Marshall berman tudo que é SÓlido desmancha no ar a aventura da modernidade



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distorcida e destrutiva, como origem última da autoridade. A ruptura verdadeiramente revolucionária ocorreria, de acordo com essa dialética, se o funcionário pudesse afirmar ambos os Goliadkins, com todos os seus desejos e impulsos, como seus. Então, e apenas então, poderia ele arriscar-se a exigir reconhecimento — uma exigência moral, psicológica e política — no espaço urbano imenso, porém até aqui não reclamado, de Petersburgo. Contudo, será necessário mais uma geração para que os funcionários petersburguenses aprendam a agir.



2. A DÉCADA DE 1860 — O NOVO HOMEM NA RUA

A década de 1860 constitui um marco divisório na história da Rússia. O evento decisivo é o decreto de Alexandre II a 19 de fevereiro de 1860, libertando os servos. Contudo, política e culturalmente, pode-se dizer que a década de 1860 começou alguns anos antes, no princípio do reinado de Alexandre II, quando, após o desastre da guerra da Criméia, fez-se claro para todo o mundo que a Rússia teria de passar por transformações radicais. Os primeiros anos de Alexandre foram marcados por uma liberalização significativa da cultura, por nova abertura na discussão pública e por grande fermento de expectativas e esperanças, que resultaram no 19 de fevereiro. Entretanto, o decreto de emancipação produziu frutos amargos. Logo se constatou que os servos continuavam aprisionados a seus senhores, que recebiam ainda menos do que lhes era anteriormente destinado, que estavam expostos a toda uma nova ordem de obrigações emanadas das comunas das vilas e que eram, na verdade, livres apenas nominalmente. Mas, além dessas e outras falhas substanciais do decreto de emancipação, um sentimento de decepção enchia o ar. Os russos haviam esperado com fervor que o decreto de emancipação levasse a Rússia a uma nova era de irmandade e regeneração social e que fizesse dela um exemplo para o mundo moderno; ao invés disso, obtiveram uma sociedade de castas apenas um pouco modificada. Todavia, a amargura que se seguiu ao fracasso dessas esperanças foi decisiva para moldar a cultura e política russas dos cinqüenta anos seguintes.

A década de 1860 notabilizou-se pela emergência de uma nova geração e de um novo estilo de intelectuais: os raznochintsy, “homens de várias origens e classes”, termo administrativo para todos os russos que não pertenciam à alta ou à baixa nobreza. Esse termo eqüivale, mais ou menos, ao Terceiro Estado francês pré-revolucionário; o fato de que os membros desse estado — que, é claro, incluía a vasta maioria dos russos — até então não tivessem figurado como atores na história dá uma medida do atraso da Rússia. Quando os raznochintsy

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realmente apareceram — filhos de sargentos, alfaiates, padres de vilas e funcionários —, irromperam em cena com agressiva estridência. Orgulhavam-se de sua vulgaridade franca, de sua falta de requinte social, de seu desprezo por tudo que fosse elegante. O retrato mais notável do “novo homem” da década de 1860 é Bazarov, o jovem estudante de medicina em Pais e Filhos, de Turguenev. Bazarov derrama injúrias cheias de deprezo contra toda a poesia, arte e moralidade, contra todas as instituições e crenças existentes; gasta seu tempo e energia estudando matemática e dissecando rãs. É em sua honra que Turguenev cunha a palavra niilismo. Na verdade, a negatividade de Bazarov e da geração de 1860 é limitada e seletiva: os “novos homens” tendem, por exemplo, a adotar uma atitude “positivista” acrítica para com os modos de pensamento e de vida supostamente racionais e científicos. Contudo, os intelectuais plebeus da década de 1860 rompem traumaticamente com o humanismo liberal culto que caracterizou os intelectuais da baixa nobreza da década de 1840. Seu rompimento talvez seja mais com o comportamento do que com as idéias: os “homens dos. anos 60” estão dispostos a agir decisivamente e contentes em fazer recair sobre si ou sobre a sociedade qualquer embaraço, dor ou problema que a ação possa impor.23

Em 1º de setembro de 1861, um cavaleiro misterioso passou a pleno galope pela Nevski, atirando panfletos para os lados e para o chão, enquanto desaparecia.. O impacto desse gesto foi sensacional, e toda a cidade logo estava discutindo a mensagem do cavaleiro, uma proclamação endereçada “À Geração mais Jovem”. A mensagem era simples e chocantemente fundamental:

Não temos necessidade qualquer de um czar, imperador, do mito de algum amo, ou da purpura que mascara a incompetência hereditária. Queremos como líder um homem simples, um homem do campo, capaz de compreender a vida das pessoas e que seja escolhido pelo povo. Não necessitamos de um imperador consagrado, mas de um líder eleito que receba salário pelos seus serviços.24

Três semanas mais tarde, em 23 de setembro, a multidão da Nevski viu algo ainda mais surpreendente, talvez a única coisa que essa rua jamais vira: uma demonstração política. Um grupo de centenas de estudantes (a “geração mais jovem”) saiu da universidade, junto ao Neva, e subiu a rua em direção à casa do reitor. Eles protestavam contra uma série de novos regulamentos administrativos que proibiria que professores e alunos mantivessem qualquer tipo de reunião e — o que era ainda mais devastador — que aboliria bolsas de estudos e estipêndios (barrando, portanto, a enxurrada de alunos pobres que tinha fluído para a universidade

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nos últimos anos). Isso, portanto, faria da educação universitária, novamente, o privilégio de casta que fora no reinado de Nicolau I. A demonstração foi espontânea, o tom alegre, e a multidão da rua empática. Eis aqui a lembrança de um participante, anos mais tarde:

Nunca se vira nada parecido. Era um lindo dia de setembro... Nas ruas, as jovens, que estavam começando a freqüentar a universidade,, se uniram ao grupo, bem como alguns jovens raznochintsy, que nos conheciam ou simplesmente apoiavam nossa causa. (...) Quando chegamos à Nevs-ki, os barbeiros franceses saíram das lojas, as faces iluminadas, e, sacudindo os braços, gritavam: “Revolução! Revolução!”25

Naquela noite, o governo — sem dúvida apavorado pelos gritos dos barbeiros — prendeu dezenas de estudantes, inclusive representantes a quem fora prometida imunidade. Isso deu origem a meses de tumulto na ilha Vassilevski, dentro e ao redor da universidade: greves de professores e alunos, dispensas temporárias e invasões policiais, expulsões em massa, tiroteios e prisões e, finalmente, o fechamento da universidade por dois anos. Após 23 de setembro, mantiveram-se os jovens militantes longe da Nevski e do centro da cidade. Quando foram expulsos da universidade, desapareceram e formaram uma rede complicada de grupos e células. Muitos foram para o campo, onde buscaram seguir o conselho de Herzen de “ir ao encontro do povo”,26 embora esse movimento não tenha crescido na década seguinte. Outros deixaram a Rússia para continuar seus estudos na Europa ocidental, principalmente na Suíça, e em geral nas faculdades de ciência e medicina. A vida na Nevski voltou ao normal: passar-se-ia mais de uma década antes da próxima demonstração. Contudo, por um breve momento, os petersburguenses sentiram o sabor de um confronto político nas ruas da cidade. Essas ruas tinham se definido irrevogavelmente como espaço político. A literatura russa da década de 1860 se esforçaria para preencher esse espaço imaginativamente.



CHERNYSHEVSKI: A RUA COMO FRONTEIRA

A primeira grande cena de confronto da década de 1860 foi imaginada e escrita na cela de uma masmorra. Em julho de 1862, o editor e critico radical Nikólai Chernyshevski foi preso sob acusações vagas de subversão e conspiração contra o Estado. Na verdade, não havia qualquer evidência contra Chernyshevski, que tomara o cuidado de limitar sua atividade ao campo da literatura e das idéias. Conseqüentemente, faz-se necessário fabricar alguma evidência. Como isso tomou tempo do governo, Chernyshevski permaneceu preso, sem julgamento, por quase dois anos, nas masmorras da fortaleza Pedro-Paulo, a mais



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antiga construção de São Petersburgo, e sua bastilha até 1917.* No final, um tribunal secreto o condenaria à prisão perpétua na Sibéria, onde serviria por vinte anos, e seria libertado somente quando sua saúde estava arruinada, sua mente perturbada e a morte próxima. Seu martírio o faria um dos santos dos anais da intelligentsia russa. Enquanto tremia de frio na solitária, esperando seu caso ser resolvido, Chernyshevski lia e escrevia febrilmente. Seu trabalho mais substancial na prisão foi um romance intitulado Que Fazer?. O livro, que apareceu em 1863 sob forma de seriado, sobreviveu apenas devido a uma série bizarra de eventos que parecem emergir diretamente de algum romance surreal de Petersburgo — sozinho, nenhum romancista o conseguiria. Primeiro, o manuscrito foi entregue às autoridades da prisão, que o enviaram a uma comissão especial de inquérito criada especialmente para esse caso. Os dois órgãos puseram-lhe tantos selos oficiais que, quando chegou ao escritório do censor, este nem se preocupou em lê-lo, pensando que já fora devidamente examinado e censurado. Em seguida, o manuscrito foi entregue ao poeta liberal Nicolai Nekrasov, amigo de Chernyshevski e co-editor da revista O Contemporâneo. Mas Nekrasov o perdeu na Nevski. Recuperou-o apenas mediante anúncio na Gazeta Policial de Petersburgo: foi-lhe entregue por um jovem funcionário do governo, que o achara na rua.

Todos, inclusive Chernyshevski, consideraram Que Fazer? um fracasso como romance: o enredo era inverossímil, os personagens sem substância — ou melhor, um esquadrão de personagens que não se distinguem uns dos outros —, o ambiente era difuso e não havia unidade de tom ou sensibilidade. Contudo, tanto Tolstoi quanto Lenin se apropriaram do título de Chernyshevski e da aura de grandeza moral que o acompanhava. Eles reconheceram que esse livro ruim marcava, por todas as suas falhas evidentes, um passo crucial no desenvolvimento do espírito russo moderno.27

A razão da fama imediata do livro e de sua força duradoura é revelada no subtítulo: “Relatos Sobre Gente Nova”. Apenas a emergência e a iniciativa de uma classe de “novas pessoas”, acreditava



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Chernyshevski, impulsionaria o ingresso da Rússia no mundo moderno. Que Fazer? é, simultaneamente, um manifesto e um manual para essa futura vanguarda. Teria sido impossível a Chernyshevski, é claro, mostrar seus homens e mulheres novos envolvidos em alguma espécie de política concreta. Ao invés disso, ele fez algo muito mais excitante: criou uma série de vidas exemplares cujas relações e encontros pessoais estavam saturados de política.

Eis aqui um típico incidente, um dia na vida de um “homem novo”:

Que espécie de homem era Lopukhov? Eis a espécie de homem que ele era. Caminhava pela rua Kameni-Ostrovski,* vestindo um uniforme (de estudante) esfarrapado (após ter dado uma aula por uma ninharia, a três quilômetros da escola). Um dignatário, que passeava, vem em sua direção e, como dignatário que é, recusa-se a dar passagem. Na época, Lopukhov tinha como lema: “Exceto mulheres, não dou passagem a ninguém primeiro”. Deram-se um encontrão. O indivíduo, fazendo meia-volta, disse: “Que há com você, seu porco? Gado!”. Ia já prosseguir, mas Lopukhov virou-se completamente para ele, agarrou-o e o estendeu cuidadosamente na sarjeta. Plantando-se sobre ele, disse: “Se fizer um movimento, empurro-o ainda mais”. Dois camponeses passaram, olharam e elogiaram. Um funcionário passou, olhou, não elogiou, mas sorriu amplamente. Carruagens passaram, mas ninguém delas olhava... Lopukhov ainda permaneceu algum tempo, depois puxou o indivíduo pela mão — levantou-o, trouxe-o para a calçada e disse: “Meu Deus, senhor, que lhe aconteceu? Espero que não tenha se machucado. Permite que o limpe?”. Um camponês passou e ajudou a limpar, dois cidadãos passaram e ajudaram a limpar, todos limparam o indivíduo e foram embora. 28

É difícil para os leitores saber como reagir diante disso. Com certeza admirarão a coragem e a audácia de Lopukhov, bem como sua força física. Um leitor de literatura russa, contudo, certamente ficará surpreso diante da total ausência de vida interior, de consciência do herói. Seria possível que nele não houvesse qualquer vestígio de medo perante a classe dominante, qualquer deferência imposta por aprendizado que entrasse em conflito com a sua indignação? Poderia ser ele tão livre de ansiedade quanto às conseqüências de seu ato? Quanto ao poder do

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dignatário de o expulsar da escola ou de o mandar para a cadeia? Ele não se preocupa um segundo sequer em saber se podia realmente levantar o homem? Chernyshevski sem dúvida diria que é precisamente isso que há de novo no “homem novo”: eles estão livres das intermináveis dúvidas e ansiedades hamletianas que tanto enfraqueceram a alma russa até então. Provavelmente esses homens novos jamais deixariam que qualquer Cavaleiro de Bronze os perseguisse: eles simplesmente o atirariam no Neva, com cavalo e tudo. Mas é exatamente essa ausência de conflito interior que priva a vitória de Lopukhov de qualquer delicadeza: ela é rápida demais, fácil demais; o confronto entre oficiais e funcionários, dominantes e dominados, termina antes de se tornar verdadeiro.

É irônico que Chernyshenski se tornasse conhecido como o mais proeminente defensor do “realismo” literário e um eterno inimigo daquilo que ele chamava de “fantasmagoria”: Lopukhov é certamente um dos heróis mais fantásticos, e essa cena, uma das mais fantasmagóricas da história da literatura russa. Os gêneros literários a que a obra se assemelha estão no pólo mais oposto ao realismo: o conto norte-americano dos exploradores de fronteira, o épico de guerra cossaco, o romance do Caçador de Cervos ou de Taras Bulba. Lopukhov é um pistoleiro do Oeste ou um selvagem das estepes — um cavalo é tudo de que precisa. As marcações cênicas indicam uma visão de Petersburgo, mas seu espírito está mais próximo de um círculo de caravanas. Ela mostra Chernyshevski como um “sonhador de Petersburgo”, empenhado nisso até o fundo do coração.

Um traço importante do mitológico mundo da fronteira é a ausência de classes: um homem enfrenta o outro, individualmente, num vazio. O sonho de uma democracia pré-civilizada de “homens naturais” é que faz poderosa e atraente a mitologia da fronteira. Contudo, quando mitologias da fronteira são transpostas para uma rua verdadeira de São Petersburgo, os resultados são particularmente bizarros. Consideremos os espectadores que formam o pano de fundo da cena de Chernyshevski: tanto os camponeses quanto.os funcionários demonstram claramente sua alegria; nem mesmo as pessoas nas carruagens se perturbam ao ver um dignatário afundado na lama. E nem mesmo o herói se encrenca; o mundo todo o apoia feliz (ou despreocupada-mente). Ora, isso teria perfeito sentido no mundo aberto e atomizado da mítica fronteira americana. Mas, para que fosse remotamente plausível em Petersburgo, os dignatários teriam de ter deixado de ser a classe dominante da cidade — na verdade, a classe dominante de toda a sociedade. Em outras palavras, a Revolução Russa teria de já ter acontecido! E, nesse caso, para que se preocupar em afundar um homem na lama? E, mesmo que houvesse um motivo — humilhar a



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antiga classe dominante — , decerto nada haveria de heróico nisso.* Portanto, se essa estranha cena fosse de alguma forma possível, seria desnecessária. É nitidamente inadequada, como literatura ou política, às emoções heróicas que visa suscitar.

Entretanto, apesar da sua incoerência e inaptidão, Chernyshevski, alcança um resultado: representa os plebeus de Petersburgo desafiando os dignatários no meio da rua, em plena luz do dia. Essa cena é muito mais subversiva do que as falsas conspirações que permitiram ao Estado destruir sua vida. Tê-la concebido e escrito mostra não só coragem moral como também poder de imaginação. A localização em São Petersburgo lhe confere uma riqueza e uma ressonância especiais. Essa cidade tencionava dramatizar para o povo russo as exigências e a aventura da modernização imposta. Que Fazer? dramatiza, pela primeira vez na história russa, o contra-sonho de civilização vindo de baixo. Chernyshevski sabia das inadequações de seu livro como drama e como sonho. Entretanto, enquanto desaparecia no vazio da Sibéria, legou aos sobreviventes o desafio notável, na literatura e na política, de completar o sonho e torná-lo mais real.

O HOMEM DO SUBTERRÂNEO NA RUA

Notas do Subterrâneo, de Dostoïevski, que apareceu em 1864, está cheio de alusões a Chernyshevski e a Que Fazer?. A mais famosa dessas alusões é a imagem do palácio de Cristal. O palácio de Cristal de Londres, construído no Hyde Park para a Exposição Internacional de 1851, e reconstruído em Sydenham Hill em 1854, foi visto de longe por Chernychevski por ocasião de sua breve visita a Londres em 1851 e aparece como uma visão mágica no sonho de Vera Pavlovna, a heroína de seu romance. Para Chernyshevski e sua vanguarda de “homens novos”, o palácio de Cristal é um símbolo de novos modos de liberdade e felicidade que os russos poderiam usufruir caso dessem o grande salto histórico para a modernidade. Para Dostoievski e seu anti-herói, o palácio de Cristal também representa a modernidade, só que simboliza tudo o que há de agourento e ameaçador na vida moderna, tudo contra o que o homem moderno deve se colocar en garde. Estudiosos que têm comentado as Notas e o motif do palácio de Cristal tendem a se

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apropriar da crítica virulenta do Homem do Subterrâneo ou, pelo menos, a tomá-la pelo valor aparente. Assim, eles desprezam Chernyshevski por sua falta de profundidade espiritual: quão estúpido e banal deve ter sido esse homem para pensar que a humanidade é racional, que as relações sociais são aperfeiçoáveis; quão bem e profundamente Dostoievski o colocou no devido lugar.29 Na verdade, Dostoievski não partilha dessa condescendência para consigo. Ele foi praticamente a única figura respeitável da Rússia a falar, antes e depois da prisão de Chernyshevski, em defesa de seu intelecto, de seu caráter e mesmo de sua espiritualidade. Embora acreditasse que Chernyshevski estava metafísica e politicamente errado, ele podia ver que seu radicalismo emergia de “uma abundância de vida”. Aqueles que zombaram de Chernyshevski “apenas conseguiram pôr a nu a profundidade de seu cinismo”, que “serve aos interesses materiais correntes, quase sempre em detrimento dos companheiros”. Dostoievski insistia em que “esses proscrites pelo menos tentam fazer alguma coisa; eles procuram uma saída; erram e, desse modo, salvam outros; porém vocês” — assim ele repreendia seus leitores conservadores — “conseguem apenas rir numa atitude melodramática de indiferença”.30

Retornaremos ao palácio de Cristal. Todavia, para que se apreenda esse símbolo da modernidade em sua totalidade e profundidade, quero primeiro abordá-lo da perspectiva de um outro cenário moderno arquetípico: a rua de Petersburgo. A partir do Projeto Nevski seremos capazes de ver a estrutura social e espiritual partilhada por Chernyshevski e Dostoievski. Há, claro, profundos conflitos morais e metafísicos entre eles. Contudo, se compararmos o Homem do Subterrâneo de Dostoievski com o Homem Novo de Chernyshevski conforme os vemos se apresentando na Nevski, descobriremos profundas afinidades na origem e nos objetivos dos mesmos.

A cena de confronto de Dostoievski, quase nunca mencionada nos vários comentários sobre as Notas, ocorre no segundo volume, geralmente negligenciado. Ela segue o paradigma clássico de Petersburgo: oficial aristocrático versus o funcionário pobre. Sua diferença radical para com a cena de Chernyshevski reside no fato de que são necessários vários anos de angústia exaustiva para o Homem do Subterrâneo desafiar a autoridade, angústia que se desdobra em oitenta páginas intensa e densamente escritas. Sua semelhança com a cena de Chernyshevski e com as iniciativas radicais e democráticas da década de 1860 reside no fato de que ela ocorre: após uma agonia introspectiva hamletiana aparentemente interminável, o Homem do Subterrâneo finalmente age, insurge-se contra o superior social e luta por seus direitos na rua. Além disso, ele luta no Projeto Nevski, que desde há uma geração, e agora ainda mais, é a coisa em Petersburgo que mais se



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assemelha a um espaço verdadeiramente político. Ao explorarmos essa cena, ficará claro quanto Chemyshevski ajudou a tornar possível o confronto do Homem do Subterrâneo. Sem Chemyshevski, seria difícil imaginar essa cena — uma cena que é, na verdade, mais realista e mais revolucionária que qualquer coisa em Que Fazer?.

A história começa tarde da noite, em “lugares completamente escuros”, longe da Nevski. Essa era uma fase da vida, explica o herói, em que “tinha pavor de ser visto, encontrado, ou mesmo reconhecido. Já trazia o subterrâneo na alma”.31 Porém, subitamente, algo acontece que dele se apossa e abala a sua solidão. Ao passar por uma taverna, ouve e presencia um tumulto. Alguns homens lutavam, e, no clímax da luta, um deles foi atirado pela janela. Esse evento toma conta da imaginação do Homem do Subterrâneo e nele suscita o desejo de participar da vida — mesmo que seja de um modo.degradante e distorcido. Ele sente inveja do homem que foi atirado pela janela — talvez ele próprio se tenha deixado atirar pela janela. Reconhece a perversidade de seu desejo, mas esse o faz sentir-se mais vivo, crucial para ele: “mais vivo” que nunca. Agora, ao invés de temer o reconhecimento, ele anseia por ele, ainda que isso implique surras e ossos quebrados. Ele entra no recinto, procura o agressor — era, é claro, um oficial, de cerca de um metro e oitenta de altura — e se aproxima do homem, disposto a causar encrenca. Porém, o oficial reage de um modo que é muito mais destruidor que qualquer ataque físico:

Eu estava parado à mesa de bilhar e, em minha ignorância, bloqueando o caminho, e ele queria passar; tomou-me pelos ombros e, sem uma palavra, sem um aviso ou explicação, moveu-me de onde estava para outro lugar e passou como se não tivesse me notado. Eu perdoaria socos, mas não poderia perdoar ele ter me movido e me ignorado completamente.

Das alturas onde o oficial se coloca, o funcionário insignificante nem é visível — ele está “lá” tanto quanto uma mesa ou cadeira. “Parecia que eu não era um igual nem para ser atirado janela afora.” Por demais embaraçado e humilhado para protestar, ele retorna às ruas anônimas. A primeira característica que marca o Homem do Subterrâneo como um “homem novo”, ou “homem dos anos 60”, é seu anseio por um choque frontal, um encontro explosivo — mesmo que venha a ser a vítima desse encontro. Os primeiros personagens de Dostoievski, tais como Devushkin, ou colegas anti-heróis, como Oblomov de Gon-charov, teriam puxado os cobertores até as orelhas e jamais deixado os quartos, temendo encontros desse tipo. O Homem do Subterrâneo é muito mais dinâmico: nós o vemos mover-se para fora de sua solidão e

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lançar-se na ação, ou, pelo menos, numa tentativa de ação; ele vibra com a possibilidade de encrenca.32 É nesse momento que aprende sua primeira lição política: é impossível para homens da classe dos funcionários causar problemas a homens da classe dos oficiais, porque esta última — a alta e baixa nobrezas que mesmo após 19 de fevereiro continuam a governar a Rússia — nem mesmo sabe que a outra classe, a multidão de proletários educados em escolas ou autodidatas de Petersburgo, existe. A tradução de Matlaw coloca muito bem o aspecto político: “eu não era um igual nem para ser atirado janela afora”. Não pode haver qualquer espécie de encontro — mesmo violento — sem um mínimo de igualdade: os oficiais precisariam reconhecer os funcionários como seres humanos que lá estão.

Na fase seguinte da história, anos mais tarde, o Homem do Subterrâneo quebra a cabeça em vão buscando modos de efetivar esse reconhecimento. Ele segue o oficial por toda parte, vem a conhecer seu nome, sua casa, seus hábitos — suborna os porteiros —, porém não se deixa ver (o oficial não o notou quando ele estava a poucos centímetros de distância, então por que o notaria agora?). Ele cria intermináveis fantasias sobre seu opressor e chega até, na esteira dessa obsessão, a transformar algumas delas em histórias e, a si, em autor (mas ninguém se interessa por fantasias de funcionários sobre oficiais, daí ele permanecer um autor não-publicado). Decide desafiar o oficial para um duelo e chega a escrever uma carta provocativa, todavia se convence de que o oficial nunca duelará com um civil de baixa casta (ele poderia ser expulso do corpo de oficiais se o fizesse), e a carta não é enviada. O que é até bom, ele conclui, porque por detrás da mensagem de ira e rancor transparece um subtexto que transpira um anseio abjeto pelo amor do inimigo. Na fantasia, ele se deixa proteger pelo algoz:

A carta foi redigida de tal modo que, se o oficial tivesse tido a menor compreensão “do sublime e do belo”, certamente teria corrido para mim, se enlaçado ao meu pescoço oferecendo-me sua amizade. E como seria bom! Viveríamos tão bem como amigos! Ele me defenderia com a imponência de s a apresentação^eu torná-lo-ia mais nobre com a minha cultura e, afinal, com minhas idéias, e muita coisa mais poderia acontecer.

Dostoievski revela essa ambivalência plebéia admiravelmente. Qualquer plebeu se reconhecerá, ou se envergonhará, ao ver a necessidade e o amor abjeto que tão freqüentemente se escondem sob nosso farisaico ódio e orgulho de classe. Essa ambivalência será dramatizada politicamente na geração seguinte, nas cartas ao czar da primeira geração de terroristas russos.33 A tempestuosa alternância de amor e ódio do Homem do Subterrâneo encontra-se a mundos de distância da serena (ou

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