Manual de Escatologia



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Capítulo 30 - A adoração no milênio

A teocracia restaurada é marcada pela adoração ao Senhor Jesus Cristo (Is 12.1-6; 25.1-26.19; 56.7; 61.10,11; 66.23; Jr 33.11,18,21,22; Ez 20.40,41; 40.1-46.24; Zc 6.12-15; 8.20-23; 14.16-21). "E será que [...] virá toda a car­ne a adorar perante mim, diz o Senhor" (Is 66.23).



I. O Templo no Milênio

Grande parte da profecia de Ezequiel (40.1-46.24) dedica-se ao tem­plo; sua estrutura, seu sacerdócio, seu ritual e seu ministério. Várias opiniões têm sido apresentadas a respeito dessa importante profecia. Gray esboça as seguintes opiniões:

Existem cinco interpretações desses capítulos:

1) Alguns acham que essas passagens se referem ao templo de Jeru­salém antes do cativeiro babilônico, e o propósito é preservar a sua me­mória. Mas a objeção é que tal memória é desnecessária em razão dos relatos de Reis e de Crônicas; além disso, a menção não é verdadeira por­que não está de acordo com o registro dos livros citados.

2) Alguns pensam que os capítulos dizem respeito ao templo em Jerusalém depois do retorno dos setenta anos na Babilônia, mas isso não pode ser verdade, porque existem mais contrastes do que semelhanças entre o templo aqui mencionado e aquele.

3) Alguns acreditam que os capítulos se referem ao templo ideal que os judeus deveriam ter construído depois dos setenta anos de cativeiro, mas que nunca realizaram. Mas isso rebaixa o caráter da Palavra divina. Por que essa profecia de Ezequiel seria dada se ela nunca viria a ser cumprida?

4) Alguns consideram que o templo de Ezequiel simboliza as bên­çãos espirituais da igreja no presente. Mas isso é improvável, porque mes­mo os que defendem essa teoria não conseguem explicar o simbolismo do qual estão falando. Além do mais, mesmo como simbolismo, ficam de lado vários aspectos importantes do cristianismo, como a expiação e a intercessão do sumo sacerdote.

5) A última opinião é que temos aqui uma previsão do templo construído na era milenar. Essa parece ser uma seqüência adequada e inteligente às profecias precedentes. ( James M. Gray, Chrístian worker's commentary, p. 265-6)


Embora as opiniões de Gray declaradas anteriormente já venham se­guidas de contestação, Gaebelein responde às opiniões antiliterais mais completamente. Sobre a perspectiva que vê esses capítulos da profecia de Ezequiel cumpridos no retorno dos judeus da Babilônia, ele escreve:

O templo que o remanescente construiu não corresponde de maneira ne­nhuma à magnífica estrutura que Ezequiel observou em sua visão. O fato é que, se esse templo for uma construção literal (como é assegurado), ele nunca foi erguido. Além disso, é expressamente declarado que a glória do Senhor retornou ao templo e Ele ali habitou; a mesma glória que Ezequiel tinha visto partindo do templo e de Jerusalém.

Mas a glória não retornou ao segundo templo. Nenhuma nuvem de glória encheu aquela casa. Além disso, não se menciona nenhum sumo sacerdote na adoração do templo descrito por Ezequiel, mas depois do retorno da Babilônia os judeus tiveram sumos sacerdotes novamente. O rio de águas curativas que flui do templo conforme visto por Ezequiel não pode de forma algu­ma ser aplicado à restauração do cativeiro babilônico. (Arno C. Gaebelein, The prophet Ezekiel, p. 272)
O mesmo autor rejeita por ser indigna a explicação de que a visão é fruto da imaginação do profeta e contesta a idéia de que o trecho deva ser aplicado simbolicamente à igreja:

Esse é a mais fraca e, contudo, a mais aceita das explicações. Mas sua teoria não fornece uma exposição do texto; é vaga e rica em aplicações extrava­gantes, enquanto a maior parte dessa visão não é explicada mesmo no seu significado alegórico, pois ela evidentemente não tem tal significado. (Ibid., p. 272-3.)


Sua conclusão sobre qual é o método de interpretação dessas palavras é a seguinte:

A verdadeira interpretação é a literal, que encara os capítulos como uma profecia ainda não realizada, por cumprir-se quando Israel for restaurado pelo Pastor e Sua glória for mais uma vez manifesta em meio ao povo. A grande construção revelada nessa visão profética passará a existir, e tudo será cumprido.(Ibid., p. 273)


Unger também conclui: "O templo de Ezequiel é um santuário li­teral e futuro a ser construído na Palestina como esboçado durante o milênio". (Merrill F. Unger, The temple vision of Ezekiel, Bibliotheca Sacra, 105:423. Oct. 1948)

O local do templo na terra é claramente apresentado nas Escrituras.

O templo em si será localizado no meio desse quadrado [a região sagra­da] (e não na cidade de Jerusalém), sobre uma montanha alta, que será miraculosamente preparada para esse propósito quando o templo for er­guido. Esse será o "monte da casa de Jeová", estabelecido no "topo dos montes" e "exaltado acima dos montes", ao qual afluirão todas as nações (Is 2.4; Mq 4.1-4; Ez 37.26). Ezequiel retrata isso no capítulo 37, versículo 27: "O meu tabernáculo estará com ["acima" ou "sobre"] eles...". O profe­ta vê a magnífica estrutura numa grande elevação que contém majestosa visão de toda a nação ao seu redor. (Ibid., 205:428-9)
A. Os detalhes do templo. O profeta Ezequiel nos dá inúmeros deta­lhes a respeito desse templo que se tornará o centro da terra milenar. (Cf. Ibid., 206:48-57.) Os portões e os pátios que cercam o templo são os primeiros a ser des­critos (Ez 40.5-47). Toda a área é cercada por um muro (40.5) que o isola daquilo que o profanaria. O pátio exterior é descrito (40.6-27) como o local em que o povo se reúne. Há três portões de acesso ao pátio, um dos quais, construído como todos os outros, é o portão do oriente (40.6-16), uma estrutura de 25 por 50 côvados (40.21), por meio do qual a glória shekinah entra no templo (43.1-6), que se mantém fechado (44.2-3).

Existe um portão ao norte (40.20,23) e outro ao sul (40.24-27); a en­trada de cada um possui sete degraus (40.26), mas o do ocidente não possui degraus (40.24). Anexadas a cada portão existem seis câmaras pequenas, três de cada lado (40.7-10). Ao redor do pátio externo exis­tem trinta câmaras, cinco de cada lado dos portões, organizadas em torno dos muros norte, leste e sul (40.17-19). Antes dessas câmaras há um pavimento (40.17-18) que se estende em torno dos três lados da área.

O profeta em seguida descreve o pátio interior (40.28-47), área de cem côvados de cada lado (40.47), onde ministram os sacerdotes. Exis­tem três portões, cada um diretamente oposto aos portões do muro ex­terior e cem côvados para dentro da muralha externa, por meio dos quais se tem acesso ao pátio interior; um portão fica ao sul (40.28-31), outro a leste e outro ao norte (40.32-37). Chega-se a essa área do pátio interno por oito degraus (40.37), de modo que ele fica elevado em rela­ção ao pátio exterior. Adjacente ao portão norte existem oito mesas para preparação do sacrifício (40.40-43). E, dentro do pátio externo, mas fora do pátio interno, existem câmaras para os sacerdotes ministrantes (40.44-46). O centro dessa área é ocupado por um altar (40.47; 43.13-17) em que os sacrifícios são oferecidos.

Ezequiel descreve então o próprio templo (40.48-41.4). Descreve primeiramente o alpendre ou vestíbulo do templo (40.48,49), que mede 20 por 11 côvados. O vestíbulo tem dois grandes pilares (40.49), e o acesso a ele é feito por uma escada (40.49), de modo que essa área é elevada em relação às outras. Esse vestíbulo conduz para dentro do "templo", onde fica o Lugar Santo, uma área de 40 por 20 côvados (41.2), na qual há uma mesa de madeira (41.22). Além disso, existe a parte interior do templo, o Santo dos Santos, uma câmara de 20 por 20 côvados (41.3-4).

Cercando a parede externa do edifício há câmaras, com três andares de altura (41.5-11), trinta câmaras por andar. O uso de tais câmaras não é descrito pelo profeta. O templo é cercado por uma área de 20 a 100 côvados, denominada área separada (41.12-14), que circunda o templo por todos os lados, exceto na parte leste, onde se localiza o vestíbulo. A seguir é descrito o templo propriamente dito (41.15-26). Ele é apainelado com madeira (41.16) e ornamentado com palmeiras e querubins (41.18). Existem duas portas dentro do santuário (41.23-26). É importante notar que em toda a descrição não se faz menção à arca, nem ao propiciatório, ao véu, aos querubins acima do propiciatório ou às tábuas de pedra.

O único móvel descrito é a mesa ou altar de madei­ra (41.22) que corresponde à mesa dos pães da proposição que está pe­rante o Senhor. Uma construção separada também está incluída na área do templo, localizada no lado oeste do claustro (41.12), áreas onde eram preparados os sacrifícios (46.19,20) e áreas nos quatro cantos onde havia um pátio em que se preparavam os sacrifícios para o povo (46.21-24).

A profecia oferece uma extensa descrição do trono (43.7-12), que parece ser o próprio centro de autoridade. A descrição do altar é deta­lhada (43.12-18), seguida de um relato das ofertas que serão feitas (43.19-27). O ministério dos sacerdotes é esboçado (44.9-31), e todo o ritual de adoração é descrito (45.13-46.18). A visão chega ao clímax com a descrição do rio que flui do santuário (47.1-12; cf. Is 33.20,21; Jl 3.18; Zc 14.8). Esse rio flui do sul do templo através da cidade de Jerusalém e depois se divide, correndo em direção ao mar Morto e ao mar Mediterrâneo, fornecendo vida ao longo das margens.
B. O propósito do templo. Unger arrola cinco propósitos que serão realizados no templo. Ele diz que ele é erguido:

1) Para demonstrar a santidade de Deus.

[...] [a] infinita santidade da natureza e do governo de Jeová [...] ti­nha sido ultrajada e questionada pela idolatria e rebelião do povo [...]

Isso provocou a completa exposição, acusação e julgamento da pe­caminosa nação de Israel [...] juntamente com os pronunciamentos de juízo sobre as perversas nações vizinhas [...] Isso foi seguido pela demonstra­ção da graça de Deus em restaurar a Si mesmo a nação pródiga [...]


2) Para prover uma habitação para a glória divina.

[...] "Este é o lugar do meu trono, e o lugar das plantas dos meus pés, onde habitarei no meio dos filhos de Israel para sempre" (43.7) [...]
3) Para perpetuar o memorial do sacrifício.

Não é o sacrifício, é claro, com o propósito de obter salvação, mas o sacrifício comemorativo de uma salvação já plenamente realizada, ofere­cido na presença da glória revelada de Jeová [...]


4) Para prover o centro do governo divino.

Quando a glória divina passa a habitar no templo, a proclamação não se resume ao fato de que o templo é a habitação de Deus e a sede da adoração, mas que é o centro radiante do governo divino. "Este é o lugar do meu trono..." (43.7) [...]


5) Para prover a vitória sobre a maldição (47.1-12).

Por baixo do limiar do templo, o profeta vê um rio maravilhoso que flui na direção leste, aumentando seu volume de água refrescante até desaguar em sua plenitude no mar Morto, cujas águas venenosas são cura­das [...] Atravessando a corrente dessas águas maravilhosas, o profeta encontra ambas as margens cobertas com enorme quantidade de árvores exuberantes, cujas folhas e frutos são perenes, fornecendo ao mesmo tem­po remédio e alimento. (Ibid, 106:57-64)



II. Haverá Sacrifício Literal no Milênio?

Um dos problemas que acompanham a interpretação literal da apresentação do milênio no Antigo Testamento é o problema da interpretação de trechos como Ezequiel 43.18-46.24; Zacarias 14.16; Isaías 56.6-8; 66.21; Jeremias 33.15-18 e Ezequiel 20.40-41, que ensinam todos a restauração do sacerdócio e a reinstituição do sistema de sacrifícios com sangue durante essa era.

A alegada incoerência entre essa inter­pretação e o ensinamento do Novo Testamento a respeito da obra com­pleta de Cristo, que aboliu o sistema de sacrifício do Antigo Testamen­to, tem sido usada pelos amilenaristas para reduzir o sistema pré-milenarista a um absurdo e confirmar a falácia do método literal de interpretação. Allis crê ter apresentado um obstáculo insuperável aos pré-milenaristas, (Oswald T. Allis, Prophecy and the church, p. 245) dizendo:

... Sua ênfase no sentido literal e no Antigo Testamento leva quase inevita­velmente a uma doutrina do milênio que o torna definitivamente judeu e representa o retorno da glória do evangelho aos rituais e cerimônias típi­cos que prepararam o caminho para ele, e, tendo servido àquele propósi­to necessário, perderam para sempre sua validade e adequação. (Ibid., p. 248)


O que confronta, então, os pré-milenaristas é a necessidade de con­ciliar os ensinamentos do Antigo Testamento de que sacrifícios com sangue serão oferecidos no milênio com a doutrina do Novo Testamen­to da abolição dos sacrifícios do Antigo Testamento por causa do sacri­fício de Cristo. Se um literalismo coerente conduz à adoção dos sacrifí­cios de fato durante o milênio, torna-se necessário explicar por que o sistema deveria ser reinstituído.
A. A ordem mosaica é restabelecida? Uma questão com que se defron­tam os defensores dos sacrifícios animais durante o milênio é o relacio­namento existente entre o antigo sistema mosaico e o sistema operativo durante o milênio. Allis diz:

O ponto crucial de toda a questão é, sem dúvida, o restabelecimento do ritual levítico de sacrifício. Isso é referido ou inferido várias vezes. Em Ezequiel 46 são mencionados holocaustos e ofertas pelo pecado. São ofe­recidos novilhos, bodes e carneiros. O sangue será aspergido no altar. Os sacerdotes, que são levitas da descendência de Zadoque, oficiarão os rituais.

Interpretado literalmente, isso significa a restauração do sacerdócio de Arão e do ritual mosaico de sacrifícios essencialmente inalterados. (Ibid., p. 246.)
Ele afirma ainda:

Já que os retratos do milênio são encontrados por dispensacionalistas nas profecias referentes ao reino no Antigo Testamento e são, conseqüente­mente, de caráter judeu, segue-se que a questão do restabelecimento da economia mosaica, suas instituições e ordenanças, deve ser encarada por eles. (Ibid., p. 245.)


Existe grave erro em sua observação e conclusão. A expectativa do rei­no baseia-se na aliança abraâmica, na aliança davídica e na aliança pa­lestina, mas de forma alguma na aliança mosaica. Insiste-se que as alianças serão cumpridas durante o reino. Contudo, isso não vincula necessariamente a aliança mosaica ao reino. Logo, é falacioso sustentar que, pelo fato de alguém crer no cumprimento das alianças determinativas, também precisa acreditar na restauração da ordem mosaica, que era uma aliança condicional, sem intenção determinativa ou escatológica, mas dada para governar a vida do povo em sua relação com Deus na antiga economia.

Uma grande pedra de tropeço que im­pede a aceitação dos sacrifícios literais no milênio é eliminada pela ob­servação de que, embora haja muitas similaridades entre os sistemas arônico e milenar, existem também entre eles muitas diferenças que tornam impossível sua identidade.


1. Existem certas semelhanças entre os sistemas arônico e milenar. No sistema milenar encontramos o centro de adoração num altar (Ez 43.13-17), onde o sangue é aspergido (43.18) e são oferecidos holocaustos, ofertas pelo pecado e pela culpa (40.39). A ordem levítica é restituída, já que os filhos de Zadoque são escolhidos para o ministério sacerdotal (43.19). A oferta de manjares está incorporada ao ritual (42.13). Existem rituais prescritos para a purificação do altar (43.20-27), dos levitas que ministram (44.25-27) e do santuário (45.18). Haverá observação das luas novas e dos sábados (46.1). Sacrifícios serão ofertados diariamente pela manhã (46.13). Heranças perpétuas serão reconhecidas (46.16-18). A Páscoa será novamente observada (45.21-15) e a festa dos tabernáculos torna-se um acontecimento anual (45.25).

O ano do jubileu será observado (46.17). Há semelhanças nos regulamentos dados para governar o modo de vida, o vestuário e o sustento da ordem sacerdotal (44.15-31). O templo no qual esse ministério é executado torna-se novamente o local de onde se manifesta a glória de Jeová (43.4,5). Percebemos então que a forma de adoração no milênio terá grande semelhança com a velha ordem arônica.

O fato de Deus ter instituído uma ordem notadamente parecida com a antiga ordem arônica é um dos melhores argumentos de que o milênio não está sendo cumprido na igreja, composta por gentios e ju­deus, na presente era. Kelly observa que essa adoração foi particular­mente planejada para um Israel redimido. Ele escreve:

Israel ainda retornará à sua terra e certamente será convertido e abençoa­do sob a autoridade de Jeová, seu Deus, mas como Israel, não como cris­tãos, no qual se transformam todos os crentes agora, quer gentios, quer judeus. Eles pertencem a Cristo no céu, onde tais diferenças são desco­nhecidas, e conseqüentemente uma das maiores características do cristianismo é que tais distinções desaparecem enquanto Cristo é o Cabeça celestial, e Seu corpo está sendo formado na terra pelo Espírito Santo en­viado do céu.

Quando a visão de Ezequiel for cumprida, será o reino de Jeová-Jesus na terra, e a distinção entre Israel e os gentios será novamente retomada, embora para bênção, sob a nova aliança, e não mais para mal­dição, sob a lei [...] O povo celestial descansa sobre um sacrifício e adentra o santo dos santos, onde Cristo está à direita de Deus. Mas o povo da terra terá um santuário bem como uma terra adaptada, e essas são todas as ordenanças de sua adoração. (William Kelly, Notes on Ezekiel, p. 236-7.)
O livro de Hebreus afirma que Israel buscou acesso a Deus na an­tiga economia por meio da ordem ou organização do sacerdócio arôníco, mas nós somos levados a Deus por meio de Cristo, uma vez que Ele ministrou numa nova ordem ou organização, o sacerdócio de Melquisedeque. Hebreus 7.15 ressalta particularmente que Cristo veio para ministrar numa nova ordem sacerdotal. As exigências ou os ritu­ais das duas ordens não precisam variar demais para que sejam duas ordens diferentes. Já que ambas as ordens remetem para Cristo, seria de esperar que houvesse semelhanças.
2. Existem muitas diferenças básicas entre os sistemas arônico e milenar. O importante não são as similaridades, mas sim as diferenças marcantes entre os dois sistemas. O sistema milenar é caracterizado por omissões de elementos da ordem arônica que tornam os dois siste­mas muito distintos.

a. Primeiramente, existem mudanças na ordem milenar. West res­salta essa ênfase na mudança quando diz:

Existem mudanças nas dimensões do templo de modo que ele não é o templo de Salomão, nem o de Zorobabel, nem o de Herodes; mudanças nas medidas do pátio exterior, nos portões, nos muros, nos pisos e na localiza­ção do templo; ele está construído sobre um alto monte e até separado da cidade. Os lugares santos não possuem quase nada dos móveis que fica­vam no tabernáculo de Moisés ou no templo de Salomão. (Nathaniel West, The thousand years in both testaments, p. 429-30)


Essa mudança no templo físico e em seus ambientes é tão marcante que Ezequiel precisa dar descrições detalhadas a seu respeito.

Uma das maiores mudanças observada relaciona-se aos levitas. Em vários trechos é afirmada a existência de uma ordem levítica (Ez 40.46; 43.19; 44.15-31). Deve-se notar, contudo, que os sacerdotes que servem não são selecionados de toda a linhagem levítica, pois a linha­gem como um todo foi posta de lado, graças à sua apostasia, mas vêm dos filhos de Zadoque. O ministério dos levitas é limitado à guarda e à manutenção do templo, e eles são excluídos do ministério sacerdotal, com exceção dos filhos de Zadoque. Grant escreve a respeito de Zadoque:

Zadoque ocupa um lugar proeminente na história de Israel, tendo sido sumo sacerdote nos reinados de Davi e Salomão. Ele permaneceu fiel a Davi durante a revolta de Absalão e, com Natã, o profeta, abraçou a causa de Salomão quando Adonias tentou conquistar o trono. Davi instruiu Zadoque a ungir o filho de Bate-Seba (l Rs 1.26,32-45). Zadoque então se ergueu como representante do sacerdócio em associação ao rei escolhido por Deus e ao reinado estabelecido por Ele na descendência de Davi — tipo de Cristo. (E W. Grant, The numerical Bible, iv, p. 270)
Devemos observar então que Deus colocou de lado toda a linhagem levítica por causa de sua apostasia e separou a linhagem de Zadoque de dentro da linhagem levítica, designando à sua descendência o im­portante ministério sacerdotal na era milenar. Caso se confirme que as linhagens tribais sumiram e não existe genealogia para comprovar a linhagem de Zadoque, deve-se observar que o Deus que, em Sua infini­ta sabedoria, pode chamar doze mil de cada tribo de Israel (Ap 7) é capaz de preservar e identificar a linhagem de Zadoque.
b. O sistema milenar também é marcado pela anulação de muitos elementos que possuíam lugar preeminente no sistema arônico. West observou com perspicácia que:

Não existe a arca da aliança, nem o pote de maná, nem a vara de Arão, nem as tábuas da lei, nem querubins, nem propiciatório, nem candelabro de ouro, nem pão da proposição, nem véu, nem Santo dos Santos inaces­sível onde apenas o sumo sacerdote pode entrar, não existe nem mesmo sumo sacerdote para oferecer propiciação dos pecados ou para interceder pelo povo. Nada disso.

Os levitas acabaram como ordem sagrada. O sa­cerdócio é confinado aos filhos de Zadoque e apenas para um propósito especial. Não há sacrifício da tarde. As medidas do altar de sacrifícios são diferentes das do altar de Moisés, e as próprias ofertas quase não são nomeadas. A preparação para os cantores é diferente do que era antes. As prescrições morais, sociais e civis impostas com grande ênfase por Moisés estão todas ausentes. (West, loc. cit.)
Embora sejam mencionadas cinco grandes ofertas existentes sob a or­dem arônica, na era milenar essas ofertas têm uma ênfase diferente. O sistema completo não é restaurado. Da mesma forma, embora a Páscoa de Ezequiel seja enfatizada e a Festa dos Tabernáculos seja mencionada (Ez 45.25), omite-se qualquer referência à festa de Pentecostes. Embora partes do sistema arônico sejam vistas no sistema milenar, ele é marca­do pela anulação e pela natureza incompleta de muito do que foi obser­vado anteriormente.

O próprio centro de todo o sistema levítico girava em torno do dia da Propiciação, com sua aspersão do sangue da propiciação pelo sumo sacerdote sobre o propiciatório. É significativo que todas as partes necessárias desse importante ritual — o sumo sa­cerdote, a arca e o propiciatório, até mesmo o próprio dia — sejam omitidas do registro. A ausência do que era vital para o sistema levítico mostra que a era milenar não testemunhará o restabelecimento do judaísmo.


c. Existem acréscimos ao sistema levítico a ser observados na era milenar. Citemos West novamente:

A entrada da "Glória" no templo de Ezequiel para habitá-lo para sempre; o rio de água viva que flui, aumentando a partir do altar; os subúrbios, as belas árvores que produzem cura, a nova distribuição da terra de acordo com as doze tribos e as dimensões iguais de seus territórios, a reorganiza­ção das tribos, a porção do príncipe e o novo nome da cidade "Jehovah-Shammah" provam que o Novo Israel restaurado é um povo convertido, adorando a Deus "em espírito e verdade". (Ibid)


Conforme estabelecida por Deus, a ordem levítica da antiga economia permanece inalterada e fixada para que Israel possa ser confrontado com um quadro da imutável santidade de Deus. A mudança na ordem para a era milenar revela uma ordem totalmente diferente.

Uma das maiores mudanças observada na ordem milenar por vir é a pessoa e o ministério do "príncipe", que, além de prerrogativas reais, tem também prerrogativas sacerdotais. Ezequiel descreve quem é o rei-sacerdote no cargo de sumo sacerdote. A respeito disso Grant escreve:

... nós temos "o príncipe", que possui uma posição excepcional e alta­mente favorável. O seu privilégio é ocupar o portão oriental por onde entra a glória de Jeová. A ele são entregues as ofertas do povo, e por meio dele elas são administradas para fazer provisão do ritual de sacrifício. Não parece que o povo traga o seu sacrifício, mas que o príncipe é quem dá tudo para o ritual prescrito, incluindo o holocausto diário (45.17).

Diz-se que o povo vem adorar apenas nas horas em que o príncipe faz suas ofertas, mas o ato de oferecer é dele, com os sacerdotes e levitas agindo em suas respectivas posições. Ele desempenha então um papel represen­tativo a favor do povo na questão de ofertas específicas, embora em todas essas se possa considerar que o povo tenha a sua parte, já que, num pri­meiro instante, eles apresentam suas ofertas ao príncipe (45.13-17) e se reúnem a ele em adoração quando ele as oferece. Parece também que ele ocupará uma posição de representante de Deus perante o povo, visto que tem o privilégio de comungar com Jeová no portão oriental. (Grant, op. cit., IV, p. 239)


A respeito da pessoa e da obra desse príncipe, o mesmo autor escreve:

Essa importante personagem, o príncipe, é aparentemente um israelita, não o próprio Cristo; seus filhos são mencionados (46.16) e ele oferece ofertas pelo pecado por si mesmo (45.22). Parece que ele ocupa uma posi­ção representativa, contudo não a mesma que a do sumo sacerdote, de quem Ezequiel não fala, nem do rei como conhecido anteriormente em Israel.

A ele não são dados privilégios e poderes de qualquer dos dois. Ele parece ocupar um lugar intermediário entre o povo e o sacerdócio, já que se encontra entre o primeiro durante suas ocasiões de adoração (46.10), não entre os sacerdotes, e não tem o privilégio de entrar no pátio interno; todavia, ele se aproxima mais do que o próprio povo, visto que pode ado­rar no portão oriental que dá para o pátio interno, enquanto o povo adora no pátio exterior, reunido na entrada desse portão (46.2).

Mas ele é res­ponsável por suprir as diversas ofertas nas festas, nas luas novas, nos sábados e em todas as solenidades da casa de Israel, e conseqüentemente é o portador e receptor do que o povo oferece nessas ocasiões; dessa for­ma, o sacerdócio também o procuraria para a provisão necessária à conti­nuidade da adoração nacional (45.13-22). Além disso, ele recebe sua por­ção especial na terra e tem ordem de não tomar para si nenhuma porção do território do povo... (Ibid., iv, p. 273.)


Deve ser óbvio que tal pessoa, com um ministério tão importante, é excepcional nessa era milenar e não possui correspondente na ordem levítica, representando dessa maneira grande mudança na futura era. Com toda a probabilidade, esse personagem será um representante ter­reno do ministério de Cristo como rei-sacerdote da ordem de Melquisedeque, talvez Davi ressurrecto, conforme sugerido anterior­mente.

O sistema a ser inaugurado na era milenar será uma nova ordem em substituição à ordem levítica, pois existe um número excessivo de mudanças, anulações e adições à antiga ordem para sustentar a afirma­ção de que, interpretado literalmente, Ezequiel ensina a reinstituição da ordem levítica. Todo o conceito da nova aliança de Jeremias 31 vis­lumbra uma ordem totalmente nova depois da passagem da antiga.


B. O propósito dos sacrifícios. Observam-se vários fatores a respeito dos sacrifícios milenares que os tornam totalmente legítimos.
1. Devemos observar, em primeiro lugar, que os sacrifícios milenares não estarão relacionados com a questão da expiação. Eles não serão expiatórios, pois em nenhum lugar se declara que serão oferecidos vi­sando à salvação dos pecados. Allis escreve:

Eles devem ser expiatórios no mesmo sentido que os sacrifícios descritos em Levítico. Oferecer qualquer outra opinião a respeito significa abrir mão do princípio de interpretação literal da profecia que é fundamental para o dispensacionalismo, e é também admitir que as profecias sobre o reino do Antigo Testamento não entram no Novo Testamento "absoluta­mente imutáveis".

É verdade que eles são apenas "elementos fracos e pobres" quando vistos à luz da cruz, da qual extraem toda a sua eficácia. Mas foram eficazes nos dias de Moisés e de Davi, e não meros memoriais; e no milênio devem ser igualmente eficazes se o sistema de interpretação dispensacionalista for verdadeiro. E isso eles não podem ser, salvo se o ensinamento da epístola aos Hebreus for completamente desprezado. (Allis, op. cit., p. 247)

Existem erros em vários aspectos desse argumento de que esses sacrifí­cios, logicamente, precisam ser interpretados como expiatórios pelos dispensacionalistas.

1) A insistência do cumprimento literal da aliança davídica não tem como conseqüência necessária o restabelecimento da ordem mosaica, pois elas não estavam relacionadas uma à outra. A ali­ança davídica era eterna e incondicional, governando o futuro trato de Deus com a nação, enquanto a aliança mosaica era temporal e condi­cional, governando a relação do homem com Deus. O cumprimento de uma não torna obrigatório o cumprimento da outra, já que a aliança mosaica era vista como temporária.

2) E um erro da doutrina soteriológica ensinar que os sacrifícios pudessem de alguma forma re­tirar o pecado ou que efetivamente o tenham feito. Isso contradiz o claro ensinamento de Hebreus 10.4, citado pelo próprio Allis: "Porque é impossível que o sangue de touros e de bodes remova pecados". A única maneira de sustentar a opinião de que os sacrifícios serão efica­zes no milênio é dizer que eles o foram no Antigo Testamento, e isso é uma clara contradição com todo o Novo Testamento. Que insensatez argumentar que um ritual poderia realizar no futuro o que nunca pôde realizar, ou realizou, ou foi projetado para realizar no passado.


2. Em segundo lugar, os sacrifícios serão memoriais quanto ao caráter. Existe um consenso geral entre os pré-milenaristas quanto ao propósito do sistema sacrificial inaugurado na era milenar. Interpretados à luz do Novo Testamento, com ensinamentos baseados na morte de Cristo, eles devem ser memoriais dessa morte. Grant enuncia tal posição claramente:

[Esse é] o memorial permanente do sacrifício, mantido na presença da gló­ria revelada. Não é um sacrifício oferecido com o intuito de obter salva­ção, mas tendo em vista uma salvação já conquistada...(Grant, op. cit., iv, p. 238.)


Gaebelein tem a mesma opinião sobre o caráter memorial dos sa­crifícios quando escreve:

Embora os sacrifícios que Israel fazia tivessem significado em perspecti­va, os sacrifícios feitos no templo milenar têm um significado em retros­pectiva. Quando atualmente o povo de Deus adora da maneira indicada à sua mesa, com pão e vinho como lembrança de Seu amor, há uma re­trospectiva. Olhamos para o passado em direção à cruz. Mostramos a sua morte, "até que Ele venha". Quando a volta acontecer, essa festa memorial terminará para sempre. Nunca mais a ceia do Senhor será celebrada de­pois que os santos de Deus deixarem a terra com o Senhor na Sua glória.

Os sacrifícios reiniciados serão o memorial da cruz e de toda a maravilho­sa história da redenção de Israel e das nações da terra, durante o reinado de Cristo. E que memorial há de ser! Quão significativos serão esses sacri­fícios! Eles trarão uma lembrança viva de tudo o que aconteceu no passa­do. A retrospectiva produzirá um grande cenário de adoração, louvor e reverência como esta terra jamais viu. Tudo o que a cruz significou e rea­lizou será lembrado, e um grande "Hino de Aleluia" encherá a terra e o céu.

Os sacrifícios lembrarão constantemente ao povo Aquele que mor­reu por Israel, pagou o preço da redenção por toda a criação, cuja glória agora cobre a terra como as águas cobrem o mar. (Gaebelein, op. cit., p. 312-3)


Adolph Saphir nos deu uma palavra a respeito do paralelo exis­tente entre a ceia do Senhor em sua relação com a morte de Cristo e os sacrifícios memoriais em relação a essa morte:

... não poderíamos supor que o que era típico antes da primeira vinda de Cristo, apontando para a grande salvação que estava por vir, possa, du­rante o reino, comemorar a redenção já realizada?

Na ceia do Senhor comemoramos a morte de Cristo; repudiamos totalmente a doutrina papal da repetição da oferta de Cristo; não acredi­tamos em tal renovação do sacrifício, mas obedecemos, agradecidos, ao mandamento que Cristo nos deu de celebrar Sua morte de tal maneira que um memorial externo seja apresentado ao mundo, e um sinal e um selo aparentes e visíveis sejam dados ao participante que crê.

Não poderá semelhante plano suceder à ceia do Senhor, que, sabemos, terminará com o Seu retorno? Também é possível que tanto os santos glorificados no céu quanto as nações na terra contemplarão durante o milênio a harmonia completa entre o tipo e a realidade. Mesmo a igreja tem apenas conheci­mento superficial dos tesouros da sabedoria nas instituições levíticas e em seus símbolos. (Adolph Saphir, Christ and Israel, p. 182.)


Wale declarou sucintamente a proposição:

... o pão e o vinho da ceia do Senhor são, para o crente, símbolos e memoriais físicos e materiais da redenção já adquirida. E esse será o caso com os sacrifícios reinstituídos em Jerusalém; eles serão comemorativos, como os sacrifícios antigos se davam em perspectiva. E por que não? Existia alguma virtude nos sacrifícios legais que prenunciavam o sacrifício de Cristo? Nenhuma sequer. Seu único valor e significado derivava do fato de que eles apontavam para Ele. E tal será o valor e significado dos futu­ros sacrifícios que, conforme Deus declarou, serão oferecidos no futuro templo. Qualquer que seja a dificuldade imaginada pelo leitor quanto à maneira como essa previsão será realizada, é suficiente para nós que Deus ASSIM O DISSE. (Burlington B. Wale, The closing days of christendom, p. 485)


Conclui-se então que esses sacrifícios não são expiatórios, pois ne­nhum sacrifício jamais executou a completa eliminação dos pecados, mas relembram o perfeito sacrifício d’Aquele que todos os sacrifícios simbolizavam, o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo.
C. Algumas objeções são consideradas. Existem certas objeções a esse ponto de vista que devem ser consideradas.
1. Alguns insistem em que a reinstituição dos sacrifícios contradiz Hebreus. Trechos como Hebreus 9.26,7.27 e 9.12 ressaltam que Cristo ofereceu de uma vez por todas um sacrifício aceitável a Deus, o qual não precisa ser repetido. Tal contradi­ção só pode surgir quando alguém deixar de ver a distinção, dispensacionalmente proposta, entre o plano de Deus para igreja e Seu plano para Israel. Unger citou com propriedade a distinção a ser obser­vada:

Com respeito à suposta contradição entre os ensinamentos da epístola aos Hebreus e a profecia de Ezequiel, pode-se dizer que ela desaparece quando a base e a posição de uma são vistas como totalmente diferentes da base e da posição da outra. Uma tem em vista os membros do corpo de Cristo, a igreja, já que sua redenção está em Cristo. A outra está preocupa­da com Israel como nação terrena e abraça a Glória de Jeová, que mais uma vez habitará na terra de Canaã. Uma diz respeito ao cristianismo, em que não há judeu nem gentio, mas todos estão em Cristo. A outra lida com o judaísmo restaurado, no qual Israel é abençoado diretamente, e os gentios estão apenas subordinados aos judeus — um estado de coisas em contraste diametral com o cristianismo.

[...]

A dificuldade em aceitar o ponto de vista literal-futurístico é a arro­gância da cristandade (Rm 11.15-26) em presumir que a queda do judeu é definitiva e o gentio o suplantou para sempre. Quando for compreendida a verdade da convocação de Israel à bênção, a interpretação literal-futurística da profecia de Ezequiel será a explicação normal da visão. (Unger, op. cit., 106:170-1)


Em referência à igreja, Cristo encontra-se como Aquele que ofereceu completo e eterno sacrifício. A igreja olha somente para Cristo. Tal é o ensinamento de Hebreus. Todavia, ao tratar de Israel em sua futura relação com Cristo, Hebreus 8.8-13 e 10.16 demonstram a expectativa de uma nova aliança.

A nova aliança de Jeremias 31 serviu para mos­trar que a antiga ordem (mosaica) seria substituída, dada a sua insufici­ência, por uma nova ordem. A visão do templo de Ezequiel dá detalhes a respeito da ordem sacerdotal a ser inaugurada por Deus depois do cumprimento da nova aliança com Israel. Tal interpretação está em per­feita harmonia com os ensinamentos do livro de Hebreus.


2. Alguns diriam que os sacrifícios reinstituídos devem ser expiatórios. Esse assunto foi tratado anteriormente, e, a esse respeito, apenas as palavras de Wale já citadas precisam ser mencionadas. Ele diz: "Existia alguma virtude nos sacrifícios legais que prenunciavam o sacrifício de Cristo? Nenhuma sequer. Seu único valor e significado derivava do fato de que eles apontavam para Ele". (Wale, loc. cit.) Tal objeção só pode surgir de uma falsa soteriologia.
3. Alguns afirmam que tal opinião nega Efésios 2.14-16. Algumas vezes levanta-se a objeção de que Deus rompeu para sempre a barreira que separa judeu e gentio, tornando-os um. Essa opinião surge da falta de percepção de que esse é o propósito de Deus para o presente, mas não se relaciona ao plano de Deus para a era milenar. Saphir escreve acertadamente sobre a relação entre os dois:

"O apóstolo Paulo ensina que em Cristo Jesus não há judeu ou gentio; mas vocês estão construindo novamente o muro de separação que foi abolido!" É verdade que, na igreja de Cristo, judeu e gentio são um; é verdade que no reino judeu e gentio terão um só meio de acesso a Deus, uma fonte de perdão e renovação, um Espírito para iluminar, guiar e for­talecer. Mas disso não se conclui de forma alguma que a posição do judeu e do gentio deva ser a mesma, ou que suas posições distintas no reino militem contra sua igualdade no Senhor Jesus Cristo. Em Cristo não há ma­cho nem fêmea, todavia homem e mulher possuem posições diferentes, e até mesmo na igreja, apesar de terem privilégios iguais, uma mulher não pode pregar. (Saphir, op. cit. p. 183.)


As passagens são ininteligíveis até que o leitor possa distinguir clara­mente o plano de Deus para o povo de Israel do plano para a igreja.
4. Alguns dizem que é geograficamente impossível reinstituir tal adoração. Sustenta-se que é necessário espiritualizar a profecia de Ezequiel, pois o templo e seus arredores excedem em muito as dimen­sões da antiga área, portanto essa profecia não poderia ser compreen­dida literalmente. Tal opinião despreza as importantes mudanças geo­gráficas e topográficas previstas por Zacarias:

Naquele dia, estarão os seus pés sobre o monte das Oliveiras, que está defronte de Jerusalém para o oriente; o monte das Oliveiras será fendido pelo meio, para o oriente e para o ocidente, e haverá um vale muito gran­de; metade do monte se apartará para o norte, e outra metade, para o sul (Zc 14.4).


Tais mudanças previstas na topografia da Palestina permitem a locali­zação do templo de modo que não seja necessário interpretar de ma­neira não-literal a profecia de Ezequiel.
5. Alguns defendem que a existência do príncipe de Ezequiel é incoerente com o reinado de Cristo. Caso se sustente que o cumpri­mento literal da aliança de Davi exige o reinado de Cristo no trono de Davi e isso contradiz a profecia de Ezequiel concernente à pessoa e ao ministério do "príncipe", deve-se observar a afirmação feita de que um indivíduo reina quando ele exerce a autoridade do trono, independen­temente do seu relacionamento com o trono físico, que é o emblema da autoridade. Cristo pode cumprir a promessa da aliança de Davi sem estar sentado no trono literal da terra. Gaebelein fala a respeito do prín­cipe e de sua relação com Cristo:

... o príncipe não é idêntico ao Senhor. Quem é ele então? Ele é o vice-regente do Rei, um futuro príncipe da casa de Davi, que representará o Senhor na terra. O trono será estabelecido em Jerusalém. O Senhor Jesus Cristo reinará supremo sobre todos; seu trono está acima da terra na Nova Jerusalém.

Ele visitará a terra e manifestará Sua glória como Rei dos Reis e Senhor dos Senhores. Isso talvez aconteça durante as grandes celebra­ções e festas dos tabernáculos, quando as nações enviarem representantes a Jerusalém para adorar o Rei, o Senhor dos Exércitos (Zc 16.16). No trono de Davi sentará o príncipe de Davi como vice-regente. (Gaebelein, op. cit., p. 314-5)
Já que as Escrituras revelam que o governo do milênio estará sob a autoridade de Cristo, que será exercida em submissão a Ele por ho­mens escolhidos (Mt 19.28; Mt 25.21 e Lc 19.17), não há conflito em ver o príncipe como vice-regente em submissão a Cristo.
6. Finalmente, muitos rejeitam essa interpretação, dizendo que tal sistema é um retrocesso. Caso se sustente que a instituição de tal sistema é um retrocesso, deve-se observar que Ezequiel reconhece esse sistema (43.1-6) como a maior manifestação da glória de Deus que a terra já presenciou, fora a glória de Deus manifesta em Jesus Cristo. Se o sistema foi planejado por Deus como um memorial de Jesus Cristo, não se pode dizer que ele é um retrocesso aos "elementos fracos e pobres", assim como não se pode dizer que o pão e o vinho sejam memoriais fracos e pobres do corpo quebrantado e do sangue derramado de Cris­to.

Toda essa discussão suscita o problema da salvação na era milenar. A opinião aqui apresentada, segundo alguns, diminui a cruz e restrin­ge o seu valor à presente era. (Allis, op. cit., p. 249.) Tal alegação não pode ser validada. A nova aliança (Jr 31.31) garante a todos os que entrarem nesse milênio e a todos os que nascerem no milênio e, portanto, necessitarem da salva­ção:

1) um novo coração (Jr 31.33),

2) o perdão dos pecados (Jr 31.34) e

3) a plenitude do Espírito (Jl 2.28,29).

O Novo Testamento esclarece que a nova aliança se baseia no sangue do Senhor Jesus Cristo (Hb 8.6; 10.12-18; Mt 26.28). Logo, pode-se afirmar que a salvação no milênio estará baseada no valor da morte de Cristo e será apropriada pela fé (Hb 11.6), assim como Abraão, pela fé, se apropriou da promessa de Deus e foi justificado (Rm 4.3). A expressão da fé salvadora se diferenciará das expressões exigidas no presente, mas os sacrifícios devem ser vistos como meras expressões de fé e não como meios de salvação.

A visão gloriosa de Ezequiel revela que é impossível localizar seu cumprimento em qualquer templo ou sistema que Israel tenha conhecido no passado, mas espera cumprimento futuro após a segunda vin­da de Cristo, quando for instituído o milênio. O sistema sacrificial não é um judaísmo reinstituído, mas o estabelecimento de uma nova or­dem que tem como propósito a lembrança da obra de Cristo, sobre a qual repousa toda a salvação. O cumprimento literal da profecia de Ezequiel será o meio de glorificação de Deus e a bênção dos homens no milênio.

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