Marcas ocidentais nas agendas culturais portuguesas



Baixar 28.49 Kb.
Encontro22.07.2016
Tamanho28.49 Kb.

POR FAVOR LEIA COM ATENÇÃO



COMO GUARDAR O TEXTO
Para guardar este texto (incluindo dados adicionais) seleccione a opção GUARDAR (em inglês, SAVE) no seu browser (Explorer, Navigator…), dentro do menu FICHEIRO (em inglês, FILE).
Na opção GUARDAR COMO (em inglês, SAVE AS), também no menu FICHEIRO, poderá guardar o texto e atribuir um novo nome.

COMO IMPRIMIR O TEXTO

Para imprimir este texto (incluindo dados adicionais) seleccione a opção IMPRIMIR (em inglês, PRINT) no seu browser, dentro do menu FICHEIRO (em inglês, FILE).


Também poderá aceder a esta função seleccionando o botão de impressão (com a imagem de uma impressora), disponível na barra de ferramentas.

NOTA IMPORTANTE
Para voltar ao artigo não feche esta janela. Utilize o botão do browser RETROCEDER (em inglês, BACK), situado no lado esquerdo da barra de ferramentas.

Marcas ocidentais nas agendas culturais portuguesas
Inês Costa Pessoa *
Janus 99-00

Com o objectivo primordial de dar conta de alguns indicadores susceptíveis de reflectir sobre a inserção de Portugal no panorama cultural internacional, optámos por realizar uma pesquisa em torno das iniciativas promovidas por um conjunto de instituições portuguesas – Culturgest, Centro Cultural de Belém e Fundação de Serralves, procurando detectar se os organismos culturais analisados acolhem e divulgam, com uma maior intensidade, certos focos artístico-culturais geograficamente mais evidentes.

Haverá países ou regiões com quem se estabelecem relações privilegiadas? Terá o público português idêntica oportunidade de aceder àquilo que se produz no Ocidente e no Oriente? As culturas africana e asiática, por exemplo, serão palco da mesma divulgação em Portugal que as culturas europeia ou norte-americana? Onde irão as instituições em análise buscar as suas grandes referências no mercado internacional?

Através da agenda cultural da Culturgest, Centro Cultural de Belém e Fundação de Serralves quisemos averiguar: onde estão sediados os autores, as Companhias, as Orquestras e os diversos grupos de criadores estrangeiros que tais instituições promovem; com que museus, galerias ou outros espaços culturais (e de que países) realizaram co-produções, protocolos ou outro tipo de acordos de âmbito internacional; a que revistas, críticos de arte ou comentadores de origem não nacional costumam participar a sua programação.


Consideramos a importância da análise da programação destas entidades pois, juntamente com a Fundação Gulbenkian – que não incluímos aqui, uma vez que desmultiplica a sua programação por diversos sectores artísticos – são equipamentos que preenchem uma importante parcela da totalidade da oferta cultural legitimada, disponível no país. Apesar da progressiva descentralização que se vem verificando no sistema mundial de cultura, consegue perceber-se que os centros tradicionais são registos com um peso notável na programação das instituições culturais que analisámos, dada a forte componente ocidental que a caracteriza e na qual se destacam países como os E.U.A e o Canadá, a França, Bélgica, Holanda, Alemanha, Espanha, Reino Unido e Suíça.
Alguns factores colaboram para justificar as opções de "ocidentalidade" presentes na orientação programática destes três equipamentos, nomeadamente o financeiro, pois os gastos implicados na realização de qualquer iniciativa vinda de regiões geográficas mais distantes como por exemplo da Ásia, América Latina ou Austrália, duplicam ou triplicam quando comparados com aqueles dispendidos com a divulgação de exposições e espectáculos europeus. As despesas com a deslocação dos artistas, transporte das obras, instrumentos, cenários e respectivos seguros, entre muitos outros custos, desincentivam a promoção regular das criações produzidas nesses espaços.

Para além disso, a eleição de obras e criadores internacionais a apresentar em Portugal implica, não raras vezes, a deslocação ao estrangeiro e a presença dos decisores institucionais nos grandes festivais europeus: Festival d' Avignon para o teatro (França), Festival d'Automne (França), Festival des Arts (Bélgica), Festival Springdance (Holanda), bem como a comparência regular dos mesmos nas mais atractivas feiras ou exposições internacionais: a Feira de Arte Contemporânea de Chicago (E.U.A), da Basileia (Suíça), a FIAC (França), a de Colónia e a Documenta de Kassel (Alemanha), a Bienal de Veneza (Itália), a ARCO em Madrid (Espanha).

Tendo em conta que tais acontecimentos, salvo algumas excepções como a Bienal de São Paulo (Brasil) e a de Sydney (Austrália), a par de algumas feiras no Japão, se concretizam justamente na Europa Ocidental e América do Norte, podemos encontrar aqui uma justificação para a sobre-representação destas zonas geográficas nas agendas culturais dos organismos em análise, no ano de 1996. Não obstante e como podemos confirmar pelos dados das correspondentes tabelas (ver Infografia), encontramos, mesmo com uma expressão reduzida, outras regiões representadas.
Sublinhe-se, no caso da Culturgest, que a organização da oferta cultural em ciclos temáticos e plurisdisciplinares, nos quais se insere o designado por "Multiculturalismo e Novas Mestiçagens", cria as chamadas "ocasiões" para a divulgação de um reportório cultural concebido em zonas não ocidentais. O mesmo pode ser constatado para o Centro Cultural de Belém, que dedicou, no período em análise, especial atenção à realidade cultural mexicana (no conjunto da oferta referente às exposições), acolheu o Ballet Folklórico do México e exibiu um espectáculo de uma cantora israelita.

Também Serralves incluiu a exposição de dois artistas brasileiros, Lygia Clark e Cildo Meireles, e nos espectáculos de Música apresentou concertos provenientes da Europa de Leste (Polónia e Hungria).

Verifica-se ainda que o cenário geográfico que enquadra Portugal na Europa Ocidental conduz a que tais instituições culturais, tributárias das já salientadas limitações económicas, aproveitem e beneficiem da circulação de produções artísticas internacionais em zonas relativamente próximas, acolhendo-as nos respectivos espaços e alternando, assim, a organização de manifestações culturais de produção própria com o regime de co-produção.
É sabido que mesmo as instituições dos centros artísticos consagrados nos quais se incluem cidades como Nova Iorque, sentem cada vez mais a necessidade de associar-se às congéneres de outros países, pois não conseguem, isoladamente, suportar os avultados custos implicados na preparação e produção dos acontecimentos que visam promover. Daí a evidente tendência destes três equipamentos culturais para a prossecução de co-produções, concretizadas, na maior parte das vezes, com organismos europeus e norte-americanos, sendo também destas regiões que provém uma significativa parcela dos eventos apresentados.

Tal prática tem potenciado a aproximação de instituições portuguesas e estrangeiras, articulação esta que só foi possível a partir do momento em que os espaços culturais portugueses começaram a obter uma imagem favorável e a gozar de credibilidade no exterior, facto que há uma década atrás não acontecia, excepto para a Fundação Calouste Gulbenkian.


Pelo contrário, hoje, a disponibilização de infra-estruturas bem equipadas e de modernos suportes técnicos; o entendimento especializado acerca das condições necessárias e adequadas para a apresentação de uma exposição (conhecer a que temperatura, humidade e intensidade de luz deve estar sujeita determinada obra); a incorporação de equipas altamente profissionalizadas na montagem dos espectáculos; o cumprimento dos contratos e compromissos com os artistas são aspectos que têm progressivamente contribuído para um incremento da confiança depositada nestas instituições e para o acentuar da sua integração nas digressões culturais internacionais. No entanto, sublinhe-se a ausência de relações com entidades estrangeiras dispostas a participar na produção de trabalhos criados por portugueses, que permanecem ainda uma "aposta no escuro", indicador a reter para corroborar a tese da não centralidade de Portugal no sistema internacional.
Outro dos indicadores que considerámos prende-se com o grau de aproximação que estas instituições têm mantido com a imprensa estrangeira, a par do interesse demonstrado por esta na divulgação das suas iniciativas. Apurámos que cerca de 80% das revistas às quais é facultada informação sobre as actividades realizadas estão sediadas na Europa Ocidental e os restantes 20% nos E.U.A e América Latina e que algumas das publicações de arte com maior prestígio internacional já fizeram alusão a alguns dos acontecimentos promovidos pelas instituições em análise, nomeadamente a Art Fórum (E.U.A.), a Art Newspaper (R.U.) e a Flash Art (Itália), ainda que se trate de referências de pequena dimensão e com um carácter ocasional. Não obstante, constatámos que a Lapiz (espanhola) dedicou cerca de 25 páginas à elaboração de um balanço em torno da situação artística portuguesa contemporânea.
Cabe ainda salientar que Serralves tem um contrato com uma editora internacional – a Idea Books (holandesa) – que lhe permite a distribuição dos catálogos das exposições que promove em livrarias de países estrangeiros, favorecendo o processo de afirmação da instituição e dos criadores nesses espaços, muito embora os artistas portugueses, por serem ainda desconhecidos e não estarem inseridos no mercado internacional, não alcancem índices de procura tão acentuados. Para contornar esta situação, a Fundação vem realizando exposições colectivas de portugueses e estrangeiros, para que a edição de catálogos conjuntos possa incrementar a projecção dos primeiros, a partir da consagração dos segundos.

Tanto os exibidores da Culturgest como os do Centro Cultural de Belém e Fundação de Serralves têm verificado que os agentes culturais internacionais parecem mostrar-se cada vez mais interessados pela sua programação, solicitando informações e deslocando-se pontualmente a Portugal para a participação em inaugurações de espectáculos e exposições, embora seja unanimemente reconhecido que tais presenças não são nem frequentes nem motivadas pelo desejo de conhecer as obras de criadores nacionais, mas essencialmente para o reencontro com os trabalhos de artistas de notoriedade internacional.


Não é fácil prospectivar para onde caminhamos, sendo que o universo cultural e artístico é fortemente condicionado pelas orientações políticas adoptadas por cada país e sobretudo pelas dinâmicas económicas que se reflectem no conhecido triângulo – produção, distribuição e consumo – sujeitando-se, por isso, à volubilidade do binómio oferta/procura.

É, apesar de tudo, indiscutível que Portugal tem vindo paulatinamente a valorizar e a conquistar um lugar – ainda que incipiente – no sistema internacional de arte contemporânea. É certo que para que o mesmo se consolide são necessários grandes investimentos e os financiamentos escasseiam; é certo que não existe um mercado de arte instituído em Portugal nem uma estratégia cultural cuidada, articulada e perseverante; é certo que estamos perante um processo moroso que só visualizará os seus frutos a longo prazo, mas é igualmente sabido que uma melhor articulação de todos os agentes interessados é meio caminho andado para que o país se torne um terreno atractivo para a circulação da produção internacional e uma referência a inserir nos roteiros mundiais de cultura. O desenvolvimento das redes de comunicação e de novos meios tecnológicos tem permitido uma circulação de obras e mobilidade de criadores cada vez mais facilitada. Reconhecendo que a internacionalização da cultura tem revelado uma maior incidência na proliferação geográfica de bens de consumo alargado, ainda assim, o fenómeno de globalização recaiu igualmente sobre o campo da arte e cultura contemporânea.


Tal encurtamento de distâncias é algo que também vem sendo gradualmente sentido em Portugal. Alexandre Melo refere a recusa, por parte de certos galeristas, da ideia de um total distanciamento do país face ao sistema de arte contemporânea global. Os dados por nós recolhidos confirmam essa tendência de progressiva inclusão, tanto no domínio das artes plásticas e visuais, como no das performativas: a participação de agentes nacionais em Festivais e Feiras Internacionais, o incremento da integração dos organismos culturais estudados nas grandes digressões europeias, com a consequente possibilidade de acesso, por parte do público, a criações e criadores de enorme notoriedade; o visível estabelecimento de parcerias entre instituições portuguesas e estrangeiras através da concretização de co-produções e a aproximação gradual à imprensa internacional especializada, não obstante revelarem um acentuado carácter de "ocidentalização" – são indicadores capazes de garantir a não marginalização do país face ao exterior, aspectos a não descurar e a valorizar em todo o processo de análise da situação de Portugal no contexto cultural mundial.
Informação Complementar
Co-produções com o estrangeiro em 1996
Culturgest: partilhou trabalhos com o Festival Spring Dance (Holanda), o Festival Klapstuk (Lovaina-Bélgica), o Théâtre de Marionnettes de Paris (França), o Sommer Theatre Festival (Ham­burgo), o Hebbel – Theatre (Berlim, Alemanha), a Galeria Juspand em Paris (França), o Mu­seu Tel Avive (Israel), o Museu Musucstafi (Alemanha).

Centro Cultural de Belém: colaborou com o Museo Nazionale del Cinema de Turim (Itália), o Museu de La Indumentária Mexicana "Luís Márquez Romay" (México), o Centro Galego de Ar­te Contemporânea (Espanha), o Nouveau Musée/lnstitut d'Art Contemporain (França) e com a Fundação Antoni Tapiès de Barcelona (Espanha). Fundação de Serralves: co-produziu exposições com o Instituto Valenciano de Arte Moderna -IVAM e a Fundação Antoni Tapiès (Espanha), o Musée d' Art Contemporain de Marselha (Fran­ça), o Palais des Beaux Arts de Bruxelas (Bélgica), a Whitechappel Gallery de Londres (R. Uni­do) e a De Pont Foundation (Holanda).
*Inês Costa Pessoa

Licenciada em Sociologia pela UAL. Assistente de Investigação no Observatório de Relações Exteriores da UAL.








Infografia





Compartilhe com seus amigos:


©principo.org 2019
enviar mensagem

    Página principal