Manual prático



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(ato doze)
Semana passada fomos a uma festa burguesa. Cada vez que vou num troço desses mais me convenço que burgues não sabe se divertir. Era uma festa de aniversário de uma colega de aula da Marília e os delinquentes foram em peso entrar de peru e comer e berber às custas dos ricos miseráveis.

Tinha gata pra caralho. Como diz o Eduf, às vezes dá vontade de desistir de destruir a burguesia, afinal elas rendem boas filhas. Tudo muito bonito. Tudo muito fashion, mas no final das contas ninguém dançou à vontade e mais uma vez: ninguém comeu ninguém. Fabio foi quem saiu mais revoltado.

- Rapaz, se nós tivéssemos ido num aniversário em Colombo, lá perto de casa, duvido que teríamos ficado sem agarrar ninguém.

- Mas eram gatas, ah isso eram.

- Gatas porque tem grana. Ser bonito custa caro, mano véio.

- É, acho que todas aquelas minas passaram a tarde toda no salão.

- E não repetem roupas nunca, jamais.

Estávamos voltando a pé, em seis pessoas se economiza dez reais na grana do latão, quando cruzamos com uma catadora de papelão pra lá de retardatária eu tive a inspiração.

- Galera, já sei de um troço massa pra gente fazer.

- Óia! Ari saindo ta tumba, o que é?

- Lembra dos meninos no Shopping? Lembra que o povo da internet caiu de pau em cima, dizendo que usamos a gurizada?

- Tá e daí?

- Daí que levamos um adulto – e apontei pra catadora de papelão que já ia longe.

Ficaram pensando, em silêncio...

- E fazer o quê? Pagar um Mac Shit?

- Vocês são burros mesmo, ainda não se ligaram, baseado no que o Fabio falou, que beleza custa caro, poderemos dar uma de Xuxa, o antes e o depois, estão ligados agora?

Toparam. Toparam no ato. Levar uma catadora num salão de beleza fresco, todo metido. Foi massa porque pareceu que todo mundo se ligou na idéia ao mesmo, sem ninguém falar nada. Vinicius saiu correndo atrás da catadora, demorou uns minutos e voltou correndo, quase sem fôlego.

- Marquei com ela. Perguntei como fazia. Pra achar ela. Pode ser ela. Né?

Ficou então combinado. Só que andando depois nos ligamos num detalhe: e a grana? Aquelas bostas daquelea salões frescos cobram uma fortuna. Foi um autêntico balde de água fria nos nossos planos, voltamos cabisbaixos o resto do percurso. Foi Jean quem salvou a pátria com um telefone no outro dia à tarde.

- Cara! Descobri um jeito de conseguirmos a grana.

- Que jeito?

- Surpresa, vou passar aí de moto pra pegar vocês.

Jean trabalha com entregas de moto e usou a moto do trampo pra nos buscar. Largou todos nós, um por um, na frente da PUC sem ninguém entender bosta nenhuma do que estava acontecendo.

- Olhem os calouros da facul cobrando pedágio.

Então esse era seu plano, fingir de calouro pra cobrar pedágio. Realmente, deu pra notar que em cinco minutos eles devem ter levantado uns cinco reais. Um negócio altamente rentável.

- É, só que precisamos de umas minas. – Falou Vinicius, já tomando a iniciativa de ligar pra Marilia convocando as amigas mais caradura que ela tinha. Mais ou menos uma hora depois já estavamos todos a postos, camuflados e embarrados no cruzamento da Guabirotuba com a Av. Das Torres, nem muito longe, nem muito perto da PUC, perfeito.

Não foi tão fácil quanto imaginávamos. Muita gente nem olhava na nossa cara. É a crise. Levamos mais de três horas pra levantarmos os 120 Reais necessários. Voltamos pra casa cansados e torramos dez reais em chopes pra comemorarmos. Uma vez conseguina a grana tratamos de definir um dia massa pro “ataque”. Tinha que ser num sábado, salão lotado, galera se enfeitando pra night... Foi Marilia quem deu o toque.

- Se é no sábado, acho melhor ligar antes pra marcar hora, até os salões mais fuleiros lotam no sábado.

Foi ela quem ligou. Marilia é uma verdadeira atriz, um dos grandes talentos esqueçidos nas periferias. Falou com um tom de voz absolutamente de madame. Quase nos rachamos de rir e ela tapando o bocal do telefone e nos xingando.

- Calem a boca seus bostinhas!

Depois foi Vinicius quem teve que se mexer. Era ele quem tinha o contato com a catadora de papelão. Saiu atrás dela no outro dia à tarde e quando anoiteceu apareceu com ela no prédio das kitinetes. Fabio pirou quando viu pela janela.

- Não boto fé que o Vini trouxe a mulher aqui!

Pirou tanto que viajou de bancar o estacinamento da corrocinha numa garagem a uma quadra dali. Foi cômico ver o funcionário da garagem sem saber o que dizer e acabar deixando estacionar ao lado de uma Mercedez preta. A mlher chamava-se Denise, era gente boa pra cacete e acabamos firmando uma baita amizade. Tinha cinco filhos e a menina mais velha cuidava da pirralhadazinha enquanto ela trabalhava.

- Rafael, o mais caçulinha, andou comigo na charrete dos três mês até um ano e meio, tá ficando em casa agora por causa daquela gripe que não cura, sabe? No inverno fica mais difícil.

Tomamos um lanche todos juntos e Jean acabou se emocionando e dando cinco motos de brinquedo de sua coleção pra ela dar de brinde pros pequenos. Nos despedimos com tudo combinado pro sábado. Sergio estava meio descrente.

- Eles podem não deixar entrar, vocês tão ligados que ela cheira mal pra cacete.

- Se não deixarem a gente se vinga.

- É, e dizer pra ela tomar banho antes é ridículo.

- Sim, só tô dizendo pra ficarem ligados, pode ser que os caras não deixem entrar.

Sábado à tarde estávamos todos ansiosos. Tínhamos dito pra Denise que ela não precisava passar em casa antes. Trabalharia demanhã, do jeito como sempre fazia, deixava a carroçinha estacionada perto das kits e pronto. Não precisava de frescura, tínhamos conversado sobre a razão daquilo tudo e ela concordava com a gente.

- Aquelas dondocas tem que me aceitar.

Fomos ao Shopping Curitiba a pé e animados, Jean ficou de nos encontrar lá. Denise estava feliz, orgulhosa de si & contava uma piada besta atrás da outra. Ela é uma grande figura, mas é fã do Ratinho e votou no filho dele nas últimas eleições.

Mal entramos no shopping e o povo já começou a olhar atravessado. Eu reparei, quando a gente cruzava pelas pessoas ninguém olhava na nossa cara, mas depois que passavam era só olhar pra trás e ver como ficcavam olhando, fazendo gestos e comentários maldosos com quem estava ao lado.

Sentamos tomar um café antes, pois estávamos quinze minutos adiantados e o Jean estav por chegar. É indignante ver que até a funcionária do café, ralé fudida como nós, nos esnobou. Trouxe o café e esqueceu o açúcar de propósito. O povo se ilude fácil com esse status podre. Fábio jurou vingança.

- Cara, a gente ainda tem que voltar aqui e aprontar uma feia com esses merdas.

- Calma, relaxa que agora estamos aqui pra outra coisa.

Estávamos terminando o café quando chegou o Jean com uma sacolinha se desculpando pelo atraso.

- O que é isso aí?

- Nada não, uma surpresinha pra depois do ataque.

Então fomos ao maldito salão. Marilia entrou antes, deu o nome Denise a funcionária falou que estava tudo pronto e que era só deitar no negócio de lavar o cabelo. Marilia então chamou Denise e ficamos olhando do lado de fora e posso te garantir: foi uma cena muito muito engraçada.

Todas, sem exceção, olharam pra nossa amiga de cara feia e torçendo o nariz. A funcionária de lavaria o cabelo ficou atônita, perdidaça, sem saber pra que lado ou pra quem olhar. Esqueci de dizer mas o cabelo de Denise era crespão e alto e duro e devia se erguer a uns vinte centímetros acima da cabeça.

Denise deitou-se a mulher começou a lavar o cabelo lentamente, parecia nervosa, parecia na verdade uma funcionária inexperiente em seu primeiro dia de trabalho. A outra que parecia ser a gerente aproximou-se de Marilia com uma prancheta com os horários marcados e perguntou com um ar de desdém:

- É pra fazer as mãos e os pés também?

- Sim, é pra fazer tudo, hoje será uma noite muito especial pra ela.

Afinal, estávamos com a grana, estávamos pagando aquela porra. Marilia ficou controlando e fiscalizando tudo, uma verdadeira pentelha, queria o trabalho bem feito.

Quando Denise sentou-se pra escovar o cabelo e a manicure e a pedicure e tudo mais, entramos todos no salão pra curtir mais de perto. Antes que alguém viesse nos perguntar algo Marilia adiantou-se.

- São nossos amigos, estão nos esperando.

Aceitaram a contragosto. O clima no salão era horrível, ninguém conversava nada e tinha três minas que ficavam se abanando pra demonstrar que não estavam gostando nem um pouco do mau cheiro da nova cliente. Não se preocuparem nem em disfarçar o preconceito.

A obra de arte no visual de Denise demorou pra caralho pra ficar pronta. O escovamento do cabelo foi uma coisa interminável. Os pés as funcionárias tiveram que lavar e escovar por completo e várias vezes, Marilia o tempo todo em cima, controlando. Nesse meio tempo entrou uma senhora esperando a vez, esperou cinco minutos e saiu resmungando que iria a outro salão mais bem frequentado. Que se foda ela.

Quando ficou pronto olhamos todos pra Denise. Apesar de 28 anos de sofrimento, dá pra dizer que ficou bonitos. Todos nós a elogiamos e ficou toda boba, rindo à toa. Pagamos a conta e saímos sorridentes, deixando pra trás uma multidão de aliviados com nossa ausência.

Já estávamos na rua quando nos damos por conta da caixa do Jean com a surpresa pra depois do ataque. Ele tinha esqueçido no salão.

- Porra, deixa eu ligar lá pra ver se elas encontram.

Foi num orelhão e voltou se cagando de rir. Se torçia todo de tanto rir, não conseguia nem falar.

- O que foi cara?

- A caixa véio, tinha umas duzentas baratas dentro e um fundo falso, era só levantar que as baratas caíam. Caralho! Eu pedi pra mulher que atendeu o telefone pra guardar a caixa pra mim e foi foda, deu ouvir a gritaria do outro lado da linha!

Jean se superou. Caímos todos na gargalhada e se tem uma intervenção que pro resto de meus dias vou lembrar como bem sucedida, foi essa.

- Longa vida à delinquencia juvenil!!!!

As Andorinhas tem Duas Casas (e não alugam a que está vaga)



(ato treze)
Morar em kitnete é foda. A maioria só tem um cômodo e se bobear até o banheiro é conjugado. Jean e Vinicius já repartiam apertadamente aquele cubículo e desde que Sergio veio do interior está morando junto e olha que o cara é metido a artista plástico e faz uma bagunça do caralho com sua criatividade. Estávamos todos discutindo a possibilidade de alugarmos algo maior quando o neo-revoltadocontraosistema Fabio, começou a discursar.

- Aluguel é o fim do mundo! Já não concordo com propriedade privada, aluguel então, é muito porco.

- Realmente... é uma grana que só sai, que morre.

- E veja bem, é um negócio que não produz, só suga.

- Me diz uma coisa, a maioria das pessoas mora de aluguel, né?

- Em cidade grande pelo menos acho que é assim.

- Tínhamos que fazer alguma intervenção cutucando nessa ferida.

- É, mas o quê?

- Não sei...

É interessante como as inspirações às vezes brotam das coisas mais bestas. Desta vez foi Vinicius que saiu pra ir na Lanchonete da esquina pra comprar refri pra nossa tuba e voltou com um sorriso de orelha a orelha.

- Olha o cara!

- Parece aquele gato rosa e rocho do Alice no País das Maravilhas.

- Tive uma idéia pra fuder com esses caras que alugam casas.

- Ó o cara! Ó o cara!

- Eu tava voltando. Viajando. Olhando pra cima e vi um placa “aluga-se” na janela de um apê vazio. Todo escuro, absolutamente vazio, completamente limpo pra gente entrar.

- Invadir apartamento?

- E aí a gente pinta as paredes e faz altas obras de terrorismo poético.

- Não é um má idéia. – comentou Fábio coçando sua barbinha rala.

- É, só que não podia ser um apartamento, esqueceram as dificuldades de se entrar num prédio do dia em que jogamos a TV? O que dirá então de entrar num apartamento...

Todos concordaram que apê era a princípio inviável, mas que era preciso fazer algo nesse sentido. Fábio sugeriu uma casa num desses bairros mais burgueses.

- Se der uma banda nos bairros vai ver uma porrada de casa grande, massa, pra alugar.

- E o alarme?

- Já andei pensando nessas paradas noutro dia e me liguei num negócio. Tem uma casas que tem cachorro cuidando. Nessas casas não deve ter alarme, se não, pra que cachorro?

- Tá, mas e os cachorros?

- A gente consegue um negócio pra eles dormirem. Tipo alguma coisa pra misturar num naco de carne.

- É Fabio, parece que você não é tão tongo quanto aparenta.

- E voce não é tão ligado quanto aparenta.

A operação aos poucos acabou sendo definida. Eu e Fabio saímos dar um rolê de buzum lá pelas bandas do Bacacheri numa tediosa tarde de domingo pra definir o alvo. Fabio é mestre nesse tipo de coisa, foi ele que escolheu o prédio pro Jean jogar a TV naquela vez. Marilia se encarregou de conseguir calmantes com sua tia hipocondríaca pros cães dormirem. Acabamos por encontrar uma casa limpeza, bala, no Bairro do Tingüi, com dois São Bernardo e um Pastor Alemão, próxima de uns terrenos baldios. A casa era grande, um sobrado com um quintal arregado. Era o alvo perfeito.

Tratamos então de conseguir o material pro ataque. Sergio batalhou e conseguiu vender umas agendas e uns cartões que ele faz e com a grana comprou uns quantos tubos de tinta a óleo. Jean comprou uns sprays. Eu giz de cera das Casas China, afinal ando duro pra caralho. Fabio imprimiu uma porrada de poemas e comprou umas fitinhas coloridas pra amarrá-los não se sabe onde e Vinicius comprou fósforos e álcool.

- Que merda você vai fazer com isso?

- Só o Jean que pode fazer surpresas agora? Na hora vocês vão ver.

- Tá bom, só não vai fazer merda, não vai foder com tudo.

Perto da meia noite de quinta-feira pegamos um latão até o Terminal do Cabral e o resto do trecho seguimos a pé. Caminhar é bom pra pensar e precisávamos de uns momentos de concentração. A uns quinhentos metros do alvo nos dividimos, Fabio, Vinicius e Jean foram na frente pra sedar as feras e eu fiquei com o Sergio, estava um pouco nervoso com essa coisa de invadir casa com cachorro.

Demoraram pra caraaaalho, mas demoraram mesmo. Umas três horas ou mais, já estávamos preocupados que tivesse acontecido alguma coisa e já estávamos pensando em “operação resgate”, quando chegaram.

- Porra cara, onde é que vocês estavam?

- Os filhos da putas dos cachorros não quiseram comera a carne de jeito nenhum, tivemos que achar outra casa com um Pitbull mané que topou comer. A casa é massa também só que temos que apurar antes que aquele monstro acorde.

Fomos correndo e chegando lá pulamos uma grade alta do lado esquerdo da casa, os piás já estavam ligados das manhas. Difícil mesmo foi entrar dentro da casa. O curso de “chaveiros” que o Jean tinha conseguido pra gente foi altamente mandrake, não aprendemos a arrombar portas bosta nenhuma. As janelas do térreo tinham grades e a única janela alta disponível, que era o plano de invasão do Fabio, revelou-se de difícil escalada. Pra completar não tinha nenhuma escada ou algo semelhante no quintal.

Acabou que tivemos que arrombar uma porta. Foi um cagaço dos diabos o barulho que aquela porra fez. O cachorro se mecheu onde estava deitado e todos nós prendemos a respiração. Quando entramos na casa estávamos todos tensos.

- Galera, vamos sentar aqui no escuro, relaxar um pouco e ouvir os ruídos. – eu estava tenso, muito tenso.

Todos sentaram enquanto eu fumei dois cigarros pra me acalmar. Jean foi o primeiro a se levantar e começar a trabalhar com seu spray. Primeiro fez a pichação delinqüente número um: cú. Depois foi escrevendo outras frases. “Toda propriedade é um roubo”. “Estamos em território inimigo e o inimigo está em nós”. “Na natureza não existem leis, apenas hábitos”. Relaxei, pedi o spray emprestado e mandei ver: “Em mim também dói.”

Então todos assumiram suas tarefas e damos início ao circo de horrores. Engraçado foi ver Vinicius, o homem da surpresa, só sentado nos olhando na penumbra com seu sorrisinho de Monalisa. Sergio acendeu uma vela pra iluminar e começou a jogar umas tintas na parede pra fazer uns fundos coloridos. Fabio saiu com seus poemas e fitinha coloridas pro quintal e eu comecei a desenhar umas charges toscas na parede com meu estojo de giz de cera de um e noventa e nove.

Jean esvaziou seu spray e ficou sentado com Vini curtindo o trabalho do Sergio que estava realmente ficando muito louco. Todos nós criticamos o meio artístico e suas afetação mas admiramos o trabalho do Sergio, o cara é bom. Ele já estava quase no fim quando ouvimos alguém bater palmas na frente da casa.

- Puta que o pariu! Quem será que é?

- Olha lá, rápido.

Vinicius rastejou teatralmente até a janela da frente e deu uma espiada discreta.

- É um carinha de moto, desses que fazem ronda nos bairros.

- Merda deve ter visto a vela, apaga essa porra Sergio!

Apagamos e nos escondemos todos na área de serviço perto da saída. Vini ficou de butica no cara da moto. Ele deçeu da moto, olhou no escuro primeiro, depois açendeu uma lanterna, iluminou e viu o cachorro dormindo. Apitou pra acordá-lo e todos nós quase tivemos ataques cardíacos simultâneos. Ufa, o viado não acordou, só que o ronda ficou desconfiadíssimo, sentou na moto e esperou um tempão pra ver se ouvia algo. Tava na cara que era hora de saírmos fora antes que as coisas se complicassem ainda mais.

- Vamos embora povo! – chamei.

- Espera o cara sair.

Só que ele não saiu. Quer dizer, saiu e estacionou a moto na esquina próxima e montou campana no escurinho da sombra duma árvore.

- É... o cara não vai em bora tão cedo.

- Vamos embora! – eu estava muito nervoso.

Sergio foi pé por pé e terminou sua genial obra no escuro mesmo enquanto fomos conferir o que Fabio estava aprontando no quintal. Fez um troço até que bem massa. Tinha umas árvores pequenas e ele fez uma autêntica decoração de natal com seus poemas em todas as árvores, de dia deve ter ficado esteticamente alucinante. Sergio voltou e fomos todos até o muro dos fundos pra saltar fora quando nos demos por conta que o Vini tinha sumido.

- Onde aquele viado se socou?

Sergio já estava saindo em sua procura quando o lazarento revelou sua tão misteriosa surpresa: um enorme clarão saindo de dentro da casa, o paunocu tinha tacado fogo em alguma coisa.

- Você incendiou a merda da casa seu bostinha!!!!

- Nada, só açendi a lareira com uma Revista Veja que encontrei no canto sala, essas revistas mereçeem, vamos embora.

- Seu mané, porque você fez isso?

- Bora! Não discute! Depois a gente conversa.

O guardião do bairro apitou, acelerou sua moto e veio rapidinho quando se ligou do fogo. Dessa vez o cachorro acordou com o barulho e avançou em nossa direção. O cara mais sem jeito do mundo chamado Sergio Augusto se amarrou pra conseguir pular o muro e levou uma senhora duma dentada na barriga da perna. Ainda bem que a calça jeans que estava usando era bem grossa e os dentes do cão não chegaram a furar a perna, mas deixou umas doloridas marcas de dentes. Quando pulamos o muro descobrimos que tínhamos dado um azar fudido, o terreno era um lamaçal infernal.

Chafurdamos feito uns fugitivos desesperados. Foi um verdadeiro recorde dos cem metros chafurdados.

- Que porra! Que zica do caralho!

Vinicius estava em êxtase por causa de sua fogueira idiota e ria feito um demente. Sentamos no outro lado quarteirão pra descansar e desbaratinar o cara da moto que iluminava o lamaçal com sua lanterna tentando nos localizar. Altos momentos de tensão, o décimo terceiro ataque não podia terminar mesmo bem. Se o treze fosse mesmo o número da sorte como o Zagalo diz tínhamos ganhado a copa da França. Cabalístico isso.

O dia já estava clareando quando saímos cabreiros nos esgueirando pelos cantos das ruas pra fugirmos do local. Enquanto esperávamos ouvimos sirenes da polícia, mas felizmente não fomos pegos, a manha foi esperar uma cara até a poeira baixar. Quando já estávamos relativamente longe corremos. Corremos muito até chegarmos numa lanchonete pra comer e beber pra poder voltar pra nossas bestas rotinas de criaturas sociais. Estávamos Exaustos, Sedentos & Famintos, apesar da descarga de adrenalina.

O tio da lanchonete estava desconfiadíssimo com nossa imundície e falamos a ele que estávamos saindo de uma festa.

- Passamos em Medicina na Federal, tio. O senhor não bota fé o quanto é difícil e o quanto estamos felizes.

Não gargalhávamos desta vez devido a estarmos podre, mas sorríamos em silêncio enquanto o lanche não chegava e no íntimo todos pensavam.

- Foi massa!!!

A radioatividade do ar leva até vocês: mais um programa da série Delinqüência

(ato quatorze)
Tem dias que a vida parece coca-cola sem gás. Nenhuma música agrada, nenhuma conversa progride e a apatia vence o jogo. Estávamos neste estado deplorável, assistindo São Paulo e Cruzeiro na televisão sem volume, quando a Ana Paula Padrão interrompeu nosso tédio com aquela cara de peito contido que faz na hora de noticiar algo grave. Era a morte do filho da puta dono da Globo.

Foi show a gritaria da galera, urros selvagens e gritos primais celebraram o momento. Sergio Augusto então se emociona e toma a atitude mais inesperada pela qual já passei. Arrancou da tomada o fio da televisãozinha dos piás e jogou a lazarenta pela janela.

- Enfim livres! – berrou para todo vizinho que quisesse ouvir.

Foi um choque. Ficamos todos paralisados. Absolutamente não esperávamos aquilo. Tínhamos jogado uma TV do sétimo andar outro dia, mas, porra, era a TV dos piás. Pequena, preto e branca, mas era a TV que eles tinham. Não falei nada, não sabia o que dizer. Fábio ria que se cagava e Jean, um dos donos do aparelho, ficou atônito. Mas Vinicius explodiu em fúria.

- Puta que o pariu! O que tu fez seu viado?

-Ué? E a campanha “Jogue Sua TV Pela Janela”?

Ele estava coberto de razão. Vinicius resmungou e começou a ficar vermelho de raiva. Sergio tinha em seu favor falácias passadas, é um desses caras que nunca perdem a calma.

- Jogar uma TV que não funciona de um edifício invadido e manter uma funcionando em casa é ridículo.

Vinicius respirou fundo e deve ter contado até mil até que a realidade começasse a bater. Aliás, bater não, socar violentamente o rosto, dele e de todos nós que estávamos lá. O paunocu do Sergio conseguiu fazer com a gente o que provavelmente não conseguimos fazer com ninguém.

O tão aclamado choque na percepção das coisas, na rotina bestial enraizada em nossa psique. Num segundo o Galvão Bueno estava lá, queimando um filme puxando o saco de seu patrão e noutro segundo a televisão estava na calçada. Não era muito alto, só rachou o tubo de imagem, mas o suficiente pro fantasma do Galvão sair pelas rachaduras.

Levamos um tempão pra começar a conversar novamente. Foi Jean quem quebrou o gelo.

- É seu monstro, você tem razão, veio.

- Com certeza! – ria o Fábio.

- Você fala porque mora com os véio em Colombo e não era tua.

- Relaxa, mano! A TV era podre e merecia um descanso, com uns poucos reais você compra outra igual.

Não! Não vou mais comprar televisão. Nunca mais!

Por fim acabaram se abraçando com desculpas e obrigados que mais pareciam duas bichas locas. Acabamos ficando acordados até altas horas falando merda e profanando a alma do pobre milionário que acabara de morrer. Lá pelas tantas já estávamos normais, viajando em inventar delinqüências. Fabio estava hilário, foi ele quem deu o toque.

- Ari! Lembra daquela tua viagem de montarmos uns transmissorzinhos de FM para interferirmos nas televisões?

- Lembro.

- Pois então, a gente pode aproveitar essa deixa pra fazer a parada.

- Tens razão...

- Pois então, vamos mexer nossas bundas gordas. Depois daquela baia invadida em que quase ninguém viu nossa ação eu tava afim dum esparro.

No outro dia Vinicius tratou de encontrar Marcelo, aquele primo da Marilia que é técnico e que quebrou nosso galho no ataque da churrascaria. Naquela vez ele participou junto, pirou e se dispôs de quebrar outros galhos.

E este era um novo galho.

- Porra gurizada, esse é fácil! Com um transistorzinho besta e vocês montam um transmissor com mais de duzentos metros de alcance.

- Mas é fácil mesmo?

- Claro, numa tarde a gente monta e é baratinho, arrumamos quase tudo que precisa na minha sucata de novo.

Passamos então a considerar os aspectos práticos da operação. Com alcance 300 metros de raio resultaria numa área de abrangência de um circulo de 600 metros de diâmetro, isso sem nenhum prédio ou montanha no meio. Uma barreira de edifícios, por exemplo, atenuaria o sinal. Escolhemos então um bairro residencial. Jean estava interessado em atingir a maior quantidade de casas possível.

- Não tem como aumentar a potência do sinal pra atingir mais casas?

- Até tem, mas vai encarecer e complicar um pouco mais.

- Muito?

-Passa de cem reais. Mas escuta o seguinte, vocês podem montar vários transmissores e se esparramarem, desse jeito dá pra cobrir uma área grande.

- E dá pra transmitir sons ou já é viajar na maionese?

- Dá sim, imagem é mais complicado porque o sinal de vídeo em AM e gerar imagens são um negócio mais foda, mas som dá, um microfonezinho de eletreto e tá feita a cagada.

Perfeito. Passamos o domingo inteiro confeccionando os transmissores, queríamos interromper a transmissão do Fantástico, queríamos ibope. Todos trabalharam juntos, cada um no seu, menos o Sergio.

- Dessa vez quero ficar de camarote, vamos escolher o bairro do Água Verde e eu fico na casa da Marilia assistindo a TV com ela e a família dela fazendo de conta que não sabemos de nada. Quero conferir se a parada vai funcionar mesmo ou não.

Sergio, Vinicius e Marilia foram até a casa dela antes com os transmissores. Eu, Jean e Fábio fomos definir os pontos onde iríamos transmitir de modo a atingir a maior quantidade de lares possível. Fomos criteriosos pra cacete. Escolhemos quatro árvores das quais era possível enchergar as TVs pelas janelas das casas. Uma vez definidos os locais fomos buscar os aparelhos com Sérgio. Porém um teste rápido na casa da Marília revelou o pior, o viado tinha carregado eles na mochila sem o menor cuidado, amassou as bobinas e ferrou com o ajuste de freqüência.

Mas tem males que vem pra bem e enquanto passei a segunda-feira inteira me desviando de minhas funções no trampo reajustando tudo me dei por conta de que poderíamos fazer uma grande palhaçada: esperar pelo dia da missa de sétimo dia e interrompermos o Jornal Nacional. Liguei pros piás imediatamente.

- E aí Jean, o que você acha?

- Acho a idéia boa, mas dá pra melhorar.

- Como assim?

- Lembra do Tiba e do Ribamar, que rachavam o apê com a gente nas antigas?

- Sim, mas e daí?

- Eles são feras em imitar a voz de pessoas famosas. Ele podiam imitar a voz de figuras conhecidas e aí poderíamos tirar onda verdade.

Perfeito. Vini se encarregou de falar com os caras e explicar os detalhes de toda a nossa viagem, pois eles estavam absolutamente por fora de nossas ações. O etílico Tiba pirou com a idéia, mas fez uma exigência.

- Tá certo, a gente faz, mas tá um frio do caralho e eu queria fazer a cabeça antes com uns quentões. Sabe? Aquecer os neurônios.

- Eu falo com minha namorada e a mãe dela faz o quentão.

Terça à noite então tomamos um belo trago e saímos aquecido e levemente chapados de quentão pra nossas atividades. Eu e os outros delinqüentes de sempre ficaríamos cada um em sua árvore ciceroneando a transmissão e Tiba e Riba (bela dupla, não é verdade?) ficariam se revezando nas imitações, teriam que correr de um lado pra outro.

Seria na hora do Jornal Nacional e quando o programa começou Sergio, que novamente estava de plantão na casa da Marilia soltou um rojão quando William Boner deu seu formal boa noite em rede nacional. Liguei meu transmissor e comecei:

- Senhoras e senhores, interrompemos a transmissão da Globo pra homenagearmos esse grande filho da puta chamado Roberto Marinho e sua nefasta Rede Globo de televisão. Transmitiremos uma série de depoimentos emocionados de personalidades conhecidas.

Nesse meio tempo chegou o Tiba.

- Com vocês: Leonel Brizola.

Soltei o microfone que tinha sido previamente adaptado a um fio longo pro Tiba e ele caprichou no seu sotaque de gaúcho.

- O povo brasileiro tem que entender o motivo de minha angústia com essa morte. Minha vida perdeu o sentido, foi-se meu inimigo predileto.

- E agora: George W. Bush, presidente dos Estados Unidos da américa:

Tiba então mandou ver num sotaque de gringo em praias tropicais:

- Lamentamos com profundo pesar a morte desta importantíssimo jornalista argentino.

De repente mais um rojão, era Sergio sinalizando que a bagaça estava funcionando. Tiba correu pra árvore do Fabio e enquanto esperava pelo Riba segui discursando sobre os males que a Globo infligiu na história recente de nosso país. Jean fez uma bela pesquisa na internet sobre as filhadaputiçes globais.

Discursei abençoado por Marte, que brilhava majestoso no céu logo abaixo da lua. O céu das frias noites curitibanas é simplesmente sensacional. Ribamar chegou logo e a palhaçada continuou com Dercy Gonçalves.

- É, seu filhos de uma puta! Vou enterrar vocês todos!

Silvio Santos veio com a nova última piada nacional:

- Hahaê! Ele me ganhou! Ele me ganhou! Ameacei morrer pra melhorar meu ibope, mas ele me ganhou, morreu de verdade! Hahaêê, Lombardi!!

- É patrão! Ele saiu na frente!!

Então Anthony Garotinho se mete na conversa:

- Graças a Deus não foi nenhuma bala perdida!

- E atenção pessoal! Temos aqui a importante presença de um membro da ONG Greenpeace! “Primeiro acabaram com o Leão Marinho, depois foi a extinção do Cavalo Marinho, e agora, o Roberto Marinho. Enfim, uma grande perda pra biodiversidade.”

Ribamar saiu correndo e fiquei esperando pelo Tiba novamente, sem parar a transmissão. Quando Tiba chegou perto e pegou o microfone eis que acontece a tragédia, ou a comédia, o futuro dirá. Um gordão saiu correndo de uma casa no meio da quadra totalmente indignado, se ligou na fita.

- Seus vagabundos! Vocês não tem mais nada o que fazer seus merdas do caralho!!!

Trazia um porrete na mão e me viu em cima da árvore segurando o fio do microfone. Imediatamente gritei:

- Fuja locôôooo!!!!!

Saímos correndo nos mijando de rir do jeito desajeitado que o gordão corria com o porrete batendo no ar e do vastíssimo repertório de palavrões com os quais nos esculhambava. Tivemos que nos esconder e esperar o resto da turma terminar a ação.

Apesar desse percalço foi um sucesso. Sergio nos contou que a mãe da Marilia se torcia rindo no sofá e não deixou o marido trocar de canal. Curtiram a transmissão até o final e isso nos dá uma noção do efeito de nosso ataque nos lares do bairro. Aos poucos fomos nos reunindo de volta na casa e é óbvio que a velha se ligou.

- Foram vocês, né seus desocupados?

Mostramos a ela os aparelhinhos e demos belas gargalhadas. Jantamos todos lá e depois fomos comemorar o sucesso da ação no Pacatatucutianão, um bar muito louco que fica ali no Água Verde mesmo. Os deuses nos premiaram com uma louquíssima noite de festa e Jean tirou a sorte grande: agarrou uma gata fenomenal chamada Alana.

Provavelmente o capeta deve ter dado umas quantas espetadas no jornalista morto em nossa homenagem.

- Obrigado Capetãããoo!!!!

Uma Missa para o Lado Selvagem

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