Manual de Escatologia



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Capítulo 33 - Nova Jerusalém, a cidade celestial

Existem algumas passagens das Escrituras que despertam grande di­vergência de opinião entre pré-milenaristas dispensacionalistas, como Apocalipse de 21.9 a 22.7. Alguns vêem essa passagem como uma des­crição do estado eterno, enquanto outros a consideram uma descrição do milênio. Alguns interpretam a cidade como uma referência à igreja em relação a Cristo, enquanto outros a julgam uma referência a Israel na sua relação com Cristo. Alguns a interpretam como uma cidade lite­ral e outros como uma representação simbólica. Muitas e variadas são as interpretações dadas a essa passagem das Escrituras.



I. Onde Apocalipse de 21.9 a 22.7 Se Encaixa no Panorama Profético?

As principais características das grandes interpretações dessa pas­sagem devem ser examinadas, a fim de estabelecer uma posição har­mônica com toda a revelação da Palavra de Deus.


A. Apocalipse de 21.9 a 22.7 refere-se ao milênio

A opinião defendida por Darby, Gaebelein, Grant, Ironside, Jerinings, Kelly, Pettingill, Seiss, Scott e outros é que, após descrever o estado eter­no em Apocalipse 21.1-8, João faz uma recapitulação do milênio, a fim de descrever mais detalhadamente aquele período. Os defensores dessa in­terpretação apresentam vários argumentos para apoiá-la.


1. O princípio de retrospectiva no livro de Apocalipse. Kelly, um dos maiores expoentes da opinião de que essa passagem lida com o milênio, escreve:

... o método de Deus nesse livro é fazer retrospectivas. Eu digo isso para mostrar que não estou defendendo uma posição sem precedentes [...] Con­sidere-se, por exemplo, o capítulo 14. Ali temos uma série normal de sete acontecimentos, na qual a queda da Babilônia ocupa o terceiro lugar [...] Babilônia tem ali seu lugar claramente designado [...] Mas, muito depois disso na profecia, quando o Espírito de Deus nos apresenta as sete taças da ira de Deus, temos a Babilônia novamente [...] Nesse caso o Espírito Santo nos levou, no capítulo 14, aos acontecimentos subseqüentes à que­da da Babilônia e até a vinda do Senhor em juízo; e depois Ele volta a nos mostrar detalhes sobre a Babilônia e sua ligação com a besta e os reis da terra, nos capítulos 17-18.

Parece-me que isso responde exatamente à questão da ordem dos acontecimentos no capítulo 21. (William Kelly, Lectures on the revelation, p. 460-1)
Em réplica a essa posição, Ottman escreve:

Essa visão expandida da nova Jerusalém não exige, para sua interpreta­ção, um retorno às condições existentes durante o milênio. O milênio é realmente o tema das profecias do Antigo Testamento, e essas profecias raramente vão além desse período. Existem apenas duas passagens — e ambas em Isaías — que dão uma breve descrição do que se espera além do reino milenar de Cristo [...] Esse é o caráter geral da profecia do Antigo Testamento, que não contempla nada além do reino terreno do Messias. Tal limitação, no entanto, não é encontrada em nenhum lugar no Novo Testamento, e um retorno à terra milenar nessa visão de João seria impró­prio e confuso. (Ford C. Ottman, The unfolding of the ages, p. 458.)


Poder-se-ia argumentar também que as duas passagens menciona­das por Kelly não são paralelas, pois na primeira retrospectiva temos um retorno a um acontecimento, mas a segunda seria uma retrospectiva da eternidade de volta ao tempo. Logo, o paralelismo é destruído.
2. O ministério do anjo das taças. Muitos escritores concordam com Darby ao identificar essa passagem como milenar por causa do narrador que apresenta os cenários em Apocalipse 17.1 e 21.9. Darby diz:

Ao comparar o versículo 9 com o capítulo 17.1, você descobrirá essa se­melhança, que é um dos sete anjos que têm as sete taças com a descrição da Babilônia, e que um deles também descreve a noiva do Cordeiro, a cidade santa, com toda a profecia a partir do versículo 9 [...]

O que temos nos capítulos 21.9-27 e 22.1-5 não forma uma continua­ção, seja histórica, seja profética, do que precede. Essa é uma descrição da Nova Jerusalém, e há muitas circunstâncias que precedem o que está no começo do capítulo. O anjo, da mesma forma, descreve a Babilônia após apresentar sua vitória. (J. N. Darby, Notes on the Apocalypse, p. 149-50)
A isso pode-se responder que não há real paralelismo entre a reve­lação do anjo nas duas passagens. A Babilônia é introduzida em Apocalipse 16.19, e a retrospectiva segue imediatamente nos capítulos 17 e 18. Mas, ao revelar os acontecimentos no fim do capítulo 20, aos quais 21.9-22.5 estariam associados, caso se referissem ao milênio, a eternidade intervém entre a afirmação e a retrospectiva e explicação. Logo, o paralelismo é destruído.
3. O uso dos nomes dispensacionais. Kelly tenta provar ainda mais a sua interpretação ao salientar:

Observamos também que na parte relativa ao milênio (isto é, do versículo 9 do capítulo 21) temos nomes dispensacionais, tais como Senhor Todo-Poderoso e Cordeiro; o que não temos no capítulo 21.1-8, que revela a eternidade, quando Deus será tudo em todos. (William Kelly, The revelation, p. 460.)


Em resposta a isso, pode-se afirmar que esses nomes não são ne­cessariamente dispensacionais em sua conotação. O título Cordeiro, con­forme aplicado a Cristo, antecede ao tempo, pois é assim usado em l Pedro 1.19. Ele é usado por João na era da lei em João 1.29. Ele aparece na era da graça em Atos 8.32. É utilizado no período da tribulação em Apocalipse 7.14. Cordeiro é um nome eterno dado a Cristo em vista de Seu sacrifício completo e de Sua redenção eterna, e não pode ser limita­do a uma era ou povo. O nome Todo-Poderoso é usado mais de trinta vezes no livro pré-patriarcal de Jó e, portanto, não pode ser limitado a um povo ou era. Esse nome tomará novo significado por se provar, mediante a destruição do último inimigo, que Deus é Todo-Poderoso.
4 A cura das nações. Argumenta-se que a necessidade da cura, como ensinado em Apocalipse 22.2, requer que essa passagem seja vista como milenar. Jennings diz: "A cura é aplicável às conseqüências inevitáveis da­quele princípio maligno, o pecado, ainda existente entre nós, tal como exis­tirá, naquela época, entre as nações; compaixão e graça podem suprir essas conseqüências com cura". (F. C. Jennings, Studies in Revelation, p. 588) E Kelly acrescenta: "... na eternidade as nações não existem dessa maneira; e nenhuma delas terá necessidade de cura nessa época".(Kelly, op. cit., p. 488) Scott observa o paralelismo entre essa passagem e Ezequiel 47.12:

As nações milenares dependem da cidade acima para luz, governo e cura. Tudo isso tem seu equivalente no notável capítulo de Ezequiel 47. "O seu fruto servirá de alimento, e a sua folha, de remédio" (v. 12). Tanto a cena acima (Ap 22) quanto a cena abaixo (Ez 47) são milenares, e ambas exis­tem ao mesmo tempo, mas a bênção da primeira transcende infinitamente a da segunda. A árvore da vida sustenta; o rio da vida alegra.(Walter Scott, Expositíon of the revelation of Jesus Christ, p. 440-1)


Em resposta a esse raciocínio, Ottman comenta:

Mas as duas visões não são a mesma. A amplitude da profecia de Ezequiel não se estende além do milênio, enquanto o alcance da de João é a eterni­dade. A de Ezequiel, no entanto, é um tipo da de Apocalipse [...] Deve­mos lembrar que o milênio representa o céu apenas tipicamente e, apesar de seus termos descritivos parecerem harmoniosos aqui, não podemos confundir os dois. A cura das nações aqui mencionada não envolve ne­cessariamente um retorno às condições milenares. As nações que existi­rem no fim dos mil anos do reinado de Cristo precisam de cura para a bênção total e final que será introduzida depois. (Ottman, op. cit., p. 472)


Podemos observar ainda que muitas vezes nos profetas a cura é usada em sentido espiritual e não no sentido literal. Logo, a referência a algum pecado específico ou a alguma enfermidade específica que necessita de interpretação milenar não precisa ser inferida.

Ainda podemos observar que havia uma árvore da vida no jardim do Éden para sustentar Adão no seu estado pré-queda. Ali ela não ti­nha referência ao pecado ou à doença e aqui também não precisa ter.


5. A existência das nações. Kelly argumenta extensamente que a menção às nações nessa passagem exige sua referência ao milênio.

No estado eterno Deus lidará com os homens como indivíduos. Diferenças históricas chegam ao fim. Então não haverá nada como reis e nações [...] se analisarmos a última parte do capítulo, temos de lidar novamente com nações e reis terrenos [...] Quando a eternidade começar, Deus terá acabado de lidar com coisas pertinentes à ordem do mundo — reis e na­ções, e provisões semelhantes de natureza temporária. Tudo isso implica governo, pois o governo sugere que existe um mal a ser suprimido. Con­seqüentemente, o que temos na última parte de nosso capítulo não é a condição eterna, mas um estado prévio...(Kelly, op. cit., p. 459-60)


Em resposta a essa objeção, Ottman escreve:

Embora a terra seja dissolvida pelo fogo, Israel não deixa de ser o objeto do amor de Deus, mas, como nação, sobrevive a esse julgamento. Isso é perfeitamente evidente a partir da passagem em Isaías que vai além do reino milenar e declara a continuação de Israel em relação ao novo céu e à nova terra (Is 66.22). A idéia de que nenhuma outra nação milenar so­brevive à dissolução da terra é da mesma forma quase inconcebível [...] Logo, elas também terão sua conexão com a nova terra, mas distintamen­te da igreja e de Israel. (Ottman, op. cit., p. 470)


Grande parte do argumento parece basear-se na interpretação da preposição eis em Apocalipse 21.26. Kelly, diligente estudioso de grego, afirma: "Não para dentro dela, mas até ela, para as quais só há uma pala­vra grega, eis". (Kelly, op. cit., p. 481, nota de rodapé) Com essa tradução, ele prova sua teoria de que o cená­rio de Apocalipse 21.26 é milenar e as nações chegarão até a cidade. Ottman insiste na tradução para dentro dela e diz:

Tanto no fim quanto durante o milênio, haverá nações. Não há dificulda­de nesse conceito, como também não há problema no fato de elas terem acesso à santa cidade, à qual trarão glória e honra.

Alford diz:

[...] "Se os reis da terra e as nações trazem sua glória e seus tesouros para dentro da cidade, e se ninguém jamais entrará nela que não esteja inscrito no livro da vida, segue-se que esses reis e essas nações estão inscritos no livro da vida [...] Pode haver [...] os que foram salvos por Cristo sem jamais fazer parte da Sua igreja organizada visível". (Ottman, op. cit., p. 469)


6. O ministério dos anjos. Scott argumenta que isso deve ser milenar porque "Não há ministrações angelicais no cenário da eternidade, e aqui elas são proeminentes". (Scott, op. cit., p. 429.) Tal ministério, ele acredita, exige uma interpretação milenar.

Contra isso podemos afirmar que a descrição do estado eterno ofe­recida em Apocalipse 21.1-8 é muito breve. É usar o argumento de si­lêncio concluir que não haverá ministério angelical na eternidade. Em Hebreus 12.22 os anjos são descritos como habitantes da Jerusalém celestial, a cidade do Deus vivo. Não é necessário excluí-los da eterni­dade por causa do silêncio em Apocalipse 21.1-8.

Tais são os argumentos dos defensores dessa posição e as refutações dadas por seus antagonistas. E interessante notar a observação de Kelly, que, apesar de defender fortemente a posição milenar, afirma: "Mas há certas características nessa passagem que são eternamente verdadeiras". ( Kelly, op. cit., p. 489.)
B. Apocalipse de 21.9 a 22.7 refere-se ao estado eterno

A posição defendida por Govett, Larkin, Newell, Ottman e outros é que Apocalipse de 21.1 a 22.7 se refere ao estado eterno. Eles apóiam sua posição em vários argumentos.
1. O adjetivo "novo" como usado em Apocalipse 21.1,2. Há três coisas novas mencionadas nesses versículos: um novo céu, uma nova terra e uma nova Jerusalém. Argumenta-se que a nova Jerusalém do versículo 2 e a santa Jerusalém do versículo 10 devem ser a mesma e, já que isso se relaciona ao novo céu e à nova terra, que representam a eternidade no primeiro caso, deve representar posições eternas no segundo tam­bém.

A esse argumento pode-se responder que a cidade do versículo 10 é vista no processo de descida, não até a terra, mas para permanecer suspensa acima da terra. Só na eternidade (v. 2) é que se descreve a descida final à terra, quando o novo céu, a nova terra e a nova Jerusa­lém estarão mutuamente relacionados.


2. A posição da cidade em Apocalipse 21.10. Os intérpretes de ambas as posições geralmente concordam em que a cidade vista em Apocalipse 21.10 está suspensa acima da terra. Com base nisso argumenta-se que não poderia tratar-se de um cenário milenar, pois no milênio o Senhor retornará à terra e Seus pés estarão sobre o monte das Oliveiras (Zc 14.4). O Senhor, afirma-se, reinará da Jerusalém terrena, não da Jerusa­lém celestial. Como essa cidade não está na terra, não pode ser milenar, pois obviamente é o centro da habitação do Cordeiro.

Em resposta, pode-se dizer que Cristo retornará à terra na segun­da vinda e reinará no trono de Davi. O centro dessa autoridade é reco­nhecido como a Jerusalém terrena. Isso não exige a presença constante de Cristo no trono. Cristo poderá reinar ainda no trono de Davi sobre o reino de Davi, mas fazer da Jerusalém celestial Seu lugar de residência com a Noiva.


3. As características da cidade são eternas, não milenares. Defensores da idéia de que essa passagem se refere ao estado eterno indicam várias descrições que atribuem a ela caráter eterno. A cidade contém a "glória de Deus". Os incrédulos não poderiam suportar essa glória, mas seri­am derrubados, como aconteceu com Paulo (At 9.3). Ela não possui templo (v. 22), e é claramente previsto em Ezequiel 40-48 que haverá um templo na terra milenar. Não há noite ali (v. 25), e haverá dia e noite no milênio (Is 30.26; 60.19,20). O trono de Deus está ali (22.3). Lá não existe maldição (22.3), o que significa que os efeitos da queda terão sido eliminados. Todos os que estão ali são salvos (21.27) e então de­vem estar na eternidade, já que nascerão incrédulos durante o milênio. Não há mais morte (21.4) e, já que indivíduos morrerão durante o milê­nio (Is 65.20), ela deve referir-se ao estado eterno.

A essas observações pode-se responder que Mateus 25.31 indica que Cristo assumirá o "trono de Sua glória" na segunda vinda e certa­mente ocupará esse trono durante todo o milênio. A ausência do tem­plo não é um argumento decisivo, uma vez que o templo de Ezequiel está na Jerusalém terrena e não haveria necessidade de um templo na Jerusalém celestial, onde está o próprio Cordeiro. Da mesma forma, a ausência de noite não é clara, pois haverá noite na terra milenar, mas não precisa haver na cidade celestial, já que o Cordeiro está lá para dar luz. A maldição poderia referir-se à retirada da maldição sobre a terra por causa do pecado, de modo que a produtividade retornasse ao nível original e o veneno da criação animal e a inimizade entre o homem e os animais pudessem ser removidos (Is 11) e isso não precisa referir-se à remoção final da maldição pela destruição descrita em 2Pedro 3.10. Ape­nas os salvos poderiam entrar e habitar nessa cidade, mas os incrédu­los podem habitar na terra durante o milênio, na sua luz. Tal linha de raciocínio poderia ser usada para demonstrar que essas referências não estão necessariamente restritas à eternidade.


4. A duração do reinado. Apocalipse 22.5 declara que os santos reina­rão "pelos séculos dos séculos". Quando Apocalipse 20.4 menciona o reinado dos santos que estão no milênio, eles são apresentados reinando "com Cristo durante mil anos". Mil anos não é para sempre. E, já que esses santos reinam para sempre, a passagem deve referir-se à eternidade e não ao milênio.

Em resposta a esse argumento pode-se indicar que o reino de Cris­to não está limitado a mil anos. Ele reinará para sempre. O reino milenar se funde com o reino eterno, e então os santos são descritos reinando por mil anos apesar de continuarem a reinar pela eternidade.


5. A existência das nações na eternidade. Ao defender a posição de que toda essa passagem descreve a eternidade, Newell escreve amplamente sobre a interpretação das "nações" em Apocalipse 21.24-26. Ele afirma:

No capítulo 21.3, em que lemos que o tabernáculo de Deus finalmente está entre os homens, também lemos que "eles serão povos de Deus" (grego laoi). É incrível ver homens esclarecidos traduzindo o plural laoi, quase deliberadamente, como se fosse laos [...] A Versão Revista [em inglês] [...] traduz verdadeira e claramente "Eles serão povos de Deus", e assim nos prepara para evitar a suposição impossível de que 21.9 a 22.5 seja uma passagem que reverte a cenários milenares.

Sabemos com certeza que pelo menos uma nação e uma descendên­cia, israel, terá o direito de estar na terra [...] Isaías 66.22 [...] Deus diz que "a descendência e o nome" de Israel permanecerão nos céus e na terra, isto é, nessa nova ordem que começa em Apocalipse 21.1 [...]

Israel é a nação eleita de Deus — eleita não para o passado, nem mesmo por todo o milênio, mas para sempre. Porém, se Israel é a nação eleita, pressupõe-se a existência de outras nações!...

Mas o fato de que essa existência nacional não cessará é demonstra­do claramente pelo versículo 20 [de Sofonias 3]: "Naquele tempo, eu vos farei voltar e vos recolherei; certamente, farei de vós um nome e um lou­vor entre todos os povos (plural!) da terra".

Finalmente, a linguagem dos cinco primeiros versículos do capítulo 22 de Apocalipse, e especialmente dos versículos 4 e 5, é tão eterna em seu caráter quanto qualquer outra coisa no início do capítulo 21. "Nela, estará o trono de Deus e do Cordeiro. Os seus servos o servirão, contem­plarão a sua face, e na sua fronte está o nome dele [...] e reinarão pelos séculos dos séculos." Por que tais afirmações estariam ligadas a uma passa­gem que deveria simplesmente retomar e descrever as condições milenares? Isso seria incongruente. Além disso, não é correto, cremos, que as Escrituras voltem depois de o último julgamento ser realizado, e de a nova criação ser introduzida, aos tempos antes desse último julgamento e da nova criação. (William R. Newell, The book of the Revelation, p. 343-5.)

Sobre esse argumento da existência eterna de Israel como nação e a continuidade de outras nações, Kelly escreve:

... Em Isaías 65 um novo céu e uma nova terra foram anunciados: mas de maneira muito diferente! Ali a linguagem deve ser considerada num sen­tido muito restrito [...] é dito sobre o Senhor: "Ele reinará sobre a casa de Jacó para sempre, e o reino não terá fim". Essa é uma esperança do Antigo Testamento, apesar de mencionada no Novo Testamento, e significa, logicamente, que Ele reinará sobre a casa de Jacó enquanto ela existir como tal na terra. Quando a terra desaparecer e Israel não for mais visto como nação, os israelitas serão abençoados, sem dúvida, de maneira diferente e melhor; mas não haverá reinado de Cristo sobre eles como um povo ter­reno; e então esse reino, ao mesmo tempo que não tem fim enquanto a terra subsiste, deve necessariamente estar limitado à continuidade da ter­ra [...] O Novo Testamento usa a frase total e absolutamente, como um estado sem fim; mas no Antigo Testamento ela está ligada às relações terrenas sobre as quais o Espírito Santo falava naquele momento. (Kelly, op. cit., p. 463-4.)


Maior apoio à posição de Newell seria encontrado em Mateus 25.34, em que gentios salvos herdarão um reino preparado para eles desde a fundação do mundo. Já que eles herdam a vida (Mt 25.46), deve ser a vida eterna. Isso indicaria que os indivíduos serão salvos, terão vida eterna e ainda serão distintos de Israel.

Tais são os principais argumentos usados por aqueles que procuram apoiar a opinião de que essa passagem representa eras eternas, e não a era milenar. Observamos que homens de respeito apresentaram fortes argu­mentos que, por sua vez, foram contestados por homens igualmente res­peitáveis de diferente opinião. A luz desses argumentos e contraposições, existe solução para o problema? O exame de algumas das afirmações rela­tivas à nova Jerusalém nos ajudará a chegar a uma conclusão.


C. Apocalipse de 21.9 a 22.7 refere-se à morada eterna dos santos ressurretos durante o milênio

1. A cidade é uma cidade literal. Uma consideração importante nesse ponto é se a cidade descrita em Apocalipse 21 e 22 é literal ou mística. Scott representa os que acreditam que se trata de uma cidade mística:

Solicitamos ao leitor cuidadosa atenção para a distinção entre a nova Je­rusalém do Apocalipse, que é a igreja glorificada, e a Jerusalém celestial mencionada por Paulo (Hb 12.22). A última, ao contrário da primeira, não se refere ao povo, mas é a cidade do Deus vivo, uma cidade real, a localização de todos os santos celestiais. É a mesma mencionada no capí­tulo anterior, aquela que os santos e patriarcas esperavam (Hb 11.10-16), uma cidade material, construída e preparada pelo próprio Deus, maior e mais vasta do que se pode imaginar. A cidade de Paulo é material; a cida­de de João é mística. (Scott, op. cit., p. 421)
Devemos observar que Scott não oferece nenhuma prova de sua distin­ção, mas simplesmente faz a afirmação. Há muita evidência para mos­trar que essa cidade de Apocalipse 21 e 22 é literal, assim como a de Hebreus 12. Peters oferece um resumo dos argumentos que provam ser essa uma cidade literal.

1. Era costume no Oriente, quando um rei entrava na sua capital para reinar dali, ou um príncipe ascendia ao trono, representar isso com a figu­ra de um casamento, i.e., ele estava casado, íntima e permanentemente unido à cidade, ou trono, ou povo. O uso da figura nas Escrituras mostra que não devemos limitá-la, a não ser que seja específica em relação à igre­ja [...] Isso designa a união permanente de um povo com a terra, como em Isaías 62, em que, na descrição milenar, a terra é chamada "Beulah", ou seja "casada" [...] quando o fim realmente chegar [...'] não há nada impró­prio, antes é completamente adequado que a união do Rei dos Reis com Sua cidade metropolitana seja designada sob a mesma figura, implican­do o relacionamento mais íntimo e permanente. Logo, a figura do casa­mento, que para muitos é a principal objeção à idéia de uma cidade lite­ral, na verdade serve para indicá-la.

2. Pois a figura em si é explicada na descrição da cidade de maneira tão significativa, e em tamanho contraste com o uso feito dela anteriormente em relação à Jerusalém terrena, que simplesmente não pode ser aplicada a nada além de uma cidade literal. Declara-se expressamente que "o trono de Deus e do Cordeiro" está na cidade. Isso afirma sua posição teocrática como a capital do reino [...]

3. A morada de Deus, o lugar onde Ele colocou Seu tabernáculo entre os ho­mens, sempre assumiu, na antigüidade (como no tabernáculo e no tem­plo), uma forma material [...] antecipando o período em que a humanida­de glorificada, unida com o divino [...] habitaria com os homens [...] Essa morada, que era uma tenda e depois se tornou um templo, agora é exibi­da como cidade, mas ainda denominada "o tabernáculo de Deus" [...]

4. Na descrição da cidade, os santos ou habitantes e os justos são represen­tados como separados e distintos [...]

5. A declaração (Ap 21.22) de que a cidade não possui templo (tal como a Jerusalém terrena) [...] só pode ser atribuída a uma cidade material.

6. A distinção entre os santos e a cidade... é evidenciada por um grande grupo de passagens que falam sobre os patriarcas "procurando uma pátria", sobre todos os crentes aspirarem "a uma pátria superior" e sobre Deus "porquanto lhes preparou uma cida­de".

7. Isso corresponde a outro grupo de passagens que descrevem Jeru­salém vestindo belos trajes [...] fazendo-se uma cidade gloriosa em virtu­de do número, da santidade e da felicidade dos seus cidadãos etc. [...] Isaías 54.11,12 e Isaías 60.14-20 [...]

8. Mas o fato de que não há referência aos santos e sim a uma cidade material é percebido quando os santos são representados [...] quando o casamento acontece, como convidados, cha­mados ou convocados [...] Eles não podem ser, nesse caso, os convidados e a Noiva ao mesmo tempo [...]

9. Permita-se essa ordenação teocrática [...] à luz da glorificação, grandeza e majestade desse Rei [...] deve ser proporcionada uma cidade à altura da Pessoa augusta que nela habita. (G. N. H. Peters, Theocratic kingdom, m, p. 42-6)

Ao falar sobre o caráter literal dessa cidade, Grant escreve:

Em Hebreus 12 temos um testemunho ainda mais definitivo. Pois ali a "igreja dos primogênitos arrolados nos céus", assim como "os espíritos dos justos aperfeiçoados" — em outras palavras, crentes do Novo Testa­mento e santos do Antigo Testamento — são mencionados como distintos da "cidade do Deus vivo, a Jerusalém celestial"; isso não permitirá que eles sejam a mesma coisa, embora, por outro lado, seja fácil identificar uma cidade com seus habitantes. ( E W. Grant, The revelation of Christ, p. 227)


Newell acrescenta a idéia de que a cidade é literal.

... por causa da literalidade da sua descrição. Se ouro não quer dizer ouro, nem pérolas — pérolas, nem pedras preciosas — pedras, nem medidas exatas — dimensões reais, então a Bíblia não oferece nada exato nem confiável. (Newell, op. cit., p. 348)


Assim, parece haver ampla evidência para apoiar a opinião de que essa é uma cidade literal.
2. Os habitantes da cidade. Newell apresenta a tese de que a nova Jerusalém é "a morada eterna, 'habitação', de Deus — Pai, Filho e Espí­rito Santo". (Ibid., p. 352) Ele escreve:

Várias considerações nos levam à conclusão de que a Nova Jerusalém é o lugar de moradia eterna de Deus.

1. Imediatamente vemos o novo céu e a nova terra e a Nova Jerusa­lém que desce à nova terra (21.1,2); lemos: "Eis o tabernáculo de Deus com os homens" [...] O objetivo no novo céu e da nova terra é realizar isso — que Deus tenha Sua morada eternamente nessa capital da nova criação!

2. Nenhuma outra morada eterna de Deus é vista além dessa da capital da nova criação [...]

3. Essa cidade celestial tem a glória de Deus (21.11,23; 22.5) [...]

4. Ela também tem o trono de Deus e o "serviço" de 22.3, apropriada­mente denominado culto sacerdotal, ou adoração espiritual [...]

5. Eles verão a sua face [...] Esse, então, deve ser o lugar da moradia de Deus para sempre.

6. Apenas precisamos lembrar que os habitantes da Nova Jerusalém "reinarão pelos séculos dos séculos" (22.5). Isso não poderia ser escrito sobre ninguém mais, exceto os habitantes da capital da nova criação. (Ibid., p. 353-4)


Essa cidade não é apenas a morada de Deus, Pai, Filho e Espírito Santo, mas é também a morada da Sua Noiva, a Esposa do Cordeiro (Ap 21.9). Quando o anjo revelar a glória e a bênção da Noiva, revelará a morada, o lugar da Noiva, com a qual a Noiva se identificará. Essa cidade celestial é prometida como destino da igreja.

Mas tendes chegado ao monte Sião e à cidade do Deus vivo, a Jerusalém celestial, e a incontáveis hostes de anjos, e à universal assembléia e igreja dos primogênitos arrolados nos céus, e a Deus, o Juiz de todos, e aos espí­ritos dos justos aperfeiçoados (Hb 12.22,23).

Ao vencedor, fá-lo-ei coluna no santuário do meu Deus, e daí jamais sairá; gravarei também sobre ele o nome do meu Deus, o nome da cidade do meu Deus, a nova Jerusalém que desce do céu, vinda da parte do meu Deus, e o meu novo nome (Ap 3.12).
Sem dúvida esse é o mesmo lugar que o Senhor tinha em mente quan­do disse:

Na casa de meu Pai há muitas moradas. Se assim não fora, eu vo-lo teria dito. Pois vou preparar-vos lugar.

E, quando eu for e vos preparar lugar, voltarei e vos receberei para mim mesmo, para que, onde eu estou, estejais vós também (Jo 14.2,3).

Na verdade, não temos aqui cidade permanente, mas buscamos a que há de vir (Hb 13.14).


A relação da igreja com essa cidade é indicada ainda quando João men­ciona os nomes dos doze apóstolos do Cordeiro inscritos na sua mura­lha (Ap 21.14).

À medida que os habitantes da cidade são contemplados, obser­va-se que as Escrituras incluem mais que a igreja entre os habitantes. Uma cidade é vista como a esperança dos santos do Antigo Testamento. Sobre Abraão foi dito: "Porque aguardava a cidade que tem fundamen­tos, da qual Deus é o arquiteto e edificador" (Hb 11.10).

Ao comparar a Jerusalém terrena à celestial em Gálatas 4, Paulo afirma que, enquanto o judeu esperava no cativeiro a Jerusalém terrena, é oferecida por pro­messa uma cidade ou morada superior: "Mas a Jerusalém lá de cima é livre, a qual é nossa mãe" (Gl 4.26). Os santos do Antigo Testamento são retratados nas palavras: "Mas tendes chegado ao monte Sião e à cidade do Deus vivo, a Jerusalém celestial [...] aos espíritos dos justos aperfeiçoados" (Hb 12.22,23). Parece então que o autor inclui não só a igreja, mas os redimidos do Antigo Testamento, bem como anjos na companhia dos habitantes da Nova Jerusalém. Jennings observa:

Mas, já que todos os santos da antigüidade, sejam eles anteriores a qual­quer distinção grupai, como Enoque; ou gentios, como Jó; ou judeus, como Abraão, podem ter seu lugar nessa cidade, ela não pode ser considerada caracteristicamente judia. (Jennings, op. cit., p. 566)


E, apesar de o termo nova Jerusalém não ser estritamente judeu em conceito, vemos que Israel tem sua parte naquela cidade, pois João (Ap 21.12) vê os nomes das doze tribos de Israel, o que indica que os redimidos de Israel têm ali sua porção.

Com base nessa consideração, então, pode-se afirmar que a cidade será habitada por Deus, pela igreja, pelos redimidos de Israel e pelos redimidos de todas as eras, junto com os anjos santos. No entanto, essa cidade parece tirar sua caracterização principal da Noiva que habita ali.


3. Meios de entrada na cidade. Será mais fácil solucionar essa questão se observarmos que a igreja só pode entrar naquele lugar que Ele foi preparar para nós por meio do arrebatamento e da ressurreição. Após o trono de julgamento de Cristo e as bodas do Cordeiro, a Noiva será colocada em sua morada permanente. O arrebatamento e a ressurrei­ção tornam possível a entrada. Israel pode entrar nesse lugar prepara­do para ele apenas por meio da ressurreição. Já que a ressurreição de Israel acontece na segunda vinda, os salvos de Israel não entrarão na cidade até o arrebatamento e a ressurreição da igreja e sua própria res­surreição. O Israel vivo e os gentios vivos na terra na segunda vinda não entrarão nessa cidade, embora entrem no reino milenar de Cristo. Os salvos do Antigo Testamento, que esperavam essa cidade com fun­damentos, entram na cidade por meio da ressurreição. Assim, todos os redimidos que entram nessa cidade o fazem por meio da ressurreição. A cidade se torna então a morada de todos os santos ressurrectos, que entram nela no momento da sua ressurreição.
4. A relação dessa cidade com o milênio. Quando a igreja se unir em casamento ao Noivo e estiver instalada no lugar por Ele preparado, jamais será retirada de lá. A igreja entrará no seu estado eterno no arre­batamento. Quando o Senhor retornar com a Sua noiva para reinar, sua morada não ficará vazia por mil anos. Em vez disso, o lugar de morada será transferido do céu para uma posição acima da terra. Logo, João vê a "cidade santa, a nova Jerusalém, que descia do céu, da parte de Deus". Essa morada permanecerá no ar, para dar à terra sua luz, que é o brilho da irradiação do Filho, e então "as nações andarão mediante a sua luz, e os reis da terra lhe trazem a sua glória" (Ap 21.24). Na segunda vinda, a hora da descida da cidade ao ar acima da terra, os santos da igreja serão acompanhados pelos santos do Antigo Testamento, ali vivificados e estabelecidos.

Muitos escritores vêem a cidade como a morada da igreja durante o milênio. Jennings diz:

... recuamos mil anos, mesmo das fronteiras da eternidade, para exami­nar, mais cuidadosamente do que antes, a Noiva, a esposa do Cordeiro e sua relação com a terra durante o milênio. (Ibid., p. 565)
Na mesma linha, Scott escreve:

Após uma alusão passageira ao reino milenar de Cristo e a Seus santos celestiais (cap. 20.4-6), somos levados de volta de uma consideração do estado eterno para uma descrição extensa da Noiva, a esposa do Cordei­ro, em sua relação milenar com Israel e com o mundo em geral. (Scott, op. cit., p. 429.)


Kelly escreve:

Assim, se tivemos a noiva em relação ao Cordeiro no capítulo 19 e como a santa cidade, Nova Jerusalém, em relação ao estado eterno, o versículo 9 e os versículos seguintes desse capítulo mostram que, durante o intervalo entre as bodas do Cordeiro e o novo céu e a nova terra no estado eterno, ela tem um lugar muito abençoado aos olhos de Deus e dos homens. É a demonstração da igreja durante o milênio. (Kelly, op. cit., p. 462)


Ou ainda:

Todo o registro, desde o versículo 9 do capítulo 21 até o versículo 5 do capítulo 22, inclusive, apresenta a relação da cidade celestial com a terra durante o milênio. (Ibid., p. 489)


Observamos assim que, apesar de a terra não estar no seu estado eterno, e apesar de ser necessário que o Rei a governe com cetro de ferro e apesar de haver uma rebelião contra a autoridade do Rei (e con­tra que Luz eles pecarão!), a igreja está no seu estado eterno, gozando da sua comunhão eterna e dos frutos da sua salvação. Dessa cidade celestial ela reinará com Aquele que recebe o título de Rei dos Reis e Senhor dos Senhores. Não é a eternidade, mas a igreja e os redimidos das eras já estarão no seu estado eterno. Cremos que Kelly resume bem o pensamento:

Lembre-se bem disso, no entanto, que, se olhamos para a cidade celestial em si, ela é eterna. Fará pouca diferença à cidade se for vista no milênio ou no estado eterno que o sucede. Há duas descidas da cidade no capítulo 21, uma no início do milênio e outra no começo do estado eterno. O segundo versículo desse capítulo nos dá sua descida quando o estado eterno che­gou, e o versículo 10, sua descida para o milênio. A razão, creio eu, é que no fim do milênio o antigo céu e a antiga terra acabam; e naturalmente a cidade desapareceria do cenário da convulsão. Assim, quando a nova ter­ra surgir à nossa vista, a cidade celestial descerá novamente e tomará seu lugar permanente nos novos céus e na nova terra, nos quais habitará a justiça. É necessário afirmar isso; porque, embora no fim dos mil anos tudo venha a ser mudado, mesmo assim a cidade celestial durará para sempre [grifo do autor]. (Ibid., p. 488. Scott diz: [a igreja é vista] "antes do reino (19.7), após o reino (21.2), durante o reino (21.9)". Op. cit., p. 420.)


Se alguns se opuserem ao fato de que o Israel ressurrecto não tem parte com a igreja, mas é destinado a permanecer na terra e não num relacionamento íntimo com Cristo e a igreja, devemos fazer algumas observações.

1) A primeira ressurreição incluirá não apenas os que es­tão em Cristo (lTs 4.16), mas "os que são de Cristo" (1 Co 15.23).

2) O destino dos patriarcas salvos e dos "justos aperfeiçoados" (Hb 12.23) é descrito como sendo a Nova Jerusalém, onde só é possível entrar medi­ante a ressurreição.

3) Os santos do Antigo Testamento não estão sujei­tos à disciplina do Rei.

4) Os santos do Antigo Testamento reinarão no milênio (Ap 20.3), assim como a igreja (Ap 3.21), e poderão reinar da cidade celestial, visto que ela está relacionada com a terra e está na esfera da terra, apesar de não estar na terra. Não haveria restrição que os impedisse de ir e vir quando quisessem.

Logo, conclui-se que, durante o milênio, a cidade celestial entrará num relacionamento com a terra, mesmo que não esteja fixada na terra. Os santos ressurrectos de todas as eras viverão nessa cidade em seu estado eterno e possuirão suas bênçãos eternas, embora isso não acon­teça com a situação na terra propriamente dita.


5. A relação dessa cidade com a eternidade. Observe novamente a cita­ção anterior de Kelly de que, com relação à cidade ou ao estado do seus habitantes, não haverá nenhuma mudança quando o Filho entregar o reino a Seu Pai e começar a eternidade. O local da cidade pode ser mu­dado, mas os habitantes não sofrerão mudança. A cidade poderá ser removida durante a purificação da terra (lPe 3.10) e retornar e ocupar sua morada na nova terra (Ap 21.2), mas não ocorrerá nenhuma mu­dança dentro dela.

A pesquisa dos argumentos sobre a questão de Apocalipse de 21.9 a 22.5 dizer respeito ao milênio ou ao estado eterno revelou grande divergência de opiniões, apoiadas por argumentos lógicos favoráveis e contrários a ambas as posições. O estudo levou à conclusão de que o erro está em tentar estabelecer uma proposta exclusivamente alternati­va. Uma posição intermediária, em que a condição eterna dos ressurrectos durante o milênio é vista na passagem, é sugerida como mais satisfatória.

Quando os habitantes da cidade são descritos, deve­mos observar que estão em seu estado eterno, desfrutando de sua bên­ção eterna, num relacionamento eterno com Deus, que colocou Seu tabernáculo entre eles. Não haverá nenhuma mudança na sua posição ou relação. Quando os ocupantes da terra são descritos, eles são vistos no milênio. Eles têm um relacionamento estabelecido com a cidade celestial que está acima deles, sob cuja luz eles andam. Sua posição, porém, não é eterna nem imutável, mas sim milenar.

O Senhor prometeu preparar um lugar para os Seus. No arrebata­mento e na ressurreição da igreja, os santos dessa era são, após o tribu­nal de Cristo e das bodas, instalados naquele lugar preparado. Eles são acompanhados pelos santos do Antigo Testamento na sua ressurreição da segunda vinda. Essa morada preparada para a Noiva, em que os santos do Antigo Testamento se estabelecem como servos (Ap 22.3), desce no ar e fica sobre a terra da Palestina no milênio, durante o qual os santos exercem seu direito de reinar. Esses santos estão em condição eterna, e a cidade goza de glória eterna. No fim do milênio, na renova­ção da terra, a morada é retirada durante a queima, para se estabelecer após a recriação como a ligação entre o novo céu e a nova terra.



II. A Vida na Cidade Eterna

Em nenhum lugar as Escrituras apresentam detalhes da vida no reino eterno de Deus. Às vezes o véu é levantado para mostrar rapida­mente essa vida, da qual a nossa experiência atual com Ele é apenas "uma prévia da glória divina".


A. Uma vida de comunhão com Ele

Porque, agora, vemos como em espelho, obscuramente; então, veremos face a face (1 Co 13.12).

Amados, agora, somos filhos de Deus, e ainda não se manifestou o que haveremos de ser. Sabemos que, quando ele se manifestar, seremos semelhantes a ele, porque haveremos de vê-lo como ele é (lJo 3.2).

Voltarei e vos receberei para mim mesmo, para que, onde eu estou, estejais vós também (Jo 14.3).

Contemplarão a sua face (Ap 22.4).

B. Uma vida de descanso

Então, ouvi uma voz do céu, dizendo: Escreve: Bem-aventurados os mor­tos que, desde agora, morrem no Senhor. Sim, diz o Espírito, para que descansem das suas fadigas, pois as suas obras os acompanham (Ap 14.13).

C. Uma vida de total entendimento

... agora, conheço em parte; então, conhecerei como também sou conheci­do (1 Co 13.12).

D. Uma vida de santidade

Nela, nunca jamais penetrará cousa alguma contaminada, nem o que pra­tica abominação e mentira, mas somente os inscritos no livro da vida do Cordeiro (Ap 21.27).

E. Uma vida de alegria

E lhes enxugará dos olhos toda lágrima, e a morte já não existirá, já não haverá luto, nem pranto, nem dor, porque as primeiras cousas passaram (Ap 21.4).

F. Uma vida de serviço

Nunca mais haverá qualquer maldição. Nela, estará o trono de Deus e do Cordeiro. Os seus servos o servirão (Ap 22.3).

G. Uma vida de abundância

Eu, a quem tem sede, darei de graça da fonte da água da vida (Ap 21.6).

H. Uma vida de glória

Porque a nossa leve e momentânea tribulação produz para nós eter­no peso de glória, acima de toda comparação (2 Co 4.17).

Quando Cristo, que é a nossa vida, se manifestar, então, vós também sereis manifestados com ele, em glória (Cl 3.4).

I. Uma vida de adoração

Depois destas cousas, ouvi no céu uma como grande voz de nume­rosa multidão, dizendo: Aleluia! A salvação, e a glória, e o poder são do nosso Deus (Ap 19.1).



Depois destas cousas, vi, e eis grande multidão que ninguém podia enumerar, de todas as nações, tribos, povos e línguas, em pé diante do trono e diante do Cordeiro, vestidos de vestiduras brancas, com palmas nas mãos; e clamavam em grande voz, dizendo: Ao nosso Deus, que se assenta no trono, e ao Cordeiro [...] O louvor, e a glória, e a sabedoria, e as ações de graça, e a honra, e o poder, e a força sejam ao nosso Deus, pelos séculos dos séculos. Amém (Ap 7.9-12).
Nenhum indivíduo redimido jamais poderia entender completa­mente a glória do futuro que lhe está proposto. João resumiu a glória prevista ao dizer: "Sabemos que, quando ele se manifestar, seremos semelhantes a ele" (lJo 3.2). A glória da nossa esperança é que seremos transformados à Sua semelhança, sem pecado, sem morte, experimen­tando um perfeito desenvolvimento.
Oh, Cristo! Ele é a fonte,

Poço de amor é meu Rei!

Dos rios da terra eu bebi,

Mais fundo no céu beberei.

Ali, como um mar sem limites,

Crescerá seu imenso amor

E a glória estará para sempre

Na terra de nosso Senhor.
Existe o perigo de o redimido ficar tão ocupado com a espera da sua própria experiência de glória, que a glorificação suprema da Trindade se perca. Nossa preocupação com o estado eterno não será com a nossa posição ou glória, mas com o próprio Deus. João escreve: "Seremos se­melhantes a ele" (lJo 3.2). Estaremos totalmente ocupados com Aquele "que nos ama, e, pelo seu sangue, nos libertou dos nossos pecados, e nos constituiu reino, sacerdotes para o seu Deus e Pai" (Ap 1.5-6), dan­do "o louvor, e a honra, e a glória, e o domínio pelos séculos dos sécu­los" (Ap 5.13), dizendo "O louvor, e a glória, e a sabedoria, e as ações de graça, e a honra, e o poder, e a força sejam ao nosso Deus, pelos séculos dos séculos. Amém" (Ap 7.12), pois "Digno é o Cordeiro que foi morto de receber o poder, e riqueza, e sabedoria, e força, e honra, e glória e louvor" (Ap 5.12).
A Noiva não olha suas vestes,

Mas do Noivo o seu rosto de amor;

E a glória não brilha aos meus olhos

Mas a graça do Rei Salvador.

Não me atrai a coroa que entrega

Quem por mim sofreu tanta dor,

O Cordeiro será toda a glória

Na terra de nosso Senhor.


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