Manual de Escatologia



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II. A Identidade da "Mulher" de Apocalipse 12

É essencial esclarecer um aspecto da revelação profética ao lidar com Israel na tribulação: a identidade da "mulher" de Apocalipse 12. A tônica principal de Apocalipse 11.19-20.15 é o ataque de Satanás contra o povo com quem Deus está lidando naquela época. Esse ataque apare­ce no capítulo 13 por meio das bestas, que oferecem um falso Messias e um falso cumprimento da aliança de Abraão. Aparece nos capítulos 17 e 18 por meio de um sistema religioso apóstata, que afirma falsamente ser o reino de Deus. Aparece no capítulo 19 por meio da aliança das nações formada contra esse povo e seu Rei, e que o Senhor destrói na Sua vinda. Já que o movimento principal nessa passagem de Apocalipse é contrário a quem o capítulo 12 cita como a mulher, é importante iden­tificar a personagem que ocupa tão importante lugar no livro.

Apocalipse 12 concentra-se em três personagens. Isso nos ajudará a identificar a mulher, o que é facilitado pelo próprio contexto.
A. Um grande dragão vermelho. O versículo 9 identifica com clareza essa personagem. Ela é ninguém menos que Satanás. O capítulo 20, versículo 2, confirma a identificação. Satanás é revelado claramente como autor e instigador dos ataques contra o povo de Deus aqui des­crito no livro. Scott observa bem:

Por que o dragão é usado como símbolo de Satanás? Faraó, rei do Egito, na sua crueldade contra o povo de Deus e na sua independência orgulho­sa e arrogante de Deus, é denominado "o grande dragão" (Ez 29.3,4). Nabucodonosor é mencionado da mesma forma em relação à sua violên­cia e crueldade (Jr 51.34). Juntando as várias referências bíblicas no Livro de Salmos e nos três primeiros grandes profetas ao crocodilo, o soberano dos mares, identificado com o dragão, a característica principal parece ser crueldade insaciável.

Os egípcios consideravam o crocodilo ou o dra­gão, de acordo com seus hieróglifos, a fonte e o autor de todo mal, adora­do pelo nome de Typho. A cor do dragão, vermelho, indica seu caráter sanguinário e assassino. Essa é a primeira vez nas Escrituras que Satanás é mencionado diretamente como um dragão. Os monarcas pagãos, Faraó e Nabucodonosor, escravizaram e oprimiram o povo de Deus e, agindo pelo poder satânico, mereceram a denominação de dragão. Mas, no perío­do tratado no nosso capítulo, Satanás é o príncipe do mundo — seu go­vernador. O poder romano é o instrumento por meio do qual ele age. Logo, o título "grande dragão vermelho" pode agora pela primeira vez ser usado por ele. (Walter Scott, Exposition of the revelation of Jesus Christ, p. 249-50)
O dragão aparece com sete cabeças, dez chifres e sete coroas nas cabeças (Ap 12.3), que são as mesmas que a besta possui nos capítulos 13 e 17. Afirma-se claramente em 13.2 que esse indivíduo recebe sua autoridade de Satanás. Isso nos mostra que Satanás está buscando uma autoridade governamental sobre o "remanescente" da mulher (12.7), cuja autoridade pertence, por direito, ao próprio Cristo.
B. Um filho varão. A citação do salmo 2, que todos concordam ser um salmo messiânico, identifica o filho aqui com ninguém menos que Jesus Cristo. O fato do nascimento, o fato do destino desse filho, pois Ele "há de reger todas as nações com cetro de ferro", e o fato da ascen­são, já que ele é "arrebatado para Deus até ao seu trono", todos levam à identificação de uma pessoa, o Senhor Jesus Cristo, pois todas as três afirmações não poderiam ser feitas a respeito de ninguém mais.
C Uma mulher vestida do sol. Embora haja um acordo geral entre comentaristas de todas as tendências com relação à identidade dos dois indivíduos mencionados anteriormente, há grande diversidade de in­terpretações com relação à personagem principal dessa passagem.

1. Existiram muitas falsas interpretações da identidade dessa mulher. Alguns crêem que ela era Maria. No entanto, a única característica que tornaria isso possível seria a maternidade, pois Maria jamais foi persegui­da, jamais fugiu para o deserto, jamais foi cuidada por 1260 dias. (Cf. F. C. Jennings, Studies in Revelation, p. 310-1) Outros acreditavam que essa mulher fosse a igreja que está trabalhando para tra­zer Cristo às nações.(Cf. Ford C. Ottman, The unfolding of the ages, p. 280) Isso, no entanto, baseia-se no princípio alegorizador de interpretação e deve ser rejeitado. A igreja não produziu Cristo, mas Cristo produziu a igreja. Já que a igreja não é vista na terra nos capítulos de 4 a 19 de Apocalipse, ela não pode ser representada por essa mulher. Ou­tros identificaram a mulher como o líder de alguma denominação especí­fica. Mas somente pelos devaneios mais loucos da imaginação é que al­gum indivíduo seria levado a fazer essa interpretação hoje.

2. A interpretação dos pré-milenaristas dispensacionalistas tem sido que a mulher nessa passagem representa a nação de Israel. Há várias considerações que apóiam essa interpretação.

a. O contexto inteiro da passagem revela que João está lidando com a nação de Israel. Gaebelein escreve:

Apocalipse, capítulos de 11 a 14, leva-nos profeticamente a Israel, à terra de Israel e à tribulação final de Israel, ao tempo da angústia de Jacó e à salva­ção do remanescente fiel. O cenário do capítulo 11 é "a grande cidade que, espiritualmente, se chama Sodoma e Egito, onde também o seu Senhor foi crucificado". Aquela cidade não é Roma, mas Jerusalém. O capítulo 12 co­meça uma profecia conectada, terminando com o capítulo 14. (Gaebelein, loc. cit)


Grant comenta sobre Apocalipse 11.19: "A arca, então, vista no templo no céu, é o sinal da graça não esquecida de Deus para com Israel [...] ". (F. W. Grant, The revelation of Christ, p. 126) Logo, o contexto dessa passagem mostra que Deus está lidando com Israel novamente. (Cf. Ottman, op. cit., p. 278-9.)
b. Muitas vezes no Antigo Testamento, o sol, a lua e as estrelas são usados com referência a Israel. (Cf. Ibid., p. 282) São empregados dessa maneira em Gênesis 37.9, em que os filhos de Jacó são claramente entendidos. Compare Jeremias 31.35,36, Josué 10.12-14, Juizes 5.20 e Salmos 89.35-37, em que corpos celestiais são associados à história de Israel.
c. O significado do número doze. O número doze não só represen­ta as doze tribos de Israel, mas é usado nas Escrituras como número governamental.(Cf. Jennings, op. cit., p. 312) Darby diz:

... após a questão da salvação pessoal ou do relacionamento com Deus, dois grandes temas se apresentam nas Escrituras: a igreja, aquela graça soberana que nos dá um lugar junto ao próprio Cristo na glória e na bên­ção; e o governo de Deus do mundo, do qual Israel forma o centro e a esfera imediata. (Willíam Kelly, org. The collected writings of J. N. Darby, Prophetical, Xi, p. 190)


Visto então que a mulher representa aquilo que deverá demonstrar o governo divino na terra, e Israel é o instrumento escolhido por Deus para esse fim, essa mulher deve ser identificada como Israel.
d. O uso do termo mulher. O termo mulher é usado oito vezes nesse capítulo, e mais oito vezes o pronome ela é empregado em referência à mulher. Vemos esse termo usado muitas vezes no Antigo Testamento, em referência à nação de Israel. É usado dessa maneira em Isaías 47.7-9; 54.5,6; Jeremias 4.31; Miquéias 4.9, 10; 5.3 e Isaías 66.7,8. Enquanto a igreja é chamada noiva, ou virgem casta, jamais a encontramos aludida como mulher.
e. O nome do adversário. O nome dragão é usado em todo o Antigo Testamento em referência a algum adversário específico da nação de Israel. O nome deve ser aplicado a Satanás nesse capítulo porque todos os outros perseguidores que levaram o nome de dragão eram apenas prenúncios da grande perseguição que está por vir por meio de Sata­nás. O uso do nome dragão em referência ao perseguidor identificaria o perseguido como Israel, com base nos empregos anteriores na Palavra de Deus.
f. O uso do termo deserto. O deserto é aludido como lugar de refú­gio dado à mulher na sua fuga (Ap 12.14). Não podemos negar que o deserto tem referência singular a Israel na história nacional. Israel foi levado ao "deserto da terra do Egito" (Ez 20.36). Israel, recusando-se a seguir o Senhor na terra prometida, retornou ao deserto por quarenta anos. A descrença de Israel levou Ezequiel a declarar o propósito de Deus: "Levar-vos-ei ao deserto dos povos e ali entrarei em juízo convosco, face a face" (Ez 20.35). Oséias revela que, no longo período em que Israel passaria "no deserto", Deus seria misericordioso com eles (Os 2.14-23). (Cf. W. C. Stevens, Revelation, crown-jewel of prophecy, n, p. 212-3)
g. O filho varão. O paralelismo entre Apocalipse 12 e Miquéias 5 ajuda a identificar a mulher como Israel. Miquéias 5.2 registra o nasci­mento do rei. Por causa da rejeição desse rei, a nação será deixada de lado ("Portanto, o Senhor os entregará", Mq 5.3). A nação estará em dores de parto "até ao tempo em que a que está em dores tiver dado à luz" (Mq 5.3), isto é, até o cumprimento do propósito de Deus. O mes­mo plano é apresentado em Apocalipse 12. Kelly escreve que essa pro­fecia deve ser entendida

... junto com o cumprimento do propósito de Deus em relação a Israel [...] Cristo nasceu (Mq 5.2): daí vem a Sua rejeição [...] a profecia deixa de lado tudo o que se relaciona à igreja e retoma o nascimento de Cristo figuradamente, ligando-o ao desenrolar do propósito divino, simboliza­do por um nascimento [...] Aqui ele é colocado figuradamente, como Sião em trabalho de parto até o nascimento desse grande propósito de Deus relativo a Israel [...] quando o propósito terreno de Deus começa a entrar em ação nos últimos dias, o remanescente daquele período fará parte de Israel e tomará seu antigo lugar judeu. Os ramos naturais serão enxertados em sua própria oliveira. (William Kelly, Lectures on the revelation, p. 254-7)


h. A afirmação específica das Escrituras. Em Romanos 9.4,5 Paulo escreve com relação aos israelitas: "deles descende o Cristo, segundo a carne" (Rm 9.5). Já que "o filho varão" pode ser identificado com certe­za, e já que aquela que dá a luz o filho varão é denominada Israel, a mulher deve ser identificada como Israel. (Cf. Otiman, loc. cit)
i. Os 1 260 dias. Duas vezes nessa passagem há menção ao período de três anos e meio (Ap 12.6,14). Isso se refere à última metade da se­mana das profecias da septuagésima semana de Daniel (Dn 9.24-27). Essa profecia é declarada especificamente "sobre o teu povo e sobre a tua santa cidade" (Dn 9.24). Visto que ela é declarada a Daniel, só poderia referir-se a Israel e a Jerusalém. Cada vez que esse período é mencio­nado nas Escrituras, ou como 1 260 dias, ou 42 meses, ou três anos e meio, ou um tempo, dois tempos e metade dum tempo, sempre se refe­re a Israel e a um período em que Deus está lidando com aquela nação.
j. A referência a Miguel. Em Daniel 12.1 o anjo Miguel é chamado "o grande príncipe, o defensor dos filhos do teu povo". Miguel está unido com o destino da nação de Israel por essa palavra do Senhor a Daniel. Em Apocalipse 12.7 Miguel aparece novamente com referência à peleja no céu. O fato de que Miguel surge em cena mostra que Deus está lidando novamente com a nação de Israel, e Miguel é um ator aqui porque o destino de Israel está em jogo.

À vista dessas coisas, a conclusão de Moorehead é justificada. Ele escreve:

Em 11.19 lemos: "Abriu-se, então, o santuário de Deus, que se acha no céu, e foi vista a arca da Aliança no seu santuário". Isso é assunto estrita­mente judeu; o templo, a arca, a aliança pertencem a Israel, representam os relacionamentos hebraicos com Deus e os privilégios hebraicos. O Es­pírito agora trata de coisas judaicas — posição, aliança, esperanças, peri­gos, tribulações e triunfo hebraico. (William G. Moorehead, Studies in the Book of Revelation, p. 90)
A mulher não pode ser ninguém senão Israel, com quem Deus firmou Suas alianças, e a quem esses alianças serão cumpridas.

III. O Remanescente do Período Tribulacional

Até a atual controvérsia escatológica, escritores proféticos estavam de acordo geral com relação à existência, natureza, missão e preserva­ção de um remanescente de Israel durante o período tribulacional. (Cf. Kelly, org., Collected writings of J. N. Darby, Prophetical, Xi, p. 182-204) Atualmente a doutrina do remanescente está sendo atacada pelos amilenaristas, (Oswald T. Allis, Prophecy and the church. Cf. "Index", Jewish remnant, em que são citadas dez passagens em que essa doutrina é atacada) que não podem admitir a existência do remanescente, já que afirmam que a igreja está cumprindo as alianças e nenhum outro cumprimento é possível.

Essa doutrina também está sendo atacada pelos defensores do arrebatamento pós-tribulacional, (Alexander Reese, The approachíng advent of Christ. Cf. "Index", Jews, the Remnant, em que onze passagens são dedicadas ao ataque dessa doutrina) que não podem admitir a existência do remanescente, pois afirmam que a igreja passará pela tribulação para ser o remanescente que dá testemunho de Cristo. Embora por razões diferentes, os amilenaristas e os defensores do arre­batamento pós-tribulacional se dão as mãos ao atacar essa doutrina.
A. O caráter indispensável do remanescente. A existência de um rema­nescente nos últimos dias está ligada inseparavelmente às alianças de Deus com a nação de Israel. Já que essas alianças são incondicionais, sua própria natureza exige a existência de um remanescente ao qual e por meio do qual elas possam ser cumpridas.
1. A aliança abraâmica. A aliança feita por Deus com Abraão é bá­sica para toda a questão profética. Incondicionalmente afirmada e con­firmada por Deus (Gn 12.1-3; 13.14-17; 15.4-21; 17.1-8; 22.17-18), ela con­tém promessas divinas de dar a Abraão uma terra, uma descendência e uma bênção, que seriam universais e eternas. Essa aliança, então, requer um remanescente para ser a descendência prometida, ocupar a terra e receber a bênção prometida.
2. A aliança palestina. Essa aliança estabelecida por Deus (Dt 30.1-9; Jr 32.36-44; Ez 11.16-21; 36.21-38) dá o fundamento sobre o qual Israel ocupará a terra dada à descendência de Abraão na aliança abraâmica. Ela torna imperativa a existência de um remanescente para receber a promessa da terra.
3. A aliança davídica. Essa aliança, também incondicionalmente declarada por Deus (2Sm 7.10-16; Jr 33.20,21; Sl 89), promete um rei, um reino e um trono à descendência de Abraão. Ela promete um reino eter­no, terreno, sobre o qual o filho de Davi reinaria. Da mesma forma, cria a necessidade de um remanescente no qual as promessas da aliança davídica possam ser cumpridas.

4. A nova aliança. A quarta aliança, declarada incondicionalmente por Deus a Israel (Jr 31.31-34; Ez 16.60; Is 59.20-21; Os 2.14-23), promete a restauração de Israel como nação, o perdão dos pecados, a purifica­ção do coração e a implantação de um coração novo com base na rege­neração. Para que essas promessas sejam cumpridas — e elas são neces­sárias antes que as promessas contidas nas outras alianças possam ser plenamente realizadas — deve existir um remanescente da nação com o qual Deus possa cumprir a Sua palavra.


5. O caráter de Deus. Já que Deus fez essas promessas solenes à nação de Israel, o próprio caráter de Deus está em jogo no seu cumpri­mento. Deus seria um mentiroso se o que Ele prometeu não se cum­prisse como prometido. A integridade de Deus, então, torna necessária a existência de um remanescente.

B. O remanescente na história de Israel. Até mesmo uma investigação superficial da história registrada de Israel estabelecerá o princípio de que Deus lidou com um remanescente fiel dentro da nação. Calebe e Josué (Nm 13 e 14), Débora e Baraque (Jz 4), Gideão (Jz 7), Sansão 0z 13-17), Samuel (I Sm 2), os levitas na época de Jeroboão (2Cr 11.14-16), Asa (2Cr 15.9), os sete mil fiéis nos dias de Elias ( l Rs 19.18), todos ilus­tram esse fato. Com relação à existência do remanescente durante a história antiga de Israel, Gaebelein afirma:

O Senhor tinha um remanescente, um representante fiel, entre Seu povo mesmo durante sua grande apostasia. Essa é a idéia e o argumento aqui. A apostasia de Israel jamais é completa apostasia. O Senhor sempre tem um remanescente fiel a Ele e às alianças formadas. (Arno C. Gaebelein, Hath God cast away his people?, p. 21-2)

Deus preservou para Si um remanescente fiel, crente, como testemu­nha nas épocas de apostasia, perseguição e indiferença.
C. O remanescente nos profetas. Seria impossível citar todas as refe­rências ao remanescente nos livros proféticos. Algumas passagens se­rão mencionadas para mostrar a importância do assunto na revelação profética. Isaías fala dele em 1.9; 4.3,4; 6.12,13; 10.21; 26.20; 49.6; 51.1; 65.13,14. Capítulos inteiros, como o 26, o 33, o 35 e o 65, são dedicados ao tema. Jeremias segue o mesmo enfoque em passagens como 15.11; 33.25,26 e 44.28. A passagem inteira dos capítulos de 30 a 33 está base­ada na existência do remanescente. Ezequiel menciona o assunto em referências como 14.22,20.34-38 e 37.21-22. O tema aparece novamen­te nos outros profetas: Oséias 3.5; Amós 9.11-15; Zacarias 13.8,9; Malaquias 3.16,17. Essas referências justificam a conclusão de Darby, que declara:

Examinei em detalhes essas profecias para que o leitor possa ver claramen­te que a doutrina de um remanescente judeu [...] um remanescente santo e que espera em Jeová antes de Seu aparecimento para libertá-los e cuja san­tidade e confiança pertencem a Ele —não é uma questão de especulação, nem da interpretação de algum texto difícil ou obscuro; mas do testemu­nho claro, consistente, impressionante e proeminente do Espírito de Deus. (Kelly, org, op. cit., p. 204. O leitor deve consultar as páginas 179-204 quanto a um tratamento mais aprofundado das profecias de Isaías que lidam com o remanescente)


D. O remanescente no Novo Testamento. No Novo Testamento há um núcleo que crê e espera, ao qual as promessas do Antigo Testamento são reafirmadas. Tal núcleo se compunha de Zacarias e Isabel (Lc 1.6), João Batista (Lc 3), Maria e José (Lc 1 e Mt 1 e 2), Simeão (Lc 2.25) e os discípulos. Eles constituem um remanescente dentro do remanescente de Israel, um grupo crente dentro da nação preservada. O ministério terreno do Senhor, desde a época de Sua apresentação por João até Sua rejeição pela nação, foi confirmado somente àquela nação. O reino ofe­recido por João, por Cristo, pelos doze e pelas setenta testemunhas en­viadas por Ele era dedicado apenas a Israel. Deve ser observado o prin­cípio de que, durante toda a vida terrena de Cristo, Deus lidava com o remanescente daquela época.

Desde a rejeição de Cristo por Israel até o dia em que Deus, mais uma vez, lidar especificamente com Israel na septuagésima semana, não é possível fazer referência a um remanescente da nação de Israel. No corpo de Cristo desaparecem todas as distinções nacionais. Todos os judeus salvos não são salvos para um relacionamento nacional, mas para um relacionamento com Cristo no corpo dos crentes. Logo, não há um remanescente contínuo de Israel com o qual Deus esteja lidando nacionalmente hoje.

Com base em Romanos 11.5 —"Assim, pois, também agora, no tempo de hoje, sobrevive um remanescente segundo a eleição da gra­ça"— alguns sustentam que a igreja se torna o remanescente e será a testemunha na qual e por meio da qual as promessas de Deus são cum­pridas para um Israel "espiritual". Os contrastes entre a igreja e Israel, o conceito da igreja como um mistério, o relacionamento distinto da igreja com Cristo e o propósito específico para a igreja tornam tal inter­pretação impossível. A expectativa do Novo Testamento, então, é que:

... ainda haverá um remanescente judeu, uma testemunha forte e podero­sa de que Deus não abandonou Seu povo. Esse futuro remanescente de hebreus crentes será chamado logo que a igreja estiver completa e for arrebatada da terra. Esse remanescente a ser chamado pela graça corresponde ao remanescente no começo desta era. (Gaebelein, op. cit., p. 28)


E. O remanescente no Apocalipse. Paulo declara em Romanos 11.25 que a cegueira de Israel é uma cegueira temporária. Pelo fato de a na­ção estar cega agora, Deus não pode ter um remanescente dentro da nação com o qual as alianças serão cumpridas. Romanos 11.26,27 afirma:

E, assim, todo o Israel será salvo, como está escrito: Virá de Sião o Liberta­dor e ele apartará de Jacó as impiedades. Esta é a minha aliança com eles, quando eu tirar os seus pecados.


Paulo disse anteriormente (Rm 9.6) que Deus não considera toda a des­cendência física de Abraão como descendentes, mas que as promessas são para os que estão na fé. Logo entendemos que "todo o Israel" em Romanos 11.26 refere-se a esse remanescente fiel, os judeus crentes por ocasião do segundo advento de Cristo. O livro profético do Novo Tes­tamento apresenta um desenvolvimento e uma conclusão ao ensino sobre o remanescente.
1. A existência do remanescente. Quando Satanás é expulso do céu (Ap 12.13), deseja derramar sua vingança sobre o grupo com quem Deus está tratando especificamente. Já que a igreja não está na terra, ele ataca a nação de Israel. Torna-se necessário que essa nação, reunida de volta na terra, mas ainda incrédula (Ez 37.8), fuja para escapar do ataque de Satanás (Ap 12.13-17). Logo, vemos que tal remanescente realmente existe no período tribulacional. É esse o remanescente que Deus está preparando para o cumprimento de todas as alianças e promessas de Israel.
2. O status desse remanescente. Quando a nação de Israel é trazida de volta à terra após o arrebatamento da igreja, com base na aliança realizada pelo líder do Império Romano redivivo (Dn 9.27), ainda está descrente. Deus, no entanto, está sem dúvida disposto a trazê-la à sal­vação. Toda a septuagésima semana de Daniel é um período de prepa­ração para a vinda do Rei. O evangelho do reino, que exige arrependi­mento, está sendo pregado. Há uma recepção dessa mensagem. Deus usa muitos meios diferentes para trazer "todo o Israel" à salvação du­rante a septuagésima semana. A Palavra de Deus está disponível e pode ser usada para que aqueles judeus que estão famintos e sedentos a exa­minem e cheguem ao conhecimento de Cristo. O Espírito Santo, mes­mo não habitando um templo como faz na presente era, estará no en­tanto ativo e fará um trabalho de convicção e de iluminação. Sinais serão dados para mostrar a Israel o conhecimento de Jeová. Um desses sinais é a destruição do rei do Norte (Ez 39.21-29). Haverá o ministério dos 144 mil selados de Israel (Ap 7) e o ministério das duas testemu­nhas (Ap 11), tudo com a intenção de levar a nação ao arrependimento e à salvação. O derramamento da ira de Deus é apresentado como um processo que tem por finalidade conduzir os homens ao arrependimento (Ap 16.9,10). Embora a maioria não se arrependa, alguns poderão vol­tar-se a Jeová por meio desses sinais.

Conclui-se então que a nação, não-salva no começo da tribulação, recebe uma multidão de testemunhas de vários tipos; alguns indivíduos experimentam a salvação durante o período, e a nação será salva final­mente no segundo advento (Rm 11.26,27). O fato de que os irmãos, mencionados em Apocalipse 12.10,11, vencem pelo sangue do Cordei­ro e pela palavra de seu testemunho indica que muitos serão salvos durante o período tribulacional.


3. Os meios de salvação do remanescente. Allis faz a pergunta:

A difícil pergunta suscitada por essa doutrina dispensacionalista é obvia­mente: Como esse grande corpo [...] de redimidos aparece? De acordo com Darby e com Scofield, toda a igreja foi arrebatada, o Espírito Santo, que eles acreditam ser "o detentor" (2 Ts 2.6), foi retirado. Como então os santos do período tribulacional serão salvos? (Allis, op. cit., p. 224.)


Essa pergunta foi já foi minuciosamente examinada. É suficiente apre­sentar a conclusão de que o detentor é o Espírito Santo e que será tira­do, porém devemos reconhecer que o Espírito é onipresente. Ele cessa­rá Seu ministério específico de habitação do corpo de Cristo, mas isso não significa que fique inativo. Antes do Pentecostes, o Senhor disse a Nicodemos que um homem deve nascer de novo pelo Espírito (Jo 3.5,6). Se era possível alguém experimentar o novo nascimento antes de o Es­pírito Santo começar a habitar o corpo de Cristo, certamente alguém poderá fazer isso após Ele cessar esse ministério específico. Devemos lembrar que o ministério de habitação está relacionado à capacitação dos crentes no crescimento cristão, não ao método ou ao meio de salva­ção.

Mateus 24.14 deixa claro que o evangelho pregado será o "evange­lho do reino". O que geralmente se despreza é o fato de que, na procla­mação feita por João Batista sobre o "evangelho do reino", havia dois lados distintos de sua mensagem: "Arrependei-vos, porque está próxi­mo o reino dos céus" (Mt 3.2) e "Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo" (Jo 1.29). Apocalipse deixa claro que a salvação é por meio do sangue do Cordeiro:

Eles, pois, o venceram por causa do sangue do Cordeiro e por causa do sangue do Cordeiro e por causa da palavra do testemunho que deram, e, mesmo em face da morte, não amaram a própria vida (Ap 12.11).

São estes os que vêm da grande tribulação, lavaram suas vestiduras e as alvejaram no sangue do Cordeiro (Ap 7.14).


Talvez a palavra de Paulo em I Coríntios 15.8 apresente um indício da soberania de Deus na salvação do remanescente durante o período tribulacional. Evans escreve:

A conversão de Saulo pode servir de exemplo do que acontecerá após o arrebatamento dos santos, quando o Senhor Jesus vier para os Seus que estão neste mundo. A cegueira e o ódio que Saulo tinha pela igreja de Deus, demonstrados por sua perseguição, chegaram a um fim após o Se­nhor ter voltado ao céu. A conversão de Saulo transformou-o num evangelista fervoroso, levando as boas novas para alcançar todos os que pudesse com o evangelho [...] Tal será a posição assumida pelos apóstolos do evangelho da septuagésima semana de Daniel.(J. Ellwood Evans, New Testament contribution to Israel's eschatology, p. 134)


Assim, da mesma forma que Deus chamou o apóstolo Paulo por meio de uma revelação divina, também poderá chamar os que serão Suas testemunhas durante aquele período.
4. O ministério do remanescente. Fica óbvio com base em Apocalipse 12.11,17 que esse remanescente fiel tem a posição de um corpo de teste­munhas durante o período tribulacional. O ódio específico de Satanás se deve ao fato de que eles "têm o testemunho de Jesus" (Ap 12.17). O Antigo Testamento retrata Israel como uma testemunha de Deus às nações da terra. Israel foi infiel a esse ministério. Deus levantará uma testemunha fiel durante a tribulação para cumprir o propósito original para essa nação.
5. A relação dos 144 mil do remanescente. Ao examinar as profecias do Antigo Testamento, notamos que Deus tem um remanescente dentro do remanescente da nação. Acredita-se que os 144 mil de Apocalipse 7 e 14 constituem parte especial do remanescente de Israel, separados por um ato soberano de Deus, para serem testemunhas especiais du­rante o período tribulacional. Várias observações são importantes aqui.

A primeira é se o número 144 mil é literal ou figurado. Alguns acredi­tam que era a representação de um número incontável de israelitas sal­vos durante a tribulação. Darby diz: "O número [...] é simbólico; ele é o número perfeito dos que escapam do remanescente em Israel. Somente Deus pode conhecer o número daqueles que Ele sela". (Kelly, org., op. cit., II, p. 37) Scott apóia a mesma opinião quando escreve: "O número dos selados é sem dúvida simbólico e simplesmente denota que Deus apropriou um número cer­to, mas limitado de Israel para Si". (Scott, op. cit., p. 166) Isso faria 144 mil equivaler aos salvos de Israel no período tribulacional. Agora fica claro que muitos dos santos de Israel serão mortos durante a tribulação (Ap 13.7; 20.4), enquanto esses 144 mil são selados, evidentemente com a esperança de preservação ao longo do período. Portanto, o remanescente da nação, que está sujeito à morte, não pode ser equivalente aos 144 mil que não estão sujeitos à morte. Devem ser vistos como uma companhia à parte.

Parece melhor concluir com Ottman: "Perder um Israel literal de vista aqui é lançar um véu de escuridão sobre todo o assunto", (Ottman, op. cit., p. 165) e ainda: "Nesse grupo selado das doze tribos Israel está clara e literalmente di­ante de nós, não importa o que se diga em contrário". (Ibid., p. 180) E, já que Israel é literal aqui e as tribos são literais, seria melhor considerar os números literalmente também. Se esses 144 mil são considerados apenas parte do remanescente total, a pequenez relativa do número, quando compa­rada ao número de gentios salvos (Ap 7.9), não cria nenhum problema. E, se Deus os está separando como testemunhas poderosamente esco­lhidas, por que não pode haver um número específico escolhido?

Devemos lembrar que o remanescente de Romanos 11.26 não é convertido até o segundo advento de Cristo, e os 144 mil ministram como testemunhas imediatamente após a igreja ser arrebatada. Então parece que os 144 mil formam parte do remanescente de Israel, mas não o total. Talvez Paulo estivesse comparando-se a algumas dessas testemunhas ao falar de si mesmo como "nascido fora de tempo" (I Co 15.8). Scofield afirma:

Gr. to ektromati, "fora de tempo". Nessa passagem Paulo pensa sobre si mesmo como um israelita cujo tempo de nascer de novo ainda não tinha chegado, da perspectiva nacional (cf. Mt 23.39), e logo sua conversão pela aparição gloriosa do Senhor (At 9.3-6) era uma ilustração, ou um exem­plo precoce, da futura conversão nacional de Israel. V. Ezequiel 20.35-38; Oséias 2.14-17; Zacarias 12.10-13.6; Romanos U.25-27. (Scofield, op. cit., p. 1226)
Eles são as testemunhas consagradas de quem Paulo era o protótipo. E, como havia grupos especificamente enumerados que foram enviados como testemunhas durante o ministério do Senhor (os doze e os seten­ta), haverá um grupo especificamente designado aqui também.

Surge a dúvida se os 144 mil de Apocalipse 7 e 14 são o mesmo grupo. Há alguns comentaristas que acreditam que não. Kelly diz so­bre o grupo do capítulo 14:

... um remanescente, não simplesmente selado como servos de Deus (como o grupo semelhante das doze tribos de Israel no capítulo 7), mas levado a uma associação especial com o Cordeiro em Sião, isto é, com o propósito real de Deus em graça. Esses parecem ser sofredores de Judá, que passam por uma tribulação inigualável, não mencionada com relação a nenhum outro remanescente. (Kelly, Lectures on the Book of Revelation, p. 318)
Sua conclusão é que, já que esses estão no monte Sião, devem ser da tribo de Judá. Kelly acredita ainda que esses do capítulo 14 passaram por toda a tribulação e aqueles do capítulo 7 não o fizeram. É comum afirmar que o grupo do capítulo 7 está na terra, ao passo que estes estão no céu, fazendo, assim, do monte Sião a cidade celestial de Nova Jeru­salém. Os do capítulo 14 são identificados com o Cordeiro, e os do capí­tulo 7 não são. Os do capítulo 7 são "selados", mas os do capítulo 14 têm "nas frontes escrito o nome de seu Pai". A hora da aparição dos dois, argumenta-se, é diferente. No entanto, não há nada definitivo nesses argumentos. Não há nenhuma prova de que os 144 mil do capí­tulo 14 sejam de Judá. Já que é melhor considerar o monte Sião como o monte Sião literal, esses não precisam ser exclusivamente de Judá. Além disso, os 144 mil do capítulo 14 não precisam ser situados no céu. O "nome de seu Pai" no capítulo 14 pode simplesmente ser uma explicação adicio­nal ao selo do capítulo 7. O fato de que o grupo do capítulo 14 é mencio­nado sem artigo, usado por alguns como argumento a favor de sua dis­tinção do grupo do capítulo 7, não é determinante, pois Seiss diz:

"O uso do artigo não é necessário quando a identificação é de qualquer outra forma tão clara". (Joseph Seiss, The Apocalypse, III, p. 19. 48 Stevens, op. cit., II, p. 240) Visto que é necessário espiritualizar certas coisas nos dois capítulos para torná-los grupos diferentes, e uma interpretação lite­ral os faria idênticos, parece melhor considerá-los um e o mesmo.


No capítulo 7 os 144 mil são selados por Deus, separados para um ministério especial, antes do início da grande tribulação. Eles parecem ser selados bem no começo do período. Com toda a probabilidade a multidão de gentios, descrita na passagem que se segue (Ap 7.9-17), alcançou conhecimento da salvação por meio do ministério desse gru­po.

No capítulo 14 o mesmo grupo é retratado no término da tribula­ção, quando o reino é estabelecido. O Rei que retorna está no monte Sião, como foi previsto a Seu respeito (Zc 14.4). No Seu retorno as teste­munhas fiéis se unem a Ele, tendo sido redimidas (Ap 14.4) e tendo testemunhado em meio à apostasia (Ap 14.4,5). Eles são chamados "primícias para Deus e para o Cordeiro" (Ap 14.4), isto é, são o melhor da colheita do período tribulacional, os que chegarão ao milênio para povoar a terra milenar. Enquanto os julgamentos são derramados so­bre a Babilônia (Ap 14.8), sobre a besta (Ap 14.9-12), sobre os gentios (Ap 14.14-17) e sobre o Israel infiel (Ap 14.18-20), esses 144 mil perma­necem preservados em meio a todos os sofrimentos da terra e, logo, devem ser as primícias daquele período. Stevens resume bem:

Parece natural e razoável encontrar nesse grupo de 144 mil — agora apre­sentados mais que vencedores e em pé, transladados e glorificados [...] o mesmo grupo apresentado no capítulo 7, um grupo selecionado de todas as tribos de Israel, selados nas suas frontes com o "selo de Deus vivo" e como Seus "servos". Foi como defensores do pendão da fé, a partir do período do sétimo selo, que esses israelitas foram apresentados e autori­zados. Agora, no capítulo 14, esse grupo, ao que parece, é novamente apresentado no desfrute da recompensa e dos louvores que serão seus após o fim de sua corrida. É importante lembrar que nem sequer um de­les parece ter-se perdido. (STEVENS,op. cit., II, p.240)

6. O destino do remanescente. Ao falar sobre as pessoas levadas ao Senhor pelo ministério dos 144 mil em Apocalipse 7.15,16, João escreve:

Razão por que se acham diante do trono de Deus e o servem de dia e de noite no seu santuário; e aquele que se assenta no trono estenderá sobre eles o seu tabernáculo. Jamais terão fome, nunca mais terão sede, não cairá sobre eles o sol, nem ardor algum, pois o Cordeiro que se encontra no meio do trono os apascentará e os guiará para as fontes da água da vida. E Deus lhes enxugará dos olhos toda lágrima.
Eles aparecem "diante do trono" (Ap 14.3). Logo, o destino desse remanes­cente é o reino sobre o qual Cristo reinará no "trono de Davi". Essas pro­messas não são celestiais, mas terrenas, e serão cumpridas no milênio.


IV. A Retirada da Cegueira de Israel


O Novo Testamento ensina que Israel é uma nação cega. Eles não só estão cegos espiritualmente porque rejeitaram de forma consciente seu Messias, mas um julgamento divino caiu sobre eles e por isso a nação está legalmente cega. Isaías previu esse estado quando escreveu:

Então, disse ele: Vai e dize a este povo: Ouvi, ouvi e não entendais; vede, vede, mas não percebais. Torna insensível o coração deste povo, endure­ce-lhe os ouvidos e fecha-lhes os olhos, para que não venha ele a ver com os olhos, a ouvir com os ouvidos e a entender com o coração, e se conver­ta, e seja salvo (Is 6.9,10).
Essa passagem é citada no Novo Testamento (Mt 13.14,15; Mc 4.12; Lc 8.10; Jo 12.40; At 28.26,27) para mostrar que a atitude de Israel em rela­ção a Cristo acarretou o cumprimento daquela profecia. João explica a descrença da nação (Jo 12.37) baseado em "não podiam crer, porque Isaías disse ainda: Cegou-lhes os olhos e endureceu-lhes o coração" (João 12.39,40). Paulo deixa claro que o que fora judicialmente pronun­ciado sobre a nação (Mt 23.38) era o estado contínuo do povo:

Mas os sentidos deles se embotaram. Pois até ao dia de hoje, quando fa­zem a leitura da antiga aliança, o mesmo véu permanece, não lhes sendo revelado que, em Cristo, é removido. Mas até hoje, quando é lido Moisés, o véu está posto sobre o coração deles (2 Co 3.14,15).


No entanto, mesmo aqui se prevê que essa condição mudará. Paulo diz: "Quando, porém, algum deles se converte ao Senhor, o véu lhe é retirado" (2 Co 3.16).

A passagem mais longa que trata do assunto é encontrada em Ro­manos 11. Paulo mostra (v. 17-27) que Israel foi posto de lado em rela­ção ao lugar da bênção para que os gentios pudessem ocupá-lo. O ensinamento de Paulo está nas palavras:

Porque não quero, irmãos, que ignoreis este mistério (para que não sejais presumidos em vós mesmos): que veio endurecimento em parte a Israel, até que haja entrado a plenitude dos gentios (Rm 11.25).
A passagem revela vários fatores importantes a respeito da cegueira de Israel.

1) Essa cegueira específica é um mistério. Como visto anterior­mente, mistério, no sentido bíblico da palavra, refere-se a certo plano divino que não podia ser nem seria conhecido a menos que fosse reve­lado aos homens por Deus. O fato de que a cegueira é um mistério demonstra que ela é um tipo de cegueira até agora não-revelada. Por­tanto, ela deve ser diferenciada da cegueira espiritual, que foi a experi­ência dos israelitas como filhos de Adão e, por isso, sob a maldição do pecado, e também da cegueira consciente, que foi a experiência de Isra­el ao pecar contra a luz revelada. Essa é uma nova forma de cegueira, até agora não sofrida pelos homens. Foi a visitação divina de Israel por Deus em virtude do pecado nacional de rejeitar o Messias (Mt 27.25).

2) A natureza da cegueira é revelada. A palavra põrõsis (cegueira) significa literalmente "cobrir com um calo" e vem do verbo que significa "cobrir com uma pele grossa, endurecer cobrindo com um calo".(Joseph Henry Thayer, Greek-English lexicon of the New Testament, p. 559) Ela sugere que a cobertura grossa e impenetrável chegou por causa da repetida rejeição à revelação, e agora se tornou a condição permanente.

3) Paulo diz que essa cegueira é parcial. Isso revela que ela não é universal a ponto de impedir que qualquer judeu possa crer hoje. A possibilidade da salvação de um indivíduo existe, apesar de a nação ter sido cegada legalmente.

4) Devemos notar que há um momento definido em que a cegueira será retirada da nação. Paulo diz que "veio endurecimento em parte a Israel, até que... ". Robertson chama a isso "oração temporal" que significa "até o momento em que".(A. T. Robertson, Word pictures in the New Testament, iv, p. 398) Isso deixa antever a retirada da cegueira em determinada hora.

5) Finalmente, a hora da retirada des­sa cegueira é afirmada na expressão: "até que haja entrado a plenitude dos gentios". Então torna-se necessário identificar o termo "a plenitu­de dos gentios". Sobre isso. Walvoord escreve:

... um problema permanece com relação ao término do período da bênção dos gentios. Em Lucas 21.24, Cristo menciona que os "tempos dos genti­os" durarão enquanto Jerusalém for "pisada por eles". A referência em Lucas é ao domínio político de Jerusalém pelos gentios que começou com a queda de Jerusalém na época do cativeiro e continua até hoje. Embora a terminologia não tenha significado fora do contexto das duas passagens em causa, parece claro que a expressão "tempos dos gentios" se refere à dominação política exercida pelos gentios, ao passo que a expressão "a plenitude dos gentios" tem que ver com a bênção e a oportunidade dos gentios nos dias de hoje. Se essa análise estiver correta, os tempos dos gentios e a plenitude dos gentios são duas idéias completamente diferen­tes.

Os tempos do gentios começaram muito antes de Cristo e continua­rão até que Cristo retorne para estabelecer o Seu reino. A plenitude dos gentios começou no Pentecostes e continuará apenas durante a atual era da graça. Dessa perspectiva escatológica, o importante é que a plenitude dos gentios chegará ao fim antes que os tempos dos gentios se acabem [...] parece claro que a plenitude dos gentios terminará abruptamente quan­do a igreja for levada ao céu. (John E Walvoord, Israel's blindness, Bibliotheca Sacra 102:287-8, July 1945)


Logo, Paulo quer dizer que a cegueira será retirada no arrebatamento da igreja, quando a era do privilégio dos gentios der lugar à restaura­ção de Israel ao lugar da bênção.

Devemos observar que a retirada dessa cegueira não significa a re­velação clara da verdade espiritual ao indivíduo. Ele ainda está possuído pela cegueira de sua natureza pecaminosa. Mas significa que Deus res­taurou Israel a uma posição de bênção ao lado dos gentios. Deus então está lidando com a nação com a qual Ele não lidava desde que Israel rejeitou o Messias. Devemos observar ainda que a retirada definitiva da cegueira, isto é, da cegueira espiritual da qual eles ainda são herdeiros, não será conquistada até o segundo advento de Cristo (Rm 11.26,27). A retirada da cegueira legal permite que os israelitas ouçam as boas novas do reino (Mt 24.14) proclamadas naquele dia para que possam ser salvos, tanto individual quanto nacionalmente. Será observado que a retirada dessa cegueira possibilitará a separação dos 144 mil, os chamados dentre o remanescente fiel, e o ministério de Israel às nações durante o período tribulacional.



V. As Duas Testemunhas


Uma consideração importante relativa à posição de Israel na tri­bulação é dada em Apocalipse 11.3-12, em que se apresenta o ministé­rio das duas testemunhas. Há grande divergência de opinião na inter­pretação dessa passagem.


A. A interpretação simbólica. Há duas teorias principais que resul­tam de uma interpretação simbólica das duas testemunhas.

1) A primeira é que essas duas testemunhas representam a igreja, que será arreba­tada em meio à tribulação. O arrebatamento, de acordo com essa teoria, ocorre no v. 12. Essa é a posição dos defensores do arrebatamento mesotribulacionista, examinado anteriormente.

2) A segunda é que as duas testemunhas representam todo o remanescente do período tribulacional (Cf. Harry A. Ironside, What's the answer?, p. 124; Scott, op. cit., p. 213) Essa teoria baseia-se na observação de que dois é o nú­mero de testemunhas e, já que os 144 mil são testemunhas durante o período, devem ser simbolicamente representados aqui. Ambas as teo­rias baseiam-se num método de interpretação não-literal.
Há várias objeções a essas visões.

1) Embora se reconheça que Apocalipse usa símbolos, parece um erro considerar simbólico tudo o que é revelado ali. A palavra "notificou" em Apocalipse 1.1 não signifi­ca "revelar por meio de símbolos"; refere-se, antes, a um fato histórico que tem sentido espiritual. Os sete "sinais" do evangelho de João não são meros símbolos, mas acontecimentos históricos reais aos quais há um sentido espiritual relacionado. O uso de "notificar" não permite interpretação não-literal aqui. A coerência com o método literal exige que aquilo que é revelado seja entendido literalmente, a não ser que o texto claramente mostre o contrário, como, por exemplo, em Apocalipse 12.3,9.

2) Já que outros números dessa passagem são considerados lite­ralmente, o número dois também deve ser considerado literalmente. Os 42 meses (11.2), os 1 260 dias (11.3), são tomados literalmente em referência à metade do período da septuagésima semana. Parece não haver motivo para não considerar os três e meio (11.9,11) literalmente. Logo, já que os outros números não são espiritualizados, o número dois também não deve ser.

3) Todas as testemunhas morrem em certo ponto (11.7) para que seu testemunho cesse. Sabemos que o remanescente fiel, apesar de dizimado pelas atividades da besta, continuará durante todo o período até a vinda do Senhor. O testemunho contínuo parece prova que contraria a identificação delas com o remanescente.

4) Enquanto parte do remanescente continuar, não haverá motivo para regozijo (11.10). O regozijo vem pelo fato de esse testemunho específico ter acabado. A conclusão é que isso não se refere ao remanescente fiel, mas sim a dois indivíduos literais que foram separados especialmen­te por Deus e chamados "minhas duas testemunhas" (11.3). Assim como as duas oliveiras de Zacarias referem-se a Zorobabel e a Josué, as duas oliveiras (11.4) denotam dois indivíduos literais. Seus mila­gres, seu ministério, sua ascensão parecem identificá-los como homens individuais.
B. A interpretação literal. Os literalistas dividem-se em duas classes quanto à interpretação. Existem os que acreditam que se trate de dois homens que viveram anteriormente e voltaram à terra para esse minis­tério. Há também os que acreditam que se trate de homens literais, mas não identificáveis.

Os que defendem a primeira teoria acreditam que uma das teste­munhas será Elias. Eles se fundamentam nos seguintes aspectos.

1) Em Malaquias 3.1-3; 4.5,6 é previsto que Elias viria antes do segundo ad­vento para preparar o caminho para o Messias.

2) Elias não sofreu mor­te física (2Rs 2.9-11) e, poderia retornar e sofrer a morte assim como as duas testemunhas.

3) As testemunhas têm o mesmo sinal milagroso dado a Elias com relação à chuva (l Rs 17.1, Ap 11.6).

4) O período de seca na época de Elias (l Rs 17.1) teve a mesma duração que o ministé­rio das testemunhas (Ap 11.3).

5) Elias foi um dos dois que apareceram na transfiguração (Mt 17.3) e argumentou sobre o que todo testemunho aponta, "a morte de Cristo".

Muitos dos que identificam uma das testemunhas com Elias associam a segunda testemunha a Moisés. Várias razões apóiam essa inter­pretação.

1) Moisés apareceu com Elias na transfiguração (Mt 17.3) quan­do a morte de Cristo foi discutida.

2) O ministério de Moisés de trans­formar as águas em sangue (Êx 7.19,20) é o mesmo das testemunhas (Ap 11.6).

3) Deuteronômio 18.15-19 exige o reaparecimento de Moisés.

4) O corpo de Moisés foi preservado por Deus para que Ele possa ser restaurado (Dt 34.5,6; Jd 9). Logo, a lei (Moisés) e os profetas (Elias) estariam reunidos em testemunho a Cristo durante a proclamação da vinda do Rei.


Há várias dificuldades em identificar Moisés como uma das testemunhas.

1) A expressão "semelhante a mim" de Deuteronômio 18.15 parece impedir qualquer possibilidade de que o próprio Moisés seja uma das testemunhas, pois o profeta não era Moisés, mas alguém se­melhante a ele.

2) A semelhança dos milagres não significa identifica­ção. Os milagres que Moisés fez foram sinais a Israel. Os sinais das testemunhas serão da mesma forma sinais para Israel. Seria algo im­pressionante se Deus duplicasse os sinais que foram grandes sinais para Israel naqueles dias.

3) Embora a transfiguração seja identificada com o milênio (2Pe 1.16-19), ela jamais é identificada com o período tribulacional ou com o ministério das testemunhas. Pelo fato de eles terem aparecido na transfiguração, demonstrando que estariam relacio­nados ao Senhor na Sua vinda para o Seu reino, não significa que de­vam ser as testemunhas.

4) O corpo de Moisés na transfiguração não era seu corpo ressurrecto, já que Cristo é as primícias da ressurreição (I Co 15.20,23), nem um corpo imortal, logo não se pode argumentar com base em Judas 9 que o corpo de Moisés foi preservado para que ele possa voltar para morrer.
Outros, que identificam uma dessas testemunhas como Elias, associam a segunda a Enoque. Várias razões apóiam essa defesa.

1) Enoque foi transladado sem ver a morte (Gn 5.24).

2) Tanto Elias quanto Enoque teriam sido revestidos de imortalidade (I Co 15.53) na hora exata de sua translação, mas Cristo é o único que agora possui imortalidade (l Tm 6.16). Logo, esses dois teriam sido preservados sem experimentar imor­talidade a fim de que pudessem retornar para morrer.

3) Enoque foi um profeta de julgamento, assim como Elias (Jd 14,15), e isso corresponde ao ministério das duas testemunhas, pois eles profetizam com o sinal do julgamento — pano de saco (Ap 11.3).

4) Em Apocalipse 11.4 as pala­vras "em pé" fazem supor que eles já viviam no tempo de João e devem ser duas pessoas que já foram transladadas. Logo, acredita-se, apenas Elias e Enoque poderiam satisfazer essa exigência.
Parece haver vários argumentos contrários à identificação de uma dessas testemunhas como Enoque.

1) O motivo declarado da translação de Enoque foi "para não ver a morte" (Hb 11.5). Em vista disso, é difícil afirmar que ele retornará para morrer.

2) Parece que o profeta antediluviano não seria enviado por Deus para lidar com Israel.

3) A posição de Enoque e Elias na translação não é diferente da de todos os santos do Antigo Testamento que estão diante do Senhor por meio da morte física. Seu meio de entrada é diferente, mas não a sua posição na entrada. Assim, o fato de que eles foram arrebatados não requer uma diferença de estado, nem que eles retornem para morrer.

4) As testemu­nhas têm corpos mortais e estão sujeitas à morte. Elias e Moisés no monte da transfiguração evidentemente não tinham corpos mortais, pois "apareceram em glória". Dificilmente receberiam corpos mortais novamente.

English chega a uma conclusão com respeito a essas teorias, quan­do diz:

Se fosse possível afirmar com certeza que as duas testemunhas devem ser identificadas com personagens que apareceram na terra na época do Antigo Testamento, então somos obrigados a concluir, penso eu, que serão Elias e Moisés, o primeiro porque se diz que virá novamente, e o segundo por causa da sua associação com Elias no monte da transfiguração, por causa da natu­reza do seu testemunho, e porque ele simboliza a lei assim como Elias repre­senta os profetas, ambos testemunhando a vinda do Senhor em glória. (Schuyler English, The two witnesses, Our Hope, 47:665, Apr. 1941.)
Existem os que acreditam, por causa das dificuldades em causa e do silêncio das Escrituras a esse respeito, que as duas testemunhas não podem ser identificadas. English representa esse grupo quando escreve:

... essas duas testemunhas não podem ser identificadas, mas [...] simples­mente aparecerão no espírito e poder de Elias [...] As duas testemunhas terão corpos mortais, e, embora seja possível a Deus, a quem "todas as coisas" são possíveis, mandar de volta à terra aqueles que já foram para a presença do Senhor há muito tempo, não temos nenhum precedente e nenhuma palavra nas Escrituras para tal reentrada de homens. Sim, Lázaro, o filho da viúva de Sarepta e outros tinham corpos mortais quan­do ressuscitaram dos mortos, mas sua morte foi uma experiência tempo­rária e autorizada para que Deus fosse glorificado pelo poder milagroso de Seu Filho (ou Seu profeta) na ressurreição. A reaparição do nosso Se­nhor após a ressurreição foi em Seu corpo glorificado e, como já demons­tramos, Moisés e Elias, no monte da transfiguração, "apareceram em gló­ria" (Lc 9.31), isto é, nos corpos glorificados para aquela ocasião [...] Com base nisso, concluímos que as duas testemunhas não podem ser identificadas, mas cumprirão no futuro um destino que João Batista teria realizado se o coração de Israel tivesse sido receptivo. (Ibid., p. 669-70)


Parece melhor concluir que a identidade desses dois homens é incerta. Talvez não sejam pessoas que viveram anteriormente e foram restaura­das, mas dois homens levantados para um testemunho especial, a quem foi concedido o poder de fazer milagres. Seu ministério é de julgamen­to, como mostram suas vestes de pano de saco. São mortos pela besta (Ap 13.1-10). Com relação à hora de sua morte, o mesmo autor diz:

Aritmética pura revelará rapidamente que o período da profecia confia­do às duas testemunhas, 1 260 dias, equivale a três anos e meio de dura­ção. Em qual metade da tribulação, então, essas testemunhas profetiza­rão? Ou seu testemunho não será limitado por uma das metades dos sete anos, mas durará de uma metade para a outra? Não creio que possamos ser dogmáticos sobre isso. Há lógica considerável no argumento de que seu testemunho ocorrerá durante a primeira metade da semana profética de Daniel, e seu martírio será o primeiro ato de perseguição da besta, depois que ela quebrar a aliança com os judeus (Dn 9.27). Seu ministério será acompanhado de poder sobre os inimigos, enquanto, de acordo com Daniel 7.21, o "pequeno chifre" (que é a besta) guerreará e prevalecerá contra os santos, e essa será a segunda metade da semana. Por outro lado, em Apocalipse 11.2 os "quarenta e dois meses" sem dúvida se referem à segunda metade da tribulação, e o período do testemunho das duas teste­munhas parece estar sincronizado com isso. Além disso, seu testemunho é registrado logo antes do soar da sétima trombeta, o que nos leva direto ao reino milenar. Mas o período exato em que o testemunho acontecerá não é importante aos crentes desta era — isso acontecerá no tempo de Deus, que conhecemos, e será o tempo certo. (Ibid., p. 671)



VI. Elias Voltará?

Uma pergunta ligada à discussão anterior relaciona-se a Elias: se ele veio, se voltará literalmente ou se alguém virá no espírito e no po­der de Elias apesar de não ser o próprio profeta. Isso é importante e influi na identidade das testemunhas.


A. Elias não virá novamente. Há uma interpretação que diz que João Batista cumpriu completamente tudo o que foi previsto sobre o predecessor, e Elias não virá novamente. (Cf. Carl Armerding, Will there be another Elijah?, Bibliotheca Sacra, 100:89-97, Jan. 1943)

1) O princípio do parênteses esta­belecido nas Escrituras é citado como prova. De acordo com essa teoria, Malaquias profetizou dois acontecimentos totalmente separados (4.5,6), mas tratou-os como um. Logo, João poderia cumprir a primeira parte no primeiro advento de Cristo, embora o restante tivesse de esperar pelo segundo advento de Cristo para se cumprir.

2) Deve ser dito que Elias chegaria "antes que venha o grande e terrível Dia do Senhor" (Ml 4.5). Logo, João era Elias ou então Elias deveria vir antes da tribulação, o que destruiria a doutrina da iminência.

3) Mateus 24 e 25, que dizem respeito ao plano para Israel no período tribulacional, não se referem ao ministério de Elias naquela época.

4) O ministério das duas testemu­nhas é de julgamento, enquanto o ministério de Elias é de "fazer voltar os corações", portanto a cronologia de Apocalipse de 4 a 19 não menci­ona um ministério como o de Elias.

5) Cristo afirma claramente em Mateus 11.14 e 17.12 que João era o Elias da profecia.


Em resposta a esses argumentos, podemos afirmar:

1) O princípio do parêntese é claramente reconhecido, mas, embora possa haver um parêntese ali, ele não precisa necessariamente existir. Essa é apenas uma acomodação para apoiar a teoria.

2) E verdade que Elias chegará "antes que venha o grande e terrível Dia do Senhor" (Ml 4.5). Devemos obser­var, contudo, que o dia do Senhor pode referir-se tanto ao período total abrangido por essa expressão, isto é, desde o começo da septuagésima semana de Daniel até o milênio, quanto aos vários acontecimentos da­quele período com esse nome. Portanto, não é necessário crer que Elias aparecerá durante a era cristã porque ele virá "antes" do dia do Senhor. Isso pode fazer referência à sua aparição antes de os terríveis julga­mentos caírem no segundo advento, que é um acontecimento do dia do Senhor. Na verdade, os adjetivos descritivos, grande e terrível, pare­cem relacionar essa profecia exatamente àquela experiência.

3) Deve­mos notar que muitos acontecimentos importantes são omitidos na cro­nologia de Mateus, e devem ser preenchidos com outras partes das Es­crituras; assim, a omissão não impossibilita tal ministério.

4) Por mais completo que seja Apocalipse, existem alguns acontecimentos do Anti­go Testamento que não estão incluídos ali e esse ministério não precisa ser negado por causa de sua omissão. O fato de as testemunhas anunci­arem julgamento não elimina a possibilidade de acrescentarem a men­sagem da graça.

5) A afirmação do Senhor Jesus de que João era Elias estava baseada na contingência. João era Elias "se o quereis reconhe­cer" (Mt 11.14). O Senhor declarou que, se eles recebessem o reino ofe­recido, João seria aquele que faria o trabalho de Elias. Mas eles rejeita­ram essa oferta (Mt 17.12) e, por isso, João foi impedido de ser aquele que cumpriria a profecia.


B. Elias virá pessoalmente e ministrará novamente. A segunda teoria é a interpretação de que João não cumpre a profecia, e o Senhor antevê um ministério futuro de Elias (Mt 17.11). Por isso, Elias deve vir e mi­nistrar novamente. Essa teoria tem a seu favor uma série de argumentos.

1) Em Lucas 1.17 João não é identificado como Elias, mas como alguém que "irá adiante do Senhor no espírito e poder de Elias", mos­trando que João não foi um Elias literal e, portanto, o Elias literal ainda virá.

2) João negou que fosse Elias (Jo 1.21).

3) Em Mateus 17.11 a pala­vra "virá" está no presente no original, mas uma vez que se liga à pala­vra "restaurará", que é futura, deve ser interpretada como um presente futurístico; portanto, o Senhor está indicando um ministério futuro de Elias.

4) As semelhanças entre os ministérios das testemunhas em Apocalipse 11 e o de Elias defendem um retorno futuro de Elias.

5) Às vezes é usado o argumento histórico de que judeus consagrados ainda esperam por Elias para cumprir a profecia.

6) Já que João não restaurou todas as coisas, virá alguém que o fará.

Com base no método literal de interpretação das Escrituras, esses argumentos parecem verdadeiros e estabelecem o fato de que Elias deve vir novamente. No entanto, parece haver uma consideração que milita contra eles. Afirma-se em Lucas 1.17 que João é alguém que vem "no espírito e poder de Elias". Quando o Senhor disse: "E, se o quereis reconhecer, ele mesmo é Elias, que estava para vir" (Mt 11.14) e "Elias já veio, e não o reconheceram; antes, fizeram com ele tudo quanto quiseram" (Mt 17.12), estava indicando alguém que veio, não um Elias lite­ral, mas alguém que cumpriu a profecia. Os discípulos entenderam claramente que o Senhor estava falando sobre João (Mt 17.13). Cristo afirma que João se tornou Elias somente na aceitação do Messias e de Seu reino por Israel (Mt 11.14), e a possibilidade de João tornar-se o Elias profetizado baseava-se numa contingência. E verdade que a identifica­ção de João com aquele que cumpriria a profecia dependia de Israel receber ou rejeitar o reino oferecido, mas a atitude de Israel em relação ao reino não mudou a pessoa de João. Ele não era nem poderia ser o Elias literal sob nenhuma circunstância, e a aceitação do reino não o faria ser. Ele foi alguém que poderia ter cumprido a profecia porque essa é interpretada pelo Senhor como cumprida, não no Elias literal, mas em alguém que viria no espírito e no poder de Elias. Se o Elias literal precisasse aparecer, Cristo não teria feito uma oferta genuína do reino, visto que o Elias literal tinha de vir e João não poderia cumprir essa exigência. Mas se alguém que viesse no espírito e no poder de Elias cumprisse as exigências, então uma oferta genuína do reino pode­ria ser feita. Com base nas palavras do Senhor, conclui-se que Elias não precisa aparecer pessoalmente, embora alguém venha para cumprir esse ministério (Mt 17.12).


C. Alguém virá no espírito e no poder de Elias. A terceira teoria é que as profecias não foram cumpridas em João e aguardam cumprimento futuro; mas, já que Elias não precisa cumpri-las pessoalmente, alguém virá em seu espírito e poder para cumprir o que está previsto (Ml 4.5,6; Mt 17.10,11). Sobre essa questão English escreve:

... após a transfiguração, os discípulos perguntaram ao Senhor sobre a Sua vinda em poder e glória: "Por que dizem, pois, os escribas ser neces­sário que Elias venha primeiro?". A isso nosso Senhor respondeu: "De fato, Elias virá e restaurará todas as cousas" (Mt 17.10,11). Se não houves­se nenhuma outra referência com relação à vinda de Elias, seríamos obri­gados a concluir que ele deve ser uma das testemunhas de Apocalipse 11. Mas vejamos. Algum tempo antes da transfiguração, João Batista, que estava na prisão, enviou dois discípulos para perguntar ao Senhor Jesus se Ele era o Messias ou se eles deveriam esperar outro. Nosso Senhor enviou uma mensagem de volta para João chamando a atenção para Seu ministério miraculoso como testemunho suficiente de que Ele era Aquele que os profetas haviam previsto. Ele contou, então, às multidões sobre a grandeza de João, e que Batista era realmente o Mensageiro de quem

Malaquias falara (Ml 3.1). Por fim, o Senhor acrescentou: "Porque todos os profetas e a lei profetizaram até João. E, se o quereis reconhecer, ele mesmo é Elias, que estava para vir" (Mt 11.13,14). O que Ele quer dizer? Ele estava dizendo o seguinte: que, se Israel estivesse pronto e disposto a recebê-lo naquela época, Ele teria estabelecido o reino que lhes oferecera, e, nesse caso, o ministério de João seria o cumprimento do Elias profético. Parece, então, que a profecia de Malaquias se refere a alguém vindo no espírito e no poder de Elias (como Lc 1.17), e que ele não precisa ser o pró­prio Elias, literalmente. Nosso Senhor nos deu outra mostra disso na con­versa com Seus discípulos, à qual já nos referimos, que aconteceu após a transfiguração, pois, quando Ele assegurou que Elias deveria vir, acres­centou: "Eu, porém, vos declaro que Elias já veio, e não o reconheceram", e nós lemos: "Então, os discípulos entenderam que lhes falara a respeito de João Batista" (Mt 17.12,13). Parece que a Palavra de Deus mostra clara­mente que aquele que vem será um Elias virtual e não literal. (English, op. cit., p. 666)
Quanto ao problema das duas testemunhas, English conclui:

... se João Batista poderia ter sido Elias, se Israel se tivesse disposto a recebê-lo (Mateus 11.13,14), então os que testemunharão naquele dia futuro, vin­dos no espírito e no poder de Elias, podem certamente cumprir as profe­cias de Malaquias e de nosso Senhor (Ml 4.5; Mt 17.10,11). (Ibid., p. 670)



Visto que João não poderia ter cumprido as profecias porque Israel rejeitou o reino oferecido, não parece possível afirmar que a profecia de Malaquias 4.5,6 tenha sido cumprida. O fato de que João poderia ter cumprido a profecia, apesar de não ser Elias pessoalmente, parece mos­trar que Elias não precisa vir pessoalmente para cumprir as profecias. Durante o período anterior ao segundo advento e antes do derrama­mento dos julgamentos na terra, haverá o ministério de alguém carac­terizado pelo espírito e pelo poder de Elias, que cumprirá essa profecia.



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