Manual prático



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A Televisão Me Deichou Burro Muito Burro Demais

(ato nove)

Solidão: o espaço entre o carro e a televisão. Essa jóia é do Paulo Leminski, de longe a maior personalidade que Curitiba pariu. A dois fins de semana atrás caiu um Terrível Dilúvio sobre Curitiba, com Ventos, Granizos & Aguaçeiros que fizeram um estrago do caralho na cidade inteira. Naquele domingo à tarde faltou energia em quase tudo que é canto.

É legal quando falta luz. As pessoas se vêem obrigadas a voltarem para si mesmas. A simples falta da Macabra Televisão já obriga todos a conversarem bem mais. Naquela tarde estávamos conversando sobre Leminski e relebrando seus poemas Curtos & Rasteiros, hai kais de efeito imediato. Esse da Solidão, do Carro & da Televisão foi o mais discutido.

Queríamos bolar alguma coisa a respeito disso. Com carros ou televisões, alguma coisa nesse sentido. Viajamos um monte, imaginamos intervenções estrambólicas e não chegamos a ponto algum. Nada realmente prático e eficiente.

Durante a última semana, no entanto, o Acaso Cósmico voltou a nos presentear. Sempre alimentamos tipo que um culto à coinscidência. Quanto mais você valoriza e celebra as coinscidências, mais elas ocorrem em seu dia-a-dia. A última onda de culto foi gerada por aqueles 150 Reais que achamos na calçada. Então parece que certos eventos começaram a se precipitar sobre nós. De um lado Jean conseguiu um chaveiro boa praça para nos dar um curso e por outro lado recebi um e-mail de um doido de Goiás com mais um Plano Perfeito.

- Piazada! Recebi um e-mail que pirou meu cabeção!

- O que foi ari? Alguma gostosa oferecendo seus préstimos?

- Não! Uma idéia pra um ataque!

- Idéia? De quem?

- Um maluco de Anápolis, teve uma noite de insônia e entre ficar pensando em vender a televisão que tinha no quarto e observar a escada no fundo do quintal teve a brilhante idéia de jogar a TV na calçada.

- Jogar a TV na calçada?

- Puta que o pariu ! Quê que eu posso te dizer, cara?

- Que coisa mais ridícula.

- Calma, seus merdas! Pra completar a inspiração o cara imaginou colocar uns bilhetinhos dentro, tipo assim:

"Olha o que a TV faz com seu cérebro."

Aí o povo passa na rua, vê aquela televisão espatifada na calçada, lê o bilhetinho e pensa: "Caralho! que diabos é isso?"

Ficaram calados. Dessa vez fui eu a apresentar um Plano Perfeito.

- Pensem no que podemos fazer com essa idéia.

Foi fácil convencer o povo. Desde o dia em que tinhamos relembrado o Leminski estávamos querendo algo com os televisores. De repente tava todo mundo pensando, raciocinando & bolando a ação. Não era difícil, o aparelho se despedaçaria no chão mesmo, logo não precisava ser novo nem estar funcionando.

Marília, namorada do vinicius tem um primo que conserta essas paradas e conseguiu uma podre de velha, mas perfeita para nossos planos.

- A questão agora é onde a gente vai jogar a bagaça. - Sergio, a nossa âncora.

- Tem que ser no centro.

- Cara, mas no centro é foda, não é bem assim entrar num edifício e jogar uma TV pela janela.

- Eu sei que bronca, mas tem que ser num lugar que um monte de gente veja.

Foram várias as noites de Discussões & Cervejadas para aperfeiçoar o plano. Para levar o negócio a cabo várias etapas tinham de ser consideradas. Enrolar o porteiro pra entrar no prédio, cuidar pra nenhum traseunte se machucar e o plano de fuga. O sempre complicado plano de fuga.

Como nosso lema é nunca viajar na maionese e sempre admitir que somos cabaços optamos por um prédio residencial, num horário que o povo tá saindo pra trabalhar ou estudar e numa calçada perto de um ponto de ônibus movimentado.

Escolhemos o bairro do Juvevê. seis horas manhã (ai, ai, ai, de novo), com uma puta operação teatral pro Jean entrar com a TV no prédio. Escrevemos exatos 57 bilhetinhos pra colocarmos dentro da "bomba". As frases era mais ou menos as seguintes:

"Olhe o que a TV pode fazer com você."

"Olhe o que você pode fazer com a TV."

"Olhe o que a TV pode deixar você fazer."

"Olhe o que você pode deixar a TV fazer." E por aí vai, dezenas de variações do mesmo tema.

Vinicius & Marilia ficaram com a parte de enrolar o porteiro. Jean entraria com uma caixa de palelão contendo nossa "bomba". Eu, Sergio & Fábio ficaríamos em baixo, cuidando pra que nenhum descuidado levasse uma televisãozada na cabeça.

Examinamos o prédio escolhido com cuidado. Fábio foi antes, pela tarde, dar uma olhada nas condições. tinha de ter uma janela grande na área das escadas e a distância da janela pra rua tinha de ser aceitável. Escolheu um perfeito, bastava subir uns andares, fazer uma forçinha ao lançar e a lazarenta iria para no meio da rua.

"Caiu na contramão atrapalhando o trânsito."

Madrugamos, pegamos o Cabral-Osório no centro e fomos pra nossa "batalha”. Todos, sem excessão, reclamavam do sono, do frio e do maldito horário escolhido. A guarita do porteiro ficava perto da grade e do interfone. Vini & Marília se escoraram perto e começaram a discutir. Estavam brigando e vinicius visivelmente cagava na cabeça dela. Ficaram um tempão brigando desse jeito até que o porteiro começou a prestar atenção na cena, estava com pena da mina, que só chorava.

Então ela começa a passar mal, tipo ataque epilético mesmo, com babas e tudo mais. Vinicius se desespera e começa a olhar para os lados e gritar. O porteiro saltou da cadeira. Vini então se joga sobre os botões do interfone e começa a cordar todo mundo.

O porteiro vem imediatamente perguntar o que está ocorrendo.

- Água, senhor, por favor! Água!!!

- Vem aqui, moço! Traga a menina que eu consigo água, o que ela tem?

- É uns piripaques que dá de vez em quando.

Entraram detro da guarita e começaram a jogar água no rosto dela quando o celular do Vini tocou.

- Puta que o pariu, seu porteiro! É a mãe dela! a coroa não pode ficar sabendo que isso tá acontecendo! Fica aí com ela que eu vou enrolar a a velha ali fora. Abre o portão pra mim, rápido!

Saiu fora e deixou o portão aberto pro Jean entrar. Pra dar cobertura pro Jean, Marília começou a gritar e Vini correu para acudí-la.

- O que foi?

- Não sei, moço! Ela deu uma soluçada e começou a gritar desse jeito.

Jean aproveitou a deixa e entrou rapidinho com a caixa de papelão e correu em direção à escadaria. A "bomba" não era grande, 14 polegadas.

Marília então se acalmou e os dois saíram agradecendo pela ajuda e Vini simulando telefonemas cheios de explicações pra mãe dela. Foram pro "posto de observação" onde eu tava e já chegaram se cagando de rir.

- Ele acreditou, cara! O velhinho viajou!!

- Tava tremendo todo na hora que jogou água no meu rosto!

- Muito massa, doido, muito massa!

Ficamos então no aguardo da ação do Jeanzinho. Ele demorou, demorou & demorou até que vimos sua lanterna brilhar, numa janela do sétimo andar, em meio à neblina que sempre cobre Curitiba nas manhãs de inverno.

- Sétimo andar, mas que viado, porque não subiu mais?

- Vamos rápido! não dá nada, pelo menos ela não se espatifa muito. vê se não vem ninguém desse lado! tomara que ele consiga ver nossas lanternas com essa porra de neblina.

- Aqui tá beleza!

Pisquei minha lanterna cinco vezes. Deu pra ver uma luzinha fraca piscando na outra esquina, era o Fábio. Jean ficou só esperando o sinal do Sergio, que ficaria perto da portaria pra garantir a segurança da operação.

O desgraçado demorou quase um minuto pra dar seu sinal. Piscamos nossas lanternas feito uns doidos pro cara se ligar. Quando ele piscou a sua corremos todos pra perto pra ver a cena sem interferência de neblina nenhuma. Já dava pra ver o Jean com a parada na janela.

Foi um troço muito do caralho. Demorou apenas uns quatro ou cinco segundos pra cair e enquanto a TV descia todos nós demos aquele assobio agudo ficando grave que dá nos desenhos animados quando alguma coisa cai.

Quando a TV estourou no chão todos demos gritos pavorosos. Definitivamente não saiu como o planejado, a porra bateu num poste e em vez de cair no meio da rua acabou na calçada. Pelo menos teve a vantagem de não quebrar muito. O porteiro correndo olhar intrigado o que estava acontecendo. Olhava para os cacos e olhava pra cima sem entender bosta nenhuma. Deve ter pensado: "diazinho estranho esse."

Esperamos uns minutos e fomos ver de perto nossa obra como se fôssemos cidadãos normais. Quando chegamos o dia já estava bem claro e tinha um velhinho de óculos olhando os papeizinhos que tinha se esparramado por perto e um casal de irmãos indo pra escola.

Estéticamente falando, ficou perfeito: o tubo de imagem quebrou ao meio e os estilhaços ficaram cheios de papeizinhos. As pessoas chegavam, olhavam a coisa toda e alguns, nem todos, pegavam os papeizinhos. Tinha uns que saíam reclamando quando liam.

- Cada louco que me aparece nesse mundo...

Outros saíam rindo e tiveram alguns que até guardaram as frases. Sergio fez um trabalho legal com as frases, cada uma continha ums desenho ou um símbolo particular. lá pelas sete e pouco da manhã a síndica do prédio desceu com uma faxineira pra limpar a tralha toda. O negócio ficou na calçada por pouco mais de meia hora, mas posso te garantir que um monte de gente viu.

Fomos então tomar café, comer coxinhas e esperar pelo Jean numa lanchonete próxima. Ele só saiu do prédio quarenta minutos depois de terem limpado tudo e a poeira ter baixado, esperou o momento mais seguro que despertasse as mínimas suspeitas.

Quando chegou na lanchonete já estávamos impacientes. Demos Berros & Urras feito uns selvagens, pegamos ele o jogamos pro alto.

- Jean! Jean! Jean!

Na boa estávamos Histéricos & Orgulhosos. Afinal, fizemos um trabalho de profissional.

Os Dia em Que a Churrascaria Parou

(ato dez)
Uma tendência que tem crescido pra caralho no "meio libertário" é o vegetarianismo radical. Os caras defendem os direitos dos animais até as últimas conseqüências. São completamente diferentes dos vegetarianos aos quais estamos acostumados, não usam nem sapato de couro. Nosso amigo Sergio Augusto, além de vender a alma como artista plástico anda pesquisando sobre o assunto e se misturando com essa gente.

- Tigrada! Hoje teremos uma janta Vegan!

- Blargh!! - Vini e Fabio são doidos por um churrasquinho.

Sergio anda fazendo essas comidas, mas ainda nao foi "convertido". Tá mesmo é praticando e experimentando pra ver se vale a pena. Estávamos todos na peça única que é a kit do Vini e do Jean conversando sobre os argumentos pró e contra o vegetarianismo radical. Eu e Jean éramos os Vegans, apesar de eu ser um onívoro convicto. Nisso nosso cozinheiro virou-se pra nós com um sorriso estampado no rosto.

- Tive uma inspiração pra uma ação!

- Lá vei ele.

- Ai, ai ...

- Do que se trata seu monstro?

- Atacaremos uma churrascaria.

- Atacar churrascaria? Você quer fazer o que? Explodir uma bomba?

- Não, uma coisa mais artística.

- Putz!


- Já sei! Você vai se vestir de alface e vai entrar apavorando.

- Não viajem, o plano é perfeito. a gente vai num matadouro...

- Matadouro?

- E grava numa fita os berros dos bois sendo mortos.

- E?

- E aí entramos numa churrascaria e demos um jeito de tocar a fita.



Sergio e seus fulminantes chutes a gol. A idéia me seduziu de imediato. Só de imaginar neguinho fincando garfo e faca numa suculenta picanha mal passada e ouvindo um berro de boi morrendo já era o suficiente pra mim me cagar de rir.

Difícil foi definir os aspectos práticos e técnicos da operação: como botar a fita pra tocar dentro da churrascaria num volume adequado? Cada um pensava numa coisa diferente. Jean, milagrosamente, estava sendo o mais prático.

- É fácil, a gente arranja alguém que tenha um carro com um som "foderoso", estaciona na frente e arregaça o volume.

- Não, tinha que ser dentro da churrascaria, falou Fabio. O som tem que ser interno pro povo ficar mais puto ainda.

- Mas como?

- Sei lá, tínhamos que dar um jeito de tocar no sistema de som ambiente.

Seria perfeito mas era difícil de executar. Estávamos nos debatendo em estratégias quando tocou a campainha, era Marília com seu primo técnico em eletrônica e a TV 14 polegadas que usamos em nossa última ação. Contamos nossos planos pra eles e riram adoidados da viagem. Marcelo era o nome do cara e motivado pela palhaçada de nossas atitudes deu uma sugestão pra resolver o problema.

- Vocês podem conseguir quatro tocafitinhas baratos do Paraguai e quatro auto falantes. Eu consigo umas plaquinhas amplificadoras à pilha, bem simples mesmo e vocês põe as paradinhas embaixo das mesas.

Ficamos em silêncio, pensando, pensando & pensando.

- E dá pra fazer isso?

- Tipo assim: é fácil?

- Claro! Se fizer as contas, mesmo que comprem todo o material novo vão gastar no máximo 50 Reais, se dividir vai dar uns 10 Reais pra cada um. Mas acho que dá pra conseguir muita coisa na sucata lá da oficina.

Topamos. Topamos e já conseguimos mexer nossas bundas gordas. Vini & Marília, nossos atores oficiais foram pro matadouro gravar os sons. Foram na casa do Tarsis, que tem scanner, e fizeram umas carteirinhas falsas de estudantes de veterinária. Bolaram uma viagem de que estavam trabalhando num projeto de otimização do abate.

- Otimizar é uma palavra que soa bem aos ouvidos dos homens de negócios.

Enquanto os dois picaram a mula pra fazer o teatrinho que tanto curtiam eu e o Fabio fomos ajudar o tal Marcelo a preparar os "aparelhinhos". Jean & Sergio ficaram preparando a TV e os bilhetinhos da ação anterior.

No fim acabamos não gastando quase nada. Marcelo aproveitou um monte de coisas de seu ferro velho particular e só precisamos investir em pilhas alcalinas tamanho grande. Trampamos pra caralho soldando componentes eletrônicos e encaixando pecinhas de mecanismos velhos de toca-fitas. Deu pra montar quatro "bombas sonoras" e, de quebra, pegar uma certa prática em soldagem. Não é difícil.

- Se vocês tocarem as quatro fitas ao mesmo tempo vai dar um efeito estéreo massa que vai confundir os ouvidos e eles vão demorar pra achar de onde está vindo.

Vinicius & Marília voltaram rindo das palhaçadas que fizeram no matadouro. Sergio ficou puto da cara.

- Porra cara! Mas vocês não se sensibilizaram com os bichos morrendo?

- Eu gosto de bife.

- Ah, vai te fuder, meu!!

Gravamos as quatro fitas e marcamos a ação pro sábado, logo depois do meio dia. chegamos numa hora que o negócio tava lotado. Tinha fila pra esperar liberar mesa. Nos dividimos em quatro, cada um com uma bomba e gradativamente entramos.

Foi planejada uma verdadeira orquestra de sinais pra executarmos a operação. Cada um colou com Silver Tape sua bombinha embaixo da mesa. As fitas eram de 90 minutos, o que significava 45 minutos de cada lado. Isso nos dava 40 minutos para desbaratinar e apreciar o resultado.

Inicialmente cada um deu o sinal de que a bomba já estava colada. Depois o segundo sinal, ambos discretíssimos, diga-se de passagem, pro início da contagem regressiva. Cinco, quatro, três, dois, um, play!

Pronto.

Saímos um por um, cada um inventando uma desculpa diferente pra um graçon diferente, tipo ter que ligar pra alguém ou a carteira esquecida em casa. Nos encontramos todos na rua, esperamos um tempinho e voltamos pra fila. Desta vez todos juntos e ansiosos, muito ansiosos.



- Cara! Não boto fé que nós estamos fazendo isso! - Jean não conseguia se segurar, ria de doer.

- Relaxa cara! Não dá bandeira, senão vão desconfiar!!

Estávamos conferindo o relógio toda a hora. A fila tinha aumentado e levamos exatos 33 minutos pra sentarmos em uma mesa. Mais do que o planejado, mas tudo bem, a operação ainda estava sob controle. De cara já pedimos três cervejas e Sergio, o Vegan da hora, um suco de manga, sem açúcar.

- Não vou usar açúcar pois provavelmente eles usam animais pra carregar cana no canaviais pra depois fazer o açúcar, melhor não arriscar. A manga já acho que não, as plantações de manga não são tão grandes quanto os canaviais.

- Ó a do cara, meu! Viajão! Não vou nem discutir a besteira que você tá falando.

Rimos todos. Estávamos alegres, ríamos por qualquer bobagem. Nem bem tínhamos começar a dar nossos primeiros goles em nossas beras e começa o Apocalipse Now da churrascaria.

Marcelo tinha falado com um amigo e tinha conseguido um carro com o tal som "foderoso". Foi a idéia do Jean sendo usada pra incrementar o ataque. De repente, um horripilante berro de boi sai de um carro estacionado na frente da churrascaria.

Foi um momento único. Todo aquele barulho de talheres batendo e esfregando pratos e e toda aquela conversa alta e ruídos de fundo diversos e tudo mais, tudo parou. Silenciou. O povo todo ficou meio que se olhando sem entender que diabos era aquilo. O berro durou uns dez segundos e então eles tiraram o time.

Quando o negócio parou e o carro saiu o silêncio era absoluto dentro da churrascaria. O silêncio durou eternos três décimos de segundo, interrompidos por uma criança que mal sabia falar perguntando:

- Pai! que foi isso?

Então quebrou o gelo e muitos riram nervosos com a pergunta do menino que ecoou por todo o ambiente e quase todo mundo ouviu. Foi então que começou a sair os mugidos e berros de nossos aparelhinhos. Primeiro baixinho, muito baixinho. Quando notamos que os sons começaram a sair já levantamos e pedimos a conta sem comer, apenas as bebidas. Era o nosso plano de fuga, sair assim que o troço fosse executado pra ninguém ligar os pontos e nos acusar.

Olhávamos pro povo almoçando e notávamos que muitos inclinavam a cabeça pro lado como que se tentando ouvir algo. Muito engraçado. começaram a fazer umas expressões intrigadas que iam ficando cada vez mais graves conforme o som ia aumentando.

Vinicius & Jean não conseguiam se segurar.

- Olha que massa, véio! Olha que massa!!! Olha a cara daquele bigodudo!

- Fica quieto seu paunocú!

Falei mas nem eu me continha. Era engraçado pra caralho! Os sons começaram a aumentar e as pessoas começaram a comentar umas com as outras e os garçons começaram a correr feito uns loucos. Foram espertos, já estavam quase encontrando os aparelhinhos, um deles chegou a achar um sob a mesa que estava limpando e inutilizá-lo pois a pilhas caíram no chão. Mas o som dos outro três saiu, no grand finale. Foi um berro de boi arrepiante de uns cinco segundos, que ficou mais macabro ainda devido a não termos sido tão perfeitamente sincronizados na hora do play. No fim uma voz grave, cheia de eco.

- Comer carne é crime! Comer carne é crime! Comer carne é crime! - três vezes mesmo.

Foi uma confusão dos diabos. Muita gente se levantou. Muita gente chamou o garçom. Muita gente chamou o gerente. Um pandemônio do cacete. No meio daquele barulho pudemos rir à vontade. Tinha um velho barrigudo que gritava histérico:

- Isso é uma absurdo, um absurdo!!!!

Abandonamos o local do crime em clima de carnaval. A três quadras de distância Marcelo nos esperava com seu amigo de carro. Entupimos o carro de gente e saímos com o som com o volume no último grau.



  • Eu quero é ver o ôcooooo!!!!!!!!!!


A Arte de Sacanear Bancos para as Novas Gerações

(ato onze)
Sacanear bancos é melzinho na chupeta. É apoio popular garantido. Por mais que você escroteie, não será mais safado e anti-ético que eles. Eles sempre serão piores que você. Você pode cagar no prato que eles estão comendo e mesmo assim não vingará dez por cento das vigarices que eles aprontam.

Uma onda de revolta contra esses filhos da puta surgiu depois de irmos a uma festa onde o Fábio pagaria as entradas. Na hora fomos sacar a grana num banco 24 horas perto da festa e a porra do cartão não funcionou. Puta que o pariu! Tínhamos pego dois ônibus pra chegar na quiçaça onde seria a festa e não tínhamos grana nem pra entrada.

Não teve jeito, tiver que voltar pra casa com o rabo entre as pernas. Na kit dos piás naquela noite o assunto foi só revolta.

- Temos que fazer uma ação contra os bancos de novo. – Fabio estava profundamente indignado.

- Mas fazer o quê?

- Ah, cara, imaginação minha situação, sabendo que tenho saldo e não poder fazer nada pra transformar aqueles números em dinheiro.

- É que você não é alquimista.

- Pode crer, Vini. É bem isso mesmo. – Jean, o místico, curtiu a comparação. – É quase como uma transmutação. Chutando o pau do barraco dá pra dizer que o teu cartão é como uma pedra filosofal.

- Um toque de Midas e a porra da máquina vomita o dinheiro.

- Se souber a senha

- Decifra-me ou devoro-te.

Ficamos nessa viagem praticamente a noite inteira. Um verdadeiro bando de paranóicos obcecados. No meio dessa nóia acabei lembrando do Antonio Silvino de São Paulo, que tinha comentado comigo sobre a possibilidade de fazermos uns sacrifícios de animais nos caixas eletrônicos.

Comentei isso distraidamente, mas o Fabio imediatamente saltou de onde estava.

- Caralho! É isso aí, cara, é bem isso daí!

- O que, veio?

- Lembra do nosso catecismo do dia em que o Vinicius abençoou o banco? Aquela parada do dinheiro virtual, espiritual mas com poderes sobre o mundo material. Um demônio! Lembra?

- Só!

- Então! A gente faz um despacho pro Exu Dimdim.



Todos caímos na gargalhada. É incrível o que a delinqüência juvenil faz na cabeça de um desocupado.

- E a gente ainda pode fugir do óbvio.

- Como assim?

- Toda a macumba que se preze tem que ter uma galinha preta morta e a gente pode fazer uma parada em prol dos direitos dos animais.

- Não captei, juro que não captei. Você não vai matar a galinha? Vai deixar a galinha viva, é?

- Não, a galinha será uma suicida, um mártir, a gente pode fazer uma cruz e crucifica-la como um cristo morrendo pra salvar os pecadores.

- Fabio, você está se sentindo bem?

- Olha galera, pode ser engraçado. A gente pode deixar uma carta de despedida toda invocada, vai ser massa.

Falei que o Antonio tinha comentado comigo sobre isso também e tinha também sugerido de colocarmos um “carimbo” com a pata da galinha como se fosse uma assinatura.

- Então? Perfeito! O que vocês acham?

Mais uma vez não tínhamos muito o que discutir, era uma proposta tentadora. Acabamos, depois de todas as nossas ações, nos tornando uns fracos diante desse tipo de proposta. Óbvio que topamos.

Durante a semana tratamos de conseguir o material. Dessa vez não teve como economizar um troco, pra fazer um trabalho de profissional tivemos que investir uma grana numa loja de artigos de umbanda pra comprar o material necessário.

Fabio estava engajado no negócio, era como se fosse sua “causa pessoal” por excelência. Pagou tudo sem pestanejar.

- Essa grana a gente ia gastar naquela festa mesmo. Acho cabalístico usarmos essa grana pra vingar o ocorrido.



  • E o pior é que é...

No outro dia mandei um e-mail pro Antonio Silvino contando os planos e ele entusiasmou com a idéia e acabamos por combinar de fazer um ataque sincronizado, ele e os amigos dele em São Paulo e nós em Curitiba. Combinamos pra quinta-feira de madrugada e tratamos de fazer uma “carta de despedida” igual para os dois ataques. A galera se entusiasmou com essa parada de ataque sincronizado.

- Massa, as coisas estão começando a ficarem grandes.

Compramos três galinhas. Tivemos que ir até o mercado municipal pra conseguir galinhas vivas, com penas. E pretas. Não foi tão fácil como possa parecer. Uma vez conseguidas as galinhas vivas o empenho foi mata-las.

- Eu quero! Eu quero! – Vinicius é um escroto, completamente alheio a esse papo de direitos dos animais. Participou da ação da churrascaria mais por delinqüência mesmo. Aliás, todos nós, não se pode negar.

Por fim teve um tio que nos indicou um açougue de um conhecido que matou as penosas pra gente na faixa. Não sem perguntar:

- O que é que vocês vão fazer com essas galinhas?

- Macumba mesmo.

- Ta certo... – falou com um ar pouco convincente.

Depois fomos atrás das cruzes, iríamos crucificar as coitadas mesmo. Sergio pintou as cruzes e fez até aquela inscrição INRI. Escolhemos três caixas eletrônicos da Rede 24 Horas, aqueles vermelhos que aceitam cartões de vários bancos. Combinamos com os caras de São Paulo de fazermos a parada na mesma hora pra ficar mais “místico”: duas horas da madruga.

Logo depois da meia noite saímos a pé carregando os despachos dentro de mochilas. As galinhas mortas que tínhamos deixado dentro da geladeira tinha endurecido e tivemso que dar uma cozinhadinha na água quente pra amolecer. As penas e tudo mais deixar a kitnete dos guris fedendo pra caralho. Tudo bem, ossos do ofício. Escolhemos um caixa perto da Praça Japão, que eu curto pra cacete, um no Batel e outro perto do CEFET. Não eram nada perto um do outro, o que nos obrigou a fazermos um verdadeiro caminho de Santiago.

No primeiro entro o Sergio e o Jean enquanto eu e os outros ficamos cuidando pra ver se ninguém interromperia a cerimônia. Colaram três cópias da carta de despedida, crucificaram a galinha, acenderam as velas e com o sangue escreveram a frase: “O dinheiro é o mal”

Ficou massa, esteticamente apavorante como deveria ser. Seguimos pro segundo alvo muito animados pela facilidade que tinha sido fazer o primeiro despacho.

No caixa do Batel as coisas não foram tão simples. Entrou eu e o Fabio, crucificamos a penosa (tivemos que usar pregos grandes e o martelo de bater bife do Jean) e na hora em que íamos acender as velas os guris soaram o alarme. Um carro estava estacionando ao lado pra sacar grana. Não queríamos ser vistos e recolhemos tudo imediatamente. A mochila do Fabio ficou cheia de sangue. Na hora em que saímos deveríamos estar com uma cara muito estranha pois o sujeito desistiu do saque e foi embora, provavelmente imaginando tratar-se de um assalto. Fiquei cabreiro.

- O cara pode chamar a polícia.

- Então vamos logo!

Tiramos a galinha da mochila e acendemos as velas. Enquanto Fabio colava as cartas de despedida molhei os dedos no sangue e escrevi nas paredes a frase: “Livre-se do mal, vandalise os bancos”.

Estava tão cabreiro com a possibilidade da policia chegar e tão orgulhoso da tarefa que desisti de acompanhar os guris no terceiro alvo e decidi me esconder numa árvore pra esperar alguém chegar e ver a cena. Aparentemente aquele caixa era movimentado e eu estava curioso.

O resto do pessoal sumiu pra dar continuidade na operação e eu fiquei esperando. Demorou pra caralho pra vir alguém. Já estava quase pegando no sono quando estacionou um carro. Era um casal de velhos. O marido ficou no carro e a mulher entrou no caixa. De onde eu estava deu pra ouvir o berro. A mulher saiu desesperada gritando histérica.

- Ai meu Deus do céu! Ai meu Deus do céu!

Deviam ser um casal de evangélicos ou coisa que o valha pois ela usava uma saia longa. O carro saiu cantando pneus, deviam estar indignados. Eufórico, saí correndo em direção ao CEFET pra encontrar o resto do pessoal. Cheguei lá e os viados tinham colocado o despacho do lado de fora do caixa e não estavam mais lá. De longe já dava pra ver as velas.

Cheguei perto e tinha um guardinha de rua e casal de namorados rindo e olhando a cena.

- Quem será que fez isso?

- Não sei, vi uns garotos saindo daqui correndo e quando cheguei vi isso. Coisa de louco.

- Foda, muito foda.

Quase não consegui conter o riso. Quando cheguei na kit estavam todos acordados, inclusive os visinhos. Os caras chegaram tão animados que arregaçaram o som pra comemorar e gerado a maior confusão no prédio por causa do som alto.

Estava cansado. Dormi feliz sem saber o desfecho da confusão com os vizinhos e me mordendo de curiosidade de saber se os colegas de São Paulo também tinham sido bem sucedidos. Naquela noite os anjinhos devem ter velado por mim, pois mais uma vez tínhamos sacaneado aqueles lugares do mal que são os bancos. Deus deve ser um vândalo.

Os Pobre Que Me Desculpem, Mas Beleza Custa Caro

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