Manual de Escatologia



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Prefácio

A escatologia bíblica é o ponto culminante da teologia sistemática. Não é apenas o clímax, o desfecho e a consumação do estudo teológico, mas a apresentação da escatologia é também a suprema demonstração de habilidade teológica. Aqui, mais que em qualquer outro campo, exceto talvez na doutrina da pessoa de Cristo, estão expostas as importantes ferramentas da exegese, da síntese, da hermenêutica e do sistema teológico. Exige-se um julgamento refinado para discernir o que deve ser interpretado à letra em contraposição ao que deve ser interpretado de forma espiritual e alegórica. A coerência da revelação de Deus como um todo no Antigo e no Novo Testamento deve ser mantida.

Os intricados pormenores da profecia devem ser relatados sem contradição. Uma distinção cuidadosa deve ser observada entre o que é certa e simples mente revelado e o que permanece obscuro. Devemos distinguir os assuntos mais importantes dos de menor monta. O campo da investigação deve necessariamente compreender tanto as profecias cumpridas quanto as por cumprir, aquelas servindo de guia importante para o caráter de predição adotado por estas.

A escatologia, mais que qualquer outro campo da teologia, tem sofrido muito nas mãos dos intérpretes. Mesmo entre aqueles cuja confiança na Palavra inspirada de Deus é inquestionável, existem escolas de interpretação amplamente divergentes. Por essa razão, alguns teólogos se contentam com a apresentação de alguns poucos acontecimen­tos da escatologia, como a ressurreição dos mortos, a segunda vinda e o julgamento final, negligenciando vastas partes das Escrituras que tratam de outras questões proféticas.

Apesar de muitos estudiosos terem escrito sobre os temas escatológicos para suprir o que falta nas teologias modelares, poucos tentaram, quando foi o caso, uma apresentação circunstanciada da escatologia pré-milenarista como a apresentada nesta obra.

O Dr. Pentecost, com rara habilidade, tratou de muitos assuntos polêmicos, enfrentou abertamente e resolveu muitos problemas proféticos, apre­sentando em larga escala a substância da Palavra profética de forma sistemática e teológica. Ele condensou um vasto material nem sempre encontrado mesmo nas maiores bibliotecas de profecia e ofereceu uma solução própria a muitas questões controversas. Em grande escala, es­sas conclusões são compartilhadas pelos pré-milenaristas em geral.

O trabalho como um todo merece ser classificado como texto abrangente sobre escatologia bíblica e deve ser útil à nossa geração por muitos anos.

John E Walvoord

Dallas, Texas

Prefácio à Edição Brasileira

A escatologia bíblica é uma daquelas áreas em que, na melhor das hipóteses, os crentes concordam em discordar. Comentários e teologias recentes na maioria das vezes preferem apenas expor as opções sem tomar partido, pois isso aliena uma ou mais fatias do mercado, e traz o mais odioso xingamento que um teólogo pode receber, "bitolado".

J. Dwight Pentecost não teme essa palavra. Sua bitola é larga - 66 - pois ele percorre hábil e coerentemente os livros das Escrituras na busca de uma definição escatológica. Ele a encontra no pré-milenismo dispensacionalista, e não se envergonha do rótulo. Defende sua posição sem rebaixar os que dele discordam. Critica severamente em tom pacífico, apontando a escatologia não apenas como um conjunto de idéias, mas como um veículo para promover submissão a Cristo e compromisso com Sua obra.

Depois de existir por quarenta anos em inglês e ser traduzido para diversos idiomas, este manual vem enriquecer a Igreja de fala portuguesa. Os que adotam a posição defendida pelo autor poderão defendê-la mais adequadamente. Os que dela discordam terão farto material para uma interação mais informada com o pensamento dispensacionalista. Nenhum dos diversos lados do debate escatológico poderá, todavia, ignorar este livro.

A leitura do Manual de Escatologia, que por vezes exigirá perseverança filadelfiana (cf. Ap 3.10), recompensará amplamente os esforços nela despendidos, tanto na vida individual quanto na vida da Igreja

Carlos Osvaldo Pinto

Reitor

Seminário Bíblico Palavra da Vida



Primeira Seção - A interpretação da profecia




Capítulo I - Os métodos de interpretação




Introdução


Das muitas perguntas que se deparam ao estudioso de escatologia, ne­nhuma é mais importante que a questão do método empregado na in­terpretação das Escrituras proféticas. A adoção de diferentes métodos de interpretação produziu as várias posições escatológicas e dá conta das diversas concepções de cada sistema em desafio ao estudioso da profecia. As diferenças básicas entre a escola pré-milenarista e a amilenarista e entre os defensores do arrebatamento pré-tribulacionalista e os do pós-tribulacionalista são hermenêuticas, pro­venientes da adoção de métodos de interpretação divergentes e inconciliáveis.

A questão fundamental entre pré-milenaristas e amilenaristas foi claramente definida por Allis, que escreve:

Uma das características mais marcantes do pré-milenarismo em todas as suas formas é a tônica dispensada à interpretação literal das Escrituras. A alegação constante de seus defensores é que somente quando interpreta­da à letra a Bíblia recebe verdadeira interpretação; e denunciam como "espiritualistas" e "alegoristas" os que não interpretam as Escrituras com o mesmo grau de literalidade que eles utilizam.

Ninguém faz essa acusa­ção de modo mais agudo que os dispensacionalistas. A questão da interpre­tação literal versus a figurada é, portanto, algo que precisa ser encarado desde o princípio [grifo do autor].(Oswald T. Allis, Prophecy and the churcli, p. 17.)

Quando allis reconhece que "a interpretação literal sempre foi característica marcante do pré-milenarismo"(Ibid., p. 244. Cf. p. 99,116, 218, 227, 242, 256, em que aparecem outras referências à interpretação literal como base do pré-milenarismo.) ele concorda com Feinberg, que escreve:

... pode-se demonstrar que a razão de a igreja primitiva ter sido pré-milenarista foi o fato de ter interpretado a Palavra de maneira literal, ao passo que o abandono dessa visão nos séculos seguintes da história é di­retamente atribuído à mudança do método de interpretação, a começar por Orígenes em particular. (Charles L. Feinberg, Premillennialism or amillennialism, p. 51.)


Hamilton afirma:

É preciso admitir francamente que a interpretação literal das profecias do Antigo Testamento apresenta o cenário de um reino terreno do Messias tal qual proposto pelos pré-milenaristas. Era esse o tipo de reino messiânico que os judeus do tempo de Cristo esperavam, com base numa interpreta­ção literal das promessas do Antigo Testamento. Era o tipo de reino de que os saduceus falavam quando ridicularizaram a idéia da ressurreição do corpo, extraindo do Senhor a declaração mais límpida das caracterís­ticas da era vindoura que temos no Novo Testamento, quando Ele lhes disse que erravam por não conhecerem nem as Escrituras nem o poder de Deus (Mt 22.29) [...] os judeus buscavam o mesmo tipo de reino esperado pelos pré-milenaristas, que falam do lugar de primazia ocupado pelos judeus num reino judaico terreno a ser estabelecido pelo Messias em Je­rusalém. (Floyd E. Hamilton, The basis of millennial faith, p. 38-9.)


Assim, ele reconhece que a diferença básica entre ele mesmo, amilenarista, e o pré-milenarista não é se as Escrituras ensinam um reino terreno, como quer o pré-milenarista, mas como os versículos que ensinam esse reino terreno devem ser interpretados. Allis admite que "as profecias do Antigo Testamento, se interpretadas literalmente, não podem ser consideradas já cumpridas, ou susceptíveis de se cumprir na presente era".( Allis, op. cit, p. 238.) Portanto, antes de qualquer debate sobre as passa­gens proféticas e sobre as doutrinas escatológicas, é preciso estabelecer o método básico de interpretação por ser empregado no processo. Isso é bem observado por Pieters, que escreve:

A questão de as profecias do Antigo Testamento concernentes ao povo de Deus deverem ou não ser interpretadas em sentido normal, corno as demais passagens, ou de poderem ou não ser aplicadas de modo adequado à igreja é a chamada questão da espiritualização da profecia. Esse é um dos maiores problemas da interpretação bíblica diante de todos os que se propõem realizar um estudo sério da Palavra de Deus. Esse é um dos principais segredos da divergência de opinião entre os pré-milenaristas e os outros estudiosos cristãos. Aqueles rejeitam tal espiritualização, estes a empregam; e, enquanto não houver acordo quanto a essa questão, o debate será interminável e infrutífero [grifo do autor].( Albertus Pieters, The Leader, 5 Sept, 1934, ap. Gerrit H. Hospers, The principle of spiritualization in hermeneutics, p. 5.)


A. O problema. Se Rutgers estiver correto ao afirmar sobre o pré-milenarista: "Considero sua interpretação das Escrituras o erro fundamental" (William H. Rutgers, Premillennialism in America, p. 263.) e se a diferença reconhecida entre o pré-milenarismo e o amilenarismo se acha na proposta básica do método empregado para interpretar as Escrituras, o problema fundamental por estudar no início de qualquer consideração escatológica é o da hermenêutica da profecia. É propósito deste estudo examinar os importantes métodos defendidos atualmente como o meio correto de interpretar as Escrituras, para adquirir clara compreensão das diferenças entre os métodos, estudar a história da doutrina, a fim de poder identificar a origem dos métodos divergentes, e listar as regras a empregar na interpretação, a fim de poder aplicar corretamente o método oficial de interpretação.

B. A importância do estudo. "A necessidade primordial de um sistema hermenêutico é averiguar o significado da Palavra de Deus." (Bernard Ramm, Protestant biblical interpretation, p. 1) É óbvio que concepções tão amplamente divergentes como pré-milenarismo e amilenarismo e pré-tribulacionismo e pós-tribulacionismo não podem ser todas corretas. Já que o intérprete não está manejando um livro de origem humana, mas a Palavra de Deus, deve munir-se de um método preciso de interpretação, caso contrário o erro será o resultado inevitável de seu estudo. O fato de que a Palavra de Deus não pode ser correta-mente interpretada a não ser por um método correto e por regras lógicas de interpretação confere a este estudo sua suprema importância.

Embora diversos métodos de interpretação das Escrituras tenham sido propostos no decorrer da história da interpretação (Cf. Milton S. Terry, Biblical hermeneutics, p. 163-74, em que se observam métodos como o haláquico, o hagádico, o alegórico, o místico, o conciliatório, o moral, o naturalístico, o mítico, o apologético, o dogmático e o histórico-gramatical.), existem hoje apenas dois métodos com influência vital na escatologia: o alegórico e o histórico-gramatical. O método literal é geralmente tido como sinôni­mo do método histórico-gramatical e será usado ao longo deste debate. Esses dois métodos serão considerados detidamente.



I. O Método Alegórico


Um antigo método de interpretação que passou por um reavivamento nos últimos tempos é o método alegórico.
A. A definição do método alegórico. Angus e Green definem alegoria da seguinte forma:
Qualquer declaração de supostos fatos que aceita interpretação literal e, no entanto, requer ou simplesmente admite interpretação moral ou figu­rada, é chamada alegoria. E para a narrativa ou para a história o que as figuras de linguagem são para as palavras simples, adicionando ao senti­do literal dos termos empregados um sentido moral ou espiritual. Às ve­zes a alegoria é pura, ou seja, sem referência direta à sua aplicação, como na história do filho pródigo. Às vezes é mista, como no salmo 80, em que simplesmente se insinua (v. 17) que os judeus são o povo que a videira tem por objetivo representar. (Joseph Angus & Samuel G. Green, The Bible handbook, p. 220.)

Ramm define o método alegórico da seguinte forma: "Alegorização é o método de interpretar um texto literário considerando o sentido literal veículo para um sentido secundário, mais espiritual e mais profundo".( Ramm, op. cit., p.21.) Nesse método, o significado histórico é negado ou desprezado, e a tô­nica recai inteiramente num sentido secundário, de modo que as pala­vras ou os acontecimentos primeiros têm pouco ou nenhum significa­do. Fritsch resume esse pensamento assim:


De acordo com esse método, o sentido literal e histórico das Escrituras é completamente desprezado, e cada palavra e acontecimento é transfor­mado em alegoria de algum tipo, já para escapar de dificuldades teológi­cas, já para sustentar certas crenças religiosas estranhas...( Charles T. Fritsch, Biblical typology, Bibliotheca Sacra, 104:216, Apr., 1947)
Parece que o propósito do método alegórico não é interpretar as Escrituras, mas perverter o verdadeiro sentido delas, embora sob o pre­texto de buscar um sentido mais profundo ou mais espiritual.
B. Os perigos do método alegórico, o método alegórico é repleto de perigos que o tornam inaceitável ao intérprete da Palavra.
1. O primeiro grande perigo do método alegórico é que ele não interpreta as Escrituras. Terry afirma:

... será imediatamente percebido que seu hábito é desprezar o significado comum das palavras e dar asas a todo tipo de especulação fantasiosa. Ele não extrai o sentido legítimo da linguagem de um autor, mas insere nele todo tipo de extravagância ou fantasia que um intérprete possa desejar. Como sistema, portanto, ele se coloca além de todos os princípios e leis bem definidos. (Terry, op. cit., p. 224.)


Angus e Green expressam o mesmo perigo quando escrevem:
Existe [...] uma liberdade ilimitada para a fantasia, basta que se aceite o princípio, e a única base da exposição encontra-se na mente do expositor.
O esquema não pode produzir nenhuma interpretação propriamente denominada, embora algumas verdades valiosas possam ser ilustradas. ( Angus & Green, loc. cit.)
2. A citação anterior deixa prever, também, um segundo grande perigo no método alegórico: a autoridade básica da interpretação deixa de ser a Bíblia e passa a ser a mente do intérprete. A interpretação pode então ser distorcida pelas posições doutrinárias do intérprete, pela autoridade da igreja à qual ele pertence, por seu ambiente social e por sua formação ou por uma enormidade de fatores. Jerônimo
... reclama que o estilo mais errôneo de ensino é corromper o sentido das Escrituras e arrastar sua expressão relutante para nossa própria vontade, produzindo mistérios bíblicos a partir de nossa própria imaginação.( Ap. F. W. Farrar, History of interpretation, p. 232.)
Farrar acrescenta:

... Quando o princípio da alegoria é aceito, quando começamos a demonstrar que passagens e livros inteiros da Escritura dizem algo que não querem dizer, o leitor é entregue de mãos amarradas aos caprichos do interprete (Ibid., p. 238.).


3. Um terceiro grande perigo do método alegórico é que não há meios de provar as conclusões do intérprete. Ramm, citado anterior­mente, afirma:

Ele não pode estar seguro de coisa alguma, exceto do que lhe for ditado pela igreja, e em todas as eras a autoridade da "igreja" tem sido falsamen­te reivindicada pela presunçosa tirania das falsas opiniões dominantes. (Ibid)


E acrescenta:

... afirmar que o principal significado da Bíblia é um sentido secundário e que o principal método de interpretação é a "espiritualização" é abrir a porta a imaginação e especulação praticamente desenfreadas. Por essa razão, insistimos em que o controle na interpretação se encontra no méto­do literal.( Ramm, op. cit, p. 65.)


Que esses perigos existem e que o método alegórico de interpreta­ção é usado para perverter as Escrituras é reconhecido por Allis, ele pró­prio defensor do método alegórico no campo da escatologia, quando diz:
Se a interpretação figurada ou "espiritual" de determinada passagem é justificada ou não depende somente de ela fornecer ou não o sentido ver­dadeiro. Se for usada para esvaziar as palavras de seu sentido claro e óbvio, privando-as de sua intenção clara, então alegorização ou espiritualização são termos de pejoração bastante merecida. (Allis, op. cit, p. 18)

Assim, os grandes perigos inerentes a esse sistema são a elimina­ção da autoridade das Escrituras, a falta de bases pelas quais averiguar as interpretações, a redução das Escrituras ao que parece razoável ao intérprete e, por conseguinte, a impossibilidade de uma interpretação verdadeira das Escrituras.


C. O uso da alegoria no Novo Testamento. Para justificar o uso do método alegórico, freqüentemente se argumenta que o próprio Novo Testamento o emprega, por isso, só pode tratar-se de um método justi­ficável de interpretação.
1. Em primeiro lugar, faz se referência a Gálatas 4.21 31, em que o próprio Paulo teria usado o método alegórico. Quanto a esse suposto emprego da alegoria, Farrar observa:

... alegoria que de alguma forma se assemelhe às de Filo, ou à dos pais, ou à dos escolásticos, só consigo encontrar uma no Novo Testamento [Gl 4.21-31]. Ela pode ter sido usada por Paulo como simples argumento ad hominem; não é, de maneira alguma, essencial ao argumento; não tem uma partícula de força demonstrativa e, além de tudo, deixa intocada a história real. No entanto, seja qual for nossa opinião sobre a passagem, a ocorrência de uma alegoria na epístola de Paulo não sanciona a aplicação universal do método, assim como umas poucas alusões neotestamentárias a Hagada [*Conjunto de tradições narrativas e interpretativas judaicas, algumas delas lendárias, associadas às narrativas do Antigo Testamento. (N. do T.)] não nos obrigam a aceitar todos os Midrashim [** Interpretações rabínicas em que sentidos secundários e esotéricos eram propostos para passagens do Antigo Testamento. (N. do T.)] rabínicos, nem umas poucas citações de poetas gregos provam a autoridade divina dos escritos pagãos... (Farrar, op. cit., p. xxiii)


Gilbert, seguindo a mesma linha, conclui:
Uma vez que Paulo explicou alegoricamente um acontecimento histórico do Antigo Testamento, parece provável que aceitasse a possibilidade de aplicar em outros lugares o princípio da alegoria; no entanto, o fato de suas cartas não mostrarem nenhuma outra ilustração inconfundível de alegoria mostra que ele não sentiu que fosse cabível desenvolver o sentido alegórico das Escrituras, ou, o que é mais provável, que em geral ele ficava mais satisfeito em oferecer a seus leitores o sentido original simples do texto. (George H. Gilbert, The interpretation of the Bible, p. 82)
Com respeito ao uso do método por outros autores do Novo Testamento, Farrar conclui:
A melhor teoria judaica, purificada no cristianismo, toma literalmente os ensinos da velha dispensação, mas vê neles, como Paulo, a sombra e o germe de desenvolvimentos futuros. A alegoria, embora usada uma vez por Paulo a título de ilustração passageira, é desconhecida de outros apóstolos e jamais sancionada por Cristo. (Farrar, op. cit., p. 217.)
Devemos observar cuidadosamente que em Gálatas 4.21-31 Paulo não está usando o método alegórico de interpretação do Antigo Testa-mento, mas está explicando uma alegoria. São duas coisas completa­mente diferentes. As Escrituras estão repletas de alegorias, sejam tipos, sejam símbolos, sejam parábolas. Esses são meios aceitos e legítimos de comunicar o pensamento. Não exigem um método alegórico de inter­pretação, que negaria o antecedente literal e histórico e usaria a alego­ria apenas como trampolim para a imaginação do intérprete. Antes, exigem um tipo especial de hermenêutica que será considerado posteriormente. O uso de alegorias, entretanto, não é justificativa para o uso do método alegórico de interpretação. Conclui-se que o uso do Antigo Testamento em Gálatas seria um exemplo de alegoria e não justificaria a aplicação universal do método alegórico a toda a Escritura.
2. O segundo argumento para justificar o método alegórico é o uso que o Novo Testamento faz de tipos. Sabe-se que o Novo Testamento faz uma aplicação tipológica do Antigo. Com base nisso, argumenta-se que o Novo Testamento emprega o método alegórico de interpretação, afirmando-se que a interpretação e o uso de tipos constituem o método alegórico de interpretação. Allis argumenta:

Embora os dispensacionalistas sejam literalistas extremados, são também incoerentes. São literalistas ao interpretar profecia. Na interpretação da história, todavia, levam o princípio de tipificação a um extremo que rara­mente foi alcançado sequer pelo mais ardente alegorista.( Allis, op. cit., p. 21)


Em resposta à acusação de que interpretar tipos é utilizar o méto­do alegórico, devemos enfatizar que a interpretação de tipos não é a mesma coisa que a interpretação alegórica. A eficácia do tipo depende da interpretação literal do antecedente literal. Para comunicar verda­des no campo espiritual, com o qual não estamos familiarizados, é pre­ciso haver instrução em um campo que conheçamos, de modo que, por meio da transferência de algo literalmente verdadeiro neste campo, pos­samos aprender o que é verdadeiro no campo anterior. E necessário haver um paralelismo literal entre o tipo e o antítipo para que o tipo tenha algum valor. Quem alegoriza o tipo jamais chegará à verdadeira interpretação. A única maneira de discernir o significado do tipo é pela transferência de idéias literais do campo natural para o espiritual. Chafer escreve corretamente:
No estudo de alegorias de várias espécies ou seja, parábolas, tipos e sim-bolos, o intérprete precisa ser cuidadoso para não tratar declarações claras das Escrituras segundo o que se exige da linguagem característica das expressões figuradas. Uma verdade já expressa merece ser repelida nesta altura: há toda a diferença do mundo entre interpretar uma alegoria das Escrituras, de um lado, e alegorizar uma passagem literal, de outro. (Rollin T. Chafer, The science of biblical hermeneutics, p. 80.)

Conclui-se, assim, que o uso de tipos nas Escrituras não sanciona o método alegórico de interpretação.



II. O Método Literal

Em oposição direta ao método alegórico de interpretação encontra-se o método literal ou histórico-gramatical.


A. A definição do método literal. O método literal de interpretação é o que dá a cada palavra o mesmo sentido básico e exato que teria no uso costumeiro, normal, cotidiano, empregada de modo escrito, oral ou conceitual. (Ramm, op. cit., p. 53) Chama-se método histórico-gramatical para ressaltar o conceito de que o sentido deve ser apurado mediante considerações históricas e gramaticais.( Cf. Thomas Hartwell Horne, An introduction to the critical study and knowledge of the Holy Scriptures, I, 322.)

Ramm define o método da seguinte forma:


O significado costumeiro e socialmente reconhecido de uma palavra é o sentido literal dessa palavra.
O sentido "literal" de uma palavra é o seu significado básico, costumeiro, social. O sentido espiritual ou oculto de uma palavra ou expressão é o que deriva do significado literal e dele depende para sua existência.

Interpretar literalmente significa nada mais, nada menos que interpretar sob o aspecto do significado normal, costumeiro. Quando o manuscrito altera seu significado, o intérprete imediatamente altera seu método de interpretação. (Ramm, op. cit., p. 64)


B. As evidências a favor do método literal. Podem-se apresentar fortes evidências em apoio ao método literal de interpretação. Ramm apo­senta um resumo abrangente. Ele diz:
Em defesa da abordagem literal, podemos sustentar que

a) O sentido literal das frases é a abordagem normal em todas as línguas [...]

b) Todos os sentidos secundários de documentos, parábolas, tipos, alegorias e símbolos dependem, para sua própria existência, do sentido literal prévio dos termos [...]

c) A maior parte da Bíblia tem sentido satisfatório se interpretada literalmente.

d) A abordagem literalista não elimina cegamente as figuras de lin­guagem, os símbolos, as alegorias e os tipos; no entanto, se a natureza das frases assim exigir, ela se presta prontamente ao segundo sentido.

e) Esse método é o único freio sadio e seguro para a imaginação do homem.

f) Esse método é o único que se coaduna com a natureza da inspira­ção. A inspiração completa das Escrituras ensina que o Espírito Santo guiou homens à verdade e os afastou do erro. Nesse processo, o Espírito de Deus usou a linguagem, e as unidades de linguagem (como sentido, não como som) são palavras e pensamentos. O pensamento é o fio que une as palavras. Portanto, nossa própria exegese precisa começar com um estudo de palavras e de gramática, os dois elementos fundamentais de toda linguagem significativa. (Ibid., p. 54ss)
Visto que Deus concedeu Sua Palavra como revelação ao homem, teria de esperar que Sua revelação fosse dada de forma tão exata e específica que Seus pensamentos pudessem ser comunicados e entendidos corretamente quando interpretados segundo as leis da linguagem da gramática. Tomada como evidência, essa pressuposição favorece a interpretação literal, pois um método alegórico de interpretação turva-ria o sentido da mensagem entregue por Deus ao homem. O fato de que as Escrituras continuamente remetem para interpretações literais e o que foi anteriormente escrito serve de prova adicional quanto ao método a ser empregado para interpretar a Palavra. Talvez uma das evidências mais fortes a favor do método literal seja o uso que o Novo Testamento faz do Antigo. Quando o Antigo Testamento é usado no Novo, só o é em sentido literal. Basta estudar as profecias que foram cumpridas na primeira vinda de Cristo —em Sua vida, em Seu ministério e em Sua morte— para comprovar esse fato. Nem uma profecia sequer, dentre as que se cumpriram plenamente, foi cumprida de outro modo que não o literal. (Cf. Feinberg, op. cit., p. 39) Embora possa ser citada uma profecia no Novo Testamento como prova de que certo acontecimento cumpre de modo parcial uma profecia (como em mt 2.17,18), ou para mostrar que um acontecimento está em harmonia com o plano preestabelecido de Deus (como em At 15), isso não torna necessário um cumprimento não literal nem nega um cumprimento completo no futuro, pois tais aplicações da profecia não exaurem o seu cumprimento. Portanto, essas referências à profecia não servem de argumentos a favor de um método não literal.

Com base nessas considerações, podemos concluir que há evidências de apoio à validade do método literal de interpretação. Outras evidências a favor do método literal serão apresentadas no estudo a seguir sobre a história da interpretação.


C. As vantagens do método literal. Há certas vantagens neste método que o tornam preferível em relação ao alegórico. Ramm resume algumas delas:
a) Baseia a interpretação em fatos. Procura estabelecer-se sobre dados objetivos — gramática, lógica, etimologia, história, geografia, arqueologia, teologia [...]

b) Exerce sobre a interpretação um controle semelhante ao que a experiência exerce sobre o método científico [...] a justificação é o controle das interpretações. Qualquer coisa que não se conforme aos cânones do método literal-cultural-crítico deve ser rejeitada ou vista com suspeita.

Além disso, esse método oferece a única fiscalização fidedigna para a constante ameaça de aplicar uma interpretação de duplo sentido às Es­crituras [...]

c) Tem obtido o maior sucesso na exposição da Palavra de Deus. A exegese não começou a sério até a igreja já ter mais de um milênio e meio de idade. Com o literalismo de Lutero e de Calvino, a luz da Escritura literalmente se acendeu [...] Esse é o aclamado método da alta tradição escolástica do protestantismo conservador. É o método de Bruce, Lightfoot, Zahn, A. T. Robertson, Ellicott, Machen, Cremer, Terry, Farrar, Lange, Green, Oehler, Schaff, Sampey, Wilson, Moule, Perowne, Henderson Broadus, Stuart — para citar apenas alguns exegetas típicos. (Ramm, op. cit, p. 62-3)


Além dessas vantagens, podemos acrescentar que d) nos fornece uma autoridade básica por meio da qual interpretações individuais podem ser postas a prova. O método alegórico, que depende da abordagem racionalista do intérprete ou da conformidade a um sistema teológico predeterminado, deixa-nos sem uma verificação autorizada por base. No método literal, uma passagem da Escritura pode ser comparada a outra, pois, como Palavra de Deus, tem autoridade e é o padrão pelo qual toda verdade deve ser testada.

Com respeito a isso, podemos observar que e) o método nos livra tanto da razão quanto do misticismo como requisitos da interpretação. Não é necessário depender de treinamento ou de capacidade intelectu­al, nem do desenvolvimento de percepção mística, e sim da compreen­são do que está escrito em sentido comumente aceito. Somente sobre esse fundamento o leitor médio pode compreender e interpretar as Es­crituras por si mesmo.


D. O método literal e a linguagem figurada. Todos reconhecem que a Bíblia está repleta de linguagem figurada. Com base nisso, muitas ve­zes afirma-se que o uso de linguagem figurada exige interpretação fi­gurada. Figuras de linguagem, no entanto, são usadas como meios de revelar verdades literais. O que é literalmente verdadeiro em determi­nado campo, com o qual estamos familiarizados, é transposto literal­mente para outro campo, com o qual talvez não estejamos tão familia­rizados, para nos ensinar alguma verdade nesse campo menos conhe­cido. Essa relação entre verdade literal e linguagem figurada é bem ilus­trada por Gigot:
Se as palavras são empregadas em seu significado natural e primitivo, o sentido que expressam é o seu sentido literal estrito. Por outro lado, se são empregadas com um significado figurado e derivado, o sentido, embora ainda literal, é geralmente chamado metafórico ou figurado. Por exemplo, quando lemos em João 1.6 "Houve um homem [...] cujo nome era João", é óbvio que os termos ali empregados são tomados estrita e fisicamente, pois o escritor fala de um homem real, cujo nome real era João. Por outro lado, quando João Batista, apontando para Jesus, disse: "Eis o Cordeiro de Deus" (Jo 1.29), também é claro que ele não usou a palavra "cordeiro" no mesmo sentido literal estrito que teria excluído toda metáfora ou figu­ra de linguagem e denotado um cordeiro real: o que ele queria imediata e diretamente comunicar, isto é, o sentido literal de suas palavras, é que no sentido derivado e figurado Jesus podia ser chamado "Cordeiro de Deus". No primeiro caso, as palavras foram usadas em sentido literal estrito; no segundo, em sentido metafórico ou figurado.

O fato de os livros das Sagradas Escrituras terem sentido literal (es­trito ou metafórico, conforme explicado), isto é, sentido imediata e direta­mente pretendido pelos escritores sacros, é uma verdade tão clara em si mesma e ao mesmo tempo tão universalmente aceita, que seria inútil in­sistir nela aqui [...] Será que alguma passagem das Sagradas Escrituras tem mais que um sentido literal? [...] todos admitem que, uma vez que os livros sagrados foram compostos por homens e para homens, seus autores naturalmente conformaram se à mais elementar regra dos relaciona-mentos humanos; que exige que apenas um sentido preciso seja imediata e diretamente pretendido pelas palavras de quem fala OU de quem escreve... (Francis E. Gigot, General introduction to the study of the Holy Scriptures, p. 386-7)



Craven afirma a mesma relação entre linguagem figurada o verdade literal:


Dentre os pares terminológicos escolhidos para designar as duas grandes escolas de exegetas proféticos, nenhum poderia ser mais infeliz que literal e espiritual. Esses termos não são antitéticos, nem retratam da maneira devida as peculiaridades dos respectivos sistemas para cuja caracterização são utilizados. São indiscutivelmente enganosos e tendenciosos. Literal não é antônimo de espiritual, mas de figurado; espiritual está em antítese, por um lado, a material e, por outro, a carnal (num mau sentido). O (chamado) literalista não é quem nega o uso na profecia de linguagem figurada ou de símbolos; tampouco nega que grandes verdades espirituais se-jam ali propostas; sua posição é, simplesmente, que as profecias devem ser interpretadas normalmente (i.e., de acordo com as leis aceitas da Linguagem) como quaisquer outros pronunciamentos —considerando-se como tal qualquer que seja manifestamente figurado. Aposição dos chamados espiritualistas não é o que se entende estritamente pelo termo Espiritualista é quem afirma que, embora certas partes das profecias devam ser normalmente interpretadas, outras devem ser consideradas portadoras de sentido místico (i.e., com algum significado secreto). Assim, por exemplo, os chamados espiritualistas não negam que, quando o Messias é descrito como "varão de dores e homem que sabe o que é padecer", a profecia deve ser normalmente interpretada; todavia, afirmam que, quando se diz que Ele "virá com as nuvens do céu", essa linguagem deve ser "espiritualmente" (misticamente) interpretada [...] Os termos que expres­sam estritamente essas duas escolas são normal e mística. (John Peter Lange, Commentary on the Holy Scriptures: Revelation, p. 98.)
Observar-se-á, assim, que o literalista não nega a existência de linguagem figurada. Ele nega, todavia, que tais figuras devam ser interpretadas de modo que destruam a verdade literal pretendida pelo emprego das figuras. A verdade literal deve ser informada por meio dos símbolos.
E. Algumas objeções ao método literal. Allis aponta três objeções ao método literal de interpretação:
1) A linguagem da Bíblia muitas vezes contém figuras de linguagem. É o caso sobretudo da poesia [...] Na poesia dos Salmos, no estilo elevado da profecia e mesmo na simples narrativa histórica, surgem figuras de lin­guagem que obviamente não tinham o propósito de ser entendidas lite­ralmente, e não podem sê-lo.

2) O grande tema da Bíblia é Deus e Seus atos redentores para com a humanidade. Deus é Espírito; os ensinos mais preciosos da Bíblia são es­pirituais, e essas realidades espirituais e celestiais são muitas vezes apre­sentadas sob a forma de objetos terrenos e relacionamentos humanos [...]

3) O fato de que o Antigo Testamento é ao mesmo tempo preliminar e preparatório ao Novo Testamento é tão óbvio que dispensa prova. Ao re­meter os crentes de Corinto, a título de advertência, aos acontecimentos do Êxodo, o apóstolo Paulo declarou que aquelas coisas lhes haviam sobrevindo como "exemplos" (tipos). Isto é, prefiguravam coisas por vir. Isso confe­re a muito do que está no Antigo Testamento significância e importância especiais [...] Tal interpretação reconhece, à luz do cumprimento no Novo Testamento, um sentido mais profundo e muito mais maravilhoso nas pa­lavras de muitas passagens do Antigo Testamento do que aquele que, to­madas em seus antecedentes veterotestamentários, elas parecem possuir. (Allis, op. cit, p. 17-8)

Em resposta ao primeiro desses argumentos, é necessário reconhe­cer o uso bíblico das figuras de linguagem. Como se ressaltou previa­mente, as figuras de linguagem podem ser usadas para ensinar verda­des literais de maneira mais vibrante que as palavras corriqueiras, mas nem por isso exigem interpretação alegórica. Com respeito ao segundo argumento, embora se reconheça que Deus é um ser espiritual, a única maneira pela qual Ele poderia revelar a verdade de um reino no qual ainda não entramos seria traçando um paralelo entre esse reino e o rei­no em que agora vivemos. Por meio da transferência de algo que é literalmente verdadeiro no reino conhecido para o reino desconhecido, este nos será revelado. O fato de Deus ser espiritual não exige interpre­tação alegórica. E preciso distinguir entre o que é espiritual e o que é espiritualizado. Por fim, com respeito à terceira objeção, embora se re­conheça que o Antigo Testamento é preditivo, e que o Novo desenvol­ve o Antigo, a plenitude não é revelada no Novo por meio da alegorização do que é tipificado no Antigo; é revelada, isto sim, pelo cumprimento literal e pelo desenvolvimento da verdade literal dos ti­pos. Estes podem ensinar verdade literal, e o uso de tipos no Antigo Testamento não serve de apoio para o método alegórico de interpreta­ção. Feinberg observa a propósito:


Os espiritualistas parecem pensar que, pelo fato de a revelação ter vindo gradativamente, quanto mais recentes forem a profecia ou o assunto re­velado, mais valiosos são. A revelação gradativa não tem nenhuma força na determinação do método de interpretação [...] Além do mais, uma in­terpretação correta de 2Coríntios 3.6 não afeta em nada nossa posição. Quando Paulo diz "a letra mata, mas o Espírito vivifica", não está autori­zando a interpretação espiritualizante das Escrituras. Se o literal mata, como é que Deus nos dá Sua mensagem em tal forma? O sentido preten­dido pelo apóstolo evidentemente é que a mera aceitação da letra, sem a obra do Espírito Santo a ela relacionada, conduz à morte. (Feinberg, op. cit., p. 50.)




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