Maria angélica cardoso1



Baixar 289.03 Kb.
Página1/3
Encontro27.07.2016
Tamanho289.03 Kb.
  1   2   3


ESCOLAS MULTISSERIADAS: DADOS PRELIMINARES

MARIA ANGÉLICA CARDOSO1


Universidade Estadual de Campinas

MARA REGINA MARTINS JACOMELI2

Universidade Estadual de Campinas

Não há instituição sem história e não há história sem sentido. O desafio é trazer à luz esse sentido e, com freqüência, há boas surpresas

(SANFELICE, 2007, p. 79).

1 INTRODUÇÃO

Este trabalho é parte integrante da pesquisa de doutorado em desenvolvimento no Programa de Pós-Graduação da Faculdade de Educação da UNICAMP. Não visamos, nesse momento, apresentar dados analíticos, uma vez que a investigação está em fase de desenvolvimento, mas apresentar os primeiros levantamentos relativos à produção científica acerca das escolas multisseriadas.

A elaboração do projeto teve início em 2006, quando detectamos, em investigações que abordavam a organização do trabalho didático em escolas de ensino fundamental, a baixa produção científica referente às escolas multisseriadas. Tema de meu interesse, o projeto surgiu da relação que fiz entre a minha prática docente, em classes multisseriadas, e a organização do trabalho didático em escolas primárias de ensino mútuo.

Para a elaboração, efetuamos um levantamento inicial sobre o tema com a finalidade de averiguar o volume real de estudos e pesquisas relacionados às escolas multisseriadas. As buscas foram feitas à base do termo escola multisseriada e como segunda opção classes multisseriadas, classes unidocentes, escolas isoladas e escolas rurais.

A primeira busca foi realizada no CD do VII Seminário Nacional de Estudos e Pesquisas do HISTEDBR, realizado em Campinas, em julho de 2006, confirmando a lacuna apontada por Alves (2005) e por Souza e Faria Filho (2006): das 261 comunicações apresentadas constataram-se apenas dezenove ocorrências, ou seja, em apenas 7,2% das comunicações encontra-se referência mínima ao tema, ou seja, apenas citam casualmente a escola multisseriada.

Ampliando-se essa busca3 foram encontrados artigos e dissertações que versam sobre temas ligados às escolas multisseriadas, quais sejam: escolas rurais, educação rural, escolas do campo, educação para o campo, escolas unidocentes e classes multisseriadas. Também aqui, a maioria desses estudos apenas cita a existência de escolas multisseriadas ou escolas unidocentes sem, no entanto, descrevê-las ou analisá-las; e uma minoria refere-se diretamente ao objeto de nosso interesse, quais sejam:

- A História in (visível) do Currículo no Cotidiano de Professoras da Roça, em Classes Multisseriadas (comunicação oral). Autoras: Ana Sueli Teixeira de Pinho e Stella Rodrigues dos Santos. CDROM: 25ª Reunião Anual da ANPED (2003).

- A Heterogeneidade fundante das Classes Multisseriadas no Meio Rural: entre a persistência do passado e as imposições do presente (dissertação). Autora: Ana Sueli T. de Pinho sob a orientação de Stella R. dos Santos. Universidade Estadual da Bahia – UEB

- Classes Multisseriadas no Meio Rural: entre a persistência do passado e as imposições do presente (artigo). Autoras: Ana Sueli T. de Pinho e Stella R. dos Santos. Revista de Educação CEAP.

- A Realidade das Escolas Multisseriadas frente às Conquistas na Legislação Educacional (pôster). Autor: Salomão Mufarrej Hage, professor do Centro de Educação da UFPA. CDROM: 29ª Reunião Anual da ANPED (2006).

- Metodologia de Ensino em Classes Multisseriadas: seis estudos de caso em escolas rurais unidocentes (dissertação). Autora: Lina Pereira da Cunha. UFRS.

- Classes Multisseriadas: ainda um desafio (artigo). Autora: Nora Cecília B. Cinel. Revista do Professor, n. 64/2000.

- Da escola Multisseriada à Escola Nucleada: o impacto cultural e educacional advindo com a extinção das Escolas Multisseriadas (dissertação). Autor: Adair Cesar Martini. UNICS, PR.

- Ilhas de Saber: prescrições e práticas das escolas isoladas do Estado de São Paulo - 1933-1943 (dissertação). Autor: Denise G. Silva. Pontifícia Universidade Católica/SP.

Segundo Piza e Sena4 (2001, p. 13) as escolas multisseriadas são, historicamente, consideradas como de segunda categoria e, o que é pior, sem alternativa de melhoria; por isso, os educadores e os gestores optaram por esquecê-las, esperando que desapareçam como conseqüência natural do processo de desenvolvimento das sociedades. Porém, o desaparecimento natural não existe na história, trata-se, sempre, de funções sociais que cumprem ou deixam de cumprir para desaparecerem ou para recriarem. Por essa razão, apesar de todas as mazelas e das políticas de substituição promulgadas desde a década de 1980, as escolas multisseriadas vêm resistindo e adentraram o século XXI. Esse fato, no entanto, não se faz presente freqüentemente nas pesquisas em história da educação. O tema, pouco explorado, instigou-me a propor o projeto de investigação, aprovado no final de 2007, para ingresso em 2008.

Se, no seu nascedouro, as escolas multisseriadas atendiam tanto à população periférica quanto a rural, atualmente elas se concentram somente na zona rural. Menezes e Santos (2002, p. 2), ao desenvolverem o verbete Escolas Multisseriadas, no Dicionário Interativo da Educação Brasileira5, escrevem que “acredita-se que a educação no campo esteja relegada a segundo plano, limitando-se ao ensino das primeiras letras”, afirmando também que estas escolas se constituem predominantemente de classes multisseriadas.

Considerando os estudos de Saviani (1980, p. 197) pode-se deduzir que as escolas rurais não foram criadas para atender aos interesses do homem do campo, mas “a escolarização do campo se revela um fenômeno decorrente da expansão das relações capitalistas no campo”. Portanto, as escolas no campo tendem a se efetivar conforme os padrões urbanos uma vez que a sociedade capitalista se organiza segundo os padrões urbano-industriais. As escolas rurais assumem, assim, um caráter modernizador. É nessa perspectiva que elas são criadas e recriadas. Nesse sentido, explicam-se os argumentos da aparente extinção das escolas multisseriadas e os esforços de superá-las. Porém, apesar do padrão urbano-industrial que delega à escola o formato seriado, graduado, com um professor por série, como entender a existência, ainda hoje, das escolas multisseriadas tal como evidenciada nos seguintes dados estatísticos do INEP?

Quadro 1 Número de Turmas Multisseriadas no Ensino Fundamental – 1998 a 2007






1998

1999

2000

2001

2002

2003

2004

2005

2006

2007

BR

148.962

133.545

134.581

125.627

117.871

111.653

110.661

106.454

102.905

93.884

N

22.841

23.300

23.271

23.041

21.977

21.495

21.005

20.811

19.984

19.229

RO

3.140

2.908

2.666

2.492

2.216

2.012

1.703

1.637

1.227

712

AC

1.313

1.298

1.363

1.431

1.392

1.452

1.459

1.540

1.523

1.409

AM

3.914

3.916

4.182

4.339

4.301

4.367

4.410

4.535

4.749

5.136

RR

488

554

554

587

561

519

560

511

457

420

PA

11.504

12.090

12.022

11.843

11.375

11.231

10.983

10.803

10.324

10.026

AP

322

347

388

410

431

379

389

434

419

283

TO

2.160

2.187

2.096

1.939

1.701

1.535

1.501

1.351

1.285

1.243

NE

67.294

71.763

75.027

70.812

66.645

62.803

62.135

59.818

58.261

55.618

MA

10.159

11.393

12.353

11.592

11.089

11.014

10.727

10.858

10.953

11.023

PI

6.071

6.353

6.706

6.291

5.966

5.777

5.485

5.347

5.184

4.547

CE

7.565

7.781

8.352

7.450

6.609

6.382

7.350

7.108

6.623

6.723

RN

2.237

2.256

2.372

2.398

2.317

2.159

2.146

1.892

2.108

1.837

PB

5.082

5.697

5.904

5.385

5.083

4.867

4.761

4.567

4.637

5.008

PE

8.152

8.507

8.864

8.598

7.889

7.620

7.721

7.583

7.288

6.757

AL

2.321

2.446

2.484

2.427

2.249

2.177

2.098

2.046

2.064

2.029

SE

1.385

1.479

1.423

1.357

1.275

1.356

1.409

1.245

1.212

1.145

BA

24.322

25.851

26.569

25.314

23.868

21.451

20.438

19.172

18.192

16.549

SE

35.472

19.423

18.872

17.550

16.908

16.076

16.779

16.003

15.016

11.962

MG

27.588

12.234

11.884

10.732

10.192

9.463

10.584

10.013

9.705

8.285

ES

3.114

2.570

2.514

2.406

2.270

2.173

2.131

2.165

1.968

1.892

RJ

2.167

2.197

2.303

2.227

2.082

1988

1.957

1.793

1.599

1.530

SP

2.603

2.422

2.171

2.185

2.364

2.452

2.107

2.032

1.744

255

SUL

17.596

13.754

12.079

10.244

9.053

7.987

7.356

6.566

5.964

4.729

PR

6.441

4.689

3.594

2.560

2.064

1.755

1.577

1.413

1.234

956

SC

3.653

3.001

2.767

2.544

2.218

1.886

1.624

1.434

1.339

1.149

RS

7.502

6.064

5.718

5.140

4.771

4.346

4.155

3.719

3.391

2.624

CO

5.759

5.305

5.332

3.980

5.588

3.292

3.386

3.256

3.680

2.346

MS

923

1.102

1.171

609

631

504

489

524

509

492

MT

2.246

2.052

2.016

1.800

1.615

1.580

1.679

1.643

1.544

1.175

GO

2.451

2.073

1.810

1.509

1.285

1.152

1.162

1.027

1.576

625

DF

139

78

335

62

57

56

56

62

51

54

* Dados colhidos nas Sinopses Estatísticas da Educação Básica de 1997 a 2007. Disponíveis em www.inep.gov.br/censoescolar.

A questão acima levantada, embora se constitua em um dos desafios dessa investigação, não será tratada nesse texto. Porém a elaboração do quadro levou-nos a interrogar o pouco interesse dos historiadores da educação acerca das escolas multisseriadas já que ainda existem em número significativo: 93.884. Além disso, conforme Hage (2006, p. 4), “as escolas multisseriadas, em que pesem todas as mazelas explicitadas, têm assumido a responsabilidade quanto à iniciação escolar da grande maioria dos sujeitos no campo”. A partir daí buscamos mapear a produção referente a essas escolas.

Conforme Ferreira (2002, p. 258) a pesquisas que se dedicam ao desafio de mapear e de discutir certa produção acadêmica em diferentes campos do conhecimento são denominadas “estado da arte” ou “estado do conhecimento”. Para a autora esse tipo de pesquisa se constitui em dois momentos:

Um, primeiro, que é aquele em que ele (o pesquisador) interage com a produção acadêmica através da quantificação e de identificação de dados bibliográficos, com o objetivo de mapear essa produção num período delimitado, em anos, locais, áreas de produção. [...]

Um segundo momento é aquele em que o pesquisador se pergunta sobre a possibilidade de inventariar essa produção, imaginando tendências, ênfases, escolhas metodológicas e teóricas, aproximando ou diferenciando trabalhos entre si, na escrita de uma história de uma determinada área do conhecimento. Aqui, ele deve buscar responder, além das perguntas “quando”, “onde” e “quem” produz pesquisas num determinado período e lugar, àquelas questões que se referem a “o quê” e “o como” dos trabalhos. (FERREIRA, 2002, p. 265).

O que apresentamos nesse trabalho refere-se ao primeiro momento do estado da arte, no qual buscamos respostas somente para as perguntas “quando”, “onde” e “quem” produziu pesquisas num determinado período e lugar, cujo objeto foram as escolas multisseriadas. Para tanto, tomamos como fontes básicas a Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações, o Banco de Teses e Dissertações da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – CAPES e a Plataforma Lattes/CNPq.


  1   2   3


©principo.org 2016
enviar mensagem

    Página principal