Marcelo Caetano António Costa Pinto Professor Universitário



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Marcelo Caetano


António Costa Pinto
Professor Universitário

A primeira coisa que importa dizer sobre Marcelo Caetano quando passam cem anos do seu nascimento é que já poucos sabem quem foi. Na memória dos portugueses, Salazar fica chefe solitário de 40 anos de triste existência de Portugal no séc. XX, deixando um legado que o seu breve sucessor não conseguiu resolver. Talvez seja por isso que a comparação entre os dois se imponha.


O jovem Marcelo Caetano vinha de uma direita mais radical do que Salazar e passou parte dos anos 30 a dizer-lhe que as instituições deveriam ser mais robustas, com mais ideologia, mais corporativismo, mais jovens inspirados no fascismo, pe-rante a prudência pragmática deste último. Cooptado pelo ditador, passou a ser um fiel discípulo, mais aberto à experiência e à modernidade autoritária do que Sa-lazar, e dizendo-lhe de vez em quando o que pensava.


Mas o Marcelo que interessa à História contemporânea é o da década de 60, quando, afastado do poder, se torna reserva pe-rante as crises finais do salazarismo. Quan-do Salazar enfrenta o golpe do gen. Botelho Moniz e o seu nome aparece. Quando a Guerra Colonial emerge e algum reformismo alterna com o integrismo o seu nome aparece. Quando nessa década de grande crescimento económico e mudança social se pensa na alternativa europeia o seu nome aparece.


Acresce que a coincidência de estar de regresso à Faculdade de Direito da Univer-sidade de Lisboa nesta década conturbada lhe permite não só reforçar o grupo dos discípulos académicos como ir informalmente construindo o pequeno núcleo dos "marcelistas", como que preparando a roda da sucessão. Marcelo emerge então junto de alguns círculos da classe média, mesmo da oposição, como uma alternativa liberalizadora e modernizadora ao ditador envelhe-cido.


Caetano não traiu as esperanças e houve de facto alguma "liberalização". O erro foi pensar que nos regimes ditatoriais "liberalização" queria dizer democratização. Sem Guerra Colonial, talvez a esperança de uma democratização elitista se concretizasse. Mas os valores e as ideias moldam mais os homens do que o pragmatismo da democracia. Caetano, no fundo, também não imaginava Portugal sem império e sabia que em democracia ele desapareceria em meses. Pior legado Salazar não lhe poderia ter deixado.


in Diário de Notícias (Opinião), 16 de Agosto de 2006


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