Manual de Escatologia



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Capítulo 26 - O plano do reino no Novo Testamento

É fato bem demonstrado que os judeus na época de Cristo aguardavam ansiosamente o cumprimento literal das promessas do reino teocrático do Antigo Testamento. Já se afirmou:

Foi admitido universalmente por escritores importantes (e.g., Neander, Hagenbach, Schaff, Kurtz etc), a despeito de suas respectivas opiniões quanto ao reino em si, que os judeus, mesmo os devotos, acreditavam na vinda pessoal do Messias, na restauração literal do trono e do reino davídico, no reinado pessoal do Messias no trono de Davi, na exaltação resultante de Jerusalém e da nação judaica e no cumprimento das descri­ções milenares daquele reino.

Também se reconhece que as afirmações de Lucas 1.71; Atos 1.6; Lucas 2.26,30 etc. incluem a crença acima, e que até pelo menos o dia de Pentecostes os judeus, os discípulos e mesmo os após­tolos acreditavam em tal teoria [...] consideravam as profecias e as pro­messas da aliança literais (i.e., no seu sentido puramente gramatical); e, por acreditarem no cumprimento, esperavam tal restauração do reino davídico sob a liderança do Messias, com poder ampliado e glória apro­priada à majestade do Rei prometido; e também que os piedosos de ou­tras épocas seriam ressuscitados dentre os mortos para dele desfrutar. (G. N. H. Peters, Theocratic kingdom, i, p. 183)



I. O Reino Teocrático Oferecido na Primeira Vinda de Cristo

Existem hoje opiniões diversas quanto ao reino anunciado na pri­meira vinda de Cristo. O ponto de vista liberal é que Jesus adotou os anseios sociais e políticos do povo de Sua época e anunciou um reino parecido com o esperado por Israel com base nas profecias do Antigo Testamento. No entanto, no decorrer de Sua vida, ficou claro que Israel não receberia o reino que Ele oferecia, portanto Jesus abandonou aque­la expectativa por causa da oposição e do desestímulo que se seguiram.

O ponto de vista espiritualizado é que Jesus adotou os elementos espiri­tuais dos profetas do Antigo Testamento, abandonando todos os aspec­tos políticos e nacionais, e ofereceu um reino espiritual a todos os que acreditassem. A opinião literal, apoiada pelo estudo do Novo Testamen­to, é que o reino anunciado e oferecido pelo Senhor Jesus era o mesmo reino teocrático previsto pelos profetas do Antigo Testamento.
A. Foi oferecida a teocracia do Antigo Testamento. O reino oferecido a Israel foi a mesma teocracia prelibada no Antigo Testamento. Bright declara:

Apesar de mencionar repetidas vezes o reino de Deus, Jesus jamais parou para defini-lo. E nenhum espectador jamais o interrompeu para pergun­tar: "Mestre, o que significam essas palavras, 'reino de Deus', que Tu tan­to usas?". Pelo contrário, Jesus usou o termo como se estivesse certo de que seria entendido, e realmente foi. O reino de Deus pertencia ao vocabulário de todo judeu. Era algo que entendiam e pelo qual ansiavam de­sesperadamente. (John Bright, The kingdom of God, p. 17-8)


A mesma observação é reafirmada:

O Novo Testamento inicia a proclamação do reino em termos que expres­sam que ele era previamente bem conhecido [...] A pregação do reino, sua simples proclamação, sem a menor tentativa de explicar seu significado ou natureza, a própria linguagem na qual ele era apresentado aos judeus —tudo indicava que era um assunto conhecido de todos. João Batista, Je­sus e os setenta, todos proclamaram o reino de tal maneira, sem definição ou explicação, que indicava que os ouvintes estavam familiarizados com seu significado. (Peters, op. cit., i, p. 181.)


McClain mostra que o reino oferecido nos evangelhos era o mesmo que o previsto pelos profetas. Ele escreve:

... nas obras e nos ensinamentos de Cristo podem ser encontrados todos os aspectos do reino profético. Ele é basicamente espiritual; tanto que, "se alguém não nascer de novo", não pode ver o reino de Deus. Seu aspecto ético é demonstrado completamente no Sermão do Monte... A correção das maldades sociais aparece na previsão de Cristo quanto ao estabeleci­mento do Seu reino, quando todas essas maldades serão totalmente anu­ladas por meios sobrenaturais.

A natureza eclesiástica do reino é reconhe­cida quando Ele expulsa os cambistas do templo. Por que não simples­mente ignorar o templo se, como alguns dizem Deus terminou com Isra­el e com a idéia teocrática? Pelo contrário [...] Ele toma posse do templo judeu e cita uma profecia do reino em defesa da Sua ação: "A minha casa será chamada casa de oração para todas as nações".

Mesmo o aspecto político do reino profético recebe lugar de importância em Mateus 25 [...] que apre­senta a descrição de Cristo por Si mesmo sentado num trono de glória jul­gando as nações viventes na terra [...] Quanto aos aspectos físicos do reino, leia no Novo Testamento o relato dos cegos que viram, dos coxos que anda­ram, dos surdos que ouviram, dos leprosos que foram purificados; leia o relato das multidões alimentadas sobrenaturalmente; leia os relatos de li­vramento dos perigos do vento, da tempestade e da violência. (Alva J. McClain, The greatness of the kingdom, anotações de sala de aula não publicadas, p. 7-8)


B. O reconhecimento do Messias. Em Seu nascimento, Cristo foi reco­nhecido como Messias. O mensageiro angelical, anunciando Seu nasci­mento a Maria, esclareceu a respeito do trabalho do Filho de Maria:

Eis que conceberás e darás à luz um filho, a quem chamarás pelo nome de Jesus. Este será grande e será chamado Filho do Altíssimo; Deus, o Se­nhor, lhe dará o trono de Davi, seu pai; ele reinará para sempre sobre a casa de Jacó, e o seu reinado não terá fim (Lc 1.31-33).


O hino de ação de graças cantado por Maria (Lc 1.46-55) também deixa claro que Maria entendeu a proclamação angelical. Isabel falou profeti­camente sobre a vinda do "meu Senhor" antes do Seu nascimento (Lc 1.43), movida pelo Espírito Santo (Lc 1.41). Para Simeão, que "esperava a consolação de Israel" (Lc 2.25), o fato foi revelado e a Pessoa de Cristo foi claramente identificada, como observamos por sua profecia (Lc 2.29-35). Ana, a profetisa, que esperava "a redenção de Jerusalém" (Lc 2.38) viu o cumprimento das suas esperanças no Messias que tinha apareci­do. Os reis magos vieram em busca daquele que era "o recém-nascido Rei dos judeus" (Mt 2.2) e receberam prova divina de que haviam en­contrado Aquele em quem suas esperanças seriam concretizadas.

Mateus, escrevendo sobre Jesus como o Messias de Israel, inicia seu relato com a genealogia que remonta a linhagem não apenas, como era de esperar, até Abraão, a cuja descendência Ele viria redimir, mas até


Davi, sobre cuja linhagem Ele viria reinar. Todos os acontecimentos as­sociados a Seu nascimento provam Sua messianidade.
C. O Messias anunciado por seu precursor. Cristo é precedido pelo precursor que anuncia a proximidade do reino. O ministério de João Batista, de acordo com as palavras do próprio Senhor (Mt 11.13,14; 17.10-13), era o ministério previsto por Malaquias (4.5,6), no qual alguém anunciaria a chegada do Rei de Israel. A palavra pronunciada por João é importante: "Arrependei-vos, porque está próximo o reino dos céus" (Mt 3.2).

Sem definir o conceito de reino em sua mente, ele simples­mente anuncia a iminência daquela teocracia. O batismo administrado por João era o ritual de purificação mediante a aplicação de água, de­pendente da confissão dos pecados, remetendo já para a vinda do Mes­sias, administrado por alguém nascido na linhagem sacerdotal. Era uma confissão de pecaminosidade, de necessidade e de expectativa de que viria Alguém que, de acordo com o Antigo Testamento, satisfaria com­pletamente aquela carência. O batismo identificava os que, como João, aguardavam o Messias.


D. A teocracia anunciada por Cristo. Jesus Cristo, tanto em Seu pró­prio ministério público quanto no ministério particular aos discípulos, anunciou que o reino teocrático estava próximo. Após o término do ministério do Precursor (Mt 4.12), o Senhor iniciou ministério público com a proclamação : "Arrependei-vos, porque está próximo o reino dos céus" (Mt 4.17). Ao enviar os doze, Jesus ordenou que pregassem: "Está próximo o reino dos céus" (Mt 10.7). Os setenta são enviados e a ordem é dada: "Anunciai-lhes: A vós outros está próximo o reino de Deus"(Lc 10.9,11). A esses mensageiros a palavra é dita:

Bem-aventurados os olhos que vêem as cousas que vós vedes. Pois eu vos afirmo que muitos profetas e reis quiseram ver o que vedes e não viram; e ouvir o que ouvis e não o ouviram (Lc 10.23,24).


Com o termo "próximo" faz-se a proclamação de que o reino deve ser esperado iminentemente. Isso não é uma garantia de que o reino será estabelecido de imediato, mas sim que todos os acontecimentos penden­tes haviam sido retirados, de modo que ele agora é iminente.
E. A mensagem teocrática limitada a Israel. O reino que foi anunciado foi anunciado apenas para Israel.

A estes doze enviou Jesus, dando-lhes as seguintes instruções: Não tomeis rumo aos gentios, nem entreis em cidade de Samaritanos; mas, de prefe­rência, procurai as ovelhas perdidas da casa de Israel; e, à medida que seguirdes, pregai que está próximo o reino dos céus (Mt 10.5-7).

Não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel [Mt 15.24].
É por essa razão que Paulo podia dizer que "Cristo foi constituído mi­nistro da circuncisão, em prol da verdade de Deus, para confirmar as promessas feitas aos nossos pais" (Rm 15.8). Não poderia haver nenhu­ma bênção universal da aliança abraâmica aplicada aos gentios até Is­rael ter experimentado a realização do reino teocrático, em cujo reino e em cujo Rei seriam abençoadas as nações.
E. A mensagem teocrática confirmada. A autenticidade da oferta do reino foi provada por sinais e milagres. Quando João Batista perguntou a Cristo "És tu aquele que estava para vir ou havemos de esperar ou­tro?" (Mt 11.3), sem dúvida porque João achava que o Messias não po­deria ser recebido, se o precursor tivesse sido rejeitado, o Senhor res­pondeu:

Ide e anunciai a João o que estais ouvindo e vendo: os cegos vêem, os coxos andam, os leprosos são purificados, os surdos ouvem os mortos são ressuscitados, e aos pobres está sendo pregado o evangelho. E bem-aventurado é aquele que não achar em mim motivo de tropeço (Mt 11.4-6).


Os sinais dados por Cristo eram evidências do poder que residiria no rei teocrático e manifestações das bênçãos que existiriam no reino. Peters afirma bem:

[Os milagres] são tão relacionados ao reino que não podem ser separados dele sem desfigurar a ambos. Assim, esse fato é apresentado pelo próprio Jesus (Mt 12.28): "Se, porém, eu expulso os demônios pelo Espírito de Deus, certamente é chegado o reino de Deus sobre vós". Aqui nós temos:

1. O relacionamento existente entre o reino e os milagres; sem estes, aquele não pode ser revelado.

2. Que os milagres são uma manifestação do po­der que Jesus possuía e exercerá quando estabelecer Seu reino.

3. Que a expulsão milagrosa de demônios, ou de Satanás, é um acontecimento li­gado ao reino, e sua realização por meio de Cristo é assim demonstrada como previsto, e.g., em Ap 20.1-6. 4. Que a expulsão milagrosa de demô­nios por Jesus é um prenúncio, uma demonstração prévia ou prefiguração [...] como foi a transfiguração, do próprio reino. Os milagres então são confirmações previamente concedidas de que o reino virá como previsto.

Os milagres de Jesus são tão variados e importantes à luz do reino que se pode perceber prontamente como eles nos dão a confiança necessária em suas várias exigências e em seus vários aspectos. A ressurreição dos mor­tos está ligada ao reino; o fato de que as chaves da morte estão pendura­das ao cinto de Cristo é demonstrado nos milagres de [ressurreição dos mortos] [...] Doença e morte são banidas dentre os herdeiros do reino; os numerosos milagres de curar várias doenças e restaurar os moribundos estabelecem o poder existente para realizá-los.

A plena perfeição do cor­po será desfrutada no reino; isso é previsto pela eliminação de cegueira, da paralisia, da surdez e da mudez. Fome, sede, jejum etc. são substituí­dos por abundância no reino; os milagres da alimentação de milhares com­provam o poder previsto que os realizará. O mundo natural estará completamente sob o controle do Messias nesse reino; os milagres da pesca de peixes, da tempestade acalmada, do barco conduzido ao seu destino, da caminhada sobre o mar, do peixe que abrigou o imposto, da figueira in­frutífera destruída e da muito ridicularizada transformação da água em vinho mostram que Aquele que estabelece esse reino realmente tem po­der sobre a natureza.

O mundo espiritual, misterioso, invisível estará, como previsto, em contato e em comunicação com esse reino; e Jesus pro­va isso pelos milagres da transfiguração, da cura do endemoninhado, da expulsão da legião de demônios, da passagem pela multidão sem ser vis­to e pelos milagres da Sua própria morte, ressurreição e ascensão. Real­mente, não há quase nenhuma característica desse reino previsto que será instituído por obra especial do Divino que também não nos tenha sido confirmada por alguns vislumbres do Poder que as realizará.

O reino — o fim — tem como propósito desfazer a maldição do homem e da natureza e conceder as bênçãos mais extraordinárias ao homem e à natureza reno­vada; tudo isso, porém, será feito por Aquele que, dizem as Escrituras, exercerá poder sobrenatural para realizá-lo. Então é lógico esperar, como parte do desenvolvimento do próprio plano, que, quando chegar Aquele por meio de quem o homem e a natureza serão regenerados, seja exibida uma manifestação de poder — mais abundante e superior a tudo que a precedera — sobre o homem e sobre a natureza, para confirmar nossa fé Nele e em Seu reino. (Peters, op. cit., i, p. 89-90)
Cada milagre que o Senhor fez, então, pode ser visto não apenas como demonstração do poder teocrático do Messias, mas também como algo que retrata as condições que existirão quando o reino teocrático for es­tabelecido.

G. A oferta teocrática em relação às profecias do Antigo Testamento. A autenticidade da oferta do reino foi provada por um apelo à promessa do Antigo Testamento. Em várias ocasiões o Senhor explica um plano de ação sobre o qual se levantara algum questionamento, recorrendo às promessas messiânicas do Antigo Testamento para demonstrar que Ele cumpriu tudo o que o Messias faria na Sua vinda. Seu direito de pos­suir o templo de Deus e purificá-lo é justificado pelo recurso a um sal­mo reconhecidamente messiânico (Jo 2.17 com Sl 69).

Sua primeira apre­sentação pública na sinagoga produz uma declaração da obra do Mes­sias (Lc 4.18,19 com Is 61.1). A questão de Ele ter sido precedido pelo Precursor prometido é estabelecida pelas passagens messiânicas (Lc 7.27 com Ml 3.1). O fato de Ele ser qualificado como Messias, pessoalmente, provoca uma exposição da promessa messiânica (Lc 20.41-44). A puri­ficação final do templo é justificada novamente recorrendo-se à pro­messa messiânica (Mt 21.13 com Is 56.7). Em Seu ministério pós-ressurreição, Cristo demonstrou claramente o relacionamento entre os profe­tas do Antigo Testamento e Ele próprio (Lc 24.25-27). Tais citações são suficientes para mostrar que Cristo constantemente recorreu às pro­messas do reino teocrático para explicar Suas ações.


H. A relação de Cristo com a oferta do reino. O reino foi oferecido na pessoa do rei. A afirmação do Senhor é: "Porque o reino de Deus está dentro de vós" (Lc 17.21). O Senhor não está dizendo que Seu reino seria um reino espiritual no coração dos homens. Isso contraria todo o teor da Palavra de Deus. Ele está afirmando que o reino pelo qual eles esperavam já estava "próximo" na pessoa do rei. O rei legítimo estava presente e bastava apenas arrependimento por parte da nação e a aceitação de Cristo como o Messias teocrático.

I. A incerteza da oferta. A oferta do reino era uma oferta que depen­dia de certos fatores. Deus sabia muito bem a reação de Israel, porém o estabelecimento do reino teocrático dependia do arrependimento da nação, do reconhecimento de João Batista como o precursor prometido e da aceitação de Jesus Cristo como o rei teocrático. McClain diz:

Mais de um expositor já tropeçou na afirmação de Cristo: "Não fui envi­ado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel". A única explicação satisfatória é perceber, como nosso Senhor claramente percebia, a nature­za incerta de Sua mensagem do reino. Para resumir em uma palavra: O estabelecimento imediato e completo do Seu reino dependia da atitude da nação de Israel, à qual pertenciam as promessas e as alianças divinas [...]

O fato de que nosso Senhor entendia claramente a natureza incerta da mensagem do Seu reino fica claro a partir da Sua avaliação de João Batista e de sua carreira meteórica. Todo judeu inteligente sabia que a palavra final do último profeta do Antigo Testamento previa o aparecimen­to de Elias como precursor do reino. E Jesus declara, em Mateus 11, com relação a João: "Se o quereis reconhecer, ele mesmo é Elias, que estava para vir".

Ainda mais tarde, quando acontecimentos históricos comprovaram a certeza da Sua rejeição e morte nas mãos da nação judaica, nosso Senhor refere-se mais uma vez a João, mas agora a sorte foi lançada. "Elias virá e restaurará todas as coisas", Ele assegura aos discípulos, mas acrescenta: "Eu, porém, vos declaro que Elias já veio, e não o reconheceram". Não he­sito em afirmar que temos aqui a chave de um dos problemas mais comple­xos da escatologia do Novo Testamento em relação ao reino: O estabeleci­mento imediato do reino mediatário na terra dependia da atitude de Israel. (McClain, op. cit., p. 8-9)


Em ambos os Testamentos, as bênçãos do reino teocrático dependem do arrependimento individual e da aceitação de um novo coração da parte do Messias. Mesmo na administração teocrática do Antigo Testa­mento o incrédulo e o impuro eram impedidos de participar junto com o povo crente e preparado. Isso é apresentado claramente em Atos quan­do Pedro convoca a nação ao arrependimento (At 2.38; 3.19).
J. A oferta legítima. Essa oferta do reino foi, no entanto, legítima. Seria um escárnio que Deus apresentasse o reino teocrático se ele não fosse uma oferta genuína. Peters diz:

Esse reino foi oferecido à nação de boa fé, i.e., ele seria concedido contanto que a nação se arrependesse. O resultado previsto não fazia diferença ao seu teor, considerando-se a livre agência da nação; esse resultado fluiu de uma escolha voluntária. A descrença nacional não mudou a fidelidade de Deus; Romanos 3.3. Seria pejorativo para a missão de Cristo olhá-la por qualquer outro ângulo, e a sinceridade e o desejo de Jesus de que a nação aceitasse são testemunhados em Suas lágrimas sobre Jerusalém, em Seu discurso à cidade, em Seu esforço incessante, no envio dos doze e dos setenta e em Seus atos de misericórdia e de amor. Segue-se, então, que aos judeus foi concedido o privilégio de aceitar o reino, e, se eles tivessem con­cordado com a condição anexada, então o reino de Davi teria sido glorio­samente restabelecido sob o Messias. (Peters, op. cit., i, p. 377)

Muitos sustentam que a oferta legítima de um reino no primeiro advento minimiza a cruz e não deixa lugar para a realização do plano redentor de Deus. (Cf. Oswald T. Allis, Prophecy and the church, p. 74-5) Em resposta a essa questão, deve-se dizer que a oferta e a rejeição do reino teocrático eram o plano pelo qual o propósi­to eterno foi realmente cumprido. O que realizou o propósito divino da salvação mediante a morte de Cristo foi a rejeição de um reino ofereci­do a Israel. Peters observa:

A pergunta "Como então a expiação seria feita pelo derramamento de sangue?" nada tem que ver com a sinceridade dessa oferta, pois "a sabe­doria multiforme de Deus" seria igual à emergência, quer antecipando para algum outro período, quer fazendo previamente alguma provisão para que ela se cumprisse, quer ainda de algum outro modo desconheci­do para nós. Como aconteceu, os propósitos de Deus, Seu conselho deter­minado, foram moldados por uma escolha voluntária prevista da nação. A misericórdia de Deus estava disposta a dar, mas o pecado da nação impe­diu a dádiva. O fato de que o reino seria estabelecido se a nação tivesse crido é evidente com base em Deuteronômio 32; 2 Crônicas 7.12-22; Isaías 48.18; Salmos 81.8-16 etc.

[...] O argumento de Paulo em Romanos baseia-se na suposição de que a nação tinha o poder de escolha, de que ela escolheu voluntariamen­te o mal, e de que Deus por misericórdia substituiu sua destruição pela salvação dos gentios. Eles tropeçaram e caíram não por necessidade, e não porque o Propósito de Deus exigisse isso, mas somente por causa de sua própria incredulidade; e o plano de Deus, o Onisciente, tomou essa rejeição como resultado previsto e fez para ela provisão equivalente. (Peters, op. cit., i, p. 378)
O princípio de que Deus faz uma oferta genuína apesar da previ­são de que ela não será aceita é reconhecido nas Escrituras. Chafer demonstra:

Os acontecimentos de Cades-Barnéia foram um tipo dessa primeira ofer­ta. Lá, essa mesma nação, que já havia experimentado os desconfortos do deserto, teve oportunidade de entrar imediatamente na terra prome­tida. Assim, livres para escolher, eles deixaram de entrar e retornaram a mais quarenta anos de peregrinação pelo deserto e a mais julgamentos. Eles poderiam ter entrado com bênção. Deus sabia que eles não iriam; mas mesmo assim foi pela própria escolha deles que a bênção foi adia­da. Mais tarde eles foram levados novamente à terra após julgamentos e aflições no deserto. Dessa vez, porém, não há referência à sua própria escolha. (Lewis Sperry Chafer, The kingdom in history and prophecy, p. 56)


Alguns acreditam que a oferta não poderia ter sido genuína porque o Antigo Testamento previu o sofrimento de Jesus antes da glória que teria a seguir. (Cf. Allis, op. cit., p. 75) Sustenta-se que a ordem faz a morte vir necessaria­mente primeiro, portanto não poderia haver nenhuma oferta genuína do reino. Bastaria ressaltar que os profetas viram os acontecimentos à luz da rejeição, na ordem verdadeira em que esta se deu, e não na or­dem da dependência da reação de Israel. Essa ordem não viola a genuinidade da oferta, mas demonstra que a rejeição da oferta foi o meio determinado para realizar o fim desejado por Deus.

Alguns afirmam que nem o Senhor, nem João jamais ofereceram um reino terreno a Israel, mas apenas um reino espiritual. (Philip Mauro, God's present kingdom, p. 172-3) Tal posição despreza totalmente a natureza do "reino" pregado por João, pelo Se­nhor e por Seus discípulos. Já demonstramos que eles pregaram o mes­mo reino que o Antigo Testamento prometera e Israel esperava, sem nenhuma mudança de conceito.



II. A Apresentação e a Rejeição do Reino Teocrático Registradas em Mateus

O propósito do evangelho de Mateus foi apresentar Jesus Cristo como Messias, delinear a oposição feita pela nação a Ele e ao reino oferecido e registrar a definitiva rejeição oficial a esse Rei e a esse reino por parte de Israel. Uma análise do tema de Mateus será feita aqui para expor esse argumento, dada a sua relação de extrema importância com todo o conceito e plano do reino.

Há três movimentos principais no evangelho de Mateus: 1) a apre­sentação e a legitimação do rei (1.1-11.1); 2) a oposição ao Rei (11.2-16.12) e 3) a rejeição definitiva do Rei (16.13-28.20).
A. A apresentação e a legitimação do Rei. Mateus dedica a primeira divisão de seu evangelho à apresentação e à legitimação de Jesus como Messias a Israel (1.1-11.1).

1. Nessa divisão a primeira seção trata da apresentação do Rei de Israel (1.1-4.11). Nela Mateus fala da chegada do Rei (1.1-2.23), arrolando Sua linhagem (1.1-17) para demonstrar Seu direito ao trono, e Sua vinda (1.18-2.23), para demonstrar, por meio do nascimento virginal, que Ele detinha direito legal ao trono. O nome que Lhe foi dado ao nascer (1.24,25) o relaciona a Josué, que levara o povo à terra prometida e a uma vida de paz e de descanso. Em Sua infância (2.1-23) são retratadas a homenagem prestada pelos gentios (2.1-12) e a rejeição dos ju­deus (2.13-15).

Mateus apresenta ainda o embaixador do Rei (3.1-12), para demonstrar que as Escrituras proféticas se tinham cumprido. Essa apresentação é seguida pela aprovação do Rei (3.13-4.11), na qual Mateus registra o testemunho ocorrido em Seu batismo (3.13-17), quando Deus concede aprovação ao Messias, e também o testemunho de Sua vitória sobre Satanás (4.1-11), quando Seu direito moral de reinar é estabelecido.
2. Na segunda seção dessa divisão, Mateus registra as proclama­ções do Rei (4.12-7.29), pelas quais Seu direito judicial de reinar é esta­belecido. A autoridade real é demonstrada pelo fato de Ele ser capaz de conduzir os homens à obediência (4.12-22). As credenciais do Rei são por Ele apresentadas (4.23-25). Os pronunciamentos do Rei (5.1-7.29) comprovam autoridade real. Foi anunciado por João e por Jesus que o reino estava próximo. Os milagres haviam provado a validade do anún­cio. As multidões desejavam saber quais eram os requisitos para entrar no reino anunciado.

O Sermão do Monte foi proferido para expor de maneira mais completa os requisitos de entrada no reino esperado. Os súditos do reino são descritos (5.1-16), o relacionamento do Rei com a lei é estabelecido (5.17-20), as falsas interpretações que os fariseus ofe­reciam dos requisitos da lei são denunciadas (5.21-48) e as falsas práti­cas religiosas dos fariseus são postas a nu (6.1-7.6). A seguir o Rei oferece aos que almejam entrar no reino instruções sobre a oração (7.7-11), sobre a verdadeira justiça (7.12), sobre o caminho de acesso ao reino (7.13,14), sobre os falsos mestres (7.15-23) e sobre os dois alicerces (7.24-29).


3. A terceira seção dessa divisão do evangelho é uma apresentação do poder do Rei (8.11-11.1), com o propósito de legitimar Sua reivindi­cação à função de Messias. A autoridade do Messias é provada no cam­po da doença quando Ele cura um leproso (8.1-4), um paralítico (8.5-13) e uma pessoa ameaçada por febre alta (8.14,15). Sua autoridade é de­monstrada na esfera demoníaca (8.16,17), na esfera humana (8.18-22; 9.9), na esfera da natureza (8.23-27), do pecado (9.1-8), da tradição (9.10-17), da morte (9.18-26) das trevas (9.27-34).

Todas essas demonstrações de autoridade serviram para comprovar Seu direito ao ofício de Messi­as (9.35). A demonstração cabal de Sua autoridade é vista no fato de que Ele é capaz de delegar essa autoridade a outros (9.35-11.1). Tal dele­gação de autoridade torna-se a evidência culminante de Suas prerroga­tivas messiânicas, pois apenas quem possui autoridade pode delegá-la a outrem. Nessa parte do evangelho de Mateus, o Messias é motivado por compaixão (9.35-38), lança uma convocação aos discípulos (10.1-4) e dá-lhes uma comissão (10.5-11.1). A mensagem confiada (10.5-15) é dirigida exclusivamente a Israel (10.4-5), em virtude do seu estado de perdição (10.6), e gira em torno da mesma mensagem que João e Jesus haviam proclamado (10.7), devendo ser fundamentada pelos mesmos milagres que haviam legitimado Jesus como Messias (10.8).

Esse minis­tério dos discípulos foi apenas uma extensão do ministério de Jesus a Israel, e um anúncio da mesma mensagem que Ele entregou à nação. A aceitação da mensagem do reino seria a mesma dispensada à procla­mação de João Batista. Eles seriam perseguidos e rejeitados por causa de Sua mensagem (10.16-23). No entanto, deveriam encontrar consolo no fato de serem objeto do cuidado especial do Pai (10.24-33). Mesmo que houvesse divisões por causa de seu ministério (10.34-39), haveria recompensa para eles como pregadores e para os que os recebessem e à sua mensagem (10.40-42). Até aqui em seu evangelho, Mateus diligen­temente apresentou à nação uma Pessoa e provou Seu direito legal, Seu direito moral, Seu direito judicial e Seu direito profético ao trono messiânico. Em suma, exibiu plena autenticação para apoiar as reivin­dicações de Jesus Cristo.
B. A oposição ao Rei e a rejeição dele. A segunda divisão do evangelho de Mateus é dedicada à oposição do povo de Israel ao Rei e Sua rejeição pelos israelitas (11.2-16.12).
1. Em primeiro lugar, Mateus delineia o começo da rejeição (11.2-27), que começa com a oposição ao precursor, João Batista (11.2-15), con­tinua com a oposição dos críticos (11.16-19) e culmina com a oposição por parte dos incautos (11.20-24). O advérbio de tempo em Mateus 11.20 mostra uma mudança na ênfase do ministério de Cristo, resultante dessa atitude em relação a Ele. A despeito da oposição, estende-se um convi­te aos humildes (11.25-30).
2. A seguir, Mateus delineia as controvérsias com as autoridades. A primeira delas diz respeito ao sábado (12.1-8), bem como a segunda (12.9-21). A terceira ocorre por causa da cura de um endemoninhado (12.22-37). Por causa desse milagre, o Messias é acusado de ministrar com base no poder e na autoridade de Satanás. Essa acusação é rechaçada por Cristo ao demonstrar que é impossível haver divisão no reino de Satanás (12.25,26), que os exorcistas judaicos não eram acusa­dos de empregar o poder de Satanás (12.27) e que isso deveria ser interpretado como demonstração de autoridade messiânica (12.28).

Toda essa controvérsia é seguida de uma severa advertência (12.31-37) sobre a gravidade de rejeitar o testemunho do Espírito Santo sobre a pessoa de Cristo. A quarta controvérsia (12.38-42) gira em torno de outro pedido de evidência quanto à Sua messianidade. A conclusão dessa controvér­sia aparece em Mateus 12.43-50, em que Cristo repudia relacionamen­tos naturais, como os de que Israel desfrutava para com Ele, e antevê um novo relacionamento, baseado na fé, que viria a ser estabelecido. Devemos observar, em toda essa controvérsia, que há apenas uma per­gunta básica diante da nação: "E este, porventura, o Filho de Davi?" (12.23).


3. Mateus delineia, a seguir, as conseqüências da rejeição (13.1-52). Nas parábolas desse capítulo, o Messias esboça o desenvolvimento do plano do reino à luz da rejeição do Messias por Israel, e oferece um vislumbre do período que vai da rejeição do Messias por Israel até a futura recepção do Messias por Israel em Sua segunda vinda.
4. Mateus apresenta ainda o auge da rejeição por parte da nação (13.53-16.12). Há rejeição em Nazaré (13.53-58), rejeição por Herodes (14.1-36), rejeição pelos escribas e fariseus (15.1-39) a despeito do sinal da cura da mulher siro-fenícia (15.21-28), do sinal da cura de muitas pessoas (15.29-31) e da segunda multiplicação dos pães (15.32-39). A rejeição definitiva vem pelos lábios dos fariseus e dos saduceus (16.1-12) e provoca a retirada de quaisquer outros sinais para Israel, exceto o de Jonas, isto é, o sinal vindouro da morte e da ressurreição do Messias.

Assim, toda essa divisão do evangelho de Mateus (11.2-16.12) é o registro de uma crescente oposição ao Messias. Ela se manifestou primeiro na oposição ao Precursor, e depois ao próprio Messias. A oposição as­sumiu a forma de conflito aberto entre o Messias e os líderes da nação. Por conseguinte, o Messias delineou o Seu plano para o reino a partir de Sua rejeição até Sua aceitação. A oposição se transformou em rejei­ção aberta pelos vários partidos da nação, até ficar evidente que não havia nenhuma possibilidade de que a nação O recebesse como Messi­as, fazendo de Sua morte um fato absolutamente previsível.


C. A rejeição definitiva do Rei. A terceira divisão do evangelho refe­re-se à rejeição definitiva do Messias por Israel (16.13-28.20).
1. Nessa divisão Mateus apresenta a preparação dos discípulos pelo Messias em vista dessa rejeição (16.13-20.34). Ele oferece uma revela­ção de Sua pessoa em vista de Sua morte próxima (16.13-16). A isso se segue a revelação de Seu plano para a igreja (16.17-20), do plano para a Sua morte (16.21-26) e do plano para o reino (16.26-17.21). A transfigu­ração foi uma revelação da vinda gloriosa do Filho do Homem (16.27) e deve ser entendida como um quadro prenunciador em miniatura da segunda vinda do Messias em Sua glória para estabelecer o Seu reino (2Pe 1.16-18).

Mateus apresenta as instruções do Messias à luz da Sua morte (17.22-20.34). Nessa seção há instruções sobre perseguição (17.22-23), privilégios dos filhos (17.24-27), humildade (18.1-5), ofensas (18.6-14), disciplina (18.15-20), perdão (18.21-35), divórcio (19.1-12), receber crianças (19.13-15), riqueza (19.16-26), serviço (19.27-20.16), Sua morte (20.17-19), ambição (20.20-28) e autoridade messiânica (20.29-34).


2. Em segundo lugar nessa divisão, Mateus registra a apresenta­ção formal e a rejeição oficial do Rei (21.1-27.66). Nessa seção, Mateus faz a apresentação formal do Rei em Sua entrada triunfal (21.1-17), que se conformava ao tempo da vinda do Messias anunciado em Daniel 9.24-27. A purificação do templo é outra parte da apresentação formal, na qual o Messias aparece agindo em nome de Seu Pai para tomar pos­se do templo paterno.

A cura dos doentes (21.14) é outro aspecto dessa apresentação formal, uma vez que demonstra a Sua autoridade. O ato final de Sua apresentação formal como Messias é a aceitação do louvor da multidão (21.15-17). Depois dessa apresentação formal, o Messias retira-se de Jerusalém (21.17). Esse ato é significativo em vista de Sua rejeição pela nação. A isso se segue a maldição da figueira pelo Messias (21.18-22). Como a figueira é usada para representar a nação de Israel nas Escrituras, essa ação representa a rejeição da nação pelo Messias depois de ela O rejeitar.


3. O terceiro movimento dessa divisão é o conflito final entre Jesus e a nação (21.23-22.46). Há um conflito com os sacerdotes e anciãos (21.23) sobre a questão da Sua autoridade. Três parábolas ilustram esse trágico conflito: a parábola dos dois filhos (21.28-32), mostrando a ati­tude dos líderes para com o ministério de João Batista; a parábola do administrador (21.33-46), que expunha a atitude dos líderes para com o próprio Jesus, e a parábola das bodas (22.1-14), que mostrava a atitude da liderança em relação ao convite de Deus para que entrassem no rei­no.

Segue-se um conflito com os herodianos (22.15-22) sobre a questão do imposto. Depois vem um conflito com os saduceus (22.23-33) por causa da ressurreição, e por fim um conflito com os fariseus (22.34-46) quanto à interpretação da lei.


4. O quarto movimento nos leva à rejeição da nação de Israel pelo Messias em vista de eles terem rejeitado Jesus e Seu reino (23.1-39). O capítulo registra os ais pronunciados contra os fariseus, que culminam com o anúncio do juízo (23.33) e um pronunciamento final da desola­ção (23.38).
5. Essa rejeição traz consigo as predições do Rei (24.1-25.46), seção que descreve a cronologia dos acontecimentos que sobrevirão ao povo de Israel. Em resposta às perguntas dos discípulos sobre o futuro da cidade e da nação, Ele descreve o período da tribulação (24.4-26), a segunda vinda (24.27-30) e a reunião de Israel (24.31). O desenvolvimen­to cronológico é interrompido pelas parábolas que instruem quanto à necessidade de vigilância (24.32-51).

A cronologia dos acontecimentos é retomada com uma revelação concernente ao juízo contra Israel (25.1-13 e 25.14-30) e ao julgamento dos gentios (25.31-46), para demonstrar que somente os salvos entrarão no milênio, o qual se seguirá à segunda vinda do Messias.


6. O sexto movimento dessa divisão é o quadro da paixão do Rei (26.1-27.66). São descritos os acontecimentos que precedem a Sua mor­te (26.1-27.32): o anúncio da ocasião da morte (26.1-2); a conspiração (26.3-5); a unção (26.6-13); a traição (26.14-16); a celebração da Páscoa e a instituição da ceia do Senhor (26.17-30); a predição da negação de Pedro (26.31-35); a experiência no jardim (26.36-46); a prisão e o julgamento do Messias (26.47-27.32), em que uma das perguntas dos juizes foi se Jesus era o Messias, o Filho de Deus (26.63).

Os acontecimentos de Sua morte e sepultamento são apresentados a seguir (27.33-66). Há vá­rios episódios na própria crucificação que testemunham que Aquele a Quem os judeus estavam executando era o Messias. A zombaria dos soldados que gritavam "Salve, Rei dos Judeus!" dá testemunho disso. A divisão das vestes (27.35) aparece como cumprimento de um salmo messiânico, relacionando o acontecimento ao próprio Messias. O título gravado e afixado acima da cruz (27.37) é ainda outro testemunho. O escárnio lançado contra Ele pela multidão (27.40) se devia ao fato de Ele reivindicar poderes messiânicos. A zombaria dos sacerdotes (27.42,43) foi causado pelo fato de que Ele oferecera uma salvação que apenas o Messias poderia oferecer ao povo.

A escuridão sobrenatural (27.45) e o grito de Seus lábios (27.46), bem como o fato de lhe terem oferecido vinagre (27.46) são todos cumprimentos do que o salmista predissera sobre a morte do Messias. Os milagres que acompanharam Sua morte (27.45,51,52) devem todos ser vistos como evidências de que Ele era verdadeiramente o Messias de Deus. Até mesmo o Seu sepulta­mento (27.57-60) cumpre a parte messiânica central do Antigo Testa­mento, Isaías 53.

No pedido de um selo para a sepultura (27.62-66), há um indício sutil de que os líderes sabiam que Ele era o Messias e recea­vam que sua decisão de condená-lO fosse desmascarada por um túmulo vazio, e por isso tentaram torná-lo o mais seguro possível. Mesmo a morte e o sepultamento de Cristo, a aparente derrota do Seu propósito de cumprir as alianças com Israel, estão repletos de testemunho messiânico.


7. O movimento final dessa divisão do evangelho é um registro da prova do direito messiânico do Rei — a ressurreição do Messias (28.1-20). O túmulo vazio (28.1-8) e as aparições depois da ressurreição (28.9,10) são prova tão suficiente de Sua messianidade que os líderes não poderiam forjar uma história que explicasse o túmulo vazio (28.11-15). Israel recebera seu grande sinal concernente à pessoa de Cristo. A comissão final dos discípulos (28.16-20) é a última demonstração da autoridade messiânica de Cristo.

O evangelho de Mateus foi escrito para apresentar o Messias a Israel e para registrar a reação da nação. A primeira divisão do livro relaciona-se à apresentação e à legitimação do Messias, demonstrando que Ele tem direito legal, moral, judicial e profético ao trono, direito plenamente autenticado pelo Rei em Seus milagres. A segunda divisão observada é a oposição e a rejeição ao Messias pela nação de Israel. A oposição cresce e transforma-se em rejeição indisfarçada. Por conseguinte, é revelado um plano para uma nova forma do reino, até então mantido em segredo por Deus.

A terceira divisão maior trata do auge da rejeição na morte do Messias. O crucificado era o Rei dos Judeus. A ressurreição do crucificado é a aprovação divina de todas as Suas reivindicações e também Sua autenticação como Messias. Pelo fato de Israel ter rejeitado o Messias, a nação levará sobre si o seu pecado até que Ele volte para redimi-la e reinar em glória, aclamado por todos como o Messias.

III. A Oferta do Reino Teocrático É Retirada e Adiada Depois da Rejeição por Parte de Israel

No desenvolvimento do tema do evangelho de Mateus, já demons­tramos que o ponto decisivo no ministério do Senhor Jesus a Israel foi relatado no capítulo 12, em que são registradas a rejeição de Israel por Cristo, em vista do anúncio de Sua rejeição pela nação, e a retirada da oferta do reino. Sobre os acontecimentos dos capítulos 11 e 12, Gaebelein escreve: "Esta é a grande virada desse evangelho, e com ela cessam a oferta de nosso Senhor a Israel como Rei, bem como a oferta do próprio reino". (Arno C. Gaebelein, The gospel of Matthew, I, p. 234) Barnhouse observa a importância do acontecimento registra­do em Mateus 12.14,15:

O ódio no coração dos líderes religiosos tinha chegado ao ponto de se reunirem contra Ele em conselho, planejando como haveriam de matá-Lo (Mt 12.14). Foi então que ocorreu um ato tão dramático e significativo que não podemos deixar de observar. Lemos que, quando Jesus soube que eles deliberavam em conselho contra Ele, "retirou-se dali" (v. 15). Foi um dia triste para Israel. Quando o Messias de Israel se afastou de Seu povo, nada mais restaria no cálice da nação, exceto a amargura. (Donald Grey Barnhouse, His own received him not, but... , p. 114-5)
Porque a nação O rejeitou, o Senhor anuncia o rompimento de todos os laços naturais pelos quais estava preso a Israel (Mt 12.46-50).

Com base nesse anúncio feito pelo Senhor com respeito à rejeição por parte de Israel, podemos delinear um movimento definido na reti­rada da oferta do reino. Nas parábolas (Mt 13.1-50) o Senhor esboça o plano de desenvolvimento do reino teocrático durante o período da ausência do Rei, e anuncia o início de um plano inteiramente novo, até então inesperado e não anunciado — a igreja (Mt 16.13-20).

Ele prepara os discípulos para uma longa demora no plano do reino no que diz respeito a Israel (Lc 19.11-27). Ele promete a segunda vinda, ocasião em que o plano do reino para Israel será retomado (Mt 24.27-31), e dá à nação os sinais que anunciarão o Seu segundo advento (Mt 24.4-26). Ele prepara os discípulos para seu ministério nessa nova fase (Jo 14-16), mas lhes promete participação no reino, a despeito desse adiamen­to (Mt 19.28-30; Lc 22.28-30). O Senhor até oferece aos discípulos um quadro menor e antecipado da segunda vinda do Messias para estabe­lecer o Seu reino (Mt 16.27-17.8). Assim, vemos que o Senhor está pre­parando os discípulos para a retirada da oferta do reino e a instituição de um novo plano e uma nova era antes que o plano do reino seja con­sumado.

No ministério público do Senhor há uma progressão de anúncios que definem a retirada da oferta do reino. O anúncio dos ais contra os líderes da nação (Mt 23) significa que a única expectativa que lhes resta é a do juízo. A declaração do Senhor é definitiva:

Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas os que te foram enviados! Quantas vezes quis eu reunir os teus filhos, como a galinha ajunta os seus pintinhos debaixo das asas, e vós não o quisestes! Eis que a vossa casa vos ficará deserta. Declaro-vos, pois, que, desde agora, já não me vereis, até que venhais a dizer: Bendito o que vem em nome do Se­nhor! (Mt 23.37-39).

E dizia: Ah! Se conheceras por ti mesma, ainda hoje, o que é devido à paz! Mas isto está agora oculto aos teus olhos. Pois sobre ti virão dias em que os teus inimigos te cercarão de trincheiras e, por todos os lados, te aperta­rão o cerco; e te arrasarão e aos teus filhos dentro de ti; não deixarão em ti pedra sobre pedra, porque não reconheceste a oportunidade da tua visitação (Lc 19.42-44).

Cairão a fio de espada e serão levados cativos para todas as nações; e, até que os tempos dos gentios se completem, Jerusalém será pisada por eles (Lc 21.24).

Perguntou-lhes Jesus: Nunca lestes nas Escrituras: A pedra que os cons­trutores rejeitaram, essa veio a ser a principal pedra, angular; isto proce­de do Senhor e é maravilhoso aos nossos olhos? Portanto, vos digo que o reino de Deus vos será tirado e será entregue a um povo que lhe produza os respectivos frutos (Mt 21.42,43).


Há duas explicações para a palavra "nação", a quem o reino de Deus seria a partir de então oferecido.

1) A primeira entende a palavra nação como "geração" e interpretaria a passagem assim: o reino de Deus, que fora oferecido à geração de israelitas, não mais lhes seria oferecido, mas sim à geração de Israel que viver naquele tempo futuro, imediatamente anterior à segunda vinda do Messias, e que manifestará pelas suas obras a fé nessa vinda. Isso significa que o reino, então oferecido a Israel, voltará a ser oferecido a Israel antes da segunda vinda. Isso se alinha com a promessa de que o evangelho do reino será novamente pregado e aceito por um remanescente em Israel (Mt 24.14).

2) A segunda expli­cação interpreta a palavra nação como uma referência aos gentios, a quem seriam anunciadas as boas novas depois da morte de Cristo, e por meio de quem o plano do reino seria desenvolvido (o plano que era o mistério em Mateus 13) até sua realização final na segunda vinda. Peters define esse ponto de vista ao escrever:

Esse reino de Deus, oferecido à nação judaica, será oferecido a outros po­vos que serão adotados, a fim de que o propósito de Deus não falhe.

Esse reino é incorporado pela promessa da aliança com a descendência de Abraão; essa descendência é escolhida, mas, ao rejeitar o reino com a condição a ele anexada, agora, para que o propósito divino revela­do nas alianças não falhe em seu cumprimento por causa da incredulida­de e da depravação da nação, outra descendência seja levantada para Abraão, à qual o reino, num sentido peculiar [...] seja dado. (Peters, op. cit., i, p. 386)
Ele diz ainda:

O reino que, por promessa, pertencia exclusivamente à nação judaica, a descendência legítima de Abraão, não seria dado ao povo que fora enxertado.

[...] Como as promessas de Deus são certas [...] esse povo, essa nação mesma, precisa ser enxertada ou incorporada à descendência eleita de Abraão [...] Em lugar de deixar que promessa tão preciosa falhe, Deus é fiel [....] em suscitar filhos a Abraão, até das pedras se isso fosse necessário (Mt 3.9); porém, em vez de recorrer a intervenções miraculosas para pro­duzir tal resultado, Deus suscita a Abraão uma descendência dentre os gentios, enxertando-os pela fé em Cristo e considerando-os filhos de Abraão em virtude de sua fé justificadora, semelhante à de Abraão. (Ibid., i, p. 396)
Seja qual for o ponto de vista adotado, a palavra do Senhor ainda cons­titui o anúncio da retirada da oferta do reino a Israel naquela ocasião por causa da rejeição de Jesus como o Messias. Peters observa:

Próximo ao fim de Seu ministério, Jesus pregava que o reino não estava próximo.

[...] Tão logo os representantes da nação se reuniram em conselho e conspiraram para matar a Jesus, Ele, tendo terminado a primeira fase de Sua missão, mudou Seu estilo de pregar. Em vez de proclamar à nação que o reino estava próximo, agora dava a entender e declarava direta­mente que o reino não estava próximo. Mateus 21.43 já é definitivo ao dizer: "Portanto, vos digo que o reino de Deus vos será tirado e será en­tregue a um povo que lhe produza os respectivos frutos".

Temos, no entanto, anúncios mais explícitos. Assim, Lucas 19.41-44 apresenta, em vez de um reino, uma ameaça sombria de males terríveis e pendentes. E, ainda, em Mateus 23.37-38 [...], em vez de um reino que viria até eles, o que lhes está determinado é a dispersão e a destruição da cidade, dada a sua condição impenitente [...]

Em Lucas 21.31 [...] já que Sua morte era planejada pelos líderes da nação, a oferta é retirada, e o adiamento do reino, seu distanciamento da nação, é diretamente afirma­do pela enumeração de certos acontecimentos que deverão ocorrer antes que o reino se aproxime mais uma vez de Israel [...] nenhum dos quais se deu entre o momento em que foram pronunciados por Jesus e o dia de Pentecostes; daí a conclusão de que o reino não foi estabelecido [...]

Lucas 19.11-27 demonstra veementemente nossa proposição. Jesus contou essa parábola porque parecia aos discípulos "que o reino de Deus havia de manifestar-se imediatamente" [...] a parábola é proferida [...] para indicar que ele não apareceria em breve, mas somente depois de se passar um período indefinido de tempo... Cristo só predisse abertamente Seus sofri­mentos e Sua morte perto do final de Seu ministério (Mt 20.17-20; Jo 12.32-34 etc). Isso não foi por acaso... Quando foi rejeitado e os líderes envidaram esforços para eliminá-Lo, Ele se achou livre para desenvolver o que Deus já de antemão propusera em vista dessa rejeição e para superá-la. (Ibid., I, p. 379-83.)



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