano e seus amigos, aparecem, portanto, quatro histórias que abordam um mesmo conflito: um animal de espécie diferente que tenta conviver com outras espécies. Três destas histórias são da tradição oral e estão presentes em diferentes regiões e culturas, apesar de tratarem de uma mesma temática. A primeira história contada por Aladin é da tradição oral européia, uma águia que foi parar num galinheiro e viveu toda a vida, acreditando ser uma galinha, sentia-se infeliz, porquanto via as águias no céu e queria ser uma delas, porém já agia como uma galinha. O conflito é o mesmo de O Patinho Feio, no entanto o desfecho é diferente, uma vez que a águia, no lugar de procurar sua espécie, passa a viver e se comportar como uma galinha, tornando-se uma igual, abrindo mão de sua identidade, para fazer parte do grupo. Interessante percebermos que existe uma outra versão da águia e da galinha, esta africana, em que a águia, após viver como galinha, durante anos, consegue voar como águia e junta-se a elas. Esta versão, segundo Boff (1997/2003), foi contada por James Aggrey numa reunião de lideranças populares, em 1925, em Gana, para discutir a libertação do domínio colonial inglês e tinha por objetivo convencer seus compatriotas da necessidade de serem um país independente, nas palavras de Boff (1997/2003, p. 34), Aggrey finaliza:

_ Irmãos e irmãs, meus compatriotas! Nós fomos criados à imagem e semelhança de Deus! Mas houve pessoas que nos fizeram pensar como galinhas. E muitos de nós acham que somos efetivamente galinhas. Mas nós somos águias. Por isso,

companheiros e companheiras, abramos as asas e voemos. Voemos como as águias. Jamais nos contentemos com os grãos que nos jogarem aos pés para ciscar.

Entendemos que as duas versões da mesma história registram as idéias de sociedade de cada período e lugar: a função da primeira história, a que aparece no livro de Prieto e Dimenstein, trazida da tradição européia, é passar aos receptores a idéia de que é melhor viver infeliz, mas sem correr o risco de ser destacado e passar por humilhações, mesmo privado de ter uma identidade plena. A segunda história, da tradição africana, serve para encorajar os ganenses a lutar pela independência de seu país que era colônia da Inglaterra. Ser galinha representa, então, na versão africana, continuar sendo dependente, baixando a cabeça ao domínio inglês, acreditando na superioridade dos ingleses em relação aos africanos; enquanto ser águia é o caminho da libertação, da busca da identidade e da independência.

Comparando a história européia à história africana, estamos diante de um tipo específico de intertextualidade/polifonia, chamado por Bakhtin de paródia. Sant’Anna (1985/2003) estabelece um paralelo entre paródia e paráfrase. Vejamos:

Do lado da ideologia dominante, a paráfrase é uma continuidade. Do lado da contra-ideologia, a paródia é uma descontinuidade. Assim como um texto não pode existir fora das ambivalências paradigmáticas e sintagmáticas, paráfrase e paródia se tocam num efeito de intertextualidade, que tem a estilização como ponto de contato. Falar de paródia é falar de intertextualidade das diferenças. Falar de paráfrase é falar de intertextualidade das semelhanças.

Enquanto a paráfrase é um discurso em repouso, e a estilização é a movimentação do discurso, a paródia é o discurso em progresso. Também se pode estabelecer outro paralelo: a paráfrase como efeito de condensação, enquanto a paródia é um efeito de deslocamento. Numa há o reforço, na outra a deformação. Com a condensação, temos elementos que se equivalem a um. Com o deslocamento temos um elemento com a memória de dois. Po isto é que se pode falar do caráter ocioso da paráfrase e do caráter contestador da paródia. Na paráfrase alguém está abrindo mão de sua voz para deixar falar a voz do outro. Na verdade, essas duas vozes, por identificação, situam-se na área do mesmo. Na paródia busca-se a fala recalcada do outro (SANT’ANNA, 1985/2003, p. 28-29).

Ao tomarmos O Patinho Feio como texto inicial, ou texto de origem, veremos que a história européia da águia e da galinha é uma confirmação do discurso da exclusão vista no texto de origem, portanto, uma paráfrase deste. Enquanto a versão africana é uma paródia de ambos, já que é uma voz que contesta a ordem, como se pudesse, com a mesma situação, mostrar outra possibilidade, outro desfecho, conseqüentemente, um caminho que destoa do anterior.

A segunda história que aparece na narrativa é, segundo os autores, O Patinho Feio, versão Aladin, ou seja, é a versão dos autores, na voz do personagem Aladin, para o clássico de Andersen. Nesta versão, o Patinho é considerado feio pelos outros animais que moram no galinheiro, vai embora de lá, junta-se aos cisnes e decide se vingar daqueles que o maltratavam, causando uma briga. Por causa da briga, todos ficam depenados e feios e começam a rir dessa situação, a história termina, deixando-nos a seguinte moral: “fazer guerra é odiar tudo o que é diferente da gente.” Temos aí, uma paródia em relação à história original, pois nesta se prega que devem existir diferentes lugares para diferentes grupos, enquanto a versão presente no livro de Dimenstein e Prieto prega a aceitação do outro.

A história é construída, imitando a forma de uma fábula antiga que tem sempre no final uma moral explícita para seus leitores. Interessante notar que a moral desta é justamente um pressuposto da Atualidade, a idéia da aceitação da diferença, do anti-racismo ou da concepção mutante do ser. Ao contrário da história escrita por Andersen, que garante o final feliz para o Patinho depois da busca pelos seus; na versão de Aladin, só pode existir um final feliz diante da aceitação das diferenças, a saber, as histórias trabalham com idéias contrárias, porém usam de um mesmo recurso e alegoria – um cisne criado como pato tenta encontrar seus iguais -, mas diferentes desfechos, mostrando, assim, o deslocamento do discurso já que a primeira história narrada era uma paráfrase da história de Andersen e esta é uma paródia, enquanto a primeira reforçava o discurso da exclusão e do racismo, a segunda o contesta.

A terceira história, contada por Alexandre, é uma lenda indígena brasileira, nesta, o pato é aceito na tribo após salvar a vida de uma galinha, ou seja, ele teve de mostrar-se útil para o grupo, para permanecer ali, mesmo sendo diferente deles, como se ele precisasse provar que a tribo dependia dele. Temos aí o ideal da Integração que preconiza a idéia de que o diferente, para ser aceito, deve mostrar-se capaz de assumir seu papel social. O conceito de integração surgiu no final da década de 60 e início de 70, incorporado à Educação Especial; seu objetivo era inserir o indivíduo fora do padrão na sociedade, entretanto, acabou reforçando a discriminação ao diferente, pois este tinha que provar ter capacidade para assumir suas funções no contexto social. Percebemos que existe novamente uma mudança de perspectiva e de leitura, a lenda indígena não prega as mesmas idéias da história escrita por Andersen, no entanto, não é o inverso desta, ou “não ocorre uma ‘traição’ à organização ideológica do sistema” (idem p.39). Podemos entendê-la como uma estilização da história de origem posto que apresenta, segundo Sant’Anna (1985/2003), “um desvio tolerável”, ou ainda:

Vejamos a estilização enquanto desvio tolerável. Por desvio tolerável estou significando algo quantitativamente verificável, sem me envolver em problemas qualitativos. Ou seja: esse desvio tolerável seria o máximo de inovação que um texto poderia admitir

sem que lhe subverta, perverta ou inverta o sentido. Seria a quantidade de transformações que o texto pode tolerar mantendo-se fiel ao paradigma inicial .

Isto me permite dizer que o escritor que produz este tipo de efeito trabalha numa área de pouca diferença em relação ao original. E esse tipo de desvio mais do que tolerável é também um desvio desejável, sem o que ele pode cair na paráfrase e perder o sentido da autoria (idem, p. 38-39).

A quarta história, que aparece na narrativa, é uma lenda persa escrita pelo poeta Rumi na narrativa, a história foi contada por Aladin a Alexandre. Nesta, uma galinha cria um cisne como se fosse um pintinho. Quando ele aprende a nadar, vai para o mar e diz à mãe que encontrou seu lugar, mesmo que tenha que ficar longe dela. Em Histórias da Alma, Histórias do Coração (1994/1999), encontramos a seguinte introdução para a mesma história: “Rumi, O grande poeta persa, teve um mestre extraordinário chamado Shams. Desde criança, Shams parecia diferente. Seus próprios pais não sabiam se o mandavam para um mosteiro ou para a casa dos loucos. Não sabiam o que fazer com ele (p. 179)”. Na história original, contada por Rumi, a galinha criou um pato e não um cisne, contudo o desfecho é exatamente o mesmo, talvez a opção dos autores em trocar o pato pelo cisne foi a de aproximar o desfecho desta ao desfecho da história contada por Andersen. Novamente, esta história é uma estilização do Patinho Feio posto que as espécies são separadas e a mãe fica sem o filho, pois ele vai para o mar, porém, isto se dá de forma natural, sem traumas, não existe aí uma fuga ou uma expulsão, o cisne vai para onde se sente melhor, logo, existe um desvio tolerável que não chega a deformar a idéia da história original.

A lenda indígena e a história persa são estilizações da história original, O Patinho Feio, pois na primeira existe uma mudança no desfecho, o pato é aceito na tribo, entretanto tem que provar que é bom o suficiente para ficar. Na história persa existe a estilização porque o conflito é amenizado, isto é, não existe uma atitude agressiva de expulsão do outro, no entanto ele entende que seu lugar é o mar, perto daqueles que são iguais a ele, é portanto, um valor Integralista já que, mesmo não sendo expulso, ele não sente que faz parte daquele espaço.

Podemos ainda entender a história da águia e da galinha, a lenda indígena e a história persa como partes de um mesmo discurso, o discurso da relação do estranho com a Modernidade, segundo Bauman (1997/1998, p. 19):

O estranho despedaça a rocha sobre a qual repousa a segurança da vida diária. Ele vem de longe; não partilha as suposições locais – e, desse modo, “torna-se essencialmente o homem que deve colocar em questão quase tudo o que parece ser inquestionável para os membros do grupo abordado”.

Assim, segundo Bauman (1997/1998), para manter a ordem, que significa, na prática, dar segurança aos indivíduos, o estado moderno travou uma guerra contra o estranho e o diferente, esta guerra pode ser, simbolicamente, representada pelo clássico O Patinho Feio, ou pelas três histórias mencionadas acima, uma delas paráfrase da original e as outras duas entendidas como estilizações da história de origem. Segundo o autor:

Nessa guerra (para tomar emprestados os conceitos de Lévi-Strauss), duas estratégias alternativas, mas também complementares, foram intermitentemente desenvolvidas. Uma era antropofágica: aniquilar os estranhos devorando-os e depois, metabolicamente, transformando-os num tecido indistinguível do que já havia. Era esta a estratégia da assimilação: tornar a diferença semelhante; abafar as distinções culturais ou lingüísticas; proibir todas as tradições e lealdades, exceto as destinadas a alimentar a conformidade com a ordem nova e que tudo abarca; promover e reforçar uma medida, e só uma, para a conformidade. A outra estratégia era antropoêmica: vomitar os estranhos, bani-los dos limites do mundo ordeiro e impedi-los de toda comunicação com os do lado de dentro. Era essa a estratégia da exclusão – confinar os estranhos dentro das paredes visíveis dos guetos, ou atrás das

invisíveis, mas não menos tangíveis, proibições da comensalidade, do conúbio e do comércio; “purificar” – expulsar os estranhos para além das fronteiras do território administrado ou administrável; ou, quando nenhuma das duas fosse factível, destruir fisicamente os estranhos. (p. 28-29)

O livro Mano descobre a diferença, à medida que mostra estas histórias e apresenta um novo contexto, serve como instrumento de denúncia, ou de contra-discurso, visto que as histórias não são apenas um adereço à narrativa e, ao serem apresentadas numa outra época, no tempo em que vivemos agora, servem como reflexão para uma revisão de valores. Outra contribuição importante destas versões é evidenciar o deslocamento do discurso, porquanto não podemos ver o discurso da Atualidade como algo pronto e acabado, mas como algo que está sendo construído, já que este é um período que estamos vivenciando, logo, nossa interpretação dele não é completa. Estas versões representam, de certo modo, este caminho, ou deslocamento discursivo que a humanidade vem percorrendo na relação com o outro.

No final da história de Dimenstein e Prieto, Mano e seus amigos montam uma peça para ser apresentada na escola, dão a ela o nome de Asas da paz. Nela, extraterrestres alados moram na Terra disfarçados de corcundas, a missão deles é ensinar o ser humano a viver em paz, não poderiam nunca se envolver com os humanos, todavia, um deles se apaixona por uma colega de trabalho e eles têm um bebê mutante. Por causa da desobediência do alado sideral, todos têm de ir embora, mas o bebê mutante fica, no entanto sempre escondendo das pessoas. Com o tempo, transforma-se em super-herói e, quando os ETs voltam para buscá-lo, ele decide ficar. A peça fez muito sucesso e os meninos inventaram um jeito de transmiti-la via Internet, inventaram também uma maneira interativa, isto é, as pessoas que assistissem à peça via Internet poderiam enviar sugestões para novos desfechos e novos conflitos.

Entendemos que, quando os autores dão voz aos personagens Alexandre, Mano, Carolina e Oscar para criar sua própria história, a expectativa era de que a partir das discussões feitas por eles durante o livro, o personagem criado, o chamado Pato Sideral, fosse dentro de um ideal Inclusivista, de respeito à diferença, porém, o extraterrestre é, na verdade, um super-herói que só vive bem com os outros, porque salva vidas, passando-nos a idéia de que o diferente, para ser aceito, deve superar os outros, sendo melhor, ou seja, a mesma idéia passada pela lenda indígena, um ideal Integralista. Mesmo a peça sendo montada com as idéias da Integração, os amigos, personagens do livro, transmitiram a peça online, permitindo que as pessoas que assistiam à peça via Internet pudessem modificar seu final, abrindo aí para a pluralidade de idéias e concepções. Essa é, sem sombra de dúvida uma concepção da Atualidade que aceita não só o diferente, mas convive com as idéias diferentes.

O discurso sobre a diversidade na Atualidade é como a peça de Mano e seus amigos, um campo em disputa. De um lado encontraremos aqueles que pensam ainda nos moldes da Modernidade, na perspectiva da Exclusão do diferente, como no início da peça, em que os estranhos não se relacionavam com os terrestres. Por outro lado, também outros pensares que caminham para a aceitação do outro. A proposta de fazer da peça algo interativo é aceitar discutir estes caminhos, é propor o diálogo em torno do tema, sem fechar-se numa única perspectiva. Mesmo na narrativa maior, a história de Mano e seus amigos, vemos estas diferentes perspectivas, por exemplo, entre os personagens Mano e Oscar, que apesar de serem amigos, têm concepções diferentes em relação à diferença. Aos poucos, Oscar vai aceitando as idéias de Mano que são compartilhadas também por Carol e Alexandre, entretanto, é possível concluirmos que não são as idéias opostas sobre determinado assunto que os afastariam, pois eles têm idéias parecidas sobre outros assuntos e isso os aproxima.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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BOFF, Leonardo (1997). A águia e a galinha: uma metáfora da condição humana. Petrópolis, RJ: Vozes. 40 ed., 1997.
CATÁLOGO de literatura juvenil 2003 da Editora Ática. São Paulo, 2003.
COMPLEMENTO pedagógico: Mano descobre a diferença. São Paulo: Editora SENAC, 2001.
DIMENSTEIN, Gilberto; PRIETO, Heloisa. Mano descobre a diferença. Ilustração: Maria Eugênia. São Paulo: Editora SENAC, 2001.
FELDEMAN, Christina; KORNFIELD, Jack (1994). Histórias da alma, histórias do coração: parábolas e narrativas do caminho espiritual nas tradições e na contemporaneidade. Trad. Carlos Malferrari. São Paulo: Pioneira, 9 ed., 1999.
FONSECA, Vítor da. Educação especial. Porto Alegre: Artes médicas, 1987.
SANT’ANNA, Afonso Romano de (1985). Paródia, paráfrase & Cia. São Paulo: Ática, 7 ed., 2003.




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