Manual prático



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(ataque dezoito)
Se você odeia shopping center, ir ao cinema tornou-se um programa incômodo. Se você não dispõe de muita grana, ir ao cinema tornou-se um programa caro. Todos os cinemas do centro da cidade fecharam, Curitiba ainda tem alguns, mas em cidades como são Paulo eles simplesmente desapareceram. Restaram apenas os pornôs, que provam seu valor de contestação de tabus sobrevivendo como marginais.

Essa introdução foi pra contar de um ataque que a horas já tínhamos planejado. Desde o dia em que Jean surpreendeu a todos deixando uma caixa de baratas no salão de beleza, queríamos repensar esta idéia.

- Cara! Soltar uma porrada de baratas num shopping center num dia que tiver lotado é do caralho!

- Pode crer!

Jean tinha conseguido todas aquelas baratas naquela vez porque tinha ajudado na faxina do depósito onde trampa. Na hora teve a idéia brilhante e catou todas que conseguiu, respondendo que era comida pra iguana da namorada a todos que perguntavam intrigados porque ele estava juntando tantas baratas.

Conseguir baratas na quantidade suficiente revelou ser o primeiro grande problema. Como soltá-las no shopping sem ser flagrado pelas câmeras de segurança foi o segundo. Jean estava perigosamente otimista.

- A gente pode ir na Shopping Curitiba, que tem aqueles canteiros com flores que o povo fica sentado e soltar as baratinhas no meio das flores.

- É, até dá, mas analisando as imagens das câmeras os caras vão se ligar em quem fez.

- Tens razão...

Fui eu quem teve a idéia do cinema, resolvendo antes o segundo problema.

- Podemos soltar as baratas dentro de um cinema.

- Dentro de um cinema?

- Porra Ari, aí já é terrorismo puro e simples.

- Nada véio, a gente pode deixar umas mensagens pra galera ver quando acenderem as luzes.

- Que mensagens?

- Vocês fecharam os cinemas do centro da cidade! Vocês me obrigam a vir aqui! voces racham comigo o caríssimo aluguel e por aí vai.

- Não é uma má idéia...

A gurizada começou a se empolgar com a idéia. Fábio foi o primeiro a se animar.

- E é limpo, no escuro ninguém vê nada, todos concentrados no filme.

- Rapaz, - Vinícius começou a rir. - Imagine só, quando se ligarem será tarde demais, as baratas já invadiram toda a sala de cinema!

- Genial!

- Mas tem que ter barata pra caralho.

Restou então resolver o primeiro grande problema. Como conseguir baratas pra caralho? Pensamos em mil e uma soluções, cada uma mais estrambólica e furada que a outra.

- Se formos na lanchonete ali da esquina acho que conseguimos umas quinhentas.

- Vai tomar no teu cú, fala sério.

A solução acabou vindo através de um e-mail do Antonio Silvino, do grupo dos cangaceiros de São Paulo que tinham feito um ataque sincronizado com a gente. Contei pros piás.

- Ele falou que existe uma lenda de que se deixarmos umas baratas dentro de uma caixa de papelão lacrada, após alguns dias eleas se multiplicam e enchem a caixa.

- Sério?


- Não sei, a gente tinha que checar.

Vinícius lembrou então de uma mina que faz biologia na federal. Procurou o número na agenda e saiu pra ligar de um orelhão, pois o telefone da kit está cortado de novo.

Voltou em estado de graça.

- A mina falou que dá certo! Olha como ela explicou: se você colocar dez baratas na caixa hoje, ainda hoje elas colocarão ovinhos. No segundo dia estes ovinhos já terão se transformado em dezenas de baratinhas. No terceiro dia essas baratinhas já estarão botando seus próprios ovinhos. Sacaram?

- Que massa, lôco!!!

- Em dez dias já vai ter mais de mil baratas. Se fizermos dez caixas teremos dez mil baratas!

A idéia teve o efeito de uma bomba entre nós. Cada um abraçou com vontade sua tarefa. enquanto Sérgio, Jean e Fábio ficaram montando as cixas, fui com Vinícius e Marilia no lixão catar baratas. foi divertida pra caralho nossa aventura no lixão. Munidos de sacos plásticos e luvas de borracha reviramos tudo em busca das bichinhas.

Acabamos achando e levando pra casa um monte de coisas legais. E acabamos conhecendo um monte de catadores de lixo legais também. Ser a escória e viver de achar coisas faz deles pessoas com uma visão de mundo maravilhosa. O Palestinos do Cotidiano que o Sérgio falou. Voltamos pra casa impressionados e com umas trezentas baratas.

As caixas que os guris montaram ficaram fora de série. Sérgio apresentou o resultado orgulhoso.

- Cada uma delas é uma cidadela.

Montaram só sete.

- São as Sete Cidades .

- Olha o que eu fiz. - Fábio apontou pra uns buracos na lateral das caixas. - Aqui é a entrada de serviço, você puxa esse cordãozinho e tem acesso a um buraco pra jogarmos comida pras nossas procriadoras.

Jean mostrou um papel com a "planta" das cidades, colocaram pranchas de papelão e assim construíram vários ambientes. A maior viagem. distribuímos as baratas nas caixas e nos cobrimos de toda a paciência do mundo pra esperar pelo resultado.

Depois de uma semana já dava pra ver que a parada estava funcionando. Sacudindo as cidadelas dava pra notar que já tinha barata pra cacete lá dentro. Nessa semana chegamos à conclusão que já tinha quantidade suficiente pra montarmos nossas "bombas de baratas", marcamos pra quinta-feira à noite a ação. Escrevemos vários panfletos pra jogar no chão e colar nas poltronas.

Entramos no cinema todos separados carregando mochilas nas costas como se estivéssemos voltando da aula. Só Vini e Marília que entraram juntos como namorados.

Estávamos ansiosos, todos com um sorrisinho no rosto e meio que olhando pros lados e analisando a laje das vítimas. Coitados.

O combinado era que na hora em que apagassem as luzes sincronizássemos nossos relógios. Após meia hora de filme soltaríamos nossas bombas. Acabamos adquirindo uma verdadeira paixão por aqueles bichos, eram como se fossem nossas tão estimadas filhinhas.

Aguardamos impacientes a primeira meia hora, nem conseguimos prestar atenção no filme. Só pensávamos em soltar as bombas, soltar as bombas, soltar as bombas. Quando venceu o prazo abri minha mochila, tirei a bomba (as baratas estavam em sacos plásticos, era só furá-los com o dedo para acionar), coloquei cuidadosamente no chão e abri um salgadinho pra disfarçar. Levantei e pedi licença fingindo estar indo ao banheiro e fui me encontrar com o resto da turma pra aguardarmos o desfecho. Fui ao banheiro e encontrei Vini e Marília, os dois se espremendo de vontade de rir.

Quando todos chegaram confirmando que tinham soltado as bombas voltamos ao cinema. No ambiente escuro o clima era de total expectativa entre nós. Meu coração acelerava cada vez mais a cada minuto que se arrastava pra passar.

Foram dois longos minutos até que ouvíssemos o primeiro gritinho de susto vindo lá da frente.

- Tem barata aqui!

- O que foi? Onde?

- Aqui, aqui, aqui!!

- Pssssiu!!!

Era um casal de namorados. O cara tava tentando disfarçar e acalmar a mina. ficaram murmurando não sei o que baixinho até que deram um outro grito no outro lado da sala.

Assistíamos a tudo extasiados.

- Tem uma barata na minha perna!!

O casal de antes, ao ouvir isso, acho que se ligou que alguma coisa muito estanha estava aconteceu e saiu fora em direção à saída. Mais pessoas começaram a ficar desconfiada. Vinícius se partia de dar risada. Mais gritos.

- Isso é um absurdo!

- Onde está a higiene disso aqui?

Algumas pessoas começaram a sair e se dirigir à bilheteria exigindo seu dinheiro de volta. Liberou umas poltronas e sentamos todos juntos, longe de onde tínhamos deixado as baratas, é claro, pra curtir a cena e dar risadas. O bafafá já era grande dentro da sala e podíamos rir bastante sem despertar suspeitas.

Gritos de "ai que nojo" para todos os lados, pessoas se dirigindo à saída, o bicho estava pegando quando acenderam as luzes. Os que saíram antes não viram nada, mas quem esperou as luzes acenderem viu nossos panfletos, tínhamos deixado um monte esparramado pelos corredores.

A mensagem, afinal de contas, foi passada. A direção do shopping foi rápida no gatinho pra evitar o escândalo. não sei qual foi o genial gerente a ter a idéia, mas devolveram rapidinho dinheiro pro povo e ainda deram mais um ingresso de brinde.

Lutar contra o capitalismo é mesmo foda, os caras são muito ensaboados e o dinheiro compra tudo. De nossa parte recusamos o presente e saímos fora realizados. Orgulhosos de nossas filhinhas. Orgulhosos de nossa prole.

Saímos do Shopping com a adrenalina a mil, foi um de nossos ataques mais arriscado, diferentemente de invadir casas estávamos expostos a uma multidão de pessoas e sem dúvidas seríamos presos se fossemos pegos. Fomos até um botequinho nas proximidades e tomamos A cervejada pra comerar. Menos Sérgio, o Vegan, que não bebe.

O São Gulik da religião dos Discordianos é uma barata. Dedicamos esse nosso ataque a ele.

Tá Vendo Aquela Calçada Ali Seu Moço? Escrevi Meu Poema Lá

(ataque dezenove)
Muitas pessoas afirmam que tentar passar uma mensagem sem se importar com os meios é um crime. Argumentam isso toda vez que invadimos casas ou qualquer outro espaço privado para fazermos nossos Terrorismos Poéticos. Concordaria com esses argumentos se não existissem tantos out-doors poluindo nosso campo de visão. Se for assim, então socar propaganda goela baixo também é crime. Uma vez definido isso começamos então a nos entender.

Partindo desse ponto de vista, o que a Prefeitura de Curitiba fez, ao privatizar os pontos de ônibus, é crime. Crime contra a Imaginação Pública, entupindo a cidade de propaganda. Os pontos agora possuem um enorme e luminoso painel publicitário, que além da poluição visual, ainda atrapalha a passagem de pedestres. Não adianta, pedestre sempre se fode. Na kitinete dos Delinqüentes, aquele antro de inconformados, a indignação quanto à isso foi grande.

- É muita sacanagem, ponto de ônibus é um lugar público - Vinícius é o mais indignado.

- Ainda se fossem informações úteis...

- É, um mapa da cidade ou alguma coisa do tipo.

- Mas não, é só telefones celulares, concessionárias de veículos e etc.

Agora uma pergunta, que é mais terrorista, nós que invadimos casas pra expor nossos quadros ou eles que invadem nosso cotidiano pra nos convencer de mentiras, induzir-nos a falsas necessidades?

Óbvio, chegamos à conclusão que são eles, pois ganham dinheiro com isso. Perto deles invadir casas não é nada. Jean começou a contar que as principais técnicas de propaganda usadas hoje em dia foram criadas e testadas pelos nazistas.

- Disso ninguém fala.

Concluímos que nosso próximo ataque deveria ser em relação à isso, retomada do espaço urbano, sabotagem publicitária, enfim, mais uma ação de Terrorismo Poético. Vinicius parecia ser o mais inspirado.

- Se você analizar bem, as cidades estão organizadas de modo a nos condicionar a pensar de um certo modo, a fazermos somente certas coisas e nos comportarmos de uma certa maneira.

- Tudo bem, muito bonito esse discurso, mas e daí?

- Vamos bolar algo, injetar uns vírus nesse sistema condicionante.

Ficamos nessa uma cara, viajando nas possibilidades, porém com mil críticas e nada prático e concreto para fazermos. Jean e Fabio quase fundiram os cérebros pensando em algo. Nessas horas parece que o descaso resolve. Sérgio, que não estava nem aí pra bagaça, foi quem trouxe a solução. Logo ele, que ainda estava curtindo o sucesso de sua idéia concretizada, o cara que sumiu pela privada. Mas não curtiu que o cara se chamasse Jesus Cristo.

- Muito clichê.

Mas tudo bem, agora são águas passadas e nada nos impede de reutilizarmos a idéia outra vez, sem equívocos.

- Quero escrever poemas.

- Ué, escreve, ninguém está te impedindo.

- É, escreve. - A galera não perdoa, é sarcástica mesmo.

- Mas eu queria eternizá-los

- Ih! Lá vem discurso...

Foi uma coisa absurda. O que tipo de idéia demente que, na boa, não existe, só mesmo sainda da cabeça delirante de um artista plástico sem o que fazer. Saca só a do cara:

- A gente cimenta uma calçada, vestidos de funcionários da prefeitura, joga cimento por tudo, eu escrevo os poemas em baixo relevo e depois deixamos tudo coberto por uma lona preta. Local interditado, uma placas, tão ligados?

Todos rimos, rimos não, gargalhamos. É o fim da picada! Onde fomos parar? Claro que uma idéia dessas não podia passar batida. No ato pensamos na mãe do Fábio, que é costureira e já tinha feito os trajes de padre do dia em que abençoamos o banco, pra providenciar os macacões necessários para pôr em prática o plano de Sérgio Augusto.

Roupas de garis da prefeitura, mais cones e aquelas tiras listadas que os caras usam pra isolar a área. Fora cimento, areia, pá, cimento e o escambau.

Um idéia, como diria Nelson Rodrigues: dificilzinha, mas extraordinária. Uma idéia que nos seduziu devagarinho, feito conversa de boteco. Jean e Fabio se encarregaram da parte civil. Massa de cimento, areia, ferramentas e a logística, entenda-se transporte da tralha toda. Eu e o resto do pessoal cuidamos das roupas, placas e demais apetrechos.

Fizemos tudo no fim de semana. E estava fazendo um frio desumano em Curitiba, sem sol e com um vento fudido. Vinícius e Marilia, os românticos da hora, saíram juntos pra escolher as calçadas. Mais uma vez optamos por um bairro classe média, pois a burguesia não merece tal prêmio.

A parte da mãe do Fábio até que foi fácil, afinal trata-se de uma profissional da costura, foda mesmo foi pintar o logotipo da prefeitura nos macacões. Ainda bem que Sergio deu o sábio toque de fazermos dois a mais, para o caso de cagada. Ferramos exatamente com dois, Deus é pai não é padrasto.

Jean e Fábio conseguiram o material de pedreiro e uma pick-up do trampo do Jean.

- Aluguei eles de que precisávamos fazer a mudança da kitinete.

- E precisamos mesmo, essa porra tá pequena.

Marcamos a ação pra Terça-feira à tardinha, afinal os funcionários da prefeitura só trabalham de dia e não queríamos que a obra ficasse um dia inteiro com o cimento fresco dando sopa. Algum curioso poderia meter o bedelho e ferrar com tudo. À noite as chances de isso ocorrer são menores. Pra mim e pra Jean, que trampamos, foi necessário enrolarmos nossos respectivos chefes pra sair mais cedo.

Fomos todos juntos, Agachados & Felizes na carroceria da pick-up, com Jean de motorista paunocuzeando a três por quatro fazendo curvas bruscas pra ferrar com a gente. Na porta do carro: a logomarca da prefeitura improvisada. Só que ela ficou tão horrível que era só dar uma olhadinha com mais atenção e você se ligaria que se tratava de uma palhaçada. Jean então encostou pra que descêssemos com o material e foi estacionar longe do local do crime.

Eu e Vinícius colocamos os cones, as faixas e as placas: “Homens Trabalhando” e “Desculpe o transtorno, estamos trabalhando para embelezar a sua cidade”. Fábio e Jean abraçaram a função de pedreiros. A argamassa já tínhamos deixado pronta pra facilitar as coisas. Esparramaram pelo chão e fizeram a “planagem”, não sei se esse é o termo correto. Sérgio ficou só olhando, com um ar insuportavelmente superior.

- Trabalhem seus manés, aos artistas só cabe o trabalho estético.

- Cala a boca!!!

Nesse meio tempo passou uma senhora com uns setenta e não sei quantos anos e doze pães numa sacola, estava voltando de uma padaria.

- Ah, vão ajeitar a calçada? Já era em tempo, está toda quebrada.

- A senhora vai gostar, isso podemos garantir. – Vinícius, dando uma de cavalheiro.

- Vão ajeitar a rua inteira?

- Gostaríamos. Gostaríamos muito, mas infelizmente hoje só vai dar pra ajeitar essa.

- É, mas a senhora vai gostar.

Seguiu pra sua casa com um sorriso no rosto e nós ficamos “poetando”, também com sorrisos no rosto. A parte do cimento até que foi rápida, Sérgio que se amarrou pra escrever o poema, fez uma embromação do caralho. Nào queria dizer o que estava escrevendo e nem deixou ninguém vê-lo escrever.

Por fim ergueu a lona um pouco e nos deixou vislumbrar a obra:

“Os meus sonhos afogavam as minhas tristezas, mas as minhas tristezas aprenderam a nadar.”

Ficou perfeito, o cara ainda jogou umas tintas e o resultado ficou psicodélico em todos os seus aspectos. Recobrimos com a lona e sorrimos satisfeitos. Foi fácil, muito fácil e ainda por cima sobrou um montão de cimento. Quando vimos o quanto tinha sobrado olhamos uns para os outros.

- Não podemos desperdiçar tudo isso. – Fábio, pensativo.

- Vocês viram que não foi difícil, o povo nem desconfiou de nada.

- Poderíamos sacanear um bairro burguês.

- Bora, então.

Fabio encasquetou que queria cimentar a calçada diante da casa em que tinha mandado seu primeiro poema com estilingue, naquele que foi um de nossos primeiros ataques. A autoconfiança é algo perigoso, mas como era eu quem estava falando ultimamente que contar com a sorte é o primeiro passo para conquistá-la, acabei topando.

Subimos todos em cima da pick-up a partimos pro segundo tempo de nossa intervenção. Jean conduziu a “viatura” até o Jardim Social e mais uma vez estacionou pra que descemos com o material. Colocamos os cones e outros itens e Fábio imediatamente começou a espalhar o cimento. Desta vez não estávamos tão tranqüilos. Sérgio olhava nervoso para os lados.

- Olha galera, acho isso precipitado, sei que vocês já tem uma certa experiência, mas acho que essa porra não vai dar certo. Espero vocês naquela lanchonete.

- Vai seu cagão.

- Ele não deixa de Ter razão, apura aí com essa merda. – Eu e Vinícius também estávamos cabreiros.

Fabio terminou de aplainar o cimento e na hora em que estava escrevendo saiu um senhor de dentro da casa. Pela sua cara, não era muito simpático, parecia invocado. Provavelmente vacinado contra vandalismo desde o dia em que recebeu um poema através de sua vidraça quebrada. Fabio enfiou sua cabeça sob a lona preta e ficou escrevendo enquanto Vinícius ficou dando explicações.

- O que vocês estão fazendo?

- Estamos corrigindo umas imperfeições da calçada.

- Imperfeições? Ninguém aqui reclamou nada pra prefeitura.

Imediatamente sacamos que aquilo não tinha como terminar bem. Pisquei o olho pra Jean e fiz um gesto discreto em direção aonde o carro estava estacionado. Jean saiu fora e ficou dentro do carro enquanto vini seguiu discutindo com o morador.

- Fique tranqüilo senhor.

- Vocês são mesmo funcionários da prefeitura? Tem algum documento de identificação?

Realmente, tiozinho esperto, se ligou que alguma coisa estava errada. Fiz um sinal pra que Jean viesse com o carro. Estacionou e jogamos tudo sobre a carroceria. Fabio tinha terminado sua frase que nem chegamos a ver.

- Estamos indo, concluímos nosso serviço

- Esperem, quero ver os documentos de vocês.

Saímos literalmente correndo, fugindo. Uma vez todos em cima do carro Jean acelerou e saímos cantando pneu. Ainda bem que Jean tinha improvisado uma placa falsa.

- O que você escreveu, Fábio?

- “Toda propriedade é um roubo” - A mesma frase de sempre.

Olhamos pra trás e ainda vimos o morador misturando o cimento, completamente indignado. Não deve Ter gostado da frase. Rimos pra caralho e paramos num boteco pra comemorarmos. Da próxima vez, precisamos tomar mais cuidado.

As Terríveis Bananas Assassinas Transgênicas Geneticamente Modificadas

(ataque vinte)
No último sábado aconteceu o segundo Flash Mob Curitiba. A fantástica mobilização relâmpago reuniu cerca de uma pessoa na praça de alimentação do Shopping Curitiba. O elemento solitário ficou em torno de dois minutos em pé ao lado de uma mesa portando uma sacola de bananas, logo depois dispersou­-se. Um evento espetacular .

Infelizmente era eu o elemento solitário da cômica mobilização. Estava com uma gripe do cassete e foi um parto me arrastar até aquele antro do consumismo. Voltando pra casa eu era todo indignação. Ainda mais que nenhum dos outros delinqüentes é chegado em Flash Mobs e estariam todos me esperando na kitnete, ansiosos para rirem da minha cara até me deixar me deixar puto .

- E ai Ari? Como foi ?

- Um sucesso! Eu e mais ninguém.

Olharam pra minha sacola cheia de bananas e se partiram de dar risadas.

- Porra véio! Quer dizer que não foi ninguém?

- E o que você vai fazer com essas bananas?

- Enfiar no cú de vocês!

- Estressadinha a boneca.

Era inútil tentar me defender, os malas tinham razão em tirar sarro. O que eu fiz não foi pagar um mico no shopping, o que eu paguei foi um gigantesco King Kong com mais de dez metros de altura. Muito foda, até as dores de cabeça e de garganta que tinham dado uma aliviada voltaram. Me deitei num dos colchões no chão da kit e apaguei, tentando esquecer do mico e da gripe.

Sonhei com o personagem do Tony Ramos daquela novela Torre de Babel que vivia noiado em explodir o shopping. E no meu sonho ele explodia o shopping em todos os capítulos. Eterna recorrência.

Não sei dizer se era sonho ou pesadelo. Acordei horas depois com Fábio chacoalhando o meu braço.

- Ari! acorda, Ari!

- Há, o que foi?

- Tá melhor?

- Tenho uma surpresa pra ti. Talvez te anime um pouco.

- Que surpresa?

- Olha só isso.

Ao lado da minha malfadada sacola de bananas tinham outras três, do mesmo tamanho. Juro que não entendi o que significava aquela palhaçada.

- Que merda é isso, seu viado?

- Calma Ari! Trata-se de material para nosso próximo ataque.

- Que ataque? Você tá ficando louco ?

Eu estava mais perdido que filho de puta em dia dos pais e ainda mal humorado por causa da gripe.

- Alguém pode me explicar que merda está acontecendo por aqui ?

Então Fábio fez uma longa e didática explicação. Meu cérebro parecia engarrafado por causa da gripe, a cada dois minutos eu interrompia Fábio com um “como assim”?

Tratava-se de algo que a horas eu queria fazer, mas não me ocorria exatamente o que. Eu queria bolar uma ação que dissesse respeito aos transgênicos e que se possível fosse ambientada num supermercado. Foi invadindo minha privacidade e fuçando nos meus e-mails que recebi, que os guris compilaram o plano. Mostraram-me um estilete, um rolo de durex, algumas tirinhas de papel e mais umas coisinhas.

- Preste atenção velho Ari. Marilia conseguiu uma lista do Greenpeace com os alimentos que utilizam transgenicos. Então a gente vai num supermercado e com o estilete faz um corte na embalagem e enfia mensagens de alerta contra os transgenicos. E depois cola com durex.

Fiquei mudo, apenas tossi sem conseguir rir da demência do plano. Vinícius parecia animado com a idéia.

- Ari, pode ser divertido, agente pode enfiar um pedaço de alface numa caixa de sucrilhos. Sucrilhos geneticamente modificados.

Realmente, não era ma idéia , principalmente se não levássemos em consideração o risco de sermos flagrados por câmeras ou vigilantes.

- Nada! É só sermos discretos e caras de pau e isso eu te garanto que somos.

Mas ainda faltava um detalhinho.

- E as bananas?

- Enfia no rabo...

Pronto. Caíram todos na gargalhada. Aquelas bixas nunca perdem uma oportunidade para sacanear.

- Tô falando sério, seus merdas.

- Calma Ari, essas bananas são pra Segunda parte do plano, pra sensacional saideira.

- Saideira?

- Sim, vamos no estacionamento e enfiamos elas nos escapamentos dos carros.

- Pra que isso?

- Bom, além de protestarmos contra o excesso de automóveis nas cidades ainda deixamos um papel nos pára-brisas avisando para tomarem cuidado com as bananas transgênicas.

Sensacional! Foi o tiro de misericórdia para acabar com minhas dúvidas. Se precisassem de alguém pra enfiar a banana no rabo de algum carro, poderiam contar comigo.

- Só tem que ser logo.

- É, pra ser massa, tinha que ser hoje.

Sábado à noite é uma hora em que os supermercados estão cheios e marcamos a ação pro Sábado mesmo, no Mercadorama do Bigorrilho.

Chegamos logo depois das oito e Vinícius entrou abraçado com Marilia, eram o casal fazendo as compras do mês, cada um com um carrinho. Eu e os guris ficamos dando bandas dentro supermercado desbaratinando enquanto esperávamos pra agir na fase das bananas. Sérgio não foi, se revoltou com todos por causa da cagada feita no ataque da calçada. Estava gelando a turma.

Vinícius e Marilia trataram logo de encher os carrinhos com as “compras”. E então disfarçadamente faziam os cortes com os estiletes e enfiavam os aditivos. Foi alface nos sucrilhos (e um papelzinho com a frase: cuidado com a terrível alface transgênica assassina). Baratas em geleias (baratas, como outros bichos escrotos, gostam de transgênicos e outras porcarias). Serragem em açúcar (as canas transgênicas assassinas são estranhas). Enfim, uma tremenda sacanagem.

Na verdade ferramos apenas com os donos do supermercado, pois os clientes, assim que vissem as mercadorias alteradas, simplesmente devolveriam ou trocariam. Quem levaria o “prejú” seria mesmo a rede Mercadorama. Depois de colocar as coisas eles davam umas voltas pelas prateleiras e devolviam as mercadorias aos seus lugares. No fim abandoram os carrinhos cheios e deram o sinal pra partirmos pra segunda parte do plano.

Era a fase mais foda, a mais adrena. Tinham três fileiras de carros. Cada um escolheu uma tomando todo o cuidado do universo pra que não fossemos vistos pelo guardião nem disparássemos nenhum alarme. Deitei no chão e me arrastei por debaixo do primeiro carro. Tava escuro lá embaixo e tive que esperar pra vista acostumar e conseguir enxergar o escapamento. Primeiro usei uma varetinha pra enfiar uma bucha de papel. Depois entupi a porra do escapamento com bananas. Era Vectra preto. Juntei as coisas e me arrastei até o próximo carro.

Fazia horas que não empreendíamos um ataque tão “cagaçento”, meu coração a mil e minhas mãos suadas. O segundo carro deu pena. Era um fusca e fuscas não merecem. Deixei o fusca intacto. O tereiro carro era um Kadet cinza, mandei ver. Lá pelo quinto carro eu já tinha pego as manhas e estava trabalhando rápido, só não conseguia enxergar os outros guris.

Demorei mais ou menos uns vinte minutos pra terminar minha missão. Quando saí do outro lado do estacionamento os piás já estavam lá.

- Porra, demorasse!

- Tava fazendo o que? Piquenique com as bananas?

- Cara! Juro que pensei que estava sendo rápido!

Quando Vinícius viu que tínhamos acabado tudo atravessou o estacionamento com Marilia colocando nos pára-brisas papéis com a seguinte frase:

“Cuidado com As Terríveis Bananas Assassinas Transgênicas!!”

Cômico. Hilário. E não precisa dizer mais nada.

Nos reunimos na saída do supermercado e simulamos uma fila no orelhão pra ficarmos aguardando o resultado. E não demorou. Logo saiu um gordão cheio de sacolas com carne. Abriu o porta-malas de seu Palio, jogou as coisas, entrou no carro e tentou dar a partida. Nem se ligou no papel no pára-brisa.

Tiziziziziu! Tiziziziziu! Nada. O carro não pegou. Foi então que ele se ligou no recado das bananas no vidro. Leu, olhou para os lados desconfiado e tentou dar partida de novo, obviamente sem sucesso. Saiu do carro pra tentar descobrir o que estava acontecendo com seu carro e então ouviu outro carro, a uns dez metros dali, também engasgando.

Foi conversar com o dono do outro carro levando o papel com a frase da banana. Conversaram um pouco. Dava pra ver de longe que estavam desconfiadíssimos. Quando o terceiro carro também não pegou os dois foram conferir o escapamento e tiveram a revelação: estavam sendo vítimas das Terríveis Bananas Assassinas Transgênicas

Quase nos cagamos rindo. Não dava pra segurar, a cena toda era muito engraçada. Nenhum carro no estacionamento estava pegando. Logo começaram a se formar grupos de pessoas indo reclamar com a gerência. Negadinha enfiando pauzinhos pra tentar tirar as bananas, mulheres reclamando, crianças aproveitando a deixa pra fazer festa no estacionamento, show, completamente show de bola. E então o mais engraçadp de tudo, no meio de todos aqueles carros novos engasgados, eis que o fusquinha que eu tinha poupado funciona e sai cheio de moral com uma velhinha simpática na direção. Saiu sorrindo e dando tchauzinhos pro povo.

Demos um tempinho e saímos fora pra não darmos bandeira. Todos riam, menos eu que só tossia por causa da gripe. Não dava pra rir que a tosse vinha. Tossi tanto que quase cuspi os pulmões pra fora. Foi massa. Acabei melhorando mais da gripe com esse ataque do que com qualquer Benegripe ou chá quente.

Delinqüência Juvenil também é homeopatia.

Podes crer que é.



Fé Cega, Pé Atrás & Um Monte De Gente Batendo À Porta

(ataque vinte e um)
Futebol, política & religião não se discute, certo? Errado. Se discute e se discute muito, por isso a razão da existência desse ditado. Intermináveis argumentações e não raros chiliques nervosos e agressões físicas. São assuntos maravilhosamente polêmicos e o problema não está na polêmica. O problema está na intolerância.

O arranca-rabo começou na kit dos delinqüentes quando Marilia contou que tinha sido professora de catequese e Vinícius, seu próprio namorado, começou a esculhambar.

- É ridículo, a igreja católica é muito ridícula, como podem batizar uma criança que não tem ainda a mínima capacidade para escolher.

- É costume, tradição, cultura.

- Cultura o cacete!

Jean, Sérgio e eu começamos a dar uns pitacos e a discussão pegou fogo. Só pra azarar e colocar ainda mais pimenta no molho resolvi defender as posições de Marilia.

- A parte ritual da missa católica eu acho massa.

Vinícius, o niilista, dava pulos de dois metros de altura.

- Massa? O que é massa? Os caras comungam e depois vão pra casa beber e bater nos filhos.

- Isso é geral, não atinge só os religiosos.

- Mas um religioso fazer isso é muita cara de pau, você não acha?

O debate foi interrompido com a chegada do Fábio, careca, com a cabeça completamente raspada.

- Caralho! O que foi isso, véio?

- Raspei ué, não posso?

- Mas pra quê?

- Tava de saco cheio de me olhando mesmo jeito no espelho, precisava dar uma mudada no look.

- Ficou ridículo.

- Parece uma bexiga.

- Vão tudo se fuder!

Imediatamente já mudou de assunto perguntando o que estávamos discutindo.

- Dava pra ouvir gritos de exaltação lá do outro lado da rua.

- Religião, discutiamos religião.

-Não boto fé, esse tipo de coisa não se discute.

Mas não teve jeito, o assunto avançou madrugada a dentro. Vinícius estava inconformado com

Marilia. Todos estranharam, porra, logo ele que não se importava com nada. Acabou com ele intimando todos a executarmos mais um ataque, envolvendo religião,

- Mas o que?

- Uma ação para demostrar com todas as religiões estão certas e erradas ao mesmo tempo.

- Mas como isso?

- Sei lá, acordem seus neurônios.

Então contei de um e-mail que recebi de um cara que assina com o nickname de Sabotage, em que ele sugeria que escolhêssemos uma casa e que de tempos em tempos enviássemos cartas de diferentes religiões convidando para algum evento. Todos custando alguma grana.

- Rapaz! Não é uma má idéia. - Vini se empolgou no ato.

- Só que mandar coisas pelo correio é muito palha.

- Podemos ir pessoalmente.

- Como assim? Juro que não entendi.

- Pois não, olhem para o Fábio.

Todos olharam. Entenderam menos ainda.

- Veja só não parece um hare-krishna? Falta só aquele vestidão.

A gargalhada foi geral. Com uma roupa adequada ele poderia muito bem passar por um monge tibetano. Mais alguns detalhes acertados e o plano foi definido e aceito. Seria uma peça de teatro invisível, nos moldes daquela em que discutimos propriedade privada no boteco. Cada um tratou de escolher seu papel. Vinícius tomou a frente.

- Serei católico!

Fábio, seria budista. Jean que sempre sonhou em ter barba, optou por ser um rabino. Sérgio que é negão seria do candomblé. Sobrou pra mim ser evangélico da Igreja Universal do Reino de Deus. Marilia quis ficar de fora.

Quanto ao local do ataque desta vez nossa decisão foi definitiva: esquecer a burguesia. Chega de querer destruir a burguesia. Destrui-la implicaria em colocar alguém no lugar e isso só significaria trocar os nomes dos bois. A burguesia já cumpriu seu papel na história, a questão agora é supera-la . Mais uma vez então, escolhemos um bairro da periferia para nossas atividades.

Sérgio falou com um conhecido que pratica capoeira e conseguiu umas roupas parecidíssimas com as de um pai de santo, um sarro. Até um cachimbo de pau pra da um toque final. Pra mim ficou fácil, uma simples calça social, um sapato careta e uma Bíblia em baixo do braço já fazem de você um evangélico.

Vinícius também não precisou de muitas indumentárias pra travestir-se de católico.

Fábio e Jean que se fuderam. Fábio penou pra encontrar um tecido adequado e convencer sua mãe a costura-lo. Com aquela cara e o seu currículo de vida, a coroa estava desconfiadíssima de que ele queria realmente virar um hare-krishna. Jean só conseguiu trajes de rabino depois de trocentas ligações e depois de fazer contato com uma ex-namorada que participa de um grupo de teatro.

Marcamos a parada pra quinta-feira à tarde, eu passando o migué no trampo de que tive uma recaída da gripe e Jean, que trabalha a maior parte do tempo na rua, matando serviço mesmo. Nos encontramos todos na praça Tiradentes e pegamos um buzum pras quebradas da cidade

Não tínhamos uma casa/alvo definida. Iríamos na tentativa até encontrarmos alguém que nos desse trela. Não foi tão fácil quanto imaginávamos, muita gente não dá trela pra missionários e crentes em geral. O ceticismo avança e só não sei dizer se isso é bom ou ruim.

Lá pelas duas da tarde alguém finalmente nos atendeu com atenção. Era um cara de uns trinta anos, desempregado, que estava em casa cuidando das crianças enquanto a esposa trabalhava no Pollo Shop numa perfumaria, Vinícius, o católico, foi a primeira visita.

- Bom dia senhor!

- Bom dia.

- Faço parte dos carismáticos.

Assim começamos. Vini convidou para um mocotó na sua paróquia e comentou que estavam clamando por os novos fiéis.

- Vinte reais o mocotó pra família toda e depois, se virar devoto, é só pagar o dízimo.

Vinícius despediu-se depois fui eu. Levei sorte , pois o cara era evangélico e até comentou que se tivesse dinheiro em casa contribuiria com minha causa de assistência social aos pobres. Sérgio, o pai de santo macumbeiro não teve a mesma sorte. Chegou de cara convidando o indivíduo para uma enorme matança de galinhas pretas.

- Uma cerimônia a Ogum, organizado pelo babalorixá Barbozinha de Oxalá.

- O senhor ponha-se daqui pra fora! Em minha casa não entra um adorador do diabo da sua marca!!

- Mas senhor...

- Eu já falei! Não me tira do sério!

Não teve jeito, Sérgio teve que enfiar seu rabinho “satânico” entre as pernas e tirar seu time de campo. Depois foi o budista Fábio, vendendo incensos e exemplares do Bagavad Gita.

- O quê? Eu não acredito! O senhor já é o quarto a bater em minha porta hoje.

- Isso é um sinal de que você deve lutar pra atingir sua harmonia interior, superar a dor.

- Harmonia interior? Superar a dor? Do que está falando?

Os três filhos do homem estavam espiando Fábio por detrás do pai, estavam se torcendo de rir. De certo nunca tinham visto uma criatura tão esquisita.

- Gostaria também de lhe convidar pra participar de um jantar vegetariano no nosso templo.

- Jantar vegetariano? – O cara já parecia nervoso e impaciente.

- Sim, por apenas trinta e cinco reais.

- Trinta e cinco? Não, o senhor me desculpa, mas não tenho condições. Dá licença por favor.

E bateu a porta na cara de Fábio, que se comoveu e enfiou um envelope de incenso por debaixo da porta. O rabino Jean não demorou mais de cinco minutos pra aparecer. Quando olhou para os trajes de judeu começou a demonstrar explicitamente sua impaciência, colocando a mão na testa.

- Eu não acredito! Eu não acredito! Posso saber o que o senhor deseja?

- Quero convidar o senhor para ir em nossa sinagoga participar de um jantar para angariar fundos de ajuda para os israelenses vítimas dos terroristas palestinos.

- Vítimas do terrorismo palestino? Eu? – O cara coçava o cabelo, já tava ficando com raiva.

- Apenas cinqüenta reais.

- Cinqüenta reais? Isso é um absurdo! Ponha-se daqui pra fora seu turco ganancioso!

Então damos inicio a nosso ato final. Enquanto o rabino discutia com o morador, o macumbeiro Sérgio voltou, com uma sacola que parecia conter uma galinha preta. O judeu indignou-se com aquela presença e os dois começaram a brigar. O rabino chamando o macumbeiro de satânico e o macumbeiro ameaçando soltar a galinha preta.

Os ânimos estavam alterados quando chegou o budista Fábio.

- Paz! Paz! A paz é mais importante que a discórdia! – Então agachou-se e acendeu um incenso fedorento.

O ambiente estava caótico, o morador inquieto sem saber o que fazer, os meninos rindo que mijavam, quando chegou o católico carismático Vinícius que começou a rezar um padre nosso e jogar água benta nos três. Quando aproximei-me da casa o morador logo me reconheceu e me chamou, parecia confiar nos evangélicos. Cheguei perto estavam todos em frenesi, discutindo quem explorava mais os pobres, quem eram os. Uma zona, quase impossível não rir, Vinícius quase não se agüentava.

Mas foi só descobrirem que eu era evangélico que começaram todos a me criticar e me apontarem o dedo, até o pacífico hare-krishna. O morador saltou em minha defesa e a discussão pegou fogo. O pessoal gritava tanto que alguns vizinhos até foram à janela ver o que estava acontecendo e outros chegaram e se encostaram no muro da casa do cara apreciar a baixaria. Tinha um certo público, posso te garantir, palavra de delinqüente. Por fim me indignei e tomei uma atitude inesperada.

- Quer saber? Exploramos sim! Mas o dinheiro é muitíssimo bem aplicado na construção de novas igrejas.

- O quê?

Foi a gota d’água, o rapaz se indignou e correu a todos com ameaças de chamar a polícia. Nos dispersamos rapidamente, um pra cada lado com expressões furiosas nos rostos. Nos encontramos de ônibus rindo feito uns dementes. Foi muito engraçado. Com certeza aquela pessoa lembraria da cena para o resto de sua vida e para sempre alimentaria uma desconfiança contra esses pregadores. Pensaria sempre duas vezes.

Missão cumprida. Se existem deuses lá em cima ou no além, devem Ter nos agradecido por termos livrados sua barra suja por esses representantes mortais de araque.

Fnord.


De Todos os Fogos o Fogo

(ataque vinte e dois)
O crime contra a Imaginação Pública cometido pela Prefeitura Municipal de Curitiba voltou nessa semana a ser assunto entre os delinqüentes. Começaram a instalar as malditas propagandas luminosas no ponto de ônibus da kitnete. Os filhos da puta privatizaram os pontos de ônibus.

Agora você chega na janela e o negócio ta lá, impondo-se no escuro da noite. A Sabotagem Publicitária acabou voltando à nossa pauta de negociações. Fábio demonstrou ser o mais obstinado de todos.

- Aquela viagem de cimentar a calçada foi Intervenção Urbana, não Sabotagem Publicitária.

- Ah, mas foi massa.

- Eu sei, mas nós temos que atacar é esses abusos como o ali de fora.

Jean e Vinícius não estavam nem ai pra conversa, só davam risadas e azaravam.

- Tem que tacar pedras nessas porras!

- Fuder com tudo! Meter fogo.

Sérgio está concluindo mais uma série de trabalhos artísticos, os primeiros de sua fase na delinqüência. Dá pra ver que mudou muito o estilo. Ultimamente ele anda completamente envolvido com o processo criativo. Entusiasmado mesmo.

- E não tá nada pronto, só estará pronto quando tudo estiver no seu lugar.

- Que lugar?

- O mundo. A vida. As pessoas.

- Não viaja...

Por fim Jean e Vinícius acabaram se interessando pelo assunto e começaram a tramar seriamente alguma coisa. Quer dizer, o mais sério possível tratando-se de nós. Jean anda lendo o Clube da Luta do Chuck Palahniuk e tendo uns planos incendiários.

- Queria experimentar aquelas misturas caseiras, tipo gasolina com coca ligth.

- E será que funciona?

- Pois é! Eu queria testar a parada.

Conversa vai e conversa vem e dos pontos de ônibus privatizados acabou-se chegando ao velho e bom plano de botar fogo em algum out-door. Antigamente o cagaço sempre vencia, só que agora estamos irremediavelmente viciados em cagaços.

As idéias logo começaram a brotar.

- Agente joga gasolina. Chegamos por trás do out-door. Com toda a calma do mundo. Escalamos e vamos derramando gasolina, até encharcar.

Fábio parecia confiante e metódico, era dele principalmente o sonho de queimar um out-door.

- Pode crê! Litros e litros de gasolina.

- Só! Na frente e atrás.

- Nossa o negócio vai queimar pra caraaaaalho!

Quem acabou dando o toque de mestre no plano acabou sendo o Sérgio. Efeitos pirotécnicos ilegais. Uma coisa de louco, um absurdo.

- A gente arma uma fileira de fogos de artificio por trás do out-door, na hora que a parada tiver pegando fogo, soltamos os fogos.

Uma idéia fantástica. Fantasticamente arriscada.

- Não dá véio, bem na hora de fugir vai ter uma zoada do inferno?

- Culhones, meu filho! Culhones – Sérgio Augusto com uma machíçe surpreendente.

- Não viaja, o negócio é arriscado.

-Temos que pensar num jeito...

Como somos um bando de inconseqüentes, fomos logo providenciando material sem ter bolado um plano de fulga decente. Tivemos que investir um troco legal que mesmo repartido em cinco, ainda vai fazer com que fiquemos duros por uns quantos dias. O mais caro foram os fogos de artifício.

O out-door vítima foi escolhido pelos especialistas em alvos Jean e Fábio. Por motivos óbvios não posso dizer onde, mas era um lugar manero. Não digo que tinha muita visibilidade e que seria visto por milhares de pessoas, mas era limpeza pra executar e pelo menos aparentemente, limpeza pra fugir.

Quinta-feira em Curitiba fez um dia esplendoroso, céu azul, coisa rara, interpretamos isso como um sinal. Passamos o dia ligando uns para os outros e dizendo: É hoje! Tem que ser hoje!

Nos encontramos todos na kitnete e aguardamos com uma paciência dos diabos o tempo passar pra chegar uma hora adequada pra ação. Chegou a meia- noite vazamos. Jean, Vinícius & Fábio com as mochilas contendo o material.

Levamos gasolina pura e um pouco de mistura que o Jean fez com coca ligth. No ônibus ele ia explicando como que o negócio funcionava.

- A gasolina queima fácil, só que pra ser um explosivo ela tem que queimar rápido, de uma vez só, aí sim vira um explosivo.

O viado falava alto, o povo do ônibus todo ouvindo.

- Pra queimar rápido precisa de oxigênio. Os refrigerantes dietéticos possuem uma substância que quando esquenta libera oxigênio. Sacaram?

Então encarou todo mundo que tava olhando pra ele, fez uma careta e gritou:

- Buuuum!

Descemos do ônibus nos partindo de dar risadas. Descemos um pouco longe do local pra ir desbaratinando. Foi no caminho que bolamos o plano de fuga.

- Vamos todos juntos montar a parafernália toda e depois saem todos e fica só um pra botar fogo. – Fábio foi quem tomou a voz.

- É! É uma boa.

- Um só é bem mais fácil de fugir. Os outros esperam num lugar seguro.

- Tá mas e quem fica?

- Eu é claro! Ô pessoal, é uma causa antiga, quase um sonho pessoal.

- Tá certo...

Pulamos o muro e andamos todos no escuro em meio a vegetação. Nada de Lanternas & nada de Pressa. Foda-se que a madrugada fosse alta & que talvez Ninguém visse. Um espetáculo destes, pra nós mesmos, já estaria louco de bom.

Logo chegamos na parte de trás do out-door. Eu e Jean escalamos a estrutura enquanto os outros montaram sentinela e ficaram alcançando o combustível. Sérgio ficou montando o esquema dos fogos de artifício, apesar de ter sido idéia sua, estava completamente cagado de medo.

- Vamos apurar logo com essa merda.

- Cala a boca e trabalha.

A porra da estrutura do out-door tava podre. Um pedaço de madeira quebrou e Jean quase caiu. Vini e Fábio alcançavam a gasolina obstinadamente.

- Ponha mais! Ponha mais!

Então levei o maior susto dos últimos duzentos mil anos. Do nada, surgiram duas crianças gritando. O susto foi tão grande que pisei em falso, um pedaço de madeira quebrou e despenquei de uma altura de uns quatro metros. Foi um negocio do caralho, o chão parecia que nunca chegava.

Quem diabos eram aqueles meninos? Que caralho eles estavam fazendo ali? Vinícius conversou com eles e saquem o grau da coinscidência:

Tinha uma casinha abandonada, minúscula, tipo a única peça de alvenaria de uma casa que muito antigamente existia por ali, no meio do mato, e eles, que eram meninos de rua, dormiam dentro. Mal estava coberta e eles dormiam ali. Puta que o pariu! Definitivamente, o mapa não é o território.

Sem sombra de dúvidas, nossa ação ferraria com o dormitório dos meninos. No calor dos acontecimentos Vini os convidou para dormirem na kitnete.

- Beleza!

- É, a gente dorme lá então.

Os meninos acabaram saindo-se ótimos ajudantes e em poucos minutos encharcamos o painel publicitário de gasolina. Só tivemos que esperar o lezera do Sérgio terminar seu serviço.

Sair fora e deixar somente Fábio acionar as bombas foi de partir o coração. Sérgio terminou, mostrou & saiu correndo com os meninos. Queria fugir dali mesmo. Eu e Vinícius saímos de cabeça baixa, nos esgueirando por entre os arbustos. Lentamente, pois estava com a adrena a mil por causa do susto dos meninos. Jean ficou discutindo com Fábio, queria ficar de qualquer jeito.

Sérgio sumiu enquanto eu e Vini nos escoramos na sombra de um muro pra esperar Jean. Passou um tempão com eles discutindo e a gente vendo e não ouvindo nada até que fizeram sinal pra gente se mandar. Foi quando nos ligamos que eles acabaram resolvendo mandar o plano de fuga à merda e tacaram fogo na bagaça. Assistimos tudo colados no muro num ponto perdido entre Aterrorizados & Maravilhados.

Fábio ateou fogo no out-door e na hora em que as chamas subiram as ganhas Jean acendeu os fogos. No momento senti como se já pudesse morrer, como se já tivesse vendo tudo que bastasse. Nossa fogueira queimou mesmo, queimou pra cacete, o clarão iluminou todo o matagal que até então estava nas trevas. O show pirotécnico dos fogos de artifícios deu o charme supremo, a sofisticação necessária para o momento.

Dez segundos de perfeição. Dez eternos segundos que quando acabaram cobraram seu preço através daquela situação fulminante de queda-livre.

- Sujou! Sujou!

- Fuja locôôoooo!!!!

Sem nenhum plano de fuga corremos feito uns desesperados. Passamos no ponto combinado e Sergio estava lá com meninos e com um sorriso congelado no rosto.

- Foi massa, foi de matar a pau.

- Bora, véio! Boraaa! Sujou!

- Sujou o que?

- Fugimos todos juntos!

- Foda-se.

- Bora, cara, bora!

Não teve jeito, por mais que ele tivesse razão nosso pânico era maior, corremos todos, até os meninos, coitados. No caminho Fábio teve um acesso de loucura e quebrou um daqueles painéis de propaganda dos pontos de ônibus. Corremos ainda mais, os meninos riam que se mijavam, quase não conseguiam correr, tínhamos muitas vezes que puxá-los pelo braço.

Não sei quanto, mas corremos acho que uns três quilômetros. Quando paramos num posto de gasolina pra descançar, tomar uma bera e apresentar um rango pros piazinhos nào converdamos nada, apenas ríamos.

Dez segundos pra marcar uma vida inteira e na madrugada:

Uma fogueira.



O Ritual Do Mais Tongo ou Como Eu Celebrei a Deusa & O Que Eu Fiz Para Ela Quando A Celebrei

(ataque vinte e três)
O humor salvará o mundo. Uma das regras básicas do nosso grupo é nunca nos levarmos a sério demais. Isso já confirma a nossa contribuição com pelo menos um pouquinho do humor que salvará o mundo. A gente, pelo menos, se diverte.

Quando apresentei a Religião dos Discordianos pra galera a identificação foi imediata. O Discordianismo é uma religião freak criada nos EUA, no início dos anos 60. É uma mistureba doida de nonsense com mitologia grega, religiões orientais e anarquismo, onde "todo homem, toda mulher e toda criança são um Papa". Um negócio palhaço o suficiente pra conquistar seus corações. Vinícius devorou o Principia Discórdia e desde então encasquetou que teríamos que fazer um ataque envolvendo esse assunto.

- Tipo uma cerimônia absolutamente sem sentido aparente, uma cerimônia de uma autêntica Religião Livre que o Ari tanto fala.

A idéia ficou pendente. Estávamos aguardando o ataque 23, que é o número sagrado dos Discordianos. No Domingo passado, dia 21 de setembro, foi o dia da árvore e o dia em que colocamos em prática nossa idéia mais besta dos últimos tempos para angariarmos fundos para nossos ataques. Nessa data aqui em Curitiba alguns estudantes de Biologia ou então Engenharia Florestal ou Ambiental costumam vender mudas de árvores nos semáforos. Resolvemos usar essa técnicas, só que ao invés de vendermos mudas de árvores sacanearíamos às ganhas vendendo mudas de maconha. Isso mesmo, mudas de maconha.

- A gente inventa um nome científico bem estrambólico e ninguém contestará.

- Cara, que massa! Imagina depois de umas semanas... O sujeito olha meio invocado pra planta e pensa: “cacete, que porra de planta é essa?”

- Uma tremenda sacanagem.

A idéia foi do Fábio e ele mesmo se encarregou de conseguir sementinhas com uns amigos do mal lá de Colombo. Isso foi no início de agosto, desde lá plantamos num viveiro improvisado na kitnete e conseguimos latinhas pra depois vender as mudas. Foi então que o universo nos presenteou com mais essa Magnífica Coincidência, o ataque vinte e três no dia vinte e três, dois dias depois do dia da árvore e a possibilidade de usarmos a grana pra bancar a cerimônia. Fnord, sem dúvida. Fnord.

No Domingo 21 acordamos cedo, alguns, pois Jean & Fabio saíram pra night e simplesmente viraram a noite sem dormir. Fomos vender nossos produtos no cruzamento da Silva Jardim com a Brigadeiro Franco, umas nove da manhã. É incrível como no domingo pela manhã o povo está mais Amável & Propenso a Caridades, como se nessa hora os corações ficassem moles. Pelo menos para pais de família. Conseguimos vender quarenta e sete pés de maconha a um real. Um espetáculo, sucesso absoluto. Voltamos a pé pra casa dando risadas e planejando nossa Cerimônia a Éris, a Mais Bela, a Deusa da Discórdia.

Passamos num sacolão e compramos cinco quilos de maçã.

- Na segunda a gente compra tinta e pinta elas de dourado. – A Maçã Dourada, símbolo do Discordianismo.

Uma das coisas mais massa no Discordianismo é a liberdade de culto e de métodos. Fizemos um bom uso dessa passagem do Principia: “Se por acaso você achar que as suas próprias revelações d’A Deusa se tornaram substancialmente diferentes das revelações de Mal-2, então talvez A Deusa tenha planos para você como um Epíscopo, e você deve considerar a criação de seu próprio secto a partir do rascunho, sem impedimentos.” Consideramos o fato de termos conseguido a grana um sinal da deusa.

Isso significa que contrariaríamos a recomendação de comermos cachorro-quente na sexta-feira, comeríamos na terça e de também outras bobagens inventadas do nada. Quanto ao local da cerimônia a discussão foi longa. Basicamente dois planos estavam em debate. Um era fazermos uma celebração para os ônibus bi-articulados vermelhos em algum terminal tubo.

- Cara! Seria massa, rituais para a Grande Serpente Vermelha & Para os Espectros Dos Trocadores.

Outra idéia era nossa tendência de nos dirigirmos para a periferia. Vinícius era quem queria os terminais tubo. Jean tinha outra idéia.

- Vamos celebrar junto aos catadores de papelão.

- Catadores de papelão? Como? De que jeito?

- Lembra o dia em que damos uma de calouros na avenida das torres perto da PUC?

- Tá, mas e daí?

- Ali na Vila Pinto, vindo embora depois, me liguei que tem uma dessas paradas que compra latinha e papelão. Aquilo ali de tardezinha enche de carrinhos de catadores de papel negociando a coleta do dia.

- E tu quer fazer o negócio lá?

- Com certeza eles serão mais receptivos.

- Não sei, talvez, mas a idéia é boa.

Batemos o martelo e tratamos de providenciar o material. Cachorro-quentes, um garrafão de vinho, maçã douradas, garrafas de pinga com rótulo com uma maçã dourada, copos com desenhos de maçãs douradas e mais uns panfletos com os mandamentos. Fábio ainda preparou mas misteriosas tábuas que pintou e que só revelaria no local. Coisas de Fábio Samwise. Sérgio foi quem se fudeu preparando todos aqueles cachorro-quentes, fizemos uma porrada, não contei mas eram mais de cinqüenta. Colocamos tudo numa caixa de isopor pra não esfriar muito, juntamos o material e partimos em Missão Sagrada. Vinícius & Sérgio foram na frente com os cachorro-quentes, Vinicius seria o Diácono Legionário e Sergio seu assistente. Nós chegaríamos depois tendo Fábio como candidato a Discípulos Legionários.

Quando chegaram lá o dono do estabelecimento demonstrarou-se meio cabreiro com aquele papo de tratarem-se de religiosos daquela seita que nunca tinha ouvido falar. Mas como a proposta de pregação incluía a distribuição de cachorro-quente grátis pra galera, acabou topando. Quando começaram a comer a gente chegou.

- Boa noite Diácono Vinicius O Mais Tongo.

- Boa noite Humanos Quem Sabe Numa Dessas Repolhos.

Os caras abriram uns olhões desse tamanho! Mas depois logo desencanaram, devem conhecer loucos de toda espécie. Mal chegamos e já começamos a distribuir as oferendas da Deusa A Mais Bela pro pessoal. Era pinga pra cacete, compramos uns dez litros. A galera curtiu, começaram as risadas e as batidas nas costas.

- Os meninos são gente boa!

- Desses crentes que eu gosto!

O Diácono Vinicius O Mais Tongo aproveitou o clímax e começou seu Sermão da Origem da Discórdia:

- A muito tempo atrás., um filho da puta chamado Caracinza, encasquetou que o mundo era tão sem humor quanto ele, e embestou que Diversão era pecado porque ia contra a Ordem Séria. Esse corno convenceu todo mundo que a sacanagem era coisa do mal.

Por incrível que pareça os caras estavam prestando atenção.

- Hoje em dia não dá pra acreditar como tanta gente se deixou levar por essa idéia. Mas deixaram levar e muita de gente se fode se for contra isso. O resultado é essa merda que o mundo tem se transformado. Chamamos isso de Maldição do Caracinza.

Os futuros Discordianos caíram na gargalhada.

- Escutem, mentiram pra vocês! Vocês já estão livres! Tudo é permitido! Um brinde a Éris, A Mais Bela, A Deusa da Discórdia.

Então fizemos o nosso pentagrama de iniciação, afinal eu, Jean & Fábio éramos meros discípulos legionários. Ficamos os cinco na formação e Vinícius falou:

- Agora todos se agacham e se levantam. Todos, incluindo os que estão só olhando.

Não teve muito sucesso, só três neguinhos fizeram isso. Mas tudo bem, continuou o ritual de iniciação. Fábio ficou na posiçào destinada aos candidatos a Discípulos Legionários. Vinicius O Mais Tongo aproximou-se.

- Eu, Vinicius O Mais Tongo, iniciado nas Ordens Nem Tão Secretas Das Saideiras Das Festas Podres, Sacerdote Ordenado da Putakyuparyu, com a Autoridade investida em mim pelo Alto Sacerdote da Mesma, Escritório do Polipadre, pela Casa do Caralho de Asas e pelo Templo do Caos; pergunto agora pra ti: tu és um homem ou um repolho?

- Um homem!

Os caras nessa hora começaram a se partir de dar risada, Vinícius O Mais Tongo teve que erguer a voz para continuar.

- Isso é mal! Isso é muito mal! Queres mudar de vida?

Aí uns poucos riram, teve gente que não entendeu.

- Sim! Quero mudar! – Exclamou Fábio.

- Que besta, que coisa mais imbecil! Onde você quer chegar aceitando qualquer proposta idiota como essa? Aceita mesmo?

- Sim!

Parecia um circo. Parecíamos os palhaços ou pior, os macacos do circo. Não sei se estávamos sendo bons ou a pinga estava sendo boa, a gargalhada era geral.



- Quer então se tornar um Discordiano?

- Acho que sim.

- Então faça o juramento!

- Eu acho que juroooo!!!!! – Berrou Fábio.

- Eu te proclamo como o Discípulo Legionário Fábio O Mais Mala, Legionário da Legião de Discórdia Dinâmica. Salve Éris! Salve Salve!

Então todos nós começamos a gritar e incentivar os outros a gritarem também e como a maioria já estava bêbada mesmo não foi difícil. O dono do estabelecimento já começava a dar sinais de impaciência. Sérgio foi quem se ligou e avisou Vinicius O Mais Tongo, que tratou de puxar o garrafão de vinho e distribuir pra platéia junto com as maçãs douradas e os panfletos com os mandamentos. Quando pegaram o papel ele logo avisou.

- Peguem essa porra desse papel e limpem a bunda com o que está escrito e riam como um idiota do que está escrito. Tomem o vinho no Nada por trás de Tudo, enquanto a merda não aumenta.

Nessa hora fizemos uma espécie de confraternização e paramos de agir como Religiosos Loucos & Fanáticos. Muitos caras vieram apertar a nossa mão e bater nas costas e perguntar que merda era aquilo que tínhamos feito e que porra era aquela de maçã dourada. Os cachorro-quentes acabaram todos e posso te garantir que estavam todos felizes.

Fábio pegou seus painéis e foi conversar com uns catadores de papelão no lado de fora. Ficamos um pouco mais e quando saímos encontramos Fábio com os caras. As tábuas que ele tina feito continha frases e Fábio deu dez reais pra cada um deles, e eram três, para colocarem as tábuas no carrinho. Ficou massa. Altas idéias. Chupada da lista de discussão dos delinqüentes. As frases eram: “O Seu Lixo É O Meu Sustento”, “Obrigado Por Tudo Isso” e “Até Aqui Sua Misericórdia Tem Me Acompanhado”.

- Salve a Discórdia, pessoal! Salve a Discórdia! – Fábio estava satisfeito com o resultado.

Voltamos etílicos pra casa bebendo a Pinga Sagrada da Discórdia e rindo na medida do incontrolável, pois está escrito em algum lugar e se não tiver escrito a gente escreverá:

“O humor salvará o mundo.”



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