Marchando das trevas para a luz



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MARCHANDO DAS TREVAS PARA A LUZ”: O RIO SÃO FRANCISCO E A ELETRIFICAÇÃO URBANA DO CARIRI CEARENSE (1949-1972)

Assis Daniel Gomes1

RESUMO: A região do Cariri, localizada no sul Ceará, faz fronteira com os estados de Pernambuco, Paraíba e Piauí. Alguns intelectuais dessa espacialidade procuraram congregar-se em prol da eletrificação urbana dessa região visando o fortalecimento econômico, sua modernização e industrialização. Para isso, criaram em 1949 o Comitê Pró-Eletrificação e Industrialização do Cariri, composto pelos juazeirenses, cratenses e barbalhenses. Neste trabalho, objetivamos analisar a modernização da região do Cariri cearense pelo viés da eletrificação, especialmente os discursos políticos em nível estadual e local que tinham como finalidade a vinda da energia da Companhia hidroelétrica do São Francisco (CHESF) para a região. Portanto, os embates políticos estavam em torno do Projeto Sistema Cariri e o Projeto da Eletrificação Total do Ceará. Os políticos locais e aqueles filiados ao grupo de Távora enfrentaram-se na seara dos discursos parlamentares nas plenárias da Câmara dos deputados estaduais e federais. Após esse embate político, o Estado do Ceará conseguiu o projeto de eletrificação total do Ceará, como também o Cariri foi contemplado com a energia. Sendo, para isso, criada em 1961 a Companhia Elétrica do Cariri (CELCA) que em 1972 fora incorporada a COELCE, encerrando sua trajetória enquanto uma empresa elétrica de cunho regional.

PALAVRAS-CHAVE: Cariri, eletrificação, modernização.

ABSTRACT: Cariri, located in southern Ceará, bordering the states of Pernambuco, Paraíba and Piauí. Some intellectuals that sought spatiality gather for urban electrification of the region aimed at economic empowerment, modernization and industrialization. To do so, in 1949 created the National Committee for the Electrification and Industrialization Cariri composed of juazeirenses, cratenses and barbalhenses. In this work, we aimed to analyze the modernization of Ceará Cariri by electrification bias, especially political speeches at the state and local level that the purpose of the coming energy CHESF to the region level. Therefore, the political clashes were around Cariri System Project and the Project Total Electrification of Ceará. Local politicians and those affiliated with the group Távora clashed on the likes of parliamentary speeches in the plenary of the House of state and federal representatives. After this political struggle, the state of Ceará has managed the project total electrification of Ceará, as well as the Cariri was awarded energy. And for this it was established in 1961 to Cariri Electric Company (CELCA) which in 1972 was incorporated COELCE, ending his career as an electrical company regional basis.

Keywords: Cariri, electrification, modernization.

A região do Cariri está localizada no sul do Ceará e faz divisa com os estados de Pernambuco, Paraíba e Piauí. Nela se destacam, como influentes na economia, cultura e política, as cidades de Juazeiro do Norte, Crato e Barbalha. Esses três municípios concentraram no século XX as instituições de maior destaque regional, sua elite política e letrada também buscou dar visibilidade e demarcar as fronteiras do Cariri em relação ao estado do Ceará e aos vizinhos. Forjando, assim, as imagens simbólicas da identidade dos caririenses e lutando para o seu progresso material, por exemplo, a presença a partir de 1950 dos institutos culturais2 e entidades bancárias3.

Os discursos e as ações de alguns intelectuais e políticos caririenses tinham como finalidade o enaltecimento do Cariri. Em paralelo a isso, cada grupo procurava valorizar a sua cidade para alavancar a imagem dela como líder regional. Dessa forma, olhar para essa região seria verificar os conflitos constantes entre os interesses particulares dessas três cidades caririenses e os projetos comuns que as uniam em prol da valorização da região, destacando para isso suas particularidades. Um desses projetos que congregou as forças políticas do Cariri fora a luta a fim de trazer à região a energia elétrica produzida pelo Rio São Francisco com a criação da Companhia hidroelétrica do São Francisco (CHESF) em 19454.

Propomos pensar como se deu a aceleração do tempo no cotidiano caririense, provocada pelo ingresso dos avanços técnicos, e as mudanças vivenciadas na região com a chegada de uma força energética mais potente e constante. A chegada de artefatos modernos, por exemplo, a TV, e da rede de transmissão da energia de Paulo Afonso passou a simbolizar mais um dos elementos de modernidade dessa região. O advento dessa força energética também favoreceria e impulsionaria o desenvolvimento econômico e industrial do sul do Ceará. A própria construção da CHESF visava diminuir a diferença econômica e industrial existente entre o Nordeste e as regiões sul-sudeste. Segundo Leite, o encaminhamento político dado pelo governo de Getúlio Vargas em 1944 para a criação da CHESF se constituía como a “redenção do nordeste brasileiro” (1996, p.159).

A fundação e expansão da CHESF visava abranger a área de 450 quilômetros a partir do local em que se construíra a usina. Verificando esses dados em um mapa se pode perceber que o interior do Ceará iria ser atingido pelos fios de transmissão da energia produzida pelo velho Chico. Contudo, segundo uma matéria divulgada pelo Jornalista Colombo de Sousa, não era certo nada em relação à participação do Ceará no projeto de integração, não se tinha nenhuma confirmação oficial que essa expansão energética a partir da Usina de Paulo Afonso I chegaria a atingir o Ceará, nem tampouco o Cariri, apesar de fazer parte da área de cobertura desse projeto.

Os caririenses ao saberem dessa informação se organizaram para protestar e solicitar esse benefício para a região sul cearense. Para Leite, essa notícia caiu como “uma bomba no Cariri, onde as lideranças foram sacudidas” (1996, p.216). Provocando, assim, um movimento de organização política para defender os interesses da região. Com essa finalidade se construiu em 1949 o Comitê Pró-Eletrificação e Industrialização do Cariri, composto pelos juazeirenses, cratenses e barbalhenses. Esse, por sua vez, edificou sua instalação física, em prol de promover debates e organizar ações para a eletrificação do Cariri, na cidade de Juazeiro do Norte.

Elegemos, assim, como recorte temporal inicial, para nossa investigação, a criação desse comitê que promovera debates políticos e ações concretas a favor da eletrificação do Cariri. Este trabalho está inserido nos primeiros anos pós-Segunda Guerra Mundial e início da chamada Guerra Fria, essa conjuntura internacional possibilitou a expansão das novas técnicas e tecnologias vindas da corrida armamentista-tecnológica entre os países socialistas e capitalistas (RÉMOND, 1974).

Já o país a partir da metade do século XX, vivenciava os primeiros passos da democracia de cunho liberal, que abriu aos poucos a sua economia ao capital estrangeiro, possibilitando as suas empresas multinacionais invadirem o território nacional com suas fábricas. Ser moderno e industrializado nesse século passou, portanto, a significar a posse de objetos sofisticados e a utilização da eletricidade de base hidráulica (VARGAS, 1994). Essa energia, por sua vez, deveria ser potente para proporcionar uma continuidade para não provocar intervalos no consumo, como aconteciam nas antigas formas de energia produzidas, por exemplo, pelos motores que utilizavam como combustível querosene e gás (Idem). Antes da chegada das redes da CHESF as prefeituras das cidades do Cariri se utilizavam dessa forma energética precária e inconstante para iluminar os seus municípios. Em uma exposição de motivos escrita em 1962, assim o vereador José Sobreira comentou:

Juazeiro do Norte, cidade CINQÜENTENÁRIA, contando com quase CEM MIL ALMAS, possuindo seis estabelecimentos de ensino superior e muito mais 50 escolas primarias, públicas e particulares, possuindo técnicos em contabilidade e Escrituração em seu ERARIO Municipal, que o tempo já levou? Hoje, Em pleno século XX, ano da eletrificação, onde colocamos de lado os candieiros, as velas de cera de carnaúba e os murrões de azeite de Mamona (CAIXA 320, Leis sancionadas, p.01).


O sul do Ceará, portanto, conseguiu ser contemplado na expansão energética de Paulo Afonso I e obtivera emendas parlamentares que cobriram os gastos para a colocação de redes elétricas. Contudo, Virgílio Távora e seus aliados começaram a defender uma eletrificação total do Ceará, visando, principalmente, a chegada da energia elétrica em Fortaleza, capital do estado. Para isso, pediu uma revisão do projeto e um aumento das verbas para atingir todo o estado. Isso promoveu um acirramento das tensões entre o deputado Távora e os caririenses que temiam as consequências negativas dessa proposta defendida por esse político que poderia ser o retardamento da chegada da energia de Paulo Afonso ao Cariri ou a exclusão total do Ceará de receber esse benefício (LEITE, 1996; SILVA FILHO, 2008).

Távora conseguiu uma bancada forte na Assembléia estadual e federal, aprovando, dessa maneira, o projeto total de eletrificação do Ceará. Todavia, o medo de que o percurso dessa eletrificação não passasse pelo Cariri também fora extinto. Qual, portanto, o significado da vinda desse serviço para a região?

Para gerir a eletricidade que vinha pelas redes da CHESF se construíram no estado empresas elétricas regionais de economia mista: CONEFOR (Companhia de eletricidade de Fortaleza), CELCA (Companhia de eletricidade do Cariri) e CENORTE (Companhia de eletricidade do Norte).

O historiador Silva Filho, na tese “Entre o fio e a rede: a energia elétrica no cotidiano de Fortaleza” (1945-1965), procurou “delinear mediações historicamente constituídas entre o processo de eletrificação e o advento de uma forma capaz de acionar determinados artefatos acentuadamente identificados à modernização na esfera privada” (2008, p.01). Segundo ele, o embate político em prol da instalação no “Vale do Cariri” da “Energia de Paulo Afonso” não estava fundamentado apenas na diferença cultural e histórica autonomia econômica da região do Cariri em relação à capital do estado. Mas, sobretudo, no medo dos fortalezenses de que


A enxurrada energética de Paulo Afonso sobre o Cariri, desencadeasse entre ambos um distanciamento profundo e dificilmente reversível, no tocante as transações mercantis e à produção agrícola e manufatureira, ou mesmo provocasse a transferência de algumas fábricas de Fortaleza para aquela área, como de fato verificou em 1962 e 1963, em razão de ali já chegarem os cabos da cachoeira baiana (2008, p.38).
Em 1961 as redes da energia de Paulo Afonso entraram no território cearense pelas terras caririenses. Esse dia festivo para a região fora conhecido como a Festa do Século. Segundo Leite (1996), no dia 21 do mês de dezembro do referido ano acontecera o ligamento das redes nas duas maiores cidades do sul do Ceará: à tarde em Juazeiro do Norte e a noite no Crato. Quais, então, as transformações na vida urbana diária dos caririenses a partir da instalação da energia elétrica de Paulo Afonso? Quais as suas expectativas com a vinda dessa energia para a região?

Elegemos o recorte final, desta pesquisa, o ano de 1972, data importante devido à conclusão desse projeto regional de eletrificação do Cariri cearense com a incorporação da Companhia de Eletricidade do Cariri a COELCE. É importante também salientar que no Ceará a CELCA como a CENORTE conseguiram dois programas: a eletrificação urbana e a rural. Conforme Leite, a “eletrificação rural, entendida como prestação de serviços de energia elétrica a consumidores rurais, reunidos em cooperativas ou não, só ocorre no Ceará através das duas empresas regionais CELCA e CENORTE” (1996, p.205). Conforme a historiadora Sá, “a eletrificação nas propriedades rurais, após 1961, aconteceu gradualmente” no Cariri, sendo assim, a modernização, “em ritmo mais lento”, chegava ao sul do Ceará particularmente na década de 1960, não apenas no Cariri urbano, mas também no “Cariri dos engenhos” (2007, p.17).

Analisar a eletrificação urbana do Cariri, consideramos importante para compreender as mudanças cotidianas na região promovidas pela aceleração advinda desse recurso energético, as expectativas dos caririenses com o seu funcionamento, as transformações técnicas ocorridas, até sua incorporação pela COELCE, no sul do Ceará e as novas experiências temporais e espaciais vivenciadas diariamente pelos caririenses. Como também, o impacto e aceleração que a eletricidade proporcionou na região do Cariri, que era marcada pela manutenção das tradições culturais e técnicas, possibilita pensar as novas percepções de espaço e tempo, as transformações técnicas, as relações entre o antigo e moderno, os costumes e as expectativas do porvir que se construíram no cotidiano citadino dos juazeirenses, cratenses e barbalhenses.

Entendendo que os discursos são construções de grupos e indivíduos situados, que os utilizam para demarcar e defender seus interesses e objetivos, utilizando-os, assim, para legitimar uma dada realidade, desejos e expectativas. Para Foucault, o discurso é poder e ele transforma os corpos em objetos, mapeando-os, buscando discipliná-los e padronizá-los de acordo com os interesses dos sujeitos que os produziram. A procura de discipliná-los, de torná-los dóceis, detentora de um “dispositivo arquitetural” se torna mais visível na cidade. Nela, de acordo com esse filósofo, podem-se perceber os programas disciplinares que foram “marcados” em suas paisagens, instituições, formas e discursos predominantes para a sua organização. Sendo ela, portanto, o Panóptico, “laboratório do poder” e um “aparelho de controle sobre seus próprios mecanismos” (2009, p.194).

Portanto, a instalação da CELCA (Companhia Elétrica do Cariri) no Cariri e, especialmente, em Juazeiro mudou o cenário da cidade e sua atividade ainda arraigada pelas técnicas simples de um artesanato manual realizada em seu território. A instalação desse serviço forneceu os meios para a utilização de instrumentos tecnológicos que puderam favorecer uma maior intensificação da produção. A fundação da CELCA foi, assim, um marco para a modernização da região do Cariri e em especial da “Terra do Padre Cícero”, ou seja, era “inegável o crescimento industrial juazeirense após a chegada da CELCA” (Jornal A AÇÃO, Ano XXVIII, nº. 1.210, 1967, p. 04).

Pensamos a região do Cariri é analisar uma espacialidade repleta pela tradição e sua (re) invenção. Para Marques, “ao eleger a região do Cariri” como objeto de investigação é verificar “um espaço que informa e atualiza a ideia de perpetuação de uma tradição, idealmente vinculada à terra, ao seu povo e à sua história” (2004, p.58). Dessa forma, procuraremos analisar como a aceleração ocorrida na região com o advento dessa eletricidade modificou os padrões tradicionais que se fincavam em valores ligados a uma temporalidade que fora produzida no passado. Percebendo, assim, os choques exteriores promovidos pelas novas técnicas que chegavam ao Cariri, pelos discursos de afirmação de sua modernidade e as percepções dos caririenses da aceleração do tempo em seu cotidiano, que, por sua vez, lançaram expectativas para o porvir. Para Marques, a inserção da ideia de modernidade no Cariri a partir de 1950, não veio como um furacão que devastou as práticas tradicionais da região, nem tampouco promoveu a exterminação das particularidades locais. Ela fora, para esse antropólogo, uma “modernidade encarnada”, em que havia a “coexistência entre estes fluxos”, ou seja, o moderno e a “ideia de tradição”. (2008, p.196).

Para Hobsbawn, essa (re) invenção da tradição se dá “quando as velhas tradições, juntamente com seus promotores e divulgadores institucionais, dão mostras de haver perdido grande parte da capacidade de adaptação e da flexibilidade; ou quando são eliminados de outras formas” (1997, p.12). Pensamos aqui que a modernização da região não exterminou a sua tradição, o moderno e o antigo não se anularam. Havia, portanto, uma sobrevivência mutua de adaptação, não total, entre eles e uma flexibilidade cotidiana que (re) inventava a região.

Sendo a eletricidade, assim, um dos elementos do moderno e fator que promoveria a chegada de outros símbolos desse crescimento econômico, como as indústrias de grande porte. Analisaremos, assim, a modernização do Cariri através desse viés. Em uma matéria produzida por Waldery Uchôa5 e publicada no Jornal O Povo, particularmente na seção dedicada as cidades do interior do estado, procurou delinear os novos rumos proporcionados, pela eletricidade de Paulo Afonso, ao Cariri cearense. Ele dividiu a matéria em três partes, à primeira era uma pequena história da CELCA, a segunda a sua primeira etapa de expansão na região e, por fim, os benefícios modernos e industriais que o Cariri vivenciou a partir da instalação dessa empresa elétrica. Por exemplo, para Uchôa, em Juazeiro do Norte “seis grandes indústrias surgirão, juntamente com a energia de Paulo Afonso. São a ICASA, a Irmãos Bezerra, a SIROL, a Linard e duas outras. Dentre estas, merece destaque a parte a ICASA- Indústria e Comércio de Algodão S. A. que terá a mais moderna maquinaria de beneficiamento de algodão da América do Sul” (O POVO, 1961, p.17).

Para Le Goff (1990), a três tipos de modernização, a saber, a modernização equilibrada, conflitual e por tentativas. Tencionamos utilizar, nesta pesquisa, o terceiro tipo. Ele possibilita analisar o espaço caririense pelas constantes tentativas feitas pela elite letrada regional em prol de (re) inventar o Cariri a partir do contato da imagem da tradição, sendo constantemente (re) forjada a fim de construir elementos de identidade e unificação territorial, e do moderno. Dessa forma, o antigo e o moderno não foram equilibrados rapidamente e nem passivamente. Contudo, sobre diversas maneiras e formas, através de tensões cotidianas, de batalhas discursivas que procuravam “conciliar “moderno” e “antigo”, não através de um novo equilíbrio geral, mas por tentativas parciais” (LE GOFF, 1990, p.165).

Para Del Priore (1997), a história do cotidiano não está alheia às realidades políticas e nem temporais, nem é um espaço inerte e símbolo da passividade dos consumidores. Já para Certeau (1994), as pessoas comuns em suas microrresistências, reinventam os códigos de dominação e de consumo. Dessa forma, o cotidiano caririense, pensado aqui, possibilitou-nos analisar os embates políticos, as tensões entre espaço de experiência e os horizontes de expectativas6, ou seja, as expectativas dos caririenses em relação à CELCA e as modificações de seus espaços de experiências através da aceleração promovida pelas transformações técnicas e a entrada em sua vida diária de objetos tecnológicos. Quais, então, as mudanças dos caririenses em sua percepção espacial e temporal com o advento de novas técnicas a base da eletricidade?

Mas, faz-se jus esclarecer uma questão: O que entendemos por técnica e tecnologia? Segundo Vargas, a técnica é “uma habilidade humana de fabricar, construir e utilizar instrumentos” (1994, p.15). A tecnologia está ligada a uma especialização profissional, que é formada pela técnica, mas não apenas como arte e maneira de fazer algo. Conjuga-se a isso, uma pesquisa científica que muda as formas de fabricação, que sofistica os processos produtivos, maquinificando-os e massificando-os. Para Silva Filho, pensar objetos e processo de fabricação como tecnológico é relacioná-los ao “complexo de produção fabril e organização burocrática do mundo do trabalho, fenômeno e operações circunscritos à, ou tributários da, Revolução Tecnocientífica do século XIX, com aplicação maciça e sistemática de capitais, investimentos cognitivos, novos materiais e fontes energéticas – vapor, aço, eletricidade, combustão interna” (2000, p.10).

Em matéria publicada no Jornal A Ação escrita pelo poder executivo juazeirense, à época era o prefeito Mauro Sampaio, procurou narrar e demonstrar com dados o plano de ação de seu governo. Nessa matéria ele colocara as mudanças ocorridas no espaço de experiência da técnica dos juazeirenses e o horizonte de expectativas provocado pela vinda da eletricidade. Segundo Sampaio, em Juazeiro do Norte “a grande maioria das atividades industriais ocorria em forma de artesanato principalmente pela falta de energia elétrica, continua e com potencial industrial. A chegada da energia de Paulo Afonso trouxe para Juazeiro a esperança de poder usufruir dos múltiplos benefícios da eletricidade” (A AÇÃO, 1967, p.4).

Ao buscar pensar o impacto da eletricidade urbana no cotidiano do Crato, Juazeiro e Barbalha, seria verificar as tensões para a construção de um equilíbrio parcial entre o moderno e o antigo, as técnicas artesanais e industriais. Pensamos esses espaços urbanos de acordo com Spengler. Segundo Carl (2000), esse historiador analisa a cidade olhando a negação de todas as concepções desse espaço feitas desde Voltaire. No século XVIII, época do iluminismo, a cidade foi olhada como virtude, no início do XIX, período da Revolução Industrial, como vício e na segunda metade do XIX, momento de uma nova cultura objetiva, a cidade é olhada para além do bem e do mal.

Esse processo de eletrificação urbana do Cariri como um dos elementos de modernização da região, pois ela fomentou o fortalecimento e ampliação de suas indústrias, promovendo uma aceleração na vida dos trabalhadores, artesãos e do mais simples habitante do sul cearense. E também entendermos até que ponto o Cariri, lugar central para todos os estados do Nordeste, considerado o vale desse sertão e marcado pela sua imagem como reduto da tradição, lutará também pela sua modernização a partir da eletricidade. Quais as tensões dos novos ritmos impostos pela aceleração do tempo e o advento de novas técnicas no cotidiano urbano caririense? Para a imprensa cearense a chegada da energia de Paulo Afonso era símbolo de mudança, modernização e industrialização para as cidades do sul cearense. Para o Jornal Gazeta de Notícia7, em seção dedicada as notícias do interior,


A história do desenvolvimento do Cariri está intimamente ligada à história da CELCA. Não fora a implantação desta, e a região ainda hoje estaria na época do lampeão de querosene e, quando muito, pagando o pesado tributo aos “motores” das prefeituras. A energia de Paulo Afonso como num sonho, chegou até ao Cariri depois de muitas lutas, marchas e contra-marchas, palavras empenhadas, apoios públicos e um sem-número de recursos utilizados. Prefeitos, lideres, todos quantos se interessavam pelo desenvolvimento da região caririense contribuíram de uma maneira ou de outra para a energização do Sul cearense (Ano XIII, n.12.228, 1969, p.03).
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Neste artigo buscamos dar um panorama geral do que vem a ser a minha pesquisa de mestrado. Procuramos enfatizar alguns teóricos, o contexto histórico e a importância da pesquisa. A criação da CELCA em 1961, depois de lutas na seara política estadual e federal travadas desde finais da década de 1940 fora um marco de vitória e esperança de mudanças substanciais na vida dos caririense.

A entrada de produtos industrializados da região e consequentemente as possibilidades de consumi-los, proporcionou uma mudança de costumes e de rotina que impactou a vida do artesão ou do camponês das cidades do Cariri. Na década de 1960 as industriais começam a instalar-se na região, o aumento do proletariado torna-se mais visível e as possibilidades de uma vida de conforto encantam as donas de casa das famílias mais favorecidas do Cariri, possuir primeiramente energia elétrica em sua casa e depois um artefato tecnológico, por exemplo, uma televisão era demonstrar um status socioeconômico.

Enfim, em meio às conflitos em prol da eletrificação o Cariri se uniu para conseguir tal insumo, depois as diferenças internas da região seriam destacadas, a partir da (re) construções existentes entre o Rio São Francisco e o Cariri, sua natureza e história, essa era mapeado pela ideia de civilização da região por meio da eletricidade. Pois, depois de eletrifica o vale, as cidades que faziam parte dele iniciam a luta de demonstração de mercado e poder de influencia, esse dilema se deu com maior intensidade entre a cidade de Juazeiro do Norte e Crato, cada uma querendo destacar as suas características como símbolo de um Cariri moderno pós-eletrificação.
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1 Mestrando em História pela Universidade Federal do Ceará e bolsista da FUNCAP. Email: historiaassis47@yahoo.com. Trabalho apresentado no ST: Cultura e Natureza. II Encontro Internacional História, Memória, Oralidade e Culturas (2014).

2 Fundou-se na Cidade do Crato, em 1953, o Instituto Cultural do Cariri (ICC) e no Juazeiro do Norte se criou, em 1974, o Instituto Cultural do Vale Caririense (ICVC). Para o historiador Viana (2011), os membros do Instituto Cultural do Cariri almejaram construir uma imagem do Cariri a partir do Crato como polo de destaque e civilizador da região, em contraponto a Juazeiro do Norte que se destacava nas atividades comerciais, artesanais e industriais, tomando assim a direção econômica da região. Para a historiadora Cortez, “superando o poder econômico do Crato na região e constituindo um forte poder de barganha política junto aos governos estadual e federal, Juazeiro elaborou para si os adjetivos de “cidade da fé e do trabalho”, “metrópole econômica”, mas nunca pôde ser adjetivada de cidade civilizada ou culta. Esses foram atributos do Crato, estratégias discursivas com as quais os “especialistas da produção cultural” passaram a defender, conscientemente, a superioridade do Crato na região, à medida que Juazeiro a superava no plano econômico e político” (2000, p.67).

3 A chegada do Banco do Norte do Brasil na região nos anos de 1950 e seus planos de investimentos para a economia local.

4 Segundo Leite, “resultam dessa proposição as Leis nº. 8.031 e 8.032, de 3 de outubro de 1945, assinadas pelo Presidente da República: a primeira autorizando a criação da sociedade por ações, destinada a realizar o aproveitamento do potencial hidráulico do São Francisco, para produção de energia elétrica, primeira intervenção do Governo Federal no gênero; e a segunda, abrindo crédito no Ministério da Fazenda para subscrição de 50% das ações” (1996, p.159).

5 Nasceu em Canindé, foi advogado, professor e deputado constituinte. Ocupou a vice-presidência da Confederação Nacional dos Prefeitos e Vereadores do Brasil, da Associação Brasileira do município, membro do Instituto do Ceará, Associação Brasileira de Escritores, Academia de Letras do Amapá e do Instituto Cultural do Cariri (ICC).

6 Para Koselleck, “a experiência é o passado atual, aquele no qual acontecimentos foram incorporados e podem ser lembrados. Na experiência se fundem tanto a elaboração racional quanto as formas inconscientes de comportamento, que não estão mais, ou que não precisam mais estar presentes no conhecimento” (2006, p.309), a expectativa por sua vez, “é ao mesmo tempo ligada à pessoa e ao interpessoal, também a expectativa se realiza no hoje, é futuro presente, voltado para o ainda-não, para o não experimentado, para o que apenas pode ser previsto” (Idem, p.310).

7Jornal Gazeta de Notícias, matutino diário, foi fundado em Fortaleza em 1927. Segundo Silva Filho, esse jornal era “[...] de formato e proporção [...] modestas, trazia matérias menos laudatórias que o Unitário e o Correio do Cariri, e por vezes buscava indicar uma postura de isenção no tocante aos assuntos abordados” (2000, p. 19). Essa matéria foi publicada em seção chamada: CELCA fator de desenvolvimento, ela não possuía o nome do editor. Essa página de matéria sobre a CELCA é dividido em três tópicos: uma pequena história da empresa, o crescimento do mercado de energia da CELCA de 1965 a 1969 e sua área de atuação.



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