Marshall berman tudo que é SÓlido desmancha no ar a aventura da modernidade



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capitalistas do início do século passado, os quais — sobretudo na Inglaterra, cujo capitalismo era o mais dinâmico de todos — se orientavam primordialmente na direção do empresário individual, da rápida conquista de mercados, da busca de lucros imediatos. Tampouco esses capitalistas estavam interessados nos benefícios sociais que, segundo Saint-Simon, o desenvolvimento global traria: empregos estáveis e renda decente para “as classes mais numerosas e mais pobres”, abundância e bem-estar para todos, novos tipos de comunidade que conciliariam o organicismo medieval com a energia e a racionalidade modernas.

Não surpreende que os projetos saint-simonianos fossem descartados em sua quase totalidade como “utópicos”. Mas foi exatamente esse utopismo que atraiu a imaginação do velho Goethe. Ei-lo em 1827 entusiasmado com o projeto de um canal do Panamá e deslumbrado com a perspectiva de um glorioso futuro de progresso para a América. “Eu ficaria chocado se os Estados Unidos deixassem escapar de suas mãos essa magnífica oportunidade. É possível antever que essa jovem nação, com seu decidido amor pelo Oeste, terá ocupado, em trinta ou quarenta anos, a larga extensão de terra além das Montanhas Rochosas.”

Vendo ainda mais longe, Goethe acredita “que ao longo da costa do Pacífico, onde a natureza formou os mais amplos e seguros portos, importantes cidades comerciais serão erguidas, pouco a pouco, para o incremento de um grande intercâmbio entre a China e as índias Orientais e os Estados Unidos”. Com a emergência de uma esfera de atividade transpacífica, “comunicações mais rápidas entre as costas leste e oeste da América do Norte (...) serão não apenas desejáveis, mas indispensáveis”. Um canal entre os oceanos, no Panamá ou mais ao norte, desempenhará um papel fundamental nesse desenvolvimento. “Tudo isso está reservado para o futuro e para um espírito empreendedor.” Goethe está certo de que “inúmeros benefícios resultarão para toda a raça humana”. Ele sonha: “Quem me dera viver para vê-lo! Mas eu não o verei!”. (Ele estava com 78 anos, a cinco da morte.) Goethe vislumbra então dois outros projetos de desenvolvimento, também acalentados pelos saint-simonianos: um canal entre o Danúbio e o Reno, e outro cortando o istmo de Suez. “Quem me dera viver para ver essas grandes obras! Valeria a pena durar mais 50 anos para isso!”13 Vemos Goethe aí transformando os projetos e programas saint-simonianos em visão poética, a visão que será concretizada e dramatizada no último ato do Fausto.

Goethe sintetiza essas idéias e deposita suas esperanças naquilo que chamarei de “modelo fáustico” de desenvolvimento. Tal modelo confere prioridade absoluta aos gigantescos projetos de energia e

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transporte em escala internacional. Seu objetivo é menos os lucros imediatos que o desenvolvimento a longo prazo das forças produtivas, as quais em última instância, ele acredita, gerarão os melhores resultados para todos. Em vez de deixar empresários e trabalhadores se desperdiçarem em migalhas e atividades competitivas, o modelo propõe a integração de todos. Com isso criará uma nova síntese histórica entre poder público e poder privado, simbolizada na união de Mefistófeles, o pirata e predador privado, que executa a maior parte do trabalho sujo, e Fausto, o administrador público, que concebe e dirige o trabalho como um todo. Isso abrirá espaço, na história mundial, para o papel excitante e ambíguo do intelectual moderno — Saint-Simon chamou-o “o organizador”; eu preferi “o fomentador” — capaz de reunir recursos materiais, técnicos e espirituais, transformando-os em novas estruturas de vida social. Finalmente, o modelo fáustico criará um novo tipo de autoridade, derivado da capacidade do líder em satisfazer a persistente necessidade de desenvolvimento aventureiro, aberto ao infinito, sempre renovado, do homem moderno.

Muitos dos jovens saint-simonianos de Le Globe chegaram a se distinguir, em especial no reinado de Napoleão III, como brilhantes inovadores na esfera das finanças e na indústria. Organizaram o sistema ferroviário francês; estabeleceram o Crédit Mobilier, um banco de investimento internacional para financiar a emergente indústria mundial de energia; e realizaram um dos mais caros sonhos de Goethe, o canal de Suez. Mas seu estilo e escala visionários foram no geral ofuscados num período em que o desenvolvimento foi predominantemente privado e fragmentário, os governos permaneceram nos bastidores (quase sempre mascarando suas atividades econômicas), e a iniciativa pública, o planejamento de longo prazo e o sistemático desenvolvimento regional foram desdenhados como vestígios da iníqua era mercantilista. É só no século XX que o modelo fáustico assume a sua forma plena, emergindo de modo mais intenso no mundo capitalista, na proliferação de “autarquias públicas” e superagências concebidas para organizar imensos projetos de construção, sobretudo em transportes e energia: canais e ferrovias, pontes e rodovias, represas e sistemas de irrigação, usinas hidrelétricas, reatores nucleares, novas cidades, e a exploração do espaço interplanetário.

Na segunda metade deste século, em particular depois da Segunda Grande Guerra, essas autarquias foram responsáveis por “um equilíbrio entre poder público e privado”, que se tornou uma força decisiva no êxito e crescimento capitalistas.14 Fomentadores fáusticos tão diferentes entre si como David Lilienthal, Robert Moses, Hyman Rickover, Robert McNamara e Jean Monnet utilizaram esse equilíbrio para tornar o capitalismo contemporâneo muito mais imaginativo e



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flexível do que o capitalismo de um século atrás. Mas o desenvolvimento faustico foi igualmente uma força poderosa nas economias e Estados socialistas que emergiram a partir de 1917. Thomas Mann, escrevendo em 1932, durante o Primeiro Plano Qüinqüenal soviético, estava certo ao colocar Goethe no ponto nodal, dizendo que “a atitude burguesa — para quem tenha uma visão suficientemente larga e deseja compreender as coisas não dogmaticamente — passa por cima do comunismo”.15 Hoje, podemos encontrar visionários e autoridades no poder em todas as partes do mundo, tanto nos mais avançados Estados capitalistas e países social-democratas, quanto em dezenas de nações que, qualquer que seja a ideologia nelas reinante, vêem a si mesmas como “subdesenvolvidas” e encaram o desenvolvimento rápido, heróico, como prioridade absoluta. O peculiar ambiente que constitui o cenário do último ato do Fausto — o imenso canteiro de obras, ampliando-se em todas as direções, em constante mudança e forçando os próprios figurantes a mudar também — tornou-se o cenário da história mundial em nosso tempo. Fausto, o Fomentador, ainda apenas um marginal no mundo de Goethe, sentir-se-ia completamente em casa no nosso mundo.

Goethe apresenta um modelo de ação social em torno do qual gravitam sociedades avançadas e atrasadas, ideologias capitalistas e socialistas. Mas Goethe insiste em que se trata de uma terrível e trágica convergência, selada com o sangue das vítimas, articulada com seus ossos, que têm a mesma cor e a mesma forma em qualquer parte. O processo de desenvolvimento que os espíritos criativos do século XIX conceberam como uma grande aventura humana tornou-se, em nossa era, uma necessidade de vida ou morte para todas as nações e todos os sistemas sociais do mundo. Em conseqüência disso, autoridades fomentadoras, em toda parte, acumularam em suas próprias mãos poderes imensos, fora de controle e muito freqüentemente letais.

Nos assim chamados países subdesenvolvidos, planos sistemáticos para um rápido desenvolvimento significam em geral a sistemática repressão das massas. Isso tem assumido, quase sempre, duas formas, distintas embora não raro mescladas. A primeira forma significou espremer até a última gota a força de trabalho das massas — “os sacrifícios humanos sangram, / Gritos de desespero cortarão a noite ao meio”, como se diz no Fausto — para alimentar as forças de produção e ao mesmo tempo reduzir de maneira drástica o consumo de massa, para gerar o excedente necessário aos reinvestimentos econômicos. A segunda forma envolve atos aparentemente gratuitos de destruição — a eliminação de Filemo e Báucia, seus sinos e suas árvores, por Fausto — destinados não a gerar qualquer utilidade material, mas a assinalar o



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significado simbólico de que a nova sociedade deve destruir todas as pontes, a fim de que não haja uma volta atrás.

A primeira geração soviética, em especial durante a era stalinista, fornece bons exemplos desses dois tipos de horror. O primeiro projeto-show desenvolvimentista de Stalin, o canal do mar Branco (1931-33), sacrificou centenas de milhares de trabalhadores, número mais do que suficiente para superar qualquer projeto capitalista contemporâneo. E Filemo e Báucia podiam perfeitamente servir de modelo para os milhões de camponeses assassinados entre 1932 e 1934 porque se postavam no caminho do plano estatal de coletivização da terra que eles haviam ganho durante a Revolução, havia pouco mais de uma década.

Mas o que torna esses projetos muito mais pseudofáusticos que propriamente fáusticos e bem menos tragédia que teatro do absurdo e da crueldade é o fato doloroso — com freqüência esquecido no Ocidente — de que eles simplesmente não funcionam. O tratado Nixon-Brejnev do trigo, de 1972, devia bastar para nos lembrar que a tentativa stalinista de coletivização da terra não só matou milhões de camponeses como conduziu a agricultura russa a uma formidável derrocada de que ela nunca foi capaz de se recuperar. Quanto ao canal, Stalin empenhou-se em criar um símbolo tão visível de desenvolvimento que distorceu e amputou o projeto a ponto de retardar a realidade desse mesmo desenvolvimento. Por isso, operários e engenheiros jamais tiveram o tempo, o dinheiro e o equipamento necessários para construir um canal fundo e seguro o suficiente para o tráfego das modernas embarcações do século XX; em conseqüência, o canal nunca chegou a desempenhar um papel relevante no comércio e na indústria soviéticos. Tudo o que o canal pôde acolher, aparentemente, foram barcaças turísticas, que nos anos 30 singravam suas águas, repletas de escritores soviéticos e estrangeiros forçados a proclamar as glórias da obra. O canal foi um triunfo de publicidade; todavia, se metade do empenho despendido na campanha de relações públicas tivesse sido empregado no trabalho propriamente dito, teria havido muito menos vítimas e muito mais desenvolvimento real — e o projeto teria sido uma genuína tragédia, não uma farsa brutal em que pessoas de verdade foram mortas por pseudo-eventos.*

Deve-se notar que, no período pré-stalinista dos anos 20, ainda era possível falar nos custos humanos do progresso de uma maneira

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honesta e especulativa. As histórias de Isaac Babel, por exemplo, estão cheias de perdas trágicas. Em “Froim Grach” (rejeitada pela censura), um velho patife de estirpe falstaffiana é sumariamente morto, sem qualquer razão aparente, pelaTcheka. Quando o narrador, ele próprio membro da polícia política, protesta indignado, o carrasco replica: “Diga-me você, como um tchekista, como um revolucionário: para que serviria um homem desses na sociedade do futuro?”. Ao narrador compungido não ocorre nenhum contra-argumento, porém ele resolve lançar no papel sua visão das vidas fúteis mas saudáveis que a Revolução tinha destruído. Essa história, embora ambientada no passado recente (a Guerra Civil), é uma terrível e muito apropriada profecia do futuro, incluindo o futuro do próprio Babel.16

O que torna o caso soviético especialmente deprimente é que suas proezas pseudofáusticas exerceram enorme influência no Terceiro Mundo. Muitos grupos incrustados nas classes dominantes contemporâneas, de militares direitistas a comissários esquerdistas, têm mostrado fatal atração (mais fatal para os seus subordinados do que para eles mesmos, é evidente) por projetos e campanhas grandiosos que encarnam todo o gigantismo e a crueldade de Fausto, mas sem uma leve amostra da sua habilidade científica e técnica, sem o seu gênio organizacional e sua sensibilidade política para as reais necessidades e desejos do povo. Milhões de pessoas têm sido vitimadas por desastrosas políticas de desenvolvimento, concebidas em compasso megalomaníaco, executadas de maneira primária e insensível, que ao fim desenvolveram pouco mais do que a fortuna e o poder dos seus mandantes. Os pseudo-Faustos do Terceiro Mundo, em apenas uma geração, se tornaram hábeis manipuladores de imagens e símbolos do progresso — campanhas publicitárias pelo autodesenvolvimento se tornaram uma grande indústria mundial, espalhando-se de Teerã a Pequim —, contudo se mostraram notoriamente incapazes de gerar progresso real para compensar a devastação e a miséria reais que trouxeram. De tempos em tempos, um povo tenta destronar seus pseudofomentadores — como aquele pseudofáustico em escala mundial, o xá do Irã. Então, por um breve momento — nunca por mais de um breve momento — as pessoas talvez possam tomar o desenvolvimento em suas próprias mãos. Se forem astutas e afortunadas, poderão criar e encenar suas próprias tragédias do desenvolvimento, representando simultaneamente os papéis de Fausto e Gretchen / Filemo e Báucia. Se não tiverem muita sorte, seu breve momento de ação revolucionária levará tão-somente a novo sofrimento, que por sua vez não leva a parte alguma.

Nos países mais industrialmente avançados do mundo, o desenvolvimento seguiu de maneira mais autêntica as formas fáusticas. Aí os trágicos dilemas definidos por Goethe conservaram todo o seu emergente



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poder. Tornou-se claro — e Goethe podia tê-lo antecipado — que sob as pressões econômicas do mundo moderno o processo de desenvolvimento precisa ele próprio caminhar no sentido de um perpétuo desenvolvimento. Onde quer que o processo ocorra, todas as pessoas, coisas, instituições e ambientes que foram inovadores e de vanguarda em um dado momento histórico se tornarão a retaguarda e a obsolescência no momento seguinte. Mesmo nas partes mais altamente desenvolvidas do mundo, todos os indivíduos, grupos e comunidades enfrentam uma terrível e constante pressão no sentido de se reconstruírem, interminavelmente; se pararem para descansar, para ser o que são, serão descartados. O ponto climático no contrato entre Fausto e o diabo — se parar por um só momento e disser: “Verweile doch, du bist so schoen, será destruído — é vivido hoje, até suas conseqüências mais amargas, por milhares de indivíduos, todos os dias.

Na última geração, apesar do declínio econômico dos anos 70, o processo de desenvolvimento espalhou-se, quase sempre em ritmo frenético, pelos mais remotos, isolados e atrasados setores das sociedades mais avançadas. Transformou inúmeros pastos e campos de milho em usinas químicas, quartéis-generais de corporações, shopping centers suburbanos. Quantas laranjeiras foram preservadas no Orange County,* na Califórnia? Transformou milhares de bairros urbanos em entroncamentos de auto-estradas e estacionamentos, ou em centros de comércio mundial e Peachtree Plazas,* ou em vastidões abandonadas, esturricadas — onde ironicamente a grama volta a crescer em meio ao entulho, enquanto pequenos bandos de bravos pioneiros fixam novas fronteiras —, ou, na história bem-sucedida dos padrões urbanos dos anos 70, em armações escovadas e brilhantes, com imitação de nódoas antigas: paródias das velhas selvas. Dos abandonados milharais da Nova Inglaterra às arruinadas minas dos montes Apalaches, ao South Bronx e ao Love Canal, o desenvolvimento insaciável deixou uma espetacular devastação em sua esteira. As escavadeiras que fizeram Fausto sentir-se vivo e produziram o último som que ele ouviu, enquanto morria, transformaram-se em gigantescos removedores de terra, hoje coroados com dinamite. Até mesmo os Faustos de ontem talvez se sintam os Filemos e Báucias de hoje, enterrados sob os escombros onde viveram suas vidas, assim como as jovens e entusiasmadas Gretchens de hoje são esmagadas pela engrenagem ou cegadas pela luz.

Nas últimas duas décadas, o mito do Fausto serviu como uma espécie de prisma, nos países industrialmente mais avançados, para



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uma série de visões sobre o nosso tempo e nossas vidas. Vida Contra a Morte (1959), de Norman O. Brown, ofereceu uma penetrante crítica do ideal fáustico de desenvolvimento: “A inquietação fáustica do homem na história mostra que o ser humano não se satisfaz com a simples satisfação de seus desejos conscientes”. A esperança de Brown era de que o pensamento psicanalítico, radicalmente interpretado, pudesse “oferecer um caminho para fora do pesadelo do ‘progresso’ interminável e do interminável descontentamento fáustico, um caminho para fora da neurose humana, um caminho para fora da história”. Brown vê o Fausto de início como símbolo de ação histórica e angústia: “o homem fáustico é o homem que faz a história”. Mas, se a repressão sexual e psíquica pudesse de algum modo ser rompida — esta a esperança de Brown —, “o homem estaria pronto para viver em vez de fazer história”. Então, “a irrequieta carreira do homem fáustico chegaria a um fim, pois ele poderia encontrar a satisfação e dizer: ‘Verweile doch, du bist so schoen’”.17 Tal como Marx, depois do Dezoito Brumário de Luís Bonaparte, e o Stephen Dedalus de James Joyce, Brown vivenciou a história como um pesadelo, do qual ele almejou despertar; porém, seu pesadelo, ao contrário dos outros, não corresponde a nenhuma situação histórica específica, e sim à historicidade enquanto tal. Não obstante, iniciativas intelectuais como a de Brown ajudaram muitos de seus contemporâneos a desenvolver uma perspectiva crítica sobre seu período histórico, a confortavelmente ansiosa Era Eisenhower. Embora Brown afirmasse detestar a história, referir-se a Fausto foi um gesto histórico de grande audácia — na verdade, um ato fáustico em seu pleno direito. Como tal, não só prefigurou como nutriu as radicais iniciativas da década seguinte.

Fausto seguiu desempenhando importantes papéis simbólicos nos anos 60. Pode-se dizer que uma visão fáustica animou alguns dos movimentos radicais primários e algumas journées da década. Essa visão foi fortemente dramatizada, por exemplo, na marcha coletiva sobre o Pentágono, em 1967. Essa demonstração, imortalizada no livro Exércitos da Noite, de Norman Mailer, retratou um exorcismo simbólico, empreendido em nome de uma vasta e sincrética mescla de deuses familiares e estrangeiros, com a intenção de expelir os demônios estruturais do Pentágono. (Liberado do peso, proclamaram os exorcistas, o edifício levitaria e deslizaria ou voaria para longe.) Para os participantes desse notável evento, o Pentágono aparecia como a apoteose de uma construção fáustica enviesada, que ergueu os mais virulentos engenhos de destruição do mundo. Nossa demonstração e nosso movimento pela paz, como um todo, apareceram como uma acusação às visões e desígnios fáusticos da América. Por outro lado, essa demonstração constituiu, por si, uma espetacular construção, uma das poucas oportunidades

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que a esquerda norte-americana teve de expressar suas próprias aspirações e aptidões fáusticas. As estranhas ambivalências do evento se fizeram sentir à medida que chegávamos mais e mais perto do edifício — a sensação era de que se podia ir chegando perto eternamente, sem jamais chegar lá: era um perfeito ambiente kafkiano — e algumas das pequenas silhuetas dentro dele, emolduradas pelas janelas longínquas (janelas são ultrafáusticas, afirmou Spengler), apontavam, acenavam e até mesmo moviam seus braços para nos tocar, como se reconhecessem em nós espíritos afins, para nos tentar ou nos desejar boas-vindas. Após algum tempo, os cassetetes dos soldados e o gás lacrimogêneo esclareceram a distância entre nós; mas o esclarecimento representou um alívio, quando veio, e houve alguns momentos difíceis antes que isso acontecesse. Mailer provavelmente tinha em mente esse dia quando escreveu, no finalzinho da década: “Vivemos uma era fáustica, destinada a enfrentar Deus ou o Diabo antes que tudo isso se cumpra, e o inevitável minério da autenticidade é nossa única chave para abrir a porta”.18

Fausto ocupou um lugar igualmente importante na visão muito diferente dos anos 60 a qual chamarei de “pastoral”. Seu papel na pastoral dos anos 60 foi, literalmente, ser colocado no pasto. Seus desejos, habilidades e iniciativas tinham capacitado a humanidade para realizar grandes descobertas científicas e a produzir uma arte magnífica, a transformar o ambiente natural e humano e a criar a economia da abundância que sociedades industrialmente avançadas há pouco tinham começado a desfrutar. Agora, porém, em virtude de seu próprio sucesso, o “Homem Fáustico” tinha-se tornado historicamente obsoleto. Esse argumento foi desenvolvido pelo biologista molecular Günther Stent, em um livro intitulado O Advento da Idade de Ouro: Uma Visão do Fim do Progresso. Stent usou as perspectivas da sua própria ciência, em especial a recente descoberta dos DNA, para alegar que as conquistas da cultura moderna deixaram essa cultura saturada e exaurida, sem ter para onde ir. O moderno desenvolvimento econômico e a evolução global da sociedade atingiram, por processo similar, o fim da estrada. A História trouxe-nos até um ponto em que “o bem-estar econômico é dado como certo”, não havendo mais nada significativo que fazer:

E aqui podemos perceber uma contradição interna do progresso. O progresso depende da ação do Homem Fáustico, cuja motivação básica é a vontade de poder. Mas, tendo o progresso chegado a prover um ambiente de suficiente segurança econômica para Todos os Homens, o ethos social daí resultante trabalha contra a transmissão do desejo de poder às novas gerações e, portanto, faz abortar o desenvolvimento do Homem Fáustico.



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Por meio de um processo de seleção natural, o Homem Fáustico estava sendo gradualmente descartado do ambiente que ele mesmo criara.

A geração mais jovem, que cresceu nesse novo mundo, não sentia, é evidente, qualquer desejo de ação ou conquista, poder ou mudança; só se preocupava em dizer Verweile doch, du bist so schoen e em continuar a dizer a mesma coisa, até o fim de seus dias. Essas crianças do futuro podem, ainda hoje, ser vistas balançando-se, cantando, dançando, fazendo amor e flutuando sob o sol da Califórnia. A visão pictórica da Idade de Ouro, por Lucas Cranach, que Stent reproduziu como frontispício, “não é nada mais que a visão profética de um muito hippie Estar-na-Sua, no Golden Gate Park” (em São Francisco).

A iminente consumação da história seria “um período de êxtase geral”; arte, pensamento e ciência podem continuar existindo, mas com pouca função além de servir para passar o tempo e desfrutar a vida. “O Homem Fáustico da Idade de Ferro veria com desgosto a possibilidade de os seus influentes sucessores poderem devotar sua abundância de tempo disponível aos prazeres sensuais. (...) Mas o Homem Fáustico faria melhor se enfrentasse o fato de que esta Idade de Ouro é precisamente o fruto de todos os seus frenéticos esforços, e não adianta agora desejar que as coisas tomassem outro rumo.” Stent termina com uma nota pesarosa, quase elegíaca: “Um milênio de dedicação às artes e às ciências finalmente transformará a tragicomédia da vida em um happening.19 Porém, a nostalgia de um estilo fáustico de vida é certamente sinal de obsolescência. Stent viu o futuro, e ele aconteceu.*

É difícil reler essas pastorais dos anos 60 sem alguma tristeza nostálgica, não tanto pelos hippies de ontem como pela crença virtualmente unânime — partilhada por aqueles honrados cidadãos que no geral desprezavam os hippies — de que uma vida de estável abundância, lazer e bem-estar tinha chegado aqui para ficar. De fato, existem aí muitos pontos de continuidade entre os anos 60 e 70; todavia, a euforia econômica daqueles anos — John Brooks, em recente apanhado sobre a Wall Street dos anos 60, chamou-os “anos go-go — parece pertencer agora a um beatificado mundo estranho. Passado um tempo notavelmente curto, a alegre esperança foi banida por inteiro. A crescente crise de energia dos anos 70, com todas as suas dimensões ecológicas


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