Manual prático



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Quem Inventou O Trabalho Não Tinha O Que Fazer

(ataque trinta e cinco)
Meu trampo tá foda pra caralho. Fim de ano, prazos vencendo, planilhas de produtividade, chefes querendo fazer média com seus superiores, enfim, sou um soldado lutando em uma guerra que não é minha. Só que minha indignação com o trabalho vai além do fato de que agora venho me ferrando. Simplesmente não concordo com o culto ao trabalho. A dicotomia entre trabalhar para viver ou viver para trabalhar não existe. Não existe vida, apenas sobrevivência. Ainda mais que o capitalismo agonizante acaba sistematicamente com os postos de trabalho e os poucos ''felizardos'' tem que trabalhar dobrado pra manter as taxas de lucro e a competitividade. Se não estamos vivendo a era mais paradoxal da civilização humana é porque não entendi porra nenhuma do que está escrito nos livros de história.

Nas últimas semanas até bem mais tarde todos os dias, sábados e domingos incluídos. Numa das vezes que cheguei tarde ao porão encontrei Fábio acordado com uma charuto aceso.

- Ari, tive uma idéia pra você extravasar essa tua indignação com o trabalho.

- Fala, Monstro.

- Mais uma encenação do nosso teatro secreto.

- Prossiga Gerald Thomas do Boqueirão.

- A gente encena a parada em algum bi-articulado de manhã cedo, quando o povo tá indo trampar. Cada um nós se veste como um jovem e bem sucedido executivo. Bem arrumado, cabelo molhado e... bêbado.

- Bêbado?

- Sim, as pessoas são acostumadas a ver bêbados desarrumados ou maltrapilhos, já pessoas bem vestidas causam um certo impacto, foge da normalidade.

- Tá, mas o que esses bebuns farão?

- Como todo alcoolizado inconveniente, ficará discursando alto e falando mal do trabalho.

- Esculhambando o trabalho?

- Só! Minha idéia era encenarmos o manifesto contra o trabalho subliminarmente. Semear memes, saca?

Uma boa idéia, escravizado como ando ultimamente, topei no ato. O problema é que faltava um gran finale e a idéia ficou pendente aguardando um complemento. Foi ai que o chatzinho do Blog dos Delinqüentes revelou-se uma grande ferramenta subversiva.

Coloquei o problema para a galerinha que faz SBI (Subversão de Baixa Intensidade), tecla em horário de expediente ou aula, e a solução acabou aparecendo. Um doido anônimo que assina com reticências(...) sugeriu que um padre, segurando uma garrafa de vinho, desse uma palestra eloqüente sobre a origem do “dever de trabalhar” contando como era a vida na época em que o ócio era uma virtude.

Perfeito! Genial! Só faltava alguém pra fazer o papel de padre. Nenhum de nós tem o biotipo pra fazer isso de uma maneira decente. Foi Vinícius quem lembrou do Tiba, que tinha participado do ataque dos transmissores quando o filho da puta do Roberto Marinho morreu.

- Ele é careca, gordo e usa óculos, além de ser um completo palhaço, é o cara certo pra essa missão.

Fábio entrou em contato com ele e o viado deu uma de estrela, pediu uns dias pra pensar. Somente na sexta-feira da semana passada que me ligou confirmando. Faltava então só bolar o roteiro. Reli o Manifesto Contra o Trabalho do grupo Krisis e me encarreguei dessa parte. Era só marcar a data.

Só que a data foi marcada altamente nas colchas. Foi depois desse ultimo ataque, em plena madrugada de Domingo pra Segunda, limpando a fedida privada da vigésima e não-sei-que-mais Delegacia de Policia, que encasquetei que teria que ser naquela manhã.

Procurem me entender: eu tinha trampado o fim de semana inteiro e na noite, ao invés de estar dormindo e descansando pra encarar a segunda feira, limpando merda de batedor de carteira. Puta que o pariu! Alguma coisa tinha que ser feita. Foi só nos vermos livres das correntes da lei que já bati a real pros piás.

- Tem que ser hoje?

- Mas hoje Ari? Agente não programou nada, não falou nem combinou com o Tiba nem nada...

- É, ainda tem as roupas e tal, não temos roupas de jovens executivos nem nada, hoje vai ser foda.

- Foda- se o universo inteiro, tem que ser hoje, não vou encarar aquele trampo de merda sem estar com a moral alta.

- Vamos fazer o que então?

- Acordar o Tiba e convencer ele, você faz isso Vini. E você Jean, liga no celular do Tarsis e convence ele a descolar umas calças, uns ternos e uns sapatos do velho dele.

- Mas cara, São cinco e meia da manhã!

- Que se foda, eu já falei, tem que ser hoje nem que dê mais merda do que já deu.

E assim foi feito. Sergio quis ficar de fora, só observando o teatro no ônibus.Fiquei de cara com a capacidade de articulação da pizada. Em tempo recorde estávamos no porão do Boqueirão nos embecando. Sabe que até fiquei bem de jovem executivo? Gel no cabelo e tal, falta só a tendência a submissão pra Ter sucesso nessa área, pelo menos eu acho.

Só que o Tiba ficou ainda mais redondinho no papel de padre, usando nossa antiga batina de abençoar bancos. Ainda mais que o cara é um palhaço que sabe entonar direitinho o jeito de falar de um pároco. Nos cagávamos de rir só no test-drive que fizemos no porão, seria foda controlarmos as risadas dentro do ônibus.

Tarsis deu um ferro no seu carango, e escolhemos o Santa Cândida-Capão Raso como palco de nosso espetáculo. Como eu era o mais podre da turma implorei pra ser o primeiro. Embarquei logo no terminal. Tínhamos parado antes num posto de gasolina pra comprarmos aquelas garrafinhas de bolso estilosase um litro de vinho pro Padre Tibúrçio.

Resolvemos beber mesmo pra coisa ficar mais realista, bafo de pinga e aquela coisa toda. No aglomero de embarque já fui apavorando. Tarsis ficou fazendo a logística, quando eu desembarcasse entraria logo no carro, trocaria de roupa e subiria no outro ponto pra curtir a cena. Fui bem dramático no que me tocava. Foi entrar no latão que já começei.

- Vocês sabem o que está acontecendo? Hein?! Vocês sabem?

As pessoas me olhavam com cara de tédio.

- De cada dez pessoas somente duas conseguem um trabalho decente! Hein?! Vocês sabem disso?

Silêncio geral nas proximidades e gestos de reprovação.

- E esses dois sorteados tem que trabalhar pelos outros oito pra manter a empresa em condição de ser competitiva. Competitiva o caralho! Competição pra mim é o Campeonato Brasileiro, é a Fórmula Um ou o Pré-Olímpico.

Alguns deram umas risadinhas sem graças e dois piazões riram de verdade, acharam a parada engraçada.

- E quer saber mais? Tomei no cú feito galinha. É! Vocês dois ai tão rindo mas é verdade. Trabalhei Sábado, Domingo, feriado, todo dia até as dez e sabe o que eu ganhei?

- O quê cara? Ficou rico? – Os dois piás tiravam onda.

- Não! Não fiquei rico! Quem nesse país fica rico trabalhando? Sabe o que eu ganhei? Quer mesmo saber o que eu ganhei? Um par de chifres e um ponta pé na bunda da esposa.

Aí as risadas foram meio que generalizadas, umas disfarçadas outras nem tanto. Falei isso e dei o sinal pra descer. No mesmo ponto que desci subiu o Fábio pra fazer a sua parte. No caso dele pegou uma úlcera nervosa por causa da obsessiva dedicação ao trabalho e depois de algumas faltas por causa da doença ganhou como prêmio: a conta.

Não consegui chegar a tempo pra ver a performance dele. Sérgio, que me contou. A do Jean e do Vini consegui assistir.

Os caras foram fodas. Jean se dizia convertido pelo “o mais importante é o amor do Jesus Cristo” e simplesmente não suportava saber que cada mil reais que caía na sua conta como saláriode administrador de empresas era as custas de dezenas de seres humanos que passavam fome. Não conseguia suportar aquilo e que a cachaça era o único consolo, nem Deus era capaz de convencê-lo de que aquilo era justo. Vinícius dizia trabalhar no mercado de ações e esbravejava de bêbado que aquilo tudo era uma grande falcatrua. Que milhões de pessoas tomam no cú de uma hora para outra devido à paranóia de meia dúzia de investidores.

- Nossa vida não vale nada, entenderam? Nossa vida não vale nada!

Mesmo no improviso o cara foi perfeito, altamente convincente. Então chegou o tão aguardado momento do Padre Tibúrcio entrar em cena. E ele já chegou encarando todo mundo, eu me partia de dar risidas no fundo do latão. Se achegou perto de uma velhinha que estava de pé e deu um senhor talagaço no vinho que carregava. A velhinha arregalou os olhos.

- Porquê está olhando? Acha que é fácil ser padre nesse mundo hipócrita.

- Não falei nada padre.

- Nem deve! Nem deve falar nada mesmo!

O silêncio no bi articulado foi sepulcral depois que ele pronunciou esta frase.

- Deus sabe o que eu passo! Deus sabe o que eu passo! - Seu olhar era de um alucinado, chapado do sangue de Cristo.

- Eu sei o que fizeram com Cristo. Usaram sua mensagem como uma ferramenta para meter medo. Pra enfraquecer o ser humano.

Tava engraçado, mas eu pessoalmente nessa hora pensei que a coisa ia desandar pra uns lados filosóficos. Só que o Frei Tiba reagiu.

- Agora dizem que Deus morreu, agora o trabalho é um Deus. Trabalhar, trabalhar, trabalhar. As coisas já foram diferentes.

Emendou um sermão improvisado a respeito de como era a vida antiganmente e evoluiu rapidamente, ficando cada vez mais vermelho de nervoso (não sei como diabos ele consegue aquilo) até chegar na merda de vida de nossos dias, até que gritou:

- Cheeeeegaaa!!!!!!

Mas gritou alto mesmo, todo mundo olhou. Aproveitando o Momento de Centro das Atenções e um terminal tubo que se aproximava, tirou a batina. Ficou só de cuecão e camisa regata branca e furada. Ridículo. Cômico. Teve gente que riu, teve gente que baixou a cabeça e teve gente que xingou. O Bi-Articulado parou e passamos pela catraca do tudo nos rachando de dar risada.

Só que o cúmulo da coincidência aconteceu, junto com a gente desceu um cara que tinha acompanhado toda a parada e foi “convertido” pelo padre, justamente tinha acontecido com ele aquilo que falei: perdeu a esposa e um mês depois o emprego. Abraçou o padre chorando de emoção.

- Tá na cara que vocês fizeram teatro, mas aliviou meu sofrimento. Posso pagar mais umas bebidas pra vocês?

Eu estava podre de cansaço, tinha que estar no meu trampo dentro de quinze minutos, só que sequencia de eventos foi fulminante sobre mim. Mandei o Universo inteiro se foder e fui com o cidadão e os piás beber e comemorar. Jean que tem trampo fixo como eu, topou também.

Plena segunda-feira e eu chego no trabalho meio-dia e bêbado. E feliz.

É pra botar pra fuder mesmo!!!!

Presepada no Presépio

(ataque trinta e seis)
No natal a hipocrisia capitalista manifesta-se em todo o seu esplendor. A televisão é abarrotada por belíssimos comerciais pregando o amor e a solidariedade, gastando- se alguns é possível redimis a consciência do peso acumulado de um ano inteiro de vistas grossas à injustiça social.

Jesus Cristo provavelmente é o sujeito cujas idéias foram mais indevidamente apropriadas em toda a história da raça humana. Não basta-se o cristianismo, que durante dois mil anos alimentou uma cultura de culpa, fraqueza e submissão, ainda “marcaram” seu nascimento na data de uma festa pagão que nos dias de hoje celebra-se o consumismo mais do que qualquer outra coisa.

Desde o inicio de novembro que demos inicio aos debates pra decidirmos o que aprontar neste natal. A idéia de distribuirmos presentes aos excluídos dos shopping centers foi aprovada, mas nada, nunca, é definitivo. Eis que aos quarenta e pouco do segundo tempo surge uma idéia massa, vindo da mente insana de Antônio Silvino, um dos cangaceiros de São Paulo:

Seqüestrar o menino Jesus de algum presépio.

Apresentei a idéia pros piás e a aprovação foi imediata. Embora estando com o grupo reduzido, Vinícius & Sérgio já picaram a mula em suas viagens de fim de ano, resolvemos levar adiante a bagaça.

- Ari, o ideal seria os presépios de shoppings, a visibilidade é maior – Fábio queria mesmo era apavorar.

- A visibilidade e os riscos, esqueceu que lá tem segurança pra tudo quanto é lado e filmadoras registrando tudo?

- Realmente... tens razão.

Então contei a eles a técnica descoberta pelo anark3a pra burlar as câmeras de segurança. É um troço bem simples até. Tudo o que se precisa é uma daquelas canetas com um laser vermelho que projeta um pontinho luminoso a vários metros de distância. Aponta-se o laser para a lente e tudo o que aparecerá no monitor na outra ponta é um borrão vermelho.

- Genial! Massa saber disso.

- É, mas mesmo assim acho arriscado agente fazer isso num Shopping, não conseguiremos escapar dos seguranças.

Jean tinha razão. Depois da experiência frustrada com a policia nossa cabreiriçe ganhou novos tons. Depois de muita discussão optamos pela Velha & Boa periferia: os shoppings populares dos bairros.

- Caralho! É isso mesmo Ari! É muito mais limpeza!

- E acho que nesse caso é o momento ideal pra gente usar aquela técnica de provocar blecaute.

- Blecaute?

- Claro! A gente descobre a linha que fornece energia para o shopping e provoca o apagão.

- Sabe que não é uma má idéia?

- Na hora que escureçer vamos lá, pegamos o pirralhinho e deixamos sossegados nossas mensagens de indignação.

Com o plano mais ou menos arredondado tratamos de verificar os aspectos práticos da operação. Reduzidos a apenas três Delinquentes, pois Vini & Sergio já picaram a mula em suas viagens de fim de ano, seria muito foda provocarmos o blecaute e ainda capturar o menino Jesus. Não teve jeito, tivemos que ligar para o Marmita.

- E aí véio, você topa?

- Provocar um blecaute? Que pergunta mais besta, é óbvio que eu topo, sempre imaginei fazer uma coisa dessa e com uma “causa” ainda, ih, nem se fala!

Foi ele quem desenrolou os materiais necessários para a sabotagem. A técnica, paesar dos imensos riscos à vida de quem a executa da maneira errada, é até bem simples. Se você jogar uma barra de ferro ou qualquer outro tipo de metal nos fios de baixa-tensão, aqueles quatro que ficam mais abaixo nos postes, fará com que abrir o fusível no transformador mais próximo. Dá certo, é o jeito mais fácil, mas se a parada tiver religamento automático você quebrará a cara, só vai dar uma piscada e a luz voltará em seguida. Regiões mais centralizadas ou de bairros burgueses geralmente tem essas paradas de religamento automático.

O certo mesmo é jogar uma barra de ferro nos fios de alta tensão, aí sim irá desarmar o disjuntor lá na subestação da concessionária de energia e se o ferro ficar lá em cima, que é o correto, os caras só vão poder normalizar o fornecimento de energia depois de retirarem o ferro. Escolhemos essa segunda opção, pois necessitaríamos de tempo hábil.

Marmita, que faz bicos como eletricista e até já fez um estágio na Copel, abraçou a causa apaixonadamente.

- Carinhas! Desencanem dessa idéia de que precisamos usar barras de ferro muito pesadas. É massa, na hora que fechar o curto circuito na alta-tensão ela não derreterá, mas é muito foda jogar ela e acertar na primeira.

- Tá, seu monstro, e o que você sugere?

- Várias varetas.

- Como assim?

- Você sobe numa árvore próxima aos fios e mais alta que a linha. A primeira vareta que você jogar vais dar um puta xabú e desarmar o disjuntor da subestação. Geralmente leva uns cinco segundos pra religar. Nesses cinco segundos você joga mais umas duas. Te garanto que com umas dez varetas de aço garantimos que o religador da subestação vá a bloqueio e os caras terão que correr a linha pra descobrir onde é o curto-circuito. No mínimo meia hora sem luz, garantido.

- Ó a do cara, altos papos técnicos, de onde você manja isso tudo?

- Falei que sempre quis fazer isso e quanto fiz estágio na Copel dei um jeito de descobrir todas essas manhas. Mas essa parada toda ainda tem um galho.

- Que galho?

- Esse ataque não dá pra ser feito em quatro pessoas. Tem que ter mais gente pra coisa sair redondinha, se formos pegos pode sujar e se eu passar o Natal em cana minha mãe acho que morre de desgosto.

Marmita conseguiu então mais dois caras, amigos dele de confiança. Eles cuidariam do blecaute enquanto eu e os piás nos encarregaríamos do presépio. Já que trabalharíamos no escuro, preparamos umas cartolinas com frases e uma caralhada de panfletos anti-consumismo e anti-cristianismo. Pena que Sergio viajou, tenho certeza que ele faria altas piras. Marmita e os outros foram a mapear a rede de distribuição de energia próximo ao Shopping Popular do Capão Raso.

Saí do trabalho no sábado à tarde ansioso pra caralho, por mais que confie no Marmita e tal, seria a primeira vez que faríamos um ataque em que nem todas as coisas dependeria só de nós. Sete da noite pegamos todos o buzum carregando as varetas enroladas. Descemos próximo ao shopping e fomos junto com os guris checar a tal árvore de onde seriam lançados nossos mísseis inteligentes.

- É, realmente, vocês estão de parabéns, acharam uma árvore na moral mesmo.

Nos despedimos e fomos pro alvo com nossas mochilas abarrotadas de material subversivo. A merda é que no horário de verão a noite custa a chegar e tivemos que torrar nossos dinheiros bebendo cerveja. E os caras demoraram pra cacete. Eu particularmente já estava quase bêbado quando reparei que começou a cair uma chivinha fina.

- Cara, se eu conheço bem aquele baixinho invocado ele vai aproveitar o momento pra dar início às atividades.

Não deu nega, mal pagamos nossas contas e escureceu tudo. Entre os gritos de folia e susto da multidão estavam nossos gritos de euforia. Estávamos entrando no presépio e começando a desenrolar as cartolinas quando o inesperado fez um gol contra. A luz voltou. Caralho, quaaaase fomos pegos em flagrante. Um senhora que estava ao lado do presépio nos olhou desconfiada.

- O que vocês iriam fazer?

- Pegar uma vela, tem uma senhora na loja de calçados que está passando mal por causa do escuro.

- Da próxima vez peçam que eu dou.

Devo confessar que ficamos todos desnorteados. Ou o apagão foi uma puta coincidência ou os caras fracassaram. Além do mais nem tínhamos visto as velas, as coisas não seriam tão simples quanto imaginávamos. De repente começamos a ficar pessimistas.

- É mano, acho que não vai ser dessa vez.

- Vamos lá encontrar os piás?

- Não, vamos esperar aqui pra ver o que acontece.

A cada minuto que passava ficávamos mais desbundados. O Shopping já estava quase fechando quando novamente escureceu tudo.

- É agora! Tem que ser agora!

- Calma! Relaxa e espera um pouco mais.

Passara-se dois eternos minutos enquanto a euforia tomava conta de nossas almas. Chegamos perto do presépio e a porra da velhinha estava lá. Tivemos que bolar um plano B pra resolver o problema. Jean chegou perto dela e com a entonação de voz mais desesperada da galáxia soltou essa:

- Vem comigo e trás uma vela minha senhora, PELO AMOR DE DEUS, venha comigo que tem gente passando mal ali na frente.

A coitada caiu feito uma patinha. Apaguei as velas e embolsei o menino em minha mochila enquanto o Fábio estendia as cartolinas em pontos estratégicos e entupia tudo com os panfletos. Tivemos que fazer tudo rapidinho no cagaço de que alguém se ligasse nas velas apagadas. Em um minutos estava tudo pronto e nós procurando Jean. Nos encontramos no banheiro masculinos e tratamos de dar o fora logo do local.

Foi só sairmos fora que encontramos o Marmita e os piás correndo e suando feito uns desesperados.

- Galeeera, fomos vistos, vamos dar o fora dessa porra!

- Como foram vistos?

- Dá primeira vez que deu o apagão um senhor nos pegou no flagra e tivemos que sumir e desbaratinar. Mas o filho da puta ficou cuidando o lugar e esperou nós subirmos na árvore pra começar a ameaçar a chamar a polícia.

- E chamou!!! – O amigo dele estava realmente nervoso

- Então estão esperando o quê? Bóra daqui!

Esperamos escondidos atrás de um muro quarenta minutos até a luz voltar, quando voltou não resistimos a curiosidade e entramos no shoppings, mais calmos e com um sorriso de orelha a orelha. Lá estava, no presépio, junto com vários curiosos, o nosso cartaz:

Transformaram meu aniversário em símbolo do consumismo?

ME INCLUAM FORA DISSO!!

TÔ FORA! TÔ FORA!

Ainda chegamos perto e pegamos uns panfletos pra despistar. Realmente, nesse dia o Senhor deve ter sentido orgulho de suas ovelhinhas.

Amém.


Um Desconto de Natal

(ataque trinta e sete)
Essa é mais uma Fábula de Natal. Era uma vez cinco piazinhos, muito bonitinhos quando bebês e muito promissores em seus futuros. Certa noite o Destino embebedou-se e ao voltar pra casa em meio a uma chuva forte perdeu o registro dos cinco a essa altura quase rapazes. Os coitadinhos foram largados à própria sorte e foram felizes quase todas as vezes que puderam ser. Mas as historinhas na verdade não acabam quando as pessoas ficam felizes. Depois elas ficam tristes e algumas coisas ruins também acontecem. Então elas tem que se dar por conta que não é nada disso. Elas tem que se dar por conta que é apenas mais uma historinha que começa.

Com um dos piazinhos esquecidos pelo destino, agora chamado de Delinqüente, a história continuou num domingo à tarde. Ele estava com alguns amiguinhos diferentes, não aqueles outros quatro esquecidos pelo destino e que agora também são chamados de Delinqüentes, no Castelo Encantado do Consumo. O consumo é um rei muito malvado, mas muito esperto. Vocês não acreditam do que ele é capaz. Ele capturou todas as brincadeiras. Para se divertir e brincar todos tem que ir em seu Castelo Encantado do Consumo.

Aí o Delinqüente saiu do Castelo Encantado pra brincar de uma coisa que não podia brincar lá dentro. O Rei Consumo anda meio brabo com umas coisas que andam fazendo e que ele não não gosta. O Rei consumo não deixa fazer lá dentro. Então o Delinqüente estava brincando no lado de fora quando viu oito outros meninos, todos discutindo entre eles. Alguns pareciam brabos, mas tinha uns pareciam tristes. O rapaz foi ver o que estava acontecendo e ficou triste também, pois os outros oito meninos não podiam entrar no Castelo Encantado do Consumo.

Mas eles foram espertos, fingiram que eram todos irmãos e tentaram entrar no Castelo Encantado do Consumo como se fossem uma Grande Família. Só que os Agentes do Rei são muito mais malvados do que a gente pode imaginar e não só os oito outros meninos não puderam entrar, como ainda o Delinqüente esquecido pelo destino também ficou de fora e se perdeu de seus outros amigos.

Essa história, parece que está na cara, não poderia terminar assim. Então ele contou isso pra um monte de gente e um monte de gente tratou de dar uma bela lição no Malvado Rei Consumo e as regras muito feias pra se entrar no Castelo Encantado do Consumo. E como somos agora todos espertos, vamos dormir, pra que a historinha acabe com nossos heróis felizes.

Enquanto as crianças dormem, posso dizer que essa história praticamente aconteceu comigo. Como não estavam deixando fumar dentro do Shopping (O que fazia eu lá dentro? Fala sério) saí pra fazer um fumaçê do lado de fora. Foi quando vi os oito tais piás Indignados & Chateados por não poderem entrar. Quando cheguei perto vi que estavam planejando estratégias pra driblar os seguranças. Planejar estratégias o caralho, combinei com eles que dois seriam meus irmãos e o resto amigos e tudo certo, entraríamos naquela porra de uma jeito ou de outro.

Quebramos a cara e eu só não fiquei de fora com eles, como na fábula de natal, por que eles foram gente boa e desbaratinaram em tempo recorde. Jurei vingança, dessa vez igualzinho que nem na fábula.

O Menino Delinqüente chamou os outros quatro coleguinhas esquecidos pelo destino e planejaram uma vingança. Se oRei Consumo continuasse fazendo aquilo, o Castelo do Consumo deixaria de ser Encantado e para um monte de gente não estava mesmo sendo Encantado. Os amiguinhos combinaram todos um monte de gente e mostrar pro Rei consumo que dava pra ser encantado do lado de fora do Castelo. Eles mostraram que também sabiam ser tão espertos quanto Malvado Rei Consumo.

Desde outubro, quando uma aparição chamada Rogério Coaxo apareceu no Blog dos Delinqüentes que tínhamos captado o meme pra nossa ação de natal. Trata-se do seguinte, sem meios termos: vai-se até uma loja de brinquedos portando um bloco de anotações. Finge-se que está olhando os brinquedos pra presentear alguém, de preferencia acompanhado de uma mina (uma barriga de gravidez mata a pau) e anota o número de série, lote e tudo o mais, assim como o e-mail ou serviço de zero oitocentos. E o principal, se ligar no funcionamento dos brinquedos e pensar no pior caso, ser macabro mesmo, imaginar que tal peçinha ou não sei o quê, se soltou e machucou seu filho de uma maneira muito quase grave. Nunca vá às vias de fato, apenas insinue a possibilidade de uns escândalos. Então use de toda a sua dramaticidade nos e-mails.

Começamos em outubro e lá pelo dia vinte de novembro começaram a chegar brinquedos irados pelo correio. Uma coisa de louco, uma coisa de outro mundo, algo como forjar milagres, Rogério Coaxo deveria ser canonizado. É desses santos que precisamos.

A idéia inicial era fazermos um Potlatch de Natal, entrarmos numa loja de departamentos e darmos os brinquedos de graça pras crianças que estavam lá dentro com os pais, mas a coisa toda estava ainda muito palha. Foi o episódio dos meninos barrados no shopping ,mais as viagens do Jean lendo o Provos e pirando em provocar as autoridades que bolamos o Natal Delinqüente.



Os Meninos Delinqüentes não estavam sozinhos nessa, apesar de esqueçidos pelo destino eles tinham um estranho super poder. É, até os esquecidos pelo destino tem seus super poderes. Eles tinham a Rede Mágica do Inesperado. Eles convidaram todas as pessoas que puderam pela Rede Mágica e várias pessoas legais toparam participar de sua brincadeira. Fazer com que as coisas fossem encantadas do lado de fora do Castelo era muito legal.

Essa parte da realidade já é uma adulteração grosseira da fábula pois muita gente achou legal e pouca mexeu suas bundas gordas. Depois de um quebra pau dos diabos convenci os piás a participarem de uma reunião aberta com o povo da lista de discussão dos Flash Mobs e a galera convocada pelo CMI e o caralho a quatro. Resumo: fora nós e uns amigos nossos, apareceram três neguinhos. E foi que não se chegou em nenhum acordo e a coisa, pelo menos na hora, teve que ser cancelada. Decidimos tocar no estilo foda-se mesmo.



Mas o Rei Consumo é muito esperto, não tem como lidar com ele sem ficar muito, muito ligado. E ele fez com que a maioria daquelas pessoas que acharam a brincadeira legal ficasse de fora. Mas eles não desistiram, tongos eles não é mesmo?

Depois da sujeira que rolou na delegacia, Sérgio simplesmente picou a mula e Vinícius, não sei se é verdade, tinha que estar com os véios em sua cidade ainda essa semana. Ficamos em três. Eu, Jean & Fabio. Os presentes estavam na mão. A fantasia de papai noel era fácil, era pra ser mendigo mesmo, o rolo era encontrarmos a criançada, isso eu já sabia de antemão. Domingo à tarde saímos em missão.

O ponto fraco de nosso plano não tardou em se manifestar. Aqueles meninos que ficam pedindo esmola ou vendendo adesivos e chicletes na rua XV não estavam lá. Os que ficam nos terminais de ônibus idem. Foi a mina que estava com Jean na noite da reunião que deu a idéia. Chutar o pau do barraco e sair nas praças procurando aqueles neguinhos cheradores de cola esquecidos pelo tempo, pra eles não tem a domingo. Era a única saída, mas decidimos que eu iria pra frente do shopping, esperar as coisas acontecerem naturalmente e eles sairiam atrás dos junkies. Acreditem, em Curitiba ser barrado na entrada de um shopping anda acontecendo naturalmente.

Esperei um tempão, comprei uma latinha de cerveja, tomei toda e comprei outra, perdi a noção do tempo até que o tão esperado inesperado aconteceu. Os seguranças conduzindo aos berros e caras feias, três meninos. Para servir como uma espécie de castigo para mim, eram todos Coxas Brancas. Saíram resmungando e fui atrás. Eram uns marmanjinhos de na faixa dos oito ou nove, mas eles podiam vender os brinquedos e adquir seus próprios presentes. Toda cafagestiçe da parada poderia ser contornada explicando pros caras, de uma maneira curta e grossa, o que significava aquela atitude. Convenci os caras



Foi massa, por que aí a demora do Jean & do Fábio se converteu em vantagem a meu favor, tive tempo de alugar os piás pra caralho. No fim eles já tavam ansiosos que mais alguém fosse barrado pra montar as barricadas. Só que tiveram que experimentar o mesmo gosto amargo que eu, esperamos um tempão, eu já tava achando que Jean & Fabio estavam paunocuzeando. Resolvi torrar os últimos reais comprando mais uma bera e uma Cini de dois litros pros pirralhos Coxas lazarentos. Chegando de volta na entrada do shopping apresentei O Inesperado pros Debutantes da Subversão. Cinco meninos menores sendo barrados pelos seguranças.

Os Meninos Delinqüentes do bem saíram em sua jornada em busca de outras crianças mas não encontraram ninguém para participar da brincadeira. Então dois deles foram atrás dos Garotos Perdidos enquanto o Delinqüente, nosso herói da fábula, foi pra frente do Castelo Encantado à espera das crianças que não estavam do jeito que as regras do Rei Consumo diziam que deveriam estar. Foi muito legal, ele conheceu três meninos que foram expulsos de lá, mas que apesar de ser vestirem de verde, eram do bem. O Delinquente contou a eles direitinho o que estava planejando e eles gostaram da brincadeira. Quando eles estavam já ficando impacientes pela demora em apareçer mais crianças uma Fada Madrinha de nome Éris fez com que aparecessem mais cinco crianças. Yabadabadú!

De repente parece que todas as portas se abriram, como se o universo desse o braço a torçer, Jean & Fábio finalmente deram as caras, com mais quatro. Eram junkie boys da maneira em que encontramos no Aurélio. Fábio já chegou se desculpando.

- Ari, relaxa aí, que nós demoramos por que estávamos fazendo a cabeça dos caras. Ari, os caras se ligaram na parada, Ari de Éris, salvamos o dia dos caras.

Estávamos empolgados, Jean imediatamente desapareceu dentro do Shopping. Enquanto eu e os três coxas brancas preparávamos as cartolinas. Fábio se alugou de sair convencer outras pessoas que estavam por ali na frente a participarem da palhaçada. E não é que teve um grupinho de casais de namorados que topou? Com tudo pronto fui dar toque pro Jean no banheiro combinado.

Todos preparam os brinquedos animados. Naquela hora, todos os meninos que estavam lá se deram por conta que estavam recuperando, nem que fosse naquele momento, o Encanto a tanto tempo capturado pelo Malvado Rei Consumo.

Quando voltei foi o auge, cada meninos estava segurando uma cartolina enrolada, Jean entregou-me uma e disparamos nosso arsenal altamente constrangedor pros hipócritas. Todos os cartazes tinham a seguinte frase escrita em caracteres toscos:

QUEM DIZER QUE O NATAL DO SHOPPING TAL, TÃO BONITO NA PROPAGANDA, NÃO É PARA TODO MUNDO??

Os primeiros instantes foram apoteóticos, os segundos já foram de “cadê o Jean?”. Os seguranças do Shopping Tal nos olhavam emputecidos e falavam no rádio nervosamente. Naqueles instantes senti a gota de suor mais marcante da minha biografia, pra sempre vou lembrar dela. Estava com ela quando vi outra cena histórica. Um Papai Noel maltrapilho sendo carregado por dois seguranças. O viado saiu do banheiro “travestido de Papai Noel” cambaleando feito um bêbado com um saco de lixo cheio nas costas. Uma personagem impossível dentro de um shopping center, se eu estivesse trampando de segurança, inserido na realidade consensual, não toleraria tal ousadia

Então o menino sorteado para fazer o papel de Papai Noel surgiu, conduzidos por dois Agentes do Rei que, comovidos, resolveram contribuir pra que a Brincadeira ficasse ainda mais divertida. A criançada estava com cartazes com frases bonitas e deram três urras e fizeram uma fila pra ganhar seus presentes. Sim! Na brincadeira bolada pelos Delinqüentes Esquecidos Pelo Destino tinham brinquedos. Sem dúvida, o encanto estava temporariamente recuperado das mãos do Rei Consumo.

Jean depois de ter encarnado Robert Jasper Grootvelt tem se demonstrado um ator mais do que genial, intergalático. Quando os seguranças o soltaram, jogou-se no chão e levantou-se lentamente, segurando o saco de lixo e encarando o único segurança que ficou. Quando virou os olhos pra Galera Excluída todos baixaram os cartazes e fizeram uma fila. Os Coxas Brancas demonstraram que para alguma coisa torcedores do Coritiba servem, subversão, como todo ser humano aliás, mas vamos dar uma chance pros caras: apavoraram na fila:

- Urrúúúú! Vamos ganhar presente! Ôou segurança bombado aí, vem pra fila pra ganhar alguma coisa!

- Garanto que é atleticano, vem cá que aqui você ganha!

E a gurizada ganhou os brinquedos, por mais que fossem palhas, por mais que eles reciclassem e acabassem dando pra seus irmãos mais novos, valeu pelo momento de abrirem os presentes (pois caprichamos nos papéis de presentes e nos laços), toda a galera de curioos olhando naquela de “o que que é?” e “abre aí de uma vez!”. Massa mesmo, só não mais massa porque Rei Consumo corcoveou.

O Malvado rei Consumo ficou muito bravo. Chamou os Perigosos Gambés. Para acabar com aquela Brincadeira e recuperar o Encanto para seu Castelo.

Estávamos viajando na alegria do pessoal quando ouvimos as sirenes dos carros da polícia, o pessoal do shopping não tolerou aquela palhaçada toda, mesmo do lado de fora, alguma coisa os filhos de uma puta tinham que fazer. O cagaço nos paralisou por uns dois vírgula trinta e três segundos, então reagimos desesperadamente.

- Bóra galera, não tô afim de limpar banheiro

Os piás a princípio ficaram surpresos com nosso susto, mas acabaram correndo. Nós três corremos muito mais que todos, simplesmente sumimos de vista. A umas troçentas quadras de distância do shopping nos socamos na lanchonete de uns chineses, que é só o que tem no centro de Curitiba e nos mocamos bem no fundo, atrás de uns engradados de cerveja vazia. Pedimos um bera e a secamos nervosamente, pedimos a segunda e secamos de novo, agora relaxados e sorrindo. A terceira veio com gargalhadas e acabamos a noite bêbados e felizes.



Os Meninos Delinqüentes saíram correndo do Castelo Imediatamente e na fuga se perderam dos amiguinhos novos, mas graças a Fada Madrinha Éris conseguiram encontrar uma Caverna Mágica bem segura e após se empanturrarem com o Liquido Maravilhoso viveram felizes para o resto do dia.

Boa noite crianças.
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