Manual prático



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Os Anjos Delinquentes do Bem & Seus Poemas Proibidos

(ataque vinte e sete)
Dizem que no Oriente os caras misturam poesia com música e que o efeito é uma verdadeira catarse coletiva. Aqui no Maravilhoso & Moderno & Civilizado Mundo Ocidental a poesia não tem essas regalias. Salvo gloriosas exceções tipo o hip-hop, o pancadão carioca, e os repentistas do sertão, poesia aqui nestes pagos é considerada um troco chato pra caralho. Coisa de acadêmico afetado, na maioria das vezes.

Desde o dia em que distribuímos poemas com estilingues que esquentamos nossas cabeças a procura de novas soluções. Sábado fui obrigado a trabalhar o dia inteiro, e em meio ao tédio e o marasmo recebi a ligação de um Sérgio Augusto animado, quase eufórico.

- Ari! pintei uns cartões e escrevi uns poemas que ficaram tão legais não podemos deixar parados aqui na kitnete.

- Não da pra distribuir cartões com estilingue.

- Tô ligado, tava pensando em outra coisa.

- Que coisa seu Monstro?

- Invadir casas, meu velho Ari, invadir casas.

- Você? O Rei dos Cagões falando isso? De onde saiu essa sua macheza toda?

- Vai te fuder! O que eu queria era que esses cartões se transformasse em Misteriosas & Enigmáticas surpresas.

- Explica melhor.

- Não, vem aqui na kit que eu te explico melhor.

O cara tava animado mesmo, cheguei lá e o cara tava numas de fazer as invasões naquela mesma noite. Jean & Fábio de mau, só colocavam defeitos em tudo.

- Tá, mas fala de uma vez do que se trata, o que tu quer fazer com esses cartões.

- Agente entra nas casas e abandona os cartões em lugares estratégicos tipo no meio de um livro, no bolso de uma roupa ou numa gaveta.

- A gente entra nas casas... olha a do cara, até parece que e façinho assim, melzinho na chupeta, a gente entra, deixa lá e pronto. Se, liga veio!

- Não vai ser a primeira vez...

- Tá, mas a gente tinha um método, tínhamos uma engenharia toda por trás.

Caímos todos na gargalhada e Sérgio acabou ficando meio invocado, disse que ele definiria os alvos e ele mesmo, bolaria todo o roteiro do ataque.

- Cara decidido!

- Olha que isso e raro entre poetas, hein?

Não deu nega, o cara sumiu o domingo inteiro. Voltou com um Mapinha Mandrake em mãos.

- Aqui esta! Tenho cartões pra quatro casas e escolhi seis, uma margem de erro de duas casas para o caso de pintar sujeira.

Analisamos cuidadosamente seu plano e chegamos à conclusão que sim, era possível. O monstro Viajão finalmente estava ficando metódico. Apesar de termos criticado sua idéia a principio, estávamos todos doidinhos pra fazer mais invasões. Fora a eficiência e poesia ilegal da ação a adrenalina e altamente recompensadora. Preparei uns papéis adesivos com Mensagens Discordianas copiadas do blog do Fong pra colar nas paredes.

Marcamos a parada pra segunda-feira à noite. O bairro que o monstro escolheu? Alto Boqueirão. "Voarei por toda a periferia". E tava uma noite nojenta: Fria, Nublada & com Vento. Fábio catou a última garrafa de vinho que tinha sobrado do último ataque e fomos bebendo aquela coisa caríssima pra aquecer os ânimos e por que não dizer? Criarmos um pouco mais de coragem.

O bairro era uma escuridão só. Esse tão alardeado urbanismo curitibano é uma tremenda fraude. Consiste apenas em esconder o que não deve ser visto. Fora o apartheid social violento que ele gera, mas esse é um assunto revoltante demais pra ser falado aqui. A questão é que nesse caso o descaso da Prefeitura Municipal de Curitiba nos foi útil. Sérgio era o maestro da vez.

- Pra termos acesso a primeira casa precisamos ir por aqui.

O cara estava orgulhoso de si, depois de troçentos ataques ele, O Mais Bundão, estava se sentindo um verdadeiro delinqüente: Ousado & Abusado.

Era um matagal do caralho cheio de Pega-pegas e Amores-de-sogra. Nada de lanternas, fomos no escuro mesmo pra minimizar as chances de sermos descobertos.

- Cara! Não tinha um caminho mais fácil?

- Não, tem que ser por aqui mesmo.

O matagal terminava numa cerca de madeira toda podre e dava num quintal cheio de tralhas e ervas daninhas. Pulamos todos e cada um tratou de encontrar um modo de entrar na casa. Alguns minutos depois Vinícius veio animado.

- Vocês não vão botar fé, mas a porta da cozinha está aberta.

É incrível como as pessoas fecham todas as portas da frente e se descuidam com as dos fundos. Como estava sendo perigosamente fácil, pedi aos outros que esperassem e entrei com Sérgio pra depositar os "presentes" nos locais apropriados.

Como eu já imaginava a casa não tinha nenhuma estante com nenhum livro que pudéssemos colocar no meio. Sérgio ficou analisando a sala e a cozinha enquanto fui dar uma geral no resto. Duas crianças dormiam candidamente com a porta do quarto aberta enquanto o que parecia ser o quarto do casal tinha sua porta fechada. Peguei um cartão colorido e depositei dentro da sandália da menininha. Sérgio colocou um cartão estilosamente em meio as flores do vaso da sala e um pregado na geladeira, junto aos imãs bregas que elas costumam ter. Por último colei minha Mensagem Discordiana na parede:

“Seja cauteloso com a bebida, ela pode te levar a atirar em políticos – e ERRAR.”

Em tempo recorde saímos fora com a primeira missão cumprida. A segunda casa foi bem mais foda, não tinha nenhuma porta de cozinha aberta. Mas tinha uma janela com possibilidades de arrombamento. Tudo o que precisávamos era de algo fino e comprido pra soltarmos o trinco.

O gambiarreiro Jean se dispôs a dar um jeito. Voltou até o quintal das tralhas e depois de longos minutos apareceu com uma varetinha de metal, e deu inicio as exaustivas tentativas. Tentou, tentou & tentou e passou a bola pro Fábio. Fábio também fracassou e depois de mais de meia hora tentando passou a missão pro Vini.

Vinicius bancou o ignorante e começou a dar pequenas batidas no trinco até que o pior aconteceu. A janela abriu mas a vareta caiu fazendo barulho. Todo mundo gelou. A macheza do Sérgio evaporou-se.

- Vamos embora galera! Vamos embora!

- Calma! Relaxa! Vamos ficar ouvindo.

Passaram-se longos minutos de tensão. Nenhum ruído. Aparentemente ninguém se ligou. Dessa vez foi Sergio & Vinicius, o homem que abriu a janela. Tinha gente pra caralho dormindo lá e também tinha uma estante com meia dúzia de livros, mas como provavelmente nenhum daqueles livros eram abertos a séculos escolheram outros lugares.

Num quarto tinha uma vovó dormindo e roncando. Ela merece, ganhou um lindo cartão.No meio de uma lista telefônica e outro glamourozamente pendurado numa iluminária. Minha mensagem: “Aquilo que não é proibido é obrigatório”, ficou pregada na parede do banheiro.

Já estávamos impacientes quando os guris voltaram. Estavam estressados pra caralho por causa da lotação da casa.

- Vamos andando, rápido!

As próximas casas ficavam a alguns quarteirões distância e eram todas de madeira, bem simples. Sérgio confessou que estava nervoso demais e passou os cartões pra gente fazer o serviço. E não era fácil, a maioria das csas tinha cães e faziam uma zoada dos diabos. Depois de várias vistorias escolhemos uma verde. A porta era fechada por uma tramela, com um canivete Jean conseguiu abri-la facilmente. Já estávamos dentro quando nos damos por conta que num dos quartos tinha uma televisão ligada. Será que estavam acordados? Será que não? Antes que descobríssemos jogamos um cartão de qualquer jeito mesmo, em cima da mesa. Colei minha mensagem e tratamos de dar o fora dali logo. A Mensagem Discordiana da vez: “Dificuldades são como criança, elas só crescem se você as alimenta”. Na hora de fechar a porta a filha da puta rangeu muito mais alto do que ousávamos imaginar que uma porta pudesse ranger. Um grito assombroso veio do quarto da TV

- Quem caralho que ta aí???

Os estrondos de passos pesados vindos do quarto foi a última coisa que ouvimos. Saímos correndo desenfreadamente até onde estava Sergio.

- O que foi? O que foi?

- Sujou! Sujou! Fuja lôcooooooo!!!

A merda é que tinham dois carros passando na rua, seria sujo se ele visse um bando de maloqueiro correndo pela riua em plena madrugada. Olhamos pros lados em total desespero, o dono da casa chegou na porta, acendeu a luz e nos viu. Puta que o pariu! Ele nos viu!! Jean deu um berro:

- Por ali, cara! Por ali!!!

Um córrego fedido era a única opção de fuga. Fui o primeiro a me jogar no esgoto e chafurdar na lama podre. Cara, o desespero foi grande. Estávamos nos achando muito românticos distribuindo poemas daquela maneira e não esperávamos por aquela reação. E não foi só aquilo, não. Eu não tinha dado nem dez passos quando ouvi um tiro. Caralho! O cara estava estava armado e estava correndo atrás, parecia disposto a nos perseguir no córrego mesmo. Na hora que ele deu o segundo tiro nós praticamente voávamos dentro do córrego, eu particularmente não senti a água nem o mau cheiro, era o mais puro instinto de sobrevivência em ação. Nem olhava pra trás, nem sabia se estavam todos bem.

Então todos os deuses do Universo fizeram uma força tarefa pra nos ajudar e construíram um bueiro de esgoto na lateral esquerda do córrego e me enfiei dentro chamando os outros. Mais tiros & mais tiros, o Alto Boqueirão em sua noite Bagdá. Felizmente todos conseguiram se enfiar ali. Rastejamos uns dez metros pra dentro daquele cano contra a correnteza. Eu estava sem fôlego, sou capaz de dizer que ontem devo comido merda, muito provavelmente. Quando o breu era total paramos pra descansar. Ficamos horas ali dentro, perdemos a noção de tempo. Sérgio, o maestro do ataque ficou desconsolado.

- Pô, que foda, que foda, que foda!!!

Quando nossos narizes recuperar a sensibilidade e caímos na real de onde estávamos saímos fora. Cagaço total. Nos embrenhamos por entre os arbustos e só respiramos sossegados quando já estávamos a quilômetros do local do crime.

Foi o maior susto da nossa carreira na Delinqüência, mas tem males que vem pra bem (ou vem de trem, como dizem os pessimistas) e Sérgio fez um belo verso/resenho.

- Toda poesia merece um tiro, nem que seja um dia.

Legal, recuperou nosso humor e até damos umas risadas imaginando que o cara da arma não entendeu bosta nenhuma de nossos objetivos. Mas como ficou escrito com óleo queimado na grama da velha burguesa: “Embora você não tenha entendido nada, isso tudo é maravilhoso.

Não Contavam Com os Delinqüentes

(ataque vinte e oito)
Uma das coisas mais escrotas desse capitalismo agonizante de hoje são as fábricas montadas nos trópicos pra aproveitar a mão-de-obra barata. Não bastasse isso ainda tem a isenção de impostos e mais uma caralhada de benefícios. A podridão impera nas entranhas dessa instituição do mal. Aqui em Curitiba temos a presença maligna da Renault. Fábio conhece um cara lá em Colombo que trampa na Renault e conta historias terríveis de caras que passam o dia inteiro enroscando o mesmo parafuso, e de três ou quatro dedos por semana que abandonam as mãos de seus donos.

Uma autêntica Central de Escravidão Voluntária.

Ao invés dos caras de chicote acoitando os escravos como no século passado, temos os robôs e as centrais automatizadas impondo o ritmo da produção. Chibatadas com relho de veludo, sutilezas de uma civilização doente.

Enquanto estava me recuperando da caganeira alienígena que peguei discutimos muito no hospital sobre a merda que é o trabalho. Com a intoxicação fui automaticamente “obrigado” a não trabalhar. Quando as bactérias alienígenas abandonassem meu corpo seria um fudido, mané, cuzão e otário novamente.

O assunto da montadora acabou surgindo e o velho vício de planejar alguma ação também.

- É Ari, da pra aproveitar esse tempo amarrado nessa cama pra bolar coisas.

Começamos a pensar em algumas sacanagens que pudéssemos aprontar com aqueles franceses filhos de uma puta, files de le pute ou sei lá como é que é em Francês. Citei a idéia do Anarqu3a da catapulta de merda. Vinícius se entusiasmou no ato.

- Cara, essa idéia é muito massa! Só faltava mesmo um alvo.

- Mas que alvo? A fábrica da Renault? - Fábio estava meio desconfiado.

- Claro! Enchemos aquele estacionamento de merda!

Confesso que fiquei meio enjoado com a idéia a principio. É cair na merda na noite do banco, é comer merda na noite dos cartões, é foda mesmo, minha vida anda uma bosta ultimamente. Mas acabei concordando, o plano não era ruim. Sérgio deu uma incrementada.

- A gente manda umas mensagens pelo correio antes, alertando eles para algo, mas sem deixar claro o que é.

- Ah, mas tem que descobrir a lista com o nome dos figurões.

- Fábio! Fala com teu amigo.

- Só! Vou ver o que eu consigo...

Fábio falou com ele, mas o cara demostrou-se meio cabreiro. Tem uma porrada de carros naquele estacionamento, mas também tem uma segurança que não é tonga nem nada. O cidadão acabou nos convencendo a mudar o plano.

Discutimos muito o assunto na seqüência e chegamos à conclusão de que jogar merda diretamente na fábrica poderia ser uma literal cagada. Podiam aparecer os jornalistas e tchauzinho pra nossa invisibilidade. Optamos por um meio termo. A Autovesa de São José dos Pinhais, cidade vizinha a Curitiba. Tem uma parada igual no Barigüi, mas a de Pinhais é bem mais limpeza.

Com a garantia que não cutucaríamos a multinacional com vara curta, o amigo de Fábio acabou desenrolando os nomes pra gente. Sérgio se encarregou das mensagens.

Escreveu umas coisas assim:

“Para Fulano De Tal, tendo em vista um alerta dado pelas pessoas, pelos bilhões de pessoas deste planeta esqueçido, mandamos esta mensagem.

De tanto cagar fora do penico o quarto pode ficar fedendo.

Ass: .........................”

Nada de viajar um monte e mandar um monte de cartas diferentes pra um monte de gente. A mesma mensagem pra todo mundo, pra fixar bem a bagaça. Saca só, uma mensagem dessas na torre de controle e chove merda na pista mais tarde. Terrorismo painho, terrorismo mesmo.

Montar a catapulta foi um buraco muitíssimo mais em baixo. O mestre das gambiarras Jean não conseguiu pensar em nada prático. Só que o universo saca de nossa jornada pelo Reino da Mediocridade e pelo Império da Apatia e nos deu uma forçinha. Essa forçinha manifestou-se com um nome de Josimar, popular Marmita, irmão da Milene namorada do Fábio. Êita descrição comprida, sô.

O cara é uma figura. A família deles veio do interior de Minas e o cara é uma figura e não tem outro jeito de descreve-lo. Baixinho, cheio dos agás e vejam só, muito mais gambiarreiro que o Jean. Trabalha em gráficas consertando maquinas de off-set e vive socado em oficinas de automóveis ou então fazendo bicos de eletricista e outras coisas. Em resumo, um cara desenrolado em trabalhos manuais.

Na divertidíssima noite em que Milene o levou na kit apresentamos nosso problema e o cara desenrolou.

- Conheço uns dois ou três caras que tem ferro-velho e esse negócio aí, como é o nome?

- Catapulta.

- Pois então, é fácil de fazer.

Só que de mane ele só tem a cara e o jeitinho de andar.

- Agora me diz uma coisa. Pro que é que vocês querem um troço doido desses?

Não teve jeito, tivemos que contar tudo. Milene é claro que estava junto, mas não contamos que fomos nós que invadimos a casa da madame patroa dela. Deixamos a eles a facílima tarefa de ligar os pontos.

A construção de nossa Arma de Cagação em Massa finalmente saiu do papel. Cara, a aparência final do aparelho foi o troço mais Mad Max que já vi em minha vida, e funcionou espetacularmente em todos os testes.

Com tudo em cima tratamos de conseguir as fezes em questão. Na Fazenda Rio Grande de novo, dessa vez sem chuva e com experiência. Delinqüentes Veteranos, tá ligado? Marcamos a palhaçada pra uma quinta-feira à noite.

Uma noite antes do ataque fizemos uma coisa escrota. Passamos três os dias sem defecar e combinamos de evacuar coletivamente na frente da concessionária como forma de aviso, tipo jogar limpo, dar uma chance a vitima, não atirar por trás.

Marmita além de gambiarreiro é um cara de pau pragmático. Nos fez desencanar de conseguir alguém de carro pra levar a catapulta e nos convenceu a levar a lazarenta desmontada de ônibus, com tudo mocado em mochilas.

O foda foi carregar a merda. Colocamos tudo naqueles sacolões pretos de lixo com cinco camadas. Cinco sacos um dentro do outro. Foram três pacotes e apesar de nossas várias camadas, o cheiro acabou vazando. Por fora das sacolas colocamos umas das Lojas Americanas e todo mundo no latão olhava desconfiado pra gente pensando que diabos tínhamos comprado nas Lojas Americanas que fedia tanto.

Todos fazíamos caras de indiferentes, não lembro de nunca ter sido tão foda conter uma risada antes em minha vida. Era Marmita quem estava com os sacolões ao seu lado, o cara fazia caras muito engraçadas toda vez que alguém o observava de canto de olho ou então abanava o nariz. Quando descemos do ônibus ríamos feito uns doentes a ponto de se jogar no chão, tamanha a dor na barriga. Nenhum gás hilariante seria tão eficiente quanto aquele transporte de cocô num coletivo.

Demos muitas risadas com as palhaçadas do Marmita, mas quando chegamos nas proximidades do alvo o carinha ficou serio. É incrível, mas parece que tem pessoas que nasceram pra delinqüência. Marmita é um desses, se sentiu mais em casa que alguns de nós.

Entretidos com as dificuldades da montagem da catapulta acabamos ignorando por completo a análise anterior do alvo. Um erro de principiante eu sei, mas o que será de nos quando nos sentirmos maduros? Apodreceremos, provavelmente.

Tivemos que parar uma quadra antes e analisar friamente a situação. Acabou que temos mais sorte do que juízo. No outro lado da rua tinha uma casa de madeira desocupada, com muro baixo e tudo. A gurizada ficou montando o equipamento enquanto eu e Sérgio bancamos os sentinelas.

Era de madrugada, a rua estava deserta, mas se alguma alma passasse por ali e olhasse pro terreno da casa desocupada ia pensar que se tratava de alguma geringonça criada pelo Coiote para pegar o Papa Léguas.

Jean & Vinius ficavam abastecendo a catapulta com munição enquanto Marmita caprichava na pontaria, eu e os outro observávamos tudo ao lado da grade da concessionária.

Foi um espetáculo. Mais um daqueles momentos únicos nas nossas vidas, que afinal de contas por serem tantos, já nem sei dizer se são tão únicos assim. Aquela merda toda voando pelo céu e caindo em cima de todos aqueles carros novinhos e inalcansáveis foi um troço de lavar a alma. Isto não é uma metáfora: Aqueles excrementos que choveram sobre os carros é os preços que eles custam.

Milhares de coisas passaram pela minha cabeça enquanto eu assistia aquele bombardeio. As milhares de vidas perdidas em acidentes, os danos ao meio ambiente, o arruinamento estético das grandes cidades, os falsos desejos plantados pela publicidade na Imaginação Coletiva. E mais uma lista interminável de malefícios.

Vingamos tudo isso. Pode ser que poucos entendessem nossa mensagem, mas nós e esses poucos já está louco de bom. É o bastante nesta ingrata-mas-nem-tanto guerra no Reina da Mediocridade & da Apatia. Meus devaneios foram interrompidos pelas sirenes do alarme da concessionária. Ou o vigia não era um bom profissional e provavelmente merece cada centavo que ganha ou os filhos de uma égua tem alarme de invasão de pátio adaptado pra detectar fezes. Não sei, o que sei é que a porra do alarme era uma sirene ensurdecedora que deixou tos em pânico

Ignoramos todas as regras de invisibilidade e corremos todos em auxilio a Marmita e sua Maravilhosa Maquina Lançadora de Merda. O cara ainda por cima tava numa calma inexplicável.

- Calma, galera! O vigia não vai atirar e a policia não pode chegar aqui por tele-transporte.

Não damos ouvido. Abandonamos ali a munição que restava, catamos a catapulta montada mesmo em três e saímos correndo de qualquer jeito. Os delinqüentes mais desajeitados da historia da humanidade. Se o bicho-do-corre-feio aparecesse nos prenderia também.

Paramos pra descansar uns quinze quarteirões depois. Estávamos exaustos, mas nos cagávamos rindo. De nós mesmos e do naipe de nossa ação.

As Megacorporacoes Transnacionais, em sua ânsia neoliberal realmente abriram novos mercados e obtiveram alguns lucros fabulosos.

Mas cometeram um erro grave

Não contaram com os Delinqüentes.

O Nonsense, Meu Nego, No Combate Ao Desemprego



(ataque vinte e nove)
Era uma vez num programa de entrevistas... Era da Bruna Lombardi? Não lembro... O Maguila, ao ser questionado sobre o que fazia antes de lutar boxe, respondeu que trabalhava como pedreiro. Pra complementar e salientar que não tinha vergonha do seu passado, nosso herói soltou essa pérola.

- O trabalho danifica o homem.

Desde então esta frase ficou estampada na minha mente como uma Profunda Verdade Universal. O trabalho mata a criatividade humana e cria milhões de esquizofrênicos em todo o planeta. Discutíamos isso no Hospital Evangélico na noite anterior à minha alta e ao meu fatal retorno ao trabalho.

Jean discursava sobre a esquizofrenia do homem moderno.

- Saca só, você tem uma montoeira de problemas particulares. De repente você está vivendo um inferno amoroso e no trabalho tem que sorrir a todos os superiores. A gente pode estar numa pior, deprimido e desanimado pra caralho, mas sua produtividade não pode diminuir.

- Se diminuir: pé na bunda!

- Sacaram que somos obrigados a desenvolver duas personalidades?

- Só! As vezes até mais.

- E o que me deixa puto é que essa psicopatia é o padrão normal de conduta. Se um caradura invocar de não dividir sua vida em duas partes será ele o louco e o desajeitado.

Aproveitei a oportunidade pra falar de umas viagens que tive em meio a meus delírios de febre.

- Isso sem contar com falta de sentido cada vez maior nos trampos que restam.

Não sou um grande teórico, nunca freqüentei nenhma academia e a intelectualidade me dá náuseas, mas gosto de arriscar uns palpites e tentar entender, do meu jeito, como as coisas funcionam.

- O capitalismo, pra medir o valor das coisas sempre se baseou no tempo de trabalho gasto na criação das mercadorias.

- Pelas barbas de Karl Marx! A onde que você quer chegar?

- Acontece que hoje o tempo gasto e zero por conta das automatização e o valor das coisas tornou-se abstrato.

- Continue professor.

A gurizada reunida só sabe mesmo é avacalhar. Tiram onda de tudo feito uns retardados. E na hora de trocar idéias, um sempre discorda do outro, unicamente por esporte. Mas continuei, sem nem saber ao certo como expressar minha idéia .

- Só que tem uma contradição gritante nessa parada toda. A tecnologia dispensa os trabalhadores e sem compradores a máquina não roda. É preciso mercados, muitos mercados, daí privatizarem tudo. Não duvido que ainda vão inventar trabalhos sem sentido só pro capital continuar circulando e o sistema se manter.

- Ari, confesso que isso tá confuso pra caralho.

- E, você esta andando em círculos sem chegar em ponto algum, ainda bem que você não é professor de nada.

“Felizes são aqueles que andam em círculos, pois serão conhecidos como rodas.”

Resolvi partir direto pros finalmentes e deixar as teorias mal interpretadas e os conceitos distorcidos de lado.

- Bom galera, durante um delírio de febre vislumbrei um Movimento do Trabalho sem Sentido, alguma coisa do tipo MTS ao invés de MST.

- O que significa isso Ari?

- A gente pode plagiar as cores e a bandeira do MST pro negocio ficar ainda mais palhaço e criar mesmo o movimento.

- Mas que caralho! Que movimento?

- Por alguns trocados, oferecer vagas pra uns trampos totalmente nonsenses.

- Tá vamos virar empresários, empregadores agora...

- É Ari, o Fábio tem razão. E a grana? E o cacife?

- Calma cambada de pessimistas. Não é um mês de trabalho com carteira assinada seus tongos! São bicos. Bicos Nonsenses & Cia Ltda.

- Explica melhor, dischava, desmurruga esse bagulho.

- Por exemplo, por cinco pilas contratamos pra cavar um buraco e depois tapá-lo. E depois um outro cava e tapa mais um buraco mais lado e por ai vai.

- Que coisa mais ridícula e absurda.

Tenho que admitir que os caras não aceitaram a coisa de imediato. Literalmente trata-se de algo saído de uma mente delirante. Por fim a bizarrice da idéia acabou seduzindo o povo.

O problema eram os tais cinco pilas pra pagar os “salários.” Passou-se uma semana até que sobre a cabeça de Vinícius que aquela famosa lampadazinha acendeu-se.

- Cara! lembra as idéias daquele doido do Rogério Coaxo do blog dos delinqüentes?

- Só!

- Pois então, aplicamos aquele migue do sobrinho do interfone pra conseguirmos a bufunfa pro MTS do Ari!



O caso foi de um típico meme, pulando de cérebro em cérebro, Mutando-se & Replicando-se sem nenhuma interferência nossa. Jean & Fábio surgiram também num plano B. Circulou pela Internet a historia de um neguinho que dá curso de mendicância pregando que é possível levantar duzentos paus se escolher os lugares certos pra mendigar. Marimita irmão da Milene namorada do Fábio se escalou pra tentar cuidar de carros em estacionamento em dia de jogo no Couto Pereira.

Para a operação Interfones Vinícius voluntariou-se. É uma boa idéia, mas requer toneladas de paciência e muita dedicação. Escolheu um trecho da padre Agostinho com bastante prédios e no horário do Jornal Nacional.

Apertava o interfone e falava.

- Tia? Oi tia!

Quando não se tratava de uma mulher com um único sobrinho as pessoas ou perguntavam “o que?,” “como?” ou então desligavam o interfone. É uma idéia que requer paciência, eu falei.

Até que lá pelo milionésimo toque a Profecia de Coacho se concretiza.

- Oi ... É você Marcelo?

Com o sinal verde dado, Vinicius soltou essa que estava com o carro estragado cinco quadras a baixo e que precisava de quarenta reais emprestados.

- Eu te avisei que aquele carro ia te dar problemas e prejuízos. Sobe aí que eu te empresto, mas que isso não se repita, hein? Dê um jeito nessa cangalha veia.

- O carro ficou aberto, tenho que correr lá. Vai subir o Vinícius ai pra pegar, ok?

- Tá bom. É ate melhor. Se não eu ia ter que te dizer muitas verdades.

Deu certo. Ela caiu. Fábio & Jean ainda conseguiram vinte e cinco pilas. Marmita quebrou a cara no dia do jogo, já existe um cartel explorando os estacionamentos, não conseguiu um único centavo. No total levantamos 65 Dinheiros para estartarmos nosso MTS. Com o tempo, todos gostaram dessa coisa de brincar de vanguarda.

Nosso movimento é quase artístico. Nosso movimento é quase vanguarda. Se nada disso é verdadeiro, então beleza. Ele no mínimo é QQQ, Quase Qualquer Qoisa.

Fábio conseguiu pás, enxadas, um balde e dois cavaletes na casa de seus coroas em Colombo. A empreitada consistia em cavar um buraco, raso mesmo, pra não dar muito trabalho. Colocar a terra em cima de umas tábuas que colocaríamos sobre os cavaletes. Dar vinte e três voltas em torno do cavalete repetindo o Mantra Sagrado:

“Quem inventou o trabalho não tinha o que fazer.”

Depois tapar o buraco, meter a mão nos cinco reais e partir para o abraço.

A definição do local da obra gerou discussões monstruosas. Sérgio & Vinícius queriam que fosse no centro, um Mega Evento. Fábio queria que fosse perto do viaduto Capanema, nas redondezas da rodoviária de Curitiba. Jean ficou do meu lado e vencemos o debate.

Continuaremos voando por toda a periferia. Ação de impacto é coisa pra rato de mídia. Estamos fora, não gostamos de aparecer na foto.

Escolhemos o bairro do Cajurú e fomos de ônibus mesmo, com a presença marrrrrcante do figuraço Marmita e com os cavaletes no corredor, dando quinhentas explicações aos curiosos que insistem em existir, graças aos céus, pois são os curiosos que garantem a evolução da espécie.

Chegando no Cajurú escolhemos o lugar mais pop das proximidades, o terreno baldio ao lado do bar do Espedito, tava escrito com”S “ assim mesmo. Montamos os apetrechos e esticamos a enorme faixa que Sérgio preparou.

HÁ VAGAS. SERVICO FÁCIL. DINHEIRO À VISTA.

Três frases com três palavras magicas para para ressoarem nas mentes de Desempregados, Vagabundos & Vadios em geral, essas criaturas lindamente românticas do mundo moderno. Não demorou muito pra chamar a atenção dos pinguços do boteco. Mas não foram falar com a gente, mandaram um moleque.

Explicamos para o pirralho e ele voltou rindo sozinho para o bar. Ouvimos gargalhadas e não demorou muito pra pintar o primeiro voluntário. Bêbado e provavelmente duro.

O cara mais se escorava na pá do que cavava propriamente. Devido ao estado de bebedeira do cidadão, o que era pra ser fácil tornou-se difícil. Era tão cômico que acabou se formando uma multidão de curiosos, sempre eles ao redor. Marmita ria tanto que nem participou da ação, seutou-se um pouco distante e ficou se contorcendo.

Na hora das vinte e três voltas a risada era geral. O povo não botava fé no que estava acontecendo. Não botavam fé mesmo, mas na hora que ele tapou o buraco e pegou as cinco pratas ganhamos respeitabilidade. O negócio era sério além de palhaço.

O segundo funcionário foi o moleque mensageiro que fez tudo rapidinho e saiu feliz da vida pra torrar a grana nos caça-níqueis. Foi uma ação muito divertida e até recompensadora no sentido do reconhecimento pela população local. Não faltaram trabalhadores e todos nos trataram bem.

Os 65 dinheiros acabaram rapidinho, o sucesso da empreitada foi total. Nosso movimento é viável e digo uma coisa, do fundo de meu Coração Delinqüente: o dinheiro da mulher que caiu no Migué do Interfone foi muitíssimo bem aplicado. Bem explicadinho acho ela até sentiria orgulha. Temos outras idéias ainda para por em prática. Descobrir um formigueiro e criar o “Sedex 10 Para Formigas”, pega a carga de uma delas e entrega na porta de casa, cinco pilas pelo transporte. Ou então localizar todas as bitucas de cigarro de um quarteirão e orientá-las a Meca, bitucas Muçulmanas, saca? Dez reais por isso, pois sabemos que é foda, primeiro achar todas as bitucas, depois descobrir que diabo de lado fica Meca.

Enquanto esperávamos o ônibus no ponto tivemos que responder a um batalhão de perguntas a respeito de quem éramos, o que significava aquilo tudo e onde seria nossa próxima performance.

- Somos do MTS, movimento do trabalho sem sentido e infelizmente não sabemos quando haverão novas vagas.

Poluição Visual? Desejos Pré-Fabricados? Só Jesus Salva!

(ataque trinta)
Nosso novo porão é massa. Pela primeira vez desde que existimos nesse planetinha véio ordinário de bosta que só é azul pra quem vê de fora, estando morando todos juntos. Só que nem tudo é perfeito. No outro lado da avenida tem uns quatro ou cinco out-doors emporcalhando a visão.

Uma puta sacanagem. Ainda mais tratando-se de nós, pela primeira vez reunidos, quase que uma provocação. Terminamos de transferir todas as nossas tralhas na sexta-feira à noite e essa porra de publicidade acabou sendo o assunto da vez. Fábio era o mais indignado.

- Esses filhos da puta se acham na moral de dizer quais são nossos verdadeiros desejos.

- Podes crer.

Gargalhadas. Todos caíram na gargalhada com o tom messiânico do sujeito. Um monstro. Um orador em praça pública, seduzindo milhares de almas com sua retórica hipnótica.

- Só que eles não estão sozinhos nessa.

- Óh! Existe uma conspiração por trás.

- Os Iluminatti devem estar envolvidos.

- Calem a boca seus paunocús! Sou eu, é você Vini, somos nós!

Nessa hora a galera baixou a bola. Só que numa pose de respeito tão caricatural que foi incontrolável, as gargalhadas voltaram. Nunca se leve a sério de mais.

- Cara, saca que na maior parte das vezes somos nós mesmos que matamos nossos desejos.

- Assassino! Assassino!

- Acabamos deixando de fazer as coisas por um medo ou uma vergonha que no fundo não sentimos, mas achamos obrigação senti-los.

Palmas. Desta vez não foram gargalhadas, desta vez foram palmas mesmo, Fábio foi ovacionado.

- Claro que tem gente querendo se aproveitar dessa fraqueza. Gente oferecendo desejos prontinhos, custam alguns trocados, mas estão lá, prontos pro consumo.

Jean foi o único que não ficou o tempo todo junto, viajando no discurso de Fábio. Ficou quieto, na dele, olhando os out-doors. Quando sentou com agente estava sorridente .

- Acho já que sei o que fazer pra aliviar nem que seja um pouco essa raiva de Fábio.

- Ih! Lá vem...

- Vamos sacanear esses especialistas em desejo tirando onda deles.

- Como assim?

- Sabe o que eu pensei? A gente bola um personagem. Tipo cartum mesmo. Desenha numa cartolina ou papel grande, recorta e cola nos out-doors. Minha idéia era que esse personagem ficasse o tempo todo expondo o lado ridículo e grotesco dos anúncios.

- Pode crer véio! Não é uma má idéia...

- Em cima dos bonequinhos colocamos balões com frases tirando onda da parada.

Uma tentação e tanto e depois de uma semana parados não conseguimos resistir a ela. Sérgio que tem as manhas pra essas coisas de recortes saiu atrás dos papeis e do resto dos materiais enquanto ficamos ajeitando o resto das coisas. Foi o animal do Vinícius, que não pensa, que teve a idéia de dar o nome de Jesus pro nosso personagem gozador de propagandas.

- Eu sou Jesus e te digo uma coisa: você é mané a ponto de acreditar que isso vale a pena?

Foi massa. Curtimos pra caralho. Bolamos um racunho de nosso Jesus, nada daquela imagem padrão de barba grande, cabelo longo, vestido e sandálias de couro. Nosso Jesus era um baixinho e gordinho escroto, personagem típico de botecos da periferia. Damos altas gargalhadas imaginando as palhaçadas que nosso Jesus aprontaria. Quando Sérgio chegou com o material já estávamos com as idéias plenamente definidas.

Na tardinha de sábado Fábio & Jean saíram pra analisar os alvos e bolar as rotas de fuga pra no caso de dar alguma merda. Demoraram pra caralho e voltaram mudando todos os planos originais.

- Cara, aqui na frente não vai dar. Aqui na frente vai ser muito bandeira.

- E a escada? Como é que vamos carregar a escada num lugar muito movimentado?

Estávamos todos no tesão de fazer a coisa no sábado mesmo, só que não teve jeito. Tentamos localizar o Marmita, mas o cara tava acampado no Marumbi. Fábio teve que ir até Colombo batalhar uma escada dessas que se desmonta enquanto nosostros fomos definir novos alvos, que se adequassem aos nossos desenhos.

Não foi mole. Tivemos que fazer um mapa complicado, teríamos que andar um monte. Só que tudo meticulosamente planejado, com tudo pra dar certo. Nossa auto-confiança se baseava no fato de que estaríamos com tudo pronto, desenho recortado, cola esparramada, e que seria só fixar e pronto. Missão comprida.

Só que na hora a parada não foi tão simples assim. No fim da terde de domingo o tempo fechou e uma enxurrada se abateu sobre Curitiba. E a chuva não tinha pinta de passar tão cedo. Ainda por cima mais uma vez cometemos um erro de principiantes. Até quando seremos cabaços? Analisamos as rotas de fuga e não sei que lás e ignoramos por completo a escada e o plano de abordagem. Durou muito mais do que imaginávamos. Tínhamos calculado uns 30 segundos. 30 segundos o caralho!

Chegar, armar a escada no lugar certo, subir sem dobrar o papel ou rasgar por causa da chuva e ainda colar no lugar adequado sem enrugar nem nada é uma tarefa muito foda. Pra cola pegar tivemos que antes dar uma enxugada meia boca no local da colagem e depois ainda segurar pressionando o papel por um certo tempo. A coisa toda durou quase dez minutos, uma eternidade perto dos 30 segundos que tínhamos imaginado.

Foi um negócio agonizante. Vinícius foi o primeiro a fazer a colagem. Eu & Jean ficamos segurando a escada e mandando apurar enquanto Fábio & Sérgio eram os sentinelas.

Era a propaganda de uma oferta de carro por trinta e poucos mil reais. No desenho que colamos Jesus segurava a barriga com uma mão e com a outra apontava sorridente para o carro:

- É fácil comprá-lo! Basta ficar trinta anos sem comer. Alguns mestres iogues dizem que o sol e o ar bastam pra se manter vivos!

Mais abaixo um outro balãozinho.

- E lembre-se! Eu sou Jesus e Jesus saca as coisas!

Quando Vini acabou estávamos com a nossa paciência esgotada e muito nervosos, aquilo era pra ser rápido e fácil. Nossa auto-confiança foi parar na puta que o pariu. Saímos correndo dali, nem conferimos com calma o resultado da colagem.

O segundo alvo ficava um pouco longe e tivemos que andar um monte. Tratava-se de um anúncio de uma nova escola de negócios, famosa na Europa e que agora esta se instalando em Curitiba. Na foto um casal de jovens empresários em pose de bem sucedidos. Ridículos os coitados.

Foi Jean quem subiu pra colar Jesus.

- Nada é tão ruim que não possa ficar pior. Agora os gringos vão ensinar seu chefe a ser um mala, explorador e folho da mãe de uma maneira que você nem sonhava ser possível!

Mais abaixo o mesmo balão de antes

- Jesus saca das coisas, meu filho!

Jean fez tudo certinho em seis minutos e meio. Apesar dos protestos de Fábio, foi eleito automaticamente “O Colador de Jesus Cristos” oficial. O próximo out-door era próximo, hehe, porém visível e perigoso. E também o mais odioso. Aquele da Master Card convidando todos a ficarem ou serem sossegados. De longe o mais falso.

Esse eu aguardei com expectativa pra ver como ficava. Esse eu quis curtir o resultado. E nesse Jean decidiu dispensar a escada. Maldita idéia. Mais segura, mas repito: Maldita idéia! Tivemos que escalar a parte de trás do painel pra segurar suas pernas sem enxergar bosta nem uma do que ele tava fazendo.

- E ai véio tá pronto?

- Relaxa tá quase.

- Apura sua bixa! Cê pensa que é leve?

- Agüentem aí suas putinhas, tá ficando massa.

- Anda logo com isso se não eu solto!

- Solta nada, você me ama.

Tenho certeza que ele demorou de sacanagem. Jean nunca desperdiça uma chance de sacanear alguém. Deve ter demorado uns quinze minutos.

Mas tenho que admitir que ele tinha razão: Ficou massa. Jesus se passou nessa.

- Você tem todos os motivos do mundo pra ficar sossegado, afinal sou Jesus e sua mulher me ama.

Sei que é meio óbvio e até chavão, mas colocamos uns chifrinhos no cara da foto da propaganda.

- E todos os hotéis aceitam Master Card! Veja só! Uma chance a mais de você ser sorteado.

E não foi só isso.

- E veja bem: Jesus saca das coisas e agora também saca que sua mulher é muito gostosa.

Exaustos que estávamos, sentamos na calçada no outro lado da rua, Ensopados & Imprudentes, pra dar risadas do corno sossegado sorteado pelos Delinqüentes.

Tínhamos material pra sacanear mais três anúncios e agora estávamos mais sossegados. Nos sentíamos OS Vândalos Palhaços. Nos sentimos os salvadores da espécie humana.

Só que a chuva aumentou pra caralho e o quarto alvo ficava numa encosta, uma filial do Rio Iguaçu se instalou na frente dele, mais ou menos onde jean botou a escada. E ele estava perigosamente Tranqüilo & Seguro.

Odeio estar certo, massabia que ia dar merda.

Quando Jean esticou o braço pra colar o balão com frase de Jesus o terreno onde a escada estava armada cedeu e Jean desabou desajeitadamente de uma altura de mais de quatro metros.

O cara caiu todo errado e tragédia das tragédias: Quebrou a clavícula. Ele que trabalha de moto fazendo entregas, quebrou a clavícula. Na hora não atinamos o que tinha acontecido com ele, que só gritava, e simplesmente abandonamos a escada ali mesmo e torramos nossos últimos dinheiros pra levarmos o sequelado no posto do SUS vinte e quatro horas do Boqueirão.

Foi um susto dos diabos, o maior que já levamos até agora. Mas como somos uns incuráveis, na madrugada, de volta ao porão, já estávamos rindo do ocorrido.

A TIM celulares safou-se dessa, deixamos sua sacanagem pela metade. No out-door premiado ficou apenas a imagem de nosso Jesus baixinho, barrigudinho & careca, com cara de safado.

- Nunca esqueça! Jesus voltou e Jesus saca as coisas!

Cachorrada Doentia Delinquente

(ataque trinta e um)
Além do clima, que se comporta como uma mulher de fases, o pobre curitibano ainda tem que conviver com cocôs de cãozinhos de dondocas nas solas de seus sapatos. Sei que isso é uma reclamação pequena, banal, estúpida. Seria, se em Curitiba não existissem mais hoteizinhos e creches para cachorros do que pra crianças.

Nessa semana fui dar uma banda na baia de um amigo meu e o pau no cú se atrasou umas duas horas. Tive que dar um tempo na frente do prédio dele sentado bem na frente da vitrine de um desses estabelecimentos para cães de madames. É incrível como a cachorrada se arrega em termos de Apetrechos, Enfeites & Acessórios. Os viadinhos passam bem. É caminha, é roupinha, é escovinha, é xampuzinho, é coisa que não acaba mais. Fora os Rangos, as Atenções & os Carinhos. Só que em termos de filhadaputiçe o inesperado sempre se supera.

Lá estava eu, fumando meu cigarro e pensando na moral daquela cachorrada quando passou uma catadora de papelão. Junto a ela, uma menina de uns quatro anos carregando um bebê no colo e correndo para acompanhar o passo rápido da mãe. Fiquei olhando aquelas três criaturas até ver mais. Por último, carregando um carrinho de bebê só com as duas rodas de trás, uma outra menina, menor que a que estava correndo.

Aquilo me deixou puto. Quando olhei de novo pra vitrine do pet shop a vontade que eu tinha era despedaçar aquele vidro com um chute e tacar fogo em tudo. Tive que sair dali e andar um pouco pela quadra e acender mais um cigarro. Aquilo me deixou muito puto mesmo.

Nessa época estávamos nos mudando da kit pro porão e quando cheguei lá na noite a piazada estava toda envolta as caixas de papelão e sacolas de supermercado.

- Galera, temos que fazer alguma coisa com essas veterinárias de burguês.

- Qualé Ari? Levou um fora de uma cadela?

- A cachorrinha não tinha telefone?

No meio da mudança ninguém levou a coisa muito a sério, mas a parada ficou pendente, incubando em nossas mentes delinqüentes. Foi Fábio conversando depois com Milene sobre os poodles da madame do mal que o assunto voltou a tona.

- E não é que você tem razão Ari, quando critica os cachorros das madames.

- Num falei? Mas porque isso agora?

- A Milene falou que a patroa dela uma vez deixou aquela duplinha por duas noites num desses hotéis pra cachorros, pra poder viajar pro interior.

Começamos então a pensar em algo pra sacanear esses filhos de uma égua que lucram em cima dos burgueses esnobes. As idéias vieram facilmente. Foda foi convencer a galera a não fazer nem um mal com os pobres dos bichinhos que, no final das contas não tem culpa de nada.

Durante a semana Fàbio estava disposto a andar. Estava pensativo, apaixonado e queria andar. Estava vasculhando cursos de inglês e encaixou na agenda vasculhar pet shops. É fácil viajar, planejar e rir com as idéias, executar a invasão são outros quinhentos. E uma loja fresca de animais é mais complicado ainda. O principal item a se considerar é o alarme. E eu te digo: com toda essa onda de violência ainda tem otimista (ou pão duro, vai saber) que não instala alarme.

Fábio identificou os alvos. Depois foi só levantar a ficha da vitima. Milene, acostumada com as frescuras de sua patroa com seus poodles, foi a tarde com eles e Fábio conhecer as instalações. A exemplo da invasão da mansão da madame do mal, Fábio cuidou de todos os detalhes da invasão.

Como prova de sua generosidade deixou a nós a tarefa de decidirmos que diabos faríamos lá dentro quando conseguíssemos entrar. Foi divertido pra caralho imaginar as coisas que podíamos aprontar com aqueles coitadinhos daqueles cãezinhos. Um festival de Humor Negro & Sadismo Inconseqüente. Foi onda.

Acabou que fizemos um troço democrático. Isso pra ser bonzinho nas críticas ao nosso plano, porque na verdade o que fizemos foi um Frakeinstein, horroroso, com pedaços de idéias de todo mundo. O lachante pra eles cagarem adoidados é básico, mas os requintes de crueldade foram acrescentados pelo Velho & Bom Anarki3a das boas idéias. Saca só como o cara não pensa:

Mandar correspondências para os clientes com insinuações de zoofilia e informando que molestar os animais os deixa com diarréia. Vinícius sugeriu protestarmos contra a desigualdade social canina levando cães sem teto e deixando-os lá, passando a noite com seus semelhantes afortunados e Jean conseguiu tintas poderosíssimas pra misturarmos com os xampús e os “cremes pra pelos oleosos’’ dos au-aus mauricinhos.

Organizar tudo isso em termos de um plano concreto e realizável foi uma dura tarefa. Vinícius, responsável pela idéia de gerico dos cães, vasculhou meio Boqueirão atrás dos sem-teto e descolou dois exemplares. Jean conseguiu a tinta façinho enquanto eu e Sérgio nos encarregávamos das correspondências e informes de zoofilia.

Depois de muita insistência consegui convencer o Sérgio a fazer a coisa certa. Ficou de segunda até quarta, todas as tardes, de butuca seguindo os clientes pra ver onde moravam. Os nomes não deu pra descobrir, teria que ser uma correspondência impessoal.

Bolamos tipo que um jornal de bairro, uma associação nova formada por pessoas que apreciam ter animais de estimação. O tema da edição era maltrato aos animais. Milene cedeu gentilmente uma foto de sua mãe para escanearmos e ilustrarmos uma entrevista contendo uma denúncia. Seu cachorro havia sido estuprado na pet shop que atacaríamos. Depoimentos de cientistas explicavam que os cães costumavam ser atacados por diarréias agudas após serem violentados sexualmente.

Sérgio seguiu e a notou o endereço de cinco clientes. Louco de bom, cinco clientes indignados ou no mínimo sem entender o que está acontecendo já tá mais do que suficiente. Agora Vinicius levar os cãezinhos sem teto na noite da ação é que foi elas. Fabio dava pulos de dois metros de altura de tão indignado.

- Porque é que vocês não me avisaram dessa cagalhoniçe antes?

- Pensei que o Vini tivesse avisado. Você não falou nada seu animal?

- Pensei que ele soubesse...

Tentamos de tudo quanto é jeito levá-los no ônibus, por baixo de nossas jaquetas, mas não rolou. Ou eles latia ou eles se mexiam e o cobrador acabou mandando nós descermos. Tivemos que ligar a cobrar pro nosso amigo Társis que foi nos buscar e nos deixar nas proximidades do local da ação.

O plano do Fábio não era nada fácil. O cara estava coberto de razão em reclamar dos cachorrinhos. Era semelhante à vez em que fomos enfeitiçar a imobiliária, teríamos que pular muros e andar em terrenos inexplorados. Como fazer isso carregando dois cães que podem se desatar a latir a qualquer momento?

Dessa vez não houve coleguismo, Fábio deu um esporro e Vinicius teve que carregar sozinho os dois pestinhas. Fabio tinha sido perfeito em sua rota de invasão, tinha vários muros emendados uns nos outros e só teríamos que descer deles uma única vez, perfeito.

Perfeito não fossem os cães sem teto.

Equilibrar os bichinhos em cima do muro e mantê-los quietos era uma missão quase impossível. Pelo menos teve a manha de levar uns pedaços de salsicha pra eles ficarem lambendo. A merda é que a parada só funcionou com o menor, o maior começou a latir quando sentiu cheiro de comida. Tive que voltar com ele e deixá-lo de fora da missão. Ficou com Jean que estava de sentinela na frente da loja por causa de sua clavícula quebrada no último ataque. Fabio queria surrar o Vini.

- Vini, você fica aqui esperando com o cachorro e quando tivermos com tudo pronto aí a gente te chama e tu solta ele lá dentro.

Nos equilibramos por sobre o muro e andamos uns vinte metros até pularmos no quintal do que parecia ser um cartório ou alguma secretaria da prefeitura. O cagaço foi grande, pois Fabio não tinha checado esse detalhe e era bem provável que aquela porra tivesse vigia noturno. Quando caímos no chão ficamos uns cinco minutos com o coração disparado, suando frio e esperando o pior a qualquer momento. Como temos mais sorte que juízo não apareceu ninguém.

Todas as portas e janelas da loja tinham grades que impossibilitavam a invasão por ali, mas facilitava a escalada do telhado. Eram telhas de barro, fáceis de desencaixar. Tiramos oito telhas e Fabio pulou sobre o sótão. Péssima idéia, o animal não tinha se ligado que o forro era de madeira podre, rachou e ele quase despencou lá de cima. A cachorrada que tava hospedada se desatou a latir. Um barulho infernal. Por Éris! Teríamos que ser rápidos e rasteiros. Uma prova de fogo do nosso profissionalismo vandalístico.

- Caralho! Vamos rápido!!

Fábio bum bum bum, correu em direção ao tampão, abriu e pulou pra baixo.

- Rápido Ari! Joga a mochila com as tralhas!

O nervosismo se abateu sobre todos. Sergio se cagou todo nas calças. Isso não é uma metáfora, o cara se cagou mesmo, tava com umas broncas digestivas e a merda escorreu por baixo de suas calças jeans desbotadas. Eu pessoalmente não sabia se ria da situação ou chorava por causa do fedor. Dadas as circunstâncias deixamos Fabio fazer todo o trabalho, ficamos só iluminando com a lanterna e dando palpites.

Abriu uma porrada de frascos de xampu, jogou um pouco do conteúdo no vaso do banheiro e completou com tinta. Encontrou um grampeador e o fichário com o cadastro dos clientes em em todas as fichas grampeou um papel com o seguinte texto:

“Quem batalha pelos direitos dos animais deveria incluir em suas reivindicações o direito dos pobres coitados dos bichinhos de se verem livres de serem tratados como bebezinhos mimados por burgueses esnobes.”

Dentro do aparelho de som colocamos um CDR com uma única música, aquela do Eduardo Duzek cujo refrão é: “Troque seu cachorro! Troque seu cachorro por uma criança pobre”. O clima de tensão estava chegando a níveis insuportáveis devido a barulheira do latido dos chorros que estavam lá. Não demorou muito pra Jean se indignar e começar a bater na porta da frente.

- Seus viados! Que porra de merda de puta de bosta do caralho vocês estão fazendo aí dentro? Apurem suas bixas!

Fabio bateu o martelo.

- Tá beleza! Ari, traz o cachorro do Vini.

Saltei apressadamente no telhado e berrei pro Vinicius trazer o cachorro logo. Nessa correria o bichinho se assustou e começou a latir e tentar me morder. Ainda bem que era um filhote, mas mesmo assim me arranhou todo. Alcancei o Totó, e junto com Sérgio Cagado puxamos Fabio de volta pro sótão. As possibilidades de alguém ter ouvido a barulheira e acionado a polícia eram grandes e por isso nem tapamos as telhas. Que se fodam, eles notariam o forro quebrado mesmo.

Nos encontramos do lado de fora e fomos entregar as “correspondências” no estilo daquele carteiro do comercial do Sedex que alcança um maratonista em plena corrida. Corríamos feito uns doidos ensandecidos. Só não estávamos sendo mais rápidos por causa do Jean e do Vini, que se mijavam de rir do Sergio Cagado e do próprio, que nos deu o prazer de descobrir como é engraçado o jeito de uma pessoa cagada correr, de pernas abertas e todo duro. Fora o cachorrinho que tinha ficado de fora da operação e que latia no colo do Vinicius, acho que latia pra rir com a gente.

A descarga de adrenalina foi tão grande que ao acharmos um posto de gasolina com loja de conveniência compramos dois litros daquela pinga 44 de um real, sentamos na sarjeta e bebemos até o sol raiar. No outro dia (na verdade no mesmo, mas pra mim só troca de dia quando durmo) não consegui acordar pra ir trabalhar.

Mas não dá nada. O importante é que as dondocas e seus cachorros cagadores de calçada tiveram uma lição merecida. Vingamos todos os Tênis, Sandálias & Sapatos cagados de Curitiba. Au-au-au nós somos do mal!!!!

Pare, Olhe, Pense: O Inesperado Acontece



(ataque trinta e dois)
Todo ser humano tem garantido o seu direito de ir e vir. Circular livremente pela face do planeta onde vive. Nada mais básico e justo. Será que ainda existe alguém que ainda acredita que esse direito é minimamente respeitado? Nem nas cidades (Não é qualquer um que entra num shopping). E nem no campo (experimente pular a cerca da fazenda errada) e agora, com as privatizações e os pedágios, nem nos caminhos que ligam um lugar ao outro.

A alguns fins de semana atrás descemos até Matinhos pra curtir uma praia de carona com o Társis e acabamos prometendo a nós mesmos que faríamos alguma coisa por nossas estradas. O Delinqüente Pós-Romântico Sérgio Augusto, que odeia automóveis e tudo o que se relaciona a eles, era o mais exaltado.

- Reparem que não existe nenhuma poesia nas auto-estradas.

- Tem a paisagem maravilhosa. – defendeu Fábio.

- Mas a paisagem já estava aqui. Essa paisagem maravilhosa que você fala foi ferida de morte por esse asfalto obsceno.

- É, mas as auto-estradas tem seu charme.

- Charme falso, o charme reside no fato de reside no viajar. Elas são apenas um meio pra se chegar em algum lugar. As pessoas não querem nada além de chegar ao fim delas, aos seus destinos.

- Tá, mas o que você quer afinal de contas.

- Sei lá, que as pessoas curtissem mais a viagem. Cara, só tem out -door e placas de sinalização! Cadê a arte? Cadê a poesia? Cadê o prazer de viver?

- Não viaja, seu monstro?

- É, esse teu papo aí não tá com nada, só reclamações e ladainhas e nenhuma solução.

Acabou que a galera acalmou os ânimos de nosso amigo artista plástico e mudou de assunto. Só que como sempre, a idéia ficou apenas adormecida, esperando o momento certo pra ressurgir das trevas de nossas mentes delinqüentes.

E renasceu através do Jean, que chegou animado depois de um dia de trabalho com sua moto.

- Tigrada! Lembram que o Sérgio queria aprontar alguma coisa nas be érres? Pois então! Meu chefe pediu pra mim fazer um orçamento pra ele colocar umas placas de indicação no sitiozinho que ele tem acho que é em Cerro Azul.

- Tá mas e daí?

- Daí que existe à venda, em forma de adesivos, aquela material que os caras fazem as placas de trânsito. Saca? Aquela parada que brilha quando as luzes dos faróis dos carros iluminam?

Não posso mentir: Todos Os Nossos Olhos Brilharam.

- E é caro?

- É! Setenta paus o metro quadrado.

- Caralho!

Porcos capitalistas, sempre dificultando nossas ações. Seria perfeito! Sabotaríamos placas de sinalização com chamadas subversivas ou quem sabe até Mensagens Discordianas. Só que nossos métodos alternativos jamais seriam suficientes pra juntar grana pra comprar uma quantidade decente desse tal material, o vinil refletivo.

Só que quando somos tomados pelo Tesão do Vandalismo não conseguimos sossegar tão facilmente. Alguma coisa tinha que ser feita. Foi colocando nosso amigo Marmita a par do problema, que a solução acabou surgindo. O cara é mesmo um Monstro Sagrado.

- Vocês poderiam fazer um disco voador pousar na BR parando o trânsito.

A frase dele saiu assim mesmo, simples assim, como se fosse a coisa mais banal desse mundo. A cara de sério que ele faz quando fala merda sempre nos levou as gargalhadas. Todo mundo riu, mas ao mesmo tempo todo mundo se ligou que se tratava de uma excelente idéia.

- Eu tenho as moral de a gente conseguir todo o material pra fazermos o disco voador mais do outro mundo que já pousou nesse mundo.

- Não tenho dúvidas a isso.

- Então? Vamos mexer nossas bundas magras!

Foi unânime a decisão de concretizarmos essa idéia. Cada um tratou de dar os seus pitacos. Vinícius, que no fundo sempre foi o mais misericordioso e preocupado com o efeito a terceiros dentre nós, propôs que colocássemos alguma sinalização na pista pra evitar que algum descuidado se acidentasse num choque com o estranho OVNI. Sérgio fez questão de fazer umas colagens loucas nas placas próximas ao local do “pouso”. Descolou uns trocos vendendo cartões e comprou vinil adesivo normal pra fazer suas artes.

- Confiem em mim, vai ficar massa.

- Não tenho dúvidas quanto a isso, só espero que não se amarre muito e ferre com tudo.

- E nem se cague nas calças.

Eu, Jean, & Fábio nos ocupamos em ajudar o Marmita a montar a aeronave. Jean nos convenceu de cara a descartar a idéia de disco, de coisa redonda.

- Vamos inovar. Vamos fazer algo realmente estranho.

- Fora dos padrões?

- Claro! Algo verdadeiramente de outro mundo.

Bom, tendo em vista a catapulta que o Marmita construiu pra jogarmos bosta nos carros novinhos da Renault, eu pessoalmente já sabia que o resultado seria uma geringonça absurdamente anormal. Montamos a “coisa” no Porão do Boqueirão mesmo. A cada dia Marmita descia do biarticulado, aquela estranha serpente vermelha, carregando toneladas de tralhas esquisitas. Apenas ajudávamos alcançando as coisas ou dando palpites, ele mesmo se encarregou de enroscar os parafusos e ligar os fios que iluminariam o Carango Intergaláctico.

O cara trabalhou obstinadamente durante exatas oito noites. Quando falo obstinadamente, falo sério. Teve noites que bodiamos todos e ele seguiu na labuta, mergulhado de corpo e alma em sua obra. Nem Sérgio eu vi trabalhar desse jeito em seus quadros.

Quando o troço tava quase pronto começamos a ficar de cara.

- O que será que as pessoas vão fazer com isso?

- Chamarão a policia rodoviária? Chamarão a imprensa? O Padre Quevedo?

Então uma luz se acendeu em nossas cabeças de bagre e começam a bolar e montar objetos, esculturas e outras coisas que as pessoas pudessem levar pra suas casas quando parassem pra olhar o troço.

Saiu tudo quanto é tipo de bizarrice possível e imaginável. Estranhos bonecos.

Vinícius se alugou de montar réplicas de miniaturas de OVNI.

Jean deu uma fugida do trampo com sua moto e junto com Fábio saiu estrada a fora definir onde seria a aterrissagem. Quando Marmita concluiu sua obra máxima passamos a queimar nossos neurônios pra resolver o óbvio dos óbvios: Como carregar aquele baita trambolho até o local do crime?

Nem nós, nem Marmita tínhamos pensado nisso. Durante três noites ficamos para aquela coisa monstruosa que ocupava mais da metade do porão sem saber o que fazer. Foi no Sábado passado, na manhã do dia que seria feito o ataque, que Marmita apareceu pilotando o caminhãozinho de um conhecido.

- Galera! Pra todos os efeitos vocês estão de mudança.

Tivemos que dar quinhentas explicações aos sempre presentes curiosos na hora de carregar nosso amado artefato alienígena.

- É uma feira de ciências minha senhora, essa parada aqui é pra destilar água poluída.

Sábado de madrugada partimos em missão secreta. Andamos uma porrada de quilômetros até Marmita encostar e estacionar no ponto X. Estávamos cabreiros. Não sei se por causa do constante risco de sermos pegos ou de termos que fazer uma puta força pra descarregar aquela porra. E foi foda. Cada um reviu sua tarefa, acertamos os relógios e combinamos nos encontrar num ponto próximo ao caminhão.

Sérgio tratou logo de sumir pra fazer suas colagens nas placas. Eu dividiria com Vinicius a bronca de esticarmos as faixas. Cada um com a sua a um quilômetro do ponto X, teriam que estar as duas prontinhas para serem esticadas simultaneamente, na hora em que começássemos a aterrissagem.

Quando me separei dos piás o clima era de tensão, pelo menos eu estava tenso. Ficariam só os três: Marmita, Jean & Fabio pra em dois minutos montar tudo e “fazer o contato”, um pepino do cacete. Mas Marmita estava seguro de si.

- Relaxa Ari, é rapidinho de montar e não tem erro. Basta cada um fazer sua parte no tempo certo e na hora certa.

Saí andando no escuro da estrada assumidamente cagado de medo. Casa carro que passava eu imaginava que soubessem de nossos planos e tivessem armando uma cilada. Exatamente a uma e meia da manhã eu teria que esticar a faixa, em dois minutos. Primeiro amarrei a cordinha numa árvore do lado esquerdo da estrada. Então deixei a faixa esticada no chão fui soltando a corta até a árvore do outro lado. Daí seria só passar a corda por cima de outra árvore e esticar. Esse só esticar é que eu teria que fazer em 30 segundos.

Eu e Vinicius estávamos munidos de lanternas pra avisar em sinal de perigo, tipo algum carro se aproximando. Baseávamos no cálculo estatístico que tínhamos feito. Teríamos em média um minuto, um minut e meio pra fazer tudo. Mais que isso era contar demais com a sorte. Quando chegou a hora constatei que era bem pior do que imaginara. A corda pesou pra caraaaalho. Minhas mãos suavam. Meu coração disparava. E quando tava dando o último puxão pra dar o nó vi a lanterna do Vini piscando desesperadamente. A única coisa que consegui pensar na hora foi: putz, FODEO.

Dei o nó mais tosco e rápido da minha vida e voei de cima da árvore. Não tinha como, não dava tempo dos piás terem montado. Pelos meus cálculos não tinha dado nem um minuto. Corri de um jeito que eu acho que se gritasse o som ficaria pra trás. Era uma reta longa e logo vi que a luz no fim do túnel era uma jamanta no sentido contrário. Nada mais óbvio, como eu não previra antes? Corri demais, corri até topar com o inesperado. As luzes vermelhas da nave piscando fortemente. Quando cheguei perto e saí da estrada pra correr no mato ainda pude ver “a coisa” com suas luzes absurdas numa gambiarra cósmica, existem Punks nas Plêiades.

Quando vi que a coisa tava encaminhada tratei de correr pro ponto de encontro. Acabou que acabei dando uma de manézão apavorado. A piazada tava lá, dando risada porque já tinham parado dois carros. Os caras desciam do carro meio cabreiros pra olhar. Então viam o cartaz grande colado no “troço”:

“Putz! Não sakamuz o ky sygnyfyka pedágyus y não temuz eçys taiz dynheyrus, deyxamuz então nossu kavalu aquy y seguymus a pé”

No chão um monte de papéizinhos com essa frases e tentativas de réplicas da nave em miniatura. Entramos no caminhão e fomos pra fila do engarrafamento. Fiquei com Marmita, estava acabado pela adrenalina, enquanto os piás correram pra tentar ver o fenômeno. O caminhoneiro jogou tudo, com ajuda de mais cinco cidadãos, pra cima da carroceria. Depois o resto das pessoas pegou as coisas pequenas. Não eram muitas, mas suficientes. Foi massa, quando os piás chegaram lá não tinha mais nada e o trânsito já estava pacificamente voltando ao normal. Nada como o prazer das coisas suficientes.

Massa mesmo, quando eles chegaram com as notícias sorri feliz. Foi um ataque estranho. Desta vez não gargalhamos, apenas sorrimos. Felizes e satisfeitos.

Os Pastéis Subversivos, As Coxinhas Revolucionárias & As Empadas Libertárias

(ataque trinta e três)
Nossas ações não são boladas em termos de uma estratégia definida. Somos uns contingentes mesmo. Volta e meia acontece alguma coisa com algum de nós, nos emputecemos e fizemos algo. Dessa vez com foi com Jean que aconteceu a cagada. Como ele gosta muito de criança, foi buscar o piá mais velho da Denise, aquela catadora de papelão que levamos pra fazer escova no cabelo num salão de beleza fresco de um shopping, a algum tempo atrás, pra ele conhecer nosso porão.

Quando embarcaram no ônibus o piazinho sentou ao lado de uma menina mais ou menos da sua idade. Foi um troço por acaso, ele não tinha intenção de nada, a poltrona tava vazia. Aconteceu que a mãe da menina, que tava sentada no outro lado do corredor, tirou ela de lá indignada, com uns papos de que os marginaizinhos estão por todos os lugares e que não se pode mais nem andar de ônibus sossegado.

Desceram uns dois ou três pontos depois e entraram num curso de inglês. O guri perguntou pra que servia um colégio de inglês. Ele não sabia nem do que se tratava. Jean chegou no porão completamente revoltado contando essa história.

- Porra cara! Enquanto tem criança que não aprende nem português direito, tem outras que além de Ter tudo, ainda tem seus olhos tapados pra que não enxerguem a realidade, pra que não convivam com seus semelhantes que estão de fora.

Jean estava surtando. Ficou muito Puto, com “P” maiúsculo mesmo. Assim que chegou a Segunda feira ele levou Fábio junto pra analisarem as possibilidade de invadirem aquele cursinho de inglês pra aprontarem alguma coisa. Sem chance, segurança reforçada, alarmes por todos os lados e filmadoras. Fábio teve que se comprometer a escolher pacientemente um outro alvo.

Enquanto isso discutimos muito o que faríamos lá dentro se conseguíssemos invadir. Duas coincidências cósmica vieram em nosso socorro. A primeira foi um e-mail que recebi do Duque Das Mil Faces, dando todas as dicas pra invadirmos sabe o que? Um cursinho de inglês! E a outra foi o relato daquele Vândalo Louco chamado Jubyleu contando da sacanagem que aprontou com uma velhinha numa lanchonete do centro. Vou resumir, a senhora foi ao banheiro, pediu pra ele ficar cuidando de seu lanche e o maluco colocou um poema dentro do pastel da pobre coitada

A piazada foi ao delírio quando ouviu a história.

- É isso cara! A gente sabota a cantina do cursinho! – Vinicius pirou.

- Genial! Colocamos diversas mensagens indignadas dentro dos salgadinhos.

O problema foi o alvo, os cursinhos de inglês, como cobram caro pelos seus serviços, não vacilam no quesito segurança. Fábio ficou duas semanas checando um por um, conhecendo as instalações e tal. Praticamente todos tem um bom sistema de alarme ou então um vigia. Fábio apareceu com várias propostas, todas arriscadas demais. Inclusive o próprio duque, em seu e-mail, dava dicas de como invadir e como fugir, mas depois de uma análise realista, chegamos à conclusão de que seria arriscado demais.

Foi o próprio Fábio que chegou com uma solução altamente escrota.

- Galera, que tal se escroteássemos os nossos métodos?

- Escrotearmos os métodos? Como assim?

- Hehe, pensei em terceirizarmos o trabalho de facilitar nossa invasão.

- Fala logo seu puto, sem essa de mistério.

- É simples e de repente pode não sair tão caro, tenho uns contatos lá em Colombo.

- Fala logo seu porra!

- Contratamos uma puta pra seduzir o vigia

- Que merda você quer dizer com isso?

A princípio a galera ficou meio assim, mas depois começamos a analisar a proposta mais seriamente e chegamos à conclusão de que não era uma má idéia, só precisava ser bem pensada.

- Ele pode ser casado e ser meio camisolão do tipo: não vou trair minha mulher com qualquer vagabunda, sabe como é, não é mesmo?

- ele não precisa, ele não pode saber que se trata de uma puta

- Não entendi...

- Ela faz um trabalho metódico, a gente descobre que hora ele sai do trabalho ou então se freqüenta algum boteco antes e coisas do tipo e ela chega devagarinho, dá em cima, seduz e pimba.

- Ih, cara. Assim ela vai cobrar muito caro pelo “serviço”

- Já falei que tenho contatos quentes em Colombo, meu irmão tem várias amigas desta área.

- tá, vamos considerar que a coisa role, ela seduza o cara e tudo mais, mas e aí, onde isso vai facilitar nossa invasão?

- Ela faz a cabeça dele pra se encontrarem onde ele trabalha e aí nós...

Perfeito. Uma boa idéia no final das contas. Jean fez questão de que já que o plano tava redondinho o alvo fosse o curso de inglês que ele tinha visto a mulher entrar com a filha. Fábio foi antes checar o local e a cantina e ficou três noites de butuca checando o vigia, seus hábitos, horários de entrada e saída e o boteco que ele tomava uma pinguinha antes do trampo. Sim, o cara carburava uma antes de trabalhar, sinal de safadeza e terreno fértil pros nossos intentos.

A puta se chamava Fulana de Tal e segundo Fábio achou o vigia bonitinho e topou a missão. Não chegamos a conhecê-la, essa era uma de suas condições pra topar a tarefa, ficávamos sabendo da evolução dos fatos através do Fábio. Enquanto isso bolávamos as frases pacientemente, dividimos os temas entre chamadas claras contra a desigualdade social e algumas Mensagens Discordianas pra deixar a coisa mais confusa e inusitada. Por mais o mundo esteja uma merda o Maravilhoso TEM que estar presente.

Ficamos então na dependência da eficiência da fulana, porque a idéia era que ela convencesse o cidadão e se encontrar com o cidadão dentro do cursinho enquanto atacássemos a cantina e só a cantina. Não queríamos de modo algum que o coitado perdesse seu emprego. Foi Sexta-feira À tarde que o Fábio ligou animado.

- é hoje Ari! É hoje rapaz!

- Sério? Ela conseguiu?

- Arizito, chega a dar pena rapá, o cara tá apaixonado

À noite o clima era de festa. Fulana de Tal estava ligada de tudo. Fizemos praticamente uma planta do cursinho pra ela. Infelizmente nosso sonho de que tivesse uma porta ou uma janela que ela pudesse destravar não se realizou. Na adrenalina de um encontro proibido, de um amor ilegal, o vigia trancou tudo e checou tudo. Invadir pelo telhado como das outras vezes era inviável, o famoso tampão do sótão estava chaveado. O único jeito era pelo estacionamento.

Eles teriam que transar no estacionamento. Essa era a verdadeira Missão Impossível de Fulana de Tal, transar no estacionamento. O encontro era meia-noite, “depois que ela saísse do colégio”. Nós teríamos que pular um muro no outro lado do quarteirão, passarmos por dois telhados, uma chaminé de churrasqueira, mais um telhado e então aguardarmos o momento certo, no muro do estacionamento.

Não tinha como saber que hora que ela conseguiria deixar a ponto de bala, louco, tarado, disposto a realizar a Fantasia Sexual de Fulana de Tal de transar num estacionamento escuro e vazio. Tínhamos que ficar de plantão, pacientemente. E o troço demorou pra caralho. Paciência é um negócio que não tenho e quando o espectro do tédio começou a se aproximar acabei sugerindo um joguinho. Ir, de telhado em telhado, de muro em muro, o mais longe que pudesse. Primeiro foi Vini, depois, Sérgio, Fábio, Jean e eu. O vencedor foi Jean, que percorreu o mais longo e difícil caminho.

Gastamos quase uma hora e meia nessa palhaçada e nada da Fulana e seu love aparecerem. Fizemos então outro joguinho. Percorrer o Caminho de São Jean no menos tempo possível. Esse foi divertido, foi muuuito divertido. Além de fazer o trajeto o mais rápido possível, o cara ainda tem que se ligar em não cair nem despertar a atenção de ninguém. Combinamos de um dia fazer um campeonato organizado.

Já era mais de três da manhã quando Sérgio e vini que estavam de butuca no muro ouviram um barulho de chaves abrindo uma porta pesada. Jean ainda tava “correndo” em nosso jogo.

- Volta cara! Volta logo que tá na hora

A cena era engraçada. Nunca vi alguém agarrar alguém tão desajeitadamente. O cara tava todo errado, descabelado, a farda toda aberta, as calças semiarriadas e agarrava ela de um jeito que parecia um gorila querendo perder a virgindade.

- Será que ela ainda acha ele bonitinho?

Não teve como segurar as gargalhadas. Tivemos que respirar fundo e parar de rir pra nos mexermos. O casal se escorou na parede, ela tirou as roupas dele da cintura pra cima e jogou-se no chão. Era a hora. Saltamos todos e corremos pisando macio no chão. Tínhamos deixado nossos calçados no muro pra corrermos silenciosamente.

Estávamos relaxados por causa do jogo, mas foi só entrar dentro do recinto que bateu a real dos riscos que estávamos correndo. O meu coração disparou, quase que tive que sair correndo atrás dele. Fábio era o que mais conhecia o terreno e foi na frente em direção à cantina. Mostrou a todos que os salgadinhos e lanches ficavam em dois lugares, em cima do balcão, que seriam os primeiros a serem ingeridos no dia seguinte e no freezer, que eram os que seria aquecidos no microondas pra serem servidos mais tarde. Eu, Sérgio e Vini nos encarregamos do freezes enquanto Jean & Fábio barbarizavam os outros. Estávamos muito cabreiros, afinal só Fábio conhecia as manhas, em poucos instantes todos estavam nervosos. Eu olhava pros outros e notava que todos estavam com as mão tremendo. Sérgio nem conseguia pegar nos estiletes direito.

- Ô seu monstro, deixe quieto, fica ali no canto cuidando se tá tudo certo e deixa a gente fazer isso na boa.

Levamos quinze minutos pra terminar tudo. Os bilhetes com as frases foram todos colocados. E nã eram só frases, tinham uns desenhos do Sérgio e umas figuras de umas galinhas cagando.

Você faz um cursinho bom, mas existem outras pessoas lá fora. Você quer se preparar pra competir com quem? Você não está entendendo nada. Voce sabe que a grana pra uma pessoa aprender inglês paga a alfabetização de dez? Você está bem instalado, mas pessoas moram nas ruas. Você não entendeu nada, isso deve ser maravilhoso.

Na hora que nos reunimos pra sair o inusitado fez um gol contra. O vigia entrou fechando a braguilha com fulana pendurada no pescoço tentando convencê-lo a ficarem um pouco mais lá fora.

- Puta que o pariu! O cara fechou a porta. – sentenciou Fábio, que estava agachado espiando na frente. Parece que o chão sumiu de nossos pés. Esperamos ansiosos um tempão. Totalmente cagados, nos considerávamos presos, expostos e ridicularizados publicamente.

Jean, que estava ao lado do Sérgio, ainda conseguiu tirar onda da situação sussurrando.

- Pessoal, que ninguém se cague por aqui, senão o cara nos acha pelo cheiro.

O Vini teve que apertar o nariz pra não rir e ferrar com tudo. Então recebemos o sinal definitivo da Deusa de que o humor salvará o mundo. Fulana de tal foi carregada pelo vigia até o banheiro. Passou bem pertinho de nós e não nos viu. Entraram no banheiro e em cinco minutos ela saiu rindo e trancando ele lá dentro e com o molho de chaves na mão. Correu e abriu a porta que dava para o estacionamento.

- Corram seus moleques!

Saímos todos rindo. Ela fechou a porta e eu comentei com Jean.

- Essa é das nossas.

Saímos tão felizes que nem cabíamos em nós. Ainda jogamos um pouco mais nosso esporte noturno e proibido. Retalharam o espaço? Pra nós é tudo liso, plano e infinito. Não reconhecemos as cercas embandeiradas que separam quintais.


Agora é Proibido Pensar em Estéreo?

(ataque trinta e quatro)
A dança do acaso é uma dança muito massa. Andar por aí à deriva, com o pensamento à deriva, totalmente à mercê do ócio é o céu. Sempre acabam pintando situações ou projetos de situações. Estamos vivendo nuns dias onde se vangloria demais a produtividade e a eficiência. A Batalha Cega pra fazer Mais & Melhor em menos tempo. Um cotidiano em que se vive em concorrência contra tudo e contra todos e que cada migalha conquistada carrega o peso de ter sido conquistada às custas de derrotados que ficaram sem pães inteiros. Em resumo: uma Loucura Planetária, precisamos recuperar a Cultura do Ócio.

Numa dessas minhas tentativas de Religamento com o Ócio me deparei com o inesperado. Estava este delinqüente que vos escreve voltando dos trabalhos forçados em pleno domingo quando chegando perto do terminal tubo me deparei com a polícia dando geral numa gurizada. Entrei no terminal e eles entraram logo depois. Pensei: se safaram. O ônibus ainda demorou pra caralho e deu pra ouvir a conversa deles.

Os caras eram crentes e só aí que me liguei que as camisetas que eles usavam eram de cantores e bandas de rap estilo gospel. Os caras não tinham nada a ver, tomaram na tarraqueta só por causa do visual, das aparências que sempre enganam. E os Garotos Fardados tinham sido ignorantes, eu vi, já chegaram empurrando contra a parede.

Quando cheguei no PorãodoBoqueirão e deixei os piás a par do que tinha acontecido tive mais uma surpresa, mais um encontro com o inesperado. Jean abriu uns olhão desse tamanho quando ouviu o relato.

- Cara, é isso!

- Isso o quê, seu porra?

- Esse é o Jogo Proibido que eu tava querendo bolar.

- O quê que você tá viajando, cara?

O paunocú tá lendo o livro Provos, da Coleção Baderna, na nóia de nosso famigerado Natal Delinquente e estava numas de ressucitar o Projeto Marihu.

- Queria fazer alguma coisa desse naipe, tá ligado?

- Projeto Marihu?? – Fabio tava de cara, nunca tinha ouvido falar.

- Que porra é isso? – Vini tava indiferente

- Acordem, quando é que vocês vão acordar? – Sergio sem comentários.

- Putz, fodeo! – Eu, jubileando e já sabendo que lá vinha mais uma idéia/cagada.

Jean estava propondo investirmos nessa parada de provocar as autoridades. Tipo cama elástica, fazer o coice delas voltar em dobro. Vamos cuspir de volta o lixo em cima de vocês.

- Mas munidos de humor. Vamos tirar sarro da cara desses filhos de uma puta.

- Tá Jean, a intenção é boa, mas fala de uma vez qual é o plano.

- Seremos os Levadores de Atraque Compulsivos.

- Que caralho você quer dizer com isso?

- Saca só: compramos fumo de enrolar, tipo Trevo ou um outro qualquer e enrolamos com Colomy que nem baseado. Então nos vestimos de uma maneira descaradamente bandeirosa. Vamos para um lugar bem sujeira e Fumamos & Gesticulamos & Prensamos que nem fumando bégui. É só não estar premiado e ter todos os documentos em cima que saímos numa boa.

- É perigoso, mas de repente pode até dar certo.

O plano do Jean era ambicioso. O plano do Jean era chutar o pau do barraco e passar a noite levando atraques e decretar aquele dia como o Dia Sagrado de Levar Atraques.

- Tipo assim, toda a madrugada do dia oito é Madrugada de atraque.

Acabamos topando a parada mesmo sabendo dos riscos de os caras se indignarem e plantarem provas em nós. Se fôssemos revistados pelos mesmos cidadãos com certeza nos foderíamos. Jean estava obcecado, enquanto botava pilha pra que preparássemos uns papéis com frases pra guardarmos o fumo, ia de tempo em tempos ao orelhão do outro lado da avenida pra tentar convencer algum amigo de carro a fazer o carreto dos Delinqüentes. Foi que acabou convencendo o velho Társis de sempre, quase um Delinqüente.

Nos papéis que serviriam pra guardar o tabaco que Ozômi encontrariam na geral escrevemos a seguinte frase: “Na natureza não existem leis, apenas hábitos.” Foi uma ação bolada às pressas, sem grandes planejamentos, Combustão Espontânea. Onze e meia Társis buzinou na frente do porão e saímos todos Ansiosos & Nervosos. Sérgio ligou o “Tô Fora!”

- Fico esperando vocês no carro com o Társis.

O primeiro ponto quente escolhido foi na frente de uma igreja. Tinha uma viatura não muito longe dali. Só que quebramos a cara, ficamos ali fumando por mais de uma hora e ninguém nos denunciou. Onde estão os cagüetas dessa cidade? Se fosse maconha mesmo, garanto que não daria pra fumar meio baseado e os Porcos já apareceriam. Fábio ficou tão indignado que pegou seu pincel atômico e a rabiscou a frente da igreja todinha com frases esculhambando o cristianismo.

- Não tem jeito, tem que ser no centro ou então num lugar mais movimentado.

Topamos todos, mas no fundo eu me sentia como se estivesse indo pra uma missão suicida. Mas tava tão revoltado por ter passado o fim de semana trabalhando que mandei tudo se foder. Escolhemos o segundo ponto quente ao acaso. Olha o acaso aí de novo geeente! Dessa vez a chapa foi mais quente.

Jean escroteou e começou a enrolar um descaradamente. Tinha um Porco na esquina, a uns cinqüenta metros. Foi Jean acender, dar dois pegas e passar pra mim que o sujeito veio correndinho. Já chegou falando no rádio e chamando duas viaturas. Aí eu pensei: o cara tá chamando reforços, estamos podendo. O cagão ainda esperou os outros chegarem pra dar o atraque propriamente dito.

Vinícius tratou logo de disparar sua metralhadora persuasiva, quando as patrulhas chegaram o policial já tava ligado de que se tratava apenas de tabaco. Tínhamos entregado todos os “baseados” a ele. O cara ficou pateticamente constrangido ao ponto do Vinícius chegar ao cúmulo de sentir pena. Acabou que levamos um puta sermão do sujeito que se dizia Sargento da Polícia Militar.

- Vocês estão de brincadeirinha e saibam que estamos aqui num trabalho sério, não vamos tolerar piás pançudos prejudicando nossas operações, estamos combinados?

Quando saímos fora seguramos nossas risadas por um quarteirão e meio e depois explodimos. Droga nenhuma teria surtido um efeito tão hilariante. Quando chegamos no carro tiramos altas ondas do Sérgio.

- Seu boiolão, perdeu altas performances.

O terceiro ponto foi numa região onde tinham diversas festas e tal, altamente movimentado. Muito movimento, muita negadinha bêbada na saída da balada e uma presença policial quase ostensiva. Confiantes que estávamos depois do sucesso inicial, ninguém se preocupou com os riscos, exceto Vini.

- Galera, eu acho que tá sujo, é melhor deixarmos quieto.

- Vai amarelar agora, Ronaldinho?

- É tua primeira vez queridinha?

Era na frente de uma farmácia. Tinha gente passando toda hora. Sérgio dessa vez ficou fingindo que conversava com alguém num orelhão pra poder assistir. Jean naquela noite parecia possuído por Robert Jasper Grootveld, começou a enrolar um desavergonhadamente. Quando começamos a fumar não demorou a aparecerem uns malucos querendo dar uns peguinhas.

Foi engraçado, os caras tragavam e faziam altas caretas.

- Essa porra é fumo normal!

Então o Profeta do Caos Jeanzinho Pierrinho soltou um discurso inflamado a favor dos Distúrbios Cotidianos e da necessidade de quebrar a rotina, romper com as correntes da aparência, fazer coisas que fujam da normalidade da vida numa metrópole. O viadinho nem tocou no assunto de provocarmos as autoridades. E não é que começou a se formar uma pequena multidão de fumantes de falsos baseados. Fazia uma cara que u não me divertia tanto, foi muito engraçado, devido ao discurso do Jean a galera aderiu à causa sem nem ao menos compreender do que se tratava.

Jean parecia chapado de tabaco ou possuído por alguma entidade cósmica.

- Vamos jogar! Tó uma seda pra você, pra você e pra você. Peguem aqui o fumo. Vini, passa o fumo pra eles. A meta é ver quem consegue enrolar o baseado primeiro, isso é a primeira etapa. Depois é quem fuma primeiro. Se restarem dois... fazem um duelo.

Claro que quase ninguém topou, só quatro malucos. Só que Jean insistiu que os outros fizessem uma roda ao redor. Um troço chamativo pra caralho. Nós continuamos fumando nossos falsos baseados sossegadamente.

Foi muito louco. Nessa hora nem queríamos mais levar atraque, foda-se o atraque, estava massa. Mas os filhos da puta sabem ser inconvenientes, chegaram bem na hora do duelo entre os dois vencedores. Foi inevitável, chegaram junto, duros e diretos em cima de Jean. O Reverendo do Caos. Deram uma geral em todos e só acharam tabaco, mas encasquetaram com as frases. Começaram a falar grosso e baixar o nível da conversa dizendo que aquilo era um desacato à autoridade e apologia à contravenção.

Os manezões dos participantes do jogo sumiram e só ficou Jean nas mãos das Forças Imperiais. Nos sentimos na obrigação de dar uma força e deixamos apenas o Sergio de fora pro caso de precisarmos de algum contato externo. Jean está de rolo com uma mina que faz Direito na Federal e Sergio ligou pra ela. Nos encontrou uma hora depois na vigésima-não-sei-que-lá DP. A porra da DP tava lotada, o ambiente nervoso. O Delegado nos "atendeu" totalmente sem paciência e munido de toda a intolerância da face desse planeta que só é azul pra quem vê de fora.

Foi um bate boca do cacete e o lazarento insistia no lançe do desacato e da apologia. A mina do Jean ligou pro pai dela pra pegar umas dicas e por fim o Delegado decidiu nos liberar sem sermos fichados. Mas com uma condição, que ganhássemos um pequeno castigo. Humilhante castigo, diga-se de passagem. Aceitamos humildemente devido a nosso tradicional objetivo de nunca sermos pegos.

O castigo: fazer uma faxina completa no estabelecimento.

Jean e Vinicius tiveram que limpar o pátio, bituca por bituca de cigarro, todas as palhas e folhas secas visíveis a olho nú. Eu e Fabio fomos jogados no banheiros, cheios de vasos com barros de bosta nas beradas, munidos apenas de um pano, um balde e um sabão comum. Limpar tudo, deixar brilhando... e não reclamar.

Fizemos tudo em silêncio. Distantes, como se não tivéssemos em nossos corpos. Funcionou. Cinco da manhã estávamos nas ruas, com nosso ódio pelas Autoridades Instituídas absolutamente renovado. Eles podem até pensar que venceram uma batalha, mas a guerra ficará bem pior pro lado deles, podes crer que vai. Pois o castigo não funcionou, saímos de lá acreditando ainda mais no nosso mote:

Na natureza não existem leis, apenas hábitos.



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