Manual de Escatologia


Capítulo 7 - A aliança davídica



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Capítulo 7 - A aliança davídica

As implicações escatológicas da aliança abraâmica baseiam-se nas pa­lavras terra e descendência. As promessas sobre a terra foram ampliadas e confirmadas pela aliança palestina. Na grande aliança seguinte de Israel, esta feita com Davi, Deus amplia e confirma as promessas refe­rentes à descendência abraâmica. Isso pode ser observado nas passa­gens que tratam da formulação da aliança davídica.

Quando teus dias se cumprirem e descansares com teus pais, então, farei levantar depois de ti o teu descendente, que procederá de ti, e estabelecerei o seu reino (2Sm 7.12).

Fiz aliança com o meu escolhido e jurei a Davi, meu servo: Para sempre estabelecerei a tua posteridade e firmarei o teu trono de geração em gera­ção (Sl 89.3,4).

Como não se pode contar o exército dos céus, nem medir-se a areia do mar, assim tornarei incontável a descendência de Davi, meu servo, e os levitas que ministram diante de mim.

Assim diz o Senhor: Se a minha aliança com o dia e com a noite não permanecer, e eu não mantiver as leis fixas dos céus e da terra, também rejeitarei a descendência de Jacó e de Davi, meu servo... (Jr 33.22,25,26; gri­fo do autor).


A promessa da descendência presente na aliança abraâmica é agora posta no centro da aliança davídica. As promessas da descendência ge­ral e da linhagem de descendência de Davi, com seu reino, sua casa e seu trono, são ampliadas.

I. A Importância da Aliança Davídica


Inerentes à aliança davídica há várias perguntas importantes di­ante do estudioso de escatologia. Haverá um milênio literal? A igreja é o reino? Que é reino de Deus? Que é reino de Cristo? A nação de Israel será reunida e reintegrada sob o Messias? O reino é presente ou futuro? Essas e muitas outras perguntas importantes apenas podem ser res­pondidas por uma interpretação correta do que foi prometido a Davi. Berkhof representa os amilenaristas quando diz: "A única base escriturística para essa teoria [a teoria pré-milenarista de um reino de mil anos] é Ap 20.1-6, depois de se ter despejado aí um conteúdo veterotestamentário". (Louis Berkhof, Teologia sistemática, p. 721) Tal teoria será refutada meramente pela ampliação do que ocupa parte tão decisiva das Escrituras —a aliança davídica— com suas promessas de um reino e de um rei.

II, As Disposições da Aliança Davídica


A promessa feita por Deus a Davi é apresentada em 2Samuel 7.12-16, onde lemos:

Quando teus dias se cumprirem e descansares com teus pais, então, farei levantar depois de ti o teu descendente, que procederá de ti, e estabelece­rei o seu reino. Este edificará uma casa ao meu nome, e eu estabelecerei para sempre o trono do seu reino. Eu lhe serei por pai, e ele me será por filho; se vier a transgredir, castigá-lo-ei com varas de homens e com açoi­tes de filhos de homens. Mas a minha misericórdia se não apartará dele, como a retirei de Saul, a quem tirei de diante de ti. Porém a tua casa e o teu reino serão firmados para sempre diante de ti; teu trono será estabele­cido para sempre.


Os antecedentes históricos da aliança davídica são bem conheci­dos. Visto que Davi subiu ao poder e à autoridade no reino e agora morava numa casa de cedro, parecia incoerente que Aquele de quem ele obtinha sua autoridade e seu governo ainda residisse numa casa feita de peles. O propósito de Davi era construir uma morada adequa­da para Deus. Pelo fato de ter sido homem de guerra, Davi não pôde terminar a tarefa. A responsabilidade foi deixada para Salomão, o prín­cipe da paz. No entanto, Deus faz certas promessas a Davi com relação à perpetuidade de sua casa.

Entre as disposições da aliança davídica está, então, o seguinte:

1) Davi terá um filho, ainda por nascer, que o sucederá e estabelecerá seu reino.

2) Esse filho (Salomão) construirá o templo em lugar de Davi.

3) O trono do seu reino será estabelecido para sempre.

4) O trono não será tomado dele (Salomão) apesar de seus pecados justificarem castigo.

5) A casa, o trono e o reino de Davi serão firmados para sempre. (John F. Walvoord, Millennial series, Bibliotheca Sacra, 110:98-9, Apr. 1953)
As características essenciais dessa aliança no campo escatológico ficam implícitas em três palavras encontradas em 2 Samuel 7.16: casa, reino, trono. Walvoord define bem esses termos na aliança. Ele escreve:

O que significam os termos principais da aliança? Com "casa" de Davi, sem dúvida faz-se referência à posteridade davídica, seus descen­dentes físicos. E certo que jamais serão mortos in toto ou substituídos com­pletamente por outra família. A linhagem de Davi será sempre a família real. Com "trono" é evidente que não se quer indicar um trono material, mas a dignidade e o poder que eram soberanos e supremos em Davi como rei. O direito de reinar sempre pertenceu à descendência de Davi. O ter­mo "reino" refere-se ao reino político de Davi sobre Israel. A expressão "para sempre" significa que a autoridade de Davi e o reino ou governo de Davi sobre Israel jamais serão tomados da posteridade davídica. O direi­to de governar jamais será transferido a outra família, e esse acordo foi planejado para durar eternamente. Assuma qual forma for, a despeito de suas interrupções temporárias ou de seus castigos, a linhagem de Davi sempre terá o direito de governar sobre Israel e, a bem da verdade, exer­cerá esse privilégio. (Ibid)


Como em outras alianças de Israel, descobrimos que essa é repeti­da e confirmada em passagens posteriores. No salmo 89, o salmista exalta Deus por Suas misericórdias. No v. 3 essas misericórdias pare­cem vir porque:

Fiz aliança com o meu escolhido e jurei a Davi, meu servo: Para sempre estabelecerei a tua posteridade e firmarei o teu trono de geração em geração (Sl 89.3,4; grifo do autor).


As promessas são certas porque:

Não violarei a minha aliança, nem modificarei o que os meus lábios pro­feriram. Uma vez jurei por minha santidade (e serei eu falso a Davi?): A sua posteridade durará para sempre, e o seu trono, como o sol perante mim (Sl 89.34-36).


Isso é novamente confirmado em passagens como Isaías 9.6,7; Jeremias 23.5,6; 30.8,9; 33.14-17,20,21; Ezequiel 37.24,25; Daniel 7.13,14; Oséias 3.4,5; Amós 9.11 e Zacarias 14.4,9. A promessa davídica é estabelecida por Deus como aliança formal e daí em diante é a base na qual Deus opera em relação ao reino, à casa e ao trono de Davi.

III. O Caráter da Aliança Davídica

Como nas alianças anteriores, o fator determinante é o caráter da própria aliança. Ela é condicional e temporária ou incondicional e eter­na? O amilenarista é forçado a defender uma aliança condicional e um cumprimento espiritualizado, para que o trono em que Cristo agora está assentado à destra do Pai se torne o "trono" da aliança, para que a família da fé se torne a "casa" da aliança e para que a igreja se torne o "reino" da aliança. Murray apresenta a teoria amilenarista modelar quando escreve:

A aliança davídica, a respeito da qual muito foi dito, mostrou que sua descendência sentaria sobre seu trono e teve seu cumprimento natural no reinado de Salomão. Seus aspectos eternos incluem o Senhor Jesus Cristo da descendência de Davi; e, no livro de Atos, Pedro insiste em que a res­surreição e a ascensão de Cristo cumpriram a promessa de Deus de que a descendência de Davi sentaria sobre seu trono. (V. Atos 2.30.) Por que insistir, então, no cumprimento literal de uma promessa que as Escrituras comprovam ter um cumprimento espiritual? (George Murray, Millennial studies, p. 44)
Observe-se que para Murray todos os aspectos temporais da aliança foram cumpridos por Salomão e os aspectos eternos foram cumpridos pelo reino atual de Cristo sobre a igreja. Isso faz da igreja a "descendên­cia" e o "reino" prometidos na aliança. O reino torna-se celestial, não terreno. O governo de Davi torna-se apenas um tipo de governo de Cristo. Somente com considerável alegorização é que tal teoria pode ser aceita.( G. N. H. Peters, Theocratic kingdom, I, p. 344-5)

A. A aliança davídica é incondicional em seu caráter. O único elemento condicional na aliança era se os descendentes de Davi ocupariam continuamente o trono ou não. A desobediência poderia trazer castigo, mas jamais ab-rogar a aliança. Peters diz:

Alguns [...] erroneamente concluem que toda a promessa é condicional, indo contra as afirmações mais claras do contrário em relação ao mais Distinto dos filhos de Davi, o Descendente preeminente. Ela era, na ver­dade, condicional quanto à descendência ordinária de Davi (cf. Sl 89.30-34, e ver a força de "mas" etc.) e, se sua descendência tivesse obedecido, o trono de Davi jamais teria vagado até a vinda do Descendente por exce­lência; no entanto, por terem sido desobedientes, o trono foi derrubado, e permanecerá então "um tabernáculo caído", "uma casa desolada", até ser reconstruída e restaurada pelo Descendente. O leitor não deixará de observar que, se cumpridas em Salomão e não relacionadas ao Descen­dente, quão incoerentes e irrelevantes seriam as profecias dadas mais tar­de, como, por exemplo, Jeremias 33.17-26 etc. (Ibid., I, p. 343)


Davi previu que não haveria uma sucessão direta de reis na sua linhagem, mas afirma o caráter eterno da aliança. No salmo 89 Davi previu a derrubada do seu reino (v. 38-45) antes da realização do que tinha sido prometido (v. 20-29). Mas previu o cumprimento da promes­sa (v. 46-52) e abençoou o Senhor. (Cf. ibid. I, p. 319) Tal era a fé de Davi.
Várias razões apóiam a posição de que a aliança é incondicional.

1) Primeiro, como as outras alianças de Israel, ela é chamada eterna em 2Samuel 7.13,16; 23.5; Isaías 55.3 e Ezequiel 37.25. A única maneira pela qual ela pode ser eterna é se for incondicional e baseada na fidelidade de Deus para sua execução.

2) Aqui também essa aliança apenas am­plia as promessas da "descendência" da aliança abraâmica original, que demonstrou ser incondicional, e assim compartilhará do caráter da ali­ança original.

3) Além disso, essa aliança foi reafirmada após repetidos atos de desobediência por parte da nação. Cristo, o Filho de Davi, veio oferecer o reino de Davi após gerações de apostasia. Essas reafirmações não se fariam nem poderiam ser feitas se a aliança fosse condicionada a qualquer reação por parte de Israel.


B. A aliança davídica deve ser interpretada literalmente. Peters levanta a questão do cumprimento literal talvez mais profundamente do que qualquer outro autor. Ele assim argumenta a favor da interpretação li­teral da aliança:

Antes de censurar os judeus [...] por crerem que Jesus restauraria literal­mente o trono e o reino de Davi, devemos levar em consideração justa­mente que tinham razão de fazer isso pela própria linguagem da aliança. É incrível que Deus, nas questões mais importantes, que influenciavam os interesses e a alegria do homem e quase tocavam Sua própria veraci­dade, as revestisse de palavras que, se não verdadeiras no sentimento aparente e comum, enganariam os consagrados e tementes a Deus de tan­tas gerações [...]

1) As palavras e frases na sua aceitação gramatical comum realmente ensi­nam expressamente a sua crença. Isso não é negado por ninguém, nem mes­mo por aqueles que, depois, continuam a espiritualizar a linguagem [...]

2) A aliança é especificamente associada à nação judaica e a nenhu­ma outra [...]

3) Ela é chamada aliança perpétua, i.e., durará para sempre. Pode, até mesmo, demorar antes de seu cumprimento e até ser temporariamen­te deixada de lado pela nação, mas deve ser por fim realizada.

4) Ela foi confirmada por juramento (Sl 132.11 e 89.3,4,33), dando assim a segurança mais forte possível de seu cabal cumprimento [...]

5) Para não deixar nenhuma dúvida e tornar a descrença imperdoá­vel, Deus apresenta concisa e veementemente Sua determinação (Sl 89.34): "Não violarei a minha aliança, nem modificarei o que os meus lábios pro­feriram". Seria pura presunção e cegueira se os judeus alterassem a alian­ça (com a desculpa —atual— de espiritualidade) e se recusassem a acei­tar o significado nítido pretendido pelas palavras; e há uma dura respon­sabilidade sobre aqueles que, mesmo sob as melhores intenções, proposi­tadamente alterarem as palavras da aliança e a elas adicionarem outro significado. (Ibid., I, p. 315-6)
Peters continua oferecendo uma lista de cerca de 21 razões para crer­mos que todo o conceito do trono e do reino de Davi deve ser entendi­do literalmente. Ele escreve:

Se o trono e o reino de Davi forem entendidos literalmente, então todas as outras promessas necessariamente se seguem; e, como a aceitação desse cumprimento literal cria a maior dificuldade mental para muitos, apresentamos uma breve afirmação de razões pelas quais ela deve ser aceita:

1) Ela é prometida solenemente, confirmada por juramento e, logo, não pode ser alterada nem quebrada.

2) O significado gramatical em si lem­bra uma aliança.

3) A impressão deixada em Davi, se errônea, lança dúvi­das sobre sua condição de profeta.

4) A convicção de Salomão (2Cr 6.14-16) de que a aliança se referia ao trono e ao reino literal.

5) Salomão afir­ma que a aliança foi cumprida nele mesmo, mas só até o ponto em que também ele, como filho de Davi, se assentou no trono de Davi [...]

6) A linguagem é a normalmente usada para denotar o trono e o reino literal de Davi, como ilustrado em Jeremias 17.25 e 22.4.

7) Os profetas adotam a mesma linguagem, e sua constante reiteração sob a liderança divina é evidência de que o significado gramatical comum é o pretendido.

8) A crença dominante por séculos, uma fé nacional, engendrada pela lingua­gem sob o ensino de homens inspirados, indica como a linguagem deve ser entendida.

9) Esse trono e esse reino provêm de promessa e herança e, portanto, não se referem à divindade, mas à humanidade de Jesus.

10) Com respeito ao Filho de Davi "segundo a carne", promete-se que ele verdadeiramente virá e, logo, ele deve parecer o Rei Teocrático, conforme prometido.

11) Não temos a menor idéia de que a aliança deva ser inter­pretada de qualquer outra maneira que não a literal; qualquer outra é resultado de pura dedução [...]

12) Qualquer outra interpretação além da literal implica a mais grosseira autocontradição.

13) A negação de uma aceitação literal da aliança tira do herdeiro Sua herança prometida [...]

14) Nenhuma regra gramatical pode ser formulada para fazer do trono de Davi o trono do Pai no terceiro céu.

15) Se tal tentativa for feita sob a rubrica de "simbólica" ou "típica", então a credibilidade e o significado das alianças são deixados à livre interpretação de homens, e o próprio Davi torna-se "símbolo" ou "tipo" (criatura que ele é) do Criador.

16) Se o trono de Davi é o trono do Pai no céu (a interpretação comum), então ele sempre existiu.

17) Se tais promessas pactuais forem interpretadas figuradamente, é inconcebível que elas tenham sido dadas na sua forma atual sem nenhuma afirmação direta, em algum lugar, da sua natureza figurada, prevendo Deus (se não literal) que durante séculos elas seriam preeminentemente calculadas para estimular e criar falsas expectativas, como por exemplo aconteceu desde Davi até Cristo.

18) Deus é fiel nas Suas promessas e não engana ninguém na linguagem de Suas alianças.

19) Não existia nenhuma necessidade de que, se o trono prometido ao Filho de Davi quisesse dizer outra coisa, fosse tão definitivamente pro­metido na forma dada.

20) O mesmo trono e o mesmo reino derrubados são aqueles restaurados.

21) Mas as razões principais e diretas para acei­tar a linguagem literal da aliança [são que] [...] o trono e o reino de Davi [tornam-se] requisito para uma demonstração da ordem teocrática que Deus já instituiu (mas agora mantém suspensa até os preparativos esta­rem completos) para restauração e exaltação da nação judaica (que é pre­servada com esse propósito), para salvação da raça humana (que se acha sob a bênção teocrática) e para domínio de um mundo renovado e livre da maldição [...] Tal trono e tal reino são necessários para preservar a Unidade Divina de Propósito na já proposta linhagem teocrática.(Ibid., I, p. 343-44)
Toda essa proposição é apoiada por ainda outras provas.
1. As partes da aliança que foram realizadas o foram literalmente. Como já vimos, o cumprimento parcial determina o método a ser usa­do nas partes irrealizáveis. Ryrie diz:

Basta mencionar brevemente que Davi teve um filho, que o trono de Davi foi estabelecido, que o reino de Davi foi estabelecido, que Salomão cons­truiu o templo, que seu trono foi estabelecido e que ele foi punido por desobediência. (Charles C. Ryrie, The basis of the premillennial faith, p. 78)


2. Nova evidência é acrescentada pela maneira em que Davi foi levado a entender a aliança. Vemos que ele não tinha dúvida de que se tratava de uma aliança literal, a ser cumprida literalmente. Peters diz:

Como o próprio Davi entendeu essa aliança? Isso é afirmado melhor na sua própria linguagem. Leia por exemplo o salmo 72, que descreve um Filho infinitamente superior a Salomão; reflita sobre o salmo 132, e de­pois observe que "Deus lhe havia jurado que um dos seus descendentes se assentaria no seu trono" (frase que Pedro, em Atos 2.30,31, expressa­mente atribui a Jesus); considere as numerosas alusões messiânicas nesse e era outros salmos (89,110, 72, 48, 45, 21, 2 etc), assim considerados e citados explicitamente no Novo Testamento por homens inspirados; pon­dere sobre o fato de que Davi O chama de "meu Senhor", "mais alto que os reis da terra" e atribui a Ele posição, poder, domínio, imortalidade e perpetuidade que nenhum Rei mortal jamais alcançaria, e certamente não estamos errados em acreditar que o próprio Davi, de acordo com o teor da aliança —"o teu reino será firmado para sempre diante de ti"— espe­rava estar nesse reino do Seu Filho e Senhor tanto para testemunhar como para experimentar sua bênção...(Peters, op. cit., I, p. 314)


E ainda:
O próprio Davi, em suas últimas palavras (2Sm 23.5), enfaticamente diz: "Pois estabeleceu comigo uma aliança eterna, em tudo bem definida e segura. Não me fará ele prosperar toda a minha salvação e toda a minha esperança?". O profeta Isaías reitera (55.3), denominando-a "uma aliança perpétua, que consiste nas fiéis misericórdias prometidas a Davi". Certa­mente ninguém pode deixar de ver o que isso denota, como Barnes (Com. loci), "uma aliança imutável e inabalável —aliança que não seria revogada"—, aliança que não seria ab-rogada, mas perpétua — e "Deus ratificaria essa aliança". (Ibid., I, p. 316)
E também:

O fato de que o próprio Davi esperava cumprimento literal da promessa é evidente pela linguagem, que segue o estabelecimento da aliança; e nes­sa previsão literal da promessa Davi retribui agradecimentos a Deus e louvores a Ele por ter escolhido sua casa para honrar, estabelecendo-a assim pelas gerações, para sempre (2Sm 7.8 etc; 1 Cr 17.16 etc). E presun­ção supor que Davi ofereceria agradecimentos, e também oração, com uma impressão errada da natureza da aliança. (Ibid., I, p. 342)


Logo, é evidente que Davi foi levado por Deus a interpretar a aliança literalmente.
3. Há evidência da interpretação literal da aliança a partir da inter­pretação da aliança pela nação de Israel. Fez-se referência aos aspectos literais frisados em todos os livros proféticos do Antigo Testamento. Essa ênfase literal continuou por toda a história judaica. Ryrie diz:

O conceito que os judeus tinham do reino nessa época pode ser resumido sob cinco características: terreno, nacional, messiânico, moral e futuro.

A esperança era de um reino terreno. Quando Israel viu a Palestina sob o governo de uma potência estrangeira, sua esperança se intensificou ainda mais, porque o reino esperado seria estabelecido na terra e natural­mente traria libertação do domínio estrangeiro [...]

O reino seria nacional; isto é, o reino esperado tinha relação específi­ca com Israel, sendo prometido apenas para aquela nação [...]

O reino seria moral, porque Israel seria purificado como nação [...]

Obviamente o reino ainda não existia e, logo, era futuro na época da primeira vinda de Cristo. Mesmo toda a glória sob Davi e Salomão não se comparava à do reino esperado. Conseqüentemente, todas as crenças de Israel a respeito desse reino eram do tipo de esperanças irrealizadas. Isra­el olhava para o futuro. (Ryrie, op. cit., p. 89-91)


4. Há evidência da interpretação literal com base nas referências neotestamentárias à aliança feita com Davi. Walvoord fala sobre o Novo Testamento como um todo, quando escreve:

O Novo Testamento comporta ao todo 59 referências a Davi. Também tem muitas referências à atividade presente de Cristo. Uma pesquisa neotestamentária revela que não há nenhuma referência ligando a ativi­dade atual de Cristo com o trono de Davi [...] é quase inacreditável que em tantas referências a Davi e em tantas referências à atividade atual de Cristo no trono do Pai não houvesse referência ligando os dois de manei­ra autorizada.

O Novo Testamento não apresenta nenhum ensinamento positivo de que o trono do Pai no céu deva ser identificado com o trono de Davi. A conclusão clara é que Cristo está sentado no trono do Pai, mas isso de maneira alguma é o mesmo que estar sentado no trono de Davi. (Walvoord, op. cit., 109:110)
Podemos demonstrar que, em todas as pregações a respeito do reino fei­tas por João (Mt 3.2), por Cristo (Mt 4.17), pelos doze (Mt 10.5-7), pelos setenta (Lc 10.1-12), em nenhuma ocasião o reino oferecido a Israel é al­guma coisa além de um reino literal terreno. Mesmo após a rejeição des­sa oferta por Israel e o anúncio do mistério do reino (Mt 13), Cristo prevê tal reino literal terreno (Mt 25.1-13,31-46). (Cf. Ryrie, op. cit., p. 91-102) O Novo Testamento nunca relaciona o reino prometido a Davi à passagem terrena de Cristo.

É interessante observar que o anjo, que não inventou sua mensagem, mas anunciou o que lhe havia sido entregue por Deus, disse a Maria:

Eis que conceberás e darás à luz um filho, a quem chamarás pelo nome de Jesus. Este será grande e será chamado Filho do Altíssimo; Deus, o Se­nhor, lhe dará o trono de Davi, seu pai; ele reinará para sempre sobre a casa de Jacó, e o seu reinado não terá fim (Lc 1.31-33; grifo do autor).
A mensagem angelical centraliza-se em três palavras-chave da aliança original de Davi, o trono, a casa e o reino, todos os quais recebem a promessa de cumprimento.

A aliança davídica assume lugar importante na discussão do pri­meiro concilio da igreja. Walvoord comenta sobre Atos 15.14-17, em que essa aliança é tratada, da seguinte maneira:

O problema dessa passagem gira em torno de duas perguntas: 1) O que se quer dizer com "tabernáculo de Davi"? 2) Quando o "tabernáculo de Davi" será reconstruído? A primeira pergunta é respondida por um exame de sua fonte, Amós 9.11, e seu contexto. Os capítulos anteriores e a primeira parte do capítulo 9 lidam com o julgamento de Deus sobre Israel. Ele é resumido em dois versículos imediatamente anteriores à citação: "Por­que eis que darei ordens e sacudirei a casa de Israel entre todas as nações, assim como se sacode trigo no crivo, sem que caia na terra um só grão. Todos os pecadores do meu povo morrerão à espada, os quais dizem: O mal não nos alcançará, nem nos encontrará" (Am 9.9,10.)

Imediatamente seguinte a essa passagem de julgamento, está a pro­messa de bênção pós-juízo, da qual o versículo citado em Atos 15 é a primeira [...]

O contexto da passagem trata, então, do julgamento de Israel [...] A passagem inteira confirma que o "tabernáculo de Davi" se refere a toda a nação de Israel, e isso em contraposição às nações dos gentios [...]

Qual então é o significado da citação de Tiago? [...]

Ele afirma, com efeito, que o propósito de Deus era abençoar os gen­tios assim como Israel, mas em sua ordem. Deus visitaria os gentios pri­meiro, "a fim de constituir dentre eles um povo para o seu nome". Tiago continua dizendo que isso é somente para acompanhar os profetas, pois eles afirmaram que o período de bênção e triunfo dos judeus seguiria ao período gentio [...] Em vez de identificar o período da conversão gentia com a reconstrução do tabernáculo de Davi, os dois são cuidadosamente distintos um do outro pela palavra primeiro (referente à bênção gentia) e pela expressão depois disso (referente à glória vindoura de Israel.) A pas­sagem, em vez de identificar o propósito de Deus para a igreja e o propó­sito para a nação de Israel, estabeleceu uma ordem específica de tempo. A bênção de Israel não virá até que se cumpra o "Voltarei" [...] Deus primei­ro concluirá Seu trabalho com os gentios no período da dispersão de Isra­el; depois retornará para trazer as bênçãos prometidas a Israel. E desne­cessário dizer que isso confirma a interpretação de que Cristo não está agora no trono de Davi, trazendo bênção para Israel como os profetas previram, mas está no trono do Pai esperando a vinda do reino terreno e intercedendo pelos que formam a igreja. (Walvoord, op. cit., 109:110)
Ryrie, a respeito da mesma passagem, comenta:

[Em relação à] citação de Amós em Atos 15.14-17 [...] Gaebelein faz excelente análise das palavras de Amós mencionando quatro aspectos da linha de raciocínio. Primeiro Deus visita os gentios, escolhendo deles um povo para Seu nome. Em outras palavras, Deus prometeu abençoar os gentios assim como Israel, mas cada um na sua própria ordem. A bênção gentia é a primeira. Em segundo lugar, Cristo voltará. Isso depois de cons­tituir o povo em Seu nome. Em terceiro lugar, em conseqüência da Vinda do Senhor, o tabernáculo de Davi será reconstruído; isto é, o reino será estabelecido como prometido na aliança davídica. Amós declara nitida­mente que essa reconstrução será feita "como fora nos dias da antigüida­de" (9.11); isto é, as bênçãos serão terrenas e nacionais e não estarão relacionadas à igreja. Em quarto lugar, o restante dos homens buscará o Se­nhor, isto é, todos os gentios conhecerão o Senhor depois que o reino for estabelecido. Isaías 2.2,11.10, 40.5 e 66.23 ensinam a mesma verdade. (Ryrie, op. cit., p. 102-3)


Assim, por todo o Novo Testamento, bem como por todo o Antigo, a aliança davídica é tratada em todos os lugares como literal.
C. Os problemas do cumprimento literal. A posição de que a aliança davídica deve ser interpretada literalmente não é isenta de problemas. Daremos atenção a vários desses problemas agora.
1. Há o problema da relação de Cristo com a aliança. Duas respos­tas contraditórias são dadas.

O problema do cumprimento não consiste na questão de Cristo ser Aque­le que cumpre as promessas, mas na questão de como Cristo cumpre a aliança e quando a cumpre. Com relação a essa questão, há duas respostas principais:

1) Cristo cumpre a promessa pela Sua presente posição e ativi­dade à direita do Pai no céu;

2) Cristo cumpre a promessa de Seu retorno e reino justo na terra durante o milênio. (Walvoord, op. cit., 109:110)


Em resposta à primeira dessas interpretações, Peters escreve:

Nenhum raciocínio falacioso que vise espiritualizar, simbolizar ou tipificar pode transmudar a promessa do trono e do reino de Davi em outra coisa, como, por exemplo, o trono do Pai, a soberania divina, o reino da graça, a dispensação do evangelho etc, pela simples razão de que o mesmo trono e reino, agora derrubado, é aquele que é prometido ao Messias para ser restabelecido por Ele mesmo, como, por exemplo, em Amós 9.11, Atos 15.16, Zacarias 2.12;1.16,17 etc.

A coroa teocrática caída, o trono teocrático derrubado, o reino teocrático deposto, são a coroa, o trono e o reino que o Cristo restaurará. Pertencem a Cristo por "direito" (Ez 31.25-27) e serão "dados a Ele". Também estão ligados à restauração da nação judaica, Jeremias 33.14, Miquéias 4.6,8 etc.

Esses fatos —a existência do trono numa época, sua não-existência por um período, sua restauração, sua conexão na restauração com o povo e a terra que formaram o reino original—, assim como muitos outros que serão levantados, indicam, tão completa­mente quanto a linguagem pode expressar, que a fé antiga na linguagem pactuai não pode ser descartada... (Peters, op. cit., i, p. 347)


De acordo com os princípios estabelecidos de interpretação, a aliança davídica exige cumprimento literal. Isso significa que Cristo deve rei­nar no trono de Davi, na terra, sobre o povo de Davi, para sempre.
2. O segundo problema é o da história de Israel desde a época de Davi e de Salomão. Ryrie lida com esse problema quando escreve:

A pergunta que deve ser respondida é esta: o cumprimento parcial histó­rico [.,..] impede um cumprimento literal futuro? As dificuldades princi­pais que a história levanta são três:

1) não houve nenhum desenvolvi­mento contínuo ou autoridade contínua do reino político de Davi,

2) o cativeiro de Israel e o fim do reino parecem contradizer uma interpreta­ção literal de cumprimento futuro e

3) os séculos que se passaram desde o primeiro advento de Cristo parecem indicar que um cumprimento lite­ral não deve ser esperado... a posição pré-milenarista afirma que o cumprimento histórico parcial não alivia de forma alguma o cumprimento futuro pelas quatro razões seguintes. Primeiro, o profetas do Antigo Tes­tamento esperavam cumprimento literal mesmo durante os períodos de grande apostasia de Israel. Em segundo lugar, a aliança exige interpreta­ção literal que também significa cumprimento futuro. Em terceiro lugar, o Novo Testamento ensina que a forma de mistério presente do reino não ab-roga de forma alguma o cumprimento literal futuro. Em quarto lugar, as próprias palavras da aliança ensinam que, apesar de Salomão ter sido desobediente, a aliança permaneceria válida, e a descendência de Salomão não teve promessa de perpetuidade. A única característica necessária é que a linhagem não pode ser perdida, não que o trono seja ocupado con­tinuamente. (Ryrie, op. cit., p. 80)
A interrupção do reino não significou que todo o plano tenha sido dei­xado de lado. Enquanto os direitos do trono estivessem intactos, o reino poderia ser restabelecido. Walvoord diz:

... a linhagem que cumpriria a promessa do trono e do reino eterno sobre Israel foi preservada por Deus mediante uma linhagem que na verdade nem sentou no trono, desde Natã até Cristo. Então não é necessário que a linhagem seja contínua com relação à conduta do reino, mas a linhagem, o direito real e o direito ao trono foram preservados e jamais perdidos, mes­mo no pecado, cativeiro e dispersão. Não é necessário, então, que o go­verno político contínuo seja efetivo, mas é necessário que a linhagem não seja perdida. (John F. Walvoord, The fulfillment of the davidic covenant,Bibliotheca Sacra 102:161, Apr. 1945.)


Já nos referimos a várias passagens do Novo Testamento para mostrar que havia uma expectativa de cumprimento literal. No enten­der dos escritores do Novo Testamento, a interrupção do reino de Davi não contraria a expectativa de uma restauração literal desse reino.
D. Essa aliança foi cumprida ao longo da história? O amilenarista apre­senta o argumento de que ela foi cumprida no império de Salomão. Sua asserção é que a terra sobre a qual Salomão reinou, de acordo com I Reis 4.21, cumpre a aliança de tal modo que nenhum cumprimento futuro deve ser esperado. A isso se pode responder:

No próprio fato de usar esse texto, o amilenarista está admitindo que a aliança foi cumprida literalmente! Por que, então, ele procura cumpri­mento espiritual pela igreja? No entanto, podemos realçar quatro coisas que não foram cumpridas por Salomão. Não houve posse permanente da terra como prometido a Abraão. Nem toda a terra foi possuída. "Desde o rio do Egito" (Gn 15.18) e "até à fronteira do Egito" (1 Rs 4.21) não são termos geograficamente equivalentes. Salomão não ocupou toda essa ter­ra; simplesmente coletou tributos. Superioridade temporária não é posse eterna. Por último, centenas de anos após a época de Salomão, as Escritu­ras ainda estão repletas de promessas a respeito da futura posse da terra. Isso deve provar que Deus e Seus profetas perceberam, quer o amilenarista tenha percebido, quer não, que Salomão não havia cumprido a aliança de Abraão. (Ryrie, op. cit., p. 60-1)


Visto que essa aliança não foi cumprida literalmente na história de Is­rael, deve haver cumprimento futuro literal da aliança em virtude do seu caráter incondicional.

IV. Implicações Escatológicas da Aliança Davídica


Por causa da expectativa de cumprimento literal futuro, certos fa­tos se apresentam com relação ao futuro de Israel.
1) Primeiro: Israel deve ser preservado como nação. Peters escreve:

O trono e o reino prometidos em aliança a Davi, ligados como estão à nação judaica [...] necessariamente requerem [...] a preservação da nação. Isso deve ser feito; e hoje vemos essa nação maravilhosamente preserva­da até o presente, apesar de os inimigos, mesmo as nações mais fortes e os impérios mais poderosos, terem perecido. Isso não ocorre por acaso; pois, se nossa posição estiver correta, isso é algo absolutamente necessário, vis­to que sem a restauração da nação é impossível restaurar o reino de Davi. A linguagem da aliança, o juramento de Deus, a confirmação da promes­sa pelo sangue de Jesus, os pronunciamentos proféticos —tudo, apesar da descrença da nação, requer sua perpetuação, para que por meio dela as promessas e a fidelidade de Deus sejam vindicadas. Deus assim cuida para que Sua Palavra seja cumprida. Se pensarmos no assunto, todo judeu que encontrarmos na rua é evidência viva de que o Messias algum dia ainda reinará gloriosamente no trono de Davi, e dele estenderá um domí­nio global. (Peters, op. cit., I, p. 351)


2) Israel deve ter uma existência nacional e ser trazido de volta à terra de sua herança. Já que o reino de Davi tinha fronteiras geográficas de­finidas e essas fronteiras foram estabelecidas como característica da promessa a Davi a respeito do reinado de seu filho, a terra deve ser dada a essa nação como o local de sua pátria nacional.
3) O Filho de Davi, o Senhor Jesus Cristo, deve voltar à terra, de forma corporal e literal, para reinar sobre o reino prometido de Davi. A alegação de que Cristo está assentado no trono do Pai reinando sobre um reino espiritu­al, a igreja, simplesmente não cumpre as promessas da aliança.
4) Um reino terreno literal deve ser constituído, e sobre ele o Messias que retornou reinará. Peters afirma:

O cumprimento das promessas da aliança implica, em vista do trono e do reino restaurado de Davi, que o reino messiânico é um reino visível e exter­no, não simplesmente espiritual, apesar de conter aspectos espirituais e divinos. Sua visibilidade e correspondente reconhecimento são uma ca­racterística inseparável da linguagem da promessa... (Ibid)


5) Esse reino deve tornar-se reino eterno. Já que "trono", "casa", e "rei­no" são todos prometidos a Davi para toda a eternidade, não haverá fim do reino do Messias sobre o reino de Davi a partir do trono de Davi.
Fica, assim, evidente que a aliança davídica é de importância vital para o entendimento dos acontecimentos futuros.



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