Manual de Escatologia



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Capítulo 2 - A história da interpretação

Como a disputa básica entre o pré-milenarista e o amilenarista é hermenêutica, é necessário rever o desenvolvimento dos dois métodos hermenêuticos sobre os quais repousam essas duas interpretações, ou seja, o literal e o alegórico, para que a autoridade do método literal possa ser firmada.



I. O Começo da Interpretação

É fato geralmente aceito por todos os estudiosos da história da hermenêutica que a interpretação começou por ocasião do retorno de Israel do exílio babilônico, sob a liderança de Esdras, conforme regis­trado em Neemias 8.1-8. Tal interpretação se fez necessária, primeira­mente, por causa do longo período da história de Israel em que a lei mosaica foi esquecida e negligenciada. A descoberta do esquecido ''li­vro da lei" por Hilquias, durante o reinado de Josias, recolocou-a numa posição de destaque por breve período, apenas para ser novamente esquecida nos anos do exílio.( Cf F. W. Farrar, History of interpretation, p. 47-8)

Fez-se necessária, também, porque du­rante o exílio os judeus substituíram a língua nativa, o hebraico, pelo aramaico. Quando voltaram à sua terra, as Escrituras haviam-se tor­nado ininteligíveis para eles.( Cf. Bernard Kamm, Protestant biblical interpretation, p. 27.)

Esdras teve de explicar ao povo as Es­crituras, olvidadas e indecifráveis. Dificilmente poderíamos pôr em dúvida o fato de que a interpretação de Esdras do que estava escrito fosse literal.



II. A Interpretação Judaica do Antigo Testamento

Essa mesma interpretação literal foi característica marcante da in­terpretação do Antigo Testamento. Ao rejeitar o método estritamente literal de interpretação, Jerônimo "chama a interpretação literal de 'ju­daica', dando a entender que facilmente pode tornar-se herética, e re­petidas vezes afirma ser ela inferior à 'espiritual'".( FARRAR, op, cit, p 232) Aparentemente, na opinião de Jerônimo, método literal e interpretação judaica eram sinô­nimos.

O rabinismo exerceu tamanho domínio sobre a nação judaica dada a união das autoridades sacerdotal e real numa única linhagem. O mé­todo empregado pelo rabinismo dos escribas não era alegórico, mas um método literal, que, em seu literalismo, esvaziava a lei de todos os seus requisitos espirituais.(cf. ibid, 60-1) Embora levasse a conclusões falsas, isso não era culpa do método literal, mas da aplicação errada do método pela exclusão de qualquer outra coisa que não fosse a letra nua do que estava escrito. Briggs, depois de resumir as treze regras que governa­vam a interpretação rabínica, diz:
Algumas das regras são excelentes e, tendo em vista a lógica prática da época, não podem ser questionadas. O defeito da exegese rabínica não estava tanto nas regras quanto em sua aplicação, embora não seja difícil descobrir falácias tácitas naquelas e embora não ofereçam proteção suficiente con­tra deslizes de argumento [grifo do autor]. (Charles A. Briggs, General Introduction to the study of Holy Scripture, p, 431)
Devemos concluir, a despeito de todas as falácias do rabinismo judaico, que os judeus seguiam um método literal de interpretação.

III. O Literalismo da Época de Cristo



A. O literalismo entre os judeus. O método dominante de interpreta­ção entre os judeus na época de Cristo certamente era o literal. Horne apresenta assim a questão:

A interpretação alegórica das Escrituras sagradas não pode ser historica­mente provada como a que prevalecia entre os judeus a partir do cativei­ro babilônico; tampouco se pode provar que tenha sido comum entre os judeus na época de Cristo e de Seus apóstolos.

Embora o Sinédrio e os ouvintes de Jesus muitas vezes recorressem no Antigo Testamento, jamais deram indício de adotar uma interpretação alegórica; mesmo Josefo jamais recorre a ela. Os judeus platônicos do Egito começaram, no primeiro século, em imitação aos gregos pagãos, a interpretar o Antigo Testamento alegoricamente. Filo de Alexandria destacou-se entre os judeus que praticavam esse método. Ele o defende como algo novo e até então desconhecido e, por essa razão, contestado por outros judeus. Jesus nunca esteve, portanto, numa situação em que fosse obriga­do a adaptar-se a um costume dominante de interpretar alegoricamente as Escrituras. Tal método não era utilizado na época entre os judeus, certamente não entre os judeus da Palestina, onde Jesus viveu e ensinou. (Thomas Hartwell Horne, An introduction to the critical study and knowledge of the Holy Scriptures, I, 324)
Os amilenaristas de nossos dias estão essencialmente de acordo com essa posição. Case, defensor ardoroso do amilenarismo, reconhece:

(Cf. Floyd Hamilton, The basis of millennial faith, p. 38-9; Oswald T. Allis, Prophecy and the church, p. 258)

Sem dúvida os antigos profetas hebreus anunciaram o advento de um dia terrível do Senhor, em que a velha ordem de coisas passaria subitamente. Profetas posteriores predisseram um dia de restauração para os exilados, em que toda a natureza seria milagrosamente modificada e um reino davídico ideal seria estabelecido. Os visionários de épocas seguintes re­trataram a vinda de um reino divino verdadeiramente celestial, no qual os fiéis participariam das bênçãos milenares. Os primeiros cristãos espe­ravam em breve contemplar a Cristo voltando entre as nuvens, assim como o tinham visto subir aos céus literalmente [...] No que diz respeito a esse tipo de imagem, o milenarismo pode de forma bem justa alegar ser bíbli­co. Inquestionavelmente certos escritores bíblicos esperavam um fim catas­trófico para o mundo. Retrataram os dias angustiosos que viriam imediata­mente antes da catástrofe final, proclamaram o retorno visível do Cristo celestial e aguardaram ansiosamente a revelação da Nova Jerusalém.

Qualquer tentativa de fugir a essas características literalistas do ideário bíblico é inútil. Desde os dias de Orígenes, certos intérpretes das Escrituras buscam refutar expectativas milenaristas afirmando que mes­mo as declarações mais dramáticas sobre a volta de Jesus deveriam ser entendidas figuradamente. Também se diz que Daniel e Apocalipse são livros altamente místicos e alegóricos, que não pretendiam referir-se a acontecimentos reais, quer passados, quer presentes, quer futuros, mas possuíam significado puramente espiritual, como o Paraíso perdido, de Mil­ton, ou O peregrino, de John Bunyan. Tais recursos são meras evasivas, cujo propósito é tentar harmonizar as Escrituras às condições atuais, ao mesmo tempo que se despreza a vivida expectativa dos antigos. Os judeus afligidos no período dos macabeus exigiam não um fim figurado às suas angústias, mas um fim literal. Daniel não lhes prometeu nada menos que o estabelecimento literal de um novo regime celestial. De maneira igualmente realista, um escritor cristão primitivo escreveu: "... vereis o Filho do homem assentado à direita do Todo-poderoso e vindo com as nuvens do céu [Mc 14.62]" ou ainda "... dos que aqui se encontram, alguns há que, de maneira nenhuma, passarão pela morte até que vejam ter chegado com poder o reino de Deus [Mc 9.1]". Imaginem o choque de Marcos se lhe fosse dito que tais expectativas já haviam sido concretizadas nas aparições de Jesus depois da ressurreição, ou nas experiências extáticas dos discípulos no dia de Pentecostes, ou na salvação de crentes por ocasião de sua morte. E quem pode imaginar a sensação de Marcos se lhe fosse dito, de maneira bem moderna, que sua predição da volta de Cristo seria cumprida na Reforma Luterana, na Revolução Francesa, no reavivamento wesleyano, na abolição da escravatura, na democratização da Rússia ou no resultado da guerra mundial? Os pré-milenaristas estão plenamente justificados por protestar contra os oponentes que alegorizam ou espiritualizam passagens bíblicas pertinentes, conservando a fraseologia bíblica, mas pervertendo profundamente seu significado original.( Shirley Jackson Case, The millennial hope, p. 214-6.)


Ninguém sustentaria que o literalismo dos intérpretes judeus era idêntico à moderna interpretação histórico-gramatical. Naquela época o literalismo decadente esvaziava as Escrituras de todo e qualquer significado. Ramm observa corretamente:

... o resultado de um bom movimento começado por Esdras foi uma interpretação decadente e hiperliteralista, corrente entre os judeus nos dias de Jesus e de Paulo. A escola literalista judaica é o que de pior o literalismo produziu. É a exaltação da letra a ponto de se perder todo o sentido verdadeiro. Exagera de modo grosseiro o secundário e o fortuito, desprezando o essencial ou dele se desviando. (Ramm, op. cit, p. 28.)


No entanto, não podemos negar que o literalismo era o método aceito. O uso errado do método não milita contra o próprio método. O que estava errado não era o método, mas o seu emprego.
B. O literalismo entre os apóstolos. Esse era o método empregado pelos apóstolos. Farrar afirma:
A melhor teoria judaica, purificada no cristianismo, toma literalmente os ensinos da velha dispensação, mas vê neles, como Paulo, a sombra e o germe de desenvolvimentos futuros. A alegoria, embora usada uma vez por Paulo a título de ilustração passageira, é desconhecida de outros após­tolos e jamais sancionada por Cristo. (Farrar, op. cit., p. 217.)
O célebre estudioso Girdlestone escreveu em confirmação:
Somos levados a concluir que havia um método uniforme comumente aceito por todos os escritores do Novo Testamento na interpretação e na aplicação das Escrituras judaicas. É como se todos tivessem freqüentado a mesma escola e estudado com um único professor. Teriam freqüentado a escola rabínica? Seria para com Gamaliel, ou Hillel, ou qualquer outro líder rabínico que estavam em dívida? Todo conhecimento que se pode obter quanto ao modo de ensino vigente na época nega claramente essa hipótese. O Senhor Jesus Cristo, e nenhum outro, foi a fonte original do método. Nesse sentido, como em vários outros, Ele tinha vindo como luz para o mundo. (R. B. Girdlestone, The grammar of prophecy, p. 86)

Briggs, por mais liberal que fosse, reconheceu que Jesus não usava os métodos dos de sua época, nem seguia as falácias de sua geração. Ele diz:

Os apóstolos e seus discípulos no Novo Testamento usam os métodos do Senhor Jesus, e não os dos homens de seu tempo. Os autores do Novo Testamento divergiam entre si nas tendências de seu pensamento [...] em todos eles, os métodos do Senhor Jesus predominavam sobre outros mé­todos e os enobreciam. (Briggs, op. cit., p. 443.)
Não foi necessário aos apóstolos adotar outro método para entender corretamente o Antigo Testamento; precisaram, isto sim, purgar o mé­todo existente de seus excessos nocivos.

Uma vez que a única citação alegórica do Antigo Testamento feita por autores do Novo Testamento é a explicação que Paulo faz da alego­ria em Gálatas 4.24, e uma vez que já foi previamente demonstrado que há uma diferença entre explicar uma alegoria e utilizar o método alegó­rico de interpretação, devemos concluir que os autores do Novo Testa­mento interpretaram o Antigo Testamento literalmente.


IV. A ASCENÇÃO DA ALEGORIZAÇÃO

Uma imensidão de dificuldades cercava os escritores dos primeiros séculos. Não possuíam um cânon claramente definido, seja do Antigo, seja do Novo Testamento. Dependiam de uma tradução deficiente das Escrituras. Conheciam apenas as regras de interpretação impostas pelas escolhas rabínicas e, assim, tiveram de libertar-se da aplicação errônea do princípio literal de interpretação. Além disso, estavam cercados pelo paganismo, pelo judaísmo e por heresias de toda sorte.( Farrar, op. cit., p. 164-5) Do meio desse labirinto surgiram três escolas exegéticas distintas no período patrístico posterior. Farrar afirma:


Os pais do terceiro século em diante podem ser divididos em três escolas exegéticas. Tais escolas são a literal e realista, representada predominante-mente por Tertuliano; a alegórica, da qual Orígenes é o expoente máximo, e a histórica e gramatical, que floresceu principalmente na cidade de Antioquia e da qual Teodoro de Mopsuéstia foi o líder reconhecido.( Ibid., p. 177)
Ao remontar às origens da escola alegórica, Farrar leva-nos até Aristóbulo, a respeito de quem escreve que sua
... obra foi de grande importância para a história da interpretação. Ele é um dos precursores a quem Filo recorreu, ainda que sem o identificar, e é o primeiro a enunciar duas teses que visavam a alcançar ampla aceitação e a produzir muitas conclusões falsas na esfera da exegese.

A primeira delas é a declaração de que a filosofia grega é tomada de empréstimo do Antigo Testamento, em especial da lei mosaica; a segunda afirma que todos os principais dogmas dos filósofos gregos, especialmente os de Aristóteles, podem ser encontrados em Moisés e nos profetas pelos que usam o método correto de investigação.( Ibid., p. 129)


Filo adotou esse conceito de Aristóbulo e procurou conciliar a lei mosaica com a filosofia grega, de modo que a primeira se tornasse aceitável à segunda. Gilbert diz:
[Para Filo] a filosofia grega era a mesma coisa que a filosofia de Moisés [...] E o objetivo de Filo era demonstrar e ilustrar essa harmonia entre a religião judaica e a filosofia clássica, ou, em última análise, tornar aceitável a religião judaica ao mundo grego instruído. Essa foi a elevada missão à qual ele se sentia chamado, o propósito pelo qual expôs as leis dos hebreus na linguagem secular da cultura e da filosofia.(George Holley Gilbert, The interpretation of the Bible, p. 37ss)
Para poder efetuar essa harmonização, foi necessário Filo adotar um método alegórico de interpretar as Escrituras.

A influência de Filo se fez sentir mais agudamente na escola teoló­gica de Alexandria. Farrar escreve:


Foi na grande escola catequética de Alexandria, fundada, segundo reza a tradição, por Marcos, que surgiu a maior escola de exegese cristã. Seu objetivo, semelhante ao de Filo, foi unir filosofia e revelação, e assim usar as jóias emprestadas do Egito para adornar o santuário de Deus. Dessa forma, Clemente de Alexandria e Orígenes forneceram a antítese direta a Tertuliano e a Irineu [...]

O primeiro mestre da escola a galgar os degraus da fama foi o vene­rável Panteno, convertido do estoicismo, de cujos escritos apenas alguns fragmentos sobreviveram. Ele foi sucedido por Clemente de Alexandria, que, crendo na origem divina da filosofia grega, propôs abertamente o princípio de que toda a Escritura deveria ser entendida alegoricamente.( Farrar, op. cit, p. 182-3.)


Foi nessa escola que Orígenes desenvolveu o método alegórico aplica­do às Escrituras. Schaff, testemunha isenta de idéias preconcebidas, resumiu a influência de Orígenes ao dizer:
Orígenes foi o primeiro a formular, em relação ao método alegórico apli­cado pelo judeu platônico Filo, uma teoria formal de interpretação, a qual pôs em prática numa longa série de obras exegéticas, notáveis pela perí­cia e pelo engenho, mas esquálidas nos resultados de boa qualidade. Ele considerava a Bíblia um organismo vivo, que consistia em três elementos correspondentes ao corpo, à alma e ao espírito do homem, seguindo a psicologia platônica.

De acordo com essa visão, ele atribuiu às Escrituras um sentido tríplice:

1) o sentido somático, literal ou histórico, fornecido diretamente pelas palavras, que serviam apenas de véu para uma idéia superior;

2) o sentido psíquico ou moral, que dava vida ao primeiro e servia de edificação geral;

3) o sentido pneumático, ou místico e ideal, para os que se encontravam num estágio mais avançado de conhecimen­to filosófico.

Na aplicação dessa teoria, Orígenes demonstra a mesma ten­dência de Filo, de eliminar a letra da Escritura pelo uso da espiritualização [...] e, em vez de extrair o sentido da Bíblia, introduz nela todo tipo de idéias estranhas e fantasias descabidas. Essa alegorização, no entanto, sa­tisfazia o gosto da época e, com sua mente fértil e saber imponente, Orígenes serviu de oráculo exegético da Igreja primitiva até que sua ortodoxia veio a ser questionada.(Philip Schaff, History of the Christian church, n, 521)


Foi a ascensão do eclesiasticismo com o reconhecimento da autoridade da igreja sobre todas as questões doutrinárias, que deu o grande ímpeto para a adoção do método alegórico. Segundo Farrar, Agostinho foi o primeiro a fazer com que as Escrituras se conformassem à interpretação da igreja.

A exegese de Agostinho é marcada pelos mais gritantes defeitos

[...] Ele demonstrou a regra de que a Bíblia precisava ser interpretada tendo em vista a ortodoxia eclesiástica, e nenhuma expressão bíblica poderia estar em desacordo com alguma outra [...]

[...] De posse da antiga regra filônica e rabínica, repetida por tantas gerações, de que qualquer coisa nas Escrituras que parecesse heterodoxa ou imoral precisava ser interpretada misticamente, Agostinho introduziu confusão em seu dogma de inspiração sobrenatural das Escrituras ao admitir que havia muitas passagens "escritas pelo Espírito Santo" objetáveis quando tomadas em seu sentido evidente. Ele também abriu as portas à imaginação arbitrária.( Farrar, op. cit, p. 236-7)


E ainda:
... Quando o princípio da alegoria é aceito, quando começamos a demonstrar que passagens e livros inteiros da Escritura dizem algo que não querem dizer, o leitor é entregue de mãos amarradas aos caprichos do intérprete.Ele não pode estar seguro de coisa alguma, exceto do que lhe for ditado pela igreja, e em todas as eras a autoridade da "igreja" tem sido falsamente reivindicada pela presunçosa tirania das falsas opiniões dominantes. Nos dias de Justino Mártir e de Orígenes, os crentes foram impelidos a aceitar a alegoria por uma necessidade imperiosa. Era o único meio conhecido para enfrentar o choque que arrancara o evangelho das amarras do judaísmo. Eles a utilizaram para derrotar o literalismo tosco das heresias fanáticas, ou para conciliar os ensinos filosóficos com as verdades do evangelho. Nos dias de Agostinho, todavia, o método havia-se degenerado, transformando-se em mero método artístico de demonstrar engenhosidade e de apoiar o eclesiasticismo. Tinha sido trans-formado no recurso de uma perfídia que preferia não admitir, de uma ignorância que conseguia apreciar e de uma indolência que se recusava a solucionar as verdadeiras dificuldades abundantemente encontradas no livro sagrado [...]

|...| Infelizmente para a igreja, infelizmente para qualquer verdadei­ra compreensão das Escrituras, os alegoristas, a despeito de alguns pro­testos, foram completamente vitoriosos.( Ibid., p. 238)

O estudo acima deve deixar claro o fato de que o método alegórico não nasceu do estudo das Escrituras, mas de um desejo de unir a filoso­fia grega à Palavra de Deus. Não surgiu de um desejo de apresentar as verdades da Palavra, mas da determinação de pervertê-las. Não foi fi­lho da ortodoxia, mas da heterodoxia.

Mesmo que Agostinho tenha sido bem-sucedido em injetar novo método de interpretação na corrente sangüínea da igreja, baseado no método origenista de perverter as Escrituras, havia quem naquela épo­ca ainda se apegasse ao método literal praticado no princípio. Na Esco­la de Antioquia havia homens que não seguiam o método introduzido pela Escola de Alexandria. Gilbert observa:


A respeito de Teodoro e de João, podemos dizer que avançaram em dire­ção a um método científico de exegese, à medida que viram claramente a necessidade de apurar o sentido original das Escrituras para poder empregá-las com alguma valia. O simples fato de terem mantido esse alvo em mente foi uma grande conquista. Fez com que seu trabalho se destacasse fortemente quando comparado ao da escola alexandrina. A interpretação deles era extremamente simples e clara quando comparada à de Orígenes. Rejeitaram de todo o método alegórico.( Gilbert, op. cit, p. 137)
Com respeito ao valor, ao significado e à influência dessa escola, Farrar escreveu:
... a Escola de Antioquia tinha percepção mais profunda do verdadeiro mé­todo exegético do que qualquer escola que a precedeu ou sucedeu em mil anos [...] seu sistema de interpretação bíblica aproximou-se mais que qual­quer outro do que agora é adotado pelas igrejas reformadas em todo o mundo e, se seus representantes não tivessem sido tão impiedosamente anatematizados pela língua irada e esmagados pela mão de ferro da cha­mada ortodoxia dominante, o estudo de seus comentários e a adoção de seu sistema exegético poderiam ter salvado os comentários produzidos pela igreja de séculos de inutilidade e de erro [...]

[...]


Deodoro de Tarso precisa ser considerado o verdadeiro fundador da Escola de Antioquia. Homem de eminente saber e de consagração indiscutível; foi o professor de João Crisóstomo e de Teodoto de Mopsuéstía [...] Seus livros foram dedicados a exposição literal das Escrituras, e ele escreveu um tratado, hoje infelizmente perdido, "sobre a diferença entre a alegoria e a introvisão espiritual".

No entanto, o mais capaz, o mais decidido e o mais lógico represen­tante da Escola de Antioquia foi Teodoro de Mopsuéstia (morto em 428). Esse original e claro pensador destaca-se "como uma rocha no pântano da exegese antiga" [...]

[...] Ele era uma voz, não um eco; uma voz em meio a milhares de ecos que apenas repetiam os mais vazios sons. Ele rejeitou as teorias de Orígenes, mas aprendeu deste a importância indispensável da atenção aos pormenores lingüísticos, especialmente ao comentar o Novo Testa­mento. Ele presta atenção cerrada a partículas, modos, preposições e ter­minologia em geral. Ele aponta as idiossincrasias [...] do estilo de Paulo [...] É talvez o escritor mais antigo que dá atenção suficiente à questão hermenêutica, como, por exemplo, em suas introduções às Epístolas de Efésios e de Colossenses [...] Seu mérito maior é a constante tentativa de estudar cada passagem como um todo, e não como "um amontoado de textos desconexos". Ele primeiro considera a seqüência de pensamento, depois examina a fraseologia e as orações independentes e por fim ofere­ce uma exegese que muitas vezes é brilhantemente característica e pro­fundamente sugestiva. ( Farrar, op. cit., p. 213-5)
Teríamos uma história da hermenêutica bastante diferente se o método da escola de Antioquia tivesse prevalecido. Infelizmente para a inter­pretação sadia, prevaleceu o eclesiasticismo da igreja oficial, que de­pendia do método alegórico para manter sua posição, e a posição da escola de Antioquia foi condenada como herética.

V. A Idade Média

Como se poderia esperar da tendência geral do período, não houve esforço para interpretar as Escrituras de maneira exata. Os princípios de interpretação herdados permaneceram inalterados. Berkhof observa:


Neste período, o quádruplo sentido da Escritura (literal, tropológico [meta­fórico], alegórico e analógico) era geralmente aceito, e tornou-se princí­pio estabelecido que a interpretação da Bíblia tinha de adaptar-se à tradição e à doutrina da Igreja (Louis Berkhof, Princípios de interpretação bíblica,

p. 26.)
As sementes do eclesiasticismo semeadas por Agostinho haviam pro­duzido fruto, e o princípio de conformidade à igreja estava firmemente arraigado. Farrar resume todo o período ao declarar:


... somos forçados a dizer que, durante a Idade Média, do século VII ao século xii, e durante o período escolástico, do século XII ao século XVI, ape­nas alguns, dentre os muitos que labutaram nesse campo, adicionaram algum princípio essencial ou ofereceram contribuição original à tarefa de explanar a Palavra de Deus. Durante esses nove séculos, encontramos muito pouco além "dos últimos lampejos e da degeneração" da exegese patrística. Grande parte do saber ainda existente foi dedicada a algo que tinha por objetivo a exegese, e, no entanto, entre as centenas de autores, nenhum escritor conseguiu demonstrar uma concepção verdadeira do que a exegese de fato significa.( Farrar, op. cit., p. 245)

VI. O Período da Reforma

É somente com a chegada da Reforma protestante que podemos achar algum traço de exegese sadia. Todo o movimento da Reforma pode ser tido como o resultado de um retorno ao método literal de in­terpretação das Escrituras. Esse movimento começou com uma série de precursores cuja influência conduziu outros de volta ao método origi­nal de interpretação, o literal. Segundo Farrar:


Lorenzo Valia, cônego da igreja de São João Laterano [...] é um dos elos principais entre o Renascimento e a Reforma. Ele havia [...] aprendido com o reavivamento dos estudos clássicos que as Escrituras deveriam ser interpretadas segundo as leis gramaticais e de linguagem. (Ibid., p. 312-3)
Erasmo de Roterdã é considerado outro elo, uma vez que sublinhou o estudo dos textos originais das Escrituras e lançou o alicerce da inter­pretação gramatical da Palavra de Deus. Ele, segundo Farrar, pode ser considerado "o principal iniciador da moderna crítica bíblica e textual. Merece ocupar para sempre um lugar de honra entre os intérpretes da Escritura". (Ibid., p. 320)

Os tradutores, que tanto fizeram para acender a chama da Refor­ma, foram motivados por um desejo de entender a Bíblia literalmente. Com respeito a esses primeiros tradutores, Farrar afirma:


Wycliff, na verdade, fez a importante observação de que "todo erro no conhecimento das Escrituras e a fonte de sua deturpação e falsificação por pessoas incompetentes resumem-se no desconhecimento da gramáti­ca e da lógica". (Ibid., p. 278-9)
Quanto a Tyndale, ele escreve:
"Podemos tomar similitudes ou alegorias de empréstimo às Escrituras", diz o grande tradutor William Tyndale, "e aplicá-las a nossos propósitos, alegorias essas que não constituem o sentido das Escrituras, mas assun­tos livres além das Escrituras, na plena liberdade do Espírito. Tal alegoria nada prova; é mero símile. Deus é espírito e todas as Suas palavras são espirituais, e Seu sentido literal é espiritual". "Quanto a esses sentidos espi­rituais", diz Whitaker, oponente de Bellarmine, "certamente é tolice dizer que há tantos sentidos nas Escrituras quanto as palavras forem capazes de transferir e de ajustar. Pois, embora as palavras possam ser aplicadas ou conciliadas metafórica, anagógica e alegoricamente, ou em qualquer ou­tra maneira, não há nelas, por isso, vários sentidos, várias interpretações, nem há várias interpretações das Escrituras, senão apenas um, e este é o sentido literal, que pode ser conciliado de formas variadas e a partir do qual muitas coisas podem ser coletadas". (Ibid., p. 300)
Briggs, que certamente não defende a interpretação literal da Palavra, cita o próprio Tyndale quando diz:
Tu entenderás, portanto, que a Escritura tem apenas um sentido, que é o sentido literal. E esse sentido literal é a raiz e a base de tudo, a âncora que jamais falha, por meio da qual, se a ela te apegares, jamais errarás ou te desviarás do caminho. Se, todavia, abandonares o sentido literal, não tens como evitar desviar-te do caminho. No entanto, a Escritura usa provérbios símiles, enigmas e alegorias, tal como outros escritos; aquilo, porém, que o provérbio, o símile, o enigma ou a alegoria significam baseia-se no sen­tido literal, que deves buscar diligentemente...( Briggs, op. cit., p. 456-7)
Os alicerces da Reforma foram lançados no retorno ao método literal de interpretação.

No período da Reforma propriamente dito, dois nomes se destacam entre os expoentes das verdades da Escritura: Lutero e Calvino. Ambos se caracterizam por sua insistência no uso do método literal de interpretação.

Lutero diz: "Cada palavra deve ter o direito de conservar seu sentido natural, e este não deve ser abandonado a não ser que a fé nos force a isso [...] É uma das qualidades da Escritura Sagrada o fato de se auto-interpretar por passagens associadas por natureza, as quais só podemos entender pela aplicação da regra da fé". (Ibid)
O fato de que Lutero advogava o que hoje conhecemos por método histórico-gramatical é observado em seus próprios escritos.
... Em seu prefácio ao comentário de Isaías (1528) e em outras partes de seus escritos, Lutero demonstra o que considera as verdadeiras regras de interpretação das Escrituras. Ele insiste 1) no caráter indispensável do conhecimento gramatical; 2) na importância de levar em conta tempos, circunstâncias e condições; 3) na observação do contexto; 4) na necessida­de de fé e de iluminação espiritual; 5) na conservação do que ele chamou "proporção da fé" e 6) na menção de toda Escritura a Cristo. (Farrar, op. cit., p. 331-2)
Tão grande era o desejo de Lutero não apenas de dar ao povo a Palavra de Deus, mas de ensinar o povo a interpretá-la, que estabele­ceu as seguintes regras de interpretação:
i. A primeira delas era a suprema e irrefutável autoridade das próprias Escrituras, à parte de toda autoridade ou interferência eclesiástica [...]

ii. Segundo, ele afirmou não só a suprema autoridade mas a suficiên­cia da Escritura [...]

iii. Como todos os outros reformadores, ele pôs de lado a mentira estéril do sentido quádruplo [...] "O sentido literal, e apenas ele", disse Lutero, "é a essência total da fé e da teologia cristã". "Tenho observado que todas as heresias e erros se originaram não das simples palavras da Escritura, mas de negligenciar as simples palavras da Escritura, e da afe­tação de metáforas e inferências [...] puramente subjetivos." "Nas escolas dos teólogos é uma regra bem conhecida que a Escritura deve ser enten­dida de quatro maneiras: literal, alegórica, moral e anagógica. No entan­to, se quisermos tratar corretamente as Escrituras, nosso único esforço será obter "unum, simplicem, germanum, et certium sensum literalem". "Cada passagem tem um sentido claro, definido e verdadeiro que lhe é peculiar. Todos os demais são opiniões duvidosas e incertas."

iv. Quase não precisamos dizer, portanto, que Lutero, como a maio­ria dos reformadores, rejeitava a validade da alegorização. Ele negava totalmente a alegação de que se tratava de interpretação espiritual.

v. Lutero também sustentava a natureza compreensível da Escritu­ra... Algumas vezes ele se aproximava do dito moderno de que "a Bíblia deve ser interpretada como qualquer outro livro".

vi. Lutero sustentava, com todo o vigor, e quase pela primeira vez na história, o absoluto e inalienável direito à opinião pessoal com respeito às Escrituras, o qual, ao lado do sacerdócio espiritual de todos os crentes, reside na base de todo o protestantismo.( Ibid., p. 325-30)


Calvino ocupa um lugar inigualável na história da interpretação. A respeito dele, Gilbert escreve:
.. Pela primeira vez em mil anos ele ofereceu um exemplo conspícuo de exposição não-alegórica. E preciso voltar no tempo até as melhores obras da escola de Antioquia para encontrar rejeição tão intensa do método de Filo quanto a que oferece Calvino. Interpretações alegóricas que haviam sido propostas na igreja primitiva e endossadas por expositores ilustres em todos os séculos seguintes, como a interpretação da arca de Noé e da túnica inconsútil de Cristo, são descartadas como lixo. Esse fato, por si só, ofereceria permanente e distinta honra à obra exegética de Calvino. O que o levou a rejeitar a interpretação alegórica como algo particularmen­te satânico, fosse sua formação jurídica em Orléans e em Bourges, fosse sua percepção espiritual, é impossível dizer, mas o fato é claro e constitui a marca mais notável de sua interpretação. (Gilbert, op. cit, p. 209)
Calvino afirma sua posição muito claramente. No comentário a Gálatas, ele escreve: "Saibamos, portanto, que o verdadeiro sentido da Escritura é o sentido natural e evidente; abracemo-lo e permaneçamos nele resolutamente".( John Calvin, Commentary on Galatians, p. 136, ap. Gerrit H. Hospers, The principie of spiritualization in hermeneutics, p. 11) No prefácio a Romanos, Calvino diz: "A primei­ra ocupação de um intérprete é permitir que seu autor diga o que quer dizer, em vez de atribuir ao autor o que pensa que deve dizer". (Ap. Farrar, op. cit., p. 347) Com respeito à contribuição de Calvino, Schaff escreveu:
Calvino é o fundador da exegese histórico-gramatical. Ele defendeu e praticou o sadio princípio hermenêutico de que os autores bíblicos, como todos os escritores sensatos, desejavam transmitir a seus leitores um pen­samento definido em palavras que os leitores fossem capazes de enten­der. Uma passagem pode ter sentido literal ou figurado; não pode, toda­via, ter os dois sentidos ao mesmo tempo. A Palavra de Deus é inesgotá­vel e aplicável a todas as épocas, mas há uma diferença entre explicação e aplicação, e a aplicação deve ser coerente com a explicação. (Philip Schaff, ap. Hospers, op. cit., p. 12.)
Com respeito ao período como um todo, Farrar escreveu:
... os reformadores deram um vigoroso impulso à ciência da interpreta­ção bíblica. Tornaram a Bíblia acessível a todos; dilaceraram e lançaram aos ventos as densas teias da tradição arbitrária, tecidas havia muitos séculos sobre cada livro e sobre cada passagem das Escrituras; colocaram os apócrifos num nível definitivamente inferior ao ocupado pelos livros sagrados; estudaram cuidadosamente as línguas originais; desenvolve­ram o sentido normal, literal e usaram-no para fortalecer e revigorar a vida espiritual. (Farrar, op. cit, p. 357.)
Gilbert resume:
... Deve-se dizer, para crédito do período que estamos estudando, que o tipo comum de exegese nele praticada valorizou o sentido literal do tex­to. As palavras de Richard Hooker (1553-1600) têm ampla aplicação a todo o período. "Considero", disse ele, "a mais infalível regra de exposi­ção das Sagradas Escrituras que, quando uma construção literal faz senti­do, quanto mais o intérprete se afastar da letra do texto, tanto pior será sua interpretação. Nada há mais perigoso que essa arte ilusória que muda o sentido das palavras como a alquimia se propunha a efetuar com a subs­tância dos metais, fazendo de qualquer coisa o que bem entende, e redu­zindo, por fim, toda a verdade a absolutamente nada." Em geral, o exem­plo de Calvino de rejeitar a interpretação alegórica foi seguido pelos prin­cipais teólogos e peritos dos dois séculos seguintes. (Gilbert, op. cit., p. 229-30)
Se alguém deseja voltar aos reformadores para estabelecer sua teolo­gia, precisa também aceitar o método de interpretação sobre o qual re­pousa a teologia dos reformadores.

VII. O Período Pós-Reforma

O período que se seguiu à Reforma foi marcado pela ascensão de homens que seguiram de perto os passos dos próprios reformadores na aplicação do método literal ou histórico-gramatical de interpretação. Farrar escreve:


... Se Lutero foi o profeta da Reforma, Melâncton foi o mestre [...] Zuínglio, com absoluta independência, havia chegado a opiniões sobre esse assun­to que concordavam, em todos os aspectos essenciais, com as de Lutero

[...] Uma vasta quantidade de expositores da Reforma lutaram por espa­lhar as verdades com que tinham entrado em contato por meio dos reformadores suíços e alemães. Bastará aqui mencionar os nomes de Ecolampádio (1581), Bucer (1551), Brenz (1570), Bugenhagen (1558), Musculus (1563), Camerário (1574), Bullinger (1575), Chemnitz (1586) e Beza (1605). Entre todos esses havia um acordo geral de princípios: rejei­ção aos métodos escolásticos, recusa em reconhecer a dominação exclusi­va da autoridade patrística e da tradição da Igreja Romana; repúdio ao até então dominante sentido quádruplo; bloqueio contra a alegoria; estu­do das línguas originais; atenção cerrada ao sentido literal; crença na na­tureza compreensível e suficiente da Escritura; estudo da Escritura como um todo e remissão de todo o seu conteúdo a Cristo... (FARRAR, op., cit., p. 342)


Poderíamos esperar, uma vez que o alicerce para o método literal de interpretação já se havia assentado, que testemunharíamos pleno crescimento da exegese das Escrituras com base em tal alicerce. No entanto, a história da interpretação revela tamanha adesão a credos e a interpretações eclesiásticas, que houve pouco progresso na interpreta­ção sadia das Escrituras durante esse período. (Cf, ibid, p.358-9) Apesar disso, datam da época exegetas e peritos como John Koch, professor em Leyden (1669), John James Wetstein, professor em Basiléia (1754), que advoga­va que os mesmos princípios de interpretação válidos aos livros se apli­cavam também à Escritura, John Albert Bengel (1752) e outros que ad­quiriram renome por suas contribuições para a crítica e a exposição bíblica, os quais prepararam o caminho para exegetas mais recentes como Lightfoot, Westcott, Ellicott e outros.

Um homem de grande influência na sistematização do método li­teral de interpretação foi John Augustus Ernesti, a respeito de quem Terry escreve:


Talvez o nome mais proeminente na história da exegese no século XVIII seja o de John Augustus Ernesti, cuja obra Institutio interpretis Nove Testamenti (Leipzig, 1761), ou Princípios de interpretação do Novo Testamen­to, foi aceita como compêndio de hermenêutica por quatro gerações de estudiosos bíblicos. "Ele é considerado", diz Hagenbach, "o fundador de uma nova escola exegética, cujo princípio era simplesmente que a Bíblia deve ser rigidamente explicada de acordo com sua própria linguagem e, nessa explicação, não pode ser subornada nem pela autoridade externa da igreja, nem por nossas próprias sensações, nem por caprichos alegóricos e irreverentes — algo freqüente entre os místicos— nem, finalmente, por sistema filosófico algum". (Milton S. Terry, Biblical hermeneutics, p. 707.)
A seguinte declaração de Horácio Bonar é considerada uma sínte­se do princípio exegético que veio a ser o alicerce de toda a verdadeira interpretação das Escrituras. Ele diz:
... Sinto maior certeza quanto à interpretação literal de toda a Palavra de Deus —histórica, doutrinária e profética. "Literal, se possível" é, creio eu, a única máxima que o conduzirá com sucesso por toda a Palavra de Deus, do Gênesis ao Apocalipse. (Ap. GIRDLESTONE, Op. cit., p. 179.)
A despeito das algemas que o dogmatismo e o credalismo procuraram impor à interpretação, emergiram desse período certos princípi­os sadios de interpretação que se tornaram a base das grandes obras exegéticas dos séculos seguintes. Esses princípios foram bem resumi­dos por Berkhof:
O começo deste período foi marcado pelo aparecimento de duas es­colas opostas — a Gramatical e a Histórica.

1) A Escola Gramatical — Esta escola foi fundada por Ernesti, que escreveu importante trabalho sobre a interpretação do Novo Testamento, no qual estabelece quatro princípios: (a) O sentido múltiplo da Escritura deve ser rejeitado, e somente se deve conservar o sentido literal; (b) as interpretações ale­góricas devem ser abandonadas, exceto nos casos em que o autor indique o que deseja, a fim de se combinar com o sentido literal; (c) visto que a Bíblia tem o sentido gramatical em comum com outros livros, isto deve ser considerado em ambos os casos; (d) o sentido literal não pode ser determinado por um suposto sentido dogmático.

A Escola Gramatical era essencialmente supernaturalista, prendendo-se "às palavras do texto como legítima fonte de interpretação autênti­ca da verdade religiosa" (Elliott). Mas esse método era unilateral porque servia exclusivamente a uma pura e simples interpretação do texto, que nem sempre é suficiente na interpretação da Bíblia.( Berkhof, op. cit., p. 36-7)
Ao resumir a história da hermenêutica, devemos observar que toda interpretação bíblica começou com a interpretação literal de Esdras. Esse método literal veio a ser o método básico do rabinismo. Foi o método aceito e usado pelos autores do Novo Testamento na interpretação do Antigo Testamento., e foi assim usado pelo Senhor e por Seus apóstolos. Os pais da Igreja utilizaram o método literal até o tempo de Orígenes, quando se adotou o método alegórico, criado para harmonizar a filoso­fia platônica com as Escrituras. A influência de Agostinho trouxe o mé­todo alegórico para a igreja instituída e pôs fim a toda a exegese correta. Tal sistema continuou até a Reforma, ocasião em que o método lite­ral de interpretação foi firmemente estabelecido e, a despeito de tenta­tivas dos diversos segmentos da igreja de ajustar toda a interpretação a algum credo adotado, a interpretação literal permaneceu e tornou-se a base sobre a qual repousa toda a exegese correta.

Conclui-se, com base no estudo da história da hermenêutica, que o método original e aceito de interpretação bíblica foi o método literal, usado pelo Senhor, o maior de todos os intérpretes, e que outros méto­dos foram introduzidos para promover heterodoxia. Portanto, o méto­do literal deve ser aceito como o método básico de interpretação sadia em qualquer campo de doutrina hoje.


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