Marcos Rey corrida infernal 2ª dição texto editor



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Série Vaga-Lume – CORRIDA INFERNAL – Marcos Rey





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Marcos Rey
CORRIDA

INFERNAL
2ª dição



TEXTO
Editor

Fernando Paíxão


Assistente editorial

Carmen Lucia Campos


Preparação dos origimais

Denise Azevedo de Faria


Suplemento de Trabalho

Luz B. de Carvalho Cwemer



ARTE
Editor

Marcos de Sant’Anna


Diagramação

Fernando Monteiro


Ilustrações

Dino F. Alves


Arte-final

Fukuko Saito

Antonio U. Domiencio
Coordenação de composição

Neide Hiromi Toyota


impressão e acabamento por

W. Roth & Cia. Ltda.

ISBN 85 08 036892



1991

Todos os direitos reservados pela Editora Ática S.A.

Rua Barão de Iguape, 110 - Tel.: PABX 278-9322

C. Postal 8656 - End. Telegráfico “Bomlivro” - S. Paulo



10º

Livro de Marcos Rey na Vaga-lume
Mas nunca escrevi livros para a juventude...

Exatamente por isso é que está sendo convidado. Quem sabe um es­treante no gênero tenha até mais facilidade para encontrar novas idéias.


O convite foi feito pela editora durante um almoço, e à sobremesa eu já sentia o gosto do desafio. Estrear na Vaga-Lume, a coleção preferida por milhões de jovens, que só editava sucessos! Voltei para casa, troquei a fita da máquina de escrever e meses depois entregava à Editora Atica os originais de O mistério do Cinco Estrelas, romance policial que tinha como cenário um majestoso hotel paulistano. A experiência deu certo: em poucos meses uma montanha de exemplares vendidos.

Parece que foi ontem, mas já é história antiga. Dez anos, dez títulos, e quantos personagens? Gente de papel que conviveu comigo tanto tempo e que fui compondo pedaço a pedaço e depois recheando de emoções, desejos, medos, paixões, sonhos — vida. Alguns desses persanagens andaram sozinhos de­pressa, quase independentes do autor, a outros tive de dar corda, aperfeiçoar muito, ensinar a falar.

Sempre recebo cartas de leitores que me perguntam dos personagens como se existissem. E foram muito reais, sim, enquanto os produzia, porque se parecem com pessoas que de fato conheci. Igual a um pintor que se despede dos seus quadros ao vendê-los, sinto saudades deles, pois é com o público que se relacionam agora, não mais comigo, já voltado à criação de novas histórias.

Mas como quem está vivo sempre aparece, ainda tenho a impressão de rever, às vezes, ao dobrar uma esquina, num elevador, num ônibus, ou passan­do de relance num táxi, o Leo de O mistério do Cinco Estrelas, de O rapto do Garoto de Ouro e de Um cadáver ouve rádio, a Pimpa de Sozinha no mundo, o Danilo de Dinheiro do céu, o Cláudio e a Patrícia de Bem-vindos ao Rio, o repórter lvo de Enigma na televisão, o Felipe de Garra de campeão, o Edu de Quem manda morreu, como também espero reencontrar um dia, misturados com o povo, a Elaine e o Vítor deste 10º romance juvenil que pu­blico na Vaga-Lume.



Espero que ele continuem circulando por aí, levando emoções, entrete­nimento e alguma experiência de vida a esse público jovem que está desco­brindo o fascinante mundo dos livros.


SUMÁRIO

1. As jóias do cofre ..... 08

2. A famosa Maitê ..... 09

3. O apartamento sobre o viaduto ..... 12

4. A dona da Maitê outra vez ...... 13

5. Viva o verde! ..... 14

6. Bóris e Duque ..... 17

7. O Captain Silver na tevê ..... 18

8. Lena no escuro ..... 22

9. Uma nobre decisão ..... 25

10. Já lembrou daquilo Lena? ..... 26

11. Uma Maitê para Gabi ..... 28

12. Um beijo em Maitê ..... 31

13. Notícias na hora do almoço ..... 31

14. O destino continua mau para Gabi ..... 35

15. Uma operação na boneca ..... 36

16. O nome é Zizo ..... 39

17. Visita de amigos para Priscila ..... 40

18. Elaine e Vitor perto dos cem mil dólares? ..... 41

19. Como agem os facínoras? ..... 42

20. Ladrão de boneca! ..... 46

21. O que aconteceu com Priscila? ..... 48

22. Algo mais importante que os cem mil dólares ..... 49

23. Eles, outra vez ..... 50

24. Não destruam os orelhões ..... 51

25. Uma cena de filme acontece ..... 52

26. Quem quer comprar uma boneca? ..... 54

27. O silêncio de quem sabia demais ..... 55

28. Vovó Selma sai do guarda-roupa ..... 56

29. Quem quer comprar uma boneca? ..... 60

30. À procura de Zizo ..... 60

31. Um lugar escuro, estreito e asfixiante ..... 62

32. A presidenta e a vice ..... 63

33. À espera da mãe de Zizo ..... 64

34. BRUMMM ..... 65

35. Todos os passos da gangue ..... 65

36. O telefonema divertido ..... 67

37. Zizo recebe visitas famosas ..... 68

38. Sinais esclarecedores ..... 70

39. Má notícia ..... 71

40. Agitação na delegacia ..... 72

41. Uma população de bonecas ..... 73

42. E agora? ..... 74

43. Vovó Selma na delegacia ..... 76

44. Mais uma etapa da gincana infernal ..... 77

45. A montanha de Papai Noel ..... 78

46. A polícia entra na gincana ..... 79

47. Os bandidos retornam ..... 80

48. Alguém no meio do lixo ..... 82

49. Elaine e Vitor diante da montanha ..... 83

50. Vovó Selma volta para o apartamento ..... 87

51. Presentes desembrulhados muito antes do Natal ..... 88

52. Que lugar é esse? ..... 90

53. No lugar do diamante um par de algemas ..... 91

54. Aluga-se quarto? ..... 91

55. O que era ruim começa a ficar pior ..... 94

56. Vitor quebra a promessa ..... 96

57. Horas de terror ..... 97

58. Últimos lances da gincana ..... 101

59. Será que acaba assim? ..... 102

60. Fins ... 105




1
As jóias do cofre
Havia naquele vagão do metrô um par de olhos gran­des, pretos e curiosos. Raramente Elaine — 16 anos, uma bele­za! — viajava abaixo do nível do solo, por sob a cidade, e preci­sava observar tudo muito bem, para depois contar o que havia visto a vovó Selma. Idosa e pesadona, nem de ônibus ela viaja­va mais. Na ida, ansiosa, não se fixara em nada, com receio de que sua missão fracassasse. Mas como se saíra bem trazia o dinheiro da pulseira, uma das jóias do tesouro da avó volta­va num relax gostoso, aliviada. “Pelo menos por um mês pode­mos ir tocando a vida”, dizia-se.

Órfã desde menina, Elaine morava com a avó mater­na num pequeno apartamento, no miolo de São Paulo, ao lado do mais barulhento dos viadutos, o Minhocão. De todos os la­dos, apenas edifícios. Verde, para ela, era cor que só existia na televisão e nos livros. O próprio azul do céu se mostrava, limita­damente, por entre os prédios, azul desbotado ou acinzentado pela poluição. Aprendera com Vítor a invejar as pessoas que con­viviam com as cores, os animais, o silêncio e a natureza. Aliás, animal, tinha um, uma gata, a gata Christie, assim batizada por vovó Selma, leitora fanática de romances policiais.

Vidinha dura levavam Elaine, a avó e a dita gata, sus­tentadas por uma única fonte de rendas fixa: a exígua aposenta­doria deixada pelo avô, menor a cada mês, devido à inflação. Para complementar a verba familiar, dona Selma produzia bom­bons de chocolate — uma delícia, — que a neta entregava a uma reduzida freguesia, apenas ampliada na Páscoa e no Natal. Fe­lizmente, havia o mencionado tesouro, um cofre velho, outrora cheio até a boca de colares, pulseiras, broches, medalhões, brin­cos e anéis acumulados nos bons tempos pelo pai de Elaine, es­perto corretor de imóveis. Durante muito tempo, vovó Selma re­sistira à necessidade de vender as jóias, porém, com o agrava­mento da situação financeira, resolveu negociá-las uma a uma, sempre que o sustento das três era ameaçado.

Naquela tarde, Elaine visitara uma antiga conhecida de vovó Selma para vender uma pulseira. Não alcançara bom preço, mas trouxera o dinheiro na bolsa. Por isso sentia-se fe­liz. E já satisfeita com o que observara do metrô, fez o de sem­pre: pensar em Vítor. Ah, Vítor! Estava apaixonada. Ele não se parecia com um príncipe encantado das historietas, talvez nem fosse bonito, mas amava-o mais a cada dia. Quanto a ele, aqui­lo nem era amor, era obsessão, condimentada por uma forte dose de ciúme, uma colher cheia, que em lugar de atrapalhar, torna­va tudo melhor.

Foi então que Elaine viu a moça de amarelo.

2
A famosa Maitê
Subitamente uma moça alta e bonita, vestida de ama­relo, demonstrando certo nervosismo, entrou no vagão e sentou-se ao lado de Elaine, sem se acomodar, inquieta. Na mão, segura­va uma boneca loira, muito chique, exatamente do tipo que apa­recia na tevê em todos os intervalos comerciais “Peça sua Maitê ao papai”, verdadeiro sucesso nas lojas naquele dezembro. Elaine já passara da idade de brincar com bonecas, mas não dei­xou de olhar ternamente para aquela coisinha sofisticada, que mexia os olhos verdinhos, sem dúvida o presente mais cobiçado por todas as meninas do país.

A moça, muito maquiada, a princípio nem tomou co­nhecimento de Elaine, sempre a olhar toda a extensão do vagão. Depois, deu uma respirada profunda, de encher os pulmões. Afi­nal, percebeu Elaine a seu lado e começou um sorriso, que não se completou.

— É uma Maitê, não é? perguntou Elaine, com os olhos fixos na boneca.

A moça de amarelo ouviu, mas não estava lá; zigue­zagueava olhares preocupados. Ao ver um homem corpulento que circulava, elétrico, como se procurasse alguém, curvou-se toda sobre Elaine. O homem passou.

— Sim, é uma Maitê — confirmou, retomando o sor­riso interrompido.

Elame sentiu seu perfume, bom demais, constatando que de perto a estranha passageira parecia menos jovem, embo­ra sua beleza persistisse. Por que não se sentava mais conforta­velmente? Teve a impressão de que desejava evitar alguém que tomara o mesmo trem.

— A senhora está preocupada?

— Eu? Claro que não respondeu a moça de ama­relo, como se acusada de alguma coisa. E para desfazer essa apa­rência passou a mão nos cabelos da boneca um tanto desajeita­damente. Depois, perguntou: Viaja sempre de metrô?

— Poucas vezes.

— Então não mora em São Paulo?

— Moro respondeu Elaine, — mas no centro, qua­se nunca vou aos bairros mais afastados. Hoje tive de fazer uma visita, a pedido da minha avó.

Inclinando-se ainda mais para o lado de Elaine, ence­nando grande interesse, quando sua verdadeira intenção era a de não ser reconhecida, a moça de amarelo perguntou:

— Vive com sua avó?

— Meus pais morreram há muitos anos num desastre de automóvel. Vivo com minha avó e uma gatinha.

A passageira não se comoveu, pois sua atenção não estava ali, mas, para alimentar a conversa, comentou vagamente:

— Então mora no centro...

— Bem diante do viaduto, emparedada entre os edifí­cios. Um lugar feio e barulhento. Até para dormir é difícil. Tem um cavalo de neon que acende e apaga a noite toda, iluminando nosso quarto. Anúncio de um cigarro...

A moça de amarelo fitava Elaine, desatenta. Porém, manter a prosa era importante.

— Como é seu nome?

— Elaine.

— Bonito nome — disse, sem exclamação, apenas para falar. Tive uma amiga chamada Elaine.

Elaine viu o homem corpulento que passara acompa­nhado de outro, este pequeno, enfiado numa capa de chuva. A dona da Maitê seguiu a direção do olhar de Elaine e deu com os dois homens à porta do vagão, como se contassem os passa­geiros ou procurassem identificar um deles.

A moça de amarelo dirigiu-se a Elaine, afobada, en­quanto o trem parava na estação Santa Cecília.

— Fique com a boneca disse, passando-lhe a Mai­tê, como quem quisesse se livrar duma bomba-relógio. — Onde você desce?

— Na Praça da República.

— A gente se vê mais tarde — acrescentou, levantando-se apressada e seguindo na direção oposta à dos homens.

As portas do vagão abriram-se automaticamente, dan­do ingresso a novos passageiros e formando a habitual lufa-lufa dos que entravam e saíam. Os dois homens começaram a em­purrar uns e outros, brutalmente, provocando reações também violentas. Formou-se uma confusão. Um deles, que teria visto a moça sair, decidiu deixar a composição, enquando o outro per­manecia no vagão, atarantado.

Elaine, assim que tudo se acalmou, levantou-se com a Maitê nas mãos e foi colar o rosto numa das janelas para veri­ficar o que acontecia na plataforma. Viu o homem da capa de chuva; a moça, não. Quando o trem se afastou da estação, vol­tou a sentar-se em seu lugar. Tinha certeza que a coitada fora perseguida por bandidos. Verdadeiras gangues sempre agem nos ônibus e trens.

Praça da República. Elaine desceu do trem olhando para todos os lados. A moça de amarelo evaporara. Viu apenas o homem corpulento, que não descera do vagão, atento a tudo. O da capa de chuva teria agarrado a moça, à luz do dia, na fren­te de todos? Havia, no entanto, uma indagação mais intrigante: por que lhe dera a Maitê?

3
O apartamento sobre o viaduto
Vovó Selma era conhecida no edifício como “a velha simpática do quinto andar”, ou como “a avó daquela gracinha de garota”, ou como “a dona daquele gato que toma sol peri­gosamente no parapeito da janela”. Preferia ser reconhecida sim­plesmente como a avó de Elaine, para ela a moça mais charmosa do quarteirão. Corujice duma mãe-avó para com sua filha-neta, única pessoa que lhe restava no mundo. Mas dona Selma não ostentava o jeito depressivo das pessoas solitárias. Bastava ter um romance policial nas mãos para ficar alegre. E apesar dos seus cabelos brancos, estava a par de tudo que acontecia, sem­pre atualizada, graças ao rádio e à televisão. Descobriram mais um satélite de Júpiter! Roubaram uma tela de Van Gogh! Vão tentar novamente tirar o Titanic do fundo do oceano! Superli­gadíssima.

Elaine abriu a porta e entrou, anunciando:

— Vovó, vendi a pulseira!

Sorriso de alívio.

— Fomos salvas pelo gongo mais uma vez! — Era uma expressão que costumava usar, lembrando os pugilistas que o “bleem” do gongo livrava duma derrota feia.

— Dona Irene não pagou o que a senhora pediu, mas quase chegou lá — informou Elaine, pondo a boneca sobre a mesa e entregando o dinheiro recebido à avó.

— Não faz mal replicou a velha. — A jóia não era nenhum Captain Silver, igual ao que foi roubado hoje de ma­nhã duma joalheria. Vale milhões de dólares! — Olhou então para a mesa, exclamando: Uma Maitê! Voce não ligava pra bonecas nem quando era menina...

— Acha que ia gastar dinheiro com isso aí?

— Não vá me dizer que é presente do Vítor.

— Não é, mas podia ser; ele está usando o carro dele para entregas e cobranças duma firma. Precisa ganhar dinhei­ro. No ano que vem vai prestar vestibular.

— Então, quem lhe deu a boneca?

— Uma moça, no metrô. Estava sendo perseguida.

— Na estação?

— Não, vá, dentro do vagão. Eram dois tipos que pa­reciam bandidos de cinema. Houve até um conflito no vagão entre eles e passageiros.

— Pegaram a infeliz?

— Desapareceu na primeira parada.

— Ainda bem, coitada. E ela lhe deu a boneca?

Elaine ia responder, mas começou a rir: a gata Chris­tie erguia-se sobre as patas para recepcionar a famosa Maitê.



4
A dona da Maitê outra vez
Assim que a moça de amarelo saiu do trem, misturou-se com o povo que estava na plataforma. A princípio não se me­xeu muito, a olhar para uma das janelas do vagão. Viu Elaine com o rosto encostado na vidraça. Fez-lhe um breve sinal, inter­rompido pelo empurrão de algum apressado. Pensou em retor­nar ao vagão e pegar a boneca, quando seus olhos deram com o homem de capa de chuva. Subiu precipitadamente a escada. Na superfície, seu primeiro impulso foi chamar um táxi. Teve de resignar-se e esperar alguns minutos até que passasse um de­socupado. Entrou.

— Estação República do metrô.

O táxi ficou preso no trânsito. Custou muito a chegar à praça. A moça, nervosa, desceu, mas não dispensou o carro. Ficou olhando para um lado e outro, inquieta. Dez longos mi­nutos. A garota já devia ter cansado de esperá-la.

Para o viaduto, motorista.

— Que viaduto?

A garota do metrô dera-lhe outra indicação, mas de­pois de tanto susto, não lembrava.

— Qualquer um disse. — Só para conhecer a cida­de. Vim do Norte.

“Eles vão acreditar no que aconteceu?”, perguntava-­se. A preocupação inicial se transformava em pavor. Já não era sua liberdade que estava em risco, mas sua própria vida, O que deveria fazer? Enfrentá-los? Ou fugir? Uma ou outra decisão poderia decretar o seu fim.



5
Viva o verde!
Tocaram a campainha do apartamento: era Vítor, o namorado de Elaine, dois anos mais velho que ela e que morava com os pais noutro edifício, vizinho do ruidoso Minhocão. Trazia um minúsculo vaso com uma única flor plantada e um sorri­so amplo nos lábios. Com sorrisos e gentilezas conquistara o co­ração de vovó Selma, um pouco durona em relação aos admira­dores da neta.

— Presente pra mim? perguntou Elaine, já pegan­do o vaso.

— Esse é o novo símbolo da nossa campanha ecológi­ca disse o rapaz, mostrando uma frase pintada no vaso. —“Viva o verde!”

— Não vou deixar a flor morrer garantiu Elaine.

— Fui eleito segundo-secretário da ala juvenil do mo­vimento. Vamos distribuir milhares de vasos. Se não cuidarmos da natureza acabaremos morrendo asfixiados. Já há gente usando máscaras pelas ruas. São Paulo é uma câmara de gás.

Vovó entrou na sala.

— Chegou o inimigo n° 1 da poluição! — exclamou.

— Veja o vaso que ele trouxe! Engraçadinho, não?

— “Viva o verde!” ela leu. — Mas será que a men­sagem atingirá o coração dos industriais? Quem polui são eles, com suas chaminés, não o povo. São os automóveis que eles fa­bricam. Os vasinhos vão convecê-los a gastar dinheiro com fil­tros e outros recursos técnicos que evitam a poluição?

Não era a primeira vez que vovó Selma, muito objeti­va lhe dizia essas coisas.

— O vasinho ajudará a sensibilizá-los, dona Selma.

— Confio mais em leis, leis enérgicas, do que em simbolos.

— Os deputados vão receber nossa mensagem. De de­grau em degrau a gente... Viu a boneca sobre a mesa e, com uma ligeira suspeita, voltou-se para Elaine. — Comprou a Maitê?

— Não.


— Ela ganhou — disse a avó.

— Não posso dizer que ganhei — rebateu Elaine, em atitude defensiva. Conhecia Vítor de sobra.

Ciúme tem uma cara inconfundível: a que Vítor fazia.

— Se foi algum fã, diga.

— Não foi.

— A boneca vale muito mais que meu vasinho mi­xuruca.

— Calma, mocinho. Elaine só namora você, apesar de tantos jovens cavalheiros que a cortejam — interveio vovó Seilma, com sua maneira de dizer de antigamente. — Quem deixou a Maitê com ela foi uma moça, no metrô, que estava sendo as­sediada por ladrões. Mas você não está acreditando. Conte vo­cê, Elaine, antes que este ciumento sofra um colapso.

— Foi como a vovó disse. Uma moça deixou a bone­ca comigo. E não a vi mais. Havia dois bandidões atrás dela.

— Estranho comentou Vítor. Não acham?

— O que há de tão estranho nisso? — perguntou Elaine.

— Uma moça com uma boneca. Que idade tinha ela?

— Trinta, por aí.

— Não era muito velhinha pra brincar com bonecas?

— Talvez fosse dar a Maitê de presente.

— Estava dentro duma caixa?

— Não.


Se era presente, devia estar dentro duma embala­gem. Ou não? Quem respondeu foi a simpática senhora do quinto andar.

— Concordo, ainda mais em dezembro, mês de pre­sentes.

Elaine:

— Quem sabe ela é que foi a presenteada.



— Não muda nada. Da mesma forma, a boneca de­via estar na caixa. Elaine não percebia onde Vítor queria chegar.

— A moça podia ter ganho a boneca há algum tempo e já ter se desfeito da caixa.

Vítor quis mais respostas para mais perguntas.

— Por que ela deixou a boneca com você?

— Para escapar dos bandidos.

— Mas a boneca é pesada?

Elaine ficou muda; vovó Selma, não.

— A boneca poderia identificá-la mais facilmente, en­tendeu? Sem ela, teria mais chance de se confundir com outras mulheres e escapar dos malvados.

Vítor reconheceu que havia lógica nisso e resolveu pôr um ponto-final em seu show de ciúme. Vendo a gata cruzar a sala, brincou:

— Se há algum mistério nisso deixemos que a gata Christie esclareça. — E voltando-se para Elaine, já sem descon­fiança: — Que diz de dançar esta noite?

— Não é perigoso andar por aí de madrugada, com a barra pesada que se tornou esta zona? objetou vovó Selma.

— Vamos no meu carro — disse Vítor orgulhosamen­te. O carro dele era quase uma sucata, mas dirigindo-o sentia-se um rei. — Apenas uma horinha, Elaine. — Como a namorada concordasse, abriu a porta com o dia ganho. Antes de sair, lembrou-se ainda de perguntar: — Essa moça, quando fugia, gri­tava, pedia socorro aos passageiros?

— Não — respondeu Elaine.

— No lugar dela, você não gritaria? — perguntou, sem esperar, porém, pela resposta. Saiu.

Vovó Selma, novamente a sós com a neta, comentou:

— Ciúme é o tempero do amor. Seu avô também era ciumento. Costumava armar cenas.

— Mas Vítor vai além das medidas. Deve estar quase certo de que ganhei a Maitê de algum rapaz da escola ou aqui do bairro. Aposto que vai voltar ao assunto na danceteria. In­ventará uma porção de perguntas para que eu caia em con­tradição.

Vovô Selma ouviu, mas não atenta. Perguntou:

— Então a tal moça de amarelo não chamava por socorro?

— Não.


— Por que não? Para proteger os bandidos?
6
Bóris e Duque
A moça de amarelo correu de táxi diversos viadutos centrais a olhar pela janela. Sua esperança era ver qualquer coi­sa que a fizesse recordar a indicação que a garota do metrô lhe dera. Saber que morava com a avó e uma gata num apartamen­to pequeno era quase nada. Procurar por uma garota bonita, de imensos olhos pretos, parecia-lhe mais ficção que realidade. Quantas não haveriam assim, morando à margem dos viadutos? Decidiu: vou desaparecer. Mas, se desaparecesse, seria perseguida até o fim do mundo.

Deixe-me no Emperor Park Hotel pediu ao mo­torista.

Diante do maravilhoso hotel era menos suspeito hospedar-se em hotéis cinco estrelas, o táxi parou e a moça de amarelo desceu. Apanhou a chave na portaria, tomou o ele­vador, mas não se dirigiu ao seu apartamento. Bateu numa porta.

Um homem’ baixo, duma gordura maciça, quase cal­vo, com ralos cabelos ruiVos nas partes laterais da cabeça abriu a porta.

Ela chegou, Duque.

Havia outro homem no apartamento, este mais alto, moreno, vestindo um blazer elegante. Mas tão preocupado quanto o primeiro.

— Por que atrasou tanto, Lena? — perguntou o mais baixo.

— Tudo deu errado.

— O que deu errado?

— A policia me reconheceu no metrô. Dois tiras. Meu coração ainda está pulando.

— Guardou a boneca no seu apartamento?

Lena engoliu em seco: teria de revelar a verdade.

— Não a trouxe...

— O quê? exclamou Duque. Ouviu, Bóris?

O baixo e ruivo, Bóris, puxou Lena para o interior do apartamento e apertou-lhe o braço, exigindo explicação. Estava furioso.

— Tive de me livrar dela... Me largue, por favor!

Brincadeira tem hora disse Bóris, sem largar a moça. — Está querendo nos passar pra trás?

— Meu braço... — gemeu Lena.

— Solte-a, vamos ouvir o que tem a dizer — ordenou Duque.

— O que você fez, jogou a boneca pela janela do trem?

Massageando o braço, Lena contou:

— Deixei a boneca com uma garota no metrô. Não po­dia ser presa com ela, podia?

— Mentira! — urrou Bóris. — Aposto que não há bo­neca alguma!

Duque, mais calmo, queria respostas esclarecedoras.

— Deixou a boneca com uma garota qualquer, sem saber quem era?

— Chama-se Elaine.

— Onde ela mora? insistiu Duque.

— Perto de um viaduto, com a avó.

— Que viaduto? — perguntou Bóris dessa vez, pon­do uma dose de bebida num copo.

— Não houve tempo para dizer.

— Quer dizer que ela está perdida? — berrou Bóris, fora de si, já investindo sobre Lena como um bólide. — Está?

— A gente pode encontrá-la.

— No meio de quinze milhões de pessoas? Está louca?

Lena recuou, dizendo:

— Ela deu uma indicação a mais. Qualquer coisa que não consigo lembrar. Os tiras me pregaram um grande susto. Houve uma confusão no metrô. Ainda estou muito nervosa.

— Você vai ter de lembrar exigiu Duque.

— Ou lembra, ou morre — ameaçou Bóris.

Lena sacudiu a cabeça, concordando: lembrava ou morria.

Volte para seu apartamento decidiu Duque. —Descanse e procure se lembrar. Sua vida está em jogo.

Sem dizer mais nada, Lena saiu do apartamento. No corredor, pensou ainda em fugir, mas novamente não teve cora­gem. Bóris tinha faro de lobo e a encontraria. Mas o que Elaine lhe dissera, qual fora a dica para localizar seu endereço?

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