Manual de Escatologia



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Segunda Seção - As alianças bíblicas e a escatologia




Capítulo 5 - A aliança abraâmica




Introdução

As alianças contidas nas Escrituras são de grande importância para o intérprete da Palavra e para o estudioso de escatologia. O plano escatológico de Deus é determinado e prescrito por essas alianças, e o sistema escatológico do intérprete é determinado e limitado pela sua correta interpretação. Essas alianças devem ser estudadas diligentemen­te como a base da escatologia bíblica.


Devemos observar, desde o princípio deste estudo, que as alianças bíblicas são bem diferentes das alianças teológicas propostas pelo teó­logo aliancista. Ele vê as épocas da história como o desenvolvimento de uma aliança entre Deus e os pecadores, na qual Deus salvaria, por meio da morte de Cristo, todos os que viessem a Ele pela fé. As alianças do teólogo aliancista podem ser resumidas como se segue:
A aliança da redenção (Tt 1.2; Hb 13.20), na qual, como costumeiramente formulado por teólogos, as pessoas da Divindade entraram antes de to­dos os tempos, assumindo, cada uma, parte no grande plano de redenção que é sua porção presente, conforme revelado na Palavra de Deus. Nessa aliança o Pai entrega o Filho, o Filho se oferece sem mácula como sacrifí­cio eficaz e o Espírito administra e capacita a execução dessa aliança em todas as suas partes. Sob o aspecto da revelação escrita, essa aliança re­pousa sobre uma base muito precária. Ela é, antes, sustentada principal­mente pelo fato de parecer razoável e inevitável.

A aliança das obras, designação dos teólogos para as bênçãos que Deus ofereceu ao homem e condicionou ao mérito humano. Antes da queda, Adão relacionou-se com Deus pela aliança de obras. Até que seja salvo, o homem tem a obrigação implícita de ser semelhante em caráter a seu Cria­dor e de fazer a Sua vontade.

A aliança da graça, termo usado por teólogos para indicar todos os aspectos da graça divina para com o homem em todas as épocas. O exer­cício da graça divina torna-se possível e justificado pela satisfação de jul­gamentos divinos obtidos na morte de Cristo. (Lewis Sperry Chafer, Systematic theology, i, p. 42)
Embora na teologia de alianças haja muito que esteja de acordo com as Escrituras, ela é insatisfatória para explicar as Escrituras escatologicamente, pois despreza o grande campo de alianças bíblicas que determinam todo o plano escatológico. O mesmo autor diz:
Os termos teológicos aliança de obras e aliança da graça não ocorrem no Texto Sagrado. Se elas forem sustentadas, isso ocorre completamente à parte da autoridade bíblica [...] Foi sobre essa invenção humana das duas alianças que a teologia da Reforma foi construída. Ela considera a verda­de empírica de que Deus pode perdoar pecadores apenas pela liberdade assegurada no sacrifício de Seu Filho —previsto na velha ordem e concre­tizado na nova— mas essa teologia não consegue absolutamente discernir os propósitos das épocas; os relacionamentos variáveis dos judeus, dos gentios e da igreja para com Deus; as obrigações distintas e constantes que surgem direta e inevitavelmente da natureza específica de cada rela­cionamento com Deus. Uma teologia que não penetra bastante fundo nas Escrituras para fazer mais que simplesmente descobrir que, em todas as épocas, Deus é imutável em Sua graça para com pecadores penitentes, e constrói a idéia de uma igreja universal, que continua através dos tem­pos, com base na verdade única da graça imutável, não está apenas negli­genciando vastas esferas de revelação, mas está colhendo confusão e deso­rientação inevitáveis que a verdade parcial pode engendrar. (Ibid., IV, p. 156)
Este estudo, então, não se ocupa das alianças contidas na teologia re­formada, mas das alianças determinativas presentes nas Escrituras.
A. O uso bíblico da palavra aliança. Se alguém consultar uma con­cordância, verá que a palavra aliança ocorre com freqüência no Antigo e no Novo Testamento. É usada nos relacionamentos entre Deus e o ho­mem, entre os homens e entre as nações. É usada para coisas temporais e coisas eternas. Existem referências a alianças menores e temporais nas Escrituras.

São feitas alianças entre outros indivíduos (Gn 21.32; 1 Sm 18.3), entre um indivíduo e um grupo de indivíduos (Gn 26.28; 1 Sm 11.1,2) ou entre nações (Êx 23.32; 34.12,15; Os 12.1). Existiram ali­anças no meio social (Pv 2.17; Ml 2.14). Certas leis naturais eram vistas como alianças (Jr 33.20,25). Com exceção destas, que foram estabelecidas por Deus, todos os usos anteriores regulam relacionamentos feitos por homens.

As Escrituras também contêm referências a cinco grandes alian­ças, todas feitas por Deus com relação aos homens. Lincoln resume:
As quatro alianças incondicionais, feitas com juramentos, são encontra­das em

1) Gênesis 12.1-3, em que a fórmula é encontrada, expressa ou subentendida sete vezes;

2) Deuteronômio 30.1-10, em que é encontrada, expressa ou entendida doze vezes;

3) 2 Samuel 7.10-16, em que é encon­trada sete vezes e

4) Jeremias 31.31-40, em que é encontrada sete vezes. A aliança condicional, com a fórmula "se", é encontrada

5) em Êxodo 19.5ss. e também em Deuteronômio 28.1-68; v. 1-14 [...] "Se atentamente ouvires... bênçãos"; v. 15-68: "Se não deres ouvidos [...] maldições". (Charles Fred Lincoln, The covenants, p. 26)


É bastante óbvio que os estudos escatológicos não estão preocupa­dos com alianças menores feitas entre os homens, nem com a aliança mosaica feita por Deus com o homem uma vez que todas essas são temporárias e não determinantes com respeito a coisas futuras; preocu­pam-se apenas com quatro alianças eternas dadas por Deus, pelas quais Ele se comprometeu com o plano profético.
B. Definição de aliança. Uma aliança pode ser definida como se se­gue:

Aliança divina é

1) uma disposição soberana de Deus, mediante a qual Ele estabelece um contrato incondicional ou declarativo com o homem, obrigando-se, em graça, por um juramento irrestrito, a conceder, de Sua própria iniciativa, bênçãos definidas para aqueles com quem compactua ou

2) uma proposta de Deus, em que Ele promete, num contrato condicio­nal e mútuo com o homem, segundo condições preestabelecidas, conce­der bênçãos especiais ao homem desde que este cumpra perfeitamente certas condições, bem como executar punições precisas em caso de não-cumprimento. (Ibid., p. 25-6)


Devemos observar que essa definição não se afasta da definição e do emprego costumeiro da palavra como contrato legal, do qual o indiví­duo toma parte e pelo qual seu comportamento é dirigido.
C. Os tipos de alianças. Existem dois tipos de alianças que Deus fez com Israel: condicional e incondicional. Numa aliança condicional o cumprimento do que foi acordado depende do receptor da aliança, não do outorgador da aliança. Algumas obrigações ou condições devem ser satisfeitas pelo receptor da aliança antes que o outorgador da aliança se obrigue a cumprir o que foi prometido. É uma aliança na qual está presente um "se". A aliança mosaica, entre Deus e Israel, é uma dessas alianças. Na aliança incondicional, o cumprimento do que foi acordado depende unicamente daquele que faz a aliança. O que foi prometido é soberanamente concedido ao receptor da aliança com base na autorida­de e na integridade daquele que faz a aliança, à parte do mérito ou res­posta do receptor. É uma aliança sem nenhum "se" vinculado a ela.

Para salvaguardar nosso raciocínio nesse ponto, devemos obser­var que uma aliança incondicional, a que sujeita aquele que nela en­trou a determinado procedimento, pode ter bênçãos condicionadas à reação do receptor da aliança; essas bênçãos surgem da aliança origi­nal, mas a existência de tais bênçãos não altera o caráter incondicional da aliança.

Não observar que uma aliança incondicional pode ter certas bênçãos condicionais vinculadas tem conduzido muitos à posição de que bênçãos condicionais obrigam uma aliança a ser condicional, perverten­do assim a essência natural das alianças determinativas de Israel.
D. A natureza das alianças. Existem certos fatos que devem ser exa­minados a respeito das alianças firmadas por Deus.

1. Primeiramente, são alianças literais e devem ser interpretadas literalmente. Peters declarou bem essa proposição:


Em todas as transações terrenas, quando se estabelece uma promessa, acordo ou contrato, em que uma parte faz uma promessa valiosa a outra parte, é de costume universal explicar tal relacionamento e suas promes­sas pelas bem conhecidas leis de linguagem contidas na nossa gramática ou em nosso uso comum. Seria absurdo que fosse de outra maneira.

[...] a própria natureza da aliança exige que ela seja formulada e ex­pressa tão claramente, que comunique um significado decisivo, e não um significado oculto ou místico que exija a passagem de centenas de anos para se desenvolver. (G. N. H. Peters, The theocratic kingdom, I, p. 290-1)


Tal interpretação estaria em harmonia com o método literal de inter­pretação estabelecido.
2. Em segundo lugar, de acordo com as Escrituras, essas alianças são eternas. Lincoln ressalta:
Todas as alianças de Israel são chamadas eternas, com exceção da aliança mosaica, que é declarada temporal, i.e., deveria continuar até a vinda da Semente Prometida. Quanto a esse detalhe, observe o seguinte:

1) a alian­ça abraâmica é chamada "eterna" em Gênesis 17.7,13,19; 1 Crônicas 16.17; Salmos 105.10;

2) a aliança palestina é chamada "eterna" em Ezequiel 16.60;

3) a aliança davídica foi chamada "eterna" em 2Samuel 23.5, em Isaías 55.3 e em Ezequiel 37.25;

4) a nova aliança é chamada "eterna" em Isaías 24.5, 61.8, em Jeremias 32.40, 50.5 e em Hebreus 13.20. (Lincoln, op. cit., p. 181.)
3. Em terceiro lugar, visto que essas alianças são literais, eternas e dependem solenemente da integridade de Deus para o seu cumpri­mento, devem ser consideradas incondicionais em caráter. Essa questão será vista em detalhes posteriormente.
4. Finalmente, essas alianças foram estabelecidas com um povo pactual, Israel. Em Romanos 9.4 Paulo declara que a nação de Israel tinha rece­bido alianças do Senhor. Em Efésios 2.11,12 ele declara, contrariamen­te, que os gentios não haviam recebido tal aliança e conseqüentemente não gozavam de relacionamentos pactuais com Deus. Essas duas pas­sagens mostram, de modo negativo, que os gentios não tinham relacio­namentos de aliança e, de modo positivo, que Deus tinha firmado um relacionamento de aliança com Israel. (Cf. ibid.,p. 174-6)

I. A Importância da Aliança Abraâmica

A primeira das quatro grandes alianças determinativas feitas por Deus com a nação de Israel foi a aliança abraâmica, que deve ser consi­derada a base de todo o plano de alianças.

As Escrituras são ricas em referências à aliança que Deus fez com Abraão, e sua aplicação é vista de maneiras variadas. Essa aliança tem importantes implicações para doutrinas ligadas à soteriologia. Ao es­crever aos gálatas, Paulo mostra que os crentes tomam posse das bênçãos prometidas a Abraão. (Gálatas 3.14,29; 4.22-31 O argumento de Paulo em Romanos é ba­seado na mesma promessa feita a Abraão. (Romanos 4.1-25)

Imediatamente depois da queda do homem, Deus revelou Seu propósito de providenciar salva­ção para os pecadores. Esse plano foi sendo desdobrado gradativamente por Deus para o homem. A promessa feita a Abraão representa um pas­so progressivo nessa revelação.

Nele o Propósito Divino torna-se mais específico, detalhado, focalizado, definitivo e certo. Específico por distingui-lo e separá-lo de outros mem­bros da raça; detalhado por indicar mais particularidades conectadas ao propósito de salvação; focalizado por fazer o Messias vir mais diretamente em sua linhagem, ser sua "semente"; definitivo por entrar numa aliança com ele, como o seu Deus, e certo em confirmar seu relacionamento de aliança com um juramento.(PETERS, op.cit.,I,p.293)
Mais uma vez, essa aliança tem importantes implicações na doutrina da ressurreição. A promessa vinculada à aliança é a base da refutação do Senhor contra a incredulidade dos saduceus no tocante à res­surreição. (Mateus 22.23-32) Aqueles que recusaram a possibilidade da ressurreição o Senhor afirmou que a ressurreição não era apenas possível, mas necessária. Desde que Deus se revelou como o Deus de Abraão, de Isaque e de Jacó (Êx 3.15), com quem estabeleceu um relacionamento de aliança, e como esses homens morreram sem receber o cumprimento de suas promessas (Hb 11.13), visto que as alianças não podiam ser quebradas, era necessário que Deus ressuscitasse esses homens para cumprir Sua palavra. Paulo, perante Agripa (At 26.6-8), une "a promessa aos pais" com a ressurreição dos mortos em sua defesa da doutrina. Desse modo, o fato da ressurreição física é provado pelo Senhor e por Paulo com base na necessidade imposta a Deus de cumprir sua aliança, mesmo que ela requeira ressurreição física. Conseqüentemente a ressurreição do crente está unida à questão do tipo de aliança firmado com Abraão. (Cf. Peters, op. cit., I, p. 295-7)

Além do mais, essa aliança tem a maior importância para as doutri­nas escatológicas. Os aspectos eternos dessa aliança, que garantem a Is­rael existência permanente, posse perpétua da terra prometida e certeza de bênçãos espirituais e materiais por meio de Cristo, garantindo às na­ções gentias parte dessas bênçãos, determinam todo o plano escatológico da Palavra de Deus. Essa aliança torna-se uma semente da qual surgem alianças posteriores com Israel. As áreas essenciais da aliança abraâmica, a terra, a semente e a bênção, são ampliadas em alianças subseqüentes firmadas com Israel. Lincoln mostrou-nos a comparação:


Os relacionamentos de alianças eternas e misericordiosas feitas entre Deus e Israel podem ser graficamente demonstradas da seguinte maneira:


(A aliança geral e básica com Abraão)

(As outras alianças)

1. A promessa de uma terra nacional.

Gn 12.1 Gn 13.14,15,17

1. A aliança palestina deu a Israel ga­rantia particular da restauração per­manente e definitiva à terra.

Dt 30.3-5 Ez 20.33-37,42-44

2. A promessa da redenção nacio­nal e universal. Gn 12.3 Gn 22.18 Gl 3.16


2. Uma nova aliança está particular­mente relacionada à bênção espiri­tual e à redenção de Israel. Jr 31.31-40 Hb 8.6-13 etc.


3. A promessa de numerosos descendentes que formariam uma grande nação. Gn 12.2 Gn 13.16 Gn 17.2-6 etc.


3. A aliança davídica está relacionada a promessas de dinastia, nação e tro­no.

2 Sm 7.11,13,16 Jr 33.20,21 Jr 31.35-37 etc. (Lincoln, op. cit., p. 206-7)

Dessa maneira, podemos dizer que as promessas de terra da aliança abraâmica são desenvolvidas na aliança palestina, as promessas de se­mente são desenvolvidas na aliança davídica e as promessas de bênção são desenvolvidas na nova aliança. Esta, então, determina todo o futuro plano para a nação de Israel e é um fator de vulto na escatologia bíblica.



II. As Disposições da Aliança Abraâmica

A aliança firmada com Abraão em Gênesis 12.1-3 e confirmada e ampliada em Gênesis 12.6,7; 13.14-17; 15.1-21; 17.1-14; 22.15-18 envol­via certas promessas básicas. Elas foram assim resumidas:

As coisas prometidas por Deus são as seguintes:

1. O nome de Abraão será grande.

2. Uma grande nação dele se originará.

3. Abraão será uma bênção tão grande que nele todas as famílias da terra serão abençoadas.

4. A Abraão pessoalmente ("a ti") e à semente dele será dada a Palestina como herança para sempre.

5. A multidão da semente abraâmica será como o pó da terra.

6. Quem o abençoar será abençoado, e quem o amal­diçoar será amaldiçoado.

7. Abraão será o pai de muitas nações.

8. Reis viriam a partir dele.

9. A aliança será perpétua, "uma aliança eterna".

10. A terra de Canaã será uma "possessão eterna".

11. Deus será Deus seu e de sua semente.

12. Sua semente possuirá a porta de seus inimigos.

13. Em sua semente todas as nações serão abençoadas (Peters, op. cit, I, p. 293-4.)

Analisando essas particularidades, observamos certas promessas indi­viduais que foram dadas a Abraão, certas promessas nacionais com res­peito à nação de Israel, da qual ele era pai, e certas bênçãos universais que incluíam todas as nações. Essas promessas foram assim descritas por Walvoord:

A linguagem da aliança abraâmica é simples e direta. A aliança original é dada em Gênesis 12.1-3, e existem três confirmações e ampliações como as registradas em Gênesis 13.14-17, 15.1-7 e 17.1-18. Algumas das pro­messas são dadas pessoalmente a Abraão, algumas às sementes de Abraão e algumas aos gentios ou a "todas as famílias da terra" (Gn 12.3).



A promessa para Abraão. É prometido ao próprio Abraão que ele seria o pai de uma grande nação (Gn 12.2) [...] incluindo reis e nações além da "própria semente" (Gn 17.6). Deus promete sua benção pessoal a Abraão. Seu nome será grande e ele mesmo será uma bênção [...]

A promessa da semente de Abraão [...] A própria nação deveria ser gran­de (Gn 12.2) e incontável (Gn 13.16; 15.5). É prometida à nação a posse da terra [...] a aliança abraâmica é expressamente chamada de "perpétua" (Gn 17.7) e a posse da terra é definida como "possessão perpétua" (Gn 17.8).

A promessa para os gentios [...] é prometida a "todas as famílias da terra" uma bênção (Gn 12.3). A bênção não é especificada. Como uma promessa geral, ela talvez pretenda ter um cumprimento geral. (John F. Walvoord, Millennial series, Bibliotheca Sacra, 108:415-7, Oct. 1951)
No desenvolvimento dessa aliança, é muito importante ter em mente as diferentes áreas nas quais a promessa foi claramente dada, pois, se as coisas que formam a aliança em uma área forem transferidas a outra, o resultado será confusão na interpretação posterior. Promessas pessoais não podem ser transferidas para a nação e promessas a Israel não podem ser transferidas para os gentios.

III. O Caráter da Aliança Abraâmica

Como a aliança abraâmica trata da posse da Palestina por Israel, de sua continuidade como nação para possuir essa terra e de sua re­denção a fim de que possa gozar a bênção na terra sob seu rei, é de grande importância descobrir o método de cumprimento dessa alian­ça. Se é uma aliança literal a ser cumprida literalmente, então Israel deve ser preservado, convertido e restaurado. Se é uma aliança incon­dicional, esses acontecimentos na vida nacional de Israel são inevitá­veis. A resposta a essas perguntas determina a posição escatológica do indivíduo.


A. O elemento condicional no plano da aliança abraâmica. Enquanto Abraão morava na casa de Terá, um idólatra (Js 24.2), Deus ordenou que ele deixasse a terra de Ur, embora isso exigisse jornada a uma terra estranha e desconhecida (Hb 11.8), e fez promessas específicas que de­pendiam desse ato de obediência. Abraão, em obediência parcial, visto que não quis separar-se de sua família, viajou a Harã (Gn 11.31). Ele não recebeu nenhuma das promessas ali. Apenas com a morte do pai (Gn 11.32) é que Abraão começa a receber alguma parte da promessa de Deus, pois somente depois desse fato é que Deus o leva para a terra (Gn 12.4) e lhe reafirma a promessa original (Gn 12.7).

É importante obser­var a relação da obediência com o plano da aliança. Quer Deus institu­ísse um plano de aliança com Abraão, quer não, isso dependia do ato de obediência de Abraão em abandonar a terra. Quando, por fim, esse ato foi cumprido e Abraão obedeceu a Deus, Deus instituiu um plano irrevogável e incondicional. Essa obediência, que se tornou a base da instituição do plano, é citada em Gênesis 22.18, em que a oferta de Isaque é apenas mais uma evidência da atitude de Abraão para com Deus. Walvoord mostra claramente esse fato quando escreve:

Como apresentado nas Escrituras, a aliança abraâmica dependia de uma única condição. Esta é apresentada em Gênesis 12.1 [...] A aliança origi­nal baseava-se na obediência de Abraão em deixar sua terra natal e diri­gir-se à terra prometida. Nenhuma revelação adicional lhe foi dada até que ele obedecesse a essa ordem após a morte de seu pai. Na sua entra­da em Canaã, o Senhor deu imediatamente a Abraão a promessa de posse definitiva da terra (Gn 12.7), e depois ampliou e repetiu as promessas originais.

Satisfeita a condição única, nenhuma outra é exigida de Abraão; ten­do sido solenemente estabelecida, a aliança depende agora da veracida­de divina para o seu cumprimento. (Walvoord, op. cit, 109:37)


A existência de um plano de aliança com Abraão dependia do ato de obediência de Abraão. Quando ele obedeceu, a aliança instituída de­pendia não da obediência continuada de Abraão, mas da promessa de quem a instituiu. O fato da aliança dependia da obediência; o tipo de aliança inaugurada era totalmente desvinculado da obediência conti­nuada de Abraão ou de sua semente.
B. Argumentos que sustentam o caráter incondicional da aliança. A questão de a aliança abraâmica ser condicional ou incondicional é reconhe­cida como ponto crucial de toda a discussão relacionada ao cumpri­mento da aliança abraâmica. Extensos argumentos têm sido apresenta­dos para apoiar a proposta dos pré-milenaristas quanto ao caráter in­condicional dessa aliança. Walvoord apresenta dez motivos para acre­ditar que essa aliança seja incondicional. Ele sustenta:
1) Todas as alianças de Israel são incondicionais, com exceção da mosaica. A aliança abraâmica é expressamente declarada eterna e, por conseqüên­cia, incondicional em várias passagens (Gn 17.7,13,19; l Cr 16.17; Sl 105.10). A aliança palestina também é declarada eterna (Ez 16.60). A aliança davídica é apresentada da mesma forma (2Sm 7.13,16,19; l Cr 17.12; 22.10; Is 55.3; Ez 37.25). A nova aliança com Israel é igualmente eterna (Is 61.8; Jr 32.40; 50.5; Hb 13.20).

2) Com exceção da condição original de abandonar sua terra natal e dirigir-se à terra prometida, a aliança é firmada sem condições [...]

3) A aliança abraâmica é confirmada repetidamente por reiteração e por ampliação. Em nenhuma dessas ocasiões as promessas adicionadas se condicionam à fé da semente ou do próprio Abraão [...] nada se diz sobre ela estar sujeita à fé futura de Abraão ou de sua semente.

4) A aliança abraâmica é formalizada por um ritual divinamente ordenado que simboliza o derramamento de sangue e a passagem entre as partes do sacrifício (Gn 15.7-21; Jr 34.18). Essa cerimônia foi dada a Abraão como garantia de que sua semente herdaria a terra nas mesmas fronteiras dadas a ele em Gênesis 15.18-21. Nenhuma condição está conectada à promessa nesse contexto.

5) Para distinguir os que herdariam as promessas como indivíduos dos que eram apenas a semente física de Abraão, foi dado o sinal visível da circuncisão (Gn 17.9-14). Os incircuncisos eram considerados não alcançados pela bênção prometida. O cumprimento último da aliança abraâmica e a posse da terra pela semente não dependiam, contudo, da fidelidade ao pacto de circuncisão. Na verdade as promessas da terra fo­ram concedidas antes que a cerimônia fosse introduzida.

6) A aliança abraâmica foi confirmada pelo nascimento de Isaque e de Jacó, os quais receberam repetições das promessas na forma original (Gn 17.19; 28.12,13) [...]

7) O fato notável é que as repetições da aliança e o seu cumprimento parcial acontecem a despeito da desobediência. E claro que em vários instantes Abraão se afastou da vontade de Deus [...] No próprio ato [...] as promessas são repetidas a ele.

8) As confirmações posteriores da aliança foram feitas em meio a apostasia. Muito importante é a promessa dada por Jeremias de que Isra­el continuaria como nação para sempre (Jr 31.36) [...]

9) O Novo Testamento declara a aliança abraâmica imutável (Hb 6.13-18; cf. Gn 15.8-21). Ela não foi apenas prometida, mas solenemente confirmada pelo juramento de Deus.

10) Toda a revelação das Escrituras a respeito de Israel e de seu futuro, contida no Novo e no Antigo Testamento, se interpretada literalmente, con­firma e sustenta o caráter incondicional das promessas feitas a Abraão. (Ibid., 109:38-40)


Com base nessas considerações, devemos reconhecer que a posição pré-milenarista descansa sobre argumentos robustos e variados. (Cf. Charles C. Ryrie, The basis of the premillennial faith, p. 53-61.)

Uma palavra de explicação faz-se necessária no que diz respeito ao acontecimento registrado em Gênesis 15, dada sua importância na questão do caráter incondicional dessa aliança. Em Gênesis 14, porque confiava em Deus, Abraão recusou-se a tomar para si as riquezas do rei de Sodoma. Para que não surgisse na mente de Abraão dúvida alguma sobre ter cometido um erro ao confiar em Deus, Abraão recebe de Deus a garantia de que Ele é a sua proteção (escudo) e provisão (recompen­sa) (Gn 15.1). Em resposta à pergunta de Abraão sobre o herdeiro pro­metido, Deus afirma que ele terá um filho, e "[Abraão] creu no Senhor" (Gn 15.6). Em resposta à fé de Abraão, como evidência real de que ele não havia confiado em Deus em vão, é dado um sinal de que a promes­sa será cumprida (Gn 15.9-17). A fim de reafirmar a Abraão a aliança a respeito de sua semente e terra (Gn 15.18), Deus ordena que Abraão pre­pare animais de sacrifício para que entrem numa aliança de sangue. Keil e Delitzsch falam a respeito desse ritual:

O que precedera correspondia ao costume, dominante em muitas nações antigas, de sacrificar animais ao fazer uma aliança, e depois cortá-los em pedaços, colocar os pedaços em lados opostos um ao outro, de modo que as pessoas que participavam da aliança pudessem passar entre eles. Des­sa maneira [...] Deus dignou-se seguir o costume dos Caldeus, para que pudesse, da maneira mais solene, confirmar sua promessa a Abraão, o caldeu [...] fica evidente em Jeremias 34.18 que isso ainda era costume entre os israelitas de tempos mais recentes. (C. F. Keil & Franz Delitzsch, The Pentateuch, I., p. 214)
Abraão estava familiarizado com essa maneira de assumir compromis­so. Sem dúvida, a grande quantidade de animais prescritos por Deus impressionaria Abraão pela importância do que estava sendo decreta­do, visto que um animal seria suficiente para decretar a aliança. Quan­do o sacrifício foi preparado, Abraão deve ter esperado andar com Deus entre os animais divididos, pois o costume exigia que as duas partes que entrassem numa aliança de sangue deveriam andar juntas entre as partes do sacrifício. Ele reconheceria a solenidade da ocasião, pois o ritual significava que os dois que estavam entrando na aliança eram obrigados pelo sangue a cumprir o que fora pactuado, ou que quem a rompesse exigiria o derramamento de seu próprio sangue, assim como o sangue dos animais que os unia tinha sido derramado. Contudo, quan­do chegou a hora de formalizar a aliança, Abraão adormeceu, de modo que não pôde ser um participante da aliança, mas um simples receptor de um pacto para o qual ele nada contribuía quanto à obrigação. Keil e Delitzsch explicam assim a passagem:

Da natureza dessa aliança, segue, contudo, que Deus passou sozinho en­tre os pedaços, numa representação simbólica de si mesmo, e não tam­bém de Abrão. Pois, apesar de uma aliança sempre estabelecer relação recíproca entre dois indivíduos, nessa aliança, que Deus celebrou com Abrão, o homem não ficou em pé de igualdade com Deus, mas Deus esta­beleceu o relacionamento de comunhão por Sua promessa e por Sua com­placência para com o homem. (Ibid., I, p. 216)


Assim, Deus se uniu em soleníssima aliança de sangue a Abraão, para cum­prir, incondicionalmente, as promessas concernentes à semente e à terra que lhe seriam dadas. Seria difícil para Deus deixar mais claro que o que fora prometido a Abraão lhe seria dado sem nenhuma condição, dependendo exclusivamente da integridade do próprio Deus para seu cumprimento.
C. Argumentos amilenaristas contra o caráter incondicional da aliança. Allis, um dos principais defensores da posição amilenarista, sistemati­za o pensamento dessa escola de interpretação. Ele apresenta vários argumentos contra o caráter incondicional da aliança.

1) Primeiramente devemos observar que pode haver uma condição numa ordem ou promessa sem estar especificamente declarada. Exemplo disso é a carreira de Jonas. Jonas recebeu a ordem de pregar juízo incondicio­nal, sem nenhuma reserva: "Em quarenta dias, Nínive será destruída" [...] A condição não declarada foi pressuposta no próprio caráter de Deus como um Deus de misericórdia e compaixão [...] O juízo da família de Eli (1 Sm 2.30) é exemplo notável desse princípio.( Oswald T. Allis, Prophecy and the church, p. 32)


Assim, Allis argumenta que pode haver condições implícitas, não de­claradas.

Em resposta a esse argumento, podemos prontamente observar que Allis começa com uma admissão desconcertante — não existem condições declaradas nas Escrituras nas quais o amilenarista possa buscar confirmação de sua defesa. Toda a sua posição repousa no silêncio, em condições implícitas e não-declaradas. No caso de Eli, não existe ne­nhuma relação, pois Eli estava vivendo sob a economia mosaica, con­dicional em seu caráter e sem relação com a aliança abraâmica.

O fato de a aliança mosaica ser condicional não significa que a aliança abraâmica também precise ser. E, além disso, no que diz respeito a Jonas, devemos observar que também não existe relação. A mensagem que Jonas pregou não constituía uma aliança e não se relaciona de forma alguma à aliança abraâmica. Era um princípio bem estabelecido das Escrituras (Jr 18.7-10; 26.12,13; Ez 33.14-19) que o arrependimento afas­taria o juízo. O povo se arrependeu e o juízo foi retirado. Mas a prega­ção de Jonas, da qual é dada apenas uma declaração resumida, de for­ma alguma altera o caráter da aliança abraâmica.
2) É verdade que, nos termos expressos da aliança abraâmica, a obediên­cia não é declarada como condição. Mas dois fatos indicam claramente que a obediência estava pressuposta. Um, é que obediência é a pré-condição de bênção em todas as circunstâncias [...] O segundo fato é que, no caso de Abraão, o dever da obediência é particularmente salientado. Em Gênesis 18.17s. diz-se claramente que, da escolha de Abraão, Deus pro­pôs trazer à existência, por piedosa preparação, uma semente justa que "guardaria o caminho do Senhor", para que em conseqüência e recompensa de tal obediência "o Senhor cumpra a Abraão tudo o que a respeito dele falou".( Ibid., p. 33)
Mais uma vez, Allis reconhece que as Escrituras não contém, em parte alguma, nenhuma declaração de condições estipuladas. Embora isso devesse ser suficiente em si mesmo, há outras considerações concernentes a esse argumento. Primeiramente, é errado declarar que a obediência é sempre uma condição para a bênção. Se isso fosse verda­de, como poderia um pecador ser salvo? Walvoord escreve:

Não é verdade que a obediência seja sempre uma condição para a bên­ção. A semente de Abraão tem sido desobediente em todas as categorias morais. Mesmo assim, apesar da desobediência, cumpriram-se muitas promessas da aliança. O mesmo princípio de graça é que Deus abençoa os injustos [...] A segurança do crente [...] é bem independente do valor e da fé humana [...] Como calvinista, onde está a doutrina de eleição incon­dicional em que Allis acredita?( Walvoord, op. cit., 109:40-1)


Mais uma vez, é importante observar que uma aliança incondicional, que confere certeza ao plano pactuai, pode conter bênçãos condicio­nais. O plano será cumprido, mas o indivíduo recebe as bênçãos rela­cionadas apenas por ajustar-se às condições das quais essas bênçãos dependem. E o caso da aliança abraâmica. Além do mais, já foi dito que, embora a instituição do plano pactuai entre Deus e Abraão de­pendesse do ato de obediência deste em abandonar sua casa, uma vez inaugurada a aliança, ela não impunha condição alguma. E, finalmente, a aliança é reafirmada e ampliada para Abraão depois de atos defini­dos de desobediência (Gn 12.10-20; 16.1-16).

3) A obediência foi vitalmente ligada à aliança abraâmica e isso é demons­trado com clareza especial pelo fato de que havia um sinal, o rito da cir­cuncisão, cuja observância era de fundamental importância. A elimina­ção do povo da aliança era a punição para quem não o observasse [...] O rito era em si um ato de obediência (1 Co 7.19).( Allis, op. cit., p. 34)


Em resposta a essa alegação, é suficiente destacar que o rito da circun­cisão, dado em Gênesis 17.9-14, veio muitos anos após a instituição da aliança, e após repetidas reafirmações a Abraão (Gn 12.7; 13.14-17; 15.1-21). Que motivo há em exigir que um sinal siga a aliança quando a aliança está claramente em vigor antes da instituição do sinal? Então, novamente, a partir de um estudo do rito conclui-se que a circuncisão está relacionada ao gozo das bênçãos da aliança e não à sua instituição ou continuidade. Walvoord observa:

Todos concordam em que, para que cada pessoa desfrute da bênção sob a aliança, é em grande parte necessário que haja fé e obediência. Isso é bem diferente de afirmar que o cumprimento da aliança como um todo esteja condicionado à obediência de toda a nação. (Walvoord, op. cit, 109:42)

Relativamente à mesma linha geral de pensamento, Allis conti­nua:
4) Os que insistem em que a aliança abraâmica foi totalmente incondicio­nal na verdade não a consideram como tal; isso também é demonstrado pela grande importância que os dispensacionalistas atribuem ao fato de Israel estar "na terra" como condição prévia da bênção sob essa aliança.( Allis, loc. cit.)

5) Que os dispensacionalistas não consideram a aliança abraâmica totalmente incondicional também se evidencia pelo fato de que jamais os ouvimos falar sobre a reintegração de Esaú à terra de Canaã e à completa bênção sob a aliança abraâmica [...] Mas, se a aliança abraâmica fosse incondicional, por que Esaú foi excluído das bênçãos? (Ibid., p. 35)
Esses dois argumentos podem ser respondidos juntos. Observa­mos, em cada caso, que o que se tem em mente é o relacionamento com as bênçãos, não o relacionamento com a continuidade da aliança. Como se afirmou anteriormente, as bênçãos eram condicionadas à obediên­cia, à permanência no lugar da bênção. Mas a aliança em si vigorava quer estivessem na terra, quer fossem contemplados ou não com a bên­ção.

Por outro lado, se a desobediência e a retirada da terra anulassem a aliança, não importaria se Esaú tivesse permanecido na terra ou não. Mas, já que bênçãos cairiam sobre o povo da aliança, Esaú foi excluído porque não estava qualificado para recebê-las, uma vez que não cria nas promessas. Observamos que a primogenitura (Gn 25.27-34) des­prezada por Esaú era a promessa de que ele seria o herdeiro da aliança abraâmica. Já que essa se baseava na integridade de Deus, Esaú deve ser visto como homem que não cria que Deus pudesse cumprir ou cumprisse a Sua palavra. Da mesma forma, a bênção desprezada (Gn 27) lhe pertencia sob a aliança, e dela Esaú foi privado por causa de sua descrença manifesta no desdém em relação à primogenitura. A rejeição de Esaú ilustra o fato de que a aliança era seletiva e deveria ser cumpri­da por meio da linhagem escolhida por Deus.


6) [...] a certeza do cumprimento da aliança não se baseia no fato de ser incon­dicional, nem seu cumprimento depende da obediência imperfeita de homens pecadores. A certeza do cumprimento da aliança e a segurança do crente sob ela, em última análise, dependem totalmente da obediência a Deus.( Ibid., p. 36)
É impossível deixar de notar a mudança completa na linha de racio­cínio nesse aspecto. Até aqui sustentou-se que a aliança não será cum­prida porque ela é uma aliança condicional. Agora se afirma que a aliança será cumprida com base na obediência de Cristo. Como nossas bênçãos espirituais são resultado dessa aliança (Gl 3), o amilenarista é obrigado a reconhecer algum cumprimento. Se ela tivesse sido ab-rogada, Cristo jamais teria vindo. Se a segurança oferecida sob ela fosse condicional, não haveria certeza de salvação. Conquanto concordemos largamente que todo cumprimento se baseia na obediência de Cristo, esse fato não altera o caráter essencial da aliança que tornou necessária a vinda de Cristo. Se Cristo veio como cumprimento parcial da aliança, Sua segunda vinda promete um cumprimento completo.

Allis segue outra linha de raciocínio quando escreve a respeito do cumprimento dessa aliança:


1) Com respeito à semente, devemos observar que as mesmas palavras que aparecem na aliança [...] são usadas para a nação de Israel na época de Salomão [...] Isso indicaria que a promessa foi considerada cumprida nesse aspecto na época de ouro da monarquia [...]

2) Com respeito à terra, o domínio de Davi e de Salomão estendia-se do Eufrates ao rio do Egito [...] Israel tomou posse da terra prometida aos patriarcas. Eles a possuíram, mas não "para sempre". Aposse da terra foi perdida pela desobediência [...] ela pode ser considerada cumprida sécu­los antes do primeiro advento...( Ibid., p. 57-8)


Allis argumenta agora que a aliança não terá cumprimento futuro por­que já foi cumprida historicamente.

A questão do cumprimento histórico da aliança será examinada mais tarde. Basta dizer por ora que a história de Israel, mesmo sob a glória dos reinados de Davi e de Salomão, nunca realizou a promessa feita a Abraão. Logo, à experiência histórica citada não podemos atri­buir cumprimento. Mais ainda, se a aliança fosse condicional, visto que Israel esteve muitas vezes em desobediência entre a instituição da ali­ança e o estabelecimento do trono de Davi, como explicar algum cumprimento? A incredulidade que se seguiu à era de Davi não se diferen­ciava da que a precedeu. Se a descrença posterior anulava a aliança, a descrença anterior teria impedido qualquer espécie de cumprimento.


D. O cumprimento parcial das alianças apóia a visão premilenar. Qual­quer exame das partes da aliança abraâmica que tenham sido cumpri­das parcial ou completamente apóia a tese de que a aliança deveria ser interpretada como uma aliança literal e incondicional. Ryrie diz:

... o método de Deus em cumprir as partes da aliança abraâmica tem sido literal.

1) No cumprimento de promessas pessoais, Abraão foi especialmente abençoado por Deus. Lincoln destacou:

a. Abraão foi abençoado pessoalmente com coisas temporais:

1) terra (Gn 13.14,15,17);

2) servos (Gn 15.7 etc);

3) muito gado, pra­ta e ouro (Gn 13.2; 24.34,35).



b. Abraão foi abençoado pessoalmente em assuntos espiritu­ais:

1) tinha uma vida feliz de consagração perante Deus (Gn 13.8; 14.22,23);

2) gozava de preciosa vida de comunhão com Deus (Gn 13.18);

3) tinha uma vida de oração constante (Gn 28.23-33); 4) era constantemente suprido por Deus (Gn 21.22); 5) possuía paz e confi­ança decorrentes de uma vida obediente (Gn 22.5,8,10,12; 16-18).

2) Ele tinha um grande nome [...]

3) Ele era um canal da bênção divina para os outros, pois não apenas abençoava seu lar, sua futura geração, mas o mundo por meio da Bíblia, do Salvador e do evangelho.

4) A história comprova o fato de que nações que perseguiram Israel, mesmo quando em cumprimento à disciplina de Deus, foram punidas por terem perturbado a semente de Abraão. Foi o caso da bênção e da maldição no caso do massacre de reis (Gn 14.12-16); de Melquisedeque (Gn 14.18-20); de Abimeleque (Gn 20.2-18; 21.22-34); de Hete (Gn 23.1-20) e em outras experiências na história de Israel (Dt 30.7; Is 14.1-2; Jl 3.1-8; Mt 25.40-45).

5) Abraão teve um herdeiro com Sara (Gn 21.2) [...]


A negação de que essas promessas tenham sido cumpridas é pueril. (RYRIE, op.,cit, p. 50-2)
Isso é bem ilustrado no salmo 69. Todas as previsões a respeito da humi­lhação e da aflição de Cristo foram literalmente cumpridas. O que segue Sua morte é visto como cumprimento de alianças, pois o salmista diz:

Porque Deus salvará Sião, e edificará as cidades de Judá, e ali habitarão, e hão de possuí-la. Também a descendência dos seus servos as herdará, e os que lhe amam o nome nelas habitarão (Sl 69.35-36).


Assim como o quadro da morte do Messias foi cumprido literalmente, só podemos concluir que o que decorre da morte do Messias também será literalmente cumprido. (Cf. Peters, op. cit., I, p. 303-4. 32 Cf. Ibid„ I, p. 294) Não deve haver dúvida de que o método usado por Deus para cumprir historicamente as profecias será o seu método de cumprir todas as profecias. Visto que todas as profecias rea­lizadas foram cumpridas literalmente, a coerência exige que esse méto­do seja adotado para as partes proféticas das Escrituras, que, por ora, não foram cumpridas. Uma vez que as partes da aliança abraâmica re­alizadas foram cumpridas literalmente, concluímos que as partes ain­da irrealizadas serão cumpridas da mesma forma.

Parece bem evidente que os próprios patriarcas entenderam ser a aliança eterna, incondicional, inequívoca e, conseqüentemente, inevi­tável em seu cumprimento. (Cf. Ibid„ I, p. 294) A declaração de Isaque a Jacó quando este partiu é a seguinte:

Deus Todo-poderoso te abençoe, e te faça fecundo, e te multiplique para que venhas a ser uma multidão de povos; e te dê a bênção de Abraão, a ti e a tua descendência contigo, para que possuas a terra de tuas peregrinações, concedida por Deus a Abraão (Gn 28.3,4; grifo do autor).

IV. Implicações Escatológicas da Aliança Abraâmica

Uma vez verificado que a aliança abraâmica é uma aliança incon­dicional feita com Israel, que conseqüentemente não pode ser cumpri­da nem abolida por nenhum outro povo além da nação de Israel, obser­vamos que Israel tem promessas com respeito à terra e à descendência que determinam o plano de Deus. Os termos terra e descendência, junta­mente com a palavra bênção, resumem os aspectos essenciais da parte escatológica da aliança. Um exame da promessa de Deus a Abraão mostrará a dupla ênfase da promessa.

Darei à tua descendência esta terra (Gn 12.7).

Porque toda essa terra que vês, eu ta darei, a ti e à tua descendência, para sempre. Farei a tua descendência como o pó da terra; de maneira que, se alguém puder contar o pó da terra, então se contará também a tua descen­dência (Gn 13.15,16).

Naquele mesmo dia fez o Senhor aliança com Abrão, dizendo: À tua des­cendência dei esta terra, desde o rio do Egito até ao grande rio Eufrates (Gn 15.18).

Estabelecerei a minha aliança entre mim e ti e a tua descendência no decur­so das suas gerações, aliança perpétua, para ser o teu Deus e da tua des­cendência. Dar-te-ei e à tua descendência a terra das tuas peregrinações, toda a terra de Canaã, em possessão perpétua, e serei o seu Deus (Gn 17.7,8; grifo do autor).


É impossível deixar de concluir que a promessa incluía aspectos relacio­nados à descendência física de Abraão e aspectos relacionados à terra concedida a essa descendência. É necessário, então, examinar o raio de ação da descendência e da terra para verificar seu efeito em acontecimen­tos futuros.

Ryrie esboça as implicações da aliança. Ele diz:

Todos concordam em que a aliança abraâmica é uma das principais alian­ças na Palavra de Deus. As perguntas mais importantes em relação ao pré-milenarismo são duas:

1) A aliança abraâmica promete a existência permanente de Israel como nação? Se promete, então a igreja não está cumprindo as promessas de Israel, mas, antes, Israel, como nação, ainda tem uma perspectiva futura.

2) A aliança abraâmica promete a Israel a posse permanente da terra prometida? Em caso positivo, então Israel de­verá tomar pose da terra, pois nunca a possuiu completamente em sua história. (RYRIE, op.cit.,p.48-9)
A. Quem é a descendência de Abraão? Seria evidente a todos os que não tentam deliberadamente perverter o ensinamento claro das Escri­turas que descendência de Abraão necessariamente é o termo aplicado aos descendentes físicos de Abraão. Walvoord escreve:

Um exame contextual da aliança abraâmica mostra que, em primeiro lu­gar, ela foi essencialmente ligada à descendência física de Abraão, Isaque.

Deus disse a respeito de Isaque antes que ele nascesse: "Estabelecerei com ele a minha aliança, aliança perpétua para a sua descendência" (Gn 17.19). De que forma Abraão entendeu o termo descendência aqui? Obviamente, em referência à sua semente física, Isaque, e a seus descendentes físicos. Deus não disse que nenhuma bênção espiritual viria sobre os que estives­sem fora da descendência física de Abraão, mas que a linhagem física de Isaque herdaria as promessas dadas aos "descendentes de Abraão".

[...] Nada poderia ser mais simples do que Abraão, Isaque e Jacó terem entendido o termo descendência em relação à sua linhagem física.( Walvoord, op. cit., 109:137-8.)


E mais uma vez:
O termo "Israel" [...] Como título dado a Jacó, significando príncipe de Deus, tem sido comumente usado para designar os descendentes físi­cos de Jacó. (Ibid., 109:139.)

Isso parece tão evidente que o leitor ficaria surpreso com a decla­ração de um importante amilenarista, que diz:

Conduzindo a um extremo quase sem precedentes o literalismo que ca­racteriza o milenarismo, eles insistem em que Israel deve significar Israel, e que as promessas do reino no Antigo Testamento dizem respeito a Israel e devem ser cumpridas para Israel literalmente. (Allis, op. cit., p. 218.)
Podemos frisar que a visão defendida pelos pré-milenaristas dificilmente poderia ser qualificada de "extremo quase sem precedentes" de literalismo, pois outros além dos pré-milenaristas, levados pela coe­rência na interpretação, sustentam que Israel significa apenas o que as palavras dão a entender. Hodge, (Charles Hodge, Commentary on Romans, p. 589.) pós-milenarista, como também Hendricksen, (William Hendricksen, And so all Israel shall be saved, p. 33.) amilenarista, mantêm essa posição. É importante obser­var que o intérprete deve distinguir entre as promessas pessoais ao pró­prio Abraão, as promessas nacionais aos descendentes de Abraão e as promessas universais a "todas as famílias da terra". Não se nega que a aliança abraâmica ofereça bênçãos universais aos que não fazem parte da descendência física de Abraão, mas se afirma que as promessas na­cionais só podem ser cumpridas pela própria nação israelita. Desse modo, a palavra Israel é tomada em seu sentido usual e literal, signifi­cando a descendência física de Abraão.
B. A visão amilenarista sobre a descendência de Abraão. Pieters, um dos principais expoentes do sistema amilenarista, define assim a descen­dência:

A expressão "descendência de Abraão", no uso bíblico, denota aquela comunidade visível cujos membros se relacionam com Deus por meio da aliança abraâmica e, assim, são herdeiros da sua promessa. (Albertus Pieters, The seed of Abraham, p. 19-20)


Ele desenvolve o pensamento dizendo:

Quando nos vemos diante do argumento de que Deus fez certas promes­sas à raça judaica [...] [certos] fatos são pertinentes. Deus nunca prometeu nada a raça alguma como raça. Todas as promessas foram para a contínua comunidade pactuai, sem considerar seus elementos raciais ou a ascen­dência pessoal dos indivíduos a ela pertencentes. Conseqüentemente, ne­nhuma prova de que aqueles a quem o mundo denomina "os judeus" descendem de Abraão, se pudesse ser fornecida (o que não é possível), teria valor para provar que lhes está reservado o cumprimento de algu­ma promessa divina. Essas promessas foram feitas ao grupo pactuai cha­mado "os descendentes de Abraão" e devem ser cumpridas para essa comunidade. O que é necessário é que alguém prove sua associação a esse grupo. (Ibid)

Walvoord resume o argumento dizendo:

A visão amilenarista, conforme apresentada por Pieters, defende a se­guinte posição: 1) Deus nunca fez promessas à descendência física de Abraão como raça; 2) as promessas de Abraão são dadas apenas à des­cendência espiritual de Abraão ou à "contínua comunidade pactuai"; 3) os judeus hoje não têm direito à promessa de Abraão porque a) não são sua descendência espiritual; b) não conseguiriam provar, de nenhuma forma, que são a descendência física. (Walvoord, op. cit., 209:137)


De acordo com a visão amilenarista, a descendência seria toda a "famí­lia da fé", ou todos os crentes de todos os tempos. O fator determinante, então, em toda essa discussão, é o método de interpretação. Se as Escrituras devem ser interpretadas figuradamente, então a visão amilenarista é lógica, mas se interpretadas literalmente, a pré-milenarista é obriga­tória.
C. Os tipos de descendência mencionados nas Escrituras. Toda a ques­tão pode ser esclarecida se observamos que as Escrituras não apresen­tam apenas um tipo de descendência nascida de Abraão. Por não se observar essa diferenciação das Escrituras, tem havido confusão. Walvoord escreve:

Existem, então, três sentidos diferentes nos quais alguém pode ser filho de Abraão. Primeiro, existe a linhagem natural, ou descendência natural. Essa é restrita aos descendentes de Jacó nas doze tribos. A eles, Deus pro­mete ser o seu Deus e a eles foram dadas as leis. Deus lidou com eles de maneira especial. Segundo, existe a linhagem espiritual dentro da linha­gem natural. Esses são os israelitas que acreditaram em Deus, guardaram a lei e satisfizeram as condições para que se desfrutassem hoje as bênçãos da aliança.

Os que possuirão a terra no futuro milênio também serão do Israel espiritual. Terceiro, existe a descendência espiritual de Abraão que não é por natureza israelita. Aqui entra a promessa de "todas as famílias da terra". Essa é a aplicação clara da expressão de Gálatas 3.6-9 [...] em outras palavras, os filhos (espirituais) de Abraão que vêm dos pagãos ou gentios cumprem esse aspecto da aliança abraâmica que lidou com os gentios em primeiro lugar, e não as promessas concernentes a Israel. A única maneira pela qual os gentios podem ser descendentes de Abraão no contexto de Gálatas é estarem "em Cristo Jesus" (Gl 3.28). Seguido de: "E, se sois de Cristo, também sois descendentes de Abraão e herdeiros segundo a promessa" (Gl 3.29). Os gentios descendem, de Abraão apenas no sentido espiritual e são herdeiros da promessa dada a "todas as famí­lias da terra".

Embora os pré-milenaristas possam concordar com os amilenaristas em que a descendência de Abraão inclui os gentios, negam que isso cum­pra as promessas dadas à descendência natural, ou que as promessas fei­tas à "descendência de Abraão" sejam realizadas por crentes gentios. Igua­lar a promessa de bênção para todas as nações à bênção dada à descen­dência de Abraão é conclusão injustificada. (Ibid., 108:420)


A distinção explicará como a igreja pode estar relacionada à aliança sem ser o povo pactuai no qual as promessas nacionais serão cumpridas. O fato de sermos descendentes espirituais de Abraão, mediante o novo nascimento, não significa que sejamos descendentes físicos do patriarca..
D. A igreja não é Israel. A única conclusão lógica que podemos ex­trair do debate é que os crentes gentios do presente, embora reconheci­dos como descendentes de Abraão, não são a descendência na qual as promessas nacionais serão cumpridas. Isso fica comprovado pela ob­servação de certos fatos no emprego das palavras no Novo Testamento.

1) Israel e os gentios são contrapostos no Novo Testamento (At 3.12; 4.8; 21.28; Rm 10.1). O fato de Israel ainda ser referido como nação de­pois do estabelecimento da igreja e de que o termo judeu continue a ser usado em referência a um grupo que não a igreja (1 Co 10.32) mostra que os gentios não suplantam Israel no plano de alianças de Deus.

2) O Israel natural e a igreja são contrapostos no Novo Testamento (Rm 11.1-25; 1 Co 10.32). Em Romanos 11 vemos que Deus retirou temporaria­mente a nação de Israel da esfera de Sua bênção, mas a reintegrará a tal posição quando Seu plano com a igreja terminar. Esta consideração mos­tra que a igreja não suplanta Israel no plano da aliança de Deus.

3) Os judeus cristãos, que fariam parte do Israel espiritual, e os cristãos gen­tios são contrapostos no Novo Testamento (Rm 9.6, em que Paulo com­para as promessas que pertencem a Israel segundo a carne e as que pertencem a Israel segundo a apropriação pela fé; Gl 6.15,16, em que Paulo menciona especificamente judeus crentes na bênção pronuncia­da sobre todo o corpo de Cristo). (Cf. Ryrie, op. cit., p. 63-70) Parece estar bem estabelecido, en­tão, que a igreja de hoje não é o Israel no qual as alianças são cumpri­das.

É estranho que os amilenaristas, que argumentam que as alianças não precisam ser cumpridas porque são condicionais e porque as condições não foram satisfeitas por Israel, e ainda que elas não serão realizadas porque foram historicamente cumpridas no reino de Salomão, agora argumentam que elas são cumpridas pela igreja. Se eram condicionais ou já foram cumpridas, por que não desprezar completamente as promessas de aliança? Por que fazer delas uma questão de fé? A única resposta é que as alianças constituem de tal forma base para toda a expectativa da Palavra de Deus que não podem ser desprezadas, mes­mo por aqueles que negam sua existência ou sua pertinência com o plano escatológico.
E. A relação da igreja com a aliança. Uma vez que a igreja não é a descendência na qual as alianças serão definitiva e literalmente cumpridas, é importante examinar sua relação com o plano total das alian­ças. Qualquer que seja a relação entre a igreja e as promessas, baseia-se não no nascimento físico, mas num novo nascimento, cabendo-lhe apenas porque os indivíduos que dela gozam estão "em Cristo". Peters ressalta bem esse fato:

Diz-se que a "descendência" herdará a terra; muitos afirmam que isso foi cumprido na história dos judeus sob a liderança de Josué, dos juízes e dos reis. Quais, porém, são os fatos conforme apresentados pelo Espírito Santo? Cer­tamente, na interpretação da promessa da aliança, devemos dar às Escritu­ras Sagradas o direito de ser seu próprio intérprete, para podermos apurar o sentido pretendido por Deus. Que Deus, então, e não o homem, explique: "Ora, as promessas foram feitas a Abraão e ao seu descendente. Não diz: E aos descendentes, como se falando de muitos, porém como de um só: E ao teu descendente, que é Cristo (Gl 3.16)". Se a linguagem tem algum sentido definido, portanto, sem dúvida alguma temos aqui a declaração de que, quando Deus prometeu "A tua descendência darei esta terra", queria dizer que a terra de Canaã seria herdada por uma única Pessoa preeminente mente a Sementeque descendia de Abraão, ou seja, Jesus Cristo. (Peters, op. cit., I, p. 302)


A igreja se beneficia das promessas somente por relacionar-se com Aque­le em quem as promessas encontram seu cumprimento. A igreja parti­cipa em tudo o que Ele faz para levar a termo a aliança. Ao citar a alian­ça abraâmica em Atos 3.25, Pedro aplica apenas os aspectos universais da aliança àqueles a quem fala. Os aspectos nacionais aguardam cum­primento futuro pela nação de Israel.
F. A descendência possuirá a terra? A luz do debate anterior sobre a aliança, é evidente que a descendência física de Abraão recebeu a pro­messa da posse eterna da terra. Walvoord afirma:

A promessa da posse da terra pela descendência de Abraão é uma das ca­racterísticas marcantes da aliança, e a maneira pela qual a promessa é feita aumenta ainda mais o seu significado. Conforme apresentada, a promessa sublinha que:

1) ela é resultado da graça em seu princípio;

2) a terra é uma herança para a descendência;

3) a posse é concedida perpetuamente;

4) a posse deverá ser desfrutada perpetuamente;

5) a terra prometida incluía um território específico, definido por fronteiras específicas. (Walvoord, op. cit., 109:218)
Esta promessa é a base da expectativa do Antigo Testamento e a substância da mensagem dos profetas. (Cf. Is 11.1-11; 14.1-3; 27.12,13; 43.1-8; 49.8-16; 66.20-22; Jr 16.14-16; 30.10,11; 31.8, 31-37; Ez 11.17-21; 20.33-38; 34.11-16; 39.25-29; Os 1.10,11; Jl 3.17-21; Am 9.11-15; Mq 4.4-7; Sf 3.14-20; Zc 8.4-8.)

Se Israel tivesse sido rejeitado como nação por causa da incredulidade, toda essa grande corrente de profecias do Antigo Testamento perderia sua possibilidade de cumpri­mento. Ryrie responde adequadamente aos argumentos de que Israel foi definitivamente posto de lado. Ele argumenta:


... Como alguns insistem em que a nação foi complemente rejeitada por Deus, duas passagens das Escrituras precisam ser cuidadosamente exa­minadas.

A primeira é Mateus 21.43: "Portanto, vos digo que o reino de Deus vos será tirado e será entregue a um povo que lhe produza os respectivos frutos" [...] uma interpretação precisa desse versículo deve responder às seguintes perguntas: o que será tirado, de quem será tirado e a quem será dado?

O que será tirado é o reino de Deus [...] o reino de Deus é a esfera da verdadeira fé em Deus [...] O Senhor está dizendo a esses judeus que, por O terem rejeitado, não poderão entrar no reino de Deus, pois "se alguém não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus" (Jo 3.3).

De quem o reino de Deus foi tirado? Parece claro que o pronome "vos" se refere à geração com a qual o Senhor Jesus estava falando...

A quem o reino seria dado? Por aplicação, "um povo que lhe produ­za os respectivos frutos" pode significar qualquer geração que se volte para Cristo; mas, em seu estrito sentido interpretativo refere-se à nação de Israel quando esta se voltar para o Senhor e for salva antes de entrar no reino milenar [...]

A segunda passagem que demonstra conclusivamente que Israel será reintegrado é a que trata de sua salvação futura: Romanos 11.26,27.

"E, assim, todo o Israel será salvo, como está escrito: Virá de Sião o Libertador e ele apartará de Jacó as impiedades. Esta é a minha aliança com eles, quando eu tirar os seus pecados."

[...] Exegetas cuidadosos concordam em que Israel significa Israel nessa passagem [...] Essa passagem ensina, então, que todo o Israel, em contraposição ao remanescente que está sendo salvo hoje, será salvo na segunda vinda de Cristo. A partir dessas duas passagens, fica claro que Israel não foi completamente rejeitado, mas será no futuro reconduzido ao lugar de bênção. Por não ter sido rejeitado como herdeiro, Israel ainda estará em posição de cumprir a aliança abraâmica. (Ryrie, op. cit., p. 70-3)


G. A aliança abraâmica já foi cumprida? Há quem afirme que a alian­ça abraâmica não será cumprida no futuro porque já se realizou no pas­sado. Murray representa essa visão, ao dizer:

Há ampla evidência na Palavra de que Deus cumpriu a promessa feita a Abraão e à sua descendência de que possuiriam Canaã. Hoje, as cinzas de Abraão, de Isaque e de Jacó estão misturadas ao solo da "caverna do campo de Macpela, fronteiro a Manre [...] na terra de Canaã", que Abraão com­prou, "em posse de sepultura". Ele possuiu Canaã durante sua vida terrena, e suas cinzas repousam em Canaã até a ressurreição. O mesmo pode ser dito de sua descendência, Isaque e Jacó, "herdeiros com ele da mesma promessa". Certamente Deus cumpriu a promessa de dar a Abraão e à sua descendência um lugar permanente na terra.

[Depois de citar Gênesis 15.13,14, ele diz:] Essa aliança não inclui a palavra "perpétua", embora alguns afirmem que seus termos ainda serão plenamente cumpridos, e que os israelitas jamais possuíram a terra na dimensão aqui descrita. Felizmente, a Palavra de Deus nos dá a resposta irrevogável e verdadeira também nesse caso. Convidamos o leitor a abrir sua Bíblia em 1 Reis 4.21,24, em que lemos: "Dominava Salomão sobre todos os reinos desde o Eufrates até à terra dos filisteus e até à fronteira do Egito [...] Porque dominava sobre toda região [...] aquém do Eufrates, desde Tifsa até Gaza, e tinha paz por todo o derredor". (George Murray, Millennial studíes, p. 26-7.)

Para poder sustentar um cumprimento histórico, é necessário negar que essa aliança foi eterna em seu caráter. É interessante ver o que o amilenarista faz com a palavra perpétua (Gn 17.8). O mesmo autor cita­do anteriormente escreve:

O literalista nos lembra da palavra perpétua, que para ele é a palavra mais importante aqui. Somos freqüentemente lembrados que "perpétua" sig­nifica para sempre. Isso não livra o literalista de dificuldades. A posse hu­mana de qualquer porção da terra nunca é permanente. "Aos homens está designado morrer uma vez, e depois disso o juízo." A posse e os contratos relativos a coisas materiais precisam ter fim. O que, então, Deus quis dizer? O que Abraão teria entendido pela palavra "perpétua"? Se um homem é ameaçado de ser expulso de sua casa, e um amigo de com­provada capacidade para cumprir promessas lhe promete que o homem possuirá aquela casa para sempre, como interpretar essas palavras? Ele não esperaria viver ali eternamente. O máximo que poderia esperar é passar ali toda a sua vida terrena e repousar ali suas cinzas depois da morte. Foi isso que Deus claramente prometeu a Abraão e cumpriu. Ele possui a terra de Canaã em todos os sentidos em que um homem pode possuir uma terra. (Ibid., p. 26)
Quão inútil é afirmar que a posse pactuai da terra se cumpre no fato de as cinzas de Abraão repousarem no solo de Canaã!

O argumento favorável ao cumprimento histórico da aliança abraâmica é tratado por Peters, que escreve:

Afirmar que tudo isso foi cumprido na ocupação da Palestina pela posse preparatória ou inicial dos descendentes de Abraão não é apenas contra­dito pelas Escrituras, mas uma limitação virtual da promessa. Kurtz [...] observa, como também a história confirma, que os descendentes jamais possuíram a terra prometida a Abraão desde o Nilo até o Eufrates... (Peters, op. cit., I, p. 297)

Peters acrescenta ainda maior peso ao argumentar:

Seja lá o que se possa dizer sobre a posse temporária de Canaã [...] seja lá o que se afirme com respeito ao fato de os descendentes ainda estarem "nos seus lombos" etc, uma verdade é afirmada na Bíblia de maneira inequívoca, a saber, que essa promessa não foi cumprida nos patriarcas, em nenhuma das formas propostas pela incredulidade de alguns. O Espí­rito, prevendo essa mesma objeção, ofereceu prova contrária, para que nossa fé não tropeçasse. Assim Estêvão, cheio do Espírito Santo, diz (At 7.5) que "nela, [Deus] não lhe [Abraão] deu herança, nem sequer o espaço de um pé; mas prometeu dar-lhe a posse dela e, depois dele, à sua descen­dência, não tendo ele filho".

Esse deveria ser um argumento decisivo, especialmente quando confirmado pelo autor de Hebreus (9.8,9; 11.13-40), que nos informa expressamente que os patriarcas foram peregrinos "na terra da promessa", a qual deveriam receber "como herança", e fo­ram "peregrinos e estrangeiros" e que "morreram na fé, sem ter obtido as promessas, vendo-as, porém, de longe, e saudando-as, e confessando que eram estrangeiros e peregrinos sobre a terra". Com tantas provas diante de nós, como podemos atribuir somente à posteridade o que é diretamen­te afirmado a respeito deles? (Ibid., I, p. 294-5)


A aliança abraâmica, com promessas individuais a Abraão, promessas da preservação de uma nação e promessas da posse de uma terra por essa nação, foi dada a um povo pactuai específico. Uma vez que era incondicional e eterna, e jamais foi cumprida, aguarda cumpri­mento futuro. Israel deve ser preservado como nação, deve herdar sua terra e ser abençoado com bênçãos espirituais que tornem essa herança possível. Walvoord conclui corretamente:

A reintegração de Israel é o ponto culminante da grande estrutura doutri­nária relacionada à aliança abraâmica. Ao terminar nosso exame dessa aliança e de seu relacionamento com o pré-milenarismo, nossa atenção deve voltar-se uma vez mais à importância estratégica dessa revelação para a verdade das Escrituras. Já observamos que a aliança incluía provi­sões não só para Abraão, mas para a sua descendência física, Israel, e para sua descendência espiritual, todos os que seguem a fé de Abraão, quer judeus quer gentios desta era.

Demonstramos que Abraão interpre­tou a aliança de forma literal, sobretudo com referência à sua descendên­cia física. O caráter incondicional da aliança foi demonstrado —uma ali­ança que dependia somente da promessa e da fidelidade de Deus. O cum­primento parcial registrado até o presente confirma a intenção divina de dar pleno cumprimento às Suas promessas.

Demonstramos que a pro­messa feita a Israel de possuir para sempre a terra é parte fundamental e conclusão inevitável das promessas gerais feitas a Abraão e confirmadas a seus descendentes. A continuidade de Israel como nação, implícita nes­sas promessas, é sustentada pela confirmação contínua em ambos os tes­tamentos.

Foi demonstrado que a igreja do Novo Testamento de maneira alguma cumpre essas promessas dadas a Israel. Por fim, a restauração de Israel como o resultado natural dessas promessas foi apresentada como ensino expresso de toda a Bíblia. Se essas conclusões, obtidas depois de cuidadoso exame das Escrituras, são sadias e razoáveis, conclui-se que o pré-milenarismo é o único sistema satisfatório de doutrina que se harmo­niza com a aliança abraâmica. (WALVOORD, op. cit., 109:302-3).

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