Manual prático



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O Crime Não Compensa


(ato dois)
Ainda não tínhamos analizado a arte sob a ótica do Distúrbio Cotidiano até que Sergio Augusto, nosso amigo das antigas, metido a artista plástico, chegasse do interior com dezenas de colagens, frutos de seus trabalhos mais recentes. Digo que ele é metido a artista por considerar que chamar alguém de artista plástico hoje em dia equivale a xingar os parentes do sujeito até a oitava geração ascendente. Me chame de filho da puta, mas não me chame de artista. A arte escontra-se mercantilizada, afetada, eletizada, enfim, totalmente corrompida de sua original função transgressora.

Os trabalhos do Sergio estavam bons demais para serem vendidos a um advogado ou a algum empresário do ramo das seguradoras. Todos nós éramos unânimes quanto a isso, mas o consenso sumia quando pensávamos em qual destino adequado a uma autêntica obra de arte. O Vinicius queria queimá-los em praça pública por considerar que a arte autêntica deveria soar como uma heresia. E o destino dos hereges é a fogueira. O Fábio considerava que o ideal era solenemente esquece-los no Terminal de Ônibus do Boqueirão. Eu cogitava a hipótese de enviá-los pelo correio a destinatários escolhidos ao acaso na lista telefônica. Após horas e horas de papo intelectual besta foi o Jean quem veio com a idéia definitiva: o crime, a ilegalidade, o impacto de um Terrorismo Poético ou de uma Arte-Sabotagem.

Invadir uma casa e pregar os quadros na parede, substituindo os eventuais quadros que já estejam lá.

Ótimo. Perfeito. Explêndido. Só tinha um problema, uma questão crucial: nenhum de nós jamais tinham invadido uma casa e a possibilidade de sermos pegos ou dispararmos o alarme era altíssima.

- Seria se eu não tivesse uma carta na manga, não teria tido essa idéia se já não pensasse numa solução.

- E qual é? Você conhece algum ladrão?

- Não! Mas você lembra da Juliane, que eu agarrei a uns tempos atrás?

- Aquela patricinha que fazia direito na PUC?

- Exato! Faz uns quatro meses que a gente não se vê, mas... Bingo! Tenho cópias das chaves da casa dos pais delas!

- Não acredito!

- Não boto fé!!

- De onde vocês acham que eu tirei aquele candelabro de prata que a gente vendeu pra poder acampar na Serra dos Órgãos?

Genial. Um plano perfeito (e sempre fomos viciados em planos perfeitos). Analisando friamente, não era um plano difícil de levar a cabo. Era só escolher o dia e a hora certa e ter muita cara-de-pau, o que, modéstia à parte, nunca nos faltou.

O mais difícil foi convencer o cagão do Sergio a ir junto, já que consideráva-mos sua presença fundamental. Deveria ser ele o Maravilhoso Vândalo a pregar o primeiro prego na "parede da burguesia". Alguma pesquisa e alguns telefonemas depois e pronto: domingo à noite a família inteira da Jú estaria num jantar no Clube Sírio-Libanês de Curitiba.

O pior é que o sergio demorou mesmo a se convencer, ainda tava naquelas de sonhar com vernissages e resenhas em cadernos culturais.

- Sergio, isso é só um brinquedo, um exercício para depois sonhar mais alto. Se nada der certo, valeu a diversão e a sensação de fazer algo.

Ontem, domingo, lá pelas nove e meia da noite estávamos todos prontos. Mais ou menos prontos, pois nossas mãos suavam de cagaço. Podíamos muito bem ser presos. Minha mãe diria que DEVERÍAMOS ser presos. O Jean já conhecia bem o bairro e a casa, tinha namorado a Ju por uns três meses. Isso me tranquilizava um pouco. Mas não tranquilizava o Fábio. O Cara tava cagado de medo.

- Não tem alarme lá não, cara?

- Tem, só que fazia um ano que o vô da Ju não trocava a senha, o velho é meio supersticioso, se trocou agora é muito azar, tá ligado?

- Puta que o pariu!

- Não dá nada, cara, não dá nada.

O cara que falou que o crime não compensa é um puta de um mentiroso. Compensa pela adrenalina. A Juliane morava no bairro do batel e fomos de ônibus. Não conversamos nada a viagem toda, tamanho era o clima de tensão no Interbairros I. Grandes invasores! Grandes Terroristas Artíticos. Um bando de cagões, isso sim.

Descemos e contornamos a quadra até a rua paralela que daria nos fundos da casa. Escalamos um muro que dava em um estacionamento para funcionários de uma loja de sapatos que estava fechada.

- Não tem vigilante aqui?

- Cala a boca!

Escalamos a "Churrasqueira de Confraternizações" da loja de sapatos e encaramos a parte mais difícil do plano do Jean, que era a cerca eletrônica da casa da Ju.

- Esse troço dá um choque de uns 100 volts.

Um de cada vez, nos agarramos num galho de uma mangueira e pulamos, quase nos estoporando no chão do pátio. Salto mortal mesmo. Eu pulei na boa. Pulou o Fábio numa boa também. Depois o o Vinícius eo Jean. Mas o cara mais sem jeito do mundo chamado Sergio Augusto caiu todo errado e torçeu o tornozelo.

- Aaaaaaiiii!!!!!!!

- Cala a boca seu paunocuú!!!! - susurramos todos.

- Quer foder com tudo?

- Mas tá doendo, porra!!

- Te fode cara, aguenta as pontas!

O Jean estava realmente com pressa e nem nos deixou discutir.

- Vamos correndo por esse corredor que tem um trinco maneiro na janela do banheiro do quarto da Ju.

- E as chaves?

- As chaves são pra nós saírmos, é muito bandeira um bando de malucos entrar numa mansão dessas pela porta da frente.

Realmente era muito fácil. Com um simples pauzinho o Jean empurrou alguma coisa e a jenelinha do banheiro se abriu.

- Agora vocês ficam aqui que eu tenho quinze segundos pra desligar o alarme!

Ficamos. E olha que o cara demorou pra caralho. a cada segundo parecia que o alarme ia disparara. Todo mundo se olhava nervosamente. O Fábio estava prestes a sofrer um ataque cardáco. O Sérgio só gemia com seu tornozelo torçido.

- Ou torçeu o tornozelo ou quebrou mesmo.

- Cala a boca, sua bixa!

Devem ter passado uns trocentos minutos até que o Jean apareceu na janelinha do banheiro com a cara mais safada do lado de cá da Galáxia.

- Beleza galeraaa!!!! O alarme tá desligado.

- Urrúúúú!!!!!

- Calem a boca seus paunocús!!!!

A casa era de burguês mesmo. A Juliane tinha mais dois irmãos e cada um lá, com seu quarto individual, com banheiro e tudo em cima, som, TV, micro. Filhos da puta. tinha tudo: sala de leitura, sala de home teatcher. Bem que podiam fazer uma sala para peidar, uma sala para se masturbar. Deu vontade de quebrar tudo ou pelo menos roubar um monte de coisas, mas o objetivo não era esse.

Trocar os quadros que já estavam na parede era fácil: o Fábio e o Vinícius já estavam fazendo isso. Pregar novos pregos e modificar o lay out de tudo é que era o desafio. Pra isso dar certo só faltava o último ítem do plno do Jean: a empregada. O quarto da Rosicleide ficava lá nos fundos, as chances dela ouvir nossos cochichos eram baixas, mas pregar coisas nas paredes era bem mais foda.

A esperança do Jean era que, conhecendo ela do jeito que ele conhecia, ela tivesse dormindo ouvindo seu sonzinho. Ela quase sempre fazia isso. Fim de semana sozinha em casa então: era batata. Jean voltou correndo feliz:

- Massa! Ela tá ouvindo Bruno & Marroni!!

Foi então que o Sergio solenemente, com todo o senso de gradiloquêcia que a situação exigia, pregou o primeiro prego. No lado esquerdo da lareira. No lugar exato que ele cuidadosamente escolheu. Ali, no seu ponto escolhido, pregou sua obra preferida. Nós pregamos todos os outros pregos enquanto ele ficou ali, vivendo seu momento único com a obra que mais admirava.

Não demoramos muito. O sucesso do trabalho dependia da velocidade, mas posso te garantir que o Sergio viveu seus três minutos de perfeição. Por três minutos viveu sua própria arte e a arte, exaltada em sua essência, viveria ali por ele, quando todos nós fugíssemos do lugar.

O que não demorou. era o Jean quem dava as ordens.

- Toque de recolher, povooooo!!!!!

Começamos todos instintivamente correr pra janelinha do quarto da Ju quando o Jean nos lembrou: "O alarme tá desligado e eu tô com as chaves seus manés". Saída triunfal pela porta da frente. Tomando o cuidado para deixar tudo fechado, é claro. Saímos todos em silêncio com os respectivos peitos estufados.

Foi só chegar na rua que o cagaço bateu de novo, saímos correndo feito uns loucos. Corremos umas trÊs quadras e começamos a correr e rir feito uns loucos. Foi só um começar a rir que ninguém mais conseguiu parar. O Sergio até curou o tornozelo e garagalhava demencialmente. A adrenalina e o cagaço eram tantos que corremos por umas duas horas. Foi massa.

Hoje é segunda feira e estou aqui no trampo com as pernas todas doídas da correria. Ninguém consegui dormir à noite. Sono do caraaaalho e ainda não sei explicar direito o significado do que fizemos, mas me sinto feliz. Muito feliz. O cara que falou que o crime não compensa é um puta de um mentiroso.

O Foto do Tijolo na Vidraça Todo Mundo Acha Bonito (mas o tijolo na virdraça mesmo...)

(ato três)
Uma vez li em algum lugar, acho que no site da Fraude: "sempre se envergonhe daquilo que você escreve". É assim que funciona comigo quanto à poesia. Passa um ano, um ano e meio e são raros os poemas que eu leie e não me envergonhe. Já faz um tempão que não escrevo poesia e o primeiro sujeito que me aparece dizendo que a poesia está morta já vou aplaudindo.

Outro dia eu estava andando no calçadão da Quinze e apareceu um cabeludo ofereçendo livrinhos de poesias por dois reais. Soltei meu chavão preferido:

- A poesia está morta! E só curto necrofilia quanto tô bêbado.

O que anda me desanimando na poesia é justamente isso: a gaiola onde ela anda aprisionada. Você escreve lindos versos e, ou os deixa na gaveta, dando-lhes vida apenas nos momentos em que lhes dá atenção, ou então você os explora feito o cabeludo do calçadão, imitando aquelas senhoras pobres que levam seus filhos pra esmolarem no centro da cidade e ficam cuidando escondidas na esquina, recolhendo as moedas dos filhos a cada meia hora.

Andei pensando muito nisso porque depois da invasão da casa da Ju, o Fábio ficou meio traumatizado devido ao estresse e à overdose de adrenalina e andava escrevendo feito um aluscinado. O poeta oficial da turma sempre foi o Sergio, com seus arroubos de paixão, só que ultimamente andava se ocupando demais com as telas.

- Ari, a gente podia fazer alguma coisa com as poesias...

- Fazer o quê, Fábio?

- Sei lá, tipo alguma coisa parecida com o que a gente fez com as telas do Sergio.

- Que tal a gente xerocar uma porrada de poemas e colocar cada um dentro de um livro na Biblioteca pública, O Tiba trabalha lá e dá pra gente fazer.

-Não, nada a ver, isso é idéia de gerico.

- O quê então?

- Sei lá... Vamos pensando, porra.

O Sergio torçeu o tornozelo de verdade naquela noite. Na hora da correria não sentiu nada, mas no outro dia o negócio amanheceu inchado, teve até que ir no postinho de saúde enfaixar. A semana passou então com todos meio que recolocando as idéias no lugar. A invasão porém, foi um sucesso e ninguém estava a fim de parar. Foi na quinta-feira, quando o Sergio tirou as faixas do pé que saimos pra beber e comemorar que o Fábio veio com mais uma Fantástica Idéia & um Plano Perfeito.

- Galera! Já sei o que fazer com as poesias!

O Jean deu sua coçadinha de barba típica:

- Ih! Já tá viajando de novo!

O Vinicius sempre foi mais ácido:

- O Fábio tendo idéias? Dessa vez a gente cai com os hôme!

- Vão se fuder! O Plano é perfeito. Ouçam crianças: a gente escreve cada poema, no caso eu escrevo, à mão, em papeizinhos pequenos. Depois a gente amarra os poemas com linha de costura em bolinhas de gude e, com um estilingue e... (fez uma pausa para o suspense)... fizemos a distribuição nas vidraças da classe média. Perfeito! O terrorismo poético que o Hakim Bey falou.

- Olha a do cara, meu! Tava todo cagado de medo por ter arriscado o pescoço domingo e agora já quer sair quebrando vidraças por aí!

- Se é pra fuder, vamos fuder com tudo de uma vez, porra!

Curti a idéia pra caralho. O Fábio é o tipo do cara que fica na dele a maior parte do tempo e de repente surpreende a gente.

- Eu consigo façinho umas cinco bicicletas lá em Colombo, depois a gente compra aquelas tocas pretas que os Zapatistas usam, vamos todos vestidos de preto e com luvas pra dificultar a identificação e pronto!

Gostei da idéia mesmo e nos dias seguintes ficamos tratando de conseguir o material, algumas roupas pretas emprestadas e tocas e luvas a cinco reais nos camelôs da Praça Osório.

Vinicius escolheu o bairro: Jardim Social e fez um mapinha esquematizado com rotas & fugas. Eu e o Sergio iríamos pela BR 116 com três poemas e pixaríamos cada um deles em algum ponto do trajeto. O Jean e o Vinicius iriam pela Av. Nossa Senhora da Luz com outros três poemas e a mesma tarefa com o spray. Idéia de quebrar o orçamento do Sergio: cada poema pixado com uma cor diferente, idéia besta de artista plástico besta, azar o dele, teve que pagar os sprays.

Fabio ficou com o último poema pra fechar o número sete, pois anda pirando com o Calendário Maia e umas paradas de numerologia. O cara tem umas piras com o número 23 que ninguém bota fé. Ele iria sozinho, à deriva, sem rota planejada e iria nos esperar às quatro da manhã na Praça Villa Lobos, de onde fujiríamos feito uns loucos novamente.

Logo depois da meia-noite eu e o Sergio partimos com nosso material terrorista. As bicicletas que o Fabio conseguiu pra nós eram umas belas bostas. A minha escapava a correia a cada duas quadras e a do Sergio era cor-de-rosa, altamente gay. Mas tudo bem, lá fomos nós BR à fora escolhendo lugares pra pixar os poemas.

Não posso dizer que fizemos um trabalho bem feito. Nossas bikes eram uma merda e meu colega, basicamente um inexperiente em vandalismos & delinquências. O primeiro poema ficou num muro de um terreno baldio meio nada a ver. O segundo foi melhor, foi numa daquelas passarelas pra pedestres que atravessam as rodovias. Foda foi escrever de cabeça pra baixo.

O terçeiro foi mais massa. Pulamos um muro e pixamos do lado de dentro. Vandalismo exclusivo. Não é pra qualquer um. E o poema era bom, pixado de vermelho vivo. Muito louco.

Fiz uma gambiarra pra correia parar de escapar e tivemos que pedalar às ganhas pra chegar no Jardim Social às três da matina. O Sergio carregava os "Cartuchinhos Líricos" como eu chamava os poemas amarrados em bolinhas de gude e o estilingue. Eu iria atirar, já que ele nunca tinha caçado passarinho na vida. Se o Sergio fosse atirar acho que precisaria de uns 49 poemas pra acertar uma vidraça de 10 metros de largura a quatro passos de distância.

A primeira casa foi fácil: a vidraça era grande e o muro era perto. Um facilidade traiçoeira, pois fizemos a coisa rápido demais, sem pensar na fuga e a filha da puta da rua tinha uns duzentos metros até a próxima esquina. Correria dos diabos. Foi ouvir o som da vidraça quebrando e parece que o peso da realidade se abateu sobre nós, sobre mim principalmente.

Corremos umas cinco ou seis quadras, aí parei e joguei o segundo poema de qualquer jeito, quase de olhos fechados e quase sem pensar. Eu parecia o Fábio na casa da Ju, cego & paranóico de cagaço. Nem lembro da casa direito, ouvimos os estilhaços e saímos correndo alucinados de novo.

Dessa vez corremos bem mais até eu achar um muro que desse num terreno baldio.

- Rápido cara, joga a bike pro outro lado!!

- O que foi? - Sergio parecia irritantemente calmo.

-Joga, cara! Joga!!!

Jogamos as bicletas e sentei ofegante no meio de um mato de ervas daninhas. Estava exausto e apavorado. Na casa da Ju era um lugar fechado que o Jean conhecia bem. Agora era diferenre, estávamos na rua, onde qualquer insone podia enchergar da janela do quarto e não conhecíamos o bairro direito. Acendi um cigarro. Minhas mãos tremiam.

- Temos que apurar, Ari, senão a gente se atrasa.

- Calma!

- Já são dez pras quatro e você acha que a polícia vai demorar muito mais de cinco minutos pra aparecer?

Aí parece que a realidade desabou novamente sobre mim. Era verdade, a mais pura verdade. Então parece que um raríssimo senso de heroísmo se abateu sobre mim. Corri uns cinquenta metro pelo matagal e pulei um muro altíssimo (sinceramente, não sei como consegui) que dava numa casa nos fundos do terreno. Caí no pátio e fiz tudo automaticamente sem raciocinar, o tipo de coisa que se você pensa, você não faz. Na janela que dava naquilo que eu achava ser o quarto dos donos da casa estiquei o estilingue e, a menos de dois metros de distância, soltei o projétil. Deu pra sentir os cacos de vidro no rosto. E deu pra ouvir gritos dentro da casa. Parei o mundo deles, rêrêrê.

Juro que nunca corri tanto na vida. Tinha uns espinhos no matagal e me arranhei todo sem nada sentir na hora. Magicamente o Sergio já estava esperando com as bicicletas do outro lado do muro. Mirei o olhar numa placa de trânsito no fim da rua e pedalei com todas as minhas forças. Nem olhei pra onde o Sergio estava e nem olhei pra nada. Foi então que a porra da correia escapou de novo e no pau que eu estava me estoporei no chão. Mesmo com a tocas de lâ meu rosto arrastou no asfalto e ralei o nariz e machuquei o cotovelo.

- Você tá bem cara? Se machucou?

- Foi nada, bora, bora, bora!!!!

- Tem certeza?

A adrenalina era tanta que eu não estava sentindo nada. Chegamos na praça já estavam todos esperando impacientes.

- Porra cara, vocês demoraram pra caralho!

- Pensamos que vocês tinha sido pegos.

- Que diabos vocês estavam fazendo?

- O Fabio ainda tem que jogar o dele!

- Que foi isso no teu nariz, Ari?

Nisso ouvimos as sirenes da polícia. Puta que o pariu, a hora do Amargedom. O Fábio saiu correndo em direção a uma mansão do outro lado da praça. O meu coração parecia que ia sair pela boca. O Jean olhava para os lados nervosamente. O Fabio correu, subiu num muro alto, esticou o estilingue, fechou um olho, deitou a cabeça pro lado acertando a pontaria e gritou:

- Bota pra fudêêeeeer!!!!!

Ouvimos o som da vidraça partindo e já saímos no pau. O som das sirenes já estavam bem alto e o alarme da mansão disparou, apoclíptica a cena. O Fábio tava ficando pra trás, mas ainda deu pra ouvir ele gritando:

- Fujam que eu dou um jeito!!

Se a gente tivesse um cronômetro na hora acho que teríamos batido altos recordes de velocidade.

- Iaba daba dúúúú, me alcançem seus paunocúúúú! - Gritou o Vinicius se cagando de dar risada.

- Corra, Forrest, corra! - Respondeu o Jean.

Em menos de dez mintuos estávamos todos sentados no escuro, ofegantes, na frente do Jardim botânico. Quer dizer, todos menos o dono da bicicleta da correia podre, eu, que levei outros dez minutos pra chegar. Dessa vez não ríamos tanto quanto na semana passado porque o Fábio tinha ficado pra trás. Quase ninguém falava nada, até que o Jean foi num posto de gasolina próximo buscar umas cervejas e voltou com o Fabio no bagajeiro. O desgraçado escapou!

- Seus boiolas! Eu tava brincando quando falei pra fujirem sem mim.

- E a bicicleta?

O cara, emocionado com sua aventura, disse que tava tão feliz que deixou ela num viaduto de presente pro primeiro que a encontrasse, com uma sacolinha plástica cheia de panfletinhos com a frase: "Seja realista: exija o impossível" e veio andando até que o Jean o encontrou.

O Fabio realmente ficou em êxtase. Fomos andando a pé até a kitinete do Jean e do Vinicius bebendo uma cerveja de cada boteco que encontramos pelo caminho. Chegamos em casa oito e meia da manhã, selvagemente bêbados & feliz. Êita mundinho estranho, sô!

Quarenta e Dois Decibéis de Exorcismo

(ato quatro)
Assaltantes de banco são o tipo de bandidos mais respeitados pelos colegas de cadeia. Ao contrário dos estupradores, que, dizem, tem seus cuzinhos comidos lá dentro, assaltantes de banco tem uma puta moral nos presídios. Isso porque todos sabem que banqueiro & ladrão são a mesma coisa. Sempre se soube de histórias de pessoas que deviam os tubos a bancos e cometeram suicídio. Crise financeira sempre foi a maior causa dos suicídios. Eu diria que bancos são contra a vida: definitivamente são lugares do mal.

Depois da aventura das vidraças quem ficou com sequelas físicas fui eu. O nariz todo vermelho de ralar no asfalto & o cotovelo direito doendo e inchado. Queria agora alguma coisa com menos riscos de tombos. O Fábio não cabe em si, de tanto orgulho do nobre destino que seus poemas tiveram. Está Feliz & definitivamente convertido aos Distúrbios Cotidianos.

- Me sinto um rei, um monarca dos meus atos loucos.

- Viajão!

- Você não tem espelho, não?

- Meu espelho são meus atos, neles eu me reconheço, rárárá!

Fábio já é um típico chato contador de vantagens, depois de sábado então, ninguém atura mais suas explosões de lirismo de boteco.

- Pessoal, eu tava afim de uma coisa mais light durante a semana.

- Que foi, Ari, tá com medo?

- Mais ou menos, sábado foi muito foda.

- O quê então?

- Tava afim de abençoar um banco de novo.

Vinicius, que tinha achado engraçada a história do dia em que eu tinha me vestido de padre e entrado num banco, concordou no ato.

- Claro, véio! Tô doido pra participar de um negócio desses!

- Quero ser o coroinha, falou o Jean.

- Eu faço um catecismo, com uma capa louca!!- Gritou o Sergio da cozinha, onde estava fazendo uma de suas indefectíveis tortas de maçã.

O Fábio mora em Colombo e sua mãe é costureira, entreguei meu vestidão preto de 27 Reais que ainda estou devendo na firma, pra mãe dele dar um jeito pra que fique o mais parecido possível com uma batina. Ele diria a mãe que era pra uma apresentação de teatro. Não deixa de ser. O Sergio ia fazer umas hóstias, dessa vez ia ter que ter hóstias. Superprodução, com participação do time completo.

O alvo seria o Banco Santander da Av. Floriano, durante a semana na hora do almoço, quando todos estivessem livres de seus Trabalhos Forçados ou Aulas Alienantes.

A batina ficou espetacular, tinha até uma cruz prateada bordada no peito. Jean conseguiu outro candelabro de prata que tinha roubado da casa da Juliane, um vidrinho vazio de óleo de oliva importado para a água-benta e uma roupa para atuar de coroinha. Quando tentei exorcizar um banco, fui logo expulso do local porque minha roupa era altamente mandrake e minha água-benta estava numa garrafa de Coca-cola, tava na cara que eu não era um padre.

Agora seria diferente, nossa indumentária era decente. Vinicius queria ser o padre, ficou dois dias decorando umas passagens do Apocalipse e rabiscando sermões.

O sermão do caixa-eletrônico. O sermão da fila organizada. O sermão do saldo zero e por aí vai. Eu,o Fábio & o Sergio seríamos os fiéis penitentes, inadimplentes do Imposto de Renda.

- Não pagamos impostos, mas amamos Jesus Cristo Nosso Senhor.

Nos encontramos em frente ao banco cinco para o meio dia. Logo na entrada: o saguão dos caixas-eletrônicos. O Vini/Padre andava lentamente e com uma expressão grave inacreditável. Usava uma barba postiça e uns óculos redondinhos pra lá de cômicos. Quase caímos na garagalhada quando o vimos. O Jean de cabeça baixa, com a humildade conveniente a um coroinha iniciante, hilário. Aproximaram-se do primeiro caixa.

- Que Deus abençoe e livre a alma de quem se aproxima desta máquina criada para o mal.

Uma menina que estava no caixa ao lado deu uma risadinha, mas logo tapou com a palma da mão. Um senhor idoso, que estava mais longe e que não estava conseguindo digitar seus dados direito pergundou surpreso:

- O quê?!

- Que Deus perdoe a pobre criatura, cientista ou engenheiro não sei do quê, que projetou esta máquina satânica.

Todo mundo no saguão já estava olhando. O padre entoava umas orações com a voz baixa, quase sussurrando enquanto o coroinha abeçoava as máquinas com sua água-benta. Uma das meninas que auxiliam os clientes chegou perto, toda educada & com um sorriso magnífico.

- Posso lhe ajudar em alguma coisa senhor?

- Deus lhe abençoe minha filha, como entro na agência?

- Pela porta rotatória, senhor, se tiver carregando alguma coisa metálica, como um molho de chaves por exemplo ou telefone celular, deixe na janelinha ao lado está bem?

- Obrigado.

Deixaram os apetrechos de metal na janelinha e entraram sob o olhar desconfiadíssimo do guarda de segurança. Eu e os outros olhamos de longe e entramos logo depois. O Padre & Seu Coroinha distribuiram os catecismos aos clientes que estavam na fila. O catecismo trava-se de um cartão dobrado ao meio, com um desenho colorido do Sergio na capa e com o seguinte texto dentro:

"A maior parte do dinheiro no mundo não existe, não tem ligação alguma com nada material. No entanto, tem uma influência decisiva nas coisas materiais. Inclusive em nossas vidas. Essa é a mais perfeita descrição de uma entidade espiritual. Uma entidade do bem certamente não é, dadas as desgraças que o dinheiro causa ao mundo. Com certeza essa entidade não está do lado de Deus. É um demônio, trazendo a miséria & a injustiça ao mundo. A fome, as guerras & o sofrimento.

O dinheiro é o mal"

Um catecismo simples, mas eficiente. Todo mundo na fila comentava algo com o vizinho, uns rindo e outros com sinais de desprovação. Alguém deve ter dado a ordem, pois uma atendendente veio imediatamente acompanhar o Reverendo Vinicius & Seu Coroinha.

- Não esqueçam, irmãos! Deus reserva o perdão às almas arrependidas. A entrada do céu é estreita, porém não se cobra ingresso, não há consumação & o Paraíso é infinito.

- Amém, esclamamos eu, o Fábio e o Sérgio, cada um em um ponto estratégico da agência, formando um triângulo.

A questão é que se a princípio a gerência deixou nosso teatrinho rolar solto, era porque não sabia se tratava-se de um padre mesmo ou não. Jamais um gerente de banco iria faltar com educação com um padre na frente de seus clientes. Só que depois que o "padre" começou com aquele sermão estranhíssimo ficou claro que alguma coisa estava errada.

- Você está com oitocentos e não sei quantos reais negativos na conta? Não se preocupe, Deus não consulta o SPC.

O Jean estava distribuindo as hóstias aos sorridentes clientes que visivelmente estavam adorando o sermão do simpático pároco anti-capitalista, quando o gerênte aproximou-se. Mas o Universo de repente conspirou a nosso favor e na hora que o gerente falaria, uma senhora baixinha com uns 70 anos o interrompeu.

- Padre, Deus que me perdoe, mas acabei brigando com meu neto por não lhe dar o dinheiro que ele queria.

- Acalme-se minha senhora, sem saber, a senhora o ajudou.

- Mas senhor... (o gerente parecia atônito, muito mais que o gerente da C&A do dia das macarronadas)... vamos conversar um pouco?

- Conversar o quê, irmão?

Então um dos guardas de segurança passou pra ele um exemplar de nossos catecismos. Ele pôs os óculos e leu em silêncio, compenetrado. O negócio durou uns segundinhos apenas e o gerente olhou pro lado em direção a três seguranças que, no fundo da agência, já estavam doidinhos pra serem chamados. O maior deles veio correndo.

- Estes rapazes resolveram “brincar” de padre no lugar errado, chame por favor um policial que está de plantão do outro lado da rua.

Sujeitinho esperto & decidido, se ligou mesmo que era sacanagem nossa. Tirei o chapéu pra ele, mas de nossa parte resolvemos tirar o time de campo e zarpamos pela porta rotatória. O Jean mandou sua função de coroinha à merda e tentou sair pela tangente rapidinho também. Na hora em que estava saindo da agência o segurança grandão o agarrou pela roupa de coroinha.

- Onde pensa que vai?

- Tenho que voltar ao trabalho...

- Não sem ouvir umas verdades antes.

Então, na maior das intolerâncias, deu um tapa na cara do Jean, tão forte que o coitado chegou cair de costas no chão. Fábio viu o que estava acontecendo e voltamos correndo pro banco.

- Solta o cara, seu otário, ele não fez mal algum!

- Não se meta!!

- Me meto sim, não gosto de injustiças.

Enquanto o Fábio discutia com o segurança, eu e o Sergio juntamos nosso colega e o arrastamos pra fora, finjindo que ele estava mal, muito mal. Os clientes que assistiram a cena ainda nos olharam atravessar a rua e sumir de vista, logo depois veio o Fábio.

- Sujeitinho babaca, você tá bem Jean?

- Tranquilo, não foi nada, só um susto.

O Vinicius ficou sozinho e deu um monte de explicações ao gerente, na tentativa dele não chamar a polícia. Falou que era um seminarista novato e que acreditava em cada vírgula do que tinha dito e que curtia a Teologia da Libertação e que por favor, pelo amor de Deus, não fizesse nada que seus superiores pudessem descobrir e que jurava que estava fazendo a coisa certa e que Deus abençoa as almas sinceras e mais uma porrada de coisas. Encheu tanto o saco do coitado do gerente com sua ladainha que acabou se safando.

Acabou ficando por isso mesmo, o policial chegou a entrar no banco, mas o gerente pediu para deixar quieto, que a situação estava sobre controle e que o jovenzinho estava apenas um pouco nervoso. Quer dizer, mais ou menos por isso mesmo, a velhinha que tinha negado dinheiro ao neto virou sua devota, ficou dando tchauzinhos e jogando beijinhos enquanto ele saía do banco. Acreditou mesmo na parada. E a mina da risadinha do caixa-eletrônico, se engraçou no Vini e curtiu a cena toda do início ao fim.

Nos encontramos todos no termômetro da Praça Rui Barbosa. Foi divertido pra caralho, o tipo de história que fica melhor conforme se lembra & conforme se conta. O termômetro da Rui Barbosa tem uma parada que marca os decibéis pra medir o nível de ruído da praça. Berramos de felicidade e fizemos um duelo de gritos feito uns retardados.

Jean, trinta e cinco decibéis acima do que estava marcando. Sergio e Fabio empataram, trinta e oito decibéis cada um. Eu, tomei no cú, trinta e três decibéis, estava rouco.

O grande vencedor: o Padre Louco, São Vinicius, padroeiro dos cara de pau, quarenta e dois decibéis.

Umas Surpresinhas Para Uns CD-Players

(ato cinco)
Um dia uma amiga me ligou contando que tinha recebido um estranho postal. Não tinha remetente, apenas uma frase escrita com letras recortadas de revista, no estilo dos bilhetes que os sequestradores enviam. A frase era: "O mundo está estranho ou sou eu que não presto?"

Lembrei disso porque no dia em que fizemos a "missa" no banco, Vinicius pegou o telefone e o endereço da mina que tinha se engraçado nele e estávamos discutindo como ele entraria em contato. Vinicius queria usar o "Método Sérgio Augusto de Abordagem."

O método usado por nosso amigo artista plástico consiste em presentear a pessoa com estranhos fetiches pelo correio. Um CD, um cartão, um verso, uma flor, tanto faz o presente, a questão é a distância e a aura de mistério. Sérgio sempre fez isso com as mulheres, se mantendo anônimo até onde era possível. Só que com o Vini teria de ser diferente, pois não era anônimo.

- Eu posso chegar perto da casa dela e mandar um moleque entregar um bilhete num tom dramático: "Socorro, ajude-me, salve um gato na frente casa tal, endereço tal". Aí espero ela em cima de uma árvore na frente da casa.

- Ih, cara! Não sei, acho que não, ela não vai levar a sério o bilhete. - Respondeu o Jean.

O Fabio ainda tava naquela viagem dos estilingues.

- Convida ela pra sair num bilhete e manda ver na vidraça da casa dela.

- Tá viajando, cara? Ele tem uma mãe e um pai que certamente não vão gostardo teu romantismo e é provável que nem ela vai levar a coisa na boa.

No fim acabou usando a maneira mais prosaica: ligar para sair. No entanto seguimos conversando sobre mandar coisas pelo correio e o assunto acabou chegando no postal de minha amiga e em Fraude Postal.

- Taí cara! Uma coisa massa pra gente fazer fim de semana! – Gritou o Jean do canto da sala.

- Fraude postal?

- Pode crêr!!

- Não dá, veio. O correio não funciona fim de semana.

- Correio o caralho! Nós seremos os carteiros!

- Que coisa mais brega...

- Seria se não fizéssemos as coisas um pouco diferentes.

- Diferentes?

- Claro! Aos invés de deixarmos as coisas nas caixas de correio, podemos invadir o pátio ou talvez as casas e deixar em lugares estratégicos.

Grande Jeanzinho! A galera toda tava se coçando de vontade de fazer umas invasões de novo, invadir a casa da Ju tinha sido muito tesão. Só que dessa vez não teríamos manha nenhuma pra invadir nenhuma casa, seria território altamente desconhecido. O Fábio foi quem teve a idéia macabra da vez: gravar uns Cds com uns sermões do "padre" Vinicius e tentar deixar o disquinho dentro do CD-player das casas. Arriscadamente genial. O tipo de idéia perigosamente sedutora. Optamos por atacar um bairro mais da periferia com menos chances de terem alarmes.

Não deu outra passando a madrugada de sexta inteira fazendo planos e capinhas pros CDs. Vinicius foi que investiu grana no negócio, comprou dez Cds virgens e foi com o Fábio gravá-los na casa do Tharsis, que tinha o gravador. Gravou uns discursos verdadeiramente emocionados, no fim do discurço gravou aquele som brega do Evaldo Braga, “Sorria sorria” só pra avacalhar e não se levar a sério demais. Quase nos cagamos rindo ouvindo o resultado depois, ficou muito muito engaçado.

Sábado à noite pegamos o Interbairros V e fomos até o Terminal Fazendinha, desta vez com presença feminina, a mina do Vinícius, Marília é seu nome, topou ir junto. Levamos um garrafão de vinho pra beber depois e o mocamos numa árvore no parque que tem perto do terminal.

Decidimos não nos dividir e enquanto eu o Vinícius agíamos, os outros ficaram de campana pra avisar se qualquer coisa desse errado. Marília não quis ir junto de jeito nenhum. Afinal, sábado de madrugada é uma hora meio suja pra vandalismos. Muito movimento, muito gente acordada vendo TV até tarde...

Na primeira casa tudo indicava que seria moleza, todas as luzes estavam apagadas e as casas vizinhas estavam em silêncio, tudo indicava que daria pra arrombar e cada um dos outros ficou escondido atrás de uma árvore na rua. As aparências enganam, pulamos o muro e fomos em direção à janela da cozinha, que com apenas um vidro quebrado daria pra entrar. Quando chegamos perto, eis que surge um enoooorme cachorro de não sei que raça babando de raiva. Meu coração quase parou, gritei pro Vini e saímos correndo desesperados. O filho de uma cadela ainda acordou todos os outros cachorros da vizinhança. Corremos todos e abandonamos a rua. Tentativa frustrada.

Andamos um monte até acharmos uma outra casa em condições. Tinha um puta de um jardim na frente e era bem tranquila, entenda-se: sem cachorros. Forçamos todas as janelas até que uma cedeu, quer dizer, mais ou menos cedeu, foi só puxar um pouco e o trinco na verdade quebrou.

- Deus deve ser um vândalo - Disse o Vinicius sorridente.

Entramos com relativa facilidade, o mais difícil foi achar o som no escuro munidos apenas de um isqueiro. Encontramos o aparelho no que aparentava ser o quarto do casal. Enquanto o Vinícius colocava o disquinho, escrevi a frase padrão no guarda-roupa: "Seja realista, exija o impossível". Saímos rapidinho e sem desepertar nenhum cão alerta. Sucesso total.

No fim da rua encontramos outra casa vazia. Desta vez tivemos que quebrar o vidro da janela da cozinha e o cachorro da casa ao lado latiu. Íncrível como tem cachorro nessa porra dessa cidade. Os caras ouviram os latidos e começaram a assobiar indicando perigo.

- Não dá nada, vamos nessa!!! - O Vinícius tava ficando ousado.

Entramos na cozinha e me cortei um pouco a mão com os estilhaços. O som estava na sala e desta vez não escrevi nada, o cachorro do vizinho e os assobios da galera estavam me deixando nervoso. O ousado Vinícius teve então a idéia mais imprudente da noite, talvez até da sua vida, pular o muro da casa ao lado que tinha o cachorro latindo.

- É um cachorrinho pequeno e barulhento, deve latir pra qualquer coisa e ninguém deve dar bola e além do mais parece que não tem ninguém em casa.

Não consegui convencê-lo do contrário, o povo da campana parou de assobiar e ele pulou o muro. Só que dessa vez o lazarento quebrou uma enorme de uma vidraça que fez um barulho assombroso. O cachorrinho quase se esganiçava de tanto latir. Bateu um cagaço incontrolável e fuji do local. Admito, fui covarde e abandonei um colega em pleno campo de batalha. Os outros, principalmente Marília, já estavam desesperados.

- Cadê o Vini?

- O cara fez um barulhão!! Vamos andando depois ele nos alcança!

- Nada! Vamos esperar senão vai ser foda achar ele de novo.

Uns três minutos depois ele surge com sua carinha deslavada dizendo que deu tudo certo. Ninguém quis saber de detalhes e saímos correndo todos. Corremos mais umas oito quadras até chegarmos a uma rua bem mais deserta mesmo, dessas esquecidas pela prefeitura, com os postes cheios de lâmpadas queimadas.

Sergio, sempre o mais cagão da turma, logo se manifestou:

- Nessa rua acho que entraria numa casa com voçês pra pintar umas paradas nas paredes.

- Cara de pau, fica aí!

Era uma rua bem tranquila mesmo, bem escura e com um terrenão baldio no fundo. Limpeza total. Só que a Marília começou a ter uns chiliques de nervosa e o Vinícius teve que ficar com ela, o Jean que foi comigo dessa vez. Entramos numa que estava com as janelas abertas e as luzes apagadas. Arriscado pra caralho e minhas mãos suavam. Meus colegas estavam ousando demais pro meu gosto, acho que alguém vai ter que cair pra galera se ligar.

- Jean, voçê tá ficando louco?

- Esse não é um trabalho pra mariquinhas.

Espiamos pela janela da sala, tinha um sujeito deitado num sofá dormindo embaixo de um cobertor com a televisão ligada. Pulamos a janela bem devagarinho desejando loucamente sapatos de veludo. Pé por pé analisamos a sala na penumbra e localizamos o som. Jean trabalhava enquanto olhei rapidamente os outros cômodos da casa, ainda bem, o sujeito estava sozinho e eu fiquei cuidando. O cara deitado no sofá roncava & dava um peido a cada trinta segundos. A sala tava fedendo pra cacete, tive que tapar o nariz.

- Cara, tá me revoltando o estômago. – Cochichei.

- Se você vomitar aqui eu te mato!

Quando o eject do aparelho foi pressionado, fez um barulhinho que regelou minha alma, começei a tremer incontrolavelmente, pensei que ia ter um troço.

Jean colocou o Cd bem devagarzinho e na hora que o negoçinho fechou, deu uma estaladinha que fez nosso mundo desabar. De baixo do cobertor do morador saiu um cachorrinho, acho que um filhote, latindo pra cacete, levantei de onde estava pra fujir e escorreguei no tapete. O Jean desapareceu pela janela da sala. A hora que levantei e dei uma olhada pra trás deu tempo do cara levantar o rosto e me encarar. Foda, foda, foda! Nem lembro o que se passou na minha cabeça, tá tudo meio confuso até agora, lembro apenas que pulei a janela num Cagaço Animal e cheguei na rua gritando feito um louco:

- Vamos embora! Embora! Embora!

- Cala a boca idiota!!!

O dono da casa saiu muito indignado, só de bermudão e camiseta regata com Uma Careca & Um Barrigão enormes & uma chave de carro na mão. Pulamos um muro a uns 50 metros de distância e ficamos todos em silêncio, acuados. O cara então entrou Caravan marrom podre de velha e saiu rondando o bairro atrás de nós. O cara ficou brabo mesmo, ele e seu cãozinho que não parava de latir na janela do carro.

Ficamos agachados atrás do muro um tempão. Eu estava nervoso, toda vez que alguém falava em saltar fora eu pedia pra esperar um pouco mais.

- O homem viu meu rosto, foi foda, a gente chegou a se encarar.

O Jean dava risada da minha cara e me tirava onda até me deixar louco.

- Ri baixo, cara, ri baixo!

Foi então que Vini e Marilia vieram animados dos fundo do terreno baldio.

- Gente! Dá pra siar por aqui!

Tinham achado uma trilha no meio do mato que dava num campinho de futebol. Daí foi fácil, corremos e rapidinho estávamos de volta no Mocó do Garrafão de Vinho. Bebemos & Rimos até enchermos a cara. Fábio subiu numa árvore do parque e uivou de bêbado feito um lobo. Eu bebi demais e acabei chamando o Hugo, vomitando cada vez que lembrava dos Peidos do Gordão. O Sergio que não bebe e é devoto de Nossa Senhora Dona Preguiça, dormiu. Vinicius & Marília sumiram, acho que transando em alguma Moita Anônima e o Jean ficou tocando sua mini gaitinha de boca que carrega sempre no chaveiro.

Uma melodia dormindo com a noite, pra embalar uns poucos sonhos.

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