Manual de Escatologia


Capítulo 8 - Uma nova aliança



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Capítulo 8 - Uma nova aliança

A última das quatro grandes alianças determinativas que Deus fez com Israel é a nova aliança.


I. A Importância da Nova Aliança

A nova aliança garante a Israel um coração convertido como fundamento de todas as suas bênçãos. De acordo com o princípio do Antigo Testamento de que tal conversão não pode ser efetivada permanentemente sem derramamento de sangue, essa aliança requer um sacrifício, aceitável a Deus, como fundamento no qual ela é ins­tituída. Visto que o sacrifício do Filho de Deus é o centro do antigo plano de redenção e já que essa aliança inclui tal sacrifício, grande importância deve ser atribuída a ela. A aliança como um todo passa a ser importante, além disso, porque o amilenarismo tenta mostrar que a igreja de hoje está cumprindo as alianças de Israel por ter sido redimida por sangue. Se a igreja cumpre essa aliança, pode cumprir também as outras alianças feitas com Israel, e não há necessidade de um milênio terreno. Por causa dessas considerações, a aliança deve ser examinada.



II. As Disposições da Nova Aliança

A nova aliança prometida a Israel foi declarada em Jeremias 31.31-34, em que lemos:

Eis aí vem dias, diz o Senhor, em que firmarei nova aliança com a casa de Israel e com a casa de Judá. Não conforme a aliança que fiz com seus pais, no dia em que os tomei pela mão, para os tirar da terra do Egito; porquanto eles anularam a minha aliança, não obstante eu os haver desposado, diz o Senhor. Porque esta é a aliança que firmarei com a casa de Israel, depois daqueles dias, diz o Senhor: Na mente, lhes imprimirei as minhas leis, também no coração lhas inscreverei; eu serei o seu Deus, e eles serão o meu povo. Não ensinará jamais cada um ao seu próximo, nem cada um ao seu irmão, dizendo: Conhece ao Senhor, porque todos me conhecerão, desde o menor até ao maior deles, diz o Senhor. Pois perdoarei as suas iniqüidades e dos seus pecados jamais me lembrarei.
Ryrie resume bem as disposições dessa aliança quando diz:

As seguintes disposições para Israel, o povo da nova aliança, a ser cum­pridas no milênio, o período da nova aliança, são encontradas no Antigo Testamento.

1) A nova aliança é uma aliança de graça incondicional baseada nos juramentos de Deus. A freqüência do uso desses juramentos em Jeremias 31.31-34 é impressionante. Cf. Ezequiel 16.60-62.

2) A nova aliança é eterna. Isso está em íntima relação com o fato de ser incondicional e se basear na graça [...] (Is 61.2, cf. Ez 37.26; Jr 31.35-37).

3) A nova aliança também promete uma mente e um coração reno­vados, a que podemos chamar regeneração [...] (Jr 31.33; cf. Is 59.21).

4) A nova aliança proporciona restauração do favor e da bênção de Deus [...] (Os 2.19,20; cf. Is 61.9).

5) O perdão dos pecados também está incluído na aliança: "Pois per­doarei as suas iniqüidades e dos seus pecados jamais me lembrarei" (Jr 31.34b).

6) A habitação do Espírito Santo também está incluída. Vemos isso ao comparar Jeremias 31.33 com Ezequiel 36.27.

7) O ministério de ensino do Espírito Santo será manifesto, e a von­tade de Deus será conhecida por corações obedientes [...] (Jr 31.34).

8) Como ocorre sempre quando Israel está na terra, ele será abenço­ado materialmente de acordo com as disposições da nova aliança [...] Jeremias 32.41; [...] Isaías 61.8 [...] Ezequiel 34.25-27.

9) O santuário será reconstruído em Jerusalém, pois está escrito "po­rei o meu santuário no meio deles, para sempre. O meu tabernáculo esta­rá com eles" (Ez 37.26,27a).

10) As guerras cessarão e a paz reinará de acordo com Oséias 2.18. Essa característica definitiva do milênio (Is 2.4) apóia ainda mais o fato de que a nova aliança é milenar em seu cumprimento.

11) O sangue do Senhor Jesus Cristo é o fundamento de todas as bênçãos da nova aliança, pois "por causa do sangue da tua aliança, tirei os teus cativos da cova em que não havia água" (Zc 9.11).

Para resumir, podemos dizer que, com base nos ensinamentos do Antigo Testamento sobre a nova aliança, a aliança foi feita com o povo judeu. Seu período de cumprimento ainda é futuro, começando quando o Salvador vier e continuando por toda a eternidade. Suas provisões para a nação de Israel são gloriosas, e todas elas se baseiam na Palavra de Deus e dela dependem. (Charles C. Ryrie, The basis of the premillennial faith, p. 112-4)


A confirmação dessa aliança é dada na afirmação de Isaías 61.8,9, em que é declarada eterna, e novamente em Ezequiel 37.21-28. Aí deve­mos observar os seguintes aspectos:
1) Israel será congregado;

2) Israel será uma nação governada por um rei;

3) Israel não será mais idólatra, mas purificado, perdoado;

4) Israel habi­tará "para sempre" na terra após a congregação;

5) a aliança de paz será eterna;

6) o tabernáculo de Deus estará com eles, i.e., Deus estará presente com eles de maneira visível;

7) Israel será conhecido entre os gentios como nação abençoada por Deus. Todas essas promessas estão implícitas na passagem básica de Jeremias e confirmam, enriquecem e ampliam a aliança. (John F. Walvoord, Millenial series, Bibliotheca Sacra, 110:197, July 1953)
Essa aliança, então, está relacionada à regeneração, ao perdão e à justificação de Israel, ao derramamento do Espírito Santo com Seus ministérios subseqüentes, à congregação e reintegração de Israel no lugar de bênção, tudo isso alicerçado no sangue de Jesus Cristo.

III. O Caráter da Nova Aliança


Mais uma vez é observado o princípio de que, como todas as ali­anças de Israel, essa é literal e incondicional.

1) É chamada eterna em Isaías 24.5; 61.8; Jeremias 31.36,40; 32.40; 50.5.

2) Essa aliança é uma aliança misericordiosa que depende totalmente do juramento de Deus para seu cumprimento, Jeremias 31.33. Ela não depende do homem.

3) Essa aliança amplia a terceira grande área da aliança original de Abraão, a área de "bênção". Visto que essa é apenas uma ampliação da aliança abraâmica, que se demonstrou incondicional e literal, esta também o deve ser.

4) Essa aliança ocupa-se em grande parte com a questão da salvação do pecado e da concessão de um novo coração. A salvação é obra exclusiva de Deus. Logo, a aliança que garante a salvação da na­ção de Israel deve ser separada de toda ação humana, sendo assim incondicional.

IV. O Cumprimento da Nova Aliança


Os amilenaristas usam as referências do Novo Testamento para provar que a igreja está cumprindo as promessas do Antigo Testamen­to a Israel. Logo, não há necessidade de um reino milenar futuro, visto que a igreja é o reino. Allis representa essa visão quando comenta Hebreus 8.8-12:

A passagem fala da nova aliança. Ela declara que essa nova aliança já foi introduzida e, pelo fato de ser chamada "nova", passa a ser a que substi­tui a "velha", e que a velha está prestes a desaparecer. Seria difícil encon­trar referência mais clara à era do evangelho no Antigo Testamento do que nesses versículos de Jeremias... (Oswald T. Allis, Prophecy and the church, p. 154)


Em resposta a tais alegações, é necessário observar certos fatos essenci­ais sobre a nova aliança.
A. A nação com quem a aliança é feita. Deve ficar claro pelo estudo das passagens já citadas que essa aliança foi feita com Israel, a descen­dência física de Abraão de acordo com a carne, e somente com Israel. Isso fica claro por três razões:

Primeiro, vemos isso nas palavras de instituição da aliança [...] Jeremias 31.31 [...] Outras passagens que apóiam o fato são: Isaías 59.20,21; 61.8,9; Jeremias 32.37-40; 50.4,5; Ezequiel 16.60-63; 34.25,26; 37.21-28.

Em segundo lugar, o fato de o Antigo Testamento ensinar que a nova aliança é para Israel também é visto pelo seu próprio nome [...] compara­do com a aliança de Moisés [...] a nova aliança é feita com o mesmo povo com que foi firmada a aliança mosaica [...] as Escrituras ensinam clara­mente que a aliança mosaica foi feita com a nação de Israel apenas. Ro­manos 2.14 [...] Romanos 6.14 e Gálatas 3.24,25 [...] 2 Coríntios 3.7-11 [...] Levítico 26.46 [...] Deuteronômio 4.8.

Não há dúvida quanto a quem se refere a lei. Ela é somente para Israel, e já que essa aliança antiga foi feita com Israel, a nova aliança é feita com o mesmo povo, não com outro grupo ou outra nação.

Em terceiro lugar, o Antigo Testamento ensina que a nova aliança é para Israel, e por isso no seu estabelecimento a perpetuidade da na­ção de Israel e sua restauração à terra estão ligados vitalmente a ela (Jr 31.35-40) [...]

Logo concluímos, por essas três razões incontestáveis, as próprias palavras do texto, o próprio nome e a conexão com a perpetuidade da nação, que a nova aliança segundo o ensinamento do Antigo Testamento é para o povo de Israel. (Ryrie, op. cit, p. 108-10)


B. O tempo do cumprimento da nova aliança. Já concordamos em que o tempo da nova aliança era futuro. Ela sempre foi vista como futura nas profecias do Antigo Testamento. Oséias (2.18-20), Isaías (55.3), Ezequiel (16.60,62; 20.37; 34.25,26), todos falavam sobre ela como algo futuro. Ela deve ser vista como ainda futura, pois não pode ser desfru­tada por Israel até que Deus efetive sua salvação e reintegração à terra. Ryrie diz:

A seqüência de acontecimentos estabelecida pelo profeta (Jr 32.37,40,41) é que Israel primeiro será congregado e reintegrado à terra e depois rece­berá as bênçãos da nova aliança na terra. A história não registra essa se­qüência. Deus não pode cumprir a aliança até que Israel esteja congrega­do como nação. Sua restauração completa é exigida pela nova aliança, e isso ainda não aconteceu na história do mundo [...] O cumprimento das profecias exige a congregação de todo o Israel, seu renascimento espiritu­al e o retorno de Cristo. (Ibid., p. 111)


Essa aliança deve seguir o retorno de Cristo no segundo advento. As bênçãos previstas na aliança não se realizarão até a salvação de Israel, e essa salvação segue o retorno do Redentor.
E, assim, todo o Israel será salvo, como está escrito: Virá de Sião o Liberta­dor e ele apartará de Jacó as impiedades. Esta é a minha aliança com eles, quando eu tirar os seus pecados (Rm 11.26,27).
A aliança mencionada aqui deve obrigatoriamente ser a nova aliança, pois é a única que lida expressamente com a remoção dos pecados. E ela operará após a vinda do Redentor.
Essa aliança será desfrutada no milênio. Passagens como Jeremias 31.34, Ezequiel 34.25 e Isaías 11.6-9, que dão descrições das bênçãos a ser recebidas durante o cumprimento da nova aliança, demonstram que a nova aliança será desfrutada por Israel no milênio. (Cf. ibid., p. 110-2)

A conclusão, portanto, seria que essa aliança, futura na época dos profetas, e futura no Novo Testamento, só pode ser realizada após o segundo advento de Cristo no milênio.


C A relação da igreja com a nova aliança. Há cinco referências claras à nova aliança no Novo Testamento: Lucas 22.20, 1 Coríntios 11.25, 2 Coríntios 3.6, Hebreus 8.8 e 9.15. Além dessas há seis outras referências a ela: Mateus 26.28, Marcos 14.24, Romanos 11.27, Hebreus 8.10-13 e 12.24. Surge a questão do relacionamento dos crentes deste século com a nova aliança de Jeremias 31.31-34. Essa questão é importante, pois, como vimos anteriormente, a alegação do amilenarista é que a igreja está cumprindo agora essas profecias do Antigo Testamento e portanto não há necessidade de um milênio terreno.
1. Há três teorias pré-milenaristas quanto à relação da igreja com a nova aliança feita com Israel.

a. A primeira é a de Darby. Ele apresentou a teoria de que há uma e somente uma nova aliança nas Escrituras, feita com as casas de Israel e de Judá, a ser realizada num tempo futuro, com a qual a igreja não tem nenhuma relação. Ele escreve:

Essa aliança da letra é feita com Israel, não conosco; mas nos beneficia­mos dela [...] porque Israel não aceitou a bênção, Deus trouxe a igreja, e o mediador da aliança subiu aos céus. Estamos associados ao Mediador. Ela será cumprida com Israel no futuro. (William Kelly, org., The collected writings of J. N. Darby, XXVII, p. 565-6)

E ainda:

O evangelho não é uma aliança, mas a revelação da salvação de Deus. Ele proclama a grande salvação. Na verdade gozamos de todos os privilégios essenciais da nova aliança, cuja base, da parte de Deus, é firmada no san­gue de Cristo, mas o fazemos em espírito, e não segundo a letra.

A nova aliança será estabelecida formalmente com Israel no milênio. (J. N. Darby, Synopsis o/the books of the Bible, v, p. 286)

Além disso:

... a base da nova [aliança] foi firmada no sangue do mediador. Não é para nós que os termos da aliança, extraídos de Jeremias pelo apóstolo, foram cumpridos; tampouco somos Israel e Judá; afirma-se, isto sim, que à medida que a aliança está instituída, não sobre a obediência de um povo vivo, ao qual a bênção viria, e sobre o sangue de uma vítima derramado por um mediador vivo, mas sobre a obediência até a morte do próprio Mediador, nele (como sua base de graça segura e inalterável) a aliança está alicerçada. (Kelly, op. cit., III, p. 79)
E por fim:

Nós, então, estamos associados aos benefícios circunstanciais da [nova] aliança, não às bênçãos formais que, de certa forma, substituíram as con­dições da antiga [aliança], embora algumas delas possam, de certa ma­neira, ser cumpridas em nós. (Ibid., p. 82)


Parece-nos então que a opinião de Darby é que, em todas as suas cita­ções do Novo Testamento, a nova aliança deve ser igualada à aliança de Jeremias 31. No Novo Testamento, não há referência à igreja nessa época, apesar de a bênção da aliança alcançar outros além de Israel agora, já que o sangue foi "derramado por muitos". No entanto, ela será cumprida literalmente no milênio.

Há certas proposições na teoria apresentada por Darby com as quais há acordo completo.

1) A nova aliança de Jeremias 31 tornava necessá­ria a obra do Mediador, e a morte de Cristo é o que possibilita a nova aliança.

2) A nova aliança foi feita originariamente com as casas de Is­rael e de Judá e será cumprida com elas literalmente no milênio. A ali­ança só pode ser cumprida literalmente por aqueles com quem ela foi firmada; já que a igreja não é Israel, não pode cumprir essa aliança.

3) Todas as bênçãos que a igreja recebe hoje estão firmadas no sangue de Cristo, que foi necessariamente derramado para possibilitar a nova ali­ança.
b. A segunda teoria é a de Scofield. Esta, mais geralmente aceita que a de Darby, diz: "A nova aliança [...] garante a perpetuidade, futura conversão e bênção de Israel... " (C. I. Scofield, org., The Scofield reference Bible, p. 1297) e "... garante a bênção eterna [...] de todos os que crêem". (Ibid., p. 1298) Logo, de acordo com essa teoria, há uma nova aliança com dupla aplicação: uma para Israel no futuro e uma para a igreja agora. Lincoln diz:
O sangue da nova aliança derramado na cruz do Calvário é a base de todas as bênçãos do crente hoje. O crente, então, participa do valor da nova aliança para o pecador e, assim, participa da ceia do Senhor em memória do sangue da nova aliança (1 Co 11.25), sendo ministro da nova aliança (2 Co 3.6). Também se diz que o crente é filho de Abraão porque é da fé (Gl 3.7) e de Cristo (Gl 3.29). Diz-se ainda que participa da raiz e da gordura da oliveira, que é Abraão e Israel (Rm 11.17). Além disso, embo­ra, como gentio descrente, seja "separado" e "estranho" (Ef 2.12), não é mais assim (Ef 2.19), porque foi aproximado pelo sangue de Cristo (Ef 2.13). Beneficia-se da nova aliança como concidadão dos santos e da casa de Deus (Ef 2.19), e não como membro da comunidade de Israel (Ef 2.12). (C. Fred Lincoln, The covenants, p. 202-3)
Grant diz:

... devemos lembrar que Deus está falando aqui explicitamente de Seu povo terreno, e não de um povo celestial [...] o povo com quem essa alian­ça se firmará, naquele dia, um povo completamente de acordo com a Sua vontade.

Pode-se perguntar como, de acordo com isso, a nova aliança se apli­ca a todos nós. Outras passagens respondem a isso claramente assegurando-nos de que, mesmo que a aliança não tenha sido feita conosco, ain­da pode, com todas as bênçãos de que fala, ser ministrada a nós. (E W. Grant, The numerical Bible, VII, p. 48)
Essa teoria insere a igreja na nova aliança e vê essa relação como cum­primento parcial da aliança.

Podemos concordar com Scofield em que o sangue de Cristo é a base da nova aliança com Israel e de qualquer relação de aliança que a igreja possa sustentar com Cristo, pois não era necessário para Cristo morrer uma vez por Israel e depois novamente pela igreja. A igreja, no entanto, não pode ser inserida na aliança de Israel. Scofield concorda com Darby completamente no sentido de que a aliança era principal­mente para Israel e será cumprida por essa nação. Qualquer aplicação à igreja, como a teoria de Scofield afirma, não anula a aplicação a Israel em primeiro lugar.


c. A terceira teoria é a teoria das duas alianças.(Lewis Sperry Chafer, Systematic theology, IV, p. 325; Walvoord, op. cit., 120:193-205; Ryrie, op. cit., p. 105-25) Essa teoria afirma que há duas novas alianças apresentadas no Novo Testamento: a pri­meira com Israel, reafirmando a aliança feita em Jeremias 31, e a segun­da com a igreja no presente. Essencialmente essa teoria dividiria as re­ferências à nova aliança no Novo Testamento em dois grupos. As dos evangelhos e de Hebreus 8.6, 9.15,10.29 e 13.20 dizem respeito à nova aliança com a igreja; Hebreus 8.7-13 e 10.16 referem-se à nova aliança com Israel e Hebreus 12.24 refere-se, talvez, a ambas, realçando o fato da mediação alcançada e o plano da aliança estabelecido sem designar os receptores. Essa teoria aceitaria o conceito de Darby de que a nova aliança de Israel deve ser cumprida apenas por Israel. Além disso, ve­ria a igreja inserida na relação com Deus por uma nova aliança estabelecida.

Não pertence à nossa esfera de observação tentar solucionar a di­vergência de opiniões entre pré-milenaristas sobre a relação da igreja com a nova aliança. Sem considerar o relacionamento entre a igreja e a nova aliança como apresentado nessas três teorias, há um ponto de acordo: a nova aliança de Jeremias 31.31-34 deve e pode ser cumprida somente pela nação de Israel, e não pela igreja. Já que essa foi uma aliança literal com a descendência física de Abraão, qualquer relacio­namento da igreja com o sangue por ela exigido não pode mudar as promessas básicas de Deus na própria aliança. Não obstante qualquer relacionamento da igreja com seu sangue, a aliança ainda não foi cum­prida e aguarda cumprimento literal futuro.


2. Pode surgir a questão da razão da referência feita a Jeremias 31 em Hebreus 8 se a igreja não está cumprindo aquela aliança. Apesar da alegação de Allis de que Hebreus 8 "declara que essa nova aliança já foi introduzida" (Allis, op. cit., p. 154) nenhuma afirmação ou insinuação é feita na passagem. Pelo contrário, a citação de Jeremias é usada para mostrar que a antiga aliança em si foi reconhecida como inválida e temporária e seria defini­tivamente substituída por uma aliança válida, para que os hebreus não se surpreendessem de que uma aliança nova e melhor fosse pregada, nem depositassem mais sua confiança naquilo que fora eliminado. Walvoord diz:

O argumento de Hebreus 8 revela a verdade de que Cristo é o Mediador de uma aliança melhor que a de Moisés, estabelecida sobre promessas melhores (Hb 8.6). O argumento baseia-se no fato de que a aliança de Moisés não era perfeita —jamais teve intenção de ser eterna (Hb 8.7). Para confirmar esse argumento, a nova aliança de Jeremias é amplamente citada, provando que o próprio Antigo Testamento previu o fim da lei mosaica, já que uma nova aliança foi prevista para substituí-la.



O autor de Hebreus separa de toda a citação uma única palavra, nova, e sustenta que isso tornaria automaticamente velha a aliança de Moisés (Hb 8.12). Afirma-se também que a antiga aliança está "envelhecida" e "prestes a desaparecer". Devemos notar que em nenhum lugar dessa passagem diz-se que a nova aliança com Israel está efetivada. O único argumen­to é o que sempre foi verdadeiro —a previsão de uma nova aliança automaticamente declara que a aliança de Moisés é temporária e não-eterna. (Walvoord, op. cit., 110:201)
Assim, em Hebreus 8 a promessa de Jeremias é citada apenas para pro­var que a aliança antiga, isto é, a de Moisés, era temporária desde o começo, e Israel jamais poderia confiar no que era temporário, mas de­veria olhar para o futuro e para o que era eterno. Aqui, como em Hebreus 10.16, a passagem de Jeremias é citada não para afirmar que o que é prometido agora está em pleno vigor, mas sim para dizer que a antiga aliança era temporária e inválida e previa uma nova aliança que estaria permanentemente em vigor. Afirmar que a nova aliança de Israel agora opera na igreja é uma má interpretação do pensamento do autor de Hebreus.
3. Em seus antecedentes históricos, os discípulos que ouviram o Senhor falar sobre a nova aliança no Cenáculo, na noite anterior à Sua morte, certamente teriam entendido que Ele se referia à nova aliança de Jeremias 31. Várias coisas devem ser observadas a respeito daque­la ocasião. Em Mateus 26.28 e em Marcos 14.24, a afirmação está re­gistrada: "isto é o meu sangue, o sangue da nova aliança... " [grifo do autor]. Nessa afirmação, devem-se sublinhar os aspectos soteriológicos daquela aliança. O sangue que estava sendo oferecido era o exigido pela nova aliança prometida e tinha o propósito de remir os pecados. Em Lucas 22.20 e 1 Coríntios 11.25, a afirmação está registrada: "Este cálice é a nova aliança no meu sangue... " [grifo do autor]. Essa afirma­ção realçaria os aspectos escatológicos da nova aliança, declarando que ela é instituída com Sua morte. Isso estaria de acordo com o prin­cípio de Hebreus 9.16,17:
Porque, onde há testamento, é necessário que intervenha a morte do testador; pois um testamento só é confirmado no caso de mortos; visto que de maneira nenhuma tem força de lei enquanto vive o testador.
Já que os discípulos certamente teriam entendido qualquer referência à nova aliança naquela ocasião como referência à aliança com Israel pre­vista em Jeremias, parece que o Senhor estava afirmando que a mesma aliança era instituída pela Sua morte, e eles eram ministros do sangue (os aspectos soteriológicos) da aliança (2 Co 3.6); mas aqueles com quem ela foi a princípio estabelecida não receberão seu cumprimento nem suas bênçãos até que ela seja confirmada e aplicada no segundo adven­to de Cristo, quando "todo o Israel será salvo [...] [pois] Esta é a minha aliança com eles, quando eu tirar os seus pecados" (Rm 11.26,27). Cer­tamente há uma diferença entre a instituição da aliança e a aplicação dos seus benefícios. Com Sua morte, Cristo assentou os alicerces da aliança de Israel, mas seus benefícios não serão recebidos por Israel até o segundo advento (Rm 11.26,27).
4. Há várias considerações que apóiam a teoria de que a igreja não está cumprindo a nova aliança de Israel agora.

1) O termo Israel não é usado nenhuma vez nas Escrituras para nenhum outro grupo que não os descendentes físicos de Abraão. Já que a igreja hoje é composta por judeus e por gentios sem distinções nacionais, seria impossível que essa igreja cumprisse as promessas feitas à nação israelita.

2) Na nova alian­ça, conforme as disposições a que já aludimos, havia promessas de bên­çãos espirituais e de bênção terrena. Embora a igreja, assim como Isra­el, desfrute da promessa de salvação, de perdão de pecados, do minis­tério do Espírito Santo, ela jamais recebe a promessa de herdar uma terra, bênçãos materiais na terra e descanso da opressão, partes funda­mentais da promessa a Israel. A nova aliança não só prometeu salvação a Israel, mas uma nova vida na terra do milênio, quando todas as suas alianças são concretizadas. A igreja certamente não está cumprindo as porções materiais dessa aliança.

3) Já que a igreja recebe bênçãos da aliança abraâmica (Gl 3.14; 4.22-31) exclusivamente pela fé, pode então receber bênçãos da nova aliança sem estar sob a nova aliança ou sem cumpri-la.

4) O elemento de tempo contido na aliança, tanto em sua declaração original quanto em sua reafirmação no livro de Hebreus, impede que a igreja seja o agente por intermédio do qual ela é cumpri­da. A aliança não pode ser cumprida e realizada antes do período da tribulação de Israel e de seu livramento pelo advento do Messias. Em­bora a igreja tenha enfrentado períodos de perseguição e de tribulação, jamais passou pela grande tribulação da profecia. Certamente a igreja não está agora no milênio. Romanos 11.26,27 mostra claramente que essa aliança só pode ser realizada após o segundo advento do Messias. Já que a tribulação, o segundo advento e o milênio ainda são futuros, o cumprimento da promessa ainda deve ser futuro, portanto a igreja não pode estar cumprindo a aliança.

V. Implicações Escatológicas da Nova Aliança


Uma consulta às disposições dessa aliança, citadas anteriormente, que jamais foram cumpridas com a nação de Israel, mas ainda o serão, demonstrará quão extenso é o plano escatológico que espera cumpri­mento. De acordo com essa aliança, Israel deve ser reintegrado à terra da Palestina, que possuirá como sua propriedade. Isso também implica a preservação da nação. Israel deve viver uma conversão nacional, ser regenerado, receber o perdão dos pecados e a implantação de um novo coração. Isso acontece logo após o retorno do Messias à terra. Israel deve viver o derramamento do Santo Espírito para que Ele possa pro­duzir justiça no indivíduo e ensiná-lo em plenitude de sabedoria. Israel deve receber bênçãos materiais da mão do Rei em cujo reino entrou. A Palestina deve ser reconquistada, reconstruída e instituída como o glo­rioso centro de uma nova terra gloriosa, na qual habitam justiça e paz. O Messias que veio e derramou Seu sangue como fundamento dessa aliança voltará pessoalmente à terra para efetuar a salvação, reintegra­ção e bênção de Israel como nação. Todas essas áreas importantes do estudo escatológico são necessidades impostas por tal aliança.



Conclusão



Quatro das cinco alianças com a nação de Israel foram estudadas para mostrar que são incondicionais e eternas, feitas com um povo da aliança, a ser cumpridas por causa da fidelidade daquele que as insti­tuiu. Essas alianças relacionavam-se com a nação na época de sua fun­dação e serviram de base para Deus tratar com Israel; além disso, com­prometem Deus com um plano de ação relacionado a acontecimentos futuros, que determina o curso da escatologia. Quando analisamos as alianças, encontramos as sete principais características determinativas:

1) uma nação para sempre,

2) uma terra para sempre,

3) um Rei para sempre,

4) um trono para sempre,

5) um reino para sempre,

6) uma nova aliança e

7) bênçãos permanentes. (Chafer, op. cit., IV, p. 315.)

Essas sete características se­rão desenvolvidas no decorrer deste estudo.




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