Manual prático



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Fuja Imediatamente: Fomos Descobertos! (A última Dança)

(ataque trinta e oito)
Cagamos fora do penico. Nossos objetos de culto: o Inesperado, a Dança do Acaso & a Rede de Coinscidências Cósmicas, que sempre jogaram no nosso time, fizeram um gol contra. Ainda não sei ao certo que diabos está acontecendo, só sei dizer que na quarta-feira à noite, lá pelas dez horas da noite, enquanto estávamos eu o e o Jubikão no porão, um Policial Civil bateu à porta.

- Gostaria de falar com Jean.

- Eles não está. Sobre o que seria?

- Sou Investigador da Polícia Civil.

Gelei. O Chão sumiu de meus pés.

- Investigador?

- Sim. E você, quem é? É amigo dele ou mora com ele?

- Não, sou amigo do Sergio e estou cuidando da casa durante à noite enquanto eles todos estão viajando.

- Sabe me dizer onde Jean foi?

- Olha Seu Polícia, o Jean só conheço de vista, sou amigo do Sergio mesmo, mas ouvi falar que ele saiu viajando de carona por aí, parece que queria chegar até o Espírito Santo ou coisa parecida. Mas não pode me dizer do que se trata?

- Temos uma denúncia de que ele anda participando de umas badernas por aí.

- Badernas.

- Sim, uma pessoa que trabalhava numa churrascaria e agora é segurança de um Shopping testemunhou dos casos envolvendo este sujeito.

- Ah, tá, mas será que se trata do mesmo Jean, o cara é tão sossegado.

- É o que estou investigando, vou deixar aqui meu cartão e se tiver algum contato com ele diga que quermos conversar, é importante.

Então o cara saiu prometendo voltar dentro de alguns dias e fiquei só com meus pensamentos Perdidos & Confusos & Temerosos,. Caralho, será que fomos descobertos? Passei a noite inteira quebrando a cabeça. Essa história estava muitíssimo mal explicada. Que pessoa é esse? Como sabia que o nome dele era Jean? Como achou nosso endereço? Porque só o Jean? Tentei de todo o geito entrar em contato com o cara sem sucesso algum.

N outro dia trabalhei tomado por uma paranóia absurda. É foda a sensação de estar sendo seguindo, investigado, monitorado. A impressão que eu tinha é que cada pessoa que olhava pra mim na rua era um investigados, um detetive ou um Agente da Conspiração querendo me ferrar. Contei o ocorrido no Blog dos Delinquentes e Jubyleu sugeriu que a coisa toda estav totalmente sem lógica, tinha que ter cagüeta no meio. Cagüeta, mas quem? Então começei a desconfiar de todo mundo, de meus amigos mais chegados até meu chefe, meu vizinho e o pessoal dos Flash Mobs.

À noite não fui dormir no porão. Aproveitei a deixa pra realizar um sonho antigo: passar a noite na rua, junto com os mendigos. Me lasquei por que justo nesta noite um frio totalmente fora de época se abateu sobre o verão Curitibano. Mnido de uma garrafa de 51 fui atrás dos mendigos. A prefeitura correu com todos que dormiam no9 centro, tive que andar um montão e acabei encontrando os colegas indigentes no Mercado Municipal próximo ao Viaduto Capanema.

Fui bem recebido, não sei dizer se é porque os caras são gente boa ou por causa do litro de 51, que foi secado em tempo recorde. Foi uma noite legal, os cars me emprestar papelão e folhas de jornal pra enfrentar o frio e enquanto nos embebedávamos contamos altas histórias. Inclusive um deles me contou algo inédito para minha ignorância. A Revolta do Pente, que aconteceu nessa cidade no ano de 1959. Por causa de um militar que comprou um simples pente e começou a discutir com o lojista por causa de uma nota fiscal começou um bate-boca que acabou em pancadaria com o militar indo a nocaute. Os curiosos tomaram as dores do derrotado e começou um quebra-quebra na loja que surpreendentemente se alastrou para as lojas vizinhas e dentro de pouco tempo a praça Tiradentes inteira virou um Caos anárquico. Tiveram que acionar o exército para acalmar a turba e segundo o mendigo até tanques de guerra ficaram de prontidão para o caso de as coisas se complicarem ainda mais.

Noutro dia, de volta ao trampo, corri no Google pra checar a veracidade da história e qual não foi minha surpresa ao descobrir que sim, a coisa tinha mesmo ocorrido. Fiquei feliz e orgulhoso de meu amigo mendigo. No decorrer do cagar dos pássaros consegui contato com Jean.

- O quê Ari? Me explica melhor essa história!

- Não tem mais o que explicar, só falamos isso mesmo, simplesmente não sei te dizer o que está acontecendo.

- Puta que o pariu Ari, mas por que só eu?

- Não sei, cara! Eu não sei!

- Ari, você é o único que está aí em Curita, vai ter que ser você quem vai limpar nossa barra.

- Limpar a barra? De que jeito cara? A única atitude que tomei por enquanto foi contar o problema pro pessoal mais chegado da Internet e sacar as sugestões deles.

- Caralho, Ari! Nem tava me lembrando disso! Ainda essa porra de blog na Internet. Seu Viado! Desde o começo eu te avisava que essa coisa de ficar de ficar divulgando nossas paradas ainda ia dar merda.

- Relaxa cara, o pessoal deu altas sugestões.

- Que sugestões?

- Sumir, desaparecer, para de postar no Blog dos Delinquentes e passar a postar tudo como Timóteo Pinto, um condivíduo, um nome coletivo que criamos.

- Tá, beleza, só que você vai ter que dar um jeito de agente sumir desse endereço chave de cadeia aí.

- Jeanzinho de Éris, o que tu tens em mente.

- Infelizmente tá só você aí e vai é aquela velha história: “Já que não tem tu vai tu mesmo”. Vais ter que arrumar um novo mocó e transferir todas as nossas tralhas pra lá. Mas veja bem Ari, tens que ser discreto, pode ser que tenha alguém aí vigiando essa porra de porão o tempo todo. Procure fazer a mudança na night e por favor, seja discreto!

Jean & Fabio sempre foram os mais paranóicos e desta vez contavam comigo em sua neurose. Sem saber o que fazer nem pra onde ir liguei pro Marmita, o único nome que me ocorreu, pois o Társis estava viajando também. Em Curitiba o pessoal tem o costume de desaparecer da cidade nos feriados prolongados e férias. O baixinho, sempre desenrolado, me arrumou uma meia água no sitio Cercado pra deixarmos nossas coisas temporariamente. Bolamos então uma operação quase ridícula de tão paranóica.

Atacarmos nós mesmos. Como ultimo ataque a coisa chega até a ser irônica. Saquem só o que planejamos. Fazer a mudança de madrugada, no escuro, como se estivéssemos roubando o porão. Para o caso de Jean estar certo, se tiver alguém de campana na frente do porão, seria mesmo a coisa mais correta a fazer.

- Mas veja bem Ari, se formos pegos vai ser muito foda você explicar pro delegado que estavas roubando você mesmo. Além de ser uma comédia do cacete, as coisa poderão se complicar ainda mais pro lado de vocês.

- Pro lado nosso? Esqueceu que você também está nessa? Rapaz, você participou de vários ataques, és um Delinqüente também seu jagüar!

- E o pior é que é mesmo.

Fizemos tudo em tempo recorde. Marmita conseguiu de novo aquele caminhãzinho que usamos pra abandonar o artefato alienígena auto estrada e duas da manhã estacionamos na rua de trás a umas quatro quadras de distância. No dia em que caçamos ratazanas pra atacar o Vegan radical mala sem alça, ataque que acabou não acontecendo, ficamos manjando de todos os terrenos baldios e prédios abando nados das redondezes.

- Marmita, olha só meu plano. A gente trás as coisas pelo terreno baldio até esse armazém vazio, depois leva por esse outro terreno baldio e deixa tudo atrás do muro. Então faremos um esforço dos diabos mas em um minuto tudo tem que estar em cima do caminhão.

- Beleza então...

Chegando perto, pelos fundos, Jubikão, nosso cãozinho que herdamos do ataque da Pet Shop revelou-se um bom cão de guarda, chegou junto, latindo ferozmente até me reconhecer e vir chacoalhando o rabo. A mudança não foi nada fácil, transferirmos tudo pela janela e a geladeira resolvemos deixar pra abater do valor do aluguel. Dentro do porão eu pichei uma frase que insinuava que o porão tivesse sido invadido por alguém que era contra os moradores por algum motivo desconhecido.

“Aqui se faz. Aqui se paga.” Ass: AC

O AC, pros menos ligados, significa: Agentes da Conspiração. Suamos pra cacete pra crregar tudo. Ainda por cima minha cixa de gibis se abriu no meio do caminho e tive que recolher tudo. Levamos quase duas horas pra carregar tudo até o muro que tínhamos combinado. Marmita estacionou o caminhão debaixo de uma árvore e esperamos praticamente mais uma hora pra conferir o movimento, escutar ruídos e checar se dava pra fazer a carga sem chamar a atenção de ninguém.

Foi então que realizei o trampo mais sofrido dos últimos tempos, carregar aquilo tudo em um minuto com a adrenalina a mil nas veias foi uma coisa muito foda. Eu suava a cântaros. Marimta suava a cântaros e Jubikão nos olhava com um olhar entre o curiosos e o triste. Gosto dos cachorros por que eles sacam das coisas e não possuem o menos pudor em demonstrar seus sentimentos. Quando terminamos jogamos uma lona por cima e paramos pra descansar.

- E aí Ari, tem certeza que não esqueceu de nada

- Acho que não, mas em todo caso, você me espera eu ir lá dar uma última conferida.

Aquele porão, mais que tenhamos ficado apenas um mês nele, havia conquistado meu coração, ver aquilo tão vazio que parecia que até os pensamentos produziam ecos, me deixou profundamente chateado. Olhei pela janelinha que tinha vista pra frente e fiquei um tempão analisando se tinha algum filho da puta nos vigiando. Não vi nada. Realmente, talvez isso tudo não passe mesmo de uma grande paranóia, mas como dizia aquele velho Junkie & Genial: “Paranóico é aquele que tem pelo menos uma mínima noção do que está acontecendo.” Se quiserem me chamar de ridículo podem chamar, estão liberados, eu sei que mereço, mas dei uma vasculhada geral atrás de escutas eletrônicas e microcâmeras instaladas por possíveis Agentes da Conspiração. É aquela velha história: Se o que você faz, faz impunemente, é por que é inofensivo.

Peguei ainda uns cartões do Sérgio que estavam pelo chão, dei uma última cagada naquele banheiro fedorento e abandonei o recinto. Jubikão me acompanhou o tempo todo, até no banheiro, parecia mesmo que queria me dar um apoio psicológico. Acho que amo esse cachorrinho pulguento. Quando cheguei no caminhão Marmita já estava completamente impaciente.

- Porra cara, porque demorou tanto?

- Ah véio, foi foda ver aquele Antro de Delinqüentes vazio e ainda por cima saber que daqui pra frente tudo vai ser diferente.

- Tudo bem, mas não podemos ficar muito tempo aqui dando bandeira, alguém pode se ligar e dar merda.

- Então vamos embora de uma vez.

- E que carinha triste é essa aí, seu boiola?

- Vai te fuder seu pau no cú.

Marmita caiu nas gargalhadas e enquanto o caminhão andava e os fundos do porão sumiam de vista meus olhos começaram a ficar aguados. Foi uma cena triste pra cacete, odeio despedidas, sei que o fim das coisas é uma coisa absolutamente natural, mas tenho o direito de odiar despedidas e essa será uma que demorarei séculos pra esquecer.

- Ari, você está chorando?

- Já mandei você se foder caralho! Estou com sono, só isso.

Baixei a cabeça na janela do caminhão e fiquei fingindo dormir e chorando de verdade até chegarmos do sitio Cercado. Descarregamos tudo lentamente e em silêncio até o casebre de madeira no fundo do quintal da tia do Marmita. Quando acabamos sentei na calçada da frente pra fumar um cigarro. Marmita sentou junto e conversamos um pouco.

- Como serão as coisas de agora em diante, vão seguir com os ataques?

- Não sei, isso é uma coisa pra se analisar.

- Acho que vocês fizeram tudo certinho, seria muita sacanagem desistir de lutar contra o Império. Ari, somos os rebeldes, a humanidade precisa de nós, hehehe!

- Vou ter que esperar o pessoal voltar e decidirmos juntos as novas estratégias. De minha parte posso te garantir que não vou parar. Decidi seguir esse caminho e vou trilhá-lo até o fim, seja lá o que signifique esse fim.

- É, parece que essa coisa vicia.

- Realmente Marmita, liberdade causa dependência.

Então a melancolia voltou a me contaminar, fui até o casebre com os olhos úmidos novamente e fiz a única coisa que me pareceu digna na ocasião, peguei uma lata de spray, corri sozinho por cinco quadras, escolhi um muroo adequado e, ainda com lágrimas nos olhos pichei:



SEJA REALISTA, EXIJA O IMPOSSÍVEL.
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