Manual de Escatologia



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Capítulo 12 - A teoria do arrebatamento mesotribulacionista

Visão menos comum que a teoria do arrebatamento pós-tribulacionista como explicação para o arrebatamento durante a tribulação é a teoria mesotribulacionista. De acordo com essa interpretação, a igreja será arrebatada ao final da primeira metade (três anos e meio) da septuagésima semana de Daniel. A igreja suportará os acontecimentos da primeira metade da tribulação, que, segundo os mesotribulacionistas, não são manifestações da ira de Deus. Ela será transladada, todavia, antes que comece a segunda metade da semana, que, segundo essa te­oria, contém todo o derramamento da ira de Deus. Afirma-se que o arrebatamento ocorrerá junto com o soar da última trombeta e a ascen­são das duas testemunhas de Apocalipse 11.

A teoria do arrebatamento mesotribulacionista é essencialmente uma via média entre as posições pós-tribulacionista e pré-tribulacionista. Concorda com o pré-tribulacionismo ao afirmar que o arrebatamento da igreja é um aconte­cimento distinto da segunda vinda, que o restringidor de 2Tessalonicenses 2 é o Espírito Santo e que a igreja tem promessas de libertação da ira. Tem em comum com o pós-tribulacionismo as crenças de que a igreja tem promessas de tribulação aqui na terra e necessita de purificação, que as Escrituras não ensinam a doutrina da iminência e que a igreja é vista na terra depois de Apocalipse 4.1.

I. A Base Essencial do Mesotribulacionismo

Ao estudar a posição mesotribulacionista, é útil observar que mui­tas de suas bases essenciais são idênticas às do pós-tribulacionismo.

1) O mesotribulacionismo precisa negar ou pelo menos enfraquecer a in­terpretação dispensacional das Escrituras e

2) negar a estrita distinção entre Israel e a igreja. Isso se observa no fato de essa teoria situar a igreja na primeira metade do período determinado sobre o povo e a cidade de Daniel.

3) A teoria repousa numa compreensão da tribulação que divide o período em duas metades separadas e desconexas, de modo que a igreja possa passar pela primeira metade, mesmo que não tenha parte na segunda.

4) A teoria precisa negar a doutrina da iminência, pois todos os sinais da primeira metade da semana aplicam-se à igreja.

5) Essa teoria tem de negar o conceito da igreja como mistério, para que a era da igreja possa superpor-se ao plano divino para Israel.

6) A teoria precisa depender, em parte, do método espiritualizante de interpreta­ção. Isso se evidencia sobretudo na sua exposição de passagens bíblicas que tratam da primeira metade do período tribulacional.



II. Os Argumentos Essenciais do Mesotribulacionismo

Um estudo dos argumentos usados pelos mesotribulacionistas para apoiar sua posição revela que eles usam vários argumentos dos pós-tribulacionistas.





A. A negação da iminência. Em primeiro lugar, o mesotribulacionista nega a doutrina da iminência. Harrison escreve:

Há pessoas que fazem objeção à idéia de o arrebatamento ser colocado no tempo da última trombeta, argumentando que ela milita contra nossa es­perança na volta iminente de Cristo [...]

Para ser coerentemente bíblicos nesse assunto, devemos levar em conta o seguinte:
1. Para Pedro não havia a possibilidade de tal experiência, pois nos­so Senhor lhe dissera que alcançaria idade avançada e morreria martiri­zado [...] João 21.18,19 [...] No entanto, Pedro tornou-se o Apóstolo da Esperança e exorta os crentes de seu tempo: "Por isso, cingindo o vosso entendimento, sede sóbrios e esperai inteiramente na graça que vos está sendo trazida na revelação de Jesus Cristo" (l Pe 1.13).

2. Para Paulo, a comissão que recebera do seu Senhor [...] Atos 22.21 o fazia contemplar uma longa carreira de proclamação do evangelho que impediria, por boa parte de sua vida, qualquer retorno iminente de Cris­to. Ele adverte que primeiro deveria vir a apostasia (2 Ts 2.3) e "nos últi­mos dias, sobrevirão tempos difíceis" (2Tm 3.1). No entanto, Paulo cons­tantemente apresenta a vinda de Cristo como incentivo a uma vida santa para os crentes de sua época [...] Tito 2.11-13; [...] 1 Coríntios 15.51; Filipenses 3.20 [...] 1 Tessalonicenses 4.17.

3. Para os apóstolos, havia um amplo plano contido na Grande Co­missão de levar o evangelho "por todo o mundo" (Mc 16.15) [...] No entanto, quando escreviam aos crentes de sua época, os apóstolos jamais deixavam de exortá-los com respeito à volta do Senhor.

4. Para a igreja primitiva, nosso Senhor revelou, desde os céus, um plano sétuplo de desenvolvimento histórico da igreja (Ap 2 e 3), eviden­temente exigindo um longo período. No entanto, a essa mesma igreja pri­mitiva foram dadas palavras reiteradas de certeza: "Eis que venho sem demora" (Ap 22.7,12,20) [...]

[...] Vemos nas Escrituras que Cristo não poderia ter voltado duran­te a vida de Pedro; nem ainda durante a vida dos apóstolos; nem mesmo antes da Reforma; nem antes de terminado o plano missionário; tampouco antes de a apostasia acometer a igreja; nem antes dos últimos dias em que parecemos estar vivendo. (Norman B. Harrison, The end, p. 231-3)

Embora Harrison esteja tentando invalidar a doutrina da iminência pelas citações que faz das Escrituras, é evidente que os próprios auto­res do Novo Testamento acreditavam numa volta iminente. Há uma distinção a ser observada entre uma volta iminente de Cristo e uma volta imediata de Cristo. Em nenhum lugar as Escrituras ensinam que Sua volta seria imediata, mas ensinam com total coerência que tal volta poderia ser esperada a qualquer momento. A profecia sobre o curso natural da história, que transcorreria exceto fosse interrompida pelo fim da história, causado pela volta de Cristo, não roubou aos apóstolos, conforme demonstram as próprias citações de Harrison, uma esperan­ça iminente. Já que a crença de que a igreja precisa buscar todos os sinais da primeira metade da tribulação destruiria a doutrina da iminência, a teoria mesotribulacionista deve ser rejeitada.


B. A promessa de tribulação. Outro argumento do mesotribulacionista é que a igreja tem promessas de tribulação e, portanto, pode esperar experimentar a primeira metade do período tribulacional. Uma vez que essa questão foi previamente tratada, basta aqui mencionar que a pala­vra tribulação pode ser usada em sentido técnico, referindo-se aos sete anos da profecia de Daniel, ou em sentido não-técnico, referindo-se a qualquer período de provação ou angústia. A tribulação que foi prome­tida à igreja é a do tipo não-técnico.

C. A negação da igreja como mistério. Um terceiro argumento do mesotribulacionista nega essencialmente o conceito da igreja como mistério. Foi previamente demonstrado que a presente era é um misté­rio, bem como o plano para a igreja na era presente. Demonstramos que esse plano precisa ser levado a termo antes que Deus possa (e chegue a) lidar com Israel para completar o seu plano de alianças. Harrison sustenta:

Pensar que as eras colidem abruptamente uma com a outra é fatal. Trans­portar tal conceito para a série de acontecimentos que constitui o final dos tempos é igualmente fatal. Na verdade, elas se sobrepõem o que pode levar, em última análise, a uma fusão.

Tomemos como exemplo as duas eras, a da igreja e a judaica: em seu começo, 30 d.C, a igreja existiu paralelamente à era judaica por quarenta anos, até que essa finalmente se encerrasse com a destruição de Jerusalém em 70 d.C. Isso sugere que superposição similar ocorrerá no final da era da igreja. Se, por um momento, pensarmos que a igreja continuará até a tribulação, a ocasião da qual o Senhor prometeu guardá-la, sabendo que Israel terá sido restaurado como nação por três anos e meio antes do iní­cio da tribulação [...] teremos, novamente, a mesma superposição. (Ibid., p. 50)

A falácia desse argumento está no fato de que, embora Deus estivesse estendendo um convite "primeiro ao judeu" após o dia de Pentecostes, até à destruição de Jerusalém em 70 d.C, esse foi um convite que, quando recebido, trazia o crente para o corpo de Cristo, a igreja. Deus não esta­va administrando dois planos simultâneos, mas apenas um. Não hou­ve superposição do plano da aliança com o plano da igreja como o mis­tério de Deus. Quando o plano da igreja começou, o plano de Israel já havia sido interrompido. Por essa linha de raciocínio percebe-se a inco­erência inerente na aplicação dispensacional da teoria mesotribulacionista.


D. A natureza dos selos e das trombetas. Um quarto argumento usado pelo mesotribulacionista é a interpretação de que os selos e as trombe­tas não são manifestações da ira divina. Essa concepção é declarada por Harrison, que diz:

A abertura dos selos é o ponto a ser lembrado [...] Trata-se da retirada das restrições. Os selos haviam funcionado como instrumentos da graça, para proteção e preservação da sociedade em todos esses séculos. As forças do mal, que buscavam guerra e destruição total, haviam até então sido providencialmente mantidas em cheque [...]

O que realmente surpreende é que os expositores falam com persis­tência dos juízos dos selos. A Bíblia jamais os chama de juízos. Esse rótulo é reservado a uma série posterior e mais sinistra [...]

Por que culpar a Deus por aquilo que o homem trouxe contra si mesmo? O homem vem dançando segundo a música de uma civilização ímpia; tem sido uma dança de guerra em adoração à força. Agora que é chegada a hora de pagar os músicos, por que jogar a culpa em Deus? [...] Ele retirou as restrições, e o que o homem está experimentando? Mera­mente a vigência da lei da semeadura e da colheita! (Ibid., p. 87-8.)

Ao falar das trombetas, o mesmo autor afirma:

Tais experiências, por mais severas, não são juízos. Os comentaristas invariavelmente as chamam juízos das trombetas. Deus nunca o faz, e Ele deve saber [...] É pura confusão chamar essas duas séries — os selos e as trombetas — por um nome que Deus reservou deliberadamente para Seu próprio trabalho.

Essas experiências de fato se parecem com juízos. No entanto, a ex­periência de Jó deve instruir-nos [...] Satanás recebeu permissão de Deus para afligi-lo como meio de prova e disciplina, mas só podia ir até certo ponto. [.'..] E isso que acontece nas trombetas: Satanás operando; Deus permitindo. (Ibid., p. 104-5.)
A posição mesotribulacionista, conforme apresentada por um de seus principais defensores, é a de que os selos representam o desenvolvi­mento do plano do homem e as trombetas apresentam o desenvolvi­mento do plano de Satanás, em que Deus é apenas agente permissivo. A própria alegação do autor citado sobre o chamado "parêntese" em cada série parece ser refutação suficiente de sua visão. Ele afirma:

O ponto culminante em cada uma das séries é sempre explicado depois do sexto item na série. Faz parte do plano estrutural do Apocalipse ofere­cer essa explicação em cada série para que o leitor possa saber o que está sendo efetuado. (Ibid., p. 91)


De acordo com essa observação, João anunciou (Ap 6.16,17) que o que ali se desenrolou está relacionado à "ira do Cordeiro". O tempo aoristo no versículo 17, êlthen (chegou), não significa que algo está prestes a chegar, mas que efetivamente aconteceu. Assim, ao desdobrar o plano dos selos, João anuncia que eles representam "a ira" que já se manifes­tou. Da mesma maneira, com o soar das sete trombetas, João uma vez mais relaciona as trombetas ao derramamento da ira de Deus, pois em Apocalipse 11.18 ele declara que esses acontecimentos dizem respeito à ira que "chegou" (aoristo mais uma vez). [A opinião de Harrison, segundo o qual o verbo pode ser traduzido por "somente agora chegou" (p. 119), não é apoiada pela sintaxe do tempo aoristo grego]. Assim, nem os selos nem as trombetas podem ser dissociados do plano divino ligado ao derrama­mento da ira divina sobre a terra.
E. A duração do período tribulacional. Um quinto argumento usado pelos defensores dessa posição é que o período tribulacional tem a du­ração de apenas três anos e meio. O mesmo escritor já citado, depois de mostrar que a septuagésima semana de Daniel deve ser dividida em duas partes, afirma:

Isso deveria, ainda mais, guardar-nos do erro comum de citar a tribula­ção como período de sete anos. A Bíblia jamais se refere a ela desse modo; pelo contrário, a tribulação começa na metade dos sete anos. Ela constitui os últimos três anos e meio. A tudo o que conduz a ela, Jesus chama sim­plesmente "o princípio das dores". (Ibid., p. 229)


E ainda:

A primeira metade da semana, ou período de sete anos, foi para João algo "doce" a esperar, como será para eles; sob a proteção do tratado, estarão "à vontade", como costumamos dizer. A segunda metade, toda­via, será verdadeiramente "amarga": o tratado será quebrado; a tem­pestade irromperá, e eles experimentarão, de um lado, a ira do anticristo e, de outro, a ira de Deus. Esse será o seu "dia da angústia". É a grande tribulação. (Ibid., p. 111)


1. Embora fique claro que Daniel avisou que a septuagésima se­mana seria dividida em duas partes (Dn 9.27) e embora o Senhor, ao falar do mesmo período, tenha chamado a segunda parte "grande tri­bulação" (Mt 24.21), em nenhum lugar das Escrituras esse período é dividido em duas partes não relacionadas, cada uma com uma caracte­rização diferente. A posição mesotribulacionista essencialmente divide a septuagésima semana em duas partes desconexas, ainda que retendo a designação "septuagésima semana", e afirma que a igreja passará pela primeira metade porque esta tem uma caracterização diferente da se­gunda. Essa dicotomia é impossível. Quando as Escrituras se referem a esse período, ele é sempre tratado como uma unidade no que diz res­peito à sua natureza, mesmo que seja dividido em dois elementos quanto ao tempo e ao grau de intensidade da ira derramada. A unidade da septuagésima semana de Daniel no plano de Israel impede-nos de di­vidi-la em duas partes. É difícil entender como um escritor pode sus­tentar que todos os acontecimentos precipitados pela abertura dos se­los e pelo toque das trombetas possam ser vistos como "doces" por alguém que esteja suportando juízos tão rigorosos. Tal posição só pode ser mantida com base na espiritualização.
2. Além disso, é necessário observar que, se a igreja passar pelos primeiros três anos e meio da tribulação, os 144 mil serão incorporados a ela ao ser salvos, uma vez que a igreja continua na terra. No entanto, esses 144 mil aparecem como testemunhas judias durante todo o perío­do tribulacional. Se fossem salvos enquanto Deus ainda estivesse acres­centando pessoas ao corpo de Cristo e se, quando a translação ocorres­se, fossem deixados para trás, o corpo ficaria desmembrado e incom­pleto. A necessidade de completar o plano do mistério antes de reto­mar o plano da aliança mostra que a tribulação não pode ser limitada a apenas metade da semana.
3. Uma vez mais, se a tribulação fosse datada a partir da assinatura do falso tratado de aliança (Dn 9.27), a igreja conheceria a ocasião da translação. Embora Israel tenha recebido sinais que precederão a volta do Messias, nenhum sinal semelhante foi dado à igreja. O tempo da vinda de Cristo para a igreja é um segredo divino, e homem algum poderá descobrir esse tempo por meio de sinais.
4. Apocalipse 7.14 parece servir de prova definitiva. No intervalo entre o sexto e o sétimo selo, no qual é fornecido o escopo último de toda a visão, diz-se que os salvos durante o período vieram da "grande tribulação". Isso parece indicar que o período abrangido pelos selos é considerado parte do período tribulacional.
F. O argumento baseado em Apocalipse 11. Um sexto argumento apre­sentado em defesa dessa posição é a idéia de que o arrebatamento é descrito em Apocalipse 11. Para apoiar essa posição, Harrison sustenta que as duas testemunhas são símbolos de uma "companhia maior de testemunhas"; que elas representam "dois grupos": os mortos e os vi­vos por ocasião do arrebatamento; sustenta ainda que a nuvem repre­senta a paralisia —a presença do Senhor; que a grande voz é o grito de 1 Tessalonicenses 4.16 e que a trombeta é a mesma trombeta de 1 Tessalonicenses 4 e de 1 Coríntios 15. (Ibid., p. 117)
1. Observamos que o argumento é todo baseado em analogia, não em exegese. Tais argumentos são sempre fracos. Devemos notar que as duas testemunhas são tratadas como indivíduos na passagem (Ap 11), e não como representantes simbólicos da igreja. O fato de estarem rela­cionadas a Israel como "duas oliveiras" (Zc 4.2,3) impediria que repre­sentassem a igreja. A alegação de que se trata de Moisés e de Elias e, portanto, representam os mortos e os transformados no arrebatamento é, no mínimo, incerta. A nuvem era tão universalmente empregada nas Escrituras para representar a presença de Deus, que não precisa ser as­sociada à parousia nessa altura, particularmente por ser essa uma pas­sagem que lida com Israel, já que para o judeu a nuvem não significa arrebatamento. A voz de autoridade é mencionada várias vezes no Apocalipse, e é impossível provar que se trate da mesma "voz do ar­canjo" da qual Paulo falou. Mais uma vez, cumpre observar que essa interpretação não pode basear-se numa hermenêutica estritamente li­teral, e sim num método espiritualizante.

2. Talvez a evidência mais contundente de que o arrebatamento não ocorre em Apocalipse 11 venha de observar cuidadosamente o re­sultado do toque da sétima trombeta. A cena descrita não é a do arreba­tamento, mas a da revelação de Cristo à terra. A esse acontecimento são associados a subjugação dos reinos da terra à autoridade de Cristo, a manifestação do reino messiânico, o juízo das nações, a recompensa dos que partilharão do reinado do Messias e o juízo das "bestas" que "destroem a terra". Essa cronologia de acontecimentos nunca é associ­ada ao arrebatamento, mas sim à segunda vinda. O resultado do toque da sétima trombeta não é a translação da igreja, mas o triunfo de Cristo sobre todos os Seus inimigos na instituição de Seu reinado na segunda vinda.

3. Conseqüência inevitável desse argumento é a interpretação mesotribulacionista de que o mistério de Deus a ser cumprido (Ap 10.7) é o plano de Deus para a igreja. (Ibid., p. 107-8) A explicação de Ironside oferece uma interpretação mais correta. Ele diz:

Esse é o tema do livro dos sete selos; a vindicação da santidade de Deus por ter tolerado tanto tempo a existência do mal em Seu universo. Que maior mistério confronta e confunde a mente humana que a pergunta: "Por que razão Deus permite que a maldade triunfe tantas vezes?" [...] Esse é o Seu segredo. Ele o desvendará a Seu tempo, e tudo será claro como o meio-dia [...] Seu triunfo definitivo sobre toda forma de mal é o que se apresenta tão vividamente no cenário rapidamente mutante do Apocalipse... (H. A. Ironside, The mysteries of God, p. 95-6.)

Deus está agora terminando seu plano com respeito ao mal.
G. A cronologia do livro de Apocalipse. Um sétimo argumento depen­de da interpretação mesotribulacionista para a cronologia do livro de Apocalipse. De acordo com essa teoria, conforme observado antes, os sete selos e as sete trombetas nos levam ao fim da primeira metade da septuagésima semana, que termina com o arrebatamento da igreja, no capítulo 11. As sete taças descrevem o derramamento da ira de Deus na segunda metade da septuagésima semana, os três anos e meio da tribulação, que se desenrolam nos capítulos de 12 a 19. Assim, os capítulos de 4 a 11 descrevem a primeira metade da septuagésima semana, en­quanto os capítulos de 12 a 19 descrevem a segunda metade da sema­na.

Cremos que tal cronologia é falha. João delineou os acontecimentos da primeira metade da semana na série de sete selos (4.1-7.17), a segun­da metade da tribulação na série de sete trombetas (8.1-11.14), encer­rando o período com a volta triunfante do Senhor para reinar (11.15-18). Entre a sexta e a sétima trombeta, João é informado de que "ainda" deve profetizar "a respeito de muitos povos, nações, línguas e reis" (10.11).

Com respeito à palavra traduzida por "ainda" (palin), Thayer diz que ela denota "repetição ou recomeço da ação". (Joseph Henry Thayer, Greek-Englísh lexicon of the New Testament, p. 475.) Essa parece ser uma observação divina de que, tendo João nos oferecido uma visão de todo o período, é propósito de Deus que ele nos conduza por todo o período ainda uma vez mais. Portanto, começando com o capítulo 12, João delineia uma vez mais todo o período, dessa vez sublinhando os indivíduos que desempenham importante papel nos acontecimentos da septuagésima semana. As taças (Ap 16.1-17) evidentemente ocor­rem no final do período e ocupam apenas um breve intervalo de tem­po, não podendo ser espalhadas por todos os três anos e meio finais. Essa segunda narrativa, tal como a primeira, encerra o período com a volta de Cristo e o juízo subseqüente de Seus inimigos (Ap 19).

Assim, a observação de que Apocalipse 11.15-18 descreve a revela­ção, não o arrebatamento (e é paralelo de Apocalipse 19.11-16), aliada à nota de repetição profética em Apocalipse 10.11, torna insustentável a interpretação mesotribulacionista da cronologia de Apocalipse. Deve­mos observar que essa teoria depende do método alegórico de inter­pretação, particularmente em sua tentativa de fazer Apocalipse 11 des­crever o arrebatamento.


H. A identificação da última trombeta. O oitavo argumento da posi­ção mesotribulacionista identifica a sétima trombeta de Apocalipse 11.15 com a última trombeta de 1 Coríntios 15.52 e de 1 Tessalonicenses 4.16. Harrison formula a posição mesotribulacionista da seguinte maneira:

Paulo, por inspiração do Espírito, sem dúvida coloca a ressurreição e o arrebatamento dos santos pela vinda de Cristo ao soar da "última trombeta" (1 Co 15.51,52). Essa é uma localização específica do acontecimento. Inquestionavelmente o Espírito Santo revelou o fato e inspirou o seu re­gistro. Como ousaria alguém situá-lo em outra ocasião? [...] Poderíamos postular o arrebatamento em qualquer ocasião a não ser aquela apresen­tada pelo apóstolo Paulo e ainda assim manter a integridade da Palavra de Deus?

Voltemos a Mateus 24.29-31. Aqui Jesus retrata a tribulação como sendo seguida por "grande clangor de trombeta". Essa é a última trombeta registrada no tempo.

Quando, porém, chegamos à última trombeta em Apocalipse, últi­ma da série, descobrimos muita evidência satisfatória de que o aconteci­mento está de fato ocorrendo. (Harrison, op. cit., p. 75)

Todo o argumento depende de fazer a última das sete trombetas idênti­ca à última trombeta mencionada por Paulo em relação ao arrebata­mento em 1 Coríntios 15.52. O argumento repousa no uso da palavra última em relação aos dois acontecimentos.

O próprio Harrison admite que "'última' pode significar uma de duas coisas: última em relação ao tempo ou última em relação à se­qüência" (Ibid) Ao fazer tal afirmação, Harrison admite que última em re­lação à seqüência não é necessariamente igual a última em relação ao tempo. A palavra última pode significar a que concluiu um plano, mas não necessariamente a última que jamais existirá. À medida que o plano da igreja difere do plano para Israel, cada um deles pode ser encer­rado pelo toque de uma trombeta, adequadamente chamada última trombeta, sem que as duas trombetas sejam idênticas e simultâneas quanto ao tempo. Com respeito à identificação da última trombeta com a sétima trombeta, Thiessen escreveu:

... com Ellicott afirmamos: "Não há base suficiente para supor que haja aqui referência à sétima trombeta apocalíptica (Ap 11.15) [...] Essa salpigx (trombeta), a que o apóstolo chama escathe (última), não com referência a alguma série que a tenha precedido [...] mas por estar ligada ao final des­se aion (era) e à ultima cena da história humana". Com isso concordamos, exceto em que, quando Cristo voltar, apenas essa era da história terá che­gado ao fim. Ellicott era pré-milenarista, e isso é, sem dúvida, o que ele queria dizer com sua afirmação. Meyer assume a mesma posição, com base no fato de que em 1 Tessalonicenses 4.16 "somente uma trombeta é mencionada e apresentada de maneira normal, como algo bem conheci­do pelos leitores". A mesma conclusão pode ser derivada do fato de que Paulo segue a referência à última trombeta com a declaração impessoal "pois a trombeta soará" (ver o grego). Se ele tivesse pensado nessa trom­beta como uma de sete, sem dúvida teria dito algo semelhante a: "Pois quando as trombetas soarem, e chegar a hora de a última trombeta soar, os mortos em Cristo ressuscitarão". De qualquer modo, não há base para identificar a "trombeta" de 1 Coríntios 15.52 com a sétima trombeta de Apocalipse 11.15. (Henry C. Thiessen, Will the church pass through the tribulation?, p. 55-6)
Parece haver uma série de observações que tornam impossível a identificação dessas duas trombetas.

1) A trombeta de 1 Coríntios 15.52, e com isso até o mesotribulacionista concorda, soa antes de a ira de Deus cair sobre a terra, ao passo que, conforme foi demonstrado, a cro­nologia de Apocalipse indica que a trombeta de Apocalipse 11.15 soa ao final do tempo da ira, pouco antes da segunda vinda.

2) A trombeta que convoca a igreja é chamada trombeta de Deus, ao passo que a sétima trombeta é a trombeta de um anjo. Strombeck observa corretamente:

Na busca pela "última trombeta" é preciso, então, ser guiado pelo fato de que se trata da trombeta do próprio Deus, tocada pelo próprio Senhor. A vista disso, ninguém se disporia a alegar que a trombeta de Deus é a últi­ma de uma série de trombetas a ser tocadas pelos sacerdotes do sacerdó­cio arônico. Se nos lembramos de que os anjos são apenas um pouco mais elevados que os homens, é igualmente contrário às leis da lógica dizer que a "última trombeta", que é a trombeta de Deus, seja a sétima de uma série de trombetas tocadas por anjos. Tanto homens quanto anjos são cri­aturas de Deus. Não podem fazer soar a trombeta do Criador. (J. F. Strombeck, First the rapture, p. 109.)


3) A trombeta para a igreja é singular. Nenhuma outra trombeta a pre­cedeu de modo que ela seja referida como a última de uma série. A trombeta que encerra a tribulação é claramente a última de uma série de sete.

4) Em 1 Tessalonicenses 4 a voz associada ao soar da trombeta convoca os vivos e os mortos e conseqüentemente é ouvida antes da ressurreição. No Apocalipse, embora seja mencionada uma ressurrei­ção (11.12), a trombeta somente é tocada depois da ressurreição, mos­trando assim que dois acontecimentos distintos estão em foco.

5) A trombeta de 1 Tessalonicenses introduz a bênção, a vida, a glória; a trombeta de Apocalipse, entretanto, introduz o julgamento contra os inimigos de Deus.

6) Na passagem de Tessalonicenses a trombeta soa "num mo­mento, num abrir e fechar de olhos". Em Apocalipse 10.7 a indicação é que a sétima trombeta soará por um período prolongado de tempo, talvez durante os juízos que a ela estão associados, pois João fala de o anjo "começar a tocar". A duração desse toque também é prova da dis­tinção entre as duas trombetas.

7) A trombeta de 1 Tessalonicenses é especificamente designada para a igreja. Uma vez que Deus está lidan­do com Israel em particular e com os gentios em geral, na tribulação, essa sétima trombeta, que se enquadra no período tribulacional, não poderia referir-se à igreja sem que se perdessem as distinções entre a igreja e Israel.

8) A passagem de Apocalipse retrata um gigantesco ter­remoto em que milhares de pessoas perdem a vida, e graças ao qual o remanescente fiel adora a Deus, tomado de medo. Na passagem de Tessalonicenses nenhum terremoto é mencionado. Não haverá rema­nescente fiel deixado para trás no arrebatamento, experimentando os terrores de Apocalipse 11.13. Tal ponto de vista só poderia encaixar-se na posição parcialista do arrebatamento.

9) Embora a igreja venha a ser transladada por ocasião do arrebatamento, o galardão a ser oferecido aos "teus servos, os profetas, aos santos e aos que temem o teu nome" não pode ser identificado com aquele acontecimento. A recompensa mencionada em Apocalipse 11.18 acontece sobre a terra, quando da se­gunda vinda de Cristo, em seguida ao julgamento de Seus inimigos. Uma vez que a igreja é galardoada nos céus, em seguida ao arrebata­mento, os dois acontecimentos devem ser diferentes.
Com base em Mateus 24.31 é difícil ver como o mesotribulacionista pode sustentar a posição de que Apocalipse 11.15 é a última trombeta no sentido cronológico. As trombetas de Apocalipse terminam antes da segunda vinda do Messias. Mateus registra as próprias palavras do Senhor, nas quais Ele ensina que Israel será reunido pelo soar de uma trombeta depois da segunda vinda. Se última significa última cronologi­camente, por que não sustentar que tanto a trombeta de Apocalipse quan­to a de 1 Tessalonicenses coincidem com a de Mateus 24?

Com respeito à expressão última trombeta de 1 Coríntios 15.52, English escreve:

O significado da expressão "a última trombeta" em 1 Coríntios 15.52, uma vez que não é a última de uma série de trombetas, pode ser um toque de reunir ou um alarme. Em Números 10 lemos sobre um soar de trombetas para convocação de uma assembléia do povo e para as suas jornadas. Havia toques específicos para cada um dos acampamentos dos israelitas e toques especiais para toda a congregação. Com relação a isso, o Dr. Carl Armerding fez um comentário interessante:

"A última trombeta significa­ria que toda a congregação estava finalmente de partida. Em certo senti­do isso pode ilustrar o que encontramos em 1 Coríntios 15.23: 'Cada um, porém, por sua própria ordem [ou patente —tagmati]: Cristo, as primícias; depois, os que são de Cristo, na Sua vinda'. Estes últimos certamente são divididos em pelo menos dois grupos: os que já 'dormiram' e os 'que ficarmos vivos e permanecermos' [...]".

"'Num momento' e 'num abrir e fechar de olhos' são expressões", continua o Dr. Armerding, "usadas ao redor do mundo para expressar o que é súbito e muito rápido. O fato de que a terceira expressão, "ao resso­ar da última trombeta", está tão intimamente relacionada a elas nos leva a crer que deveria ser entendida da mesma maneira. Se assim fosse, teria a natureza de um alarme, que é exatamente a mesma palavra usada em Números 10.5,6 em relação às "partidas" dos acampamentos.

Uma vez realizados a ressurreição e o ajuntamento [a primeira pela voz do Senhor e o segundo pela voz do arcanjo — 1 Tessalonicenses 4.16] [...] há apenas mais uma coisa necessária para produzir o movimento final e definitivo. Trata-se da "última trombeta". Essa será a última nota soada naquela tre­menda ocasião". (Schuyler english, Rethinking the rapture, p. 109)


O exame da visão mesotribulacionista acerca do arrebatamento mostra-nos que os principais argumentos dessa teoria desfazem-se ante o escrutínio da verdadeira interpretação das Escrituras, devendo a teo­ria ser rejeitada por não apresentar fundamento.

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