Manual prático



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Merda & Ouro


(ataque vinte e quatro)
Nesta semana ouvimos o disco novo do mundo livre S/A onde o Fred Zeroquatro canta numa música “não existe guerra alguma, apesar de todo esse barulho é só o capital cruzando o mar” . A letra é pequena, mas deixou todos impressionados. Manda-se um pais como o Brasil à merda com um simples telefonema .

Capital Especulativo é uma coisa do diabo. Na boa, Eu queria que o cú dos especuladores pegasse fogo e o caminhão dos bombeiros tivesse cheio de gasolina . O problema é que eles estão longe, são invisíveis, são meros números numa conta corrente de um banco multinacional. As sombras desses invisíveis do mal são os bancos como os conhecemos.

Nos cabe então vandalizar os ícones dessa pouca-vergonha toda que estão ao nosso alcance, ou seja, as Agencias Bancarias de Curitiba.

- Tínhamos que fazer alguma coisa nos bancos que tivesse merda no meio. – Vínicius sempre se anima quando o assunto é vandalizar bancos.

- Merda? O que você quer dizer com isso ? - A pergunta foi meio que geral, ninguém entendeu .

- Tínhamos que deixar uma grande quantidade de merda em um banco .

- É, dá pra meter merda naqueles envelopinhos do auto-atendimento .

- Dá também pra deixar sacos de merda nos lixos

Aí a galera começou a viajar, o Bukowskiano Degenerado Fábio Samwise soltou essa:

- Podíamos comer feijoada com chucrute por uns três dias e fazer um atentados de peidos. Imagine nós todos peidando ao mesmo tempo.

Por fim concordamos que o ideal seria largar merda nas calçadas e acessos, bloqueando a entrada das pessoas. O plano ficou marcado, só que parecia que faltava um toque final que desse brilho a coisa toda. Um fator de diferenciação de um simples ato de vandalismo.

Passou-se uma era até que da lista de discussão dos Delinqüentes nasceu uma estrela dançarina. Alguém chamado Gustavo e com o nikname Anarki3a postou uma idéia maravilhosa que imediatamente apresentei pro pessoal .

- Lembram o que estávamos discutindo outro dia? Que os bancos são os ícones do mal ?

- Só...


- Pois é, já repararam que todos eles ostentam hipocritamente um belo jardim.

- Flores do mal.

- Imagina agora largar sal grosso ou óleo queimado naqueles jardins.

Fez-se então o tradicional silêncio após uma sacada de mestre. Aquelas caras pensativas e aqueles risos contidos.

- Era o que faltava.

- Temos que fazer isso.

Começamos então a aperfeiçoar a estratégia. Esquecemos o óleo queimado e optamos pelo sal grosso. Poderíamos atacar em uma noite de chuva, a água dissolveria o sal e os banqueiros teriam uma curiosa surpresa alguns dias depois.

Convencer o Rafael, amigo do Jean, a empenhar a picapezinha dele pra carregar bosta já foi difícil, agora carregar a tal bosta revelou-se uma encarnação do inferno.

E a merda optamos por de vaca , já que merda de gente é complicado de conseguir em grandes quantidades. Mais uns enfeites vandalìsticos. Um placa pra colocar na escada de acesso com o aviso: “passagem, somente se pisar na merda”. Uma faixa pra esticar entre uma árvore e outra escrito com letras garrafais: “Este é um lugar do mal ”. Os especialistas em alvos Fábio & Jean escolheram uma agência na Erasto Gaertner, no bairro do Bacacheri. Perfeitinha, jardim, escadas de acesso fácil de obstruir e lugar pra esticar a faixa.

A faixa e a placa doeram em nossos bolsos. Essa série de ataques minaram nossas finanças. Isso, convém lembrar, se passou dias antes da Imobiliária nos infernizar com a ameaça de despejo de nossa Sagrada Kitnete. Só tínhamos que esperar por uma noite chuvosa. Eu no cagaço de que minha gripe assassina voltasse.

Não precisamos esperar muito. Na Esquizofrenia Climática de Curitiba, noites chuvosas são normais.

Jean conseguiu umas capas de chuva pretas no trampo e com o Rafa, o veículo para transportar a carga fedida. Achamos um sitio na Fazenda Rio Grande e convençemos seu dono a ceder o material. Tivemos que carregar a merda na entrada da cachoeira das vacas, de noite e na chuva. Foi muito empenho, o esterco ia até o meio da canela e o esquema era o seguinte: você escolhia um lugar, se posicionava e então afundava nos escrementos e então fazia uma força do caralho com a pá pra jogar até onde outro recolhia. Uma merda, literalmente. Dez mil banhos depois ainda fedíamos.

Carregamos tudo, cobrimos com uma lona e voltamos pra sagrada kitnete.Logo antes da meia noite a chuva apertou e decidimos que era a hora. Jean foi de carro com o Rafael e eu e os guris fomos na frente, de ônibus.

A Erasto é movimentada, mesmo na madrugada. Era uma operação complicada, o banco ainda por cima era muitíssimo bem iluminado. A vantagem era que com a chuva forte ninguém andava na rua, ainda mais numa hora daquelas. E os carros, quem estava dentro estava mais preocupado prestando atenção na pista. Mesmo assim tivemos que ficar eu & Sérgio de campana, cuidando o movimento e emitindo sinais quando necessário.

Maldita hora que topei essa tarefa. Era diferente de ficar alerta na periferia como nos outros ataques, num bairro escuro, silencioso e sossegado. Ali passavam carros, um a cada minuto e o trabalho era demorado. Somente ver os outros se mexerem me deixava ainda mais agoniado. Chovia tanto que parecia que não ia parar nunca. A impressão que se tinha era que a qualquer momento iria aparecer Noé, de arca, acenando pra gente, “e aí gurizada, não tem ninguém da espécie de vocês aqui dentro!”

Fábio &Jean carregaram sacos com uma porrada de merda até perto de uns tonéis de lixo. Vinícius sumiu no meio do jardim analisando as possibilidades pra realizar suas sabotagens. Assim que descarregaram o material, Rafael sumiu com sua picape, não queria ter nada a ver com aquilo.

Quando os guris começaram a esparramar a merda eu já tava prestes a ter um ataque cardíaco. Minha vista já estava embaçada com a água da chuva e cada farol que brilhava na frente eu pensava que era de um carro que ia estacionar pra sacar um troco no caixa-eletrônico.

Jean & Fábio ainda se alugaram em aplainar com uma tabuazinha, queriam cimentar de fezes a entrada do Templo Monetário. Eu ali, no cagaço do perigo iminente e os dois, Viajando & Enrolando.

Não agüentei e fui correndo dar esporro.

- Seus pau no cú! Um desses carros podem parar e ferrar com tudo.

- Relaxa, Ari.

- O caralho que vou relaxar!!! Vamos trocar de função, vai lá cuidar o movimento Jean!

Fiquei no lugar do Jean e comecei a jogar merda feito um psicótico. Fábio ficou só rindo da minha paranóia, Vini que surgiu do nada pra me acalmar.

- Relaxa véio, tá limpeza, agente tem pra onde fugir no aperto. Tá vendo aqueles latões de lixo onde deixamos os sacos? É só correr pra lá e desaparecer na noite

Desencanei e tratei de concluir a obra. Vinícius ficou só escondido atrás das moitas. Completamente invisível. Só dava pra ver o sal grosso voando em meio a chuva que ele jogava da moita onde estava escondido. Dessa vez admito, Vini foi o mais seguro de si dentre nós.

A chuva era tanta que tive que colocar uma camada grossa de estrume pra água não levar tudo para o esgoto. Enquanto fiquei ali, Fábio & Jean trataram de colocar a faixa. Ela seria armada num poste e numa palmeira.

O poste foi tranquilo de escalar, a palmeira foi bem mais foda. O aguaceiro fazia com que o tronco ficasse escorregadio feito sabão. Somos especialistas em escalar palmeiras, mas não daquele jeito. A solução foi chamarmos o Sérgio para que eu, que sou o mais magro e leve, subisse nas costas dele pra amarrar a corda da faixa.

Bem na hora que dei o último nó, uma luz de lanterna, vindo de dentro do banco, fez com que nosso mundo parasse. Tinha um vigilante lá dentro que provavelmente estava dormindo ou fazendo outra coisa o tempo inteiro e que agora estava fazendo sua ronda.

Correr, correr & correr. Essa é mesmo a nossa sina.

Sérgio O Mais Cagão simplesmente desatou-se a correr me jogando violentamente na grama salinizada. Quando consegui me levantar só vi os piás desaparecendo na esquina. Nem olhei pro vigilante e já tratei de correr pra salvar minha pele.

Minha fuga desesperada foi interrompida pelo pior tombo dos últimos tempos. Estava descendo a escada quando escorreguei e cai deitado, de corpo inteiro, em cima daquela merda toda. Não ficou uma partezinha sequer do meu corpo sem estar cagada.

Puta que o pariu!

Quando encontrei o resto da turma era uma gargalhada só. Se jogavam no chão e riam batendo pés e as mãos na calçada. De longe pareciam um bando de epilépticos tendo um ataque simultâneo.

- Para Ari! Minha barriga tá doendo.

Mandei todos tomar no cú e saí atrás de calhas pra me lavar. Fedíamos tanto que voltamos a pé pra casa, de modo que salvamos os ônibus de toda aquela fedentina.

Uma semana depois, passamos por lá pra dar uma olhada no efeito do sal e constatamos que acabamos por ajudar na geração de emprego. Dois jardineiros estavam trabalhando lá e a grama tinha sido toda substituída. Mais uma batalha vencida, mais um banco vandalizado.

Uma merda tudo isso.

Não é mesmo?



Nossa Vingança Sará Maligrina ou Fazer Feitiçaria É Brincar Com O Universo

(ataque vinte e cinco)
Uma estranha espécie de vudú abateu-se sobre mim nos últimos dias. A má fase no campeonato começou no dia em que Vinícius telefonou dizendo que estavam com três meses de aluguel atrasado e que se não pagassem em cinco dias seriam despejados. E os guris ainda tinham como agravante as constantes reclamações dos vizinhos por causa do som e das zuadas. Não somos aquilo que pode se chamar de sociáveis. Era a oportunidade de ouro para a imobiliária. Se não fizéssemos algo MESMO, estaríamos fudidos.

Quer dizer, quem estava fudido eram os piás, pois não moro com eles, mas mesmo assim me senti meio culpado. Más companhia, tá ligado? Doeu na alma. Tivemos que colocar nossos respectivos rabinhos entre nossas respectivas pernas e correr atrás de dinheiro. Salvem o capitalismo! Deixem ele se manter até sexta-feira que precisamos de dinheiro! Desnecessário dizer que foi foda. Não temos o dom natural para ganhar dinheiro.

Eu & Jean, que temos trampo, fornecemos momentos de glória a nossos chefes, que a muito sonhavam com uma chance de nos esnobar. Saímos de mãos abanando, mas rindo da babaquiçe daqueles malas. Sérgio quebrou a cara tentando vender em vão suas telas na Rua XV. Fábio tornou-se um VASP (Vagabundo Anônimo Sustentado pelos Pais) sem a mínima chance de conseguir troco com seus velhos.

A luz no fim do túnel, por incrível que pareça, acabou vindo do Vinícius. Ele toca violão e teclado e volta e meia faz uns bicos nuns barzinhos. Depois de tentar arrumar alguma coisa de última hora e não conseguir, resolveu acionar sua cara-de-pau. Tocar na rua e nos terminais de ônibus feito um pedinte.

Aí começaram a aparecer os primeiros reais e a gurizada começou a verdadeiramente se espertar. Cada um tratou de descolar coisas que pudessem vender. Resolvi fazer um sacrifício à causa, vender vários de meus já poucos livros, discos & revistas. Meu esforço foi recompensado por um e-mail. O Papa Fong da Cabala Discordiana dos Eremitas Onanistas Românticos nos daria uma força.

Genial! Fantástico! Conseguimos negociar, tínhamos grana e conseguimos nos safar por uns dias. Eles perderam e o sinal ficou aberto pra nós, que somos Delinquentes. Eles feriram Corações Delinqüentes, o que significa que isso não ficaria por isso mesmo, jamais.

Desde então nossa sede de vingança só aumentou. Na época em que estávamos negociando mesmo, fui junto com os piás e fiquei de butuca, analisando o ambiente. Notei que não tinha sensor de presença, me liguei nas janelas e anotei o nome de sete funcionários. Quem mandou usarem crachás?

O foda é que entre conseguir a grana que faltava e se recobrar do susto o tempo foi passando, e os ânimos se acalmando. Não tem como evitar, cada um à sua maneira, interpretou aquilo como uma lição, como um sinal. Acabou que foi sendo eu o que mais entrou numas. Me ilhei do resto do mundo e teci meu casulo, ser uma Metamorfose Ambulante requer esse tipo de trampo de vez em quando.

Até que no Sábado, um dia horroroso com Chuva Fina, Frio & Vento, os piás vieram me abduzir.

- Bora, véio! Vamos caçar os sapos pra lançar um feitiçocontra a imobiliária!

A aventura que estavam me propondo era ridícula. Caçar sapos nos esgotos mais fedidos da cidade. Saímos com sacos de supermercados na mão e andamos o sábado inteiro, nos molhamos inteiros e não encontramos um único sapo. Não que não tenhamos conseguido caçar, não vimos nenhum mesmo. Eu babava de indignação.

- Seus viados, vocês acham que vai ter algum sapo nesse esgoto fedido?

- As vezes tem...

- As vezes tem o caralho!

A idéia dos piás, pelo menos a princípio, era uma idéia de gerico. Desenrolar sapos e o diabo a quatro sem ter ao menos a mínima idéia do que fazer com aquilo tudo. Qual feitiço? Como? De que jeito?

Mas aquela palhaçada pelo menos me sacudiu um pouco. O toque final foi no fim de semana, dia da criança, que fomos visitar Denise, a catadora de papelão que levamos ao salão de beleza do shopping. Montamos uns bonecos e carrinhos de papelão e fomos fazer a festa com os filhos dela.

Fomos todos. Eu, Sérgio, Jean, Fábio, Vini & Marília. E posso dizer aprendemos mais com eles do que eles conosco. Aprendemos por exemplo a resolvermos o problema dos sapos. Eles moram em Pinhais e sacam de altos Açudes & Banhados para esse fim, caçar sapos.

Como se não bastasse nos ensinaram a técnica da lanterninha. Fizeram agente esperar a noite chegar pra caçar. Parecia que estávamos sendo iniciados num conhecimento secreto. A técnica consistia em mirar a luz nos olhos dos sapos, eles ficam hipnotizados e aí é só catá-los. E funciona que é um espetáculo, catamos treze. Eles ficaram numa bacia com água dentro de uma caixa de papelão na litnete por três dias.

O problema é que por mais que eu tivesse reparado que eles não tinham sensor de presença não fazíamos idéia de como invadir a maldita imobiliária. Jean de cara manifestou-se como o mais pé no chão.

- Invadir é foda, temos que torcer pra que tenha uma entrada pelos fundos. A porta da frente é que não dá pra arrombar.

- E tem mais, vai saber se o Ari não viajou e não se ligou dos alarmes – Sérgio visivelmente não estava muito a fim da empreitada.

- Eu acho que não tem.

Na madrugada de quinta pra sexta saímos em missão impossível, carregando os sapos, um bonequinho vudú que Sérgio confeccionou, sete envelopes nominais para os funcionários, treze folhas de papel com a maldição escrita, mais umas velas & outros apetrechos.

Chegamos lá e apesar de ser no centro, a rua estava um deserto só. Damos a volta na quadra e o único jeito de entrar nas “entranhas” do quarteirão era pulando um muro, de três metros de altura. Não teve jeito, tinha que ser ele. Tive que subir nas costas do Sérgio e depois ajudar o Jean a subir, então em dois, puxamos o resto da turma.

A escuridão ali dentro era total, depois de acostumar a vista reparamos: Tratava-se de um corredor minúsculo de uma oficina de alfaiate, não levava a lugar algum. Pra seguir a jornada teríamos que pular um muro com aqueles cacos de vidro cimentados.

- Não dá nada, agente quebra tudo.

Jean nem vacilou e com uma pedra começou a bater nos vidros freneticamente. Fez picadinho deles. Fábio tirou a camisa, colocou por cima e pulamos todos. Chegamos na segunda fase da jornada e era pior ainda, o quintal de uma oficina de fogões ou coisa parecida. Cheia de tralhas. Sérgio, o cara mais desajeitado do Universo mais uma vez torceu o tornozelo.

- Aaaaaaaaaaaaai!

- Cala a boca seu merda.

- Pô, que foda!!

Nos esgueiramos por entre aquela montoeira de ferro velho e o terceiro muro pelo menos era mais fácil. Fácil em termos de altura, por que dava numa área de serviço de umas kitnetes estranhas. E tinha gente acordada nelas, gente brigando.

Aparentemente era a kit de um casal e a mina berrava:

- Não me interessa! Não tinha que ter falado bosta nenhuma!

Não tínhamos mais nenhum muro pra pular, a janela da imobiliária estava ali e tínhamos que fazer todo o serviço ali mesmo. A janela era daquelas tipo de banheiro e era impossível entrar por ela, teríamos que jogar tudo por ali. Na hora em que o cara começou a berrar de volta pra mina, Vinícius quebrou o vidro e abriu a janelinha. Tínhamos 20 centímetros pra enfiar tudo. A primeira coisa que fizemos foi enfiar os sapos. Coitados, a janela era alta e se estribuxaram no chão.

Imaginávamos que seria mais fácil. Então me liguei de que daquele jeito não faríamos nada decente.

- Cara! Vamos voltar pro outro lado do muro e dar um tempo pra analisar a situação.

Sentamos todos em cima das tralhas do ferro velho e ficamos meditando em silêncio. Ficamos um tempão todo mundo quieto. Matutando. Tentando esfriar a cabeça. Nossos pensamentos eram volta e meia interrompidos pelos berros do casal, que dava pra ouvir dali. Jean quebrou a inércia e começou a juntar uns ferrinhos e fios.

- Quê que cê tá fazendo, véio?

- Relaxa!

Remendou as paradas e fez uma vareta de uns três ou quatro metros de comprimento. Ficamos encantados com sua maestria e como que num passe de mágica acordamos o MacGyver da série Profissão Perigo que cada um trazia dentro de si.

Um troço fantástico. Cada um tratou de fazer uma gambiarra para aperfeiçoar a vareta. Vinícius começou a montar uma segunda enquanto eu, Sérgio & Fábio fizemos “ponteiras multitarefas”. Chapinhas flexíveis presas com borrachas, coisa de mestre.

Pulamos o muro de volta e o lazarento do casal continuava brigando. Acabou facilitando as coisas, apesar de não termos mais podido contar com o Sérgio, que quis ficar acompanhando a discussão. Foi massa. Deu pra colocar o giz nas ponteiras, desenhar um pentagrama no chão. Com as duas varetas conseguimos acender as velas em torno do pentagrama. O boneco vudú mocamos num lugar difícil de achar, para aparecer só uns dias depois, pra deixar os caras mais cabreiros ainda.

Jean ajeitou um pincel com tinta vermelha e desenhou uns símbolos nada a ver apavorantes na parede. Era uma briga pra ver quem espiava pela janela, todos queria ver como estava ficando, estava um espetáculo a cena.

Sergio acabou sendo útil com sua curiosidade, garantindo nossa tranqüilidade.

- Ih, cara! Podem continuar tranqüilos, eles não estão nem aí pros sons de fora. O mundo pra eles não existe. E os outros vizinhos vão pensar que o barulho são eles que estão fazendo.

Por último largamos os envelopes pros funcionários e as treze folhas de papel esparramadas pelo chão com a seguinte mensagem chupada do Hakim Bey:



Esta empresa foi amaldiçoada por magia negra. A maldição foi realizada de acordo com rituais corretos. Esta empresa foi amaldiçoada porque tem oprimido a Imaginção e profanado o Sagrado Ócio & a Santa Vagabundagem, degradado as artes devido a estupidificação da vida cotidiana com o único objetivo de pagar suas Tachas de Aluguel Abusivas & seus Lucros Obscenos, além das mentiras pregadas através do Direito de Propriedade & o Arruinamento Estético promovido pelo pouco caso que dão a algo sagrado que é um lar...

Os funcionários desta empresa agora correm perigo. Nenhum indivíduo foi amaldiçoado, mas o local foi infectado com Má Sorte & Malignidade. Aqueles que não se ligareme não passarem a tratar os outrso com mais humanidade, irão gradualmente sofrer os efeitos desta feitiçaria. Desrtuir ou dar um fim em todos esses instrumentos de magia que foram deixados aqui não fará nenhum efeito. Eles já estiveram aqui e este lugar foi amaldiçoado. Recupere sua humanidade e revolte-se em nome da imaginação – ou será considerado (sob o ponto vista deste feitiço) um inimigo das pessoas do bem.

Ainda ficamos uma cara sentados ali, Fumando & Bebendo & Cochichando & Acompanhando o desenrolar da briga do casal. E não é que eles se acertaram? O amor venceu. Altos sinais, sem sombra de dúvidas, o Universo está disposto a brincar com a gente quando se dá a devida atenção a ele. Fábio se folgou e escalou uma parede para ficar voyerizando os dois pra ver se rolava sexo. Quando foram pra cama fomos embora.

Fomos embora Cansados & Felizes, pois sendo do mal fomos do bem e, na boa, acho que fomos além do bem e do mal.

A Madame, Os Poodles, A Cegueira & O Castigo

(ataque vinte e seis)
O problema da burguesia não é o fedor. O problema da burguesia nem é a ânsia de riqueza. O que irrita na burguesia é a ostentação. O que me trinca o saco é que mesmo com a miséria que é suas vidas, iludem-se que são superiores e o pior, não desperdiçam uma única oportunidade de exercitar essa ilusão de superioridade.

Essa semana a dança do acaso me colocou diante duma situação dessas. Estava trabalhando, numas carreiras pra entregar uns documentos, almoçar e voltar pro trampo, pelas bandas do Batel. Então cruzei com uma mendiga. Odeio rótulos, chama-la de mendiga é matar a descrição. Era uma senhora com três crianças, todas com menos de cinco anos, uma no colo, uma que recém aprendeu a falar que alcançava as coisas e a maiorzinha espertinha, que ajudava a mãe a catar lixo.

Eram três menininhas e as três choravam. A iniciante na linguagem não tinha como esconder a sinceridade!

- Eu tô com fome!

Tive que reduzir o passo com aquilo tudo e então acabei vendo o que preferiria não ter visto. Vi sair pelo portão a dona da casa, madame padrão, a descrição dela deve ser o que aparece no Aurélio quando se procura por isso, com dois quilos de cosméticos e não-sei-que-lás no rosto e dois poodles. Odeio poodles. Nada contra animais. Admiro todos que defendem os direitos dos animais e todo mais, mas odeio poodles.

Com as crianças chorando e meio que sem saber o que fazer a senhora perguntou se a madame tinha alguma moeda.

- A senhora tem alguma prata pra me ajudar minha senhora?

Então a madame faz o infazível, ignora a mãe de três filhos e segue com seus poodles. Ignorou por completo. A mamãe olhou pra mim e sei lá se foi o fato de eu ter parado quando vi aquilo ou não, o que sei dizer é que ela teve um acesso de indignação, correu até a frente da madame e perguntou:

- Ôu! Eu estou aqui?! Não está me vendo não?

E não é que filha da puta continuou com sua cegueira? Nem os poodles deram bola. Aquilo me emputeçeu de uma maneira que nem que eu contasse até mil conseguiria me conformar. Intimei ela.

- A senhor está precisando de alguma coisa?

- Olha moço, o que o senhor puder ajudar...

Só tinha um ticket-refeição pra almoçar no centro, um vale-transporte e uns centavinhos que não fariam a menor diferença. Foda-se o almoço, apresentei o ticket.

Foi massa. Deu pra ver o brilho nos olhos dela.

- Muito obrigado, seu moço! Deus te abençoe! O senhor não sabe como é difícil. Tá vendo essa rua toda? Os lixos tão tudo cadeados.

Na mão ela tinha uma sacolinha de supermercado com alguns restos de comida.

- O que a senhora tem aí?

- Frango assado. Tava tudo aí no lixo da casa dessa senhora dos cachorros. O resto dos lixos tavam todos chaveados.

Peguei aqueles restos de frango e depois de esperar a senhora ir embora almoçar com suas crianças olhei pra casa da madame dos poodles. Tinha uma janela aberta do lado esquerdo. Analisei a distância e concluí que era possível. Peguei cocha por cocha, osso por osso dos restos de frango e mandei ver na janela. Já estava terminando quando ouvi alguém gritar no outro lado da rua e tive que saír correndo.

Não consegui engolir essa história direito. À noite contei pros piás na kitnete e não teve um que não ficasse revoltado. Vinicius se exaltava em sua fúria.

- Cara, precisamos matar essa velha!

- Uma morte lenta e dolorosa...

- É! Fazer picadinho de seus cachorros e fazê-la comer tudo, matar a lazarenta de overdose de poodles.

Jean foi o único a ficar quieto, com um estranho brilho no olhar.

- Já sei o que fazer.

- O quê, seu monstro?

- Vamos invadir a casa daquela filha de uma puta.

- Invadir? Mas é uma mansão brô, deve ter quinhentos tipos de alarmes e proteções.

- Calma! Nós não precisamos fazer as coisas na louca, de qualquer jeito.

- E o que Vossa Delinqüência sugere?

- A gente pega nossos uniformes de gari e finge estar trabalhando no quarteirão da casa pra analisar com calma todas as possibilidades de entrar lá.

Uma excelente idéia. Cada vez mais me convenço de que aqueles uniformes com logotipo da Prefeitura Municipal de Curitiba foram uma grande sacada. Os desempregados Fábio, Vinícius & Sérgio foram convocados para a missão, durante a semana à tarde. Quarta-feira eu estava nas masmorras de meu trabalho quando Fábio me liga entusiasmado.

- Ari do céu! Você não bota fé!!

- O que sua bixa?

- A velha tem uma empregada muito gostosa.

- Tá, mas e daí?

- Daí que Sérgio escreveu uns hai-kais apaixonados, entreguei a ela quando estava indo na padaria buscar o café da tarde pra patroa e ganhei a gata.

- Ganhou a gata??

- Só! Vamos sair tomar umas beras hoje à noite.

Não podia ser mais perfeito. Fábio descolou informações importantíssimas. A velha é viuva, tomas uma boletas pra dormir e desmaia na cama e nenhuma empregada agüentou trabalhar lá por mais de seis meses, tamanha a Mesquinhez & Arrogância da patroa. Saí do trampo na quarta crente que faríamos a invasão de noite. Fabro porém, pediu mais um dia para os preparativos & as investigações.

- Milene me falou que amanhã à tarde a patroa vai sair e me convidou para ir até lá.

- Dentro da casa? Sério?

- Bem isso mesmo, se pedíssemos a deus e fossemos atendidos não seria tão perfeito.

Traçamos então o mais perfeito plano de invasão de nossas carreira. Pelo menos era o que achávamos. Não que tivéssemos grandes facilidades, afinal todas as janelas e portas tinham grades, mas pelo menos tínhamos um “mapa” do território, sabíamos que não tinha alarme e ainda contaríamos com as instruções de Fábio, o especialista mor em definição de alvos.

Esperamos a meia noite e saímos a pé e em silêncio: Momentos de Concentração. Jogamos todo o material que utilizaríamos na mochila que Vini levava nas costas e seguimos Firmes & Confiantes. Sabíamos que a tarefa não seria nada fácil. O muro que tínhamos que pular ficava numa avenida movimentadíssima, mesmo de madrugada, e tivemos que nos separar uma quadra antes. Foi um por vez pular o muro, uma coisa estressante pra quem fica por último, como foi o meu caso. Saber que as possibilidades de alguém se ligar na parada depois de quatro neguinhos pularem o mesmo muro são altas é foda. Quando saltei vi que se tratava do quintal do único estabelecimento comercial do quarteirão. E era pequeno e era apenas o interlúdio entre dois grandes problemas.

O primeiro grande problema era atravessar o quintal da casa vizinha. Tudo iluminado, não tinha cachorros, mas a luz era muito forte mesmo. Sujo pra cacete. Colocamos nossas “tocas zapatistas” que guardamos desde a noite dos poemas nas vidraças e fomos um por vez de novo. Dessa vez fui o primeiro. Fui também o primeiro a encarar o jardim da megera.

Era bonitinho. Mas certamente ordinário. Eu sei que é foda, mas a culpa foi dela e naquele momento a velha era a encarnação do mal. Tínhamos que sacaneá-la. Os piás chegaram logo e Fábio foi logo dando os toques.

- Tão vendo aquele pé de manga ali? Temos que subir nele e saltar em cima do telhado.

Era o grande problema número dois. O único modo de entrar na casa era pelo telhado. Segundo Fábio tinha uma banheiro nos fundo, próximo do quarto da velha que tinha um alçapão que dava acesso ao sótão. Subir a árvore e saltar no telhado foi fácil, emprenho foi soltar as telhas pra entrar. Elas estavam muito bem presas e Jean, depois de demorar a chegar devido a uma misteriosa frase que escreveu com óleo queimado na grama, teve que arrancar um galho da árvore para alavancá-as. Como era de se esperar o sótão tava escuro pra cacete.

Quando acendemos a lanterna notamos que o finado marido era fã do Reader´s Digest, caixas e mais caixas da revista, mofadas e em estado de decomposição. O tampão de madeira foi fácil de abrir. Fábio então nos olhou com uma expressão grave.

- Piazada, agora é o momento mais importante. Vocês ficam aqui, eu vou primeiro e checo se as portas dos quartos delas estão fechadas. Se não tiverem tenho que fechar. Depois eu fecho a porta que tem na entrada do corredor dos quartos, se conseguir isso nenhuma das duas vai ouvir os barulhos, se fizermos algum. Aí eu volto e dou o toque pra vocês descerem e lembrem-se: tem dois cachorros no quarto da bruxa, nada de barulho!

Desceu e ficamos no aguardo. Não sei se o tempo se dilata nestas circunstâncias, mas a verdade é que passaram dois séculos até que ele voltasse.

- Foi foda, a porta rangia e levei dez minutos pra fechar cada uma, agora desçam

Com todo o cuidado do Universo descemos e cada um tratou de pegar seu material de ataque. Jean estava morrendo de curiosidade de conhecer a despensa, geladeira e descobrir se tinha alguma adega. Vinícius foi no armário onde estavam as comidas dos poodles e encheu as sacolas de bilhetes com frases chupadas dos comentários de Rogério Coacho no blog dos Delinquentes: “Seus cachorros comem enquanto irmãos passam fome”. "Esta comida foi desenvolvida para cachorros de todas as raças mas os donos que pensam como Hitler podem consumir sem contra-indicações". "Se não souber ler pergunte a sua arrogante dona". "Coma tudo crianças. Para não sobrar nada aos mendigos que reviram a lixeira". "Esta ração deixa o pêlo macio e o latido mais forte contra os pobres de sua rua."

Fábio ficou de butuca na porta do corredor pra ver se alguma das duas acordava e emitindo constantes pssssius. Eu e Sérgio nos encarregamos do resto. Sérgio colou bigodes e chifres adesivos nos retratos da parede. As paredes era de um azul de tonalidade forte e me desatamos a escrever frases com giz. “Os Mendigos Invisíveis Estiveram Aqui”. “A senhora foi selecionada pra pagar os pecados da burguesia”. “Tome cuidado com os Mendigos Invisíveis”. “Dinheiro não pode comprar felicidade, mas pobreza não pode comprar nada”.

Vinícius acabou primeiro, se juntou a nós e ficamos esperando Jean. Depois de alguns minutos ele apareceu carregando sacolas.

- Vinho, muitos vinhos e queijos, muitos queijos. Teremos festa na saída.

- Maaaassa!

- Calem a boca seus merdas! – Fábio era o mais visivelmente estressado.

Pediu pra darmos um tempo, abriu a porta do corredor e foi escrever com giz na parede diante da porta do quarto da velha: “Não abra seus olhos Dona Jassira, a senhora não ira gostar do que vai ver”. Imediatamente tratamos de sair fora, foi bem mais difícil subir de volta no sótão. Encaixamos as telhas de Mal & Porcamente saímos em fuga desesperada. Não sei porque, mas na hora de fugir a adrenalina sempre dispara. Nessas hora mal se consegue pensar, atravessamos todos juntos o quintal vizinho iluminado e em segundo estávamos na rua, gargalhando de nervosismo.

Corremos até uma praça próxima e quando nos jogamos na grama desatamos a rir.

- Cara! Imagina a cara da bruxa quando ver aquilo...

- Foda! Muito foda!!!

Abrimos os vinhos provavelmente caríssimos e devoramos os queijos. Já estava bêbado quando me liguei que nem tínhamos visto o que Jean escreveu com óleo queimado na grama.

- Fala cara, o que era?

- “A senhora não entendeu, mas isso é maravilhoso”.

Quem passasse na rua ao longe provavelmente veria umas das mais loucas cenas desta metrópole, cinco malucos fazendo um pique-nique etílico nos confins da noite.

Realmente, isso é maravilhoso.



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