Marshall berman tudo que é SÓlido desmancha no ar a aventura da modernidade



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anárquicas e explosivas que a modernização urbana, outrora, havia reunido. Nova Iorque é hoje uma das poucas cidades americanas em que ainda poderiam ocorrer as cenas primordiais de Baudelaire. E essas velhas cidades, ou segmentos de cidades, guardam pressões incomensuravelmente mais ameaçadoras do que aquelas divisadas por Baudelaire. São cidades econômica e politicamente condenadas como obsoletas, assediadas por uma deterioração crônica, minadas pelo desinvestimento, vazias de oportunidade de crescimento, constantemente perdendo terreno para áreas consideradas mais “modernas”. A trágica ironia do urbanismo modernista é que seu triunfo ajudou a destruir a verdadeira vida urbana que ele um dia almejou libertar.*

Em curiosa correspondência com esse achatamento da paisagem urbana, o século XX produziu também um desolador achatamento do pensamento social. O pensamento sério sobre a vida moderna polarizou-se em duas antíteses estéreis, que podem ser chamadas, como sugeri antes, “modernolatria” e “desespero cultural”. Para os modernólatras, de Marinetti, Maiakovski e Le Corbusier a Buckminster Fuller, o último Marshall McLuhan e Herman Kahn, todas as dissonâncias sociais e pessoais da vida moderna podem ser resolvidas por meios tecnológicos e administrativos; os meios estão todos à mão, e tudo o que é necessário são líderes dispostos a usá-los. Para os visionários do desespero cultural, de T. E. Hulme, Ezra Pound, Eliot e Ortega, a Ellul, Foucault, Arendt e Marcuse, toda a vida moderna parece oca, estéril, rasa, “unidimensional”, vazia de possibilidades humanas: tudo o que se assemelhe a liberdade ou beleza é na verdade um engodo, destinado

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a produzir escravização e horror ainda mais profundos. É preciso notar, antes de mais nada, que ambas as formas de pensamento passam ao largo das divisões políticas em esquerda e direita; segundo, que muita gente aderiu alternadamente a um e outro desses pólos, em diferentes momentos de suas vidas, e que alguns tentaram até mesmo aderir a ambos, simultaneamente. Podemos encontrar ambas as polaridades em Baudelaire, que, de fato (conforme sugeri antes), pode reivindicar ter sido o inventor de ambas. Mas podemos igualmente ver em Baudelaire algo que falta à maioria dos seus sucessores: a vontade de combater até a exaustão as complexidades e contradições da vida moderna, a fim de encontrar e criar a si mesmo em meio à angústia e à beleza do caos.

É irônico que, tanto na teoria como na prática, a mistificação da vida moderna, bem como a destruição de algumas das suas mais atraentes possibilidades, tenha sido levada a termo em nome do próprio modernismo em progresso. No entanto, a despeito de tudo, o velho caos manteve — ou talvez renovou — sua influência sobre muitos de nós. O urbanismo das duas últimas décadas conceptualizou e consolidou essa influência. Jane Jacobs escreveu um livro profético sobre esse novo urbanismo: Morte e Vida das Grandes Cidades Norte-americanas, publicado em 1961.0 primeiro, brilhante, argumento de Jacobs é que os espaços urbanos criados pelo modernismo eram fisicamente limpos e ordenados, mas social e espiritualmente mortos; o segundo, que foram tão-só os vestígios da congestão, do barulho e da dissonância geral do século XIX que mantiveram viva a vida urbana contemporânea; o terceiro, que o velho “caos” urbano na verdade constituía uma ordem humana maravilhosamente rica e complexa, de que os modernistas não se deram conta apenas porque seus paradigmas de ordem eram mecânicos, redutivos e frívolos; por fim, que tudo o que passa por modernismo, em 1960, pode logo se tornar evanescente e obsoleto.* Nas duas

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últimas décadas, essa perspectiva granjeou larga aceitação e entusiasmo, levando milhares de americanos a lutar de maneira apaixonada para salvar seus bairros e cidades da investida furiosa da modernização motorizada. Qualquer movimento para interromper a construção de uma rodovia é uma tentativa de fazer que o velho caos volte à vida. A despeito de esporádicos êxitos locais, ninguém tem demonstrado possuir poder suficiente para enfrentar o vasto poder acumulado do halo e da rodovia. Entretanto, têm surgido pessoas em número suficiente, dotadas de bastante paixão e dedicação, para criar uma forte contracorrente, capaz de dar à vida da cidade uma nova tensão, excitada e comovida, enquanto esta durar. E existem indícios de que ela pode durar bem mais do que qualquer um — mesmo os que a amam intensamente — chegou a imaginar. Em meio ao receio e às ansiedades da atual crise energética, a pastoral motorizada parece estar se desfazendo. À medida que isso acontece, o caos das nossas modernas cidades do século XIX parece a cada dia mais ordenado e mais atualizado. Assim, o modernismo de Baudelaire, tal como o descrevi aqui, talvez se revele ainda mais relevante em nosso tempo do que o foi então; os homens e mulheres urbanos de hoje talvez sejam aqueles com quem, em sua própria imagem, ele esteve desde sempre épouse.

Tudo isso sugere que o modernismo contém suas próprias contradições e tensões dialéticas interiores; que determinadas formas de pensamento e visão modernistas podem solidificar-se em ortodoxias dogmáticas e tornar-se arcaicas; que outras formas de modernismo podem ficar submersas por gerações, sem chegar a ser suplantadas; e que as mais fundas feridas sociais e psíquicas da modernidade podem ser indefinidamente tampadas, sem chegar a cicatrizar de fato. A aspiração contemporânea por uma cidade que seja abertamente turbulenta mas intensamente viva corresponde à aspiração de voltar a expor feridas antigas mas especificamente modernas. É a aspiração de conviver abertamente com o caráter dividido e irreconciliável de nossas vidas e extrair energia do âmago mesmo de nossos esforços, onde quer que isso nos conduza, no final. Se pudemos aprender, com um dos modernismos, a construir halos em torno de nossos espaços e em torno de nós mesmos, podemos aprender com o outro modernismo — um dos mais velhos porém, como acabamos de ver, também um dos mais novos — a perder nossos halos e encontrar-nos, outra vez.

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IV

PETERSBURGO:

O MODERNISMO DO SUBDESENVOLVIMENTO

(...) o crepúsculo fugaz do verão setentrional, onde o sol desliza como uma carruagem de fogo sobre as florestas sombrias que coroam o horizonte, e seus raios, refletidos pelas vidraças dos palácios, dão ao espectador a impressão de imensa conflagração.



Joseph de Maistre, Noites de S. Petersburgo.
Temos pouco senso de dignidade pessoal, de egoísmo necessário. (...) Serão muitos os russos que descobriram em que consiste a sua real atividade? (...) É então que aquilo que se conhece como devaneio emerge em indivíduos ávidos de atividade. E o cavalheiro sabe o que é um sonhador de Petersburgo?

Ele caminha pelas ruas de cabeça baixa, prestando pouca atenção ao que o cerca (...) mas se ele chega a notar algo, mesmo a coisa mais corriqueira, o fato mais insignificante assume em sua mente uma coloração fantástica. Na verdade, sua mente parece estar afinada para perceber elementos fantásticos em tudo.

(...) Esses cavalheiros não servem absolutamente para o serviço público, embora alguns tenham emprego.

Dostoievski, em Notícias de Petersburgo, 1847.
Para uma história do eclipse moderno: os nômades do Estado (funcionários públicos etc.) sem lar.

Nietzsche, A Vontade da Potência.
Estive em Paris e Londres (...) não se costuma mencionar, quando se compilam referências, que nossa capital pertence à terra dos espíritos. Karl Baedeker não diz uma só palavra. Um homem que vem das províncias e disso não foi informado leva em consideração apenas o aparato administrativo visível; não tem passaporte para o oculto.

Andrei Bieli, Petersburgo, 1913-16
Sempre me pareceu que alguma coisa muito esplêndida e muito solene estava para acontecer em Petersburgo.

Ossip Mandelstam, O Ruído do Tempo, 1925
É terrível pensar que nossa vida é um conto sem trama ou herói, feita de vidro e desolação, do murmúrio febril de digressões constantes, do delírio da febre de Petersburgo.

Mandelstam, O Selo Egípcio, 1928

Exploramos até aqui alguns dos modos como os autores do século XIX abordaram o processo de modernização em desenvolvimento e o usaram como fonte de energia e material criativo. Marx, Baudelaire e muitos outros empenharam-se em apreender este processo histórico universal e transmiti-lo à humanidade: em transformar as caóticas energias da mudança social e econômica em novas formas de significado e beleza, de liberdade e solidariedade; em ajudar seus semelhantes e a si próprios a se tornarem sujeitos e objetos da modernização. Vimos como — da fusão entre empatia e ironia, entrega romântica e perspectiva crítica — surgiram a arte e o pensamento modernos. Esta foi, pelo menos, a forma como isso ocorreu nas grandes cidades do Ocidente — Londres, Paris, Berlim, Viena, Nova Iorque —, onde, ao longo de todo o século XIX, levantes de modernização estavam acontecendo.

Contudo, o que aconteceu nas áreas fora do Ocidente, onde, apesar das pressões crescentes do mercado mundial em expansão e do desenvolvimento simultâneo de uma cultura mundial moderna — a “propriedade comum” da humanidade moderna, como disse Marx no Manifesto Comunista —, a modernização não estava ocorrendo? É óbvio que nelas os significados da modernidade teriam de ser mais complexos, paradoxais e indefinidos. Essa foi a situação da Rússia por quase todo o século XIX. Um dos fatos cruciais da história moderna da Rússia é que a economia do império se estagnava, em certos aspectos até mesmo regredia, no exato momento em que as economias das nações ocidentais davam um salto espetacular à frente. Portanto, até o dramático surto industrial da década de 1890, os russos do século XIX experimentaram a modernização principalmente como algo que não estava ocorrendo, ou como algo que estava ocorrendo à distância, em regiões

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que, embora visitassem, experimentavam mais como fantásticos anti-mundos que realidades sociais; ou ainda, quando ocorresse no país, como algo que acontecia das formas mais irregulares, vacilantes, flagrantemente destinadas ao fracasso ou estranhamente distorcidas. A angústia do atraso e do subdesenvolvimento desempenhou um papel central na política e na cultura russa, da década dê 1820 ao período soviético. Neste período de cerca de cem anos, a Rússia lutou contra todas as questões a serem enfrentadas posteriormente pelos povos africanos, asiáticos e latino-americanos. Podemos, pois, interpretar a Rússia do século XIX como um arquétipo do emergente Terceiro Mundo do século XX.1

Um dos traços mais notáveis da era do subdesenvolvimento russo é que produziu, no espaço de apenas duas gerações, uma das maiores literaturas do mundo. Além disso, produziu alguns dos mitos e símbolos mais poderosos e duradouros da modernidade: o Homem Comum, o Homem Supérfluo, o Subterrâneo, a Vanguarda, o Palácio de Cristal e, finalmente, os Conselhos de Trabalhadores ou Sovietes. Ao longo de todo o século XIX, a mais clara expressão de modernidade no solo da Rússia foi a capital imperial de São Petersburgo. Quero aqui examinar as formas pelas quais esta cidade, este ambiente, Petersburgo, inspirou uma série de brilhantes investigações sobre a vida moderna. Trabalharei cronológica e historicamente, partindo da época em que Petersburgo desenvolveu uma forma distinta de literatura para a época em que desenvolveu uma forma distinta de revolução.

Devo confessar, logo no início, alguns dos caminhos relevantes e significativos que este ensaio não percorre. Primeiro, ele não discute a zona rural russa, embora a grande maioria dos russos lá vivessem e embora essa região tenha passado por transformações peculiares no século XIX. Segundo, não discute, exceto de passagem, o simbolismo rico e interminável que se desenvolveu ao redor da polaridade entre Petersburgo e Moscou: Petersburgo representando todas as forças estrangeiras e cosmopolitas que fluíram na vida russa, Moscou significando todo o acúmulo de tradições nativas e insulares do Narod russo; Petersburgo como o Iluminismo e Moscou como o anti-Iluminismo; Moscou como pureza de sangue e solo, Petersburgo como poluição e miscigenação; Moscou como o sagrado, Petersburgo como o secular (ou talvez o ateu); Petersburgo como a cabeça da Rússia, Moscou como o seu coração. Esse dualismo, um dos eixos centrais da moderna história e cultura russa, já foi discutido em grandes detalhes e com profundidade.2 Ao invés de reexaminar as contradições entre Petersburgo e Moscou, ou entre Petersburgo e o campo, escolhi explorar as contradições internas que permeavam a vida da própria Petersburgo. Retratarei Petersburgo de duas maneiras: como a mais clara realização do



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modo russo de modernização e, simultaneamente, como a “cidade irreal” arquetípica do mundo moderno.*

/. A CIDADE REAL E IRREAL

A GEOMETRIA SURGIU: A CIDADE NOS PÂNTANOS

A construção de São Petersburgo é provavelmente o exemplo mais dramático, na história mundial, de modernização draconiana concebida e imposta.3 Pedro I iniciou em 1703, nos pântanos onde o rio Neva (“Lama”) despeja as águas do lago Ladoga no golfo da Finlândia, rumo ao mar Báltico. Ele a concebeu como uma combinação de base naval — trabalhara como aprendiz nos estaleiros holandeses, e sua primeira empresa como czar fora estabelecer a Rússia como potência naval — e centro de comércio. A cidade deveria ser, como disse uni visitante italiano, “uma janela para a Europa”: em termos físicos — pois a Europa era agora tão acessível como jamais o fora —, mas, igualmente importante, em linguagem simbólica. Acima de tudo, Pedro insistiu no estabelecimento da capital da Rússia aí nessa nova cidade, com uma janela aberta para a Europa, e descartou Moscou, com todos os seus séculos de tradição e aura religiosa. Ele estava dizendo, na verdade, que a história da Rússia deveria ter um novo princípio, numa ardósia limpa. As inscrições nessa ardósia deveriam ser exclusivamente européias: assim, a construção de Petersburgo foi planejada, projetada e organizada inteiramente por arquitetos e engenheiros estrangeiros, trazidos da Inglaterra, França, Holanda e Itália.

Tal qual Amsterdã e Veneza, a cidade foi disposta como um sistema de canais e ilhas, o centro cívico à margem da água. Seu desenho era geométrico e retilíneo, padrão de planejamento urbano ocidental desde a Renascença porém sem precedentes na Rússia, cujas cidades eram aglomerações, sem qualquer planejamento, de ruas medievais, tortas e sinuosas. O revisor oficial dos livros escreveu um poema que expressa a perplexidade típica perante a nova ordem:

a geometria surgiu,

a agrimensura tudo abarca.

Para além da medida, nada existe.

Por outro lado, particularidades importantes da nova cidade eram distintamente russas. Nenhum governante no Ocidente tinha poder para



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construir em escala tão vasta. No espaço de uma década havia já 35 mil construções em meio aos pântanos; em duas décadas, 100 mil pessoas, e Petersburgo tornou-se, praticamente do dia para a noite, uma das maiores metrópoles da Europa.* A mudança de Luís XIV de Paris para Versalhes constituiu uma espécie de precedente; entretanto, Luís buscava controlar a velha capital de um ponto fora dela, e não reduzi-la à insignificância política.

Outras particularidades eram igualmente inconcebíveis no Ocidente. Pedro ordenou que todos os pedreiros do império se mudassem para o local da nova construção e proibiu que se construísse com pedras em qualquer outro lugar; obrigou uma grande parte da nobreza não só a se mudar para a nova capital, mas a construir palácios nela, sob pena de perder o título. Finalmente, numa sociedade servil, onde a maior parte do povo era propriedade ou da nobreza ou do Estado, Pedro tinha poder absoluto sobre uma força de trabalho praticamente infinita. Ele forçou esses cativos a trabalharem sem parar, limpando terreno, drenando pântanos, dragando o rio, construindo canais e. represas, fazendo aterros, cravando estacas no solo poroso e construindo a cidade a uma velocidade temerária. Os sacrifícios humanos foram imensos: em três anos, a cidade devorou um exército de cerca de 150 mil trabalhadores — mortos ou arruinados fisicamente —, e o Estado, sem cessar, buscou outros no interior. Em sua determinação e poder de destruir seus súditos em massa em benefício da construção, Pedro assemelhou-se mais aos déspotas orientais dos tempos antigos — os faraós e suas pirâmides, por exemplo — do que aos monarcas absolutos do Ocidente. Os horrendos custos humanos de Petersburgo, os ossos dos mortos misturados a seus monumentos mais grandiosos logo se tornaram temas centrais no folclore e mitologia da cidade, mesmo para aqueles que mais a amaram.

No decorrer do século XVIII, Petersburgo tornou-se, rapidamente, lar e símbolo de uma nova cultura secular oficial. Pedro e seus sucessores trouxeram e incentivaram matemáticos e engenheiros, juristas e teóricos políticos, fabricantes e economistas políticos, uma Academia de Ciências e um sistema de educação técnica sustentado pelo Estado. Leibniz e Christian Wolff, Voltaire e Diderot, Bentham e Herder, todos desfrutaram do patronato imperial; foram traduzidos e consultados,



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subsidiados e freqüentemente convidados a visitarem São Petersburgo por uma série de imperadores e imperatrizes, culminando com Catarina a Grande, que visavam com isso construir fachadas racionais e utilitaristas para seus governos. Ao mesmo tempo, sobretudo nos impérios de Ana, Elizabete e Catarina, a nova capital foi prodigamente decorada e embelezada, usando-se arquitetura e formas ocidentais — simetria e perspectiva clássicas, grandiosidade barroca, jocosidade e extravagância rococó — para transformar toda a cidade num teatro político e a vida cotidiana num espetáculo. Dois marcos cruciais foram o palácio de Inverno, de Bartolomeo Rastrelli (1754-62), a primeira residência imperial permanente na nova capital, e a enorme estátua eqüestre de Pedro o Grande, o Cavaleiro de Bronze, de Etienne Falconet, instalada em 1782 na praça do Senado, de frente para o Neva, num dos pontos centrais da cidade. Exigiam-se fachadas de padrão ocidental para todas as construções (os estilos tradicionais russos, com paredes de madeira e abóbadas em forma de cebola eram explicitamente proibidos) e determinavam-se proporções de 2:1 e 4:1 para largura das ruas e altura de edifícios, de modo a dar ao panorama urbano uma aparência de amplitude horizontal infinita. Por outro lado, não havia qualquer regulamento para o uso do espaço por detrás das fachadas dos edifícios, de forma que, principalmente quando a cidade cresceu, os exteriores majestosos escondiam favelas supuradas — “capas de civilização”, eis como Piotr Chadaaev definiu a Rússia, civilizada apenas no exterior.

Esse uso político da cultura não constituía novidade: príncipes, reis e imperadores, do Piemonte à Polônia, estavam recrutando a arte e a ciência como instrumentos de apoio e legitimação de seus regimes (prática que é o objeto da crítica sarcástica de Rousseau em seu Discurso Sobre as Artes e as Ciências, de 1750). A singularidade de São Petersburgo residia, primeiro, no gigantismo de suas proporções; segundo, na disparidade radical, em níveis ideológico e ambiental, entre a capital e o resto do país, uma disparidade que gerou resistência violenta e polarização duradoura; por fim, a extrema instabilidade e volatilidade de uma cultura que brotava das necessidades e temores de governantes despóticos. Durante todo o século XVIII, o padrão em Petersburgo consistiu em os inovadores serem patrocinados e incentivados pela coroa apenas para, subitamente, caírem em desgraça e serem aprisionados — como Ivan Pososhkov, primeiro economista político da Rússia, e Dmitri Golitsin, seu primeiro teórico político secular — para apodrecerem na fortaleza Pedro-Paulo, a bastilha de Petersburgo, cuja torre dominava o horizonte da cidade (e ainda hoje domina); em pensadores serem trazidos do Ocidente, festejados e adulados apenas para, em curto prazo, serem deportados; em jovens serem enviados para estudar

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na Sorbonne, em Glasgow ou na Alemanha, para, abruptamente, serem chamados de volta e proibidos de continuar a estudar; em imensos projetos intelectuais serem iniciados com grande alarde para em seguida serem bruscamente interrompidos — como a tradução e edição russa da Enciclopédia de Diderot, em andamento à época do levante camponês de Pugachev, suspensa na letra k e nunca mais retomada.

Apavorados ante as ondas revolucionárias que varreram a Europa após 1789, Catarina a Grande e seus sucessores retrocederam. Exceto no breve período de alianças entre Alexandre I e Napoleão, aliança que incentivou iniciativas liberais e constitucionais no interior da burocracia imperial, o papel político da Rússia, durante todo o século XIX, foi o de ser a vanguarda da contra-revolução européia. Mas esse papel encerrava paradoxos. Primeiro, implicou atrair os pensadores reacionários mais dinâmicos e capazes — De Maistre e todo um espectro de românticos alemães —, porém isso apenas enredou a Rússia, ainda mais profundamente, naqueles impulsos e energias ocidentais que o governo tentou estender. Segundo, o levée-en-masse contra Napoleão em 1812, embora tivesse gerado ondas de histeria, xenofobia, obscurantismo e perseguição, varreu ironicamente, devido ao próprio sucesso, toda uma geração de russos — vale dizer, uma geração de nobres e oficiais jovens — às ruas de Paris e infundiu nos veteranos que retornavam (os protagonistas de Guerra e Paz, de Tolstoi) o entusiasmo pela reforma, a mesma reforma cujo esmagamento tinha provocado sua ida ao Ocidente. De Maistre, como ilustram suas palavras citadas na introdução deste capitulo, percebeu algo desse paradoxo: por um lado, ele achava, ou queria achar, que a serena magnificência dos palácios no centro da cidade prometiam abrigo da tempestade; por outro, temia que aquilo tudo de que fugira poderia estar perseguindo-o lá, refletido e ampliado pelo vasto cenário da cidade. Tentar escapar da revolução estando ai poderia acabar sendo tão inútil quanto escapar do sol.

A primeira centelha se acendeu a 14 de dezembro de 1825, logo após a morte de Alexandre I, quando centenas de membros reformistas das guardas imperiais — os “dezembristas” — se reuniram em volta da estátua de Pedro, na praça do Senado, e fizeram uma grande e confusa manifestação a favor do grão-duque Constantino e da reforma constitucional. A manifestação, que se pretendia ser a primeira fase de um golpe de Estado liberal, esgotou-se rapidamente. Os manifestantes nunca foram capazes de estabelecer um programa unificado — para alguns, a questão crucial era uma constituição e o império da lei; para outros, o federalismo na forma de governo autônomo para a Polônia, Lituânia e Ucrânia; para outros ainda, a emancipação dos servos — e eles nada haviam feito para atrair o apoio de outros círculos que não o



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militar e aristocrático a que pertenciam. Sua humilhação e martírio — julgamentos públicos, execuções, prisões em massa e exílio na Sibéria, toda uma geração dizimada — desenrolaram-se pelos trinta anos de estupidez e brutalidade organizada do reinado do novo czar, Nicolau I. Herzen e Ogarev, então adolescentes, fizeram um “juramento anibálico” de vingar os heróis caídos e mantiveram sua chama acesa por todo o século XIX.

Os historiadores e críticos do século XX têm uma visão mais cética, enfatizando os objetivos incipientes e confusos dos dezembristas, seu compromisso com a autocracia e a reforma a partir de cima, o mundo aristocrático e hermeticamente fechado partilhado com o próprio governo que atacavam. Porém, se considerarmos 14 de dezembro sob a perspectiva de Petersburgo e da modernização, teremos uma nova base para a antiga reverência. Se virmos a cidade como uma expressão de modernização imposta, 14 de dezembro representa a primeira tentativa de reivindicar, no centro espacial e político da cidade, um modo alternativo de modernização a partir da base. Até então, toda definição e iniciativa em São Petersburgo emanara do governo; agora, subitamente, o povo — ao menos um segmento do povo — estava tomando para si a iniciativa, definindo, a sua maneira, o espaço público e a vida política de São Petersburgo. Até então o governo havia estabelecido as razões para as pessoas de São Petersburgo estarem aí; havia, na verdade, forçado muitos a se mudarem. Em 14 de dezembro, pela primeira vez, os petersburguenses reivindicaram o direito de aí estarem por razoes próprias. Rousseau, em uma de suas frases mais expressivas, escreveu que casas fazem um burgo, e cidadãos uma cidade.4 Catorze de dezembro de 1825 marcou a tentativa dos habitantes de algumas das casas mais ilustres de São Petersburgo de se fazerem cidadãos e de tornar seu burgo uma cidade.

Á tentativa, é claro, falhou, como estava fadado a acontecer, e passar-se-iam décadas antes que se repetisse. Enquanto isso, os petersburguenses produziram, no meio do século seguinte, uma tradição literária distinta e brilhante, obsessivamente centrada na sua cidade como símbolo de uma modernidade bizarra e desvirtuada e que lutava para se apoderar imaginativamente dessa cidade em nome da espécie peculiar de homens e mulheres modernos que produziu.

“O CAVALEIRO DE BRONZE DE PUCHKIN: O FUNCIONÁRIO E O CZAR

Essa tradição se inicia com o poema de Alexander Puchkin, “O Cavaleiro de Bronze”, escrito em 1833. Puchkin foi amigo íntimo de muitos líderes dezembristas; ele mesmo só não foi aprisionado porque


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