Manual prático



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O Discreto Charme de uma Briga de Boteco

(ato seis)
Durante a semana que passou começamos a discutir mais seriamente os métodos e efeitos reais de nossa Panfletagem Subliminar. Em nossos últimos ataques ao cotidiano corremos riscos demais, cagaços realmente assustadores. Não esquecerei jamais o olhar daquele gordo peidorrento que me flagrou em sua sala. Ainda por cima no domingo, durante minha infernal ressaca do vinho que tomamos na comemoração no Parque da Fazendinha, um temporal diluviano desabou sobre Curitiba com direito a toneladas de granizo. Um sinal, interpretei como um sinal.

Sem contar que a imprudência de meus colegas, em especial do Jean, Vinicius e Fabio, certamente nos colocará em sérias enrascadas se mudarmos de atitude.

- É o seguinte galera, precisamos baixar a bola.

- Com certeza! - que o Sergio fosse concordar eu já sabia.

Sergio sempre foi um cara calmo e tranquilo. Foi muito foda convençê-lo a fazer aquelas paradas com os quadros na noite da invasão. Depois disso ele ficou mais decidido, passou a ir com a gente nos ataques, por exemplo. Mas enfim, dá pra se dizer que agora ele tá funcionando como uma âncora pra gente.

O problema é o Vinícius, que na hora do pega pra capar chuta o pau do barraco e se arrisca à toa; O Jean que anda numas de se misturar e puxar assunto com chaveiros e o Fabio, que tá pirando em comprar uma arma. O Fabio até que dá pra descontar porque é só papo, tipo aqueles cachorros pequenos que latem pra caralho e não mordem.

Pra resumir a questão eu tava afim de um negócio sem riscos pra dar uma relaxada e uma acalmada nos ânimos. O Sergio, aproveitando a oportunidade, foi o que mais insistiu nos conceitos de Panfletagem Subliminar.

- É legal, fazer um discurso sem que as pessoas se liguem na parada.

- Mas o que estamos fazendo não deixa de ser isso. - Retrucou o Fabio.

- Sim, mas eu tava pensando numa coisa mais ao pé da letra, tipo TFO, Terrorismo de Formação de Opinião.

Aí a galera foi à loucura com as viagens do sujeito.

- Agora eu vi que você pirou!

- Porquê que todo artista gosta de vir sempre com essa banca de surreal?

Mas o Sergio teve uma idéia, dessas tipo eclipse, a cada noventa anos.

- Pra fazer um TSO a gente bola tipo uma peça, tem que ser um troço que choque as pessoas, que toque a pessoa fundo e que clame por discussão, tipo construir uma opinião apartir do alicerçe.

- Não tô entendendo porra nenhuma!

- A gente faz num bar, tá ligado? Num bar. Vamos todo mundo combinado e começamos a discutir e levantar certas lebres.

Taí, Sergio demorou mas chutou a gol. Armar o maior rebuliço num boteco, como se fossemos todos estranhos e começar a discutir assuntos estratégicos.

Eu chamaria esse tipo de operação de TPAO, Terrorismo de Pulga Atrás da Orelha, mas tudo bem, a idéia foi dele, tenho que aceitar.

Por fim escolhemos um boteco perto do Terminal de Ônibus do Guadalupe, no centro. Escolhemos a Lanchonete Tropical porque tava frio e chovendo e achamos o nome palhaço. O assunto seria o "arrastão" que uns assaltantes fizeram num condomínio da alta burguesia aqui em Curitiba: dicutiríamos o direito à propriedade privada. Sutilmente é claro.

Jean entrou no boteco com a Tribuna do Paraná da semana passada, pediu uma cerveja e ficou lendo a matéria do assalto. Uns minutinhos depois entrou a Marília, namorada do Vinícius, comprou uma carteira de cigarro e quando viu a reportagem que ele tava lendo comentou:

- Esses assaltantes se deram bem, hein? Devem estar na praia agora, só curtindo. Né tio?

O tio dono do bar deu uma risadinha meio sem graça.

- É! ... pelo menos roubaram gente rica, né?

- É isso aí! - Pegou seu cigarro e saiu fora

Então, quando a Marília sai do bar, Jean se manifesta:

- Quer saber de uma coisa? Aqueles caras fizeram uma baita dum trabalho bem feito, nenhum daqueles riquinhos sentirá muita falta das coisas que os assaltantes levaram.

- É isso aí, s-sangue bom! - Resmungou um mendigo com seu martelinho de pinga na mão.

Então o Vinícius se encostou no balcão e pediu um pastel e um pingado, ele seria O reacionário.

- Esses filho da p-puta p-precisam se fu-fuder um pouco. - O carinha tinha que se escorar no balcão pra não cair de bêbado.

- Se eu pudesse pagaria uma cerveja pros caras.

- Só!


Vinícius então olhou com uma cara de indignado pros dois. Eu o Fábio permanecemos quietos, cada um em uma mesinha, ele com uma cerveja e eu com uma Tubaína de framboesa de 600ml e 80 centavos.

- Escutem aqui vocês dois, estão elogiando pessoas que roubaram cidadões honestos que ralaram pra comprar o que tem. Ladrão agora é gente?

- Ninguém fica rico trabalhando, tem roubar pra chegar lá, se o sujeito tem muito, pode ter certeza que é às custas de muita gente terem pouco.

- Ah, cala a boca, como você pode falar uma merda dessas? - Falou o Vinícius, já levantando a voz.

Jean baixou os olhos no jornal e ficou quieto. Então o Fábio gritou da mesinha onde estava.

- Caralho, não acredito nisso! Cidadão! Chegue aqui mais perto! - Estava fazendo uma cara de invocado e Vinicius se aproximou com uma expressão cautelosa.

- Na natureza não existem posses, todos os bichos vivem em harmonia porque nenhuma onça é dona de nenhum mato, nenhum peixe é dono de nenhum açude e nenhum pessarinho tem pagar aluguel pra fazer ninho.

O bebum deu uma sonora gargalhada e eu me meti na conversa.

- Os cachorros mijam e aquele mijado passa a ser dele, tipo fica dono.

Todos me olharam, até o dono do bar e os outros fregueses que começaram a prestar atenção na discussão. Nesse meio tempo entrou o Sergio e um engraxate que estava na porta e que começou a engraxar seus sapatos.

- Peraí rapaz, o cachorro não demarca o território como se fosse SEU, só faz isso pra fazer tipo uma residência e sentir um tipo de conforto, a natureza é harmônica. Se tudo fosse de todos não existiria roubo.

Aí o povo que estava no bar começou a se manifestar também, cada um com sua opinião, Vinícius que parecia o mais exaltado.

- Se um filho da puta ousar invadir minha casa pra pegar um pedaço de pão sequer eu encho o lazarento de bala.

O mendigo pediu mais um copo de pinga, desta vez dos grandes e começou a prestar atenção.

- Você fala isso porque deve ter tudo de bom em casa e não deve te faltar nada.

- Tenho! Tenho sim e foi às custas de muito trabalho.

- E se teu pai perder o emprego, como tá acontecendo com muita gente?

- Roubar é que eu não vou.

O mendigo tomou o resto da pinga de um gole só e soltou essa pérola:

- Quem n-nunca p-passou fome não sabe mesmo p-porque se rouba.

Todos olharam pra ele e dessa vez foi o engraxate quem deu risada.

- Você sabia que se pegarmos todo o dinheiro do mundo e repartissemos entre todos ficaríamos todos ricos e a economia ia pra cucuias? Sabe porquê? Porque essa merda de mundo do jeito que está precisa de pobres para que aquilo que os ricos possuem, tenha algum valor! A única vantagem de você ter um carrão importado é que os outros não tenha e assim poder esnobar.

O Jean fechou o jornal, não era mais necessário e deu sua opinião:

- Concordo com isso. - Só pra deixar o Vini mais puto ainda.

-Não acredito! Isso é papo de vagabundo que tem medo de trabalho. Você pensa que o desemprego é tão alto assim? Alta é a vagabundagem. Todo mundo tem direito de ter tudo aquilo que puder comprar.

- É, mas tem gente que tem demais. - Comentou o dono do bar.

- É verdade, falei.

Fabio tava começando a se entusiasmar:

- Se ninguém tivesse direito de possuir nada como se fosse seu, só seu, praticamente não existira crime, pois ninguém pode roubar nada se pertence a todos. Nem a polícia precisaria existir.

Dessa vez foi um frequentador do boteco quem se manifestou.

- E os assassinatos?

- Assassinatos? A maioria dos crimes é por causa ou de ganância ou pobreza mesmo, os poucos crimes que sobram tipo os devido a dor de corno poderiam ser decidido na base da justiça pelas próprias mãos.

- Aí já seria barbárie.

- Barbárie? Barbárie é o que está acontecendo hoje em dia. Do jeito que as coisas estão, com quem tem tendo cada vez mais e quem não tem tendo cada vez menos, você vai ver o que vai acontecer com os teus filhos.

Tinha um tio gordão mandando ver nos pastéis com café preto que fez um comentário debaixo de seu enorme bigodão.

- Uma coisa esse rapaz tem razão, tem muita gente com dinheiro demais, acho que tinha que ter alguma lei que regulasse a quantidade de dinheiro que a pessoa pode ter.

Dessa vez fui eu a acrescentar.

- Leis? Mais leis? Você já viu o tamanho dos livros que os advogados carregam? O senhor acha que lei resolve? Enquanto existir lei vai existir neguinho desobedecendo a lei.

- É verdade, e polícia não resolve nada, já reparou que quanto mais polícia se bota nas ruas, mais as coisas descambam.

De repente todo mundo no bar tava questinando polícia, escola e até a igreja, teve um que falou.

- Essas Igrejas Universais são a maior prova de que nem a religião resolve mais, os pastores mantém seu rebanho mais ou menos comportado, roubam seu dinheiro e cada fiel que abandona a igreja se revolta com o mundo, conheço um monte de gente lá no bairro que foi assim, menino saiu da igreja virou maloqueiro, menina saiu da igreja virou puta. O negócio vai complicar cada vez mais desse jeito.

Vinicius estava interpretando um reacionário com perfeição.

- Só sei dizer uma coisa meus filhos terão educação, roubar ou mendigar é que não vão.

Foi a gota dágua, o mendigo já tava bêbado e indignado com o Vinícius fazia uma cara, pegou a garrafa de cerveja do Jean, quebrou no balcão e foi pra cima. Imediatamente tivemos que esquecer nosso teatrinho e defender nosso amigo. O Sergio segurou o cara e o Vinícius saíu do bar chingando todo mundo. O engraxate se cagava de dar risada e o dono do bar chamou um PM que fazia ronda no Terminal Guadalupe.

Pela primeira vez tivemos um contato com a polícia, mas sem grandes estresses, o dono do boteco explicou tudo ao guarda e ele queria levar o mendigo em cana. Pagamos a conta e a garrafa quebrada e convencemos o policial a deixar tudo quieto, que o coitado não teve culpa e que foi tudo provocação de um mala que já tinha ido embora. Saímos do bar junto com o mendigo, quase que carregando-o.

Este foi nosso primeiro ato de Panfletagem Subliminar Teatral, teve suas falhas de funcionalidade mas até que foi divertido. Eu e o sergio participamos pouco, mas já deu pra mais ou menos ver como as coisas funcionam, é só dar corda que a galera se enforca. Tenho certeza que todo mundo que estava lá saíu comentando a história e pensando um pouco mais na razão da existência da propriedade privada.

Nos encontramos todos no terminal depois e tomamos quentões com o mendigo até passar o frio e a chuva, comentando a história e rindo. Foi legal quando o Vinicius chegou, devagarinho, cagado de medo do mendigo. Tentomos explicá-lo que era uma farsa que tínhamos criado, mas ele tava tão bêbado que não entendeu bosta nenhuma, apenas abraçou o Vini, missão cumprida.

Os Don Juans do interbairros I

(ato sete)
Domingo à noite fomos conferir a performance de Oneide, vocalista do Pelebrói Não Sei, lá no Empório São Francisco. Punk rock na veia & muita diversão. Teria sido uma noite comum de maloqueiragens diversas não fosse o Fabio ter bebido demais e agarrado a mulher mais feia do lado de cá da Galáxia.

Saímos do bar logo depois da meia noite e assim que o Fabio se despediu da mina já caímos logo na arriação.

- Caralho! De que planeta era aquele monstro?

- Vão à merda vocês todos!

- Fabio, de fé que se o meu cachorro tivesse aquela cara, te juro que eu raspava o rabo dele e ensinava andar de costas!

Enchemos o saco do cara, mas enchemos mesmo. Ele nem tentar se defender muito. Mandava todo mundo se fuder e seguia andando de cabeça baixa e cara amarrada. Na segunda ficou mais calmo e começamos a discutir.

- Pessoal, vocês precisam se ligar que beleza hoje é uma obrigação.

- Como assim São Jorge?

Todo mundo soltou aquela risadinha espremida.

- Hoje em dia todo mundo tem que interpretar um personagem que já vem pronto. Pronto mesmo, todos os acessórios se encontram à venda, roupas, discos, livros e maneiras de se informar.

- Tá, mas e daí?

- E entre todos os personagens desse teatrinho besta a questão da beleza é quase unânime. nem sei se dá pra dizer que é unanimidade, é tirania mesmo.

- Acho que tu tá falando, falando e não tá chegando em ponto nenhum.

-Aí que tem todo um mercado faturando em cima desses padrões de beleza que andam por aí. Ao contrário dos outros personagens, quedá pra escolher entre uma porrada de estilos e opções, o personagem bonito não, são poucas as opções para se "ser bonito."

- É... Você não deixar de ter um pouco de razão...

- Olha só galera, o que um cara não faz pra se defender por ter agarrado um dragão!

- Rárárá!!!!

- Vão tomar no cú e prestem atenção: existem Mais & Melhores Formas de Beleza.

- O filósofo das Raimundas!

- Hoje só se valoriza o externo e mesmo assim só o mais óbvio. Aquelas sutilezas, aqueles detalhinhos, não aparecem na fita.

- E onde você quer chegar?

- Quero chegar numa nova idéia para nossos ataques.

- Lá vem bomba!

- Pegamos um ônibus circular, sentamos todos espalhados, cada um sozinho num lugar diferente e começamos a encarar, mas encarar mesmo, usando todas as tecnicas de sedução aprendidas na Longa Estrada da Vida, encarar aquelas minas excluídas pelo Mercado da Beleza.

- Pronto! O cara enrolou, enrolou e encontrou a explicação perfeita pra ter agarrado uma mocréia ontem à noite: estava fazendo Ativismo de Inclusão social.

Caímos na gargalhada, mas por fim admitimos que a idéia era boa. Sérgio, o apaixonado de plantão foi o que mais pirou com a idéia e implorou para escrever bilhetinos para entregarmos pras minas quando elas descessem do latão.

Jean tem umas teorias de que pela manhã as pessoas estão mais sensíveis e inspiradas, então escolheu um horário meio maluco pra operação: Seis da manhã, interbairros I. Pelo menos estariamos todos livres de nossos trabalhos forçados.

Dormimos todos na kit dele e do vini e o sergio passou a madrugada inteira escrevendo os "bilhetes". Quando acordamos estava pronto. Ficou mais ou menos assim, inspirado em Tyler Durden, mas tudo bem:

"Este é um mundo oprimido pela Ditadura da Cintura Fina, dos Peitos Siliconados & das Bundas Empinadas.

O Fascismo da Beleza Comercial.

Só que existem as seguintes verdades ocultas:

Você não é a sua cintura.

Você não é seus peitos.

Você não é sua bunda.

Você é especial, única no Universo e não cabe em nenhum rótulo dessa sociedade tirana.

Você é linda!"

Apedar da galera achar brega, eu particularmente gostei. Existe charme também na chinelagem. Pegamos o buzum no Centro Cívico dez pras seis da manhã e tava um frio do caraaaaaaaalho. quando sentei no banco do ônibus parecia que tava sentando numa barra de gelo. Isso que eu tava com duas calças: tradição particular pra sobreviver ao desumano frio curitibano.

Mal sentamos e já começamos a escolher nossos alvos. No banco do outro lado do corredor tinha uma moreninha de óculos & cheia de espinhas. Começei a olhá-la e quando ela percebeu começou a olhar para a janela. Continuei. Quando elea se virou e viu que eu continuava olhando levantou-se e sentou bem longe. Pensei: "É Arizinho, você deve se rum dos excluídos da Teoria do Fábio!". Olhei para o Jean e quase soltei uma risada, tava com uma cara de tarado que era um sarro. Sempre foi o conquistador da turma, o Brad Pitt e tava se dando bem. Agordinha da ferente dele sorria envergonhada e olhava pros lados pra ver ninguém estava se ligando na paquera.

A onda do Vinicius era o sorrisinho monalisa que aprefeiçoou com o passar dos anos. Escolheu uma coroa, pinta de solteirona e parecia que ela tava meio inquieta. Tipo surpresa com o flerte mesmo. Lia um daqueles romances Julia que se vende nas bancas e não conseguia se concentrar.

Sergio, com sua timidez crônica, nunca tinha intimado uma mulher na cara dura na vida sem antes cercá-la com presentes & cartas anônimas, acabou que ficou dormindo no fundo do ônibus mesmo.

Agora em termos de Cara de Safado Fabio era quem bate os recordes. Escolheu criminosamente uma menininha novinha, uns 16 anos, sequinha de magra e com um óculos fundo de garrafa que de tão grosso o rosto dela aparecia pequenino por tras das lentes.

Uma japonezinha desajeitada entrou e ficou de pé ao meu lado e resolvi investir no negócio. Dessa vez não fui tão mal, ela não deu bola mas de vez em quando espiava curiosa para ver se eu continuava encarando. só que desceu logo, na hora que deu o sinal e foi em diração à porta de desembarque entreguei-lhe o bilhete.

- Pra você!

- Hã?


- Pra você, leve!

Desceu e ficou olhando intrigada pra mim conforme o ônibus saiu andando. Olhei para o Jean e o lazarento já tava sentado no lado da gordinha. Não dava pra ouvir o que falavam, mas estavam rindo animados. A magrinha do Fabio sentou num banco que vagou e ele pulou logo no lado. Ficava olhando de canto de olho e dando sorrisos, mas ela virava o rosto pra janela.

Vinicius era quem estava mais empenhado. A mulher guardou a Julia, conferiu alguma coisa no celular, olhou -se num espelhinho, pegou a Julia de novo, guardou, enfim, estava nervosa.

Então a mina do Jean levantou-se, despediram-se com beijinhos e desceu como o bilhete na mão, toda orgulhosa. Quando o ônibus saiu ela ainda ficou acenando da calçada. Jean sentou do meu lado e ficamos curtindo os olhares do Fabio pra magricela. Era engraçado, a mina virava o rosto completamente, ficando quase de costas pra evitar os ataques. Fabio perguntou-lhe as horas e ela respondeu ja se levantando. ficou de pé ao lado da porta o resto da viagem. Na hora que ia descer Fabio entregou-lhe o bilhete.

Deu pra ver que ela saiu andando na rua a passos largos, invocada, sem nem ousar a olhar pro ônibus ou pro papel que levou na mão. Quando Fabio chegou perto da gente já começamos a tirar sarro:

- Cadê o São Jorge?

- É Fábio, ela era gata demais, tuas táticas só funcionam com as feias.

- Vão se fuder, pelo menos ela levou o papel. E ainda coloquei um poeminha massa junto

- E ela vai ler?

- Claro, senão nem tinha pego, braba do jeito que tava.

Nosso papo foi interrompido por um bate-boca lá na frente. Todo mundo no ônibus estava olhando. Era a coroa do vinicius.

- Você não tem vergonha na cara seu moleque? Só porque não uso aliança não significa que não seja casada!! Não acha melhor se informar antes de soltar uma cantada besta?

- Mas senhora...

- Você trata de calar essa sua boca!! Não ouse falar mais uma palavrinha. eu já vou descer mas ouve o que vou te dizer seu moleque! Preste atenção no que faz, muita atenção, ou ainda pode se dar muito mal!!

Vini entregou o papelzinho pra ela com as mãos tremendo.

- O que é isso?

- Um pedido de desculpas, acredite!

- É bom que seja, seu moleque descarado!

Desceu furiosa e Vinicius olhou pra nós com uma cara de perdido que era o fim do mundo de tão engraçada. Todo mundo no ônibus riu da cara dele. Sentamos juntos tirando onda uns dos outros até chegarmos no ponto perto da rodoviária onde desceríamos. Sergio era o que mais ria.

- Grandes Conquistadores de Araque!

- Eu me arreguei! - Cantou de galo o Jean.

- É, mas só você!

Saímos andando na calçada quando o Universo, Deus, Jeová, Alá ou sei lá o quê conspirou por nós. Na calçada, perto do meio fio eis um milagre: uma nota de cinquenta reais dobradinha. Fabio pulou pra pegar e quando desdobrou abrou um sorrisão de orelha a orelha: eram três notas iguais. Os Ativistas da Inclusão social foram recompensados pelo acaso.

Enchemos a cara de Capuccinos numa lanchonete da rodoviária, vestimos nossas máscaras e fomos para nossos trabalhos forçados com o coração leve e as almas lavadas.

A Gurizada Big Mac Feliz

(ato oito)
Achar cento e cinquenta reais na rua não é para qualquer um. Quinhentos mil tipos de eventos devem ser sicronizados, acasos dos mais absurdos, para que a grana venha parar no seu bolso. Nós fomos os sorteados da vez neste Fantástico Evento Cósmico. Um Gigantesco Globo cheio de bolinhas numeradas e saiu justamente o nosso número. Coisa de louco. Tivemos discussões monstruosas pra decidir o que fazer com a grana. Todos concordavam que a grana era de todos, ia ter que sair um consenso de um jeito ou de outro.

Nem estávamos falando sobre isso quando surgiu a idéia. Jean estava contando do dia em que sua moto estragou perto da Vila zumbi e ele saiu em busca de ajuda e se sentiu cabreiro no meio de uma ambiente estranho. Foi na cabeça do vinicius que açendeu a lâmpada.

- A gente pode usar a grana pra gerar uma situação inversa a essa do Jean.

- Situação inversa.

- Lembra aquela que os caras do MST foram num shoping e os lojistas fechavam as portas de medo? Não lembro nem se isso aconteceu mesmo ou eu sonhei. Pois é, a gente pode fazer parecido. Façam as contas: com cento e cinquenta reais dá comprar vinte McLanche Feliz!

- McLanche Feliz? Vai dar a grana pro Império agora, é?

- Ativista de butique é foda!

- Calma, rapaziada estressada! É só a gente fazer as coisas de um jeito que pagariam o triplo para que não gastássemos a grana lá.

- Conclua o plano, por favor, conclua. - Falou o Fabio coçando a barba rala.

- Convidamos vinte piás de rua pra fazer um lanche numa praça de alimentação de algum shopping.

- Rapaz...

- O que vocês acham?

Não tínhamos muito o que falar: era um plano simpático. Todos ficaram quietos e cada um, mergulhado em seus pensamentos, foi sendo seduzido aos poucos pela idéia.

Não seria difícil encontrar a gurizada ideal. Sempre vagabundeamos muito pelas ruas da cidade e conhecíamos muitas figuraças da delinquência infantil. Eu mesmo conheço uns quantos e quanto mais pensava nas possibilidades mais ficava animado com a ação.

A ação foi marcada para um sábado à tarde, momento mais ou menos tradicional para compras. Famílias inteiras passeando pelo Paraíso do Consumismo. Iríamos relembrá-los do custo social daquele conforto e daquele ar-condicionado central em meio ao frio do inverno curitibano.

Começamos nosso recrutamento perto das onze da manhã na Boca Maldita. Eu conheçia um polaquinho que dava beijos no rosto das pessoas antes de pedir moedas, mais duas menininhas, entre 4 e 5 anos que vendiam chicletes.

Meio dia já estávamos com o time completo. Um autêntica turminha do capeta. A aparência de nossa multidãozinha era tal que ninguém ficava no mesmo lado da quadra que nós. Fábio e Jean arrumaram uns cheiradores de cola e Vinicius ficava tentando explicá-los que se eles cheirassem antes do lanche não iam sentir fome.

- Sério tio? Se tú não fala nóis não sabe.

- Fica sossegado aí!

tinha uns que ficaram amigos mesmo e enquanto íamos ao Shopping Müller começaram a contar histórias de como eles se viravam e como roubavam as paradas e que fome não passavam. Eram uns autênticos caçadorzinhos.

- E como é que vocês se escondem?

- É! Onde é que vocês dormem, pra onde é que vocês fojem quando o bicho pega?

Então nos mostraram uns lugares incríveis. Autênticos pontos que o mapa não cobre. O mapa não é o território. Lugares nos miolos dos quarteirões. Banheiros de fundos abandonados, depósitos esquecidos e pasme, até uma capelinha nos fundos de um troço que um dia foi uma mansão.

Fora os esgotos e os tuneis secretos. Em resumo: os guris eram feras. Chegando no Müller logo quebramos a cara. Um moreno muito bem engravatado, logo na entrada, cortou nossos embalos. Na hora que ele viu aquela maloqueiragezinha reunida disse não. Nem discutímos, apesar dos protestos do Panfletário Vinicius, afinal tínhamos ainda o Curitiba e o Plaza pela frente. É, curitiba tem três opções de shopping pra você viver seu consumismo e escolher quem te enraba.

Quando estávamos indo para o Shopping Curitiba o passeio começou a ficar mais divertido. A gurizada começou a se soltar mais e os transeuntes realmente se impressionavam e se preocupavam com a cena. Mulherada protejendo as bolsas, boas pintas escondendo os celulares. foda foi controlar os cheiradorzinhos. Os piás eram muito fodas mesmo, por mais que vinicius cuidasse sempre davam um jeito. Você se distraía e lá vinha um com a boca mole.

- Ôooo tio! Cêeee é gent-te boa, viu?

Mas eram todos grandes personalidades, isso eu garanto. Era só trocar umas idéias com qualquer um deles e suargia uma história de Coragem, Resistência & Luta. Alguns equívocos, talvez muitos, mas eram sem dúvida histórias de Coragem, Resistência & Luta.

No Shopping Curitiba foi as crianças que queimaram o filme. Foi dobrar a esquina na chegada e começaram a gritar feito uns doentes . Quando começamos a subir a escadaria da entrada o segurança já veio em nossa direção fazendo sinal que não. Mandamos à merda e descemos a Sete de Setembro em direção ao Plaza Shoping. Lá foi nosso triunfo, lá conseguimos entrar. Eles estão em obras e foi bem mais fácil depistar os seguranças. Também porque aperfeiçoamos nosso método: dois por vez.

Na praça de alimentação o espetáculo foi grandioso. Foi cômico ver os casaizinhos Mauricio/Patricia trocando de mesa por causa do cheiro das crianças de rua. As mães com filhinhos bem vestidos saíam da fila do McDonald´s e procuravam outra lanchonete. Vinicius ganhou mais uma: realmente a cada um lanche que vendiam pras nossas crianças deixavam de vender outros três por causa das pessoas que saíam fora com medo.

Os funcionários da lanchonete também tiveram seu calvário porque armamos a palhaçada com requintes de crueldade, cada menino tinha sua grana contadinha para o seu McLanche Feliz. E muitos deles nem sabia pedir direito a bagaça.

Foi muito divertido. Acompanhávamos a cena de longe, observando a galerinha e os sete seguranças especialmente designados para garantir a ordem e manter a segurança do resto do shoping inteiro devido à preocupante presença de nossas crianças. E eram crianças menos, posso garantir que todos tinham menos de dez anos.

Já estávamos em clima de comemoração enquanto eles terminavam seus sanduíches quando vimos que ainda teria muito rolo pela frente. "Com a barriga mais cheia começei a pensar, que eu desorganizando posso me organizar." Mais ou menos nesse estilo o negóçio. A gurizada se repartiu numa euforia incontrolável. Uns foram pra uma loja de brinquedos no segundo andar. Outros nem pensaram duas vezes e foram para os jogos eletrônicos. Pra completar tinha os que entravam nas lojas mechendo em tudo. Um caos.

Não podíamos deixá-los ali. Éramos os responsáveis. Nossa paternidade começou quando achamos aquela grana no chão. Não podíamos negar a responsa. Nos dividimos e cada um ficou com um grupinho. Fui atrás dos que foram na loja de brinquedos.

Foi entrar na loja que já vi o tamanho da encrenca. Tinha um pirralhinho que não deveria ter mais que quatro anos que tinha sentado numa moto à pilha ou à sei lá o que fazia uma zoada do caralho. A funcionária só perguntava desesperada quem eram os pais da criaturinha. Tinha ainda os outros três que derrubavam tudo que era bonequinho que tinha nos mostruérios.

Corriam com os bonequinho e se escondiam atrás das prateleiras. Uma cliente da loja nem disfarçou o seu preconceito e saiu com seus filhos da loja, sob seus protestos, pois estavam se divertindo com a bagunça. Meus meninos estavam felizes. Alheios à discriminação, felizes por serem o que estavam sendo e nada mais. Uma funcionária se aproximou e perguntou se eu desejava algo. Falei que estávamos olhando pra ver se encontrávamos algo interessante. Na porta da loja dois seguranças babando de vontade de terminar com aquela zona assim que o gerente desse o sinal.

Se contar o resto da gurizada aos cuidados dos outro e os que tinham cheirado cola e tal e deviam estar doidões, acho que a direção do shopping teve que chamar reforços para a segurança. Segurei eles na loja o máximo que pude e quando os ânimos se acalmaram um pouco convoquei a turma pra sair fora.

- Seguinte galera! Temos que sair pra encontrar os outros!

- Aonde?


- Na praçinha lá na frente.

- Ahhh...

Saímos e quando chegamos já tinha um monte de gente esperando. Achei que tinha tido trabalho com os moleques, mas o Jean contou que os deles foram expulsos dos jogos eletrônicos por cheirarem cola. E isso nem foi o pior, jogaram um monte com três cartões roubados que o Jean nem viu como conseguiram. digamos que tratava-se de especialistas mirins, mão de obra qualificada.

Esperamos chegar o resto e quando vimos que ninguém mais viria & o sol estava se pondo & o frio chegando com a noite Fabio puxou de sua mochila uma caixa com seis rojões.

- Façam um fogueira! Será o São João dos excluídos!!

Fizemos uma fogueira meio mandrake e quando as chamas estavam bem altas a ponto de chamar a atenção dos desavisados ou da polícia soltamos os rojões.

Todos gritaram & pularam & dançaram em volta da fogueirinha ou de alegria ou de frio. Vivemos ali, por segundos que tenham sido, uma Zona Libertada.

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