Manual de Escatologia


Capítulo 17 - A relação entre o Espírito Santo e a tribulação



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Capítulo 17 - A relação entre o Espírito Santo e a tribulação

Uma das considerações importantes que acompanham o estudo do período tribulacional é a relação do Espírito Santo com esse período e o trabalho que Ele então realizará.


I. A Identidade do "Detentor"

A relação entre o Espírito e a tribulação é em grande parte apurada pela interpretação de 2Tessalonicenses 2.7,8. Alguém afirmara erronea­mente que os tessalonicenses já estavam no dia do Senhor. Para corrigir essa interpretação equivocada, Paulo afirma que eles não podiam estar no dia do Senhor, pois aquele dia não viria até que o iníquo fosse revela­do. Sua manifestação era impedida pela obra de detenção dAquele cujo ministério permaneceria. Apenas após a retirada desse detentor é que o iníquo seria revelado e o dia do Senhor começaria. Chafer escreve:

A verdade central da passagem em discussão é que, embora de há muito Satanás quisesse ter consumado seu plano maligno para o cosmo e ter introduzido seu último governante humano, há um Detentor que impede essa manifestação para que esse plano de Satanás seja desenvolvido e completado somente na hora designada por Deus. (Lewis Sperry Chafer, Systematic theology, IV, p. 372)
João testemunha que o plano de introduzir o iníquo havia começado a operar em sua época (l Jo 4.3). Esse plano satânico continuou ao longo dos séculos, mas foi controlado pelo Detentor.
A. Quem é o Detentor? Várias respostas já foram dadas quanto à identidade desse agente de detenção.
1. Alguns acreditam que o detentor fosse o Império Romano, sob o qual Paulo viveu. Reese diz:

A interpretação melhor e mais antiga é que Paulo hesitou em descrever com palavras o que queria dizer, porque tinha em mente o Império Ro­mano. A influência impessoal era o sistema magnífico de lei e de justiça em todo o mundo romano; isso controlava a iniqüidade e o iníquo. Então a linhagem de imperadores, a despeito de seus indivíduos ímpios, tinha a mesma influência. (Alexander Reese, The approaching advent of Christ, p. 246.)


2. Uma segunda opinião, intimamente associada à anterior, é a de Hogg e de Vine, segundo os quais o detentor era o governo e a lei huma­na. Eles escrevem:

No devido tempo o império babilônico, a cujo rei as palavras foram ditas, foi substituído pelo persa, este pelo grego, e este, por sua vez, pelo roma­no, que floresceu na época do apóstolo [...] As leis sob as quais esses esta­dos subsistem foram herdadas de Roma, da mesma forma que Roma as herdou dos impérios que a precederam. Assim, as autoridade existentes são instituídas por Deus [...] a autoridade constituída deve agir para de­ter a iniqüidade. (C. F. Hogg & W. E. Vine, The Epistles of Paul the Apostle to the Thessalonians, p. 259-60)


Vemos nitidamente que "as autoridades que existem foram por ele ins­tituídas" (Rm 13.1). No entanto, o poder humano não parece ser uma resposta satisfatória à identidade do detentor. Walvoord escreve:

O governo humano, no entanto, continua durante o período tribulacional no qual o iníquo é revelado. Embora todas as forças de lei e ordem ten­dam a deter o pecado, elas não o fazem por seu próprio caráter, mas à medida que são usadas para alcançar esse fim por Deus. Parece uma in­terpretação preferível entender que toda a detenção do pecado, indepen­dentemente dos meios, procede de Deus como ministério do Espírito Santo. Como Thiessen escreve: "Mas quem é o detentor? Denney, Findlay, Alford, Moffatt afirmam que isso se refere à lei e à ordem, especialmente como incorporadas no Império Romano. Mas, conquanto governos humanos possam ser agentes no trabalho de detenção do Espírito, cremos que eles, por sua vez, são influenciados pela igreja. E, ainda, atrás do governo humano está Deus, que o instituiu (Gn 9.5,6; Rm 13.1-7) e o controla (Sl 75.5-7). Então é Deus, pelo Seu Espírito, que detém o desenvolvimento da ini­qüidade". (John F. Walvoord, The Holy Spirit, p. 115)


3. Um terceira opinião é que Satanás é o detentor. Um defensor dessa opinião escreve:

Por que todo o mundo deveria concluir que esse detentor deve ser algo bom? Esse poder de detenção não poderia ser o próprio Satanás? Ele não tem um plano para a manifestação do filho da perdição, assim como Deus tinha uma hora designada para a encarnação de Seu Filho divino? (Mrs. George C. Needham, The Anti-Christ, p. 94)


A resposta óbvia a essa alegação seria a resposta do Senhor aos que O acusaram de fazer Seus sinais por poder satânico: "Se uma casa estiver dividida contra si mesma, tal casa não poderá subsistir" (Mc 3.25). Além disso, a retirada desse detentor não liberta o mundo da atividade satâni­ca, como ocorreria se Satanás fosse o detentor, mas o lança no mundo com uma fúria descontrolada (Ap 12.12). Walvoord diz:

Essa idéia dificilmente é compatível com a revelação de Satanás nas Es­crituras. Satanás jamais recebe poder universal sobre o mundo, apesar de sua influência ser incalculável. Um estudo de 2Tessalonicenses 2.3-10 mostra que aquele que detém sai de cena antes que o iníquo seja revela­do. Isso não poderia ser dito sobre Satanás. Pelo contrário, é no período tribulacional que o trabalho de Satanás é mais evidente. As Escrituras o apresentam lançado na terra e liberando sua fúria nesses dias trágicos (Ap 12.9). A teoria de que Satanás é o grande detentor da iniqüidade é, conseqüentemente, impossível. (Walvoord, op. cit., p. 116)


4. Uma quarta interpretação é a de que o detentor é a igreja. Reco­nhece-se que os crentes são comparados a sal, um conservante, e à luz, agente purificador, dissipador de trevas. Concorda-se que a igreja po­deria ser um dos meios pelos quais a detenção é sentida, mas o canal não poderia agir ao mesmo tempo como agente. Stanton escreve:

. .. a igreja é, no máximo, um organismo imperfeito, perfeito em posição diante de Deus, com certeza, mas experimentalmente, diante dos homens, nem sempre pura e livre de acusação. Como o governo humano, a igreja é usada por Deus para impedir a manifestação total do iníquo no presente século, mas o que detém efetivamente não é o crente, mas Aquele que dá poder ao crente, o Espírito Santo que vive nele (Jo 16.7; I Co 6.19). Sem Sua presença, nem a igreja nem o governo teriam a habilidade de impedir o plano e o poder de Satanás. (Gerald Stanton, Kept from the hour, p. 110.)


5. A quinta interpretação é a que afirma que o detentor é o Espíri­to Santo. O autor mencionado acima dá razões para apoiar essa con­clusão.

1) Por mera eliminação, o Espírito Santo deve ser o detentor. Qualquer outra hipótese deixa de preencher as exigências [...]

2) O iníquo é uma pessoa, e suas operações abrangem o reino espiri­tual. O detentor deve, da mesma forma, ser uma pessoa e um ser espiritu­al [...] para deter o Anticristo até a hora de sua revelação. Meros agentes ou forças espirituais impessoais seriam insatisfatórios.

3) Para alcançar tudo o que deve ser realizado, o detentor deve ser um membro da Trindade. Deve ser mais forte que o iníquo e mais forte que Satanás, que energiza o iníquo. Para deter o mal no decorrer dos sé­culos, o detentor deve ser eterno [...] O campo de ação do pecado é o mundo inteiro: logo, é imperativo que o detentor seja alguém não limita­do pelo tempo e espaço [...]

4) Essa era é de certa forma a "dispensação do Espírito", pois Ele trabalha agora de maneira diferente de outros séculos como uma Presen­ça residente nos filhos de Deus [...] A era da igreja começou com o adven­to do Espírito no Pentecostes e terminará com o inverso do Pentecostes, a retirada do Espírito. Isso não significa que Ele não estará operando — apenas que não será mais residente.

5) O trabalho do Espírito desde Seu advento incluiu a detenção do mal [...] João 16.7-11 [...] l João 4.4. Como será diferente na tribulação [...]

6) [...] apesar de o Espírito não ter residido na terra durante os dias do Antigo Testamento, assim mesmo exerceu influência detentora [...] Isaías 59.19b... (Ibid., p. 111-5)
B. O trabalho do Espírito Santo com os crentes na tribulação. O fato de que o Espírito Santo é o detentor, a ser retirado da terra antes do início da tribulação, não deve ser interpretado como uma negação de que o Espírito Santo seja onipresente, ou de que continue a operar no final desta era. O Espírito trabalhará dentro e por meio de homens. Só se insiste em que os ministérios exclusivos do Espírito Santo ao crente neste presente século (batismo, I Co 12.12,13; habitação, I Co 6.19,20; selo, Ef 1.13; 4.30 e enchimento, Ef 5.18) terminarão. Sobre essa questão Walvoord escreve:

Há pouca evidência de que os crentes serão habitados pelo Espírito du­rante a tribulação [...] O período tribulacional [...] parece voltar às condi­ções do Antigo Testamento de várias maneiras; e, no período do Antigo Testamento, os santos jamais foram habitados permanentemente exceto em casos isolados, apesar de serem encontrados vários casos de plenitu­de do Espírito de capacitação para serviço. Considerando todos os fato­res, não há evidência da presença habitadora do Espírito Santo nos cren­tes durante a tribulação. Se o Espírito residir no crente durante a tribula­ção, no entanto, segue-se que serão selados pelo Espírito, pois o selo é a Sua própria presença neles. (Walvoord, op. cit., p. 230)


Já que todos os ministérios do Espírito para o crente hoje dependem da Sua presença habitando nele, todos os ministérios dela dependentes estarão ausentes em relação aos santos da tribulação.

II. A Salvação no Período Tribulacional

Um campo de investigação aberto pela visão de que o Espírito Santo é o detentor que será retirado é a salvação durante o período tribulacional. Essa é uma das questões mais freqüentemente levanta­das por aqueles que são contra a posição pré-milenarista dispensacional. Allis pergunta:

Se a igreja se constitui apenas daqueles que foram redimidos no intervalo entre o Pentecostes e o arrebatamento, e se toda a igreja deve ser arrebata­da, então não haverá crentes na terra no período entre o arrebatamento e a aparição. Mas, durante o período, 144 mil em Israel e uma multidão inumerável de gentios (Ap 7) serão salvos. Como isso pode acontecer, se a igreja for arrebatada e o Espírito Santo for retirado da terra? (Oswald T. Allis, Prophecy and the church, p. 12)
Esse autor pensa ter desferido um golpe mortal no dispensacionalismo ao fazer tal pergunta, pois, para ele, não pode haver salvação sem a presença e o ministério da igreja. Ele continua dizendo:

... a objeção mais séria à afirmação dos dispensacionalistas, segundo a qual a declaração "o reino dos céus está próximo" significava que ele poderia ser estabelecido "a qualquer momento", era o fato de que isso implicaria desprezar o ensinamento inequívoco de Jesus de que "Cristo deve sofrer e entrar para sua glória". Essa declaração tornava a cruz desne­cessária ao sugerir que o reino glorioso do Messias poderia ser estabeleci­do imediatamente. Ela não dava espaço para a cruz, já que o reino do Messi­as deveria ser sem fim. Ela levava à conclusão de que, se Israel tivesse aceito Jesus como Messias, o ritual de sacrifício do Antigo Testamento teria sido suficiente para o pecado [...] A única conclusão a que se pode che­gar com base em tal afirmação é que a igreja exigia a cruz, enquanto o reino não; que o evangelho do reino não incluía a cruz, enquanto o evangelho da graça de Deus a incluía [grifo do autor].

[...]

[...] é a questão [...] se o remanescente judeu "piedoso" do fim dos tempos aceitará e pregará a cruz ou não.



[...]

O "evangelho do reino" foi pregado antes da cruz, antes da era da igreja, durante a qual o evangelho da cruz deve ser pregado; e sua prega­ção deverá ser retomada, aparentemente sem mudança ou adição, após a era da igreja. A inferência natural é esta: se ele não envolveu a cruz quando foi pregado no primeiro advento, ele não a inclui quando for pregado após o arreba­tamento. Tal conclusão é por demais inevitável se ele for pregado por um remanescente judeu... [grifo do autor]. (Ibid., p. 230-3)


Com essa posição, o pós-tribulacionista está de total acordo. (Cf. Reese, op. cit., p. 112-4) É neces­sário, em vista de tais acusações, estabelecer o ensinamento das Escri­turas sobre a questão da salvação no período tribulacional.
A. A natureza da salvação no Antigo Testamento. Há dois aspectos distintos de como a doutrina de salvação é apresentada no Antigo Tes­tamento: individual e nacional.
1. O primeiro aspecto da salvação oferecido no Antigo Testamento é o individual. Com respeito a isso, Chafer escreve:

Os santos do Antigo Testamento tinham um relacionamento correto e acei­tável com Deus [...] Quanto à condição do judeu na antiga dispensação, podemos observar:

a) Nasciam como participantes de um relacionamen­to pactuai com Deus no qual não havia limitações impostas sobre sua fé ou sobre sua comunhão com Ele [...]

b) Em caso de não conseguirem al­cançar as obrigações morais e espirituais impostas por sua posição na aliança, os sacrifícios eram oferecidos como base de restauração dos pri­vilégios pactuais [...]

c) Como indivíduo, o judeu poderia de tal modo fracassar em sua conduta e de tal modo negligenciar os sacrifícios, que, no final, seria desonrado por Deus e lançado fora [...]

d) A salvação e o perdão nacional de Israel ainda são uma expectativa futura, e sua ocor­rência é prometida para quando o Libertador vier de Sião (Rm 11.26,27)

[...] Uma parte muito clara e abrangente das Escrituras fala sobre a vida eterna relacionada ao judaísmo. No entanto, ela é contemplada ali como uma herança.

a) Isaías 55.3 [...]

b) Daniel 12.2 [...]

c) Mateus 7.13,14 [...]

d) Lucas 10.25-29 [...]

e) Lucas 18.18,27 [...]

f) Mateus 18.8-9...

A dádiva da vida eterna será para os israelitas, como no caso dos crentes, uma caracte­rística da salvação em si; e salvação para Israel é apresentada em Roma­nos 11.26-32 como algo que ocorre após o cumprimento do propósito do presente século, a plenitude dos gentios; esse cumprimento trará o fim da cegueira de Israel (v. 25), na época em que vier "de Sião o Libertador", que "apartará de Jacó as impiedades". (Chafer, op. cit., IV, p. 24-6.)
É evidente, assim, que a salvação oferecida no Antigo Testamento era uma salvação individual, aceita pela fé, baseada em sacrifício de sangue, que servia de indício do verdadeiro sacrifício por vir. Essa sal­vação foi apresentada como herança a ser recebida em tempo futuro, e não uma posse presente. Cada israelita que acreditasse em Deus era verdadeiramente salvo, mas aguardava uma experiência futura de ple­nitude daquela salvação. Chafer diz:

Ao apresentar um sacrifício e colocar a mão sobre a cabeça da vítima, o transgressor reconhecia seu pecado diante de Deus e entrava racionalmente num acordo em que um substituto morria no lugar do pecador. Embora seja afirmado em Hebreus 10.4 —"porque é impossível que o sangue de touros e de bodes remova pecados"—, Deus concedia perdão ao transgressor, porém com a expectativa de que uma base justa para tal perdão seria por fim asse­gurada pela morte sacrificial incomparável de Seu Filho, exemplificada pelo sacrifício animal [...] Em Romanos 3.25 o objetivo divino da morte de Cristo é declarado assim: "para manifestar a sua justiça, por ter Deus, na sua tolerân­cia, deixado impunes os pecados anteriormente cometidos". (Ibid., III p. 103-4)


Assim a salvação era oferecida ao indivíduo.
2. Um segundo aspecto da salvação oferecido no Antigo Testamento era o nacional. Sobre isso Chafer escreve:

As Escrituras testemunham sobre o fato de que Israel como nação deverá ser salvo de seu pecado e liberto de seus inimigos pelo Messias quando Ele retornar à terra [...] É óbvio que Israel como nação não está salvo ago­ra, e nenhuma das características das alianças eternas de Jeová com aque­le povo estão evidentes agora [...] A nação, com exceção de certos rebel­des que serão expulsos (Ez 20.37,38), será salva, e isso pelo seu próprio Messias quando Ele vier de Sião (cf. Is 59.20,21; Mt 23.37-39; At 15.16). "Todo o Israel" de Romanos 11.26 é evidentemente aquele Israel separa­do e aceito que terá passado pelos julgamentos que ainda cairão sobre aquela nação (cf. Mt 24.37-25.13). O apóstolo diferencia claramente a na­ção de Israel de um Israel espiritual (cf. Rm 9.6; 11.1-36).

[...] Jeová vai, junto com o segundo advento de Cristo e como parte da salvação de Israel, "tirar os seus pecados". Isso, Jeová declara, é Sua aliança com eles (Rm 11.27). Observa-se que, em tempos passados, Jeová lidava com os pecados de Israel [...] apenas com uma cobertura temporária daqueles pecados, e que Cristo na Sua morte levou sobre Si o julgamento daqueles pecados que Jeová já havia perdoado; mas a aplicação final do valor da morte de Cristo por Israel espera o momento de sua conversão nacional [...] É então que, de acordo com Sua aliança, Jeová vai "tirar" seus pecados. Em Hebreus 10.4 afirma-se que é impossível que o sangue de tou­ros e bodes "remova" pecados, e em Romanos 11.27 está prometido que os pecados de Israel serão retirados [...] A inferência a ser feita a partir dessas e de outras partes das Escrituras é que ainda no futuro, no mais breve espa­ço de tempo, e como parte da salvação de Israel, Jeová retirará seus peca­dos [...] Concluímos, então, que a nação de Israel ainda será salva e seus pecados serão retirados para sempre por meio do sangue de Cristo.15
Assim, observa-se que, enquanto o israelita que acreditava em Deus era salvo, a salvação lhe era assegurada com base num trabalho futuro que Deus fará para toda a nação no segundo advento, quando o Messi­as tratará definitivamente dos pecados do povo. Um indivíduo salvo em Israel pode regozijar-se com sua própria salvação e ao mesmo tem­po esperar a salvação nacional. Confessar que sua nação ainda não está salva não é negar sua própria salvação como indivíduo.

É nesse mesmo ponto que as críticas à nossa posição, conforme men­cionadas anteriormente, não têm fundamento. Os indivíduos salvos na tribulação hão de conhecer a experiência da salvação, mas ainda olharão para o futuro com expectativa pela conclusão da salvação nacional na apa­rição do Redentor. Após experimentar a bênção da salvação individual, eles aguardarão com nova alegria a vinda do Redentor e Sua redenção para completar aquilo cujo começo eles mesmos experimentaram.


B. Promessas específicas de salvação do Antigo Testamento. Há várias passagens do Antigo Testamento que prometem salvação a Israel. De­vemos lembrar que, embora a ênfase seja dada à salvação nacional, esta deve ser precedida pela salvação individual. O próprio Paulo (Rm 9.6) restringe o "todo o Israel" de Romanos 11.26 a indivíduos salvos. As­sim, no Antigo Testamento qualquer promessa de salvação deve in­cluir ambos os aspectos.

Ah! Que grande é aquele dia, e não há outro semelhante! É tempo de angústia para Jacó; ele, porém, será livre dela (Jr 30.7).

Far-vos-ei passar debaixo do meu cajado e vos sujeitarei à disciplina da aliança; separarei dentre vós os rebeldes e os que transgrediram contra mim... (Ez 20.37,38).

... mas, naquele tempo, será salvo o teu povo, todo aquele que for achado inscrito no livro (Dn 12.1).

O sol se converterá em trevas, e a lua, em sangue, antes que venha grande e terrível Dia do Senhor. E acontecerá que todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo; porque, no monte Sião e em Jerusalém, estarão os que forem salvos, como o Senhor prometeu; e, entre os sobreviventes, aquele que o Senhor chamar (Jl 2.31,32).

Naquele dia, haverá uma fonte aberta para a casa de Davi e para os habi­tantes de Jerusalém, para remover o pecado e a impureza. Em toda a ter­ra, diz o Senhor, dois terços dela serão eliminados e perecerão; mas a terceira parte restará nela. Farei passar a terceira parte pelo fogo, e a pu­rificarei como se purifica a prata, e a provarei como se prova o ouro; ela invocará o meu nome, e eu a ouvirei; direi: E meu povo, e ela dirá: O Senhor é meu Deus (Zc 13.1,8-9).

O Antigo Testamento promete especificamente uma salvação para Israel, que é associada com "aquele dia", ou o dia do Senhor. Já que essa salvação ainda não foi experimentada por Israel, deve ser experimentada durante o tempo em que Deus novamente lidará com Israel como nação, no período tribulacional. Logo, as promessas não-cumpridas do Antigo Testamento levam-nos a esperar que a salvação seja experimentada du­rante a tribulação.

O Antigo Testamento não prevê a salvação só dos israelitas antes da vinda do Senhor, mas de uma multidão de gentios também.

Nos últimos dias, acontecerá que o monte da Casa do Senhor será estabe­lecido no cume dos montes e se elevará sobre os outeiros, e para ele afluirão todos os povos. Ele julgará entre os povos e corrigirá muitas nações... (Is 2.2,4).

As nações se encaminham para a tua luz, e os reis, para o resplendor que te nasceu. Então, o verás e serás radiante de alegria; o teu coração estre­mecerá e se dilatará de júbilo, porque a abundância do mar se tornará a ti, e as riquezas das nações virão a ter contigo (Is 60.3,5).

As nações verão a tua justiça, e todos os reis, a tua glória... (Is 62.2).
Durante Seu ministério terreno, o Senhor reiterou as mesmas pro­messas em passagens como Mateus 13.47-50, 24.13 e João 3.1-21. As promessas não foram anuladas.
C. O cumprimento da salvação prometida. O sétimo capítulo de Apocalipse faz um registro impressionante do cumprimento da salva­ção individual como prometida no Antigo Testamento.
1. A promessa sobre os israelitas individuais é cumprida. Os primei­ros oito versículos do capítulo são dedicados a uma descrição dos 144 mil servos selados de Deus. Nessa passagem, as circunstâncias de sua salvação são apenas sugeridas. O fato de que eles têm o selo do Deus vivo leva-nos a crer em sua salvação, pois o selo é a designação de posse. Novamente, sua salvação é insinuada no fato de serem chamados "os servos do nosso Deus". Tal designação só poderia ser dada a indivíduos salvos. No capítulo 14 esses 144 mil são referidos especificamente como "redimidos dentre os homens" (v. 4), e são "primícias para Deus". O fato de estarem associados às quatro criaturas viventes e aos 24 anciãos na adoração de Deus garante a sua salvação. Logo, vemos que a promessa relativa à salvação individual é cumprida nos 144 mil, embora sejam ape­nas pequena parte dos israelitas salvos durante aquele período.
2. A promessa relativa aos gentios está cumprida. Os versículos de 9 a 17 dão o cumprimento dessas promessas do Antigo Testamento re­lativas à salvação dos gentios, pois aqui temos a descrição de uma mul­tidão, cujo número não se pode calcular, que experimentou a salvação. O fato de que eles "lavaram suas vestiduras e as alvejaram no sangue do Cordeiro" garante a sua salvação.
3. A promessa de salvação nacional é cumprida. Apocalipse 19.11-20.6 oferece um quadro do cumprimento do segundo aspecto da salva­ção prometida do Antigo Testamento. Nessa parte vemos o Senhor

retornando como "rei dos reis e senhor dos senhores". Todos os poderes hostis dos gentios são destruídos e seus líderes são lançados no lago de fogo. Satanás é preso. O reino prometido, no qual todas as promessas e alianças são cumpridas, é inaugurado pela presença pessoal e pelo go­verno do Rei. Assim João retrata o cumprimento da salvação nacional.


D. A base da salvação na tribulação. Ao considerar a importante ques­tão da base ou do método da salvação durante a tribulação, certas afir­mações podem ser feitas.

1. A salvação na tribulação certamente será baseada no princípio da fé. Hebreus 11.1-40 deixa claro que o único indivíduo aceito por Deus era o indivíduo que cria em Deus. O princípio do v 6, "sem fé é impos­sível agradar a Deus", não se limita à presente era, mas vale para todas as épocas. A fé de Abraão é dada como exemplo do método de aborda­gem de Deus (Rm 4.2) e será o método de abordagem na tribulação.


2. As descrições dos salvos na tribulação deixam claro que serão salvos pelo sangue do Cordeiro. Sobre os judeus salvos, diz-se que "são os que foram redimidos dentre os homens" (Ap 14.4), e Israel jamais conheceu uma redenção que não fosse baseada em sangue. Sobre os gentios, diz-se que "lavaram suas vestiduras e as alvejaram no sangue do Cordeiro" (Ap 7.14). Com relação à frase "no sangue", Bullinger, meticuloso especialista em grego, diz:

Não "com sangue"; nada sob a lei jamais foi lavado "com sangue", nada pode ser alvejado ao ser "lavado" com sangue. É por um significado lite­ral forçado da proposição [...] (en) que se chegou a essa falsa idéia. A pre­posição constantemente significa pelo ou por meio de e é traduzida "pelo" 142 vezes e "por meio de" 37 vezes. (V. Mt 9.34; 5.34,35; Gl 3.11; 2Tm 2.10.) Nesse mesmo livro (v. 9) ela é traduzida por "pelo". Então aqui e em 1.5 esse deve ser o significado. (E. W. Bullinger, The Apocalypse, p. 290-1)


Em Apocalipse 12 Satanás ataca o remanescente de Israel, pois tal é o significado da "mulher" nesse capítulo. O remanescente fiel é mencio­nado no v. 10 como "nossos irmãos". O instrumento de vitória dos "ir­mãos" nos é dado no v. 11, "eles, pois, o venceram por causa do sangue do Cordeiro". Então, uma vez mais, os crentes são salvos e libertos pelo "sangue do Cordeiro".

Apocalipse 12.17 oferece a razão da animosidade especial de Sata­nás: eles "têm o testemunho de Jesus". É por causa da mensagem que esse remanescente fiel proclama que Satanás é apresentado como "furi­oso". Essa é só mais uma mostra da mensagem proclamada no período tribulacional.


3. A salvação será pelo ministério do Espírito Santo. Ao identificar o Espírito Santo como o detentor de 2Tessalonicenses 2.7, vem a alegação persistente dos oponentes dessa opinião, que dizem que o Espírito Santo deve cessar de operar no mundo na tribulação porque não estará mais morando no corpo de Cristo como Seu templo. Nada poderia estar mais longe da verdade. Devemos notar que o Espírito Santo não assumiu um ministério de habitação em todos os crentes no Antigo Testamento, mas o Senhor, referindo-se a alguém sob essa economia, mostra clara­mente que a salvação era pela operação do Espírito Santo (Jo 3.5,6). Mesmo sem esse ministério de habitação do Espírito Santo, os santos do Antigo Testamento foram salvos pelo Espírito Santo, apesar de Ele não habitar tais crentes como um templo. Assim, no período tribulacional, o Espírito Santo, que é onipresente, fará o mesmo traba­lho de regeneração que fazia quando Deus lidava anteriormente com Israel, mas sem um ministério de habitação. A atual habitação está rela­cionada à capacitação, à união de crente com crente por causa da sua relação com o Templo de Deus, mas a habitação é totalmente diferente do trabalho do Espírito na regeneração. Logo, devemos reconhecer cla­ramente que, apesar de o Espírito não habitar os salvos da tribulação, Ele ainda pode operar na regeneração deles. Joel 2.28-32 relaciona a salvação de Israel ao ministério do Espírito Santo antes do segundo advento. Comentando sobre João 3, Walvoord diz: "O diálogo de Cristo com Nicodemos (Jo 3.1-21) pode ser entendido como uma confirma­ção de que haverá salvação durante a tribulação, e de que ela será obra do Espírito Santo". (Walvoord, op. cit., p. 229) Kelly acrescenta: "Quero, então, afirmar explicitamente minha própria convicção [...] de que a salvação de to­dos os salvos em todas as épocas depende da obra de Cristo, e o Espí­rito é o único aplicador eficaz dessa obra em qualquer alma". (William Kelly, Lectures on the revelation, p. 164, nota de rodapé) É pos­sível afirmar com confiança, então, que a salvação oferecida pelo san­gue do Cordeiro e recebida pela fé será efetivada mediante a obra do Espírito Santo.
E. A relação desse evangelho com o evangelho do reino. Os críticos dessa posição declaram que, já que o evangelho do reino está sendo pregado durante a tribulação, não pode haver pregação da cruz. A tribulação testemunhará a pregação do evangelho do reino. Mateus 24.14 deixa isso bem claro. No entanto, a pregação da cruz e a pregação do evange­lho do reino não são mutuamente excludentes.

Devemos reconhecer que o termo evangelho no seu uso literal signi­fica simplesmente "boas novas". O evangelho do reino era as boas novas de que o Rei prometido apareceria logo em cena para oferecer o reino prometido. Em tal uso, o evangelho do reino não é principalmente soteriológico, mas escatológico em conceito. O evangelho do reino não oferecia uma maneira de salvação, mas em vez disso oferecia a esperança de cumprimento das promessas escatológicas de Israel, que continham nelas o cumprimento das esperanças soteriológicas, como já vimos ao analisar os dois aspectos da salvação do Antigo Testamento.

Houve duas fases da pregação joanina do evangelho do reino: "Arrependei-vos, porque está próximo o reino de Deus" (Mt 3.2) e "Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo" (Jo 1.29). Uma fazia parte da mensagem de João tanto quanto a outra. Nessas duas declara­ções, João proclamou uma cruz assim como um reino. Assim será no período tribulacional.

O aspecto soteriológico da mensagem de João não está nas pala­vras "o reino de Deus está próximo", mas sim em "Arrependei-vos". Ao lidar com um povo pactuai que Ele mesmo conduzira a um relacio­namento pactuai, Deus exige que o pecador ofereça um sacrifício e re­ceba purificação, o que o reconfirmaria como participante na bênção da aliança. Tais sacrifícios e purificações subseqüentes estavam ligados per­manentemente ao arrependimento no sentido veterotestamentário da palavra. João Batista, sendo de linhagem levítica, podia ministrar tais sacrifícios e administrar tal purificação por água como registram os evan­gelhos.

Devemos concluir então que, quando João pregava, essas duas partes de sua mensagem estavam presentes. A promessa do Rei trazia convicção da falta de valor pessoal, que levava o indivíduo a buscar a purificação. Assim será no período tribulacional. A proclamação das boas novas de que o Rei está vindo trará convicção de indignidade pes­soal, a qual trará as boas novas de purificação; não por meio de sacrifí­cios e aplicações cerimoniais de água, que tipificavam a vinda do Cor­deiro de Deus, mas pelo método de purificação oferecido "de uma vez por todas", o sangue do Cordeiro. Como João anunciou o Rei e ofere­ceu a purificação tipologicamente, assim o remanescente fiel anunciará o rei e oferecerá purificação, completa e definitiva, por meio daquele sobre quem João falou. As boas novas do reino não eliminam as boas novas da salvação de sua mensagem.
F. Os resultados da salvação. As passagens que lidam com a salvação no período tribulacional mostram que há vários resultados que deve­mos dar por certos.

1. Haverá purificação pessoal. Passagens como Apocalipse 7.9,14 e 14.4 mostram claramente que o indivíduo salvo é aceito por Deus. Em nenhuma outra base o indivíduo poderia estar "diante do trono de Deus". Isso deve ser visto como resultado do cumprimento das ofertas individuais de salvação no Antigo Testamento.

2. Haverá salvação nacional. A preparação de tal nação (Ez 20.37,38; Zc 13.1,8,9) resultará na salvação da nação no segundo advento como prometido em Romanos 11.27. As promessas nacionais podem ser cum­pridas porque Deus, pelo Espírito Santo, redimiu um remanescente em Israel ao qual e por meio do qual as alianças podem ser cumpridas.
3. Haverá bênçãos milenares. Apocalipse 7.15-17 e 20.1-6 deixam claro que a salvação oferecida durante esse período encontrará seu cumprimento na terra milenar. Todas as bênçãos e privilégios de serviço, posição e acesso a Deus são vistos no âmbito milenar. E assim que as promessas nacionais serão realizadas mediante a salvação individual durante a tribulação e serão desfrutadas na terra durante o milênio.
As promessas do Antigo Testamento ofereceram uma salvação ao israelita como indivíduo, a ser recebida como herança e a ser concretizada na época da salvação nacional no segundo advento do Messias. Já que essas promessas de salvação individual e nacional ainda não foram totalmente cumpridas, elas o serão no futuro. Quando Deus lidar novamente com a nação de Israel, a salvação será oferecida com base no sangue de Cristo, a ser recebida pela fé e aplicada pelo Espíri­to Santo. Isso está em perfeita harmonia com a pregação do evange­lho do reino, soteriológica e escatológica. A salvação oferecida na tri­bulação será recebida individualmente por multidões de gentios e cul­minará na salvação nacional para Israel e na bênção milenar total para todos os salvos. A interpretação sugerida daria centralidade à cruz, à morte de Cristo, ao propósito eterno da redenção e tornaria nossa po­sição imune aos ataques dos adversários que afirmam, nas palavras de Allis:

É de fundamental importância ressaltar que, se a doutrina dispensa­cionalista com relação à natureza do reino prometido e ao significado da palavra "próximo" for aceita, ela leva logicamente à opinião de que a cruz, como sacrifício redentor pelo pecado, refere-se apenas à era e aos santos da igreja. Conforme pregado no primeiro advento, o reino não in­cluía nem implicava a cruz; conforme pregado no segundo advento, ele não incluirá nem pressuporá a cruz. (Allis, op. cit, p.234)


Tais ataques são injustificados e falsos.



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