Marisa Lajolo e Regina Zilberman



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INTRODUÇÃO

Livros escolares são fonte insubstituível para qualquer história da leitura: não só porque, por hipótese, tais livros são instrumento sistemático para a formação de leitores, mas porque eles são também documento privilegiado para uma história da educação e da escola com a qual necessariamente se cruza a história social da leitura. E também a da literatura.1

Marisa Lajolo e Regina Zilberman

O assunto em questão desperta polêmicas: teóricas, pedagógicas, artísticas, históricas e comerciais. Tentarei abordar cada uma delas no tempo certo, ao longo desta dissertação, que, de certa maneira, pretende lançar um novo olhar sobre um tipo de narrativa que, a meu ver, tem sido marginalizado pela comunidade acadêmica. As adaptações de clássicos literários para leitores jovens ou adolescentes são bem aceitas em países hegemônicos (e com excelente base de leitores) como Estados Unidos, Inglaterra, França, Itália, Alemanha e Espanha, mas vistas com muita desconfiança e certa má-vontade aqui no Brasil. Por quê? Creio que uma retrospectiva histórica nos ajudará a entender melhor as origens do problema e sua evolução até o presente. Então, talvez, cada um de nós possa repensar sua posição pessoal sobre a arte (e o ofício) de recontar histórias que já foram contadas antes.

Certas questões, geralmente consideradas pós-modernas, como inter-textualidade, paródias e pastiches, comunicação de massa etc., ganharão alguns comentários, mas não por ora. Haverá também alguns diálogos entre alta e baixa cultura. Mais tarde. Chegaremos lá, não é necessário ter pressa. Primeiro, precisamos retroceder quase um século, aos primórdios do livro e da escola pública no Brasil.

Peço, desde já, desculpas pelo excesso de repetição dessas duas palavras: livro e escola. Entretanto, como ficará fácil entender durante a leitura, é simplesmente inevitável.

Começando bem lá atrás, com iniciativas pioneiras como a do poeta Olavo Bilac, passando pela militância de empreendedores como o escritor-editor José Bento Monteiro Lobato (nosso Dom Quixote livresco) e chegando a adaptadores profissionais como Carlos Heitor Cony, Ana Maria Machado, Paulo Mendes Campos e tantos outros menos famosos e prestigiados, nossa jornada será longa. Espero, porém, que não seja cansativa.

Vamos relembrar como surgiram e se popularizaram as adaptações aqui em nosso país. A trajetória profissional de Monteiro Lobato ilustrará uma fase marcante, tanto para disseminação de narrativas adaptadas destinadas ao público infanto-juvenil como para a construção de uma verdadeira indústria editorial — até então inexistente no Brasil.

Veremos como, a partir dos anos 1970, a adoção de clássicos nacionais e de adaptações de clássicos estrangeiros nas escolas brasileiras tornou-se um grande negócio associado ao consumo de livros didáticos. Tentarei mostrar como a escola nacional, e não as livrarias ou bibliotecas, tornou-se, de fato, o espaço de distribuição e consumo dos clássicos literários.

Nossa escola (e seus professores) sobrevive sobrecarregada em suas funções pedagógicas, tendo, entre muitas outras, a missão de formar novos leitores e também perpetuar os cânones da literatura. As dificuldades para tanto são amplamente conhecidas, as limitações enfrentadas pelas instituições públicas, mesmo pelas melhores entre elas, são sempre relembradas. As insatisfações dos professores, a falta de condições de trabalho minimamente adequadas, os salários injustos... São tantos os problemas que é raro lembrarmos que nossas escolas, por uma questão de escala, constituem um mercado consumidor vasto e poderoso.

No capitalismo moderno, e na prática escolar brasileira, os cânones literários devem ser considerados como produtos culturais de alto valor de mercado. Os chamados “clássicos escolares”, mesmo em edições baratas, movimentam fortunas impressionantes e desempenham papel deveras importante na manutenção da “indústria do livro didático” em seus períodos de entressafra (o livro didático é sazonal).

O comércio massificado de livros e suas questões mercadológicas (pro-dução, distribuição, preço, lucro) constituem fatores fundamentais para que se possa compreender determinadas situações e polêmicas. Queiramos ou não, os clássicos literários são mercadorias que o capitalismo negocia livremente.

Quando estivermos chegando perto do tempo presente, a polêmica atingirá seu potencial máximo com o lançamento da coleção “Reencontro Nacional”, da editora Scipione, em que vários dos títulos clássicos da nossa literatura são publicados em versões adaptadas para o público escolar dos dias de hoje. O escritor, e membro da Academia Brasileira de Letras, Carlos Heitor Cony, que já havia se destacado como adaptador na “Clássicos para o jovem leitor” — coleção de clássicos estrangeiros publicada pela Ediouro (antiga Edições de Ouro e, em certa época, conhecida como editora Tecnoprint) —, é uma das estrelas desta nova coleção de clássicos nacionais adaptados e chegou a publicar um texto especial em sua coluna no jornal Folha de S. Paulo para defender, apaixonadamente, seu trabalho e a legitimidade das adaptações.

Adaptar é legítimo? Adaptar para quê? Por quê?

Muitas perguntas. Muitas dúvidas.

Uma pergunta de cada vez. Tentarei responder a cada uma na hora certa (e no capítulo certo). Muito embora meu objetivo atual não seja gerar respostas, mas formular adequadamente o problema. Acredito que esta será a minha contribuição.


O livro como suporte da literatura
Minha formação acadêmica é a licenciatura em história pela Universidade Federal Fluminense, portanto minha percepção tende sempre a buscar mudanças e permanências ocorridas ao longo do tempo. A forte base marxista de minha graduação (embora eu não seja um marxista) me leva a ter constantes preocupações materiais; não consigo pensar jamais sobre literatura sem levar em consideração o seu suporte-material: o livro feito de papel.

Muito já se disse ou se escreveu sobre os processos de formação dos cânones literários, entretanto, talvez haja ainda o que se pensar sobre a permanência das obras canônicas. Estamos acostumados a pregar que o grande autor é imortal e a boa literatura, eterna. Mas os escritores morrem e seus leitores também. Como, então, se dá a permanência da obra literária? Ora, pela conquista de novos leitores e pela reprodução da obra por meio de novas edições. Quem costuma procurar por títulos esgotados ou fora de catálogo, peregrinando em vão por livrarias, sebos, bibliotecas e coleções particulares, sabe o valor de um livro em bom estado, bem colado ou costurado, fácil de se encontrar e cujo preço é acessível.

Em artes plásticas, tem-se plena consciência da importância do suporte para a obra de arte. Em literatura, inúmeras vezes, agimos como se o suporte do texto (pode ser areia, pedra, pano, pergaminho, papiro, papel, registro eletromagnético etc.) não fosse tão importante. No nosso caso, desde Gutenberg, o principal suporte da obra literária é o livro feito de papel. Ao estudarmos o sucesso dos best-sellers ou a permanência das grandes obras, portanto, devemos levar em consideração como se dá o processo de distribuição dos livros, de fixação dos textos ou de lançamento de novas edições. Em teoria, livros canônicos jamais deveriam estar esgotados e fora de catálogo.

Nas últimas três décadas, os cânones literários brasileiros se tornaram um tipo de bem de consumo cultural a ser produzido, divulgado, distribuído e vendido (principalmente ao público escolar) segundo a lógica econômica e mercantilista do capitalismo moderno (ou pós-moderno). O reconhecimento, por parte da crítica, da importância de determinadas obras faz com que estas sejam constantemente reeditadas e comercializadas. No contexto a ser aqui estudado, o chamado valor estético pode gerar elevado valor de troca.

Vejamos agora algumas curiosidades sobre livros, editoras e leitores que podem ajudar a reflexão que vamos iniciar em breve sobre as adaptações literárias (nacionais e estrangeiras) produzidas para consumo escolar.

No Brasil, em 1930, quando o Ministério da Educação foi criado (chamava-se então Ministério da Educação e Saúde), o governo revolucionário de Getúlio Vargas, responsável pela primeira reforma de ensino a beneficiar diretamente a indústria do livro didático, estimou que apenas cinco por cento da população em idade escolar (sete a catorze anos pelos padrões da época) estivesse realmente freqüentando escolas.2 Claro que nos últimos setenta anos a situação mudou bastante, embora ainda esteja longe do ideal. Entretanto, com um histórico acumulado de analfabetismo tão grande, nosso país não desenvolveu uma tradição de leitura espontânea. Ler (principalmente livros) ainda é necessidade ou obrigação, raramente um prazer.

Vira e mexe se comenta que o Brasil inteiro tem menos livrarias que a cidade de Buenos Aires. Na verdade, por termos demorado tanto tempo para investir pesado na educação pública massificada, a indústria editorial brasileira baseada na chamada “venda por impulso” é muito fraca e pouco rentável.

Venda por impulso é quando alguém entra na livraria por sua livre vontade e escolhe um livro sem que haja qualquer tipo de coação. No Brasil, país dos cartórios, o negócio milionário é a “venda por adoção”, isto é: o professor adota um livro em sala de aula, o aluno tem de ler para fazer um trabalho e ganhar nota, e o pai do aluno tem de comprar o livro imposto. Neste esquema, o prazer de ler não conta.

O principal produto da indústria editorial baseada em vendas por adoção é o livro didático. Mas, por exigência do MEC a princípio e depois para minimizar os custos de manter uma enorme estrutura de logística e divulgação funcionando o ano todo (embora o momento de venda do livro didático ocorra apenas uma vez por ano), esta indústria passou a investir também em edição e comercialização de literatura infantil, juvenil e clássicos nacionais.

Discutir qualidade de ensino ou propostas pedagógicas não vem ao caso por enquanto. O fato é que certos países começaram a investir na educação pública para as massas no século XIX e, portanto, hoje possuem indústria editorial forte na venda por impulso (consolidaram a formação de leitores há décadas) e, sendo assim, os seus textos clássicos sobreviveram, gerando lucro, nas próprias livrarias. Na maioria das vezes, quando produzem adaptações de clássicos literários, é para consumo de estrangeiros (estudantes de idiomas, como os alunos de Cultura Inglesa, Ibeu, Aliança Francesa ou Casa de Espanha). As adaptações para público interno também existem, são comercializadas em livrarias, sem gerar polêmicas ou resistências.

Na Inglaterra, por exemplo, entende-se que as adaptações infantis ou juvenis das obras de Geoffrey Chaucer, William Shakespeare, Daniel Dafoe, Mary Shelley, Lewis Carrol, Jane Austen, Charles Dickens, Rudyard Kipling, Robert Louis Stevenson ou H.G. Wells são meios de reprodução e perpetuação dos valores britânicos. Elas são compradas por pais e avós para presentear crianças e adolescentes no próprio Reino Unido e também na Austrália, no Canadá, na Nova Zelândia e até nos Estados Unidos. Sem falar na Índia e no Paquistão...

Edward Said não perderia a oportunidade de lembrar que cultura também é imperialismo.

Enfim, literatura é muito mais do que apenas uma boa leitura, como os chamados estudos culturais têm nos ensinado. Quer dizer que a reflexão teórica pós-moderna vai começar? Não, ainda não. Haverá um capítulo só para isso, um pouco depois da retrospectiva histórica. Estou apenas anunciando o que vem pela frente. E tentando criar um clima de suspense para manter a atenção do leitor, claro.
Adaptações de clássicos nacionais

como subprodutos do capitalismo
No Brasil, o comércio de clássicos da literatura no mercado-escola (denominação daquele segmento do mercado editorial que vive da venda por adoção) tinha até 1997 duas frentes: os clássicos nacionais e os estrangeiros — sempre explorando, nos dois casos, as obras de domínio público. E, desde os tempos de Monteiro Lobato, há certa tradição brasileira de publicar adaptações, o que sempre foi considerado uma espécie de estratégia para seduzir e conquistar novos leitores para antigos heróis. Atenção: heróis, não textos.

As adaptações, na tradição nacional, recontavam as aventuras de heróis como Robin Hood, Ivanhoé, Rei Arthur e os seus destemidos Cavaleiros da Távola Redonda, Carlos Magno e os Doze Pares de França, Simbad, Aladim, Ali Babá, o Conde de Monte Cristo, D’Artagnan e os Três Mosqueteiros, Hércules etc. Personagens que se tornaram mais memoráveis e importantes do que as narrativas onde surgiram. A adaptação brasileira, seja na narrativa escrita ou na nossa esplêndida tradição oral, nasceu recontando romances de cavalaria, histórias das mil e uma noites e até mitos gregos (obs: as histórias árabes, indianas, chinesas e persas das mil e uma noites só chegaram a nós depois de se tornarem populares e consagradas na Europa). O público adora, e nem precisa ser letrado. O folclorista Câmara Cascudo registrou dezenas de contos populares lá do sertão nordestino (narrativas orais) que são versões de histórias medievais européias e árabes.

Quando a editora Tecnoprint (depois chamada Edições de Ouro, e atualmente Ediouro) lançou, nos anos 60, sua coleção de clássicos estrangeiros adaptados não houve nem susto nem surpresa. E os autores convidados para escrever as adaptações formavam uma verdadeira seleção nacional: Carlos Heitor Cony, Clarice Lispector, Paulo Mendes Campos, Fernando Sabino, Maria Clara Machado, Orígenes Lessa... a lista é enorme. Como a iniciativa deu certo e se mostrou bastante rentável, outras editoras passaram a investir no mesmo segmento. Todo mundo achou normal: os professores adoraram trabalhar com textos leves e curtos — se comparados aos textos originais — e os pais dos alunos elogiaram os preços acessíveis (adaptações são produtos editoriais vendidos por preços baixos, pois consomem pouco papel e têm uma margem de risco bem calculada).

Os chamados clássicos adaptados são criações por encomenda, tendo como base somente títulos de domínio público. Possuem mercado consumidor garantido em nossas salas de aula porque, normalmente, baseiam-se em obras que integram os cânones da literatura ocidental. São livros que se propõem a ser fiéis à essência do original (que Michel Foucault, em A ordem do discurso, chamaria de texto primeiro ― aquele historicamente anterior, o que pode ser reconhecido como o primeiro da linhagem). E a confiança nesta fidelidade é vital para os professores que os adotam. Na prática, os professores são os consumidores e os alunos, usuários; afinal são os professores que determinam a compra.

Quebre-se a confiança que os professores têm nos clássicos adaptados e será o fim deste segmento editorial. A obra original e seu autor são fatores determinantes da adoção. São eles que detêm, atualmente, o valor de grife (estou me apropriando da expressão usada por Leila Perrone-Moisés, ver capítulo 4). Nos tempos de Lobato, quando o nosso mercado editorial ainda era um tanto quanto ingênuo e amador, este precioso valor de grife, que distingue e recomenda o livro ao seu leitor/consumidor em potencial, pertencia ao adaptador.

Foi em 1997, entretanto, que ocorreu a grande ruptura na tradição brasileira de adaptações: a editora paulista Scipione anunciou ao mercado-escola, por meio de catálogos, folhetos e cartazes, o lançamento de uma série de clássicos nacionais adaptados. Os dois primeiros títulos foram: O Ateneu, de Raul Pompéia, adaptado por Carlos Heitor Cony, e Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, adaptado por José Louzeiro. O impacto do novo foi violento. Editoras, críticos, professores, escritores e alunos se dividiram a respeito da novidade. Muitos críticos continuam em estado de choque, não acreditam na audácia. Os escritores convidados para adaptar os clássicos nacionais defendem a legitimidade de se reescrever os textos canônicos de domínio público já incorporados ao patrimônio cultural brasileiro; os não-convidados contestam. Há professores e alunos bem satisfeitos de contar com a opção de livros que podem ser lidos em pouco tempo. Há professores que não percebem nenhuma utilidade pedagógica nas adaptações. Outros, preferem nem tocar no assunto.

As editoras estão fazendo cálculos e projetando a que velocidade o novíssimo segmento de clássicos nacionais adaptados pode crescer nos próximos anos. É o cânone transformado em subproduto no jogo do capitalismo. Atenção: o cânone como produto capitalista já existe há três décadas no Brasil (são os próprios clássicos em edições baratas para adoção escolar); o subproduto (a adaptação) é que constitui novidade sobre a qual ainda há pouca reflexão acadêmica. Repito: os estudos de literatura se importam mais com a formação dos cânones (o processo de seleção) do que com os aspectos econômicos de sua permanência (como as reedições, o comércio de livros e a adoção escolar, por exemplo).

E que tipo de permanência estamos considerando quando o texto de Raul Pompéia é substituído pelo de Carlos Heitor Cony?


A percepção histórica
Ainda que certos setores vejam as adaptações como mero comércio de livros e, portanto, algo indigno, as editoras em hipótese alguma contestam os cânones literários. Ao contrário, apóiam sua estratégia comercial no prestígio social dos mesmos. Ou seja: não se trata de um conflito declarado entre culturas, nem de quebra de fronteiras.

Todas as minhas leituras vêm sendo temperadas pela dimensão temporal. Entendo que adaptações, versões, variações, paródias e pastiches são descendentes de um texto anterior, canônico ou não. Descendência esta que só é possível porque, de alguma maneira, a obra original permaneceu viva, sendo lida e comentada por sucessivas gerações de leitores leigos ou especializados, influenciando novos autores, gerando novos textos.

A percepção de certas mudanças históricas se mostrará de extrema importância em minhas observações e comentários sobre as funções das adaptações destinadas ao público escolar. Pois, com o passar do tempo, as pessoas envelhecem, morrem, outras pessoas nascem e crescem, envelhecem... De uma geração para outra, as mudanças na sociedade e no mundo podem ser grandes ou pequenas, mas existem; transformações culturais acontecem e, de repente, o leitor real, de carne e osso, não é mais aquele para quem o escritor produziu sua obra.

Quantos adolescentes do século XXI podem ler e apreciar textos de meados do século XIX sem o apoio de intermediários? Por intermediário, entendo um intelectual profissional (um professor de literatura ou um adaptador especializado) ou um leitor qualificado, alguém como aquele tio de bom gosto literário e muita boa-vontade.

Claro que há muitos adolescentes ou jovens, sejam ricos ou pobres — que por talento, vocação e disposição —, dispensam os intermediários e bebem diretamente da fonte. Entretanto, trata-se de um universo reduzido quando abordamos a questão da educação de massa. Sim, massa. Para os filhos das elites nunca faltaram escolas ou livros. Para as massas, ter acesso a escolas e livros sempre foi, historicamente, um desafio. Vale destacar que economistas de direita e esquerda já conseguiram chegar a um consenso: as brutais e perversas desigualdades sociais brasileiras refletem as desigualdades históricas de acesso à educação. Como dizia Monteiro Lobato, “um país se faz com homens e livros”.

O assunto continua a ser o mesmo de antes: adaptações literárias escritas especialmente para uso do público escolar, da escola pública ou privada. O fato relevante é que nossos professores e alunos vivem, em sua maioria, a realidade precária da educação de massa: alunos demais em cada sala de aula, professores desmotivados à beira de um colapso, tempo escasso para todos, excesso de informações chegando sem parar, a concorrência dos meios eletrônicos de comunicação como fonte de saber e disseminação de valores, os livros didáticos como ferramentas de padronização do ensino... O mesmo ensino para todos? Milhões de adolescentes fazendo a mesmíssima leitura de textos obrigatórios? Em plena era dos estudos culturais e do relativismo? Mas esta é a escola real, estatisticamente falando. E qual o papel dos cânones literários brasileiros neste contexto? Como a alta cultura brasileira pode ser mercadoria? Qual o valor de nomes como Machado de Assis ou Raul Pompéia neste mercado? Mais perguntas. Bem, arriscarei minhas respostas. Farei minhas apostas.



Quando adaptar é parafrasear
Mencionei antes o valor do tempo histórico para o raciocínio que fundamenta esta dissertação, visto que pretendo defender que a boa adaptação tenta cumprir a função de agir como uma tradução do texto original; tradução não de uma língua ou sociedade para outra, mas de uma geração (período cultural anterior) para outra (período cultural atual). Agora menciono o valor social, pois a boa adaptação tenta ampliar ao máximo a base de leitores de uma determinada obra. Por tentarem cumprir tais funções, as adaptações de clássicos literários que aqui estamos analisando devem ser classificadas como paráfrases ou metáfrases.

O termo paráfrase, ou seu sinônimo metáfrase, refere-se a um conceito dos antigos gregos: a possibilidade de narrar uma história com palavras próprias, mantendo o enredo original; ou de traduzir uma passagem difícil em termos mais simples.

As possíveis (e perigosas) fronteiras entre tradução, versão, variação, paráfrase, paródia e pastiche serão discutidas mais tarde. Por enquanto, apresento as palavras de Affonso Romano de Sant´Anna sobre a paráfrase e sua utilidade na preservação e divulgação de valores:
Nessa linha, a questão dos limites entre “interpretar” e “resumir” é muito tênue. O resumo já seria uma interpretação, e não haveria nunca paráfrase pura, senão um segundo texto sobre um primeiro acrescido de diferenças. Assim, qualquer tradução já seria uma interpretação.

Em verdade, tanto a ciência quanto a arte e a religião usam da paráfrase como instrumento de divulgação. (...) Igualmente há algumas edições da Bíblia, até em português, onde o texto sagrado é parafraseado para uma linguagem mais atual. Pode-se assim considerar que onde a ciência usa a paráfrase como um passo formal para clarificar afirmações e fórmulas, a religião e a arte a usam como modo de transmitir valores ou manter a vigência ideológica de uma linguagem.3


Depois de ler este texto de Affonso Romano de Sant´Anna fica fácil, creio eu, entender a paráfrase científica ou religiosa. Vivemos um momento, aliás, em que a busca por paráfrases científicas é intensa, urgente, estratégica. Autores que conseguem dar conta de tamanha demanda recebem elogios, são até bem remunerados. A paráfrase artística ou cultural, por outro lado, encontra-se na defensiva. Afinal, transmitir valores ou contribuir para manter qualquer vigência ideológica, sabemos, relaciona-se a estruturas de poder ― a hierarquias, portanto. Todo saber é um tipo de narrativa cuja divulgação tem motivações e implicações diversas e complexas, sejam políticas, econômicas, culturais, sociais.

Se a paráfrase é um recurso que existe para reproduzir, perpetuar e disseminar narrativas, então a paráfrase literária está reproduzindo, perpetuando e disseminando o valor de um certo tipo de literatura e, portanto, de um certo tipo de cultura. Que tipo? Cultura das elites para as massas? Cultura nacional para o povo? Que hierarquia ou valor pode estar em jogo?

Como qualquer outra atividade cultural, a paráfrase sempre atende a interesses. E a gama de interesses em jogo no universo das adaptações escolares é bastante complexa, não pode ser reduzida à ganância das editoras, por maior que ela seja.

No caso das adaptações de clássicos estrangeiros, estamos inserindo nossos estudantes em variadas tradições, permitindo que eles tenham algum acesso a histórias importantes no patrimônio coletivo da humanidade. Quase todos os professores concordam que os estudantes devem conhecer a trama de Moby Dick, mas serão raros os professores brasileiros que afirmarão ser indispensável apreciar esteticamente o texto de Melville. Conhecer é suficiente. Já quando o assunto é a adaptação de clássicos nacionais, a norma de reação é defender a obrigatoriedade de leitura do texto original. Por quê? Quais as diferenças? O que está em jogo?

Somos fundamentalistas? Cultuamos, de maneira rígida, a forma do texto em detrimento do conteúdo, dos possíveis significados contidos na narrativa? Admitimos a possibilidade de atualização dos significados de uma determinada narrativa ou não? A obrigatoriedade da leitura para ganhar nota ou responder questões de vestibular desenvolve o gosto pela literatura? Pergunto, lembrando ao leitor que a faixa etária do público escolar aqui considerado costuma variar entre 12 e 18 anos.

Ah, sim. Resta-me fazer uma última confissão antes de tentar desenvolver as polêmicas mencionadas, respondendo da melhor maneira possível as perguntas formuladas. Tenho vínculos afetivos com as adaptações de clássicos estrangeiros.

Li, aos 11 anos, As aventuras de Robin Hood, da coleção “Terramarear”, uma edição muito antiga, publicada pela Companhia Editora Nacional. O texto era de Monteiro Lobato. Na ocasião, eu já era fã de Lobato por causa dos livros da série “Sítio do Picapau Amarelo” e quis ler aquele “livro velho” de minha mãe por causa dele, o autor. Adorei aquela história e o ritmo dinâmico da narrativa, mas fiquei muito confuso quando terminei de ler. O escritor brasileiro Monteiro Lobato era o inventor do arqueiro Robin Hood, um herói medieval inglês?

Por mero acaso, li O Minotauro e Os doze trabalhos de Hércules pouco depois e então entendi que Lobato tinha certa predileção por recontar as histórias de que ele próprio gostava. Não por acaso, acredito, os melhores adaptadores realmente têm gosto pelas histórias que estão parafraseando. Sem amor e respeito (e competência, claro) é impossível redigir uma boa paráfrase.

Por ora, cabe apenas terminar minha confissão.

Trabalhei anos a fio como assistente editorial em coleções de livros didáticos de português, estudos sociais, ciências e matemática. Mas aquele antigo vínculo afetivo com as adaptações (e uma pitada de sorte) me levou a ser editor da coleção “Clássicos para o jovem leitor”, da Ediouro Publicações — função que exerci com enorme prazer durante quase dois anos. Para mim, portanto, a tão discutida neutralidade do sujeito em relação ao objeto estudado foi impossível. Tenho cá minhas simpatias e meus preconceitos, admito. Prometo, todavia, no decorrer desta dissertação, não esconder nenhum deles do leitor.

Assim, com esta promessa, a introdução chega ao fim.

A seguir, começa a retrospectiva histórica para podermos entender como se formou o atual cenário editorial em que adaptações de clássicos nacionais são oferecidas para o público escolar como subprodutos capitalistas, e também como decorrência de uma antiga tradição brasileira em relação às histórias que integram o chamado cânone ocidental.

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