Maquiavel, a Corte dos Antigos e (o diálogo com) Tucídides Francisco Murari Pires



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Maquiavel, a Corte dos Antigos e (o diálogo com) Tucídides

Francisco Murari Pires (DH/FFLCH/USP)

[Antigos e Modernos: diálogos sobre a (escrita da) História, São Paulo, Fapesp-Alameda-CNPq, 2009, p. 201-230)
Já por meados do século XVI contava-se uma história anedótica em que Maquiavel, pouco antes de sua morte a 21 de junho de 1527, tivera um sonho, então revelado aos restantes amigos da última hora. Primeiro passava por ele um amontoado de “marotos, maltrapilhos, famélicos, disformes”. Perguntou quem eram, ao que lhe foi dito: os abençoados do “Paraíso”, pois assim proclamavam as Escrituras: “Beati pauperes quoniam ipsorum est regnum caelorum”. Seguiu-se um cortejo de “nobres e majestosas” figuras, absortas a debaterem “gravemente relevantes questões políticas”. Dentre elas, podia discernir claramente os sábios antigos: “Platão, Sêneca, Plutarco, Tácito e outros congêneres”. Repetiu a pergunta, ao que então soube: eram “os condenados ao Inferno”, eles também cientes da face complementar daquele ensinamento dos Evangelhos: “Sapientia huius saeculi inimica est Dei”. Interpelado com qual dos grupos gostaria de ficar, Maquiavel não hesitou: fossem aquelas as companhias com que (con)viveria no outro mundo, preferia ir para o Inferno com que dialogasse com tais nobres espíritos as questões do Estado, a ganhar o Paraíso junto com aquela gente miserável.1

Pela imagem de “facticidade” assim projetada, a anedota condensava apropriados modos e atributos da figura histórica do célebre florentino. Nela se reproduziam, observa Maurizio Viroli, “todas as facetas de sua personalidade: travesso; irreverente; excepcionalmente dotado de sutil inteligência; desinteresse em relação à problemática da alma, da vida pós-morte, e do pecado; fascínio pelas questões práticas e pelos grandes homens”. Ilusão (ou realidade) mimética tão plausível em termos de sua facticidade que o próprio crítico moderno tanto é seduzido pelo primor de sua acuidade histórica, porque a anedota bem captara o sentido do “sorriso de Maquiavel”2, quanto tece reparos apontando alguma sua inverossimilhança, pois, pondera ainda Viroli, a anedota extrapolava um tanto abusivamente a persistência inalterada, constante, daquela figura pessoal, até mesmo para os momentos finais de sua vida, quando, pelo contrário, eram já bem outras as afecções que caracterizavam Maquiavel em sua velhice, agora não mais tão afeito a pilhérias espirituosas: “à época de sua morte, Niccolò se tornara um homem triste, desiludido, resignado. Tinha já quase sessenta anos. Seu rosto revelava cansaço; seus lábios retorcidos de amargura; seus olhos perderam a expressão inteligente, zombeteira, irônica que se mostram nos retratos subsistentes de seus anos mais vigorosos. Seu olhar perdido, seus pensamentos voltados para o passado. Sua postura não era mais aquela ereta e confiante de quando encontrava príncipes, papas, reis e imperadores; as fadigas o abateram – demasiadas viagens, a cavalgar noite e dia, demasiadas corridas incansáveis contra o tempo, esperanças em frangalhos, e sonhos frustrados. Sobretudo, demasiada estupidez, malignidade e crueldade da parte de seus inimigos”.3

Mas, a atenção maior porque a história do sonho articulava o sentido nuclear do espírito de Maquiavel dizia respeito à inversão da axiologia existencial preceituada pela piedade cristã, de que ela revertia a escala de valores ao resgatar a hierarquia ideológica da Antigüidade Clássica. Os destinos opostos que Paraíso e Inferno consignavam no sonho respondiam pela teleologia cristã inspirada pelas máximas evangélicas que reclamavam o desapego dos bens materiais e interesses mundanos. Os valores de Maquiavel não estavam assim persuadidos: contra a condenação ao oblívio de uma absorção, indistinta e indigna na massa anônima dos humildes, o florentino preferia o compartilhamento prestigioso da glória que aureolava individualmente os sábios antigos, todos de modelar consagração à ciência política, cujos nomes eram integrados na (i)mortalidade da memória histórica.

Pelo Sonho de Maquiavel tem-se memória anedótica alusiva à axiologia existencial maquiaveliana que, tão fictícia quanto verossímil, é bem consoante com os teores confessos por ele mesmo, em documento próprio, na célebre carta a Francesco Vettori, manifestados aos ensejos de seu exílio político em San Casciano4. Então Maquiavel frequentava a “corte dos Antigos” a conversar com os sábios do mundo clássico.


Por quatorze anos, de meados de 1498, logo após o suplício de Savonarola, até 1512, quando do exílio de Piero Soderini e o retorno dos Médici, Maquiavel serviu a administração da república florentina, então atuando como secretário da Segunda Chancelaria e do colegiado dos Dez da Liberdade e Paz.5 Homem de confiança de Soderini, gonfaloneiro desde 1502 e assim uma espécie de “presidente vitalício”6, Maquiavel foi destacado regularmente para encargos de missões diplomáticas, a freqüentar as cortes e palácios de vários potentados da época7. Desde 1506 acumulava também o cargo de secretário dos Nove da Milícia, a instituição militar de que ele fora o decisivo instigador, pelo que foi encarregado de sua arregimentação, preparação e comando, encontrando-se à frente das tropas florentinas quando do cerco vitorioso de Pisa (primeira metade de 1509), mas também conhecendo posteriormente, em 1512, a rendição do Prato.

Em fevereiro de 1513, aprofundou-se sua desgraça. Fora descoberta uma conspiração contra o domínio dos Médici, de que se suspeitava a participação de Maquiavel: dentre os papeís encontrados com os líderes da conjura - Pier Paolo Boscoli e Agostino Capponi - havia uma lista de nomes, dentre eles, o de Maquiavel. Preso e torturado, sua incriminação reduzia-se a apenas aquele infausto registro de uma estupidamente desastrada lista. O indulto do Médici então papa, Leão X, o livrou do cativeiro. Retirando-se da cidade, passou a viver confinado na “modesta” herdade paterna de Sant’Andrea de Percussina, proximidades da vila de San Casciano, não longe de Florença, cerca de 30 km.

No primeiro ano de seu retiro forçado em Sant’Andrea, Maquiavel manteve correspondência razoavelmente regular com Francesco Vettori, nessa época embaixador florentino junto ao papado em Roma. A amizade entre ambos vinha já de alguns anos8, desde 1507, quando da missão a que haviam sido destacados nessa data - Vettori, desde junho, por imposição dos ottimati florentinos, e Maquiavel, só a partir de dezembro, por insistência de Soderini – como observadores e informantes dos movimentos do imperador Habsburgo, Maximiliano, que então alimentava pretensões de avançar pelo norte da Itália a fim de expulsar os franceses da Lombardia e ganhar a coroa do Sacro Império Romano9.

Apesar da amargura de todo seu recente infortúnio, Maquiavel não afastava o vislumbre de vir a ganhar as boas graças dos novos senhores, aqueles mesmos Médici catalisadores de sua ruína política, que viessem agora a confiar em seus serviços. Imaginava que a amizade de Vettori pudesse viabilizar tal aproximação e intentos, intermediando a seu favor junto ao novo papa, Leão X (Giovanni de’ Medici)10.

Logo nos dois primeiros meses, março e abril de 1513, comunicou, por vários modos retóricos de expressões alusivas, as pretensões de seu desejo nas cartas endereçadas ao amigo. Já a 13 de março, assim o sugeria: “Mantei-me, se possível, presente na memória de Nossa Santidade, que se fosse possível começasse a empregar-me em algo, ele ou os seus, creio que seria honroso para vós e útil para mim”11; reiterou a solicitação cinco dias depois, na carta de 18 de março: “e se for do agrado destes nossos patrões não me deixar por terra, muito o apreciarei, e acredito conduzir-me de modo que também eles terão motivo por seu benefício”12. No mês seguinte, em carta de 9 de abril, inteirado de que fora frustrada a intercessão de Vettori junto ao Papa para que agraciasse o irmão mais novo de Maquiavel, Totto, com um posto no aparelho administrativo dos Estados pontifícios, Niccolò logo desobrigou o amigo dos incômodos daquele pedido13, não sem, entretanto, ainda persistir no seu caso pessoal, então o consultando em termos da conveniência de recorrer a uma via alternativa de apelo: “Ouvi que o cardeal Soderini anda muito com o pontífice. Gostaria que me aconselhásseis se vos pareceria adequado que eu lhe escrevesse uma carta para que me recomende a sua Santidade, ou se seria melhor que vós fizésseis de viva voz esse ofício de minha parte junto ao cardeal. Ou, então, se é o caso de não fazer nem uma coisa nem outra”14. Uma semana depois, 16 de abril, insistiu: “A magnificência de Giuliano estará aí, e a encontrareis naturalmente disposta a contentar-me, e ao cardeal de Volterra igualmente; de modo que não posso crer que, manejando-se meu caso com certa destreza, não consiga eu ser empregue em algo, se não por conta de Florença, pelo menos por conta de Roma e do papado, em cujo caso deveria eu ser menos suspeito ... e não posso crer, se a Santidade de Nosso Senhor começasse a me empregar, que não obrasse bem para mim mesmo, e utilidade e honra a todos os meus amigos”15.

Por quanto Maquiavel reiterou apelos, tanto protestou Vettori acusando a desvalia dos préstimos de sua figura política. Já não o pudera ajudar pouco antes, quando de sua prisão e tortura16, e tampouco se iludia que o pudesse agora (março de 1513)17, apesar de que fosse embaixador de Florença junto a um papa também florentino, pois se via carente de influência e prestígio no exercício de cargo esvaziado de poder. O fracasso em que redundara sua intercessão em benefício de Totto confirmava-lhe a fraqueza pessoal que prejudicava o cumprimento de tais encargos18, de que reconhecia justo a “falta” das “virtudes de caráter” precipuamente reclamadas: “o que confesso certamente é devido em grande parte a mim mesmo, que não sei ser bem descarado de modo a que fosse útil para mim e para os demais”19. Pelo contrário, os “vícios” de seus modos antes só o desfavoreciam: “sou daqueles que, ainda que vos exorte a virar o rosto à fortuna, sei melhor aconselhá-lo aos outros do que a mim mesmo, porque na fortuna próspera não me elevo, porém na adversa me acovardo e tudo temo”.20

Vettori, nas cartas seguintes (abril de 1513), fazia claramente alusão ao infortúnio de sua própria “sorte” política, de delicada precariedade desde que “salvara” Piero Soderini. Não tinha dúvidas quanto a isso: “o ter-se empenhado Paolo [Vettori] com êxito em retirar o gonfaloniere do palácio, e eu por salvá-lo o quanto pude, nos prejudica enormemente porque todos os que eram amigos daquele regime malquistaram-se com Paolo, no que, bem entendida a verdade, se equivocam; já todos os que são amigos deste malquistaram-se comigo, parecendo-lhes que se Piero Soderini tivesse morrido não lhes poderia causar dano algum”21. Essa era a razão, dizia ele, porque se recusava em enredar os préstimos do irmão do antigo gonfaloniere, Francesco Soderini, assim bem duvidosos de que viessem beneficiar Maquiavel: “E estive resolvendo comigo se seria bem falar de vós ao cardeal de Volterra, e decidi que não, porque mesmo que ele se esforce muito e goze da confiança do papa pelo que se pode ver de fora, no entanto tem contra si muitos florentinos, e se falasse por vós não sei se vos conviria; e tampouco sei se ele o faria de bom grado, que já sabeis com quanta cautela procede. Além disto, não sei como poderia eu ser instrumento apto entre vós e ele, porque me deu alguma boa mostra de afeto, porém não como eu teria esperado; e me parece que por ter defendido Piero Soderini adquiri, por um lado, desfavores e, por outro, pouco agradecimento”22.

Na expressão de seus sentimentos Vettori firmava, na carta de 30 de março, a consciência de uma malfadada ida a Roma, já prenunciada quando da viagem mesma, em que tivera fantasmas por companhia: “Esta minha embaixada começou a me ser infortúnio desde a porta onde estivestes presente. Pelo caminho estive sempre temeroso de que o papa Júlio morresse e a mim viesse ser preso e assaltado”23. Por vezes queixava-se amargamente dos prejuízos advindos com o cargo: cara lhe saíra a eleição do papa, Leão X, em que desembolsara quinhentos ducados24. Não se conformava, a revirar insone na cama, com o imposto de quatro florins que lhe tributaram, a ele e seu irmão, mais quatro a Bernardo, assim abusivos “sobretudo considerando-se que os fixados a maiores riquezas quão baixos eram”, contra o que protestava, senão a pobreza propriamente, a modéstia de seus recursos25. Quase sempre adverte a precariedade de sua permanência em Roma, antevendo sua partida a qualquer momento26, o que, aliás, bem o contentaria, pelo que tanto mais lamentava que não se consumasse: “E ficarei aqui até que o papa o queira, e quando quizer, de maior grado regressarei. E porquanto Jacobo [Salviati] não dizia que queria ir embora, não passou uma semana sem que eu pedisse dispensa ao papa. Agora que ele diz que não quer ficar, mesmo que ainda esteja de partida, a mim fecharam o caminho para continuar-lhe pedindo”27.

Pelo retrato dos apenas dissabores e mazelas porque Vettori desgostava de sua atuação como embaixador florentino junto ao papa Médici em Roma, as cartas a Maquiavel faziam ecoar antes estranhamentos aos desejos manifestados pelo amigo de retomar sua antiga experiência pública ao serviço daqueles mesmos senhores. Ele, Vettori, aspirava justo a dela se livrar, agora desejando, ao inverso, a tranqüilidade da vida privada a ser fruída em ambiente campestre. Ele assim o expressou incisivamente na carta de 23 de novembro a dissuadir o amigo daqueles desígnios ambiciosos, então contando-lhe os modos ingratos de sua “vida em Roma”. O recado que, pela descrição de sua vida quotidiana, Vettori dirigia, pois, a Maquiavel, dizia de aspirações por alcançar a serenidade de uma vida privada, que já a residência em San Michele in Borgo, lugar “um tanto solitário”28, figurava enquanto transição, a preparar seu pleno desvencilhamento quando não mais fosse embaixador e retornasse a Florença. E justo assim pretendia persuadir o amigo, pelo que finalizava sua carta convidando-o a lá vir e constatar o que fosse a vida de embaixador: “Meu querido Nicolau, a esta vida vos convido, e se vieres, bem me dareis gosto, e depois regressaremos para aí juntos. Aqui não tereis que fazer mais do que observar, e depois voltaremos para casa a de tudo motejar e rir”.29
Respondendo à recente missiva de Vettori pela célebre carta de 10 de dezembro30, Maquiavel reafirmou axiologia inversa à propugnada pelo amigo, então revertendo-lhe as teses ao justamente descrever qual a vida que ele levava retirado em Sant’Andrea de Percussina.

O texto de Maquiavel é ordenado em conformidade com a compartimentação do dia e a noite por que ele ordenava dois complexos opostos de atividades a preencher seu quotidiano: tanto quanto ele deplora as diurnas que sujeitam e rebaixam sua existência, inversamente louva as noturnas porque ele, pelo contrário, eleva e mesmo sublima seu espírito.

Durante o dia Maquiavel sujeita-se às mazelas de um proprietário de minguados recursos, queixando-se dos dissabores comezinhos de uma vida doméstica miserável, apenas sofrível.

Por um mês até que viabilizou um passatempo que reclamava certo exercício cerebral: caçar passarinhos, apanhando tordos à mão. Levantava-se ainda antes do amanhecer, preparava a armadilha, e ia à caça, com um feixe de gaiolas ao ombro, mímesis caricata de outro personagem, Geta a voltar do porto carregado com os livros de Anfitrião. Mas cuidava de não esgotar rapidamente, com tal predação quotidiana, a reserva natural de pássaros das redondezas, antes cuidava em poupar seu estoque, então fixando uma quota diária, recomendada por cálculo previsivo em que projetava prolongar ao máximo as distrações daquela caça: não apanharia nem menos do que duas aves, porém, tampouco, não mais do que seis. Moderava, pois, o prazer de cada dia, sem deixar, todavia, de realizá-lo uma vez imposto o limiar mínimo, para conseqüentemente multiplicá-lo por mais dias, cuidando, portanto, de evitar ceder ao exagero dilapidador, o que assim impunha também um limiar máximo. “Arte cinegética” a vitimar animaizinhos indefesos e inofensivos, entretanto, de dignidade algo duvidosa, pois, apenas arremedo de hábito aristocrático, já que antes relegada a figuras propriamente de estatuto servil. Passatempo este, confessa Maquiavel, certamente que “desprezível e estranho”. E, todavia, mesmo que assim desvalorizado e menosprezado, entretenimento paradoxalmente também revestindo de valor, mas antes negativo, pois Maquiavel assim o conscientizou apenas quando, com o sumiço dos pássaros, passada a estação migratória, veio a lhe faltar.

Diz também que intentara ampliar em algo seus rendimentos negociando o corte da lenha do bosque anexo à propriedade. Pelo que obrigava-se diariamente, logo de manhã com o nascer do sol, a lá ir, inspecionando os trabalhos por duas longas horas. Enfadonha vigilância que por entretenimento tinha o inteirar-se dos aborrecimentos que malfadavam a vida dos lenhadores, sempre às voltas com algum. Diz, entretanto, que seu pequeno comércio redundara em amarga desventura que só lhe trazia desavenças e perdas que o atazanavam particularmente. Primeiro se deu o (des)acerto do que tratara com um dos compradores, Frosino da Panzano, que, diz ele, por todos os meios queria ludibriá-lo: tentara surrupiar uma certa quantidade, mandando alguns empregados retirá-la sem que Maquiavel soubesse, e ainda atrevera-se a fraudar o pagamento, descontando dez liras do preço combinado, pois alegava uma antiga dívida de jogo de cricca, velha já de quatro anos, contraída na casa de Antonio Guicciardini. Intento, todavia, frustrado, porque o proprietário se mostrou tão bom vigilante quanto enfezado negociante: “comecei a fazer o diabo, querendo acusar de ladrão o carroceiro, que ali fora mandado por ele, tandem Giovanni Machiavelli entrou no meio, e nos pôs de acordo”31. Já outro cliente, Tommaso del Bene, que lhe encomendara uma medida, astuciou dar sumiço em não menos de metade do valor, “porque para medir havia ele, a mulher, a criada, os filhos que pareciam o Gabbura quando na quinta-feira com seus rapazes bate num boi”32. Maquiavel, então desconsolado, pôs fim àquele trato face aos prejuízos de que se dizia vítima, com o que ainda se malquistou com os demais compradores, dentre eles Battista Guicciardini, “que enumera(va) esta dentre as outras desgraças do Prato”33.

Também notícia de um momento mais calmo, quando ele, saindo do bosque, caminhava até uma fonte próxima, e lá deleitava-se pela leitura de um ou outro poeta que, cantando paixões amorosas, avivam-lhe as lembranças das suas, em tempos, todavia, já passados, de prazeres, portanto, antes ausentes.

Ainda antes do almoço, uma caminhada até a hospedaria, a ali inteirar-se, ao encontro ocasional dos viajantes, das notícias de outras cidades do mundo de vida mais afortunada que a daquele seu pobre lugarejo, e a conhecer os gostos e fantasias de outros indivíduos da espécie humana.

Ao meio-dia, parco almoço com a família, consoante com o ínfimo patrimônio da modesta herdade.

Terminado o almoço, retorno à hospedaria onde estivera de manhã, justo antes da refeição. Mas agora para passatempos de totalmente outra natureza. Não se trata mais de lá usufruir dos ensejos de encontros que lhe propiciam ampliar suas justas curiosidades intelectivas de conhecer as realidades do variado gênero humano. As paixões a que Maquiavel se entrega agora, à tarde, perdem qualquer elevação de intúitos e propósitos. A começar do círculo mesmo de parceiros permanentes dessa sua convivência local: quem outrora frequentava as mais altas dignidades - tanto por reis, príncipes, imperadores, papas e outras potestades, quanto por intelectuais humanistas -, agora via-se cercado por um estalajadeiro, um açougueiro, um moleiro e dois padeiros! Dos cumes superiores dos universos da política e do conhecimento, Maquiavel descaira pelo terreno mais chão daqueles que, das coisas da existência humana, cuidam funcionalmente daquela mais elementar, os provimentos alimentares da subsistência. O que faz ele lá em meio a tais indivíduos, que ele menospreza do mais fundo da alma? Joga: cricca e tric-trac. Certamente jogos bem populares, quer dizer, do modo como eles o jogam, os mais vulgares. Jogos plenamente tumultuosos e tumultuados. Tumultuosos porque acompanhados de pura berraria, gritos que se ouvem até bem longe de lá, alcançando San Casciano. E tumultuados também, porque seus modos (im)próprios são mil contendas, infinitos acintes e palavras injuriosas. Jogos, pois, despudorados, que não valem, comenta Maquiavel, nem pelo que neles se disputa, que a maioria das vezes não passa de insignificâncias. O desprezo de violento sarcasmo que ele, entretanto, vota a essa jogatina e a seus miseráveis convivas, ele mesmo o diz, interpelando o amigo em Roma, a que testemunhasse o estado de desgraça por que ele degenerava: “Assim mergulhado nesta piolheira estou com a cabeça mofada, desafogo a malignidade do meu destino, e até me contentaria em que me encontrásseis nesta estrada, para ver se ela se envergonha”34.

Por tais modos, chegado ao nível mais baixo e aviltante das paixões humanas, termina o dia de Maquiavel em Sant’Andrea. A amargura do olhar domina, pois, a perspectiva com que Maquiavel retrata a paisagem de seu quotidiano diurno em Sant’Andrea, assim justamente dissimulada pelos traços de humor irreverente e irônico, mesmo mordaz, que caracteriza o “sorriso” de sua persona, Il Machia.


Tudo muda à noite, quando retorna para casa. Então refugia-se, sozinho, no recôndito mais pessoal da residência: o escritório. Único lugar que lhe restou agora de uma vivência digna. Assim, traja-se nobremente para lá adentrar, à porta despindo “as roupas quotidianas, sujas de barro e de lama”, evitando macular a dignidade desse outro âmbito de humanitude, ali as trocando por outras, aqueles trajes “de corte ou de cerimônia”, signos de seu passado majestoso. Com elas “vestido decentemente”, penetra nesta sua outra “corte”, aquela que ainda lhe é dado “viajar” e frequentar: a “Corte dos Antigos” em que, pelo circuito dos livros, “convive com os grandes homens do passado”.

Os modos e comportamentos, agora à noite, são maravilhosamente reversos em relação aos do dia: não mais os distúrbios, exaltações e destemperos injuriantes de mesquinhas baixarias, mas, sim, a altivez sapiente de amáveis e acolhedoras amizades humanas. Ao contrário do dia, ele agora entrega-se a conversas noturnas, entretanto, silentes e tranqüilas, e não tumultuosas e tumultuadas. De seu corpo e de suas necessidades esquece-se totalmente: seu alimento agora é outro, um alimento que, pelo contrário, não denuncia sua humanitude comum, isto é, aquela natureza animal dependente dos alimentos materiais de que todos os mortais, quaisquer que sejam, os mais nobres ou os mais vis, têm igualmente necessidade. Alimento, diz ele, que “é o único que me é apropriado e para o qual nasci”, justamente revelador de orgulhosa distinção humana, apanágio de sua verdadeira natureza e destino35: dialoga com os sabios do passado, “perguntando-lhes a razão de suas ações”, ao que eles “humanamente lhe respondem”. Ensejos, então, de uma experiência sublimadora, que integrando na alma os tesouros do saber acumulado pela história passada, eleva o espírito acima dos males e infortúnios que, desde sempre, estigmatizam a condição humana, desde males menores, tédios, contratempos e desgostos, por outros mais contundentes de necessidades, aflições e misérias, até o maior de todos, o medo da morte: “não sinto durante quatro horas aborrecimento algum, esqueço todos os desgostos, não temo a pobreza, não me perturba a morte; transfundo-me neles por completo”. Imerso nessa corte imaginária do circuito de seus livros, Maquiavel diz experienciar coragem, confiança, altivez e honra. Ali, pois, ganha dignidade heróica.

Interagindo os conhecimentos atualizados por sua experiência estatal com o saber disponibilizado pelos autores antigos, Maquiavel (re)cria para si um sucedâneo de (con)vivência e reflexão política que confere sentido e valia à sua vida. Mesmo, pois, recluso em sua casa, as aspirações de Maquiavel apontam no sentido inverso ao que Vettori induzira intentando recomendar-lhe a serenidade do retiro na propriedade campestre. O olhar de Maquiavel, pelo contrário, persiste sua mira voltada para a vida pública, a cujos afazeres e empenhos ele almeja antes retomar. A viagem pela corte dos antigos era também vislumbrada por Maquiavel como trânsito para adentrar novamente a dos modernos. Justo assim, depositava no primor de sua ciência política consolidada por esse diálogo a oferenda de valor que o recomendasse às boas graças dos Médici: “E, como disse Dante, não pode a ciência daquele que não guardou o que ouviu – noto aquilo de que pela sua conversação fiz cabedal e compus um opúsculo De principatibus, onde me aprofundo quanto posso nas cogitações deste tema, debatendo o que é principado, de que espécies são, como eles se conquistam, como eles se mantêm, por que eles se perdem”.

A carta de 10 de dezembro registra, portanto, o vislumbre da obra com que ele agora contava seduzir o favor dos novos senhores, projetando então dedicá-la “à magnificência de Juliano”. Assim, já mostrara seu escrito a Filippo Casavechia e mesmo o consultara a convencer-se de que deveria publicá-la e entregar pessoalmente o presente a quem era ofertado: “Falei com Filippo sobre este meu opúsculo, se seria conveniente dá-lo a público ou não; caso conviesse, se seria bom que eu o levasse ou que vô-lo mandasse. Se o não desse fazia-me duvidar de que não só Juliano não o lesse, mas também de que este Ardinghelli se fizesse as honras deste meu último trabalho. Se o desse me satisfazia a necessidade que me prende, porque eu me estou consumindo e não posso ficar assim por mais tempo sem me tornar desprezível por pobreza. Ainda desejaria muito que estes senhores Médici começassem a lembrar-se de mim se tivessem que começar a fazer-me voltear uma pedra; porque, se depois não ganhasse o seu favor, eu mesmo me lamentaria, pois que quando lido o livro, ver-se-ia que quinze anos que estive em estudo da arte do Estado, não os dormi, nem brinquei; e deveria a cada um ser caro servir-se daquele que à custa de outros fosse cheio de esperança”.


Pela composição do Príncipe Maquiavel finaliza, pois, o (novo) princípio do que ele entendia fosse seu destino: mesmo a mais insignificante e desprezível função exercida no espaço público, de emblemática servilidade como “o rolar pedra”, é ainda desejável preferentemente a ficar prisionero das mazelas domésticas e correspondentes atribulações de (des)interesses particulares, privados. A expressão, lembram os críticos36, ecoa ensinamentos projetados pelo mito de Sísifo, a assinalar a inutilidade do ato, ou obra, com que se empenha a existência, entretanto, assim paradoxalmente esvaziada de sentido. Todavia, Maquiavel, nem bem alude à história mítica, logo também dela se afasta desviando o teor de sua lembrança, pois, não o reflete em termos de uma viciosidade de (in)finita circularidade (in)escapável, pelo contrário, tramava, justo sujeitando-se ao começo pelo nível mais ínfimo, desprovido de qualquer exigência, ascender graças ao reconhecimento do valor que sua ciência propiciava. A alusão de estupidez que ele, Maquiavel, assim intrigava, respeitava antes à cegueira de quem, embora senhor político, não atinasse os préstimos de que dispunha em seu benefício, pois, “lido o livro, ver-se-ia que quinze anos que estive em estudo da arte do Estado, não os dormi, nem brinquei; e deveria a cada um ser caro servir-se daquele que à custa de outros fosse cheio de esperança”.
Em meio à seleta companhia com que o espírito de Maquiavel compõe a nobreza de sua Corte dos Antigos, distingue-se também a figura de Tucídides. Assim o assinala a lembrança de seu nome em dois momentos, um na Arte da Guerra e o outro nos Discorsi.

Nos Discorsi, Tucídides é referido no capítulo décimo-sexto do livro terceiro, quando Maquiavel tece a argumentação histórica comprovadora de sua tese de que “quando tudo vai bem, os homens eminentes e virtuosos são esquecidos”: “A este respeito, há um ótimo dado em Tucídides, o historiador grego, que mostra que a república ateniense, em momento de superioridade bélica na guerra do Peloponeso em que pusera em xeque o orgulho dos espartanos, quase a ponto de dominar toda a Grécia, viu sua fama inflar-se a tal ponto que concebeu a conquista da Sicília. O empreendimento foi a debate em Atenas. Alcibíades e alguns outros aconselharam que se o fizesse, pois pensavam em seu prestígio, pouco se importando com o bem comum, pois ele entendia que assumiria o comando dessa expedição. Já Nícias, um dos primeiros em reputação na cidade, a dissuadia, dando como principal razão ao dirigir-se ao povo, pois que confiavam nele, esta: ao aconselhar a cidade a que não empreendesse essa guera, ministrava conselho contrário a seus próprios interesses pessoais, já que enquanto Atenas gozasse a paz sabia que uma infinidade de outros intentariam ser melhores do que ele, mas se fizessem a guerra, sabia também que ninguém a ele se igualaria ou superaria”37.

Também o menciona na Arte da Guerra, quando indaga por quais modos de sonoridade se recomenda a melhor execução de ordens transmitidas ao exército, para que este bem ordene o ritmo de sua marcha em boa disciplina: “E como a importância dos comandos depende das chamadas da trompa, dir-te-ei quais sons os antigos usavam. Pelo que afirma Tucídides, apitos eram empregues no exército dos lacedemônios, pois eles avaliavam que seu diapasão era o mais apropriado para fazer com que o Exército avançasse com seriedade antes do que furioso”. A esta indicação Maquiavel sequencia outras, referindo os procedimentos contrapositivamente adotados pelos cartagineses (a cítara), pelo rei lídio Alíates (também a cítara), ou por Alexandre o Grande e pelos romanos (cornetas e trombetas), mas sem agora identificar o autor ou a obra antiga em que baseava sua informação38.
Oscilam, entretanto, os críticos modernos no ajuizar o alcance da interferência que o diálogo com Tucídides tivesse na constituição da obra e pensamento de Maquiavel. Uns, mais céticos, ou o minimizam a um aporte menos relevante de apenas uma ou outra alusão a conhecimentos de realidades factuais da história ateniense que Maquiavel eventualmente conhecesse graças à leitura de Tucídides39, ou até mesmo questionam contundentemente um tal diálogo acusando antes sua projeção “fantasiosa”40. Outros, pelo contrário, mais confiantes, empenham-se em indiciar nos textos de Maquiavel a impregnação dos traços que assinalam a presença da memória tucidideana. O fazem tanto, em âmbito analítico mais modesto, para atestar, pela crítica textual de tradição filológica, a maior amplitude daquela dependência de conteúdos históricos conhecidos pelo florentino que seriam derivados do ateniense, quanto para, mais ambiciosamente avançando além da mera exegese erudita de uma Quellenforschung, atrelar também idéias e conceitos políticos do teórico moderno a correspondentes preceitos que levam originariamente a marca do historiador antigo. Assim concatenadas as falas do diálogo que Maquiavel (supostamente) entretém com Tucídides, a confirmação textual da influência autoral intriga a afirmação da precedência do correspondente pensamento, de modo que a herança da presença do historiador antigo no teórico moderno acaba por figurar também o prenúncio do destino histórico propriamente deste naquele.

No horizonte da Quellenforschung, a crítica indiciatória dos fatos relatados na história tucidideana que informassem as reflexões de Maquiavel comporta diversos graus de convencimento, assim (im)pertinente por controversas e duvidosas (in)conclusões. Detectam-se, além da certeza do nexo óbvio daquelas duas passagens em que o nome de Tucídides é expressamente mencionado, “referenciações incontestáveis” quanto à memória das dissensões em Corcira: ela vem registrada nos Discorsi41, e estaria também presente, ao que arrazoa Udo Klee, nas Histórias Florentinas (III 5), aqui configurada pela mimesis maquiaveliana dos teores da célebre reflexão do historiador ateniense (III.82-84) quando da composição do discurso atribuído ao representante da Signoria diante de Guálter de Brienne42. Similar convicção comportariam ainda as duas alusões feitas nos Discorsi aos debates da assembléia ateniense que deliberou o envio da expedição à Sicília43: Maquiavel os lembra primeiro no livro I (capítulo 53), a argumentar a tese de que o povo é “fácil” presa de “ludíbrio político” por sua propensão em deixar-se seduzir por falsas aparências de promessas espantosas e grandes esperanças”44; e uma segunda vez, justamente naquela passagem referida acima em que Tucídides é nomeado (III 16), a agora arrazoar contra as mazelas injustas que vitimam a história dos homens de “virtude verdadeira”, a cujos préstimos se recorre apenas “nos tempos difíceis”, mas que de pronto se desconsidera “quando tudo vai bem”, pois então preteridos pelos “ricos e influentes”. Já algumas outras indiciações, também acusadas nos Discorsi, são apenas tenuemente assinaladas pelos críticos, ora por um ora por outro: assim “o possível reflexo da leitura de Tucídides” pela indicação feita ao sinecismo de Teseu (I 1)45, pela menção à história do exílio de Temístocles (II 31)46, pela referência a Sitalces da Trácia (III 6)47 e pela vaga lembrança da “conspiração contra os tiranos de Atenas” (III 6)48.

O viés dominante desse zelo crítico tradicional concentra seus esforços de acuidade exegética em aferir a justeza, contra a impropriedade, da reprodução maquiaveliana dos informes tucidideanos. São quase todos concordes no apontar as imprecisões, os erros, os desvios, as deficiências e mesmo as deturpações com que Maquiavel (des)apreende Tucídides49. Consequentemente, põem-se os críticos a aventar que ordens de distúrbios teriam prejudicado o (des)entendimento de Tucídides por Maquiavel: ou porque o citasse de memória; ou porque o conhecesse apenas intermediado por outros textos e autores; ou, pior, porque o retorcesse visando à comprovação de suas próprias teses políticas. Empenhos, por diligentes que sejam em sua perícia crítica, duplamente problemáticos. Por um lado, porque de equívoca historicização, pois, ajuízam a práxis intelectiva de Maquiavel pelo padrão de medida de rigor crítico porque responde a (cons)ciência historiográfica “científica” firmada a partir do século XIX e desdobrada no XX50, assim implicando que Maquiavel devesse conhecer (o texto de) Tucídides com o domínio que nós, entretanto, só contemporaneamente consolidamos. Por outro lado, porque camuflam um senso de pertinência analítica, todavia, algo duvidoso, quer porque tenha por desfecho antes controvérsias do que conclusões, quer porque, sobretudo, afirme ambigüamente sua (des)valia ao conscientizar uma problemática (des)confiança na efetividade hermenêutica dessa operação crítica, assim a justificando como mediação analítica para a apreensão de uma inteligibilidade superior do texto, mas, efetivamente, a operando autonomamente como um fim em si mesma51.
No nível superior das idéias e conceitos polarizadores de afins concepções de história e de política transitando de Tucídides a Maquiavel, a intriga das hermenêuticas empenhadas pela reflexão crítica moderna tornam ainda mais intrincados os rumos (ou desvios?) da análise. Algumas aproximações identificadoras dessas afinidades permanecem pontuais e esporádicas: assim, uma percepção histórica do fenômeno da origem e fundação de cidades que Maquiavel (Histórias Florentinas II 2), contando a de Florença, expõe em termos52 que seriam derivados, via Leonardo Bruni que primeiro a consagrara em sua História Florentina, em última instância de Tucídides, quem originariamente a pensara em uma passagem da “Arqueologia” (I.7)53; ou uma concepção teorizante do fenômeno bélico por que Maquiavel se contrapusera à tese tucidideana proclamada em discurso de Péricles de que “o dinheiro é o nervo da guerra”54; e ainda a persistentemente reiterada lembrança de que fora Tucídides quem primeiro integrara na escrita da história a reprodução dos “discursos”, preceito a que Maquiavel também atendera55.

Já outras aproximações repercutem teses mais atribuladas de conjunções ideológicas. Maquiavel dizia que concebera o jogo imitativo de seu diálogo com os Antigos integrado ao espírito das descobertas56. Para embarcar Tucídides nessa viagem moderna, a associação de sua história à do maquiavelismo leva a crítica da hermenêutica tucidideana a navegar em meio às tormentas da Realpolitik também dita Power Politics.


Pela primeira década do século XX, em meio ao triunfo da modernidade convicta do progresso científico extravasado por todas as áreas do conhecimento humano, John B. Bury formula, em exemplar síntese, o mapeamento caracterizador desse continente hermenêutico moderno de realismo político, cuja fama da descoberta se atribui a Maquiavel, mas que abrigaria também a inteligibilidade da história escrita por Tucídides57:
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