Manual prático



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(ato quinze)
Nos últimos tempos o movimento pelos direitos dos homossexuais tem crescido no mundo todo. De um lado gays, de outro homofóbicos e as discussões muitas vezes saem da argumentação pra caírem na violência física pura e simples. Esse é um assunto polêmico em que os preconceitos ocultos mais se manifestam.

Na kitnete dos Delinqüentes o assunto veio à tona quando Jean ligou pra mina que conheceu no Pacatatucutianão depois de nosso ataque dos transmissores. Quem atendeu foi o irmão dela, com um alô totalmente boiola.. Jean ficou de cara.

- Porra, o irmão da mina é viado!

- Que é que tem, cara? Você tá agarrando ela ou o irmão dela?

- E ainda falou que o nome dela não é Alana merda nenhuma, é Alice, a mina viajou.

Logo depois entramos num longo bate-boca sobre os gays quando comentei aquelas paradas do Vaticano insistir em condenar o casamento dos homossexuais. Jean e Fabio vieram com um discurso escrotamente homofóbico.

- Tem que matar essas bixas todas!

- Já sapatão eu curto. - Escroteou Jean.

Os dois são mesmo uns palhaços safados, Bukowskis degenerados. Vinícius é o mais cabeça aberta, pra ele que se foda.

- Cara, o que cada um faz com seu rabo não me interessa. O cú é teu, mano, faz dele o que quiseres, estou pouco me fodendo.

Sérgio que me surpreendeu; porra, parece que o cara tá sempre querendo me surpreender.

- Olha, eu penso o seguinte: não tenho nada contra a relação de homem com homem ou mulher com mulher. Não vejo nada de errado nisso, a imagem é que choca.

- Como assim?

- Ah... por exemplo, você olha a foto de um casal heterossexual se beijando e enxerga amor, mas se o casal for do mesmo sexo não se vê o amor, apenas o beijo.

- Deixa de ser ridículo!

- Só porque você não vê o amor, não significa que ele não exista e que mais ninguém vê. À merda você com esse seu raciocínio.

O bate-boca foi longe, com momentos até de agressividade, aquela kitnete acabou transformando-se num microcosmo da questão homossexual. Várias bandeiras foram erguidas, várias foram baixadas e no final das contas, como de costume, chegou-se numa espécie de consenso.

Só que infelizmente o consenso não veio porque ninguém convenceu ninguém. O consenso veio porque Vinícius teve uma idéia genial pra um ataque. Só assim pra chegarmos a um consenso mesmo nesse assunto, o que nos une é a delinqüência, é o desrespeito total às instituições. E a idéia do Vini era atacar a Igreja, instituição que a tempos estávamos afim de sacanear.

- Prestem atenção no que eu estava pensando.

- Lá vem bomba...

- O Papa não quer que eles casem, lançou uma campanha mundial e a homofobia só fez crescer no meio católico. Podíamos fazer um belo protesto contra essa atitude conservadora.

- Sim, mas que ataque?

- Compramos um monte de revistas pornográficas de gays, colamos a cara do Papa em cima de cada um que tiver trepando e colamos os papéis numa igreja.

Ficamos em silêncio, pensando, até que Jean caiu na gargalhada.

- Cara! É muita palhaçada! Que plano do caralho, meu!!!

Sérgio também riu, curtiu a viagem.

- E a gente podia avacalhar ainda mais, nos vestindo de travecos e indo assistir a uma missa.

Aí a galera emudeceu mesmo. De verdade. Opa, peraí caceta. Apoiar o movimento é uma coisa, dar uma de traveco já é outra bem diferente. Fábio logo já tomou a frente.

- Tô fora!

Fiquei indiferente, até que Vini começou a se mijar de rir pensando na puta cena que seria fazermos isso.

- Imaginem galera, o constrangimento causado pela presença espalhafatosa de bixas locas numa missa. Cara, isso pode realmente ser hilário!!

Acabou que bolamos um plano altamente constrangedor pra nossas masculinidades. Uma verdadeira prova de fogo em que nossos preconceitos mais íntimos seriam postos em cheque. Vinícius ligou pra sua namorada Marília pra conseguir as roupas e as maquiagens. Ela simplesmente não botou fé na nossa piração. Não conseguia nem falar direito ao telefone de tanto que ria.

- Você pára de palhaçada, sua tonga! - Vini ria junto.

Chegou na kit com um sacolão de roupas e uma cara de debochada.

- Essa eu quero ver, se cobrarem vinte reais de ingresso nessa missa eu pago mesmo assim, vale, pode ter certeza que vale.

Fábio e Jean se encarregaram das pornografias. Compraram umas revistinhas e foram na casa do Társis, amigo nosso que tem micro com scanner. Társis também achou a idéia engraçada pra cecete e eles acabaram entrando numas e fazendo altas viagens no Photoshop. A carinha do papa em cima dos gays ficou perfeita. Acompanhando cada panfleto colaram um texto dizendo: "O Ministério do Caos adverte, o mais importante é o amor". Procuraram na net outras imagens sadomasôs e avacalharam ainda mais com o Papa e colocaram cada colagem dentro de um envelope branco pra plantarmos na igreja.

Escolhemos a Igreja Padre Agostinho na missa do domingo de manhã. Não era uma igreja nem muito grande, nem pequena e ficava num bairro, mais sossegado. Passamos a madrugada de sábado dando um trato em nossos visuais. Éramos todos cabaços nesse tipo de coisa e Marília foi nossa diretora artística, dando os toques principais na hora das maquiagens.

Sérgio ficou horrível, seria uma bixa assustadora se o negócio fosse sério. A ironia é que os homofóbicos Jean e Fabio foram os mais perfeitos. Se fossem bixas, seriam bixas de sucesso. Claro que tirei onda deles.

- Hummmm!! Vocês tem é medo! Cabreirisse, rárárá!

- Olha a bundinha delas, hummmm!!! - Vini também não desperdiçou a bola na marca do pênalti.

- Vai te fuder Ari!!!

Eu e Vini ficamos meia boca, com uns vestidões compridos até o tornozelo e uns colares breguíssimos. Combinamos que entraríamos todos separados na igreja, pois entrar junto seria muito chamativo e queríamos apenas dar umas alfinetadinhas nos católicos, não porradas. Tolerância religiosa é importante e acreditamos que não estávamos sendo muito intolerantes, apenas estávamos sendo uns palhaços delinqüentes.

Domingo cedo pegamos o Água Verde-Abranches e descemos perto do Bosque do Papa, só pra dar um grau cerimonial a nosso ataque. Estava um frio desumano e a grama ainda tinha uma camada de geada por cima. No meio do bosque tem uma estátua de um papa com uma expressão pra lá de macabra no rosto. Maquiamos o papa e fomos pra Igreja.

Vini foi "a primeira" a entrar e ficou bem na frente, na primeira fileira de bancos. Depois entrei eu e fiquei lá pelo meio, do lado esquerdo. Carregávamos todos nossas colagens nos envelopes na mão. Marília e Társis foram vestidos normalmente pra serem platéia e não perderem o show. Jean e Fábio, as duas "bixas gostosas e enrustidas" entraram quase juntos e ficaram próximos uma do outro, no meio,do lado direito. Sérgio que demorou pra caralho.

A missa já tinha começado e já pensávamos que ele não entraria quando chegou e se mocou no fundão. Ele é o tipo do cara que gosta de dar idéias pra que os outros ponham em prática, fazer ele participar de nossos ataques tem sido nossa maior vitória.

Foi incrível como ninguém nos olhava diretamente nos olhos. Era como se fôssemos invisíveis. E também parecia que estávamos fedendo, ninguém ficava perto. No mínimo um metro e meio de separação física.

O padre foi quem se fudeu bem mais pra disfarçar que não estava enxergando nada. Vinícius estava bem na sua frente, bancando uma autêntica bixa loca. Na hora do sermão ficou descaradamente dando em cima do padre e nos cânticos era totalmente "desafinada e estérica".

Só tinha mulheres na primeira fileira e algumas começaram a se invocar, principalmente quando Vini meio que se emocionava e insinuava que iria dançar no embalo dos hinos. Eu tava olhando pra ele na hora em que levou uma cotovelada de uma delas.

Começou então a dar açenadinhas pro padre, que teve uma hora que chegou até a gaguejar. Nesse momento foi difícil conter o riso. Estávamos sendo o mais escrotos possíveis, cantávamos desafinados, fazíamos comentários bestas sobre trechos do sermão para os vizinhos, que ignoravam solenemente, até que as coisas começaram a se complicar. O padre emendou um sermão contra o casamento homossexual, primeiro insinuando e depois descaradamente. Foi ele quem chutou o pau do barraco primeiro.

A princípio colocaríamos nossas colagens pelos bancos discretamente, mas o sermão improvisado exigiu de nós também um improviso. Era a hora de agirmos diante do inesperado. Um dia isso teria de acontecer, pelo menos foi sob o teto de um deus.

Vinícius tomou uma atitude drástica e interrompeu o sermão.

- Isso é um preconceito absurdo!! Isso contraria completamente a frase de Cristo que diz que o mais importante é o amor.

Falou isso balançando os braços e deixando cair os envelopes com nossas colagens. Caíram vários, próximos ao altar. Sem querer viajar e já viajando, o silêncio dos fiéis chegava a fazer eco. Vini terminou de falar e dirigiu-se à saída a passos largos e resmungando palavrões. Vi muitas almas se benzerem.

Em solidariedade à sua atitude saímos todos juntos, indignados também.

- Isso é uma falta de respeito para com o ser humano!

Fomos pedindo licença pras pessoas e deixando propositadamente os envelopes caírem no chão. Sérgio tava tão escondido que nem vi ele sair. Jean foi o último a sair e quando estava na porta virou-se e falou pra todos:

- Êita coração de pedra!

Saímos da igreja todos correndo e rindo. Não sei porque corremos tanto, mas corremos. Chegamos no Bosque do Papa e nos jogamos no chão extasiados pelas gargalhadas e imaginando como a missa poderia ter prosseguido depois daquela cena. Foi muito engraçado. A geada já tinha desaparecido e a maquiagem da estátua também, algum guarda municipal deve ter se ferrado e lavado tudo, efeitos colaterais de nossa guerra, seu guarda, foi mal. Trocamos nossas roupas enquanto esperávamos Marília e Társis.

- Gurizada! Muita cara de pau a deles, seguiram a missa como se nada tivesse acontecido!

- E os envelopes?

- Fizeram de conta que não estavam lá, mas deixe quieto que depois tenho certeza que irão conferir o que tem dentro, aí sim levarão o verdadeiro susto.

Ainda era de manhã e fomos a um bar na Mateus Leme tomar umas cervejas escuras pra comemorarmos. Não tínhamos dormido à noite nem comido nada antes de sair de casa, de modo que o jejum fez com que as beras pegassem valendo.

Voltamos pra kit meio bêbados e dormimos o resto do dia cada um com um sorriso no rosto imaginando a abertura dos envelopes.

Foi muita palhaçada.

Eu Não Pedi Pra Nascer, Nem Vou Nascer Pra Perder

(ato dezesseis)
Dinheiro é como droga e estamos quase todos viciados. As crises de abstinência são terríveis. Cada vez mais se faz cada vez menos sem ele. Sérgio está desempregado e tá foda de arrumar alguma coisa. Se dar bem hoje em dia é como tirar a sorte grande, ser uma criatura iluminada pelo Deus Mercado. Até os que tem trampo fixo, como eu e Jean, estão pela bola oito, com sérios riscos de perdê-los.

Somos uma autêntica geração de Fudidos & Mal Pagos. Na segunda-feira à noite estávamos chorando as mágoas e brincando de rotular nossa geração.

- Desistam, vocês só vão conseguir isso quando ficarem velhos e a geração da vez já for outra. - Vinícius é um pessimista apocalíptico incurável.

Sérgio é enfático, esse seu chavão até que já é meio antigo, mas ele sempre solta essa.

- Somos os Palestinos do cotidiano, expulsos dos nossos sonhos e das nossas aspirações e refugiados numa realidade que nos exclui.

- Pô, que foda isso...

Eu e Fábio somos do palpite de que somos múltiplos em rótulos, dá pra chamar de uma porrada de maneiras, a Geração Queda-livre, a Geração "O Atrasado Que Paga a Conta" ou então mais perfeito: somos a Geração "O Que é Um Peido pra Quem Tá Todo Cagado?".

- Vocês estão viajando. - Falou Jean calmamente, fumando um Charuto que arrumou não sei onde. - Na verdade somos mesmo a "Geração Espermatozóide".

- É...

- O prêmio é bom, se você fecundar, fica nove meses curtindo e desenvolvendo o corpinho, depois nasce pros prazeres da vida. Mas o vestiba é fudido, são bilhões de candidatos por vaga. Mas tem gente que consegue...



Ficamos naquela, pensando na viagem dele, até que ele deu uma baforada em seu charuto e quebrou o silêncio.

- Inclusive eu tenho um plano de uma ação nesse sentido, não curti a dos travecos, queria fazer algo diferente.

- Que ação?

- Um autêntico ataque.

- Ataque?

- Uma grande palhaçada, pra dizer a verdade.

- Fala logo, porraaa!

O cara falou só isso e ficamos todos nos olhando e pensando: "Olha a do cara!". Nem falamos nada, simplesmente ficamos esperando por maiores explicações.

- Fácil! A gente consegue um feto falso, um feto de uns três meses, um pouco de sangue de animal e deixa no banheiro de algum shopping.

- Rapaz, não boto fé nessa tua mente macabra!

- Mas calma aí, não é só, não pode ser só.

- O quê?


- A gente deixa um manifesto, como se o bebê mesmo não quisesse nascer. Tipo um feto suicida.

- Feto suicida?

- Eu não quero nascer nesse mundo de merda!

Pronto. A idéia estava lá. Uma daquelas típicas idéias monstruosas que se agigantam e te dominam. Operacionalizar a idéia já foi mais difícil, pois precisávamos de uma mina, Jean não se encontrou com Alana Alice e essa mina teria de ser a Marilia.

Foi foda convencê-la. Nós somos uns malacos, mas ela tá apenas iniciando nos caminhos da delinqüência. Somente depois de bolar um bom disfarce que ela acabou topando.

- Vou sair loira, com uns óculos grandes e um casacão de frio.

- É limpo, no banheiro tem várias portinhas, vão demorar pra entrar na que você usou, dá tempo de sumir. - Jean foi o arquiteto da ação.

Fez um mistério lazarento, disse que comprou curtiça e que ele mesmo daria um jeito de esculpir o feto. O manifesto seria com ele também. Aceitamos o mistério porque desde a surpresa do ataque ao salão de beleza do shopping ele, digamos assim, ganhou uma certa moral no grupo.

Eu e os guris cuidamos então do resto.

E o resto era o sangue e os outros apetrechos realísticos. Fábio veio com uma de que víçeras de porco são muito parecidas com as humanas e acabou usando seu humor negro pra dar uns toques aterrorizantes ao resultado. Conseguimos umas paradas parecidas com cérebro, muito horrível. Fomos até Campo Comprido pra conseguir o material na casa de um tio, amigo do pai dele.

Vinícius ficou com Marilia e seus disfarces e o Sérgio participou do mistério do Jean. Jean queria dar um acabamento artístico no ataque e convocou o monstro.

O sangue colocamos numa garrafa de Tubaína vazia de dois litros e as víceras numa sacola de lixo preta. Antes de sairmos de casa Jean nos chamou num canto e mostrou seu "precioso". Era um feto com dois braçinhos recém formados, sendo que o lado esquerdo estava pra baixo e o braço direito inclinado em direção à cabeça.

- Tá, mas todo esse segredo pra isso? É um feto comum.

Então tirou do bolso uma seringa e colocou na mão do feto.

- Com vocês, o feto suicida!!

Ficou perfeito, hilário, o feto apontava a seringa na têmpora direita, igualzinho a um suicida com uma arma apontada pra cabeça. Depois mostrou o manifesto: O Movimento dos Fetos Conscientes, apresentando quinhentos mil motivos pra não nascer nesse mundo de bosta. Jeanzinho acabou fazendo um manifesto altamente hard-core. Revoltado mesmo.

Marcamos a ação pra quarta-feira no início da noite, lá pelas sete horas. O desafortunado alvo da vez foi o Shopping Müller, que ainda não tinha sido vítima de nossas sacanagens delinqüentes. Vinícius entrou com Marília e rapidamente se dirigiram ao banheiro. Marília entrou e ele ficou esperando. Logo chegamos nós, que ficamos nas proximidades observando o desenrolar dos fatos.

Marilia demorou, demorou e demorou. Deve ter ficado uns vinte minutos lá dentro.

- Será que ela não vai mijar pra trás?

- Relaxa, a mina é das nossas.

Até que por fim ela saiu, apressada, nervosa, a passos largos. Vinícius foi atrás pra saber se ela tinha feito tudo conforme o combinado e também para tranquilizá-la um pouco. Ficamos esperando, torcendo pra que rolasse o maior escândalo possível. Nosso real objetivo ao atacar os shopping é que essas igrejas do consumismo deixem de ser a ilha da fantasia que proclamam ser. Lutamos, digamos assim, contra o apartheid social que é fortíssimo em Curitiba.

Vinicius voltou e contou que saiu tudo conforme o planejado. O bebê ficou com o braço desocupado virado pra cima e somente quando fosse erguido que a palhaçada seria revelada. Marília, mesmo contra a vontade e morrendo de nojo, molhou os dedos no sangue já quase coagulado e escreveu na porta do toalete a frase: Movimento dos Fetos Conscientes.

O tempo foi passando e entrou uma pessoa, depois outra e outra e nada. Já estávamos pensando que o shopping fecharia sem ninguém se ligar quando ouvimos o tão esperado grito. Um autêntico grito de quem leva um cagaço.

- Ai meu deus! Tem sangue lá dentro! Tem sangue lá dentro!

Era uma velhinha, quase morremos de pena da coitada, se mijou de susto, ou se cagou, pois caminhava lentamente com as pernas meio abertas, parecia cagada mesmo. A coitadinha tremia toda e não conseguia pronunciar uma frase inteira, só gaguejava.

- O que foi, minha senhora? – Perguntei disfarçadamente.

- Eu, eu, eu, eu não s-sei! T-tem muito sangue lá d-dentro. Eu não sei! Deus que me perdoe, mas parece que abortaram!

- Abortaram? Lá dentro?

- Eu não sei! Eu não sei!

Fiquei com o coração partido, a apavorada senhora começou a chorar. Não demorou até que um segurança do shopping chegasse junto.

- O que está acontecendo aqui?

- Seu moço! Seu moço! Tem muito sangue lá dentro, eu não sei, eu não sei, mas deve ter acontecido alguma coisa horrível lá dentro!

O rapaz pediu licença, falou alguma coisa no rádio e entrou no mictório. Naquela hora eu desejei ter nascido mulher, só pra ver a cena. Sérgio não desperdiçou a chance e tirou onda.

- Se tivéssemos vindo travestidos que nem fomos à missa, poderíamos ver nossa magnífica obra de arte.

- Cala boca, seu animal!

Vinícius saiu com Fábio falando aos quatro ventos que tinha ocorrido um aborto dentro do banheiro. Todos que ouviam levavam a mão à boca e murmuravam deusmelivres e coisas do gênero.

Quando as pessoas começaram a se aglomerar pra ver o que estava acontecendo chegaram mais três seguranças e fecharam o banheiro.

- O que está acontecendo?

- Estamos verificando, mas a princípio não é nada de mais

Vinícius não cansava de repetir:

- Foi um aborto, a senhora que viu me garantiu que foi um aborto.

O segurança parecia seguro de si.

- Calma, parece que não é nada de mais.

De repente, o circuito interno de som do Müller anuncia.

- Informamos nossos clientes que houve um vazamento de água num de nossos mictórios, mas nossos técnicos já estão resolvendo o problema e em breve ele já estará funcional novamente.

Filhos de uma puta! Lacraram a entrada do toalete em questão e não deixaram ninguém mais entrar no banheiro enquanto o “problema” estava sendo resolvido. Vimos várias faxineiras entrarem com baldes e panos. Bom, pelo menos elas e alguns funcionários viram, melhor que nada.

Marilia voltou sem seu disfarce e ria toda vez que via a cara de deboche das faxineiras que saíam do banheiro. Desta vez foi Marilia quem mais riu, merecidamente, foi o primeiro ataque com ela como protagonista principal. Várias pessoas acompanhavam o entra e sai do banheiro e todos, sem exceção desconfiavam que alguma coisa estava acontecendo.

Mas a direção do shopping no mínimo empatou com a gente, conseguiu, na medida do possível, abafar o caso.

No manifesto do Jean estava escrito mais ou menos assim: “Já foi uma concorrência dos diabos pra mim, como espermatozóide, conseguir fecundar o óvulo. Não quero nascer pra ter que concorrer de novo, com outros bilhões, por uma vaga bem sucedida nessa sociedade porca.”

Voltamos a pé pra casa rindo muito deste e de outros argumentos engraçadíssimos que Jean usou em seu manifesto. Realmente, se houvesse uma opção de escolha, será que todos iriam querer nascer nesse mundo doente?

“O Mundo tá muito doente. Tem gente que mata. Tem gente que mente.”

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(ato dezessete)
Nesse século que se inicia estamos vivendo uma época de profunda confusão. Quem não está confuso ou está mal informado ou está sendo desonesto consigo mesmo. Ninguém sabe o que está acontecendo e ninguém sabe pra onde estamos indo.

Ficamos muito impressionados com o manifesto que Jean escreveu sobre o bebê que não queria nascer. Ficou um enorme sentimento de desesperança no ar. Não dá vontade de correr atrás das coisas quando se sabe que é impossível alcançá-las.

Era esse o clima na kitnete dos Delinqüentes na sexta-feira à noite, depois do aborto no shopping center. Cada um acabou fazendo um breve perfil de sua condição neste mundo de bosta.

Saquem nosso perfil.

Vinícius estuda e batalha pra passar num vestibular enquanto faz bicos como músico. Jean trabalha de moto num serviço de tele-entrega e todo começo de ano volta a estudar e todo meio de ano desiste de estudar. Eu, trampo num escritoriozinho sem futuro. Fábio mora com os velhos, tenta sair de casa e vive fazendo planos de vida mirabolantes sem nunca levar nenhum a sério e Sérgio é uma dessas almas de artista, que nunca se encaixam na normalidade da sociedade.

Enfim, temos tudo pra dar errado, somos um caco de vidro esquecido na areia da praia, esperando alguém pisar em cima.

- Ás vezes dá vontade desaparecer. - Vinícius, o pessimista.

- Esqueça o futuro, te contenta com o teu presente e te consola com o teu passado.

- Besta isso.

Jean foi o único que não ficou pessimista depois do ataque.

- O canal não é se contentar com o presente e sim potencializá-lo, fazê-lo valer a pena.

Sérgio então se inspirou.

- Temos que valorizar os instantes.

A noite prosseguiu com mais uma daquelas nossas longas discussões filosóficas que não muito raro, dão em merda. Merda no sentido de que sempre acabam surgindo inspirações pra delinqüências diversas.

Sérgio queria empreender mais uma obra de Terrorismo Poético.

- Queria criar alguma coisa que simbolizasse essa vontade de sumir, esse desejo de desaparecimento.

Fábio, ainda com o orgulho abalado pelo ataque dos travecos, queria viver emoções mais fortes.

- Tô com saudade da ilegalidade, de cutucar a cobra com vara curta.

- Você é lóki.

- Podíamos invadir uma casa. - Interrompeu Sérgio.

- Pra fazer o quê?

- Uma performance de desaparecimento.

- Como assim?

- Se liguem na idéia que eu tive. Altos atos de Terrorismo Poético, só não sei como invadir a casa, isso não é comigo, mas a idéia eu tenho.

- Então fala que estamos curiosos.

- Entramos na casa, vamos até o banheiro e no lado do vaso deixamos todas as roupas de alguém. Como se o cara tivesse se despido ali dentro. Tudo; sapato, meia, cueca, tudo. E no vaso a gente deixa uma meia, simbolizando que o dono das roupas sumiu pela descarga. E com as roupas, talvez no bolso, uma carta de despedida.

- Que louco isso... - Vini curtiu.

- Muito louco mesmo!

Cada um bolou um jeito de aperfeiçoar a idéia. Cada um mexeu na panela acrescentando seu tempero particular. Concordamos todos que podia ser uma casa da periferia, que a burguesia não merece tão poderosa obra de arte. Pelo menos em uma família, plantaríamos uma sementinha.

Jean e Fábio se encarregaram dos planos de invasão. Deram uma banda de moto pela cidade e escolheram um bairro. Deram uma banda, diga-se de passagem, em pleno horário de serviço do Jean. Fizeram aquilo que costumamos chamar de Subversão de Baixa Intensidade, SBI (Vini costuma dizer que andar sujo em ambientes chiques, também é SBI).

Sérgio, Vinícius e eu nos encarregamos da obra de arte em si. Enquanto Sérgio se internou sozinho na kit pra escrever os textos, eu e Fabio fomos até a casa de Társis, que já é quase um delinqüente, scanear imagens e preparar os documentos do desaparecido.

Tive uma idéia do mal. O cara iria se chamar Jesus Cristo e em todos os documentos colocamos uma imagem padrão do "filho do homem" como fotografia. Fizemos tudo direitinho. Data de nascimento: 25 de Dezembro de 0000. Filiação: Maria de Nazaré (não sei se esse é o sobrenome correto, mas ficou esse mesmo) e José/Deus (a parceria com deus dispensa sobrenomes). Órgão Expedidor: SSP-Belém.

As roupas cada um doou alguma coisa e no sábado à tardinha já estávamos com tudo pronto. Os guris escolheram o bairro Cidade industrial e três casas como alvo.

- Pelo menos numa das três a gente tem que conseguir entrar.

- Escolhemos umas que tem moral de a gente entrar pelos fundos.

- E aparentemente não possuem cachorros.

Os dois, principalmente Fábio, estão ficando especialistas em campanar bairros. Sábado à meia noite juntamos nossos apetrechos, pegamos o biarticulado Santa Cândida-Capão Raso e descemos no terminal Capão Raso, depois pegamos o Rondon. Marília não quis ir, estava se recuperando do estresse do último ataque e ainda não tinha nem aparecido na kit. Já estávamos ficando preocupados que ela fosse desistir do Maravilhoso Mundo da Delinqüência Juvenil.

Descemos e chegamos num boteco pra bebermos algo e nos concentrarmos um pouco.

- O que você acha Ari, é melhor começar pela casa mais fácil ou pela mais difícil?

- A mais fácil, contar com a sorte é o primeiro passo para conquistá-la.

Saímos do boteco e nos embrenhamos numa rua pouco iluminada. Andamos umas seis ou sete quadras até que Jean fez sinal pra que parássemos. Olhou pra todos os lados, prestou bem atenção nos ruídos e pulou o muro em que estávamos ao lado.

- Venham! - Cochichou.

Fábio tinha pulado quase ao mesmo tempo que ele e pulamos todos juntos logo depois. Era um desses terrenos vagos esperando por uma construção, especulação imobiliária. Fábio apontou para o fim do terreno, mostrando qual era a casa.

- Mas fiquem espertos porque a casa da esquerda, não a primeira, mas a segunda, tem cachorro e esses porras tem um fudido de um ouvido sensível!

Fomos até o muro da casa devagar, agachados em silêncio, brincando de hobbits carregando o um anel. Pulamos o muro um por um, menos Sérgio, o desajeitado, que precisou de três ajudando para conseguir. O quintal da casa era grande, tinha até uma horta. O Vegan Sérgio não se segurou e chutou umas verduras, enchendo os bolsos.

- Vamos fazer altos cremes de verdura com suco de couve quando voltarmos!

- Blarghh!!

- Psssiu!!

Atravessamos o quintal pé por pé até uma janela que guris falaram ser a do banheiro-alvo. Era uma janela fácil de abrir, dessas inteiras, que se empurra pra fora. Como sou o mais magro da turma fui o escalado para entrar. Se o vaso ficasse perto da janela era só jogar as coisas, mas também seria muita sorte ter as duas facilidades, janela fácil e vaso perto.

Enquanto entrei, Jean e Fabio ficaram cuidando em baixo da janela enquanto Sérgio e Vinícius montaram sentinela no resto das janelas da casa pra tentar ouvir se alguém acordasse. Coloquei tudo direitinho, as roupas ao lado do vaso, os sapatos, uma meia jogada num canto e a outra dentro do vaso. Quanto estava terminando minha tarefa pensei ter ouvido algo e me assustei. Estava sugestionado.

Com o susto levantei-me rápido, escorreguei no piso molhado e caí sentado. Foi um puta de um pacote. Doeu pra caralho. Fora o som do baque no chão, que assustou os dois que estavam no lado de fora.

- O que foi isso Ari? O que houve?

- Nada...nada.

Mas que estava doendo a bunda, isso estava. Escalei a janela pra voltar todo errado por causa da dor e me esforçando pra não gemer. Os guris me puxaram pelo braço e eu tomando todo o cuidado do mundo. Só que na hora que meu pés puf!, caíram no chão, a porra da janela se fechou de uma vez só, fazendo um tremendo de um barulhão. Sérgio e Vinícius, que não estavam ligados do que estava acontecendo ficaram indignados.

- Caralho! O que foi isso? O que vocês fizeram?

- Merda!

O cachorro que tinham falado começou a latir furiosamente e entramos todos em pânico. Corremos feito uns loucos em direção ao muro dos fundos. Não era a intenção, mas na correria acabamos pisoteando a horta toda. Eu corria que nem um manco por causa da dor no traseiro. Acabou que eu também precisei da ajuda de três pra poder pular o muro. Sérgio, obviamente, tirou sarro de mim.

- Viu com deus castiga?

- Vai te fuder, seu panocú!

Dessa vez atravessamos o terreno baldio correndo. "Os Cavaleiros Negros estão atrás de nós, corram hobbits, corram!" Saímos na rua de trás e corremos as seis ou sete quadras até o boteco em que tínhamos estado antes.

Ainda estava aberto. Era um bar boêmio, de madrugada e de cachaceiros mesmo. Resolvemos curtir a noite ali mesmo e ficamos até quase amanhecer o dia, nos vangloriando pra nós mesmos das virtudes de nossa obra de Terrorismo Poético.

Esse ataque acabou servindo pra recuperar nossos ânimos, pois se somos a ralé dessa sociedade porca, pelo menos temos a arte em nossos corações e o que é melhor: arte não corrompida.

Ali Babá e as Dez Mil Baratas

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