Marshall berman tudo que é SÓlido desmancha no ar a aventura da modernidade



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flácidos, e sua linguagem perde muito da força e da intensidade habituais. Ele não se identifica com nenhuma das opções políticas existentes e deseja passar depressa por essa parte. As alternativas, tal como estão definidas no ato IV, são: de um lado, um fragmentário império multinacional que vem da Idade Média, dirigido por um imperador que é simpático, mas venal e inteiramente inepto; de outro lado, desafiando-o, uma gangue de pseudo-revolucionários, atraídos apenas pelo poder e a pilhagem, e respaldados pela Igreja, que Goethe vê como a força mais voraz e mais cínica de todas. (A idéia da Igreja como vanguarda revolucionária sempre pareceu forçada a muitos leitores, porém os eventos recentes do Irã sugerem que Goethe sabia o que estava dizendo.)

Não devemos invectivar contra esse simulacro de revolução moderna esboçado por Goethe. Sua função básica é fornecer a Fausto e Mefisto um fácil instrumento racional para a barganha política que eles promovem: eles emprestam suas mentes e sua magia ao Imperador, para ajudá-lo a tornar seu próprio poder novamente sólido e eficiente. Este, em troca, lhes dará ilimitados direitos de desenvolver toda a região costeira, incluindo carta branca para explorar quaisquer trabalhadores de que necessitem e livrar-se de quaisquer nativos que encontrem no caminho. “Goethe não podia percorrer o rumo da revolução democrática”, escreve Lukács. A barganha política de Fausto mostra a visão goethiana de “um outro caminho” para o progresso: “O irrestrito e grandioso desenvolvimento de forças produtivas tornará supérfluas as revoluções políticas”.10 Assim Fausto e Mefisto ajudam o Imperador a prevalecer, Fausto ganha a sua concessão e, com grande estardalhaço, começa o trabalho do desenvolvimento.

Fausto se entrega apaixonadamente à tarefa. O ritmo é frenético — e brutal. Uma velha senhora, que reencontraremos mais adiante, posta-se ao lado do canteiro de obras e conta a história:

Eles iriam esbravejar em vão todos os dias,

Cavar e esburacar, pazada por pazada;

Onde as tochas enxameavam à noite,

Havia uma represa quando acordávamos.

Sacrifícios humanos sangravam,

Gritos de horror iriam fender a noite,

E onde as chamas se estreitam na direção do mar

Um canal iria saudar a luz. ( 11123-30)

A velha senhora sente que há algo miraculoso e mágico nisso tudo, e alguns comentadores crêem que Mefistófeles deva estar trabalhando por trás da cena, para que tamanha realização ocorra em tão pouco

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tempo. Na verdade, porém, Goethe atribui a Mefisto o papel mais secundário nesse projeto. As únicas “forças subterrâneas” em atividade aqui são as forças da moderna organização industrial. É de observar, também, que o Fausto de Goethe, ao contrário de muitos de seus sucessores, especialmente no século XX, não realiza nenhuma fascinante descoberta científica ou tecnológica: seus homens parecem usar as mesmas pás e enxadas que vinham sendo usadas há séculos. A chave do seu êxito é uma organização do trabalho visionária, intensa e sistemática. Ele exorta seus capatazes e inspetores, guiados por Mefisto, a “usar todos os meios disponíveis / Para engajar multidões e multidões de trabalhadores. / Incitem-nos com recompensas, ou sejam severos, / Paguem-nos bem, seduzam ou reprimam!” (11551-54). O ponto crucial é não desperdiçar nada nem ninguém, passar por cima de todas as fronteiras: não só a fronteira entre a terra e o mar, não apenas os limites morais tradicionais na exploração do trabalho, mas também o dualismo humano primário do dia e da noite. Todas as barreiras humanas e naturais caem diante da corrida pela produção e a construção.

Fausto festeja seu novo poder sobre as pessoas: trata-se, especificamente, para usar uma expressão de Marx, do poder sobre a força de trabalho.

Levantem-se da cama, meus servos! Todos os homens!

Deixem olhos felizes contemplar meu plano audacioso.

Apanhem suas ferramentas, agitem suas pás e cavadeiras!

O que foi planejado tem de ser imediatamente cumprido.

Ele encontrou, afinal, um objetivo que preenche o seu espírito:

O que cheguei a pensar, me apresso a cumprir;

A palavra do mestre, sozinha, contém real necessidade!...

Para concluir o maior de todos os trabalhos,

Uma só mente por milhares de mãos — e basta! (11501-10)

Mas, se ele pressiona seus trabalhadores, pressiona igualmente a si mesmo. Se os sinos da igreja o chamaram de volta à vida, tempos atrás, é o som das enxadas que o vivifica, agora. Aos poucos, à medida que o trabalho avança, vemos Fausto radiante de verdadeiro orgulho. Ele enfim atingiu a síntese de pensamento e ação, usou sua mente para transformar o mundo. Ajudou a humanidade a assumir seus direitos sobre os elementos anárquicos, “devolvendo a terra a si própria, / Estabelecendo fronteiras para as ondas. / Colocando um anel em redor do oceano” (11541-43). E é uma vitória coletiva que a humanidade poderá desfrutar, quando Fausto se for. De pé sobre uma colina artificial criada

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pelo trabalho humano, ele contempla todo esse novo mundo que ele trouxe à vida, e tudo parece bem. Ele sabe que fez pessoas sofrerem (“Sacrifícios humanos sangravam, / Gritos de horror iriam fender a noite...”). Mas está convencido de que são as pessoas comuns, a massa de trabalhadores e sofredores, que obterão o máximo benefício dessa obra gigantesca. Ele substituiu uma economia exaurida e estéril por outra nova e dinâmica, que “abrirá espaço para muitos milhões / Viverem, não com segurança, mas com liberdade para agir (tätig-frei)”. É um espaço físico e natural, que, no entanto, foi criado através da organização e da ação sociais.

Verdes são as campinas, férteis; e em alegria

Homens e rebanhos convivem nessa nova terra,

Assentados ao longo das abas da colina

Erguida pela audaz, operosa vontade das massas.

Um verdadeiro paraíso terra adentro,

Deixem agora as represas se moldarem pelas ondas bravias,

E enquanto elas se agitam, para correr com força plena,

A vontade de todos preenche os vazios e corrige o curso.

Essa é a mais alta sabedoria que eu possuo,

A melhor que a humanidade jamais conheceu;

Liberdade e vida são obtidas somente por aqueles

Que aprendem a conquistá-las de novo a cada dia.

Cercado por esse perigo, cada um se esforça,

Criança, adulto, idoso — todos têm uma vida ativa.

No meio dessa multidão eu gostaria de estar,

Caminhar no chão livre ao lado de pessoas livres! (11563-80)

Caminhando na terra, ao lado dos pioneiros do seu novo empreendimento, Fausto se sente mais à vontade do que já se sentira junto do povo simpático mas estreito de sua cidade natal. Estes, agora, são homens novos, tão modernos quanto o próprio Fausto. Emigrantes e refugiados de uma centena de vilas e vilarejos góticos — egressos da primeira parte do Fausto — eles aí chegaram à procura de ação, aventura, um ambiente no qual eles podem, como Fausto, sentir-se tätig-frei, livres para agir, livremente ativos. Eles chegaram juntos para formar um novo tipo de comunidade: uma comunidade que não se concentra na repressão da livre individualidade para manter um sistema social fechado, mas sim na livre ação construtiva, comunitária, para proteger as fontes coletivas que permitem a cada indivíduo ser tätig-frei.

Esses homens novos se sentem em casa na sua comunidade e orgulhosos dela: estão ansiosos para erguer sua vontade e espírito comunitários contra a energia do próprio mar, certos de que vencerão. Entre tais homens — homens que ele ajudou a se tornarem o que são —



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Fausto pode realizar um desejo que alimentou desde que deixara a casa paterna: pertencer a uma autêntica comunidade, trabalhar com e para pessoas, usar sua mente-em-ação em nome da vontade e do bem-estar comuns. Assim, o processo de desenvolvimento econômico e social gera novos modos de autodesenvolvimento, situação ideal para homens e mulheres que podem crescer nesse emergente mundo novo. Finalmente, também, o processo fornece um lar para o próprio fomentador.

Assim, Goethe encara a modernização do mundo material como uma sublime realização espiritual; Fausto, em sua atividade como “o Fomentador” que põe o mundo em seu passo certo, é um herói moderno arquetípico. Todavia, o fomentador, como Goethe o concebe, é não apenas heróico, mas trágico. Para compreender a tragédia do fomentador, é preciso julgar sua visão de mundo, não só pelo que ela revela — pelos imensos novos horizontes que abre para a espécie humana —, mas também pelo que ela esconde: pelas realidades humanas que se recusa a ver, pelas potencialidades que não é capaz de enfrentar. Fausto vislumbra, e luta para criar, um mundo onde crescimento pessoal e progresso social possam ser atingidos com um mínimo de sacrifícios humanos. Ironicamente, sua tragédia decorre exatamente de seu desejo de eliminar a tragédia da vida.

À medida que Fausto supervisiona seu trabalho, toda a região em seu redor se renova e toda uma nova sociedade é criada à sua imagem. Apenas uma pequena porção de terra da costa permanece como era antes. Esta é ocupada por Filemo e Báucia, um velho e simpático casal que aí está há tempo sem conta. Eles têm um pequeno chalé sobre as dunas, uma capela com um pequeno sino, um jardim repleto de tílias e oferecem ajuda e hospitalidade a marinheiros náufragos e sonhadores. Com o passar dos anos, tornaram-se bem-amados como a única fonte de vida e alegria nessa terra desolada. Goethe toma de empréstimo seus nomes e situação das Metamorfoses de Ovídio, em que eles são os únicos a dar hospitalidade a Júpiter e Mercúrio, disfarçados, e em recompensa somente eles são salvos quando os deuses inundam e destroem a terra inteira. Goethe lhes confere mais individualidade do que eles têm em Ovídio, e atribui-lhes virtudes nitidamente cristãs: generosidade inocente, humildade, resignação. E investe neles, também, um pathos nitidamente moderno. Eles representam a primeira encarnação literária de uma categoria de pessoas de larga repercussão na história moderna: pessoas que estão no caminho — no caminho da história, do progresso, do desenvolvimento; pessoas que são classificadas, e descartadas, como obsoletas.

Fausto se torna obcecado com o velho casal e sua pequena porção de terra: “Esse casal de velhos devia ter-se afastado, / Eu quero tílias sob meu controle, / Pois essas poucas árvores que me são negadas /

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Comprometem minha propriedade como um todo. / ... Por isso nossa alma se debruça sobre a cerca, / Para sentir em meio à plenitude, o que nos falta” (11 239-52). Eles precisam ser afastados para dar lugar àquilo que Fausto passa a ver como a culminação do seu trabalho: uma torre de observação, do alto da qual ele e os seus possam “contemplar a distância até o infinito”, soberanos sobre o novo mundo que construíram. Ele oferece a Filemo e Báucia uma importância em dinheiro ou sua transferência para outra propriedade. Mas, na sua idade, que fariam eles com dinheiro? E, depois de viver toda a sua vida aí, próximos do fim da vida aí, como poderiam começar nova vida em outra parte? Eles se recusam a mudar. “Resistência e teimosia assim / Frustram o êxito mais glorioso, / Até um ponto em que, lamentavelmente, o homem começa a se cansar de ser justo.” (11 269-72).

Nessa altura, Fausto comete de maneira consciente seu primeiro ato mau. Convoca Mefisto e seus “homens fortes” e ordena-lhes que tirem o casal de velhos do caminho. Ele não deseja vê-lo, nem quer saber dos detalhes da coisa. Só o que lhe interessa é o resultado final: quer que o terreno esteja livre na manhã seguinte, para que o novo projeto seja iniciado. Isso é um estilo de maldade caracteristicamente moderno: indireto, impessoal, mediado por complexas organizações e funções institucionais. Mefisto e sua unidade especial retornam “na calada da noite” com a boa notícia de que tudo estava resolvido. Fausto, de repente preocupado, pergunta para onde foi removido o velho casal — e vem a saber que a casa foi incendiada e eles foram mortos. Fausto se sente pasmo e ultrajado, tal como se sentira diante de Gretchen. Protesta dizendo que não ordenara violência; chama Mefisto de monstro e manda-o embora. O príncipe das trevas se vai, elegantemente, como cavalheiro que é; porém ri antes de sair. Fausto vinha fingindo não só para outros mas para si mesmo, que podia criar um novo mundo com mãos limpas; ele ainda não está preparado para aceitar a responsabilidade sobre a morte e o sofrimento humano que abrem o caminho. Primeiro, firmou contrato com o trabalho sujo do desenvolvimento; agora lava as mãos e condena o exécutante da tarefa, tão logo esta é cumprida. É como se o processo de desenvolvimento, ainda quando transforma a terra vazia num deslumbrante espaço físico e social, recriasse a terra vazia no coração do próprio fomentador. É assim que funciona a tragédia do desenvolvimento.

Contudo, existe ainda um elemento de mistério no ato mau de Fausto. Por que, enfim, ele o faz? Será que realmente precisa daquelas terras, daquelas árvores? Por que sua torre de observação é tão importante? Por que os dois velhos são tão ameaçadores? Mefisto não vê mistério algum nisso: “Aqui, também, ocorre o que sempre ocorreu: / Você ouviu falar das vinhas de Nabot” (11286-87). A intenção de Me-



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fisto, invocando o pecado do rei Acab, em Reis 1:21, é mostrar que não há nada de novo na estratégia de apropriação empregada por Fausto: o narcisístico desejo de poder, mais desenfreado nos mais poderosos, é uma história antiga como o mundo. Ele sem dúvida está certo; Fausto é cada vez mais impelido pela arrogância do poder. Todavia, resta ainda outro motivo para o assassinato, que não decorre apenas da personalidade de Fausto, mas de um movimento coletivo, impessoal, que parece ser endêmico à modernização: o movimento no sentido de criar um ambiente homogêneo, um espaço totalmente modernizado, no qual as marcas e a aparência do velho mundo tenham desaparecido sem deixar vestígio.

Apontar para essa difusa necessidade moderna, porém, é apenas ampliar o mistério. Sentimo-nos inclinados a empatizar com o ódio que Fausto nutre pelo viciado mundo gótico, fechado e repressivo, em que tudo começou — o mundo que destruiu Gretchen, e ela não foi a primeira. Mas nessa altura, quando se torna obcecado com Filemo e Báucia, ele aplica no mundo gótico um golpe mortal: Fausto criou um novo sistema social, vibrante e dinâmico, um sistema orientado na direção da livre atividade, da alta produtividade, das trocas em larga escala e do comércio cosmopolita, da abundância para todos; cultivou uma categoria de trabalhadores livres e empreendedores que amam seu novo mundo, que arriscarão suas vidas por ele, que estão prontos para erguer sua força e seu espírito comunitários contra qualquer ameaça. Fica claro, portanto, que inexiste qualquer efetivo perigo de reação. Sendo assim, por que Fausto se sente ameaçado pelo mais ínfimo vestígio do velho mundo? Goethe revela, com extraordinária penetração, os medos mais profundos do fomentador. O casal de velhos, como Gretchen, personificam o que de melhor o velho mundo pode oferecer. São demasiado velhos, demasiado teimosos, talvez demasiado estúpidos para se adaptar e mudar; no entanto, são pessoas belíssimas, o sal da terra em que vivem. É sua beleza e nobreza que deixam Fausto tão incomodado. “Meu reino é infinito diante dos olhos; pelas costas eu ouço a zombaria.” Ele sente que é aterrorizador olhar para trás, encarar o velho mundo. “Se eu tivesse me detido lá, pelo calor, suas sombras me encheriam de medo.” Se ele parasse, algo muito escuro nessas sombras o aprisionaria. “O pequeno sino toca e eu me enfureço!” (11235-55)

Os sinos da igreja, é claro, representam o som da culpa e do infortúnio, e todas as forças psíquicas e sociais que destruíram a jovem que ele amava: quem poderia condená-lo por tentar silenciar esse som para sempre? Além disso, os sinos da igreja foram também o som que o chamou de volta à vida, quando estava a ponto de morrer. Há mais de si mesmo nesses sinos e naquele mundo do que ele gostaria de pensar. O mágico poder dos sinos na manhã de Páscoa representa o poder que



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pôs Fausto em contato com sua própria infância. Sem esse vínculo vital com o passado — fonte primária de energia espontânea e prazer de viver — ele jamais chegaria a desenvolver a força interior capaz de transformar o presente e o futuro. Mas, agora que ele firmou sua plena identidade como desejo de mudança e como poder de satisfazer esse desejo, aquele vínculo com o passado o aterroriza.

Aquele sino, o doce perfume daquelas tílias,

Me envolvem como uma igreja ou uma tumba.

Para o fomentador, deixar de mover-se, permanecer nas sombras, ser envolvido pelos velhos — é o mesmo que morrer. Não obstante, para esse tipo de homem, trabalhar sob as explosivas pressões do desenvolvimento, torturado pela culpa aí implícita — a promessa de paz do sino deve soar como bem-aventurança. Exatamente porque acha os sinos tão doces, as árvores tão encantadoras, tudo tão escuro e profundo, é que Fausto é levado a se desfazer de tudo isso.

Comentadores do Fausto raramente se dão conta da ressonância humana e dramática desse episódio. De fato, ele é capital para a perspectiva histórica de Goethe. A destruição de Filemo e Báucia, por Fausto, vem a ser o clímax irônico da vida deste último. Ao matar o casal de velhos, ele pronuncia sua própria sentença de morte. Tendo eliminado todos os vestígios deles e do seu velho mundo, não lhe resta mais nada a fazer. Agora ele está pronto para dizer as palavras que selam de realização a sua vida e, por isso, o conduzem à morte: Verweile doch, du bist so schoen! (Pára, instante que passa, és tão formoso!) Por que Fausto deve morrer agora? As razões oferecidas por Goethe se referem não somente à estrutura da segunda parte do Fausto, mas a toda a estrutura da história moderna. Ironicamente, assim que esse fomentador conseguiu destruir o mundo pré-moderno, destruiu também qualquer razão para continuar no mundo. Em uma sociedade por inteiro moderna, a tragédia da modernização — incluindo seu trágico herói — chega naturalmente a um fim. Tão logo se livra de todos os obstáculos no caminho, o fomentador vê a si próprio no meio do caminho e deve ser afastado. As palavras de Fausto são mais verdadeiras do que ele supunha: os sinos de Filemo e Báucia tangem por ele, antes de mais nada. Goethe nos mostra como a categoria de pessoas obsoletas, tão importante para a modernidade, acaba por tragar aqueles que lhe dão vida e poder.

Fausto quase se apercebe de sua própria tragédia — apenas quase. Enquanto, à meia-noite, observa do balcão as ruínas que na manhã seguinte darão lugar à construção, a cena súbita e dissonante-mente se altera: do concreto realismo do canteiro de obras, Goethe nos transporta para a ambiência simbolista do mundo interior de Fausto.

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De repente, quatro mulheres espectrais, de cinza, levitam na sua direção e proclamam seus próprios nomes: elas são a Necessidade, a Pobreza, a Culpa e a Ansiedade. Todas elas são forças que o programa de desenvolvimento de Fausto havia banido do mundo exterior, mas se insinuaram de volta como espectros dentro dele. Fausto está perturbado, no entanto se mantém inflexível e expele os três primeiros espectros. Todavia, o quarto, o mais vago e profundo deles, a Ansiedade, continua a persegui-lo. Ele diz: “Ainda não consegui abrir inteiramente o meu caminho em direção à liberdade”. Quer dizer com isso que ainda é presa de feitiçaria, magia, fantasmas da noite. Ironicamente, porém, a ameaça à liberdade de Fausto decorre não da presença dessas forças sombrias, mas da ausência que ele logo tenta impor a elas. O problema é que não pode olhar de frente essas forças e conviver com elas. Ele se empenhou em criar um mundo isento de pobreza, necessidade e culpa; nem sequer se sente culpado por Filemo e Báucia — embora o episódio o entristeça. Contudo, não é capaz de banir a ansiedade da própria mente. Isso pode eventualmente tornar-se fonte de força interior, caso ele venha a enfrentar o fato. Porém, ele não é capaz de aceitar o que for que ponha sombras em seu trabalho e vida luminosos. Fausto expulsa a ansiedade de sua mente, como havia expulsado o demônio algum tempo atrás. Mas, antes de partir, ela sopra seu bafo sobre ele — e cega-o com esse bafo. Enquanto o toca, ela lhe diz que esteve cego todo esse tempo; todas as suas ações e visões cresceram fora da escuridão interior. A ansiedade que ele jamais admitiria lançou-o em profundidade muito além do seu entendimento. Ele destruiu o casal de velhos e seu pequeno mundo — o mundo de sua própria infância — para que o âmbito de sua visão e atividades pudesse ser infinito; ao fim, a infinita “Mãe Noite”, cujo poder ele se recusa a enfrentar, é tudo quanto ele vê. A súbita cegueira de Fausto, em sua última cena na terra, confere-lhe uma grandiosidade mítica e arcaica: ele aparece como um parceiro de Édipo e Lear. Mas trata-se de um herói nitidamente moderno, cujo ferimento, a cegueira, apenas o impele e aos seus operários a concluir a tarefa rapidamente:

A noite profunda agora parece cair ainda mais profundamente,

Mas ali dentro de mim resplandece uma luz brilhante;

O que cheguei a pensar me apresso a cumprir;

A palavra do mestre, sozinha, contém real necessidade! ( 11499 segs.)

E assim tudo prossegue. É nesse ponto, em meio ao ruído da construção, que ele se declara plenamente vivo; logo, pronto para morrer. Mesmo no escuro, sua visão e energia continuam pulsando; ele continua a lutar, desenvolvendo a si mesmo e ao mundo em redor, a caminho do fim irremediável.

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EPÍLOGO: UMA ERA FÁUSTICA E PSEUDO FÁUSTICA

Que tragédia é essa afinal? Qual o seu verdadeiro lugar na longa história dos tempos modernos? Se tentarmos situar o tipo particular de ambiente moderno criado por Fausto, ficaremos perplexos, ao menos de início. A analogia mais imediata parece ser com o extraordinário impulso de expansão industrial vivido pela Inglaterra a partir de 1760. Lukács faz essa conexão e afirma que o último ato do Fausto é a tragédia do “desenvolvimento capitalista” em sua primeira fase industrial.11 O problema é que, se prestarmos atenção ao texto, veremos que os motivos e objetivos de Fausto são claramente não-capitalistas. O Mefisto goethiano, com seu oportunismo, sua exaltação do egoísmo e infinita falta de escrúpulos, ajusta-se com perfeição a certo tipo de empresário capitalista; mas o Fausto goethiano está muito longe disso. Mefisto com freqüência assinala as oportunidades de fazer dinheiro, nos esquemas de desenvolvimento de Fausto; todavia Fausto, por si, é indiferente a isso. Quando ele diz que pretende “oferecer espaço vital a milhões / Não à prova de perigo, mas livre para gerir sua própria raça”, está claro que o empreendimento não é montado em seu próprio e imediato benefício, mas, antes, visando ao futuro da humanidade, a longo prazo, em benefício da alegria e liberdade de todos, que virão a usufruir disso só muito tempo depois que ele se for. Se tentarmos reduzir o projeto de Fausto a uma primária linha de ação capitalista, eliminaremos o que aí existe de mais nobre e original, mais ainda, o que o torna genuinamente trágico. Na visão de Goethe, o mais fundo horror do desenvolvimento fáustico decorre de seus objetivos mais elevados e de suas conquistas mais autênticas.

Se desejarmos situar os desígnios e visões de Fausto no tempo da velhice de Goethe, deveremos voltar a atenção não para a realidade econômica e social, mas para seus sonhos radicais e utópicos; e, mais ainda, não para o capitalismo desse tempo, mas para o seu socialismo. No fim da década de 1820, quando as últimas páginas do Fausto estavam sendo compostas, uma das leituras favoritas de Goethe era o jornal parisiense Le Globe, um dos órgãos de divulgação do movimento saint-simoniano em cujas páginas foi cunhada a palavra socialismo, pouco antes da morte de Goethe em 1832.12 As Conversações com Eckermann contêm uma série de referências plenas de admiração pelos jovens escritores de Le Globe, entre os quais havia muitos cientistas e engenheiros, que parecem ter apreciado Goethe tanto quanto ele os apreciava. Uma das características de Le Globe, assim como de todos os escritos saint-simonianos, era o fluxo interminável de propostas de projetos desenvolvimentistas em larga escala e a longo prazo. Tais projetos estavam muito aquém dos recursos financeiros e imaginativos dos

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