Maria mazzetti



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MARIA MAZZETTI

Domingo Gonzalez Cruz*



Maria Mazzetti nasceu a 5 de dezembro de 1926 no Rio de Janeiro, RJ. Foi professora primária e técnica em educação. Participou da Rádio-Escola (Rádio Roquette-Pinto), sob a direção da Prof. Flávia da Silveira Lobo. Chefiou o Setor de Teatro Infantil, da Seção de Bibliotecas e Auditórios — Divisão de Educação Primária Fundamental (Secretaria de Educação e Cultura do Estado da Guanabara) e dirigiu o Teatro Gibi (teatro de bonecos) desse mesmo Setor.

Virgínia Valli, grande amiga de Maria Mazzetti, escreveu com detalhes sobre a trajetória da companhia teatral:

O Teatro Gibi foi fundado em 1945, por Iolanda Fagundes, em São Paulo. Estreou em 1945, no Rio de Janeiro, sob o patrocínio do O GLOBO. Em 1948, foi encampado pela Prefeitura do Rio de Janeiro, fazendo parte do Serviço de Teatro e Diversões da Secretaria de Educação e Cultura da antiga Prefeitura do Distrito Federal. Realizou espetáculos no Rio de Janeiro, Estado do Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais e diversos outros Estados, além de exposições de bonecos. Sua platéia era de crianças e adultos de orfanatos, asilos, fábricas, parques infantis, etc. Em 1961, o Teatro Gibi passou a fazer parte do Departamento de Educação Primária, Setor de Incentivo e Especialização do Professor. Maria Mazzetti assume a direção do Teatro Gibi, em 1963 e, a partir de 1964, foi criado o Setor de Teatro Infantil, quando se constatou a importância do teatro na educação infantil.1

E Mazzetti começou a registrar as experiências desenvolvidas no Setor.

Há, ainda no Setor de Teatro Infantil, o espetáculo para crianças. É o Teatro Gibi, teatro de bonecos. Já apresentamos peças de bonecos de vara, fantoches, mãos expressivas e objetos. São peças originais que testamos trazendo grupos pequenos de crianças para debate. Com o tempo, alargamos o grupo e o tornamos variado (crianças de várias séries). O Teatro Gibi corre o Estado, vai ao encontro do seu público. Estacionamos num auditório de escola e convocamos todas as escolas adjacentes. Esgotada a região, passa-se a outra. Assim, damos espetáculos para cerca de 20.000 crianças por ano, na favela, na Zona Sul, na Zona Norte, na Zona Rural.2

As maratonas cênicas modificaram as feições naturalistas dos bonecos do Teatro Gibi. Os novos personagens, criados por Maria Mazzetti, transmitiam um clima poético inesquecível para as crianças. Mais uma vez, a autora de Rente que nem Pão Quente registrou sua paixão pela arte teatral neste trecho encantador.

São apenas bonecos de feições imperturbáveis, cabeleiras de lã, braços movidos por arames. Postos no seu mundo irreal de luzes e cenários de papel, manejados pelas mãos hábeis dos operários do sonho, eles criam vida, correm, se agitam, ultrapassam suas humildes formas materiais. Dentro do retângulo iluminado por lâmpadas revestidas de papel celofane tudo pode acontecer: as flores crescem pelo simples desejo de uma menina, os bolos de aniversário andam a pé pela floresta. É o mundo mágico onde tudo tem permissão de existir. O mundo no qual a imaginação da criança se expande, se alimenta, se recreia. O mundo no qual ela, muitas vezes, vai buscar a solução de seus problemas. No boneco impessoal, rígido, caricaturado, ela tem a chance de se projetar, e assim completar, de acordo com sua própria imaginação, tudo aquilo que foi apenas sugerido; satisfazer suas necessidades interiores de fantasias, sonho e humor. Qual a criança que não ama o teatro de bonecos?3

O Setor de Teatro Infantil expandiu-se tanto que o comportamento da platéia também motivou reflexões.

Fotografamos a reação da platéia. Temos conosco centenas de slides de crianças em atitudes que chamamos "ginástica das emoções" - mãos na boca, mãos cruzadas no peito, braços cruzados na nuca, corpo distendido na cadeira em situação de emoção, surpresa, sonho, encantamento, tensão, alegria. Além disso, pedimos que eles nos escrevam contando o que sentiram, se gostaram, se têm alguma crítica a fazer.4

Mazzetti aspirava um trabalho contínuo nas escolas do Estado. Sabia da importância do Projeto para uma proposta educativa por intermédio do teatro de animação.

Acreditamos que também cabe a escola a formação das novas platéias, platéias cada vez mais constantes, sérias, severas e exigentes.5

Não estava sendo ingênua. Muito pelo contrário. Conhecia bem os labirintos da política cultural brasileira. Tanto é verdade, que afirmou na 1.ª Reunião do Setor de Teatro Infantil, em 1973.

Eu disse que o Mobral não pode partir da cidade para o campo (a menos que chamem Virgínia6 e Teatro Monteiro Lobato que já estiveram no campo e dão peças e shows folclóricos. Chamem o Ilo7 que tem experiência com índios sul-americanos. De resto, tratem de fazer boa pulsão e enxertar oxigênio (traduzido = dinheiro) nos pulmões da nossa soberba tradição de teatro que é o mamulengo e auxiliar de maneira total a literatura de cordel. Concomitante com tudo isso deve-se estudar e pesquisar para que estes subsídios cheguem até nós, e, aí sim, começaria nosso trabalho. Quando falo em teatro, falo em tudo, embora os jogos dramáticos sejam mais fáceis, porque são as crianças, através da espontaneidade, que nos conduzirão. Enquanto isso, vamos trabalhar.

Maria Mazzetti faleceu no Rio de Janeiro, a 9 de janeiro de 1974. Não presenciou o desmoronamento do Setor de Teatro Infantil. O Estado da Guanabara fundiu-se com o Estado do Rio de Janeiro a partir de 15.3.1975, deixando de existir como unidade autônoma. O Teatro Gibi passou para a Secretaria de Cultura do Município do Rio de Janeiro. Durante muito tempo continuou seu trajeto sob a direção de Beatriz Pinto de Almeida.

Os textos literários de Maria Mazzetti são verdadeiros clássicos na arte de escrever para crianças. Laura Sandroni definiu muito bem a vocação irreversível da escritora.

Mazzetti foi a primeira a escrever para crianças bem pequenas, naquela linguagem doce e coloquial que caracteriza seu texto cheio de graça e encantamento. Ninguém usa melhor os diminutivos, nem elabora mais imaginosamente o cotidiano da vida familiar. Sua temática abrange desde o ato de lavar roupas, até pregar botões, falando de coisas simples que as crianças vivenciam, para tocar em problemas também comuns a todas elas.8

A experiência cênica que ela ofertou ao teatro brasileiro não deve ser esquecida. É um legado digno de ser pesquisado pelos "operários dos sonhos".

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NOTAS

* Domingo Gonzalez Cruz é poeta, bibliotecário, e foi coordenador das atividades da Biblioteca Infantil Maria Mazzetti no período de 1981 a 1996.


1 CRUZ, Domingo Gonzalez. A história de Maria Mazzetti. Rio de Janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa, 1994. O livro traz dados biográficos e bibliográficos da escritora, além de reunir comovidos depoimentos de seus contemporâneos.

2 Idem, p. 7.

3 "Teatro de Bonecos". In: Chapeuzinho Vermelho. s.n.t.

4 Mazetti, Maria. A hora e a Vez do Teatro Escolar. Id.

5 Id. ibid.

6 Virgínia Valli.

7 Ilo Krugli.



8 Cruz, Domingo Gonzalez. A história de Maria Mazetti. Rio de Janeiro, Fundação Casa de Rui Barbosa


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