Manual de Escatologia



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Capítulo 16 - A relação da igreja com a tribulação

Demonstrou-se anteriormente que a igreja não estará no período tribulacional. A relação singular da igreja com esse período é vista na posição e na atividade dos 24 anciãos que aparecem em Apocalipse. João mostra que o livro de Apocalipse divide-se em três partes (Ap 1.19): "as coisas que viste" constituem a primeira divisão e incluem a visão de Cristo no capítulo 1; "as coisas que são" constituem a segun­da divisão e incluem as sete cartas às sete igrejas, contidas nos capítu­los 2 e 3, que se referem a toda a igreja do presente século, e "as coisas que hão de acontecer depois destas" (meta tauta) constituem a terceira divisão e incluem tudo o que está revelado nos capítulos de 4 a 22.

Quando João começa a escrever sobre as coisas que hão de acontecer, suas palavras de introdução em 4.1 nos mostram que ele está come­çando sua terceira grande divisão, pois o capítulo inicia com "depois destas cousas" (meta tauta). Quando é levado para os céus, vê o trono e Aquele que ocupa o trono. Então vê 24 seres assentados, que estão associados Aquele que está no trono e são chamados vinte e quatro anciãos.

Ao redor do trono, há também vinte e quatro tronos, e assentados neles, vinte e quatro anciãos vestidos de branco, em cujas cabeças estão coroas de ouro (Ap 4.4).


A relação da igreja com os acontecimentos do período tribulacional é revelada pela identificação desses indivíduos.

I – O Ministério dos Anciãos

Com referência ao termo ancião, Ottman escreve:

Os anciãos em Israel não eram apenas representantes do povo, mas juizes e, logo, representantes de Deus para julgar o povo. São identificados com Deus no exercício do julgamento. Os 24 anciãos agora diante de nós, em conexão com o trono de Deus, também estão assentados e identificados com Ele no julgamento prestes a ser executado sobre a terra. (Ford C. Ottman, The unfolding of the ages, p. 108)
No Novo Testamento o conceito básico de ancião é o de representante do povo, alguém que governa ou julga da parte de Deus sobre o povo (At 15.2; 20.17). Com relação a esses representantes no livro de Apocalipse, Scott escreve:

"Anciãos" como um termo ocorre doze vezes. As ações e os serviços vari­ados dos quais eles tomam parte demonstram claramente que são os re­presentantes dos santos redimidos e ressurrectos. Estão assentados, caem por terra e adoram; um deles consola o vidente que chora e interpreta os pensamentos do céu; têm harpas e taças de incenso; cantam (o que jamais se diz de anjos); são a companhia mais próxima do trono e do Cordeiro; sabiamente explicam quanto aos remidos na terra; celebram o triunfo milenar e eterno de Deus e acrescentam seu "amém" e "aleluia" ao julga­mento da meretriz — a corruptora da terra. As passagens nas quais a pa­lavra é encontrada são as seguintes: 4.4,10; 5.5,6,8,11,14; 7.11,13; 11.16; 14.3 e 19.4. (Walter Scott, Exposition of the revelation, p. 122.)


Um exame das passagens que citam suas atividades frisará o fato de que os anciãos rendem adoração e glória a Deus à medida que cada passo no plano de Deus de estabelecer Seu reino e derrubar o reino do perverso é desenrolado diante deles.

O número desses anciãos tem seu significado. Scott comenta:

Mas por que "vinte e quatro"? O significado do número deve ser buscado em l Crônicas 24 e 25. Davi dividiu o sacerdócio em 24 ordens ou turnos, com um turno atuando por vez (Lc 1.5,8,9). Os respectivos anciãos ou chefes desses turnos representariam todo o sacerdócio levítico. Haveria assim 24 sacerdotes e um sumo sacerdote. Seu serviço variado correspondia ao dos anciãos no céu, pois o templo (não menos que o tabernáculo), em sua estrutura, seus objetos e seus serviços, fora projetado de acordo com o que Moisés vira no céu. O povo de Deus é descrito como um sacerdócio "santo" (l Pe 2.5) e "real" (v. 9), e eles são vistos aqui em ambas as caracterizações. (Ibid., p. 123)
Logo, parecem ser representantes de todo o sacerdócio celestial, associ­ado a Cristo, o Grande Sumo Sacerdote, no desenrolar da consumação dos séculos.

II. A Identidade dos 24 Anciãos

As interpretações dividem-se em três classes com relação à identi­dade dos anciãos.



A. Seres angelicais. A primeira interpretação é que são seres angelicais. Essa teoria é afirmada por Reese:

i) São seres angelicais gloriosos que conduzem o louvor e a adoração de Deus.

ii) Celebram com alegria cada mudança na marcha progressiva dos acontecimentos em direção à consumação do reino.

iii) Parecem não ter conhecido a experiência de conflito, pecado, per­dão e vitória; no entanto, regozijam-se por causa da bênção dos que a co­nheceram e dão glória a Deus pela Sua graça na vitória dos que vencem.

iv) Nitidamente se separam dos profetas, santos e justos de tempos passados que se levantam na ressurreição da última trombeta, galardoados. Essa passagem indica que eles desaparecem do cenário quan­do os novos assessores — a grande multidão dos redimidos celestiais— se assentam em tronos e exercem julgamento com o Senhor Jesus na Sua vinda. V. 20.4; I Coríntios 6.2; Mateus 19.28. (Alexander Reese, The approaching advent of Christ, p. 92-3)
Não há discordância das duas primeiras proposições, mas observemos que tal ocupação não exige que sejam anjos. Tal atividade é mais adequada aos redimidos deste século que foram trasladados. Com relação à terceira proposição, só é preciso notar que os anciãos aparecem coroados com stephanos, a coroa de vitória, o que demonstra que devem ter conhecido conflito, pecado, perdão e vitória. Com relação à quarta proposição, se são santos da igreja, seria natural que se separassem dos santos da tribulação, os quais serão ressurrectos e galardoados em Apocalipse 11.16-18, pois os santos da tribulação não são parte do corpo de Cristo, apesar de remidos pelos sangue de Cristo. E, em resposta à quinta proposição, não é necessário afirmar que os anciãos devam deixar seus tronos em Apocalipse 20.4, como Reese insiste, para que os ressurrectos do período tribulacional possam ocupá-los. Não há base para dizer que os tronos nos quais os ressurrectos se assentarão são idênticos a esses tronos. Em Mateus 19.28 foi prometido aos discípulos que seriam estabelecidos tronos a partir dos quais eles manifestariam autoridade e governo milenar. Apocalipse 20.4 associa os santos da tribulação a essa autoridade milenar, mas não exige que os anciãos sejam destronados.

Scott demonstra que esses anciãos não podem ser anjos. Ele escreve:

Os anciãos são um grupo distinto dos seres viventes e dos anjos. No capí­tulo 5, a ação dos anciãos é diferenciada da dos anjos, o que impossibilita vê-los como do mesmo grupo; o v 11 diferencia pelo título os três grupos. Os anciãos cantam (v. 9), os anjos proclamam (v. 12). Os anjos não são nu­merados (Hb 12.22); os anciãos são; o número representativo "vinte e quatro" ocorre seis vezes. Não se diz que os anjos são coroados; os anciãos são.

O coral de louvor celeste — tanto harpa quanto cântico — parece ser a função específica dos anciãos. Sabedoria celestial, sobretudo em temas e assuntos ligados à redenção, é dada aos anciãos, não aos anjos. Com o termo anciãos entendemos, então, o grupo inumerável dos santos redimidos — ressurrectos e transformados, levados para encontrar Cristo nos ares (l Ts 4.17). Sua coroa e seus tronos demonstram dignidade real; a harpa e o cântico, alegria em adorar; suas vestes e taças, caráter e ação sacerdotal. (Scott, loc. Cit)


B. Santos do Antigo e do Novo Testamento. A segunda teoria é que esses anciãos representam santos do Antigo e do Novo Testamento. Ironside resume essa teoria quando escreve:

Os anciãos no céu representam todo o sacerdócio celestial - isto é, todos os remidos que morreram no passado ou que estiverem vivos na volta do Senhor [...] A igreja do presente século e igualmente os santos do Antigo Testamento estão incluídos. Todos são sacerdotes. Todos adoram. Havia doze patriarcas em Israel, e doze discípulos introduzirem a nova dispensação. Os dois juntos perfariam os 24 anciãos. (Harry A. Ironside, Lectures on the revelation, p. 82)


Essa teoria une Israel e a igreja numa só companhia, sem distinção, na época do arrebatamento.

Embora essa teoria seja menos discutível que a primeira, parece haver razões para rejeitar a interpretação de que Israel faz parte da cena aqui. Em primeiro lugar, essa teoria baseia-se na dedução de que Israel e a igreja são ressuscitados no arrebatamento e transportados juntos para o céu. A questão da ressurreição de Israel será examinada mais tarde, porém certas passagens (Dn 12.1-2; Is 26.19; Jo 11.24) mostram que a ressurreição de Israel deve ser ligada ao segundo advento do Messias na terra. Assim, Israel não pode ser transladado. Em segundo lugar, o arrebatamento é o plano de Deus para a igreja, que a leva a des­frutar suas bênçãos eternas. O plano para Israel é totalmente diferente, acontecendo com pessoas diferentes numa época diferente. Israel não podia ressurgir e ser recompensado até o fim de sua era. Já que esses 24 anciãos foram ressuscitados, recompensados e glorificados, e a igreja é o único corpo que experimentou essas coisas até então no plano de Cristo, os santos do Antigo Testamento não podem estar incluídos no grupo.


C. Santos deste século. A terceira é que os 24 anciãos representam os santos desta era, a igreja, ressuscitados e transportados para os céus. Há várias considerações importantes que apóiam essa teoria.

1. O número 24, que representa todo o sacerdócio (l Cr 24.1-4,19), como Davi o dividiu com propósitos de representação, faz supor que se trata da igreja. Embora Israel tenha sido chamado para uma função sacerdotal (Ex 19.6), jamais chegou à sua função principal por causa do pecado. Para os santos da tribulação, é feita a promessa de que minis­trarão como sacerdotes no milênio (Ap 20.6). Entretanto, no começo do período tribulacional, Israel ainda não terá sido reintegrado ao lugar de nação sacerdotal, pois deve aguardar o milênio para concretizar esse privilégio. Os santos da tribulação, da mesma forma, devem aguardar o milênio para sua concretização. A igreja é o único grupo sem dúvida constituído como sacerdócio para atuar ministrando sob o Sumo Sacer­dote (l Pe 2.5,9).


2. Sua posição leva a crer que representam a igreja. Em Apocalipse 4 os anciãos estão sentados em tronos, cercando o trono de Deus, intima­mente associados Aquele que está assentado no Seu trono. A igreja teve por promessa receber a mesma posição (Ap 3.21; Mt 19.28). Tal posição não poderia ser a dos anjos, que cercam o trono mas não ocupam posi­ções no trono, nem poderia ser a de Israel, pois Israel estará sujeito à autoridade do trono, não associado à sua autoridade. Lincoln comenta com propriedade:

Eles se assentam diante de Deus — sim, e cobertos ou coroados diante dEle. Certamente nenhuma criatura, por mais exaltada, assentou-se na presença de Deus! Com base em Jó 1, parece que os anjos nem sempre estavam na presença de Deus, mas apenas em ocasiões especiais. E Gabriel, evidentemente de alto escalão na hierarquia celestial, diz em seu discurso a Zacarias: "Eu sou Gabriel, que assisto (lit., estou de pé) 'diante de Deus'" (Lc 1.19). Também em I Reis 22, Micaías afirma que ele viu o Senhor sen­tado no Seu trono e todo o exército celestial de pé junto dEle (Dn 7). Mas aqui temos, sem dúvida, uma ordem bem nova das coisas, qual seja, os santos redimidos da dispensação presente vistos no seu Lar celestial e no seu caráter representativo, sentados e com a cabeça coberta, diante de Deus. (William Lincoln, Lectures on the book of Revelation, p. 76-7)


3. Suas vestes brancas mostram que representam a igreja. Fica evi­dente em Isaías 61.10 que as vestes brancas representam a pureza que foi atribuída ao crente. Foi prometido aos de Sardes (Ap 3.4,5) que se vestiriam de branco. Essas vestes brancas foram vistas primeiro na trans­figuração (Mc 9.3) e deixam prever que o que é de Cristo inerentemente foi imputado a esses anciãos.
4. Suas coroas levam a considerar que representam a igreja. Esses 24 não estão usando coroas de monarca (diadema), mas coroas de vitória (stephanos), conquistadas num conflito. Eles, portanto, foram ressusci­tados, pois um espírito não estaria usando uma coroa, e foram julga­dos, pois não receberiam uma coroa como recompensa sem um julga­mento. Além disso, o julgamento deve ter sido recente, pois aparecem no ato de lançar suas coroas aos pés de Cristo (Ap 4.10). (Cf. Gerald Stanton, Kept from the hour, p. 290)
5. Sua adoração faz crer que representam a igreja. A adoração é dada a Deus pelos anciãos por Seus atos de criação (Ap 4.11), redenção (Ap 5.9), julgamento (Ap 19.2) e reinado (Ap 11.17). Alguns tentaram dissociar os anciãos da redenção que eles cantam (Ap 5.9) ao excluir a palavra "nos" do texto, afirmando que esses não poderiam ser os re­presentantes da igreja. Com relação a esse ponto, várias coisas devem ser observadas. Primeiro, há boa evidência manuscrita para incluir a palavra no texto. (Joseph Seiss, The Apocalypse, i, p. 249) A palavra não precisa ser excluída por motivos tex­tuais. Em segundo lugar, mesmo que ela fosse excluída, isso não signi­ficaria que os anciãos não estivessem cantando sobre sua própria redenção. Em Êxodo 15.13,17, quando Moisés e o povo de Israel louva­vam a Deus por Seu julgamento, de que eles mesmos obviamente par­ticiparam, eles cantam na terceira pessoa.

As Escrituras preferem, en­tão, lidar com o que é subjetivo como fato objetivo. E, em terceiro lugar, se a palavra fosse omitida e pudesse ser provado que eles estavam can­tando sobre uma redenção que não experimentaram, isso não prova necessariamente que os anciãos não são a igreja, pois, como esses anciãos conhecem os julgamentos de Deus derramados na terra, prevêem a vi­tória dos santos que estão na terra passando por essas experiências e podem louvar a Deus pela redenção desses que vêm de "toda tribo, língua, povo e nação" (Ap 5.9), que sofreram a tribulação, foram salvos nela e serão feitos "reino e sacerdotes; e reinarão sobre a terra" (Ap 5.10; 20.6). Da mesma forma que adoram a Deus pelo julgamento que Ele exerce durante o período tribulacional (Ap 19.2), também podem louvar a Deus pela redenção realizada.

6. Seu conhecimento íntimo do plano de Deus dá indícios de que os anciãos representam a igreja. Em passagens como Apocalipse 5.5 ;7.13,14, vemos que Deus compartilhou com eles a respeito do Seu plano à me­dida que ele se desenrolava. Tal intimidade é o cumprimento completo do que foi prometido por nosso Senhor aos discípulos em João 15.15. O próprio uso da palavra "ancião" declara a maturidade de conhecimen­to espiritual, pois o conceito de um ancião nas Escrituras era o de uma pessoa madura em idade ou experiência. A promessa de tal maturida­de, como mostra I Coríntios 13.12, agora é real.
7. A associação com Cristo num ministério sacerdotal leva a crer que representam a igreja. Em Apocalipse 5.8 são vistos "tendo cada um de­les uma harpa e taças de ouro cheias de incenso, que são as orações dos santos". A respeito desse ministério, Scott escreve:

... os anciãos não agem como mediadores, nem como intercessores. Não apresentam súplicas a Deus, nem aumentam o valor dessas súplicas por sua mediação. Os anciãos no céu são os irmãos dos santos sofredores na terra. Estranho, então, que não estivessem interessados nos sofrimentos e nos conflitos dos quais participaram aqui no passado! Mas sua atitude, embora de profunda empatia, é passiva. O anjo-sacerdote que acrescenta incenso às orações dos santos não é um ser criado (8.3,4); Cristo, e somen­te Ele, é aceitável para fazer isso. (Scott, op. cit., p. 138-9.)


A associação próxima com o fato de que esses anciãos foram colocados nesse ministério sacerdotal faz crer que a igreja, constituída como sa­cerdócio ministrante, é representada aqui.

A conclusão formulada por Armerding formará uma conclusão adequada à investigação desses anciãos. Ele escreve:

... a última coisa que se diz a seu respeito é que se prostram, junto com quatro criaturas viventes, e adoram Aquele que está sentado no trono, dizendo: "Amém! Aleluia!" (Ap 19.4). Esse seu último ato é característico deles em tudo: 1) seu conhecimento íntimo de Cristo, 2) sua proximidade a Ele e 3) a adoração que oferecem a Ele. E lembramos que nosso Senhor, quando orava pelos Seus, pediu que O conhecessem, estivessem com Ele e pudessem ver Sua glória (Jo 17.3,25). E eles não eram senão os homens que o Pai lhes dera do mundo. (Carl Armerding, The four and twenty elders, p. 10.)

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