Manoel de Carvalho



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ASFIXIA PERINATAL

Manoel de Carvalho


Professor adjunto de Neonatologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
José Maria de Andrade Lopes

Professor do curso de pós-graduação do Instituto Fernandes Figueira – FIOCRUZ.



Mônica Andrade Rodrigues


Mestranda em Saúde da Mulher e da Criança - Instituto Fernandes Figueira – FIOCRUZ.

CONHECENDO A HISTÓRIA DA ASFIXIA NEONATAL E DA REANIMAÇÃO DE RECÉM-NASCIDOS

E o Senhor Deus soprou dentro de suas narinas o ar da vida; e o homem tornou-se uma alma vivente.” - Gênesis: Capítulo 2, Versículo 7.


Esta poderia ser chamada “a primeira ressuscitação neonatal” e nos lembra que esse trazer de volta à vida após a morte aparente tem sido um desejo do homem desde o início dos tempos.

Qualquer indivíduo que tenha visto o nascimento de um recém-nascido gravemente asfixiado irá compreender porque muitos escritores dos séculos passados usavam o termo “morte aparente do recém-nascido”. Um neonato poderia ser tão fraco, hipotônico, pálido e lívido que dificultava saber se ele estaria vivo ou morto. Não é surpresa, portanto, que tantos eventos estressantes e dramáticos tenham atraído diversos tipos de tratamentos. Porém, o mais interessante é a imensa variedade de terapias propostas e utilizadas ao longo do tempo.


Durante séculos, muito se especulou sobre como e quando cortar o cordão umbilical, como estimular o bebê para iniciar a respiração e qual a melhor forma de ventilação. Hipócrates foi o primeiro a reconhecer a importância da reanimação e a associar a asfixia ao parto traumático. Entretanto, muito pouco sugeriu sobre seu tratamento.
Apesar de na Bíblia não haver dúvidas sobre a realização de ventilação boca-boca (descrita no livro do Êxodos 1:15-17: “ ... e respirou dentro da boca do bebê para provocar seu choro...”), esta forma de ventilação foi descrita pela primeira vez pelo filósofo Paracelsus, que viveu entre 1490 e 1541. A aplicação deste método fazia sentido em um bebê que não respirava, e acredita-se que o famoso cientista italiano Galileo Galilei tenha sido ressuscitado, ao nascimento, com insuflação pulmonar boca-boca. Entretanto, muito tempo se passou até que este método fosse aceito como o principal modo de reanimação para recém-nascidos.

Durante um longo período muitas idéias exóticas foram postuladas.


Na Roma Antiga, era comum colocar o recém-nascido sobre um tecido estendido sobre a terra ou chão. Os romanos acreditavam que o recém-nascido em contato com o solo poderia adquirir forças da “Velha Mãe Terra”.
Atualmente, todos somos preocupados com a manutenção da temperatura corporal no recém-nascido asfixiado, porém isso não é novidade. Os médicos no século XV orientavam as parteiras a colocar o recém-nascido em uma cama aquecida, cobri-lo com um cobertor e colocá-lo próximo ao forno aquecido.
Talvez o método mais popular de ressuscitação entre as parteiras no século XVI tenha sido esfregar uma moeda de ouro nos lábios do recém-nascido asfixiado. A razão pela qual este método foi tão difundido entre as parteiras é que a moeda freqüentemente sumia durante confusão gerada pela situação ... e era encontrada em suas bolsas após o término da ressuscitação.
Neste mesmo século, Andréas Vesalius, um grande anatomista, realizando traqueostomia em animal de experimentação relacionou ventilação pulmonar à função cardíaca.1 Entretanto, o conhecimento gerado desses experimentos somente foram aplicados à prática clínica 200 anos mais tarde.
No século XVIII o interesse pela reanimação neonatal aumentou consideravelmente. Ficou evidente que o recém-nascido asfixiado precisava de ar e, baseado nas descobertas de Andreas Versalius, a insuflação pulmonar começou a ser utilizada como uma forma de ressuscitação. A partir desta data, várias experiências clínicas e laboratoriais foram feitas a respeito da insuflação direta dos pulmões. Entretanto, este método foi duramente criticado depois da comprovação do perigo da insuflação direta dos pulmões.2 Em decorrência disso, muitos outros métodos de ventilação foram sugeridos. Todos eles tinham em comum a tentativa de produzir inspiração através da manipulação externa do corpo do recém-nascido sem insuflar ar diretamente nos pulmões desses pacientes.
Durante o século XIX, cresceu o interesse por novas técnicas de reanimação neonatal. Foram introduzidos métodos bizarros de estimulação do bebê para iniciar a respiração. Nesta época, um dos métodos mais utilizados consistia na fricção do tórax do recém-nascido com substâncias tais como vinagre, vinho, perfumes, alho ou cebola.3 A estimulação dolorosa também era muito utilizada. Outro método muito popular era a estimulação do mamilo dos recém-nascidos, pois acreditava-se que eles tivessem uma conexão nervosa direta com os pulmões. Curiosamente, durante muitos anos inúmeros artigos foram publicados sobre qual mamilo deveria ser estimulado: o direito ou o esquerdo.
Como esses métodos freqüentemente não funcionavam, diversos outros procedimentos bizarros foram sugeridos. Preconizava-se encher o estômago do recém-nascido asfixiado com água ou vinagre. Álcool, água fria, fumaça ou tabaco deveriam ser injetados no reto do recém-nascido asfixiado com o intuito de restabelecer a respiração!
Até a metade do século XIX não haviam técnicas para a manutenção da circulação sangüínea durante a parada cardíaca. Compressões externas em seres humanos foram realizadas pela primeira vez em 1883 e somente após 100 anos começou-se a combinar ventilação com compressão torácica.
Se o século XIX foi o período das experiências com novos métodos de ventilação artificial, o século XX foi o momento de aprimoramento destes métodos. No início deste século foi descrito o método de intubação usando laringoscopia direta e administração de oxigênio a 100%. Muito interessantemente, dois médicos ingleses relataram no The Lancet em 1935 seus experimentos com pressões máximas que poderiam ser usadas na ventilação. Eles mostraram que pressões abaixo de 15cmH2O eram seguras e que níveis acima de 40 cmH2O freqüentemente rompiam os pulmões.4

Apesar desta importante descoberta, a ventilação mecânica com pressão positiva teve de esperar mais de 20 anos para ser amplamente difundida e aceita por obstetras e parteiras.




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