Manual de Escatologia



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Capítulo 28 - A doutrina bíblica do milênio

Grande parte das passagens proféticas dedica-se ao milênio, desenvol­vendo e demonstrando seu caráter e suas condições, mais que qual­quer outro assunto. Essa era milenar, na qual os propósitos de Deus serão totalmente realizados na terra, exige atenção considerável. Faremos aqui uma tentativa de reconstituir, com base nas próprias Escritu­ras, os fatos e os aspectos essenciais desse reino teocrático.

Embora muito tenha sido escrito sobre o milênio, o que é claramente revelado na Bí­blia é o nosso único guia quanto à natureza e ao caráter desse período.

I. O Milênio e as Alianças de Israel

Muito foi dito anteriormente para mostrar que esse período verá o cumprimento completo de todas as alianças que Deus fez com Israel. É suficiente mostrar aqui, fazendo uso das Escrituras, que o reino terreno é visto como o cumprimento completo dessas alianças, e a era milenar será instituída com base na necessidade de cumprir as alianças.


A. A aliança abraâmica. As promessas da aliança abraâmica a respeito da terra e da descendência são cumpridas na era milenar (Is 10.21,22; 19.25; 43.1; 65.8,9; Jr 30.22; 32.38; Ez 34.24,30,31; Mq 7.19,20; Zc 13.9; Ml 3.16-18). A perpetuidade de Israel, sua posse da terra e sua herança das bênçãos estão diretamente relacionadas ao cumprimento desta aliança.
B. A aliança davídica. As promessas da aliança davídica a respeito do rei, do trono e da casa real são cumpridas pelo Messias na era milenar (Is 11.1,2; 55.3,11; Jr 23.5-8; 33.20-26; Ez 34.23-25; 37.23,24; Os 3.5; Mq 4.7,8). O fato de Israel possuir um reino, governado pelo Filho de Davi, baseia-se nessa aliança davídica.
C. A aliança palestina. As promessas da aliança palestina a respeito da ocupação da terra são cumpridas por Israel na era milenar (Is 11.11,12; 65.9; Ez 16.60-63; 36.28,29; 39.28; Os 1.10-2.1; Mq 2.12; Zc 10.6). Essas referências à ocupação da terra prometem o cumprimento da aliança palestina.
D. A nova aliança. As promessas da nova aliança no tocante a um novo coração, ao perdão dos pecados e à plenitude do Espírito Santo são cumpridas para com a nação convertida na era milenar (Jr 31.31-34; 32.35-39; Ez 11.18-20; 16.60-63; 37.26; Rm 11.26-29). Todas as bênçãos espirituais que Israel recebe são cumprimento dessa aliança.

Observa-se, assim, que a era milenar traz consigo pleno cumpri­mento de todas as promessas de Deus para com a nação de Israel.



II. A Relação de Satanás com o Milênio

Imediatamente após a segunda vinda, Satanás é preso por mil anos. João escreve:

Então, vi descer do céu um anjo; tinha na mão a chave do abismo e uma grande corrente. Ele segurou o dragão, a antiga serpente, que é o diabo, Satanás, e o prendeu por mil anos; lançou-o no abismo, fechou-o, e pôs selo sobre ele, para que não mais enganasse as nações até se completarem os mil anos... (Ap 20.1-3).
Satanás, como deus desta era (2 Co 4.4), vem realizando a sua obra com o fim de derrotar o propósito do plano de Deus. Na era milenar a justiça divina deverá ser demonstrada (Is 11.5; 32.1; Jr 23.6; Dn 9.24). Será também o teste final de Deus para a humanidade nas circunstânci­as ideais. Todos os recursos de tentação serão retirados para que o ho­mem demonstre o que ele de fato é, independentemente da influência satânica.

A fim de que possa haver a manifestação completa da justiça e o teste da humanidade livre da tentação externa, Satanás será afasta­do desta esfera. Logo, na segunda vinda, ele será preso e tirado de cena durante todo o período milenar.



III. A Relação de Cristo com o Milênio


É evidente que não há e nunca haverá um reino teocrático na terra sem a presença pessoal e manifesta do Senhor Jesus Cristo. Toda a era

depende de Seu retorno à terra como prometido. Tudo o que existe no milênio tem origem no Rei revelado.

Como pode a maldição ser anulada, a morte ser derrotada, todo o mal amedrontador pertencente ao homem e à natureza ser eliminado, e gran­des bênçãos ser obtidas? Tudo isso deverá ser concretizado no reino sob o governo do Messias e não o será sem uma portentosa demonstração de poderes sobrenaturais acima de tudo que o mundo já testemunhou, e além do entendimento do homem fraco e mortal com seus poderes limitados. Se há uma verdade distintamente demonstrada nas Escrituras é que esse reino, o tabernáculo de Davi, agora em ruínas, mas por ser gloriosamente reconstruído sob o reino do Filho de Davi, não pode ser manifestado sem a mais maravilhosa demonstração de energia do Todo-Poderoso.(G. N. H. Peters, Theocratic kingdom, ,III, p. 220-1)


O milênio não poderia existir sem a manifestação de Cristo, de quem depende toda a era milenar.
A. Os nomes e títulos aplicados a Cristo no milênio. Alguns aspectos do relacionamento que Cristo mantém para com o milênio são observados nos muitos nomes e títulos a Ele conferidos durante esse período, cada um sugerindo alguns fatos sobre Sua pessoa e obra nesse período.

O Renovo (Is 4.2; 11.1; Jr 23.5; 33.15; Zc 3.8-9; 6.12-13). Scofield comenta:

Um nome de Cristo, usado de quatro maneiras:

1) "O Renovo do Senhor" (Is 4.2), quer dizer, o caráter de Cristo como "Emanuel" (Is 7.14) que será plenamente manifesto ao Israel restaurado e convertido no Seu retorno em glória (Mt 25.31);

2) o "Renovo de Jessé" (Is 11.1; Jr 23.5; 33.15), isto é, o Messias que, "segundo a carne, veio da descendência de Davi" (Rm 1.3) e será revelado na Sua glória terrena como o Rei dos Reis e Senhor dos Se­nhores;

3)"meu servo, o Renovo" (Zc 3.8), a humilhação e obediência até na morte segundo Isaías 52.13-15; 53.1-12; Fp 2.5-8;

4) O "homem cujo nome é Renovo" (Zc 6.12,13), quer dizer, Seu caráter como Filho do homem, o "úl­timo Adão", "o segundo Homem" (1 Co 15.45-47), reinando como Rei-Sacerdote sobre a terra no domínio dado a Adão e por ele perdido.(C. I. Scofield, Reference Bible, p. 716-7)


O Senhor dos Exércitos (Is 24.23; 44.6), o teu Deus (Is 52.7), Senhor, Justiça Nossa (Jr 23.6; 33.16), Ancião de dias (Dn 7.13), o Senhor (Mq 4.7; Zc 14.9), o Altíssimo (Dn 7.22-24), o Filho de Deus (Is 9.6; Dn 3.25; Os 11.1); Jeová (Is 2.2-4; 7.14; 9.6; 12.6; 25.7-10; 33.20-22; 40.9-11; Jr 3.17; 23.5,6; Ez 43.5-7; 44.1,2; Jl 3.21; Mq 4.1-3,7; Zc 14.9,16,17) são nomes que mostram que Aquele que reina é verdadeiramente Deus, de modo que o reino pode ser corretamente chamado teocrático.
O tronco de Jessé (Is 11.1,11), o Filho do homem (Dn 7.13), o servo (Is 42.1-6; 49.1-7; 53.11), Renovo (Is 53.2, Ez 17.22-24) são usados para frisar a humanidade do Messias e Seu direito de reinar sobre o homem por causa de Sua relação com ele.
A autoridade do Messias é designada em títulos como: o Rei (Is 33.17,22; 44.6; 2.2-4; 9.3-7; 11.1-10; 16.5; 24.21-26.15; 31.4-32.2; 42.1-6; 42.13; 49.1-9; 51.4,5; 60.12; Dn 2.44; Ob 17-21; Mq 4.1-8; 5.2-5,15; Sf 3.9,10; 3.18,19; Zc 9.10-15; 14.16,17), o Juiz (Is 11.3,4; 16.5; 33.22; 51.4,5; Ez 34.17,20; Jl 3.1,2; Mq 4.2,3), o Legislador (Is 33.22), o Príncipe Ungido (Dn 9.25,26), Príncipe dos príncipes (Dn 8.25), nos quais Seu direito ao trono e os pode­res reais associados ao trono Lhe são atribuídos.
A obra do Rei como Redentor em trazer salvação ao povo é realçada em denominações como: Redentor (Is 59.20), o sol da justiça (Ml 4.2), o que abre caminho (Mq 2.13), o Pastor (Is 40.10,11; Jr 23.1,3; Ez 34.11-31; 37.24; Mq 4.5; 7.14), Senhor Nossa Justiça (Jr 23.6; 33.16), a Pedra (Is 28.16; Zc 3.9), a Luz (Is 60.1-3). Dessa forma, o Messias, por meio de seus títu­los, é apresentado como o Filho de Deus e Filho do homem que redime e reina através da era milenar.
B. A manifestação de Cristo no milênio. Os escritos proféticos relatam vários ministérios e manifestações associados ao Messias na Sua se­gunda vinda. O fato da segunda vinda é claramente demonstrado (Is 60.2; 61.2; Ez 21.27; Dn 7.22; Hc 2.3; Ag 2.7; Zc 2.8; Ml 3.1). Sua vinda o manifestará como o filho de Abraão (Gn 17.8; Mt 1.1; Gl 3.16), na qual Ele possuirá a Palestina em nome de Deus e instituirá o reino com a descendência de Abraão.

Ele será manifesto como o filho de Davi (Lc 1.32,33; Mt 1.1; Is 9.7), em cuja função, como herdeiro digno do trono, assumirá o trono e nele reinará. Ele será manifesto como o Filho do homem (At 1.11; Jo 5.27) e como tal executará julgamento quando o reino for esta­belecido e através dos tempos. Ele será manifestado como o Rei teocrático de Deus, a fim de ser o Rei da Justiça (Is 32.1), o Rei de Israel (Jo 12.13), o Rei dos reis (Ap 19.16) e o Rei de toda a terra (Zc 14.9; Fp 2.10).

Ele será manifestado como Deus Filho (Is 9.6; Sl 134.3; Hb 1.8-10), a fim de que se possa dizer que o "tabernáculo de Deus [está] com os homens" (Ap 21.3). Nessas manifestações Ele realizará a obra do Redentor (Is 59.20,21; 62.11; Ml 4.2), Juiz (Is 61.2; 62.11; 63.1; Dn 2.44,45; Dn 7.9,10); Galardoador do povo santo (Is 62.12), Mestre (Is 2.3; Zc 8.22), Rei (Is 33.17-22; 40.9-11; 52.7; Dn 2.45; 7.25-27; Mq 5.2-5; Sf 3.15), Profeta (Dt 18.15,18), Legislador (Is 33.22; Gn 49.10), Pastor (Is 40.10,11; 63.1; Jr 23.1,3; Mq 4.5; 7.14).

O milênio será o período da plena manifestação da glória do Se­nhor Jesus Cristo. (Chester Woodring, The millennial glory of Christ, p. 62-134) Haverá a manifestação da glória associada à hu­manidade de Cristo. Haverá glória de um domínio glorioso, no qual Cris­to, em virtude de Sua obediência até a morte, receberá o domínio uni­versal para restabelecer o domínio que Adão perdeu. Haverá um gover­no glorioso, no qual Cristo, como Filho de Davi, receberá poder absolu­to para governar (Is 9.6; Sl 45.4; Is 11.4; Sl 72.4; Sl 2.9).

Haverá a glória de uma herança gloriosa, na qual a terra e a descendência prometida de Abraão são realizadas por meio de Cristo (Gn 17.8; 15.7; Dn 11.16,41; 8.9). Haverá a glória de uma jurisprudência gloriosa, na qual Cristo, como porta-voz de Deus, anuncia a vontade e a lei de Deus por toda a era milenar (Dt 18.18,19; Is 33.21,22; At 3.22; Is 2.3,4; 42.4). Haverá a glória da casa e do trono gloriosos, nos quais Cristo, como filho de Davi, cum­prirá o que foi prometido a Davi (2Sm 7.12-16) no Seu reinado (Is 9.6,7; Lc 1.31-33; Mt 25.21). Haverá a glória do reino glorioso sobre o qual Cristo reinará (Sl 72; Is 11.10; Jr 23.6; Zc 3.10; Is 9.7).

Haverá também a manifestação da glória associada à divindade do Senhor Jesus Cristo. Sua Onisciência é reconhecida (Is 66.15-18). Sua oni­potência é o que sustenta toda aquela era (Is 41.10,17,18; Sl 46.1,5). Ele é adorado como Deus (Sl 45.6; Is 66.23; Sl 86.9; Zc 14.16-19). A justiça será plenamente manifesta (Sl 45.4,7; 98.2; Dn 9.24; Is 1.27; 10.22; 28.17; 60.21; 63.1; Ml 4.2). Haverá completa manifestação da misericórdia divina (Is 63.7-19; 54.7-10; 40.10-13; Os 2.23; Sl 89.3). A bondade divina também será demonstrada por meio dEle (Jr 33.9,15; Zc 9.17; Is 52.7). A vontade de Deus será plenamente revelada pelo Messias (Mt 6.10) e realizada na ter­ra. A santidade de Deus será manifesta por meio do Messias (Is 6.1-3; Ap 15.4; Ez 36.20-23; Is 4.3,4; 35.8-10; Ez 45.1-5; Jl 3.17; Zc 2.12). Haverá a manifestação gloriosa da verdade divina por meio do Rei (Mq 7.20; Is 25.1; 61.8). Dessa maneira, por meio do Rei, haverá completa demonstração dos atributos divinos, a fim de que Cristo seja glorificado como Deus.



IV. O Caráter Espiritual do Milênio

Os amilenaristas exaltam sua opinião sobre o reino como "espiritual" e subestimam o conceito pré-milenarista porque este demanda um cumprimento literal e material das bênçãos terrestres. Um deles diz:

Qual era a natureza do reino que eles anunciaram? [...] todos os dispensacionalistas declaram que o reino oferecido aos judeus por João e por Jesus é um reino semelhante ao de Davi, filho de Jessé...

O reino anunciado por João e por Jesus era principal e essencialmen­te moral e espiritual [...] Ele declarou a Pilatos: "O meu reino não é deste mundo" (Jo 18.36). Se Jesus tivesse vindo para estabelecer um reino como o descrito pelos dispensacionalistas, não poderia ter dito isso a Pilatos. Ou, pelo menos, Suas palavras teriam de ser entendidas como "Meu rei­no não é deste mundo agora", pois de acordo com a opinião dos dispensacionalistas o reino era terreno, o que implicaria a derrota violen­ta da Roma que Jesus teria oferecido aos judeus e entregado [...] se eles estivessem dispostos a receber. (Oswald T. Allis , Prophecy and the church, p. 69-71)


Sustenta-se, então, que os amilenaristas vêem o reino como "espiritu­al" e os pré-milenaristas o vêem apenas como "carnal" ou "material". Tal afirmação não distingue a visão espiritualizada do milênio das rea­lidades espirituais do reino. Embora saliente a multidão de bênçãos materiais oferecidas no milênio, o reino teocrático é essencialmente es­piritual, embora ocorra no plano terreno. Peters declara:

Esse reino, apesar de visível com um domínio mundial, também é neces­sariamente espiritual.

Essa proposição é ainda mais necessária, já que somos acusados de carnalidade grosseira etc, porque insistimos em reter o significado sim­ples designado ao reino nas Escrituras Sagradas. Embora um reino pura­mente material e natural, sem espiritualidade, não seja bíblico, da mesma forma um reino totalmente espiritual, sem a união santificada do materi­al e natural, é totalmente contrário à Palavra de Deus. (Peters, op. cit., III, p. 460)
A. O reino caracterizado pela justiça. Woodring escreve:

... apenas os "justos" são admitidos no reino; "então perguntarão os justos" (Mt 25.37). De Israel diz-se a mesma coisa: "Todos os do teu povo serão justos, para sempre herdarão a terra" (Is 60.21). As portas de Sião estão abertas "para que entre a nação justa, que guarda a fidelidade" (Is 26.2)[...] No milênio, a justiça torna-se sinônimo do Messias. Aos que temem o seu nome "nascerá o sol da justiça, trazendo salvação nas suas asas" (Ml 4.2). Na segunda vinda do Messias, Ele diz: "Faço chegar a minha justiça, e não está longe" (Is 46.13; 51.5). Como sacerdote da ordem de Melquisedeque, Ele será o rei mediador da justiça (Sl 110.4; Hb 7.2) [...]

As palavras-chave do reinado milenar de Cristo são: justiça e paz, sendo a primeira a raiz, e a segunda o fruto [...] O povo do Messias "habi­tará em moradas de paz, em moradas bem seguras e em lugares quietos e tranqüilos" (Is 32.18). Ele fará da paz os inspetores e da justiça, os exatores de Sião (Is 60.17). Pois florescerá em seus dias o justo, e haverá "abundân­cia de paz até que cesse de haver lua" (Sl 72.7). Então será cumprida a profecia em verdade: "Encontraram-se a graça e a verdade, a justiça e a paz se beijaram" (Sl 85.10).

Graças à presença do Messias, Jerusalém será a fonte da qual toda a justiça do milênio emanará em glória. Sua justiça sairá "como um res­plendor, e a sua salvação, como uma tocha acesa. As nações verão a tua justiça, e todos os reis, a tua glória" (Is 62.1c-,2a). Sião será chamada "ci­dade de justiça" (Is 1.26) e estará cheia de direito e justiça (Is 33.5).

A justiça será o termo descritivo que caracterizará o governo do Messias como um todo. Cristo será um rei que rege com justiça (Is 32.1). A justiça será o cinto dos seus lombos (Is 11.5). Ele julgará com justiça os pobres (Is 11.4; cf. Sl 72.104) e, ao julgar e buscar a justiça, Ele será rápido em efetuá-la (Is 16.5). Será proclamado dentre os gentios: "Reina o Se­nhor. Ele firmou o mundo para que não se abale e julga os povos com eqüidade" (Sl 96.10).

Sob o benéfico cuidado de Cristo, os que têm fome e sede de justiça serão saciados (Mt 5.6) e receberão a justiça de Deus por sua salvação (Is 24.5). Eles discernirão entre o justo e o ímpio (Ml 3.18). Israel consagrará uma oferta de justiça (Ml 3.3); então Jeová estará satisfeito com os "sacri­fícios de justiça, dos holocaustos e das ofertas queimadas" (Sl 51.19).

O caráter transformado de Israel será uma resposta espontânea vinda da justiça de Jeová, em gritante contraste com o falso legalismo de dias pas­sados (cf. Mt 5.20). Como a terra produz os seus renovos, "o Senhor Deus fará brotar a justiça e o louvor perante todas as nações" (Is 61.11) a fim de que o povo possa ser chamado carvalhos de justiça, plantados pelo Se­nhor para a sua glória (Is 61.3) .(Woodring, op. cit., p. 113-6)
B. O reino caracterizado pela obediência. Um propósito essencial da criação era estabelecer um reino no qual houvesse obediência completa e voluntária da parte dos súditos de Deus. A árvore foi colocada no jardim como um teste de obediência (Gn 2.16,17). A desobediência veio logo em seguida. Deus não abriu mão de Seu propósito de trazer todas as coisas à Sua sujeição. Paulo declara tal propósito:

Desvendando-nos o mistério da sua vontade, segundo o seu beneplácito que propusera em Cristo, de fazer convergir nele, na dispensação da plenitude dos tempos, todas as cousas, tanto as do céu como as da terra (Ef 1.9,10).


Deus trará todas as coisas à sujeição daquele que disse: "Eis aqui estou para fazer, ó Deus, a tua vontade" (Hb 10.9a).

O cumprimento da vontade de Deus no milênio será muito facilitado por vários motivos:

1) Pelo cumprimento da nova aliança, Israel experimen­tará novo coração e mente para que possa abrigar a lei de Deus em seu interior (Jr 31.33).

2) O Espírito Santo será derramado sobre toda a carne para habitar, encher e ensinar (Jr 31.33,34; cf. JI 2.28-32; Ez 36.25-31).

3) Satanás será aprisionado, os ímpios serão eliminados (Sl 37.9,10; Jr 31.29,30) e os perversos sistemas sociais, religiosos, econômicos e políti­cos do cosmo satânico serão liquidados.

4) Em vez da desunião de Israel, a unanimidade será tanta, que eles verão juntos ao Senhor em Sião (Is 52.8).

5) O conhecimento universal do Senhor eliminará a oposição à von­tade de Deus causada pela ignorância.

6) Haverá ampla submissão dos gentios à autoridade de Cristo (Sl 22.27,28; Ml 1.11) (Ibid., p. 129)


Essa obediência perfeita será outra manifestação do caráter espiritual do milênio.
C. O reino caracterizado pela santidade. Adão, pela criação, recebeu uma inocência inexperiente. Ela se transformaria, sem dúvida, pela obediência ao Senhor. A inocência foi perdida por seu ato de desobedi­ência. E propósito de Deus manifestar santidade nas Suas criaturas no reino.

Os vários aspectos da santidade no milênio são tão extensos que não é possível dar mais que uma breve classificação nesta altura. Acima de tudo, a santidade será a grande característica diferenciadora do povo judeu em todas as categorias da vida nacional, uma "santidade" não própria, mas concedida pelo Messias que está no seu meio e detida por eles graças a uma vida de fé.

Os seguintes fatos são oferecidos na forma de breve reca­pitulação: O Senhor desnudará seu santo braço (revelação do Messias) e conquistará vitória sobre os seus inimigos (Sl 98.1; Is 52;10). A descendên­cia santa será o núcleo da nação judaica restaurada (Is 6.13). Todo o rema­nescente de Sião será chamado santo, sua imundície será lavada (Is 4.3,4). Um caminho de santidade será levantado para permitir que o restante dos resgatados pelo Senhor retornem a Sião (Is 35.8-10). Deus falará em sabedoria, distribuindo a terra ao Seu povo (Sl 60.6). O Senhor dará como herança a Judá sua porção na terra, agora corretamente chamada santa (Zc 2.12), e Jerusalém será santa (JI 3.17). Um sacrifício santo dedicado ao Senhor será especialmente reservado para o santuário e seus ministros (Ez 45.1-5). O Senhor exaltará Seu santo monte (Sl 48.1; Jr 31.23; Is 27.13) e estabelecerá Sua santa morada, a lei que será santa (Ez 43.12). Ele será Sua habitação para as plantas de Seus pés a fim de que Israel não conta­mine mais o santo nome (Ez 43.7), e todas as nações da terra saberão que o Senhor, o Santo, está em Israel (Ez 39.7). Cristo reinará sobre as nações do trono de Sua santidade (Sl 47.8,9), de acordo com o santo juramento selado na aliança de Davi (Sl 89.35,36). Os sacerdotes ensinarão ao povo a diferença entre o santo e o profano (Ez 44.23) e aparecerão perante o Mes­sias com ornamentos santos (Sl 110.3). Naquele dia nas campainhas dos cavalos estará gravado "Santo ao Senhor", e todas as panelas na casa do Senhor serão como as bacias diante do altar (Zc 14.20,21). (Ibid., p. 132-4)
D. O reino caracterizado pela verdade. É motivo de julgamento o fato de o homem ter mudado "a verdade de Deus em mentira" (Rm 1.25). Por intermédio do Messias, que foi capaz de dizer "Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida" (Jo 14.6), haverá grande manifestação da verdade no milênio, o que demonstra o caráter essencialmente espiritual do reino.

A seguir se oferece um breve resumo da verdade milenar: O ímpio pe­queno chifre, que deitou por terra a verdade (Dn 8.12), será eliminado por Cristo em Sua cavalgada triunfante em prol da verdade, da mansidão e da justiça (Sl 45.4). Peters diz: "A verdade realmente triunfará, mas não por meio do homem. O próprio Jesus, a verdade, virá para vindicá-la" [Peters, op. cit. III, p. 258].

Em vez de uma confiança desorientada no ho­mem pecador, o remanescente se estribará "no Senhor, o Santo de Israel" (Is 10.20), e Ele será o seu Deus em verdade e justiça (Zc 8.8; cf. Is 65.16). Jeová desposará Israel em fidelidade, e eles O reconhecerão (Os 2.20). Cristo, o servo de Jeová, promulgará o direito em verdade (Is 42.3) e reve­lará a Israel abundância de paz e verdade (Jr 33.6). A verdade se juntará à misericórdia e brotará da terra (Sl 85.10,11). Então Israel dirá: "Lembrou-se da sua misericórdia e da sua fidelidade para com a casa de Israel" (Sl 98.3). O trono será estabelecido, e Cristo se assentará nele em verdade no tabernáculo de Davi (Is 16.5). A fidelidade será o cinto de seus lombos (Is 11.5), e Ele julgará os povos do mundo com eqüidade (Sl 96.10).

A fideli­dade de Jeová assegurará que, na presença dAquele que outrora foi des­prezado, os reis o verão e os príncipes se levantarão e o adorarão (Is 49.7). Jerusalém será chamada cidade fiel (Is 1.26), pois "Assim diz o Senhor: Voltarei para Sião e habitarei no meio de Jerusalém; Jerusalém chamar-se-á a cidade fiel" (Zc 8.3). (Ibid., p. 138-40.)


E. O reino caracterizado pela plenitude do Espírito Santo. Na institui­ção do reino teocrático, será cumprida a profecia de Joel:

E acontecerá, depois, que derramarei o meu Espírito sobre toda a carne; vossos filhos e vossas filhas profetizarão, vossos velhos sonharão, e vos­sos jovens terão visões; até sobre os servos e sobre as servas derramarei o meu Espírito naqueles dias (Jl 2.28,29).


Walvoord escreve a respeito dessa experiência:

As profecias que retratam o milênio [...] unem-se no seu testemunho de que a obra do Espírito Santo nos crentes será mais abundante e terá maior ma­nifestação no milênio do que em qualquer outra dispensação. As Escrituras evidenciam que todos os crentes serão habitados pelo Espírito Santo no milênio assim como são na presente era (Ez 36.27; 37.14; cf. Jr 31.33).

O fato da presença habitadora do Espírito Santo é revelado como parte da gloriosa restauração de Israel descrita em Ezequiel 36.24ss. Em Ezequiel 37.14, declara-se: "Porei em vós o meu Espírito, e vivereis, e vos estabelecerei na vossa própria terra...".

A plenitude do Espírito Santo será comum no milênio, em contraste com sua raridade em outros tempos, e será manifesta na adoração, no louvor ao Senhor e na obediência espontânea a Ele, bem como no poder espiritual e na transformação interior (Is 32.15; 44.3; Ez 39.29; Jl 2.28,29).

Em contraste com a apatia espiritual, a frieza e o mundanismo do presen­te, haverá fervor espiritual, amor a Deus, alegria santa, entendimento uni­versal, verdade espiritual e uma maravilhosa comunhão entre os santos [...] A ênfase recairá na justiça da vida e na alegria do espírito. (John E Walvoord, The Holy Spirit, p. 233-4)
Peters observa corretamente a relação da plenitude do Espírito com o caráter espiritual desta era. Ele escreve:

O incrível e surpreendente derramamento do Espírito Santo como apresentado nas descrições do milênio [...] tão poderoso na sua transformação, glorifi­cação e concessão de dons miraculosos para os santos; tão penetrante na nação judia e a favor dela que todos serão justos, do menor ao maior; alcançando os gentios de tal modo que eles se regozijarão na luz concedi­da; e tão abrangente na sua operação que toda a terra será coberta de glória — isso, junto com os magníficos retratos do milênio e das eras sub­seqüentes, é tão sublime, acompanhado ainda da habitação, moradia e comunhão divina, que ninguém pode contemplá-lo sem ser profunda­mente movido pela demonstração da espiritualidade. (Peters, op. cit., III, p. 465.)


Devemos observar, então, que a marcante caracterização do milênio é sua natureza espiritual. Certamente um reino terrestre, mas espiritual em seu caráter.

V. Condições Existentes no Milênio


Grande parte das Escrituras dedica-se à declaração das bênçãos e da glória derramadas na terra pela beneficência do Senhor Jesus Cristo durante o reino. Muitas delas foram mencionadas anteriormente, mas um esboço das condições na terra demonstrará a "grandeza do reino" (Dn 7.27).



A. Paz. O término da guerra pela unificação dos reinos do mundo sob o reinado de Cristo, juntamente com a prosperidade econômica resultante, visto que as nações não precisam dedicar grandes propor­ções de dinheiro a armamentos, é um dos temas principais dos profe­tas. A paz nacional e individual é fruto do reino do Messias (Is 2.4; 9.4-7; 11.6-9; 32.17,18; 33.5,6; 54.13; 55.12; 60.18; 65.25; 66.12; Ez 28.26; 34.25,28; Os 2.18; Mq 4.2,3; Zc 9.10).
B. Alegria. A plenitude da alegria será marca característica da era milenar (Is 9.3,4; 12.3-6; 14.7,8; 25.8,9; 30.29; 42.1,10-12; 52.9; 60.15; 61.7,10; 65.18,19; 66.10-14; Jr 30.18,19; 31.13,14; Sf 3.14-17; Zc 8.18,19; 10.6,7).
C. Santidade. O reino teocrático será um reino santo, no qual a san­tidade é manifesta por meio do Rei e de seus súditos. A terra será santa, a cidade será santa, o templo será santo e os súditos serão santos no Senhor (Is 1.26,27; 4.3,4; 29.18-23; 31.6,7; 35.8,9; 52;1; 60.21; 61.10; Jr 31.23; Ez 36.24-31; 37.23,24; 43.7-12; 45.1; Jl 3.21; Sf 3.11,13; Zc 8.3; 13.1,2; 14.20,21).
D. Glória. Será um reino glorioso, no qual a glória de Deus encon­trará plena manifestação (Is 24.23; 4.2; 35.2; 40.5; 60.1-9).
E. Consolo. O Rei ministrará pessoalmente a todas as necessidades, a fim de que haja pleno consolo naquele dia (Is 12.1,2; 29.22,23; 30.26; 40.1,2; 49.13; 51.3; 61.3-7; 66.13,14; Jr 31.23-25; Sf 3.18-20; Zc 9.11,12; Ap 21.4).
F. Justiça. Haverá administração de justiça perfeita a cada indiví­duo (Is 9.7; 11.5; 32.16; 42.1-4; 65.21-23; Jr 23.5; 31.23; 31.29,30).
G. Pleno conhecimento. O ministério do Rei levará os súditos do rei­no ao pleno conhecimento. Sem dúvida haverá um ensinamento sem paralelo do Espírito Santo (Is 11.1,2,9; 41.19,20; 54.13; Hc 2.14).
H. Instrução. Esse conhecimento será dado pela instrução que ema­na do Rei (Is 2.2,3; 12.3-6; 25.9; 29.17-24; 30.20,21; 32.3,4; 49.10; 52.8; Jr 3.14,15; 23.1-4; Mq 4.2).
I. A retirada da maldição. A maldição original colocada sobre a cria­ção (Gn 3.17-19) será eliminada, de modo que haverá produtividade abundante na terra. A criação animal será transformada, animais noci­vos perderão o veneno e a ferocidade (Is 11.6-9; 35.9; 65.25).
J. A doença será eliminada. O ministério de curas do Rei será obser­vado em toda a era, assim a doença e até mesmo a morte, exceto como medida de castigo de pecado público, serão eliminadas (Is 33.24; Jr 30.17; Ez 34.16).
L. Cura dos deformados. Acompanhando esse ministério haverá cura de toda a deformidade na instituição do milênio (Is 29.17-19; 35.3-6; 61.1,2; Jr 31.8; Mq 4.6,7; Sf 3.19).
M. Proteção. Haverá uma obra sobrenatural de preservação da vida na era milenar por intermédio do Rei (Is 41.8-14; 62.8,9; Jr 32.27; 23.6; Ez 34.27; Jl 3.16,17; Am 9.15; Zc 8.14,15; 9.8; 14.10,11).
N. Liberdade em relação à opressão. Não haverá opressão social, polí­tica nem religiosa naquele dia (Is 14.3-6; 42.6,7; 49.8,9; Zc 9.11,12).
O. Ausência de imaturidade. A idéia parece ser de que não haverá tragédias de corpos e mentes fracas e débeis naquele dia (Is 65.20). A longevidade será restaurada.
P. Reprodução dos povos vivos. Os santos que entrarem no milênio com seus corpos naturais terão filhos durante o período. A população da terra aumentará. Os nascidos no milênio ainda possuirão a natureza pecaminosa; logo, a salvação será necessária (Jr 30.20; 31.29; Ez 47.22; Zc l0.8).
Q. Trabalho. O período não será caracterizado por inatividade, mas haverá um sistema econômico perfeito, no qual as necessidades do

homem serão abundantemente providas pelo seu trabalho naquele sis­tema, sob a direção do Rei. Haverá uma sociedade plenamente produ­tiva, suprindo as necessidades dos súditos do Rei (Is 62.8,9; 65.21-23; Jr 31.5; Ez 48.18,19). A agricultura bem como a manufatura proverão em­pregos.


R. Prosperidade econômica. A perfeita situação de trabalho trará uma economia abundante, de modo que não haverá falta ou necessidade (Is 4.1; 35.1,2; 30.23-25; 62.8,9; 65.21-23; Jr 31.5,12; Ez 34.26; Mq 4.1,4; Zc 8.11,12; 9.16,17; Ez 36.29,30; Jl 2.21-27; Am 9.13,14).
S. Aumento da luz. Haverá aumento da luz solar e lunar nessa era. O aumento de luz provavelmente será a causa do aumento da produ­ção na terra (Is 4.5; 30.26; 60.19,20; Zc 2.5).

T. Língua unificada. As barreiras lingüísticas serão desfeitas, a fim de que haja livre comunicação social (Sf 3.9).
U. Adoração unificada. Todo o mundo se unirá na adoração a Deus e ao Messias (Is 45.23; 52.1,7-10; 66.17-23; Zc 13.2; 14.16; 8.23; 9.7; Sf 3.9; Ml 1.11; Ap 5.9-14).
V. A presença manifesta de Deus. A presença de Deus será plenamen­te reconhecida e a comunhão com Ele será experimentada em uma di­mensão sem igual (Ez 37.27,28; Zc 2.2,10-13; Ap 21.3).
X. A plenitude do Espírito. A presença e a capacitação divina serão a experiência de todos que estiverem sujeitos à autoridade do Rei (Is 32.13-15; 41.1; 44.3; 59.19,21; 61.1; Ez 36.26-27; 37.14; 39.29; Jl 2.28,29; Ez 11.19,20).
Z. A perpetuidade do estado milenar. O que caracteriza a era milenar não é visto como temporário, mas eterno (Jl 3.20; Am 9.15; Ez 37.26-28; Is 51.6-8; 55.3,13; 56.5; 60.19,20; 61.8; Jr 32.40; Ez 16.60; 43.7-9; Dn 9.24; Os 2.19-23).
A grande diversidade dos domínios nos quais as bênçãos da pre­sença do Rei são sentidas é, assim, claramente percebida.

VI. A Duração do Milênio

As Escrituras ensinam que o reino sobre o qual Cristo reinará en­tre a primeira e segunda ressurreição tem a duração de mil anos.

Então, vi descer do céu um anjo; tinha na mão a chave do abismo e uma grande corrente. Ele segurou o dragão, a antiga serpente, que é o diabo, Satanás, e o prendeu por mil anos; lançou-o no abismo, fechou-o e pôs selo sobre ele, para que não mais enganasse as nações até se completarem mil anos. Depois disto, é necessário que ele seja solto pouco tempo. Vi também tronos, e nestes sentaram-se aqueles aos quais foi dada autoridade de julgar.

Vi ainda as almas dos decapitados por causa do testemunho de Jesus, bem como por causa da palavra de Deus, tantos quantos não adoraram a besta, nem tampouco a sua imagem e não receberam a marca na fronte e na mão; e viveram e reinaram com Cristo durante mil anos. Os restantes dos mortos não reviveram até que se completassem os mil ano s

Esta é a primeira ressurreição. Bem-aventurado e santo é aquele que tem parte na primeira ressurreição; sobre esses a segunda morte não terá au­toridade; pelo contrário, serão sacerdotes de Deus e de Cristo, e reinarão com ele os mil anos (Ap 20.1-6).
Mesmo os que negam a literalidade do período de mil anos geralmente afirmam que os elementos anjo, céu, abismo, Satanás, nações e ressur­reições mencionados neste capítulo são literais. Seria um engano acei­tar a literalidade desses e negar a literalidade do elemento tempo. Alford diz:

Os que viveram ao lado dos apóstolos e de toda a igreja por 300 anos compreenderam-nos no seu sentido simples e literal; é estranho, hoje em dia, ver expositores que estão dentre os primeiros a reverenciar a antigüi­dade, jogando de lado o exemplo mais convincente de consenso presente na antigüidade primitiva. Com respeito ao texto em si, nenhum trata­mento legítimo dele extrairá o que se conhece como a interpretação espi­ritual agora em voga. (Henry Alford, The Greek testament, IV, p. 732.)


Seis vezes nessa passagem se declara que o reino milenar de Cristo continuará por mil anos.

Levantou-se uma questão a respeito da posição pré-milenarista de que as Escrituras ensinam que Cristo reinará num reinado sem fim. Isto é dito em 2Samuel 7.16,28,29; Salmos 89.3,4,34-37; 45.6; 72.5,17; Isaías 9.6,7; 51.6,8; 55.3,13; 56.5; 60.19,20; 61.8; Jeremias 32.40; 33.14-17,20,21; 37.24-28; Ezequiel 16.60; 43.7-9; Daniel 7.13,14,27; 9.24; Oséias 2.19; Joel 3.20; Amós 9.15; Lucas 1.30-33; I Timóteo 1.17; Apocalipse 11.15. O amilenarista vê um conflito aqui e insiste em que a eternida­de do reino de Cristo não permite espaço para um reinado de mil anos na terra. O motivo pelo qual Calvino rejeitava a opinião pré-milenarista era o seu conceito de que um reinado de mil anos anularia o reinado eterno de Cristo.(John Calvin, Institutes of the Christian religion, II, p. 250-1) Se os pré-milenaristas limitassem o rei­nado de Cristo a mil anos, a afirmação de que "sua ficção é muito pueril para necessitar ou merecer refutação" (Ibid.) seria verdadeira. Con­tudo, não é o caso.

Uma passagem importante que contribui para esse debate é ICoríntios 15.24-28.

E, então, virá o fim, quando ele entregar o reino ao Deus Pai, quando houver destruído todo principado, bem como toda potestade e poder. Porque convém que ele reine até que haja posto todos os inimigos debai­xo dos pés. O último inimigo a ser destruído é a morte. Porque todas as cousas sujeitou debaixo dos pés. E, quando diz que todas as cousas lhe estão sujeitas, certamente, excluiu aquele que tudo lhe subordinou. Quan­do, porém, todas as cousas lhe estiverem sujeitas, então, o próprio Filho também se sujeitará àquele que todas as cousas lhe sujeitou, para que Deus seja tudo em todos.


Nessas palavras o apóstolo declara o propósito último do reino teocrático: "que Deus seja tudo em todos". Isso mostra a realização ab­soluta do propósito original no estabelecimento do reino teocrático, "preparado [...] desde a fundação do mundo" (Mt 25.34). Uma pará­frase dos versículos acima deixará mais claro o pensamento progres­sivo de Paulo: "O Pai colocou tudo debaixo dos pés de Cristo. (Mas, quando o Pai diz que todas as coisas são postas debaixo dos pés de Cristo, é evidente que o próprio Pai é omitido dessa sujeição, visto que o Pai instituiu a sujeição.) E quando todas as coisas forem defini­tivamente sujeitas a Cristo, então o Filho também se sujeitará ao Pai, que pôs todas as coisas sob Cristo, para que Deus seja tudo em to­dos". O meio pelo qual todas as coisas são sujeitas a Deus, a fim de que Ele se torne tudo em todos, é que Cristo une Sua autoridade como Rei com a autoridade do Pai depois de ter "destruído todo principa­do, bem como toda potestade e poder" (1 Co 15.24).

O propósito origi­nal de Deus era manifestar Sua autoridade absoluta e isso é realizado quando Cristo une a teocracia terrena com o reino eterno de Deus. Dessa maneira, embora o governo teocrático terreno de Cristo seja limitado por mil anos, tempo suficiente para Deus manifestar a per­feita teocracia na terra, seu reinado é eterno. Essa linha de pensamen­to é defendida por Peters, que diz:

Há apenas uma passagem nas Escrituras que deve ensinar o fim do reino distintivamente messiânico, ICoríntios 15.27,28. Qualquer opinião que seja superposta a esses versículos ou deles extraída, quase todas [...] ad­mitem, seja qual a for a entrega referida, que Jesus Cristo ainda reina, ou como Deus, com a humanidade subordinada, ou como Deus-homem [...] Na linguagem de Van Falkenburg: "Assim como o Pai foi omitido quan­do todas as coisas foram colocadas debaixo do Filho, Ele também será omitido quando todas as coisas forem subjugadas a Ele.

Parece, então, que essa passagem nem sequer sugere que haverá término do reino de Cristo, ou que Ele jamais entregará seu reino ao Pai. O domínio certamen­te será resgatado de seus inimigos e restaurado à Divindade, mas não em sentido genérico, pois Seu domínio será um domínio eterno, e Seu reino não terá fim". Storr [...] defende que "o governo mencionado no versículo 24, que será por Ele restaurado a Deus Pai, não deve significar o governo de Cristo, mas o de todo poder inimigo, que é evidentemente declarado como destruído, para que o poder seja restaurado a Deus" — ele ainda acrescenta verdadeira e vigorosamente que [...] "o governo é restaurado a Deus quando ele é restaurado a Cristo". Desse modo o trecho para eles está de acordo com Apocalipse 11.15: "O reino do mundo se tornou de nosso Senhor e do seu Cristo", e, quando isso tiver terminado, Pai e Filho estarão unidos nessa ordem teocrática: "Ele reinará pelos séculos dos sé­culos" [...] A honra de ambos, Pai e Filho, é identificada com a perpetui­dade do reino teocrático, pois ele é tanto o reino do Pai quanto o reino do Filho — já que existe entre eles a união mais perfeita, constituindo uma unidade de governo e de domínio. (Peters, op. cit., n, p. 634-6)


Chafer escreve sobre a questão da entrega da autoridade do Filho ao Pai:

A entrega a Deus de um reino perfeito não implica a liberação da autori­dade por parte do Filho. A verdade declarada [em I Coríntios 15.27,28] é que por fim o reino é plenamente restaurado — o reino de Deus para Deus. A distinção a ser notada repousa entre a apresentação ao Pai de uma au­toridade restaurada e a suposta abolição do trono por parte do Filho. Esta última não é necessária nem sugerida no texto.

O quadro apresentado em Apocalipse 22.3 é o da Nova Jerusalém no estado eterno, e declara-se que "nela, estará o trono de Deus e do Cordeiro". A tradução na versão atua­lizada de lCoríntios 15.28 não é clara: "Quando, porém, todas as cousas lhe estiverem sujeitas, então, o próprio Filho também se sujeitará àquele que todas as cousas lhe sujeitou, para que Deus seja tudo em todos". A declaração deveria significar que, quando tudo tiver sido sujeitado e a autoridade divina for restaurada completamente, o Filho, que reinou com a autoridade do Pai por mil anos e derrotou todos os inimigos, continuará reinando sob a mesma autoridade do Pai, tão sujeito como sempre à Pri­meira Pessoa.

Esse significado mais esclarecido do texto retira a hipótese de conflito entre um reino eterno e o suposto reino limitado de Cristo; como afirmado em outros lugares, Ele reinará no trono de Davi para sem­pre. (Lewis Sperry Chafer, Systematic theology, v, p. 373-4)


McClain esboça a consumação desse plano como se segue:

1. Quando o último inimigo de Deus for derrotado pelo nosso Senhor, como o Rei Mediatário, o propósito do reino mediatário será cumprido (1 Co 15.25,26).

2. Nesse momento Cristo entregará a Deus o reino mediatário, que se fundirá ao reino eterno, a fim de que o reino mediatário se perpetue, mas sem ter uma identidade separada (1 Co 15.24,28).

3. Isso não significa o fim do governo do Senhor. Ele apenas deixa de reinar como Rei Mediatário. Mas, como Filho eterno, segunda pessoa do único e verdadeiro Deus, Ele compartilha o trono com o Pai no reino final (Ap 22.3-5; cf. 3.21). (Alva J. McClain, The greatness of the kingdom, anotações de sala de aula não publicadas, p. 31)


Com o estabelecimento da teocracia na terra por mil anos, sob o Rei Messiânico teocrático, Deus cumpre o propósito de demonstrar Seu governo na esfera em que Sua autoridade foi desafiada. Fundindo a teocracia terrena com o reino eterno, a soberania eterna de Deus é estabelecida. Esse era o propósito de Deus ao planejar o reino teocrático e desenvolvê-lo por sucessivos estágios ao longo da história até que ele alcance o clímax no plano na teocracia sob o Cristo entronizado no mi­lênio. Essa autoridade, que Satanás desafiou, Cristo demonstra perten­cer apenas a Deus. O direito de Deus de governar é eternamente vindicado.

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