Marshall berman tudo que é SÓlido desmancha no ar a aventura da modernidade



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numa linguagem áspera, bombástica e esquisita e falando exclusivamente dos assuntos mais elevados.” (II, 156-58) Essa “alma tímida freqüentadora de concertos, pertencente ao mundo de framboesa dos contrabaixos e bordões” (V, 173), é um judeu, mas também, em sua imaginação, um heleno; seu sonho mais caro é obter um posto diplomático menor na embaixada russa na Grécia, onde pudesse servir de tradutor-e intérprete entre dois mundos; mas é pessimista sobre seu futuro, pois sabe que não dispõe da árvore genealógica apropriada. Parnok ficaria feliz se o deixassem gozar seus sonhos de Petersburgo (assim como Mandelstam, ao que parece), mas Petersburgo não permitirá que o faça. Sentado em uma cadeira de dentista numa linda manhã de verão, enquanto fita através da janela que se abre para a rua Gorokhovaia, descobre, horrorizado, o que parece ser uma multidão prestes a linchar alguém na rua (IV, 163-69). Aparentemente, uma pessoa foi surpreendida roubando um relógio de outra. A turba carrega o culpado em procissão solene: prepara-se para lançá-lo no canal do Fontanka.

Podia-se dizer que essa figura (o prisioneiro) não tinha face? Não, havia uma, embora as faces na multidão não tenham significado; apenas as nucas e orelhas têm vida independente.

Assim avançavam os ombros, como um cabide estofado, o casaco de segunda mão ricamente coberto de caspa, as nucas irritadas e as orelhas caninas.

A fragmentação das pessoas através do dinamismo da rua é um tema familiar do modernismo de Petersburgo. Vimo-lo pela primeira vez em O Projeto Nevski de Gogol; aparece renovado no século XX graças a Alexander Blok, Bieli e Maiakovski, aos pintores cubistas e futuristas, e Einseinstein em Outubro, sua fábula de Petersburgo de 1927. Mandelstam adapta essa experiência visual modernista, mas lhe confere uma dimensão moral até então ausente. Enquanto Parnok observa a rua em movimento, ela está desumanizando as pessoas que aí se encontram, ou melhor, está lhes dando uma oportunidade de se de-sumanizarem a si próprias, de se despirem de suas faces e, portanto, da responsabilidade pessoal por suas ações. Faces e pessoas são submersas na “terrível ordem que as fundia numa turba”. Parnok entende que qualquer um que tente enfrentar essa multidão ou ajudar esse homem “ver-se-á também em apuros, será visto como suspeito, declarado fora-da-lei e arrastado para a praça vazia”. Não obstante, ele salta de seu poleiro acima da rua — “Parnok rodopia como um pião pela escada de caracol, deixando o estarrecido dentista diante da naja adormecida de sua broca” — e mergulha em meio à multidão. “Parnok corre, tropeçando ao longo das pedras do calçamento com os pequenos cascos

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agudos de seus sapatos de couro de boa qualidade”, procurando frenetica-mente atrair a atenção e paralisar a multidão em movimento. Mas se vê incapaz de provocar o mais leve impacto (quem sabe nem foi visto?) e, ao mesmo tempo, sente de forma muito viva a semelhança entre o condenado e ele próprio:

Se você caminhou, caro amigo, ao longo da alameda Shcherbakov, se você discutiu à toa no açougue tártaros de má qualidade, pendurou-se algum tempo nos estribos de um bonde, deu um pulo a Gatchnina para ver seu amigo Serejka, freqüentou os banhos públicos e o circo Ciniselli; você viveu um bocado, homenzinho, o bastante!

Algo ocorrera a Petersburgo; Parnok não compreende o que é, mas isso não deixa de aterrorizá-lo. “A incontável nuvem de gafanhotos humanos (sabe Deus de onde vieram) escureceu as margens do Fontanka”, para onde acorreram a ver a morte de um homem. “Petersburgo proclamou-se um Nero e estava tão repugnante como se estivesse a comer uma sopa de moscas esmagadas”. Aqui, como em Petersburgo de Bieli, a cidade magnífica transformou-se numa horda de insetos, de assasinos e vítimas. Mais uma vez, a imagética biológica de Mandelstam assume uma força política: é como se a ascensão revolucionária do povo tivesse precipitado o seu declínio moral; recém-tornados soberanos, eles correm a reeditar os capítulos mais negros da história da monarquia. O homem comum arquetípico de Petersburgo tornou-se um estranho, se não um fugitivo (“Há pessoas que por uma razão ou outra desagradam a multidões”), em sua própria cidade natal no exato momento histórico em que os homens comuns da cidade supostamente assumiram o comando.

Há ainda dois breves episódios na cena. Parnok procura desesperadamente encontrar um telefone, para alertar alguém no governo. No século XX, afinal, os meios de comunicação eletrônicos fazem a mediação entre o indivíduo e o Estado. Por fim, encontra um telefone — apenas para se ver ainda mais perdido do que antes: “telefonou de uma farmácia, ligou para a polícia, para o governo, para o Estado, que tinham desaparecido, dormiam como uma carpa”. Os meios eletrônicos podem às vezes facilitar a comunicação, mas também podem bloqueá-la com renovada eficácia: é possível ao Estado simplesmente não atender, ser mais esquivo que nunca, deixar seus súditos, como o K. de Kafka, chamando ao telefone para sempre, sem resposta. “Com o mesmo sucesso ele podia ter ligado para Proserpina ou Perséfone, que ainda não tinham telefone instalado.”

Em meio a sua busca de auxílio, Parnok tem um encontro fantástico que subitamente o mergulha — e nos mergulha — de volta às



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profundezas do passado de Petersburgo. “Na esquina da rua Voznesenski, apareceu o próprio capitão Krzizanowski com seu bigode engomado. Trajava um sobretudo militar, além de um sabre, e sussurrava despreocupadamente à dama que o acompanhava as doces futilidades da Guarda Montada.” Essa pomposa personagem saiu diretamente do mundo de Nicolau I, Gogol e Dostoievski. Sua aparição em 1917 parece inicialmente bizarra; não obstante, “Parnok correu em sua direção como se fosse seu melhor amigo e implorou-lhe que desembainhasse sua arma”. Tudo em vão: “Eu entendo a questão, retrucou friamente o capitão cambaio, mas, perdoe-me, estou com uma dama”. Ele nem aprova nem desaprova o assassinato que ocorreu ali perto; deveres mais altos o chamam. “Puxando habilmente sua companhia, fez soar as esporas e desapareceu no interior de um café.”

Quem é o capitão Krzizanowski? É o traço mais surrealista de O Selo Egípcio; na verdade, como veremos, a chave para seu problema político real. A breve descrição de Mandelstam o identifica ao mesmo tempo como um símbolo de toda a arquetipica estupidez e brutalidade da antiga classe dos oficiais e como o inimigo arquetípico do homem comum de Petersburgo. A Revolução de fevereiro de 1917 devia tê-lo eliminado, ou tê-lo pelo menos obrigado a refugiar-se nos subterrâneos. Em vez disso, ele ostenta suas qualidades tradicionais mais atrevidamente que nunca. Conforme informa a Parnok uma lavadeira: “esse cavalheiro escondeu-se por apenas três dias, e então os próprios soldados o elegeram para o comitê do regimento e agora o carregam aos ombros” (III, 162). Assim, ao que parece, a Revolução de fevereiro não se livrou da classe dominante tradicional da Rússia, mas apenas permitiu que se entrincheirasse ainda mais, dotando-a de legitimidade democrática. Não há nada aqui que possa levantar seriamente a objeção de qualquer comunista soviético; na verdade, os bolcheviques diriam que a tarefa da Revolução de outubro foi precisamente livrar-se desses tipos para sempre. (Deve ter sido esse o pensamento do censor que deixou passar a história de Mandelstam.) Mas Mandelstam é capaz de ir além. Acontece, no que parece à primeira vista outra guinada surreal, que o capitão tem planos para as roupas de Parnok: ele quer sua camisa, seu capote, seu paletó. Além disso, todos na história parecem sentir que ele tem direito a elas. No final — a história chega ao fim com ele: —

Às 9:30h da noite o capitão Krzizanowki planejava embarcar no expresso de Moscou. Tinha arrumado em sua maleta o fraque de Parnok e suas melhores camisas. O fraque, com as pontas para dentro, coube perfeitamente na mala, quase sem uma ruga. (...)



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Em Moscou, ele parou no hotel Seleto — um lugar excelente na Malaia Lubianka — onde lhe deram um quarto que antes fora uma loja; no lugar de uma janela normal existia uma adorável vitrina, aquecida pelo sol a uma temperatura implausível. (VIII, 189)

O que significam esses fatos gogolianos? Por que o oficial haveria de desejar as roupas do homem comum, e por que as levaria a Moscou? Com efeito, se situamos esse episódio no contexto da cultura e da política soviéticas, as respostas parecem surpreendentemente simples. Desde 1918, Moscou tornou-se o quartel-general de uma nova elite soviética (o hotel Seleto), protegida e às vezes conduzida por uma temida polícia secreta que opera a partir da prisão Lubianka (Malaia Lubianka) — onde seis anos depois o próprio Mandelstam seria interrogado e preso. Essa nova classe dominante alega nos anos 20 descender da fraternidade petersburguense de homens comuns e dos intelectuais raznochintsy (as roupas de Parnok), mas transpira toda a crua e complacente brutalidade da velha casta dominante dos oficiais e da polícia czarista de Petersburgo.

É porque se preocupa tão profundamente com os patéticos porém nobres homens comuns de Petersburgo que Mandelstam procura proteger sua memória dos apparatchiki de Moscou que se apropriam dela para legitimar seu próprio poder. Atente-se para esta passagem, notável por sua intensidade de sentimento, na qual Mandelstam descreve as raízes petersburguenses de Parnok. Ela principia com Parnok se lamentando de que provavelmente nunca conseguirá aquela função na Grécia, devido à sua falta de pedigree nobre (ou ao menos cristão). Neste ponto, o narrador irrompe em meio ao fluxo de consciência de Parnok para lembrá-lo e a nós de quão nobre era sua ancestralidade:

Mas — um momento! — como não há pedigree? E o capitão Goliadkin? e o Assessor do Colegiado (Evgeni em “Cavaleiro de Bronze”) a quem “O senhor Deus podia ter concedido mais cérebro e mais dinheiro”? Todas as pessoas dos degraus inferiores, os desgraçados, os insultados nos anos 40 e 50 do último século, todos aqueles resmungadores, falastrões encapotados, com luvas que tinham sido lavadas até virar frangalhos, todos aqueles que não “vivem” mas “moram” na Sadovaia e na Podiacheskaia em casas fabricadas de partes bolorentas de chocolate petrificado e murmuram para si mesmos: “Como é possível? Nem um centavo em meu nome e eu com educação universitária?”.

Parece urgente a Mandelstam clarificar a linhagem de Parnok porque os homens que andam por aí com suas roupas são precisamente aqueles que expulsaram todos os homens comuns de Petersburgo da rua Nevski no século XIX e agora estão prontos a jogá-los no Lubianka. Essa



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operação de desmascaramento constitui uma força crucial na vida de Mandelstam: “Basta apenas remover o véu do ar de Petersburgo, e seu sentido oculto aparecerá nitidamente (...) revelar-se-á algo completamente inusitado”. Essa vocação é uma fonte de orgulho, mas também de pavor: “Mas a pena que remove esse véu é como a colher de um médico, contaminada de difteria. É melhor não tocá-la” (VIII, 184). Um átimo antes de terminar a novela, Mandelstam adverte a si mesmo, profeticamente: “Destrua seu manuscrito”. Mas não consegue terminar esta nota:

Destrua seu manuscrito, mas salve tudo o que escreveu na margem, por tédio e desamparo e, de qualquer forma, num sonho. Essas criações secundárias e involuntárias de sua fantasia não se perderão no mundo, mas encontrarão seu lugar por trás de palcos musicais sombrios, como terceiros violinos no teatro Marinski, e por gratidão a seu autor principiam a executar Leonore ou Egmont de Beethoven. (187-88)

Mandelstam reafirma sua fé em que o sonho da radiação de Petersburgo assumirá vida própria, que ele criará sua própria música apaixonada — música de aberturas, de novos princípios — a partir das sombras da luz perdida e deformada da cidade.

Dois anos após O Selo Egípcio, com Stalin firmemente no poder, em Moscou, e o terror em andamento, Mandelstam retornou com sua mulher, Nadejda, a sua cidade natal, com a esperança de aí se estabelecer para sempre. Enquanto esperava a autorização da polícia para morar e trabalhar, escreveu um de seus mais pungentes poemas (221) sobre as mudanças que ele e sua cidade haviam sofrido:

LENINGRADO

Eis-me de volta à minha cidade. São estas as minhas velhas lágrimas,

minhas pequenas veias, as glândulas inchadas da infância.

Então estás de volta. Clara amplidão. Aspira

o óleo de peixe das lâmpadas ribeirinhas de Leningrado.

Abre os olhos. Conheces esse dia de dezembro,

gema de ovo com o breu terrível batido em si?

Petersburgo! Não quero morrer ainda!

tens o número de meu telefone.

Petersburgo! Guardo ainda os endereços;

posso consultar a vozes desaparecidas.



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Vivo clandestinamente e o sino,

que arranca os nervos e todo o resto, reboa em minhas têmporas.

Espero até amanhã por convidados que amo,

e faço retinir as correntes da porta.

Leningrado, dezembro de 1930

Mas os escribas do Partido na direção do sindicato dos escritores, com o controle não só dos empregos como das moradias, os fizeram sair, sob a alegação de que Mandelstam não era desejado em Leningrado, que talvez pertencesse a Moscou, ou a qualquer outra parte. Isso não impediu que Mandelstam fosse atacado em Moscou, nas páginas do Pravda, num artigo intitulado “Sombras da Velha Petersburgo”, como típico esnobe petersburguense que usava linguagem extravagante e era incapaz de reconhecer as realizações da nova ordem socialista.

“Senhor!”, escrevia Mandelstam em O Selo Egípcio. “Não me faças como Parnok! Dai-me forças para me distinguir dele. Pois eu, também, permaneci em pé nessa terrível e paciente fila que se arrasta em direção à janela amarela da repartição. (...) E eu, também, sou sustentado apenas por Petersburgo.” (V, 171) Não ficará claro de imediato ao leitor como o autor de Petersburgo deve se diferenciar de seu herói; e talvez ao próprio Mandelstam não estivesse inteiramente claro quando ele o escreveu em 1928. Mas uma distinção veio à luz cinco anos mais tarde, depois que os Mandelstam foram forçados a deixar Leningrado e voltar a Moscou. Em novembro de 1933, em meio à campanha stalinista de coletivização das terras que exigiria quatro milhões de vidas camponesas, e na iminência do Grande Expurgo que levaria à morte muitos mais, Mandelstam compôs um poema (286) sobre Stalin:

Vivemos surdos à terra sob nossos pés,

A dez passos ninguém escuta nossos discursos.

Somente ouvimos o montanhês do Kremlin,

O criminoso e assassino de camponeses.

Seus dedos são gordos como vermes,

E as palavras, decisivas como chumbo, caem de seus lábios.

Seu bigode de barata fita de soslaio

E brilha o bico de sua bota.

Cercado de uma escória de chefetes dóceis

Diverte-se com as lisonjas desses meios-homens.



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Um deles sussurra, o outro mia, choraminga um terceiro.

Ele aponta o dedo e sozinho retumba.

Forja decretos em série como ferraduras,

Uma para a virilha, outra para a fronte, a têmpora e os olhos.

Como morangos, rola na língua as execuções.

Ele gostaria de abraçá-los como grandes amigos da casa.64

Mandelstam diferiu aqui de Parnok porque não se voltou para o capitão Krzizanowski em busca de auxílio, não procurou telefonar “à polícia, ao governo, ao Estado”; sua ação consistiu simplesmente em falar a verdade sobre todos eles. Mandelstam nunca renegou seu poema (“Destrua seu manuscrito”), mas o leu em voz alta em diversas reuniões fechadas nas salas de Moscou. Um dos que o ouviram denunciou o poeta à polícia secreta. Vieram buscá-lo numa noite de maio de 1934. Quatro anos depois, após cruciantes angústias físicas e mentais, morreu em um campo transitório, perto de Vladivostok.

A vida e a morte de Mandelstam iluminam algumas das profundezas e alguns dos paradoxos da tradição moderna de Petersburgo. Pela lógica, essa tradição deveria ter morrido de morte natural depois da Revolução de outubro e a mudança do novo governo para Moscou. Porém, a traição cada vez mais sórdida dessa Revolução pelo governo, serviu, ironicamente, para dar ao velho modernismo uma nova vida e uma nova força. No Estado totalitário neomoscovita, Petersburgo se transformou na “palavra abençoada sem sentido”, num símbolo de todas as promessas humanas que a ordem soviética deixara atrás de si. Na era de Stalin, tais promessas foram espalhadas pelo Gulag e aí deixadas para perecer; mas sua ressonância mostrou-se suficientemente profunda para sobreviver a muitos assassinatos e, na verdade, sobreviver aos seus próprios assassinos.

Na Rússia de Brejnev, à medida que o Estado soviético afasta-se ainda mais dos mais tênues vestígios de marxismo internacionalista e se aproxima cada vez mais de um “nacionalismo oficial” vociférante e fanático que Nicolau I teria aprovado, as visões surreais e energias desesperadas que brotaram do solo de Petersburgo na era de Nicolau ganharam outra vez merecida fama. Essas visões e energias foram renovadas na grande efusão da literatura samizdat e, na verdade, na própria idéia do samizdat, uma literatura que nasce das fontes subterrâneas, uma cultura que é a um só tempo mais irreal e mais real que a cultura oficial propagada pelo Partido e pelo Estado. A literatura neo-petersburguense de radicalismo surreal fez sua estréia brilhante em 1959-60, com Sobre o Realismo Socialista, de Andrei Siniavski;65 ela continuou a viver na obra imensa, fantástica e iluminada de Alexander



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Zinoviev, As Colinas Bocejantes. (“Foi com base nisso que o sociólogo Ibanov produziu sua hipótese original mas não inédita sobre a derrubada do jugo tártaro-mongol. Segundo esta teoria, longe de termos destruído as hordas tártaro-mongóis e as expulsado de nosso território, ocorreu exatamente o oposto; elas nos destruíram e ficaram em nossa terra para sempre”.)66

Outra forma de samizdat veio à luz nas manifestações políticas que passaram a ocorrer em meados dos anos 60, em Moscou, Lenin-grado e Kiev, depois de sufocadas pelo Estado soviético por quarenta anos. Uma das primeiras grandes manifestações em Moscou, no Dia da Constituição, em dezembro de 1965, foi ignorada pelos transeuntes que aparentemente a tomaram por uma filmagem externa de alguma fita sobre a Revolução de outubro de 1917!67 A maioria dessas ações foi realizada por grupos deploravelmente reduzidos, e instantaneamente esmagadas pela KGB e pelas multidões vigilantes, seguindo-se selvagens represálias contra os participantes, que foram torturados, banidos para campos de trabalho forçado, isolados em instituições psiquiátricas “especiais” dirigidas pela polícia. Não obstante, tais atividades, como a “ridícula e infantil manifestação” da praça Kazan um século antes, proclamaram não apenas idéias e mensagens que a Rússia precisa urgentemente ouvir mas também modos de ação, de expressão e de comunicação que os seus contemporâneos já conheceram bem e precisam voltar a aprender. Eis aqui a oração final de Vladimir Dremliuga, um eletricista de ferrovia oriundo de Leningrado que foi detido com mais seis pessoas por se manifestar na antiga plataforma das execuções na praça Vermelha de Moscou em protesto contra a invasão soviética da Tchecoslováquia, em agosto de 1968:

Por toda a minha vida consciente, eu quis ser um cidadão, isto é, uma pessoa que calma e orgulhosamente expressa o que pensa. Durante dez minutos, fui um cidadão, no curso do ato de protesto. Minha voz, tenho certeza, soará como uma nota em falso no silêncio universal que leva o nome de “apoio unânime à política do Partido e do governo”. Estou feliz por ver provado que houve outros para expressar seu protesto comigo. Se não houvesse, eu teria entrado sozinho na praça Vermelha.68

“Durante dez minutos fui um cidadão”: é esta a nota exata do modernismo de Petersburgo, sempre auto-irônico, mas claro e forte quando é mais preciso. É a voz solitária mas persistente do homem comum que soa na imensa praça pública: “Nós ainda ajustaremos as contas!”.

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CONCLUSÃO: O PROJETO DE PETERSBURGO

Procurei traçar neste ensaio algumas das fontes e transformações da tradição de Petersburgo nos séculos XIX e XX. As tradições dessa cidade são distintamente modernas, nascendo de sua existência como um símbolo da modernidade em meio a uma sociedade atrasada; mas as tradições de Petersburgo são modernas numa forma desequilibrada e bizarra, que brota do desequilíbrio e da irrealidade do próprio plano de modernização de Pedro. Em resposta a mais de um século de brutal mas abortada modernização a partir do topo, Petersburgo engendraria e alimentaria, por todo o século XIX e entrando no século XX, uma série maravilhosa de experimentos de modernização vinda de baixo. Tais experiências foram ao mesmo tempo literárias e políticas; essa distinção faz aqui pouco sentido, numa cidade cuja existência mesma é uma declaração política, uma cidade cujos impulsos e relações políticas saturam a vida do dia-a-dia.

A originalidade e o dinamismo de Petersburgo, após o fracasso da nobreza de 14 de dezembro de 1825, brotaria da vida comum de sua legião de “homens comuns”. Esses vivem em e através de uma série de contradições e paradoxos radicais. Por um lado, eles são, como diz Nietzsche em sua projetada “história do eclipse moderno”, uma classe de “nômades do Estado (funcionários públicos etc.) sem lar”. Por outro lado, estão profundamente enraizados na cidade que os desarraigou de tudo o mais. Presos na armadilha da servidão a tirânicos superiores ou a rotinas embotadoras, voltando de suas fábricas ou de seus escritórios para quartos exíguos, escuros, frios e solitários, eles parecem encarnar tudo o que o século XIX tinha a dizer sobre alienação da natureza, de outros homens e de si mesmo. E mesmo assim, nos momentos decisivos, emergem de seus vários esconderijos subterrâneos para afirmar seu direito à cidade; buscam a solidariedade de outros solitários, para fazer a cidade de Pedro a sua cidade. Vêem-se incessantemente atormentados e paralisados pela riqueza e complexidade de suas vidas íntimas e ainda assim, para a surpresa geral, principalmente a sua própria, são capazes de ir às ruas e às avenidas para atuar num mundo público. Mostram-se estranha e dolorosamente sensíveis à cambiante estranheza do ar da cidade, onde “tudo o que é sólido desmancha no ar” e tanto a moralidade derradeira como a realidade cotidiana se rompem em pedaços.

Nesse clima, seu poder de criação está destinado a mergulhá-los em abismos de niilismo e desilusão, “o delírio da influenza de Petersburgo”. Todavia, de algum modo encontram força para empurrar a si próprios para fora das profundezas fatais de seu Neva íntimo, a fim de ver com luminosa clareza o que é real, o que é saudável, o que é certo:



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resistir ao oficial, jogar a bomba ao rio, salvar o homem da turba, lutar pelo direito à cidade, enfrentar o Estado. A imaginação e a coragem moral desses homens comuns cresce subitamente, como a agulha dourada do Almirantado que perfura a bruma de Petersburgo. No instante seguinte, tudo isso se desvaneceu, tragado pela história escura e sombria; mas seu brilho e vivacidade permanecem para eletrizar o ar gelado.

Essa viagem pelos mistérios de São Petersburgo, pelo choque e pela interação de experimentos de modernização no topo e na base, pode oferecer pistas a alguns dos mistérios da vida política e espiritual das cidades do Terceiro Mundo — Lagos, Brasília, Nova Delhi, Cidade do México — nos dias de hoje. Mas o choque e a fusão de modernidades continua mesmo nas áreas mais modernizadas do mundo atual; a influenza de Petersburgo impregna o ar de Nova Iorque, Milão, Estocolmo, Tóquio, Tel Aviv e sopra cada vez mais forte. O homem comum de Petersburgo, seus “nômades do Estado sem lar”, vêem-se em casa em toda a parte no mundo contemporâneo.69 A tradição de Petersburgo, do modo como a apresentei, pode ser particularmente valiosa para eles. Pode fornecer-lhes o passaporte-fantasma para a realidade irreal da cidade moderna. E é capaz de inspirá-los com visões de ação e interação simbólica que podem ajudá-los a agir aí como homens e como cidadãos: modos de encontro, conflito e diálogo apaixonadamente tensos por meio dos quais eles podem a um só tempo afirmar-se e encarar uns aos outros, desafiando os poderes que a todos controlam. Pode auxiliá-los a se tornarem — como o Homem do Subterrâneo de Dostoievski reivindicava (e desesperadamente ansiava) ser — ao mesmo tempo pessoal e politicamente “mais vivos”, à luz e à sombra esquiva-mente cambiantes das ruas da cidade. É esse, acima de tudo, o projeto que Petersburgo inaugurou para a vida moderna.

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