Manual de Escatologia



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Capítulo 4 - A interpretação da profecia




I. Observações Gerais Referentes à Profecia

O problema de especial interesse para o estudioso de escatologia é a inter­pretação das passagens proféticas das Escrituras. Antes de considerar as re­gras específicas que governam a interpretação de profecias, seria bom traçar certas observações gerais a respeito da natureza da linguagem profética.


A. As características da profecia. Algumas características gerais que são marcas inconfundíveis das passagens proféticas das Escrituras nos são fornecidas por Oehler, que resume:
As características das profecias do Antigo Testamento são:

1) Uma vez que a revelação é dada ao profeta sob a forma de intuição, tem-se a impressão de que o futuro é imediatamente presente, completo, ou de que todos os acontecimentos estão em andamento.

2) O fato de que o assunto da profe­cia é dado em forma intuitiva também é razão pela qual ela sempre vê a concretização desse assunto em certas ocorrências completas em si mes­mas; i.e., uma profecia pode aparecer como uma única ocorrência, mas, na verdade, pode haver dois, três ou quatro cumprimentos.

3) Já que o assun­to da profecia se apresenta ao leitor como uma série de fatos individuais, pode parecer às vezes que prognósticos individuais se contradizem quan­do são, na realidade, apenas partes nas quais as idéias reveladas foram separadas, complementando-se mutuamente, e.g., imagens contrastantes do Messias em estados de sofrimento e de glória.

4) O assunto profético está na forma de intuição, o que significa ainda que, no que diz respeito à sua forma, ela está no nível do próprio observador, i.e., o profeta falou da futura glória nos termos de sua própria sociedade e experiência. (Gustav Friedrich Oehler, Theology of the Old Testament, p. 488ss.)
Von Orelli adiciona o seguinte a essas observações básicas:
1) A profecia pode ser cumprida logo após pronunciada ou em data mui­to posterior.

2) A profecia é condicionada eticamente, quer dizer, parte de seu cumprimento está condicionada ao comportamento dos receptores. Ela pode até ser revogada.

3) A profecia pode ser cumprida sucessiva­mente.

4) Não podemos pedantemente exigir que a profecia seja cumprida exatamente como foi dada. Orelli quer dizer com isso que devemos separar a semente do prognóstico da casca da aparência contemporânea.

5) Muitas profecias, sobretudo as referentes a Cristo, são literalmente cum­pridas.

6) A forma e o caráter da profecia são condicionados pela época e pela localização do escritor.

7) As profecias freqüentemente formam partes de um todo e, assim, devem ser comparadas com outras profecias.

8) O profeta vê juntos fatos que são amplamente separados no cumprimento. (C. von Orelli, Prophecy, prophets, International standard Bible encyclopedia, iv, 2459-66, resumido por Ramm, op. cit., p.158)


B. O elemento cronológico da profecia. Devemos observar que o ele­mento tempo desempenha papel relativamente pequeno na profecia. Angus e Green resumiram os relacionamentos assim:
No que diz respeito à linguagem da profecia, especialmente no seu signi­ficado quanto ao futuro, deve-se observar o seguinte:

1. Os profetas freqüentemente falam de coisas que pertencem ao fu­turo como se fossem presentes a seus olhos (Is 9.6).

2. Eles falam de coisas futuras como se fossem passadas (Is 53).

3. Quando o tempo exato de certos acontecimentos não era revela­do, os profetas os apresentavam como contínuos. Viam o futuro mais pro­priamente no espaço que no tempo; o todo, então, aparece em perspecti­va reduzida; e é levada em conta a perspectiva, e não a distância real. Eles parecem, muitas vezes, falar de coisas futuras como um leigo observaria as estrelas, agrupando-as da maneira que aparecem, e não de acordo com suas verdadeiras posições. (Joseph Angus & Samuel G. Green, The Bible Handbook, p. 245)


C. A lei da dupla referência. Poucas leis são mais importantes de observar na interpretação das Escrituras proféticas do que a lei da dupla referência. Dois acontecimentos, muito distantes no que diz respeito à época de cum­primento, podem ser unidos no escopo de uma profecia. Isso acontecia por­que o profeta tinha uma mensagem para sua própria época e outra para o futuro. Reunindo dois acontecimentos muitos distantes dentro do escopo da profecia, ambos os propósitos podiam cumprir-se. Horne diz:
As mesmas profecias muitas vezes têm sentido duplo e referem-se a diferentes acontecimentos, um próximo, outro remoto; um secular, outro espiritual ou talvez eterno. Uma vez que os profetas tinham em mente vários acontecimentos, suas expressões podem ser parcialmente aplicá­veis a um e parcialmente a outro, e nem sempre é fácil fazer as transições. O que não foi cumprido inicialmente deve ser aplicado ao segundo; o que já foi cumprido, muitas vezes pode ser considerado típico do que resta a ser realizado. (Thomas Hartwell Horne, Introduction to the critical study and knowledge of the Holy Scriptures, I, p. 390)
Era propósito de Deus dar a visão próxima e distante, para que o cumprimento de uma garantisse o cumprimento da outra. Girdlestone ressalta isso quando diz:
Ainda outra provisão foi feita para confirmar a fé do homem em pronun­ciamentos que tratavam do futuro distante. Muitas vezes os profetas que tinham de falar de tais coisas também eram comissionados para predizer outras coisas que aconteceriam em breve; a constatação dessas previsões recentes no seu próprio tempo e geração era justificativa para que os ou­vintes acreditassem nos outros pronunciamentos que apontavam para um tempo ainda mais distante. Uma era praticamente um "sinal" da outra e, se uma se mostrasse verdadeira, poder-se-ia confiar na outra. Desse modo, o nascimento de Isaque sob circunstâncias tão improváveis ajudaria Abraão a acreditar que em sua semente todas as famílias da terra seriam abençoadas. (R. B. Girdlestone, The grammar of prophecy, p. 21)
D. Profecias condicionais. Allis citou que "... pode haver uma condi­ção numa ordem ou promessa sem ser especificamente declarada. Exem­plo disso é a carreira de Jonas".( Oswald T. Allis, Prophecy and the church, p. 32) Com base na mensagem de Jonas, muitas vezes se sabe que existem condições ocultas ligadas a cada pro­fecia, as quais podem ser a base do não-cumprimento. Em resposta a tal afirmação, Horne declara:
As previsões que denunciam julgamentos por vir não falam, em si mes­mas, da futuridade absoluta do acontecimento, mas apenas declaram o que deve ser esperado quanto às pessoas às quais se referem, e declaram também o que certamente se dará a não ser que Deus, na Sua misericór­dia, intervenha entre a ameaça e o acontecimento. (Horne, op. cit., i, p. 391.)
Girdlestone versa longamente sobre a questão das profecias condicio­nais. Ele diz:
Dentre os pontos relacionados à natureza e ao cumprimento da profecia, poucos exigem mais atenção do que este — que algumas previsões são condicionais, enquanto outras são absolutas. Muitas declarações das Es­crituras (e.g., Lv 26) apresentam perspectivas alternativas [...]

Todavia, a natureza condicional de uma previsão nem sempre está evidentemente declarada nas Escrituras. Nesse caso, dizemos que Jonas pregou que dentro de quarenta dias Nínive seria destruída; as pessoas arrependeram-se com a pregação, e Nínive não foi destruída; porém, se­gundo se sabe, as pessoas não foram avisadas de que, caso se arrependes­sem, escapariam do juízo.

Previsões desse tipo são tão numerosas, que nós concluímos a possí­vel existência de algumas condições não-expressas, porém básicas, em todos os casos, para justificar que Deus se desviasse do cumprimento lite­ral do pronunciamento profético. Qual seja essa condição pode ser inferi­do de capítulos como Jeremias 18 e Ezequiel 33. Depois de Jeremias ter assistido ao oleiro em seu trabalho e aprendido a grande lição da Sobera­nia de Deus, uma mensagem adicional foi apresentada: "No momento em que eu falar acerca de uma nação ou de um reino para o arrancar, derribar e destruir, se a tal nação se converter da maldade contra a qual eu falei, também eu me arrependerei do mal que pensava fazer-lhe. E, no momento em que eu falar acerca de uma nação ou de um reino, para o edificar e plantar, se ela fizer o que é mal perante mim e não der ouvidos à minha voz, então, me arrependerei do bem que houvera dito lhe faria" [Jr 18.7-10].

Agindo com base nesse princípio, Jeremias conseqüentemen­te fala aos príncipes, sacerdotes e profetas que o queriam ver morto: "Fa­lou Jeremias a todos os príncipes e a todo o povo, dizendo: O Senhor me enviou a profetizar contra esta casa e contra esta cidade todas as palavras que ouvistes. Agora, pois, emendai os vossos caminhos e as vossas ações e ouvi a voz do Senhor, vosso Deus; então, se arrependerá o Senhor do mal que falou contra vós outros" [Jr 26.12,13]. Se as pessoas se arrependessem, em certo sentido o Senhor se arrependeria. E com base em quê? Com base nos atributos originais, essenciais e eternos da natureza divina, e com base nas antigas promessas e alianças que Deus havia firmado com os patriarcas em decorrência desses atributos. (Girdlestone, op. cit, p. 25ss.)


Embora Girdlestone reconheça que as profecias de julgamento podem ser condicionadas pelo arrependimento e, de acordo com a maneira com que Deus lida universalmente com o pecado e com o pecador, o juízo pode ser evitado se o pecador se voltar a Deus, ele não quer dizer que possam, ser atribuídas condições a outras classes de profecias para as quais nenhuma condição tenha sido declarada. Ele se protege contra essa conclusão infundada acrescentando:
Poderíamos dizer que todas as expressões proféticas são condicionais? De modo algum. Existem algumas coisas sobre as quais "o Senhor jurou e não se arrependerá" (Sl 110.4) [...]

Essas promessas irreversíveis não dependem da bondade do homem, mas de Deus. São absolutas no seu cumprimento, mesmo tendo sido con­dicionais quanto à hora e ao lugar de seu cumprimento [...]

Tempos e estações podem ser mudados, dias podem ser abreviados, acontecimentos podem ser acelerados ou atrasados, indivíduos e nações podem inserir-se no escopo da profecia ou ser postos de lado; mas os acontecimentos em si são ordenados e certos, selados com o juramento de Deus, todos garantidos pela Sua própria vida. (Ibid., p. 28ss)
O relacionamento entre os aspectos condicionais e incondicionais da profecia foi observado por Peters, que comenta:
As profecias relacionadas ao estabelecimento do reino de Deus são ao mesmo tempo condicionais e incondicionais.

Por esse paradoxo quero dizer simplesmente que elas são condicio­nadas no seu cumprimento pelo agrupamento antecedente dos eleitos, e por isso suscetíveis de adiamento [...] e são incondicionais no que diz respeito ao seu cumprimento final, que a conduta ou ação de um homem não pode reverter [...] O próprio reino pertence ao Propósito Divino, é o assunto de alianças sagradas, é confirmado por juramentos solenes, será o resultado ou fim projetado no processo de redenção e, logo, não pode falhar e não falhará. Os herdeiros do reino, contudo, são condicionados —um número de pessoas conhecido apenas por Deus— e o próprio reino, apesar de predeterminado [...], é dependente [...], na sua manifestação, de que esse número seja completado... (George N. H. Peters, The theocratic kingdom, I, p. 176)


Podemos então concluir que, embora a profecia que depende da atividade humana possa ser condicional, o que depende de Deus não pode ser condicional, a menos que as condições sejam nitidamente de­claradas. Profecias baseadas em alianças imutáveis não podem admitir a inserção de nenhuma condição. Desse modo, não há justificativa para supor quaisquer condições para o cumprimento da profecia.

II. Métodos de Revelação Profética

Além do pronunciamento profético direto, acontecimentos futu­ros são revelados por meio de tipos, símbolos, parábolas, sonhos e êx­tase profético. Como há problemas que acompanham a interpretação dessas revelações proféticas, é preciso dar atenção a cada um deles an­tes de considerar o problema da interpretação da profecia como um todo, pois não haverá entendimento da profecia sem que se compreen­dam os seus canais. O estudioso deve então familiarizar-se com a lin­guagem profética — suas figuras e seus símbolos, bem como seu méto­do de comunicação. Terry diz:


A interpretação completa das passagens proféticas das Escrituras Sagra­das depende principalmente do domínio dos princípios e das leis da lin­guagem figurada, e dos tipos e símbolos. Também requer algum conheci­mento da natureza dos êxtases e dos sonhos visionários. (Milton R. Terry, Biblical hermeneutics, p. 405)
A. Revelação profética por meio de tipos. Terry oferece uma boa defini­ção sumariada de tipo quando diz: "Na ciência teológica significa estri­tamente a relação representativa preordenada que certas pessoas, acon­tecimentos e instituições do Antigo Testamento têm com pessoas, acon­tecimentos e instituições correspondentes do Novo".( Ibid., p. 336.) Esse conceito básico é desenvolvido por Angus e por Green, que sublinham os se­guintes pontos.

1. O que é simbolizado — o "antítipo"— é a realidade ideal ou espiritual, que corresponde ao tipo e ao mesmo tempo o transcende.

2. O tipo pode ter seu próprio lugar e significado, independentemen­te daquilo que prefigura. Dessa forma a serpente de bronze trazia cura aos israelitas, mesmo à parte da libertação maior que ela simbolizava.

3. Segue-se, logicamente, que naquela ocasião o tipo pode não ter sido entendido em seu caráter ou implicação maior.

4. Em relação aos símbolos em geral, a essência de um tipo deve ser distinguida de seus acessórios.

5. A única autoridade segura para a aplicação de um tipo deve ser encontrada nas Escrituras. A mera percepção de uma analogia não será suficiente. Os expositores muitas vezes imaginam correspondência onde nada de fato existe e, mesmo que existisse, nada haveria para provar uma intenção divina especial [...]

Nas palavras do bispo Marsh: "Para estabelecer uma coisa como tipo da outra, no Sentido em que o termo é geralmente entendido com referência às Escrituras, é preciso algo mais que mera semelhança. O an­terior não deve apenas assemelhar-se ao posterior, mas deve ter sido pro­jetado para assemelhar-se ao posterior. Deve ter sido projetado na sua ins­tituição original. Deve ter sido projetado como uma preparação para o pos­terior. O tipo, assim como o antítipo, deve ter sido preordenado, e ambos devem ter sido preordenados como componentes de um mesmo plano da Providência Divina. Esse projeto prévio e essa conexão preordenada consti­tuem a relação do tipo com o antítipo". (Angus & Green, op. cit, p. 225-6.)
Fritsch não somente define o tipo cuidadosamente, mas também oferece grande ajuda na distinção entre tipo e alegoria. Ele escreve:
A definição que proponho para a palavra "tipo" em seu sentido teológico é a seguinte: Tipo é uma instituição, acontecimento ou pessoa histórica, ordenada por Deus, que prefigura inequivocamente algumas verdades ligadas ao cristianismo [...]

Em primeiro lugar, ao definir o tipo como instituição, acontecimento ou pessoa histórica, estamos frisando que o tipo deve ser significativo e real em si mesmo [...]

Nesse aspecto o tipo se diferencia da alegoria [...] Pois uma alegoria é uma narração fictícia ou, para falar menos abruptamente, numa alego­ria a verdade histórica da narrativa tratada pode ou não ser aceita, ao passo que, na tipologia, o cumprimento de um antítipo só pode ser enten­dido à luz da realidade do tipo original.

Em segundo lugar, deve haver uma conexão divinamente inspirada entre o tipo e o antítipo. Como o bispo Westcott diz: "O tipo pressupõe um propósito na história, forjado de época em época. A alegoria depen­de, em última análise, da imaginação... ".

Em terceiro lugar, o tipo não é apenas real e válido por si só; é eficaz em seu contexto imediato. Ele só pode prefigurar efetivamente o antítipo porque contém inerente em si mesmo pelo menos algo da eficácia que será completamente realizada no antítipo.

[...]


Em quarto lugar, a característica mais importante do tipo, como se viu acima, é o fato de que ele prediz algumas verdades ligadas ao cristia­nismo ou ao próprio Cristo [...] Tipologia difere de profecia, no sentido estrito do termo, somente quanto aos meios de predição. A profecia pre­diz principalmente por meio da palavra, ao passo que a tipologia prediz por meio de instituições, atos ou pessoas.

[...]


É muito importante fazer a distinção [...] entre tipo e alegoria, pois na igreja primitiva o método alegórico de interpretação embaçou o ver­dadeiro significado do Antigo Testamento a tal ponto que era impossível existir uma tipologia legítima. De acordo com esse método o sentido lite­ral e histórico das Escrituras é completamente desprezado, e toda pala­vra e acontecimento é transformado em um tipo de alegoria, seja para escapar às dificuldades teológicas, seja para sustentar certas visões religio­sas estranhas... (Charles T. Fritsch, Biblical typology, Bibliotheca Sacra, 104:214, Apr. 1947)
Sem dúvida a incapacidade ou a falta de disposição de observar essa última distinção tem levado alguns a sentir que o uso de tipos nas Es­crituras justifica o método de interpretação alegórica. Fairbairn faz essa mesma observação, que deve ser levada a sério, quando escreve:
... Quando interpretamos uma profecia à qual se atribui duplo sentido, um relacionado ao judeu, outro relacionado ao cristão, estamos em am­bos os casos preocupados com uma interpretação de palavras. Pois as mesmas palavras que, de acordo com uma interpretação, se aplicam a um acontecimento, de acordo com outra interpretação se aplicam a outro. Mas na interpretação de uma alegoria estamos preocupados apenas, em pri­meira instância, com a interpretação das palavras; o segundo sentido, ge­ralmente chamado alegórico, é, na verdade, uma interpretação de coisas. A interpretação das palavras nada fornece além das próprias narrativas simples (a alegoria geralmente assume a forma de uma narrativa), ao passo que a moral da alegoria é aprendida pela aplicação das coisas que as pala­vras significam a coisas semelhantes, intencionalmente sugeridas pelo au­tor. Existe, portanto, diferença fundamental entre a interpretação de uma alegoria e a interpretação de uma profecia com duplo sentido. (Patrick Fairbairn, The typology of Scripture, p. 131-2)
Pela própria natureza, o tipo é essencialmente profético em cará­ter. Isso foi observado por Fairbairn, que destaca:
O tipo, conforme explicado e entendido, possui necessariamente caráter profético e difere em sua forma, não na natureza, do que é geralmente designado profecia. Aquele imagina e prefigura, enquanto esta prevê rea­lidades que estão por vir. Naqueles atos ou símbolos representativos, nes­tas delineações verbais servem o propósito de indicar de antemão o que Deus determinou realizar a favor do seu povo no futuro. A diferença não é tal que chegue a afetar a natureza essencial dos dois elementos... (Ibid., p. 106)
Na interpretação de profecias reveladas por meio de tipos, é im­portante observar que as mesmas máximas hermenêuticas previamen­te estabelecidas são aplicadas também aqui. Angus e Green fornecem um resumo satisfatório, quando dizem:
Na interpretação de todos esses tipos e da história nas suas alusões se­cundárias ou espirituais, usamos as mesmas regras empregadas na inter­pretação de parábolas e de alegorias propriamente ditas: comparar a his­tória ou o tipo com a verdade em geral, que tanto o tipo e antítipo incor­poram; esperar concordâncias em várias particularidades, mas não em todas; e deixar a interpretação de cada parte harmonizar com a estrutura do todo e com a revelação clara da doutrina divina dada em outras partes do volume sagrado.

Cuidados. [...] Ao aplicar essas regras, é importante lembrar que os escritores inspirados nunca destruíram o sentido histórico das Escrituras para estabelecer o espiritual; tampouco encontraram um sentido oculto nas palavras, mas apenas nos fatos de cada passagem; um sentido que é fácil, natural e bíblico; e que eles se confinaram a exposições que ilustra­vam alguma verdade de importância prática ou espiritual. (Angus & Green, op. cit, p. 227)


B. Revelação profética por meio de símbolos. O segundo método de revelação profética se dá por intermédio de símbolos. Ramm, seguindo um padrão geralmente aceito, diz que pode haver seis tipos de símbo­los de caráter profético:

1) pessoas,

2) instituições,

3) ofícios,

4) aconte­cimentos,

5) ações e

6) coisas. (Bernard Ramm, Protestant biblical interpretation, p. 147)

Bahr propõe as seguintes regras para guiar a interpretação de tais símbolos:


1) O significado de um símbolo deve ser apurado em primeiro lugar pelo conhecimento exato de sua natureza.

2) Os símbolos do culto mosaico podem ter, em geral, apenas significados que concordem com idéias e verdades do mosaísmo e com seus princípios claramente expressos e re­conhecidos.

3) O significado de cada símbolo deve ser buscado, primeira­mente, no seu nome.

4) Cada símbolo tem, geralmente, apenas um signi­ficado. 5) Por mais diferente que seja a conexão que possa ter, cada símbo­lo tem sempre o mesmo significado fundamental.

6) Em cada símbolo, seja objeto, seja ação, a principal idéia a ser simbolizada deve ser cuida­dosamente distinguida do que serve necessariamente apenas para sua devida exibição, e tem, com isso, um propósito secundário. (Ap. Terry, op. cit., p. 357-8.)

Terry apresenta três princípios fundamentais para lidar com os sím­bolos. Ele escreve:


... Aceitamos os seguintes três princípios fundamentais para o simbolis­mo:

1) os nomes dos símbolos devem ser entendidos literalmente;

2) os símbolos sempre significam algo essencialmente diferente deles mesmos e

3) alguma semelhança, mais ou menos detalhada, pode ser estabelecida entre o símbolo e a coisa que ele simboliza.

A grande pergunta que os intérpretes de símbolos devem ter em mente, portanto, é: "Quais são os prováveis pontos de semelhança entre esse sinal e aquilo que ele pretende representar?". Supostamente seria óbvio a cada ser pensante que, para responder a essa pergunta, nenhum conjunto detalhado e rígido de regras (hipoteticamente aplicável a todos os símbolos) fosse esperado [...]

Em geral podemos dizer que, ao respon­der à pergunta acima, o intérprete deve ter uma consideração rigorosa:

1) para com o ponto de vista histórico do autor ou profeta,

2) para com o lugar e o contexto e

3) para com a analogia e o significado de símbolos e figuras semelhantes usados em outros lugares. Sem dúvida, a verdadeira interpretação de todos os símbolos será a que satisfizer todas essas várias condições e não tentar forçar uma suposta similaridade além da que é claramente garantida por fato, razão e analogia. (Terry, op. cit., p. 356-7.)

Certamente o que foi dito pelos autores anteriormente a respeito da interpretação de símbolos em geral será aplicado à interpretação do simbolismo profético. Terry, contudo, acrescentou uma palavra concernente a esse campo especializado de simbolismo:


Portanto, na exposição desse tipo de profecias, é muito importante apli­car com discernimento e habilidade os princípios hermenêuticos do sim­bolismo bíblico. Esse processo requer, especialmente, três coisas:

1) que sejamos claros em discriminar e descobrir o que é e o que não é símbolo;

2) que os símbolos sejam contemplados em seus aspectos amplos e notó­rios, não nos aspectos secundários de semelhança e

3) que eles sejam am­plamente comparados no que diz respeito à sua importância e uso geral, para que um método uniforme e coerente seja seguido em sua interpreta­ção.

Uma falha na observação do primeiro destes levará a interminável confusão entre o simbólico e o literal. Uma falha no segundo tende a am­pliar pontos pequenos e menos importantes, obscurecendo as lições maio­res e causando má compreensão do escopo e significado do todo [...] O cuidado em observar a terceira regra possibilitará que o indivíduo note tanto as diferenças como as semelhanças de símbolos similares. (Ibid., p. 415.)
Existe uma observação que parece ter sido negligenciada por muitos estudiosos da interpretação de profecias — o fato de que as Escritu­ras interpretam seus próprios símbolos. Feinberg diz:
... algumas profecias nos são comunicadas por meio de linguagem simbó­lica. Mas, sempre que for o caso, os símbolos são explicados no contexto imediato, no livro em que ocorrem ou em outro lugar da Palavra, sem deixar espaço para a imaginação do homem inventar explicações. (Charles L. Feinberg, Premillennialism or amíllenniaslism, p. 37)
O mesmo fato é evidenciado por Girdlestone, que escreve:
Tomando o Apocalipse como um todo, quase não existe uma figura ou visão cuja semente não esteja contida em Isaías, Ezequiel, Daniel ou Zacarias. Provavelmente o estudo desses livros preparou o vidente [de Patmos], em sua idade avançada, para as visões que estavam relaciona­das com o futuro próximo ou distante.( Girdlestone, op. cit., p. 87)

Sendo isso verdade, diligência em investigar a Palavra é o preço da exegese precisa de passagens simbólicas das Escrituras.


C. Revelação profética por meio de parábolas. Um terceiro método de revelar acontecimentos futuros é o uso do método parabólico de instru­ção. A parábola, segundo Angus e Green, "denota uma narrativa construída com a finalidade de comunicar verdades importantes... ".( Angus & Green, op. cit., p. 228.) O Senhor Jesus fez uso freqüente desse método como canal de revela­ção profética. Desse modo, a interpretação de parábolas é de extrema importância.

Ramm expôs sucintamente as regras para a interpretação de pará­bolas.


1) Descubra a natureza e os detalhes exatos de costumes, práticas e ele­mentos que formam a parte material ou natural da parábola [...]

2) Descubra a verdade central que a parábola está tentando ensinar.

3) Descubra quanto da parábola é interpretada pelo próprio Senhor Jesus [...]

4) Descubra se existe alguma pista no contexto a respeito do sentido da parábola [...]

5) Não force o sentido da parábola [...]

6) Tenha cuidado com o uso doutrinário da parábola [...]

7) Um claro entendimento da época para o qual muitas das parábo­las foram enunciadas é necessário para sua total interpretação. (Ramm, op. cit,. p. 179ss)
Perseverança parece ser a grande ênfase nas regras dadas por Angus e por Green. Eles escrevem:
A primeira regra de interpretação é: descobrir o escopo, ou por consulta ao contexto, ou por comparação de passagens paralelas; e captar a verdade que a parábola pretende apresentar, distinguindo-a de todas as outras ver­dades que a circundam, e deixando que as partes da parábola que podem ser explicadas sejam explicadas em harmonia com essa verdade [...]

Qualquer interpretação de parábola ou alegoria que seja incoerente com a grande verdade à qual a parábola se relaciona deve ser rejeitada

... A partir da interpretação inspirada das parábolas que nos foram dadas pelas Escrituras, podemos inferir que devemos evitar tanto o ex­tremo de supor que apenas o projeto do todo deve ser considerado, quan­to o extremo de insistir que cada frase contém duplo sentido.

Segunda regra de interpretação. [...] Até mesmo em doutrinas coe­rentes com o modelo da parábola ou tipo, nenhuma conclusão deve ser extraída das partes que seja incoerente com outras claras revelações da verdade divina [...]

Terceira regra de interpretação. [...] E importante que as parábolas não sejam transformadas na primeira ou única fonte de doutrina bíblica. Doutrinas provadas de outra maneira podem ser posteriormente ilustra­das ou confirmadas por elas, mas não devemos formular uma doutrina exclusivamente a partir de suas representações... (Angus & Green, op. cit., p. 230-3.)
Quando lidamos com parábolas, é de extrema importância sepa­rar o que é essencial do que é apenas auxiliar no tema. Se isso não for feito, uma tônica indevida poderá ser dispensada à parábola, levando a conclusões erradas.

Horne oferece um sistema cuidadoso e completo de regras para a interpretação de parábolas. Ele escreve:


1. A primeira característica de uma parábola é que ela gira em torno de uma imagem bem conhecida e aplicável ao objeto, cujo significado é claro e definido; essa circunstância lhe dá a clareza essencial a todas as espécies de alegorias.

2. A imagem, contudo, não deve apenas ser adequada e familiar, também deve ser elegante e bela em si mesma, e todas as suas partes devem ser claras e pertinentes, uma vez que o propósito da parábola, e especialmente de uma parábola poética, é não apenas explicar perfeita­mente uma proposição, mas, com freqüência, proporcionar-lhe vividez e esplendor.

3. Toda a parábola é composta por três partes: 1. A semelhança percep­tível [...] a casca [...] 2. A explicação ou sentido místico [...] a seiva ou fruto [...] 3. A raiz ou o escopo ao qual ela está ligada.

4. Para a correta explicação e aplicação de parábolas, seu escopo e propósito devem ser apurados.

5. Sempre que as palavras de Jesus parecerem abrigar diferentes sen­tidos, podemos certamente concluir que o correto será o que fica mais próximo do nível de compreensão de seus ouvintes.

6. Como toda a parábola tem dois sentidos, o literal ou externo e o místico ou interno, o sentido literal deve ser explicado primeiro, para que sua correspondência com o sentido místico possa ser percebida mais pron­tamente.

7. Não é necessário, na interpretação de parábolas, insistirmos ansio­samente que cada palavra tenha um sentido místico; não devemos espe­rar também uma adaptação ou acomodação muito curiosa de cada parte sobre o seu significado espiritual; muitas circunstâncias são introduzidas em parábolas como meros ornamentos com o propósito de tornar a seme­lhança mais agradável e interessante.

8. A atenção às circunstâncias históricas bem como a familiarização com a natureza e com as propriedades das coisas de onde as semelhanças são extraídas necessariamente contribuirão para a interpretação das pa­rábolas.

9. Finalmente, embora Jesus Cristo tenha delineado o estado futuro da igreja em muitas de suas parábolas, Ele tinha por propósito que elas comunicassem preceitos morais importantes, os quais nunca devemos per­der de vista ao interpretar parábolas. ( Horne, op. cit., I p. 366-8.)
D. Revelação profética por meio de sonhos e êxtases. Nos períodos inici­ais, a revelação profética era muitas vezes dada por meio de sonhos e transes extáticos. Terry, a respeito dessa fase de revelação profética, es­creve:
Sonhos, visões noturnas e estados de êxtase espiritual são mencionados como formas e condições sob as quais homens receberam tais revelações. Em Números 12.6, está escrito: "Então, disse: Ouvi, agora, as minhas pa­lavras; se entre vós há profeta, eu, o Senhor, em visão a ele, me faço co­nhecer, ou falo com ele em sonhos".

[...]


O sonho tem importante destaque dentre as formas primitivas de recepção de revelações divinas, mas torna-se menos freqüente num perío­do posterior. Os exemplos mais extraordinários registrados nas Escritura são os de Abimeleque (Gn 20.3-7), Jacó em Betel (28.12), Labão no monte Gileade (31.24), José a respeito das espigas e dos astros (37.5-10), os midianitas (Jz 7.13-15), Salomão (l Rs 3.5 e 9.2), Nabucodonosor (Dn 2 e 4), Daniel (Dn 7.1), José (Mt 1.20; 2.13,19), os magos vindos do leste (Mt 2.12). As "visões noturnas" parecem ter sido essencialmente da mesma natureza que os sonhos (cf. Dn 2.19; 7.1; At 16.9; 18.9 e 27.23).

[...]


Mas sonhos, observamos, eram na verdade formas mais primitivas e inferiores de revelação divina. Uma forma maior era a do êxtase profé­tico, na qual o espírito do visionário ficava possuído pelo Espírito de Deus e, conquanto mantivesse sua consciência e a capacidade humana de se emocionar, era enlevado em visões do Onipotente e ficava a par de pala­vras e coisas que nenhum mortal seria capaz de distinguir naturalmente.

[...]


O êxtase profético [...] era evidentemente uma visão espiritual, uma iluminação sobrenatural, na qual o olho natural ou estava fechado [...] ou tinha suspensas as suas funções naturais, e os sentidos internos absorvi­am ativamente a cena apresentada, ou a palavra revelada. (Terry, op. cit., p. 396-7)
A interpretação de profecias dadas por meio de sonhos ou de êxta­se profético não apresentará problemas especiais de interpretação. Em­bora o método de revelação fosse singular, o que era comunicado não diferia da profecia citada em linguagem clara. Em tal revelação, o mé­todo, não as palavras, se diferenciava, e assim elas podem ser interpre­tadas sem mais problemas.

III. Regras para a Interpretação da Profecia

A última seção tratou dos problemas relacionados à interpretação de profecias, decorrentes da natureza da linguagem em causa. A aten­ção agora será dirigida para a discussão de princípios gerais da inter­pretação de profecias, nas quais o que é profetizado é claramente en­tendido.

A interpretação de profecias exige atenção às mesmas considera­ções a respeito de palavras, contexto, gramática e situações históricas, que são os princípios aceitos a respeito de qualquer campo de interpre­tação. Terry diz o seguinte:
... será visto que, enquanto apreciamos devidamente as peculiaridades das profecias, devemos, todavia, empregar em sua interpretação essen­cialmente os mesmos grandes princípios usados na interpretação de ou­tras escrituras antigas. Primeiramente, devemos verificar a posição histó­rica do profeta; em seguida, o escopo e plano de seu livro; depois o uso e significado de suas palavras e símbolos; e, finalmente, devemos proceder a ampla e crítica comparação das passagens paralelas das Escrituras. (Ibid, p.418)
Não faltam listas de regras para a interpretação da profecia. (Cf. Ramm, op. cit., p. 157-162 quanto a um resumo de regras por vários autores de hermenêutica) Tal­vez as sugeridas por Ramm sejam as mais úteis:
1) Verificar os antecedentes históricos dos profetas e da profecia.

2) Des­cobrir o sentido e o significado especial dos nomes próprios, aconteci­mentos, referências geográficas, referências aos costumes ou à cultura ma­terial e referências à flora e à fauna.

3) Descobrir se o trecho é preditivo ou didático.

4) Se for preditivo, verificar se foi cumprido, não cumprido ou condicional.

5) Descobrir se o mesmo tema ou conceito também é tratado em outro lugar.

6) Como lembrete, mantenha vivo em sua mente o fluxo da passagem, i.e., preste atenção ao contexto.

7) Observe qual elemento da profecia é puramente local e temporal.

8) Tome a interpretação literal da profecia como guia limitador da interpretação profética. (Ramm, op. cit., p. 163-73)


A. Interprete literalmente. A consideração primordial em relação à interpretação profética talvez seja que, como todas as outras áreas de interpretação bíblica, ela deve ser interpretada literalmente. Independentemente da forma pela qual a revelação profética é dada, por meio dessa forma algumas verdades literais são reveladas. É problema do intérprete descobrir o que é verdadeiro. Davidson afirma:
Considero esse o primeiro princípio da interpretação profética — ler o pro­feta literalmente — presumindo que o significado literal é o significado dele — que ele se está movendo entre realidades, e não símbolos, entre coisas concretas como povos, e não dentre coisas abstratas como nossa igreja, mundo etc. (A. B. Davidson, Old Testament prophecy, p. 167)

O motivo pelo qual um método não-literal de interpretação é ado­tado é, quase sem exceção, o desejo de evitar as interpretações óbvias do trecho. O desejo de harmonizar os ensinamentos das Escrituras com alguns sistemas de doutrinas predeterminados, em vez de pôr a dou­trina em harmonia com as Escrituras, tem mantido o método vivo. (Cf. Angus & Green, op. cit., p. 247-8.)

Sem dúvida, a maior confirmação do método literal de interpreta­ção vem da observação do método que Deus empregou para cumprir as profecias já cumpridas. Masselink diz:
Podemos, portanto, deduzir nosso método de interpretação para profecias não-realizadas a partir das profecias que foram cumpridas, porque pode­mos deduzir seguramente os princípios orientadores de profecias não-realizadas a partir das previsões cumpridas que estão registradas no Novo Testamento. (William Masselink, Why thousand years? p. 36.)
De nossa posição privilegiada no tempo, a profecia é dividida no que foi cumprido e no que permanece sem cumprimento. Do ponto de vista de Deus, a profecia é uma unidade indivisível pelo tempo. Como unidade, conseqüentemente indivisível, o método usado nas profecias que estão sendo cumpridas agora também será o método usado para as profecias que aguardam cumprimento futuro. No campo de profecias cumpridas não é possível apontar nenhuma profecia que tenha sido cumprida de outra maneira que não a literal. O Novo Testamento não conhece nenhum outro método de cumprimento do Antigo. Deus tem, dessa maneira, estabelecido seu divino princípio. Feinberg diz:

... na interpretação de profecias que ainda não foram cumpridas, as pro­fecias que foram realizadas devem servir de padrão. A única maneira de saber como Deus cumprirá as profecias no futuro é verificar como Ele o fez no passado. Todas as profecias do Messias sofredor foram literalmen­te cumpridas no primeiro advento de Cristo. Não temos nenhum motivo para acreditar que as previsões de um Messias glorificado e reinante ocor­rerão de qualquer outra maneira. (Feinberg, op. cit., p. 39)


A conclusão deve ser que o método literal de cumprimento do Novo Testamento estabelece o método literal como o método de Deus no que diz respeito a profecias ainda não cumpridas.
B. Interprete conforme a harmonia da profecia. A segunda regra encon­tra-se em 2 Pedro 1.20,21, em que o autor afirma que nenhuma profecia provém de "particular elucidação". A profecia deve ser interpretada em harmonia com todo o plano profético. Feinberg diz:
Existem várias leis bem definidas para a interpretação de profecias. As Escrituras estabelecem a primeira e mais essencial de todas. Pedro diz em sua segunda carta que "nenhuma profecia da Escritura provém de parti­cular elucidação". Isso não significa que nenhuma particular elucidação pode interpretar profecias. A idéia do apóstolo é que nenhuma profecia da Palavra deve ser interpretada somente com referência a si mesma [...] mas todas as outras passagens de revelação profética devem ser observa­das e levadas em consideração. Cada profecia é parte de um plano mara­vilhoso de revelação; pois, para encontrar o verdadeiro sentido de uma profecia, devemos ter em mente todo o plano profético, bem como a inter-relação entre as partes do plano. (Ibid., p. 37)
Isso exige estudo cuidadoso não apenas dos temas genéricos da profe­cia, mas também de todas as passagens relacionadas a qualquer tema, a fim de que se alcance uma visão harmônica, já que uma predição mui­tas vezes iluminará outra.
C. Observe a perspectiva da profecia. Acontecimentos que possuem algum relacionamento mútuo e fazem parte de um plano ou um acon­tecimento que tipifica outro de modo que haja dupla referência podem ser reunidos numa profecia, apesar de muito distantes em seu cumpri­mento. Feinberg diz:
... na interpretação de profecias [...] deve ser dada à perspectiva a devida atenção. Certos acontecimentos futuros são considerados agrupadamente em uma área de visão limitada, apesar de estarem realmente a diferentes distâncias. É o caso sobretudo no que diz respeito aos chamados profetas maiores, cujas profecias sobre o cativeiro babilônico, os acontecimentos do dia do Senhor, o retorno da Babilônia, a dispersão mundial dos judeus e seu futuro agrupamento de todos os cantos da terra muitas vezes são agrupadas aparentemente de forma quase indiscriminada. (Ibid., p. 38.)
A não-observação desse princípio resultará em confusão.
D. Observe os relacionamentos de tempo. Como já dissemos, aconteci­mentos muito distantes na época de seu cumprimento podem ser trata­dos dentro de uma única profecia. É o caso sobretudo das profecias a respeito de Cristo, em que acontecimentos do primeiro e do segundo advento são mencionados conjuntamente como se ocorressem ao mesmo tempo. Da mesma maneira, a segunda e a terceira dispersão dos judeus são previstas na profecia como se acontecessem sem interrupções. Feinberg refere-se a esse princípio dizendo:

Outra regra de interpretação profética é conhecida como escorço, que, segundo o Dr. Arthur T. Pierson, pode assumir muitas formas. Dois ou mais acontecimentos de caráter semelhante podem ser descritos por um perfil comum [...] Além disso, um exemplo comum e importante de escorço é evidente quando os acontecimentos futuros são colocados lado a lado, ao passo que entre seus cumprimentos existe grande intervalo... (Ibid)


É importante observar que o profeta pode contemplar acontecimentos muito separados como contínuos, ou coisas futuras como passado ou presente.
E. Interprete cristologicamente. O tema central de todas as profecias é o Senhor Jesus Cristo. Sua pessoa e Suas obras são o grande tema da história profética. Pedro escreveu:
Foi a respeito desta salvação que os profetas indagaram e inquiriram, os quais profetizaram acerca da graça a vós outros destinada, investigando, atentamente, qual a ocasião ou quais as circunstâncias oportunas, indicadas pelo Espírito de Cristo, que neles estava, ao dar de antemão testemunho sobre os sofrimentos referentes a Cristo e sobre as glórias que os seguiriam [1 Pe 1.10,11].
João escreve: "... o testemunho de Jesus é o espírito da profecia" (Ap 19.10). Ambos ressaltam essa verdade.
F. Interprete historicamente. Quase não precisamos destacar que, antes de interpretar, devemos conhecer o contexto histórico do profeta e da profecia. Ramm diz: "... o estudo da história é o primeiro ponto absoluto de qualquer estudo de profecia, seja ela didática, seja preditiva".( Ramm, op. cit, p. 163.) Esse contexto histórico compreenderá "... o significado completo dos costu­mes ou da cultura material e referências à flora e à fauna". (Ibid., p. 164.)
G. Interprete gramaticalmente. Já foi dito o suficiente, de modo que aqui só é preciso lembrar ao intérprete de profecias que as regras estri­tas que governam a interpretação gramatical devem ser aplicadas a esse campo de estudos com o mesmo cuidado.
H. Interprete de acordo com a lei da dupla referência. Esse tema tam­bém foi tratado anteriormente. É suficiente lembrar que muitas vezes uma profecia pode abranger uma visão próxima e outra distante. Des­sas, a visão próxima já pode ter sido cumprida, enquanto a visão dis­tante espera cumprimento; ou ambas podem estar na esfera de profeci­as cumpridas. Mais uma vez, pode ter ocorrido dupla referência a dois acontecimentos de características similares, ambos no futuro distante. O fato de que apenas parte de uma profecia foi cumprida não apóia um método figurado ou não-literal de cumprimento desta parte não-realizada; tal cumprimento parcial promete, isto sim, um futuro cumpri­mento completo e literal.
I. Interprete coerentemente. É impossível misturar os métodos de in­terpretação no campo da profecia. Um método deve ser adotado e usa­do do começo ao fim. Podemos declarar seguramente que o problema de interpretação de profecias é um problema de perseverança. À medi­da que não perseveramos na aplicação de princípios hermenêuticos, erramos em nossas conclusões e interpretações. A observação dessas regras de interpretação profética levará o estudioso de profecias a uma interpretação correta das Escrituras.

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